Editorial

É com alegria e atrevimento que apresentamos Klepsidra, arrogância mesmo. Qual outro nome podemos dar à iniciativa de alguns estudantes de história de criar um revista, ainda que virtual? Com certeza a imprudência que a idade nos dá permite tal iniciativa, a responsabilidade ainda é única e simplesmente com o sonho. Nada mais. Ainda não fomos afetados, ou contaminados, pelo “rigor teórico”, pela “conceituação correta”, obviamente que não os rejeitamos, simplesmente estamos livres. A imprudência dos loucos e agora dos estudantes de história.

Graças a esta nossa natureza podemos declarar: Tudo nos interessa, não recusamos nada, salvo a imbecilidade que assola o país! Da mesma forma não temos medo de dizer que não somos especialistas em nada.

Queríamos definir a revista: De história? De cultura? De história e sociedade? De ciências humanas? Entretanto nos demos conta da bobagem a tempo. Este é o perfil da revista e oxalá o preservemos: Só há uma ciência possível, que nos perdoem os que imaginam em uma ciência claramente delimitada e compartimentada. Se existe ciência é pelo singular motivo de que existe o homem, sem ele.....Portanto a única ciência que existe é a ciência do homem, tudo o que disserem em contrário é embuste. Goldman disse “a única ciência possível é a história sociológica ou a sociologia histórica”, vamos adiante, a ciência que não é feita para o homem e pelo homem não é ciência, não é nada. Este é o nosso limite, o nosso “balizamento”. Para quem começou arrogante não custa nada sê-lo um pouco mais, por isso não espere o leitor divisões rigorosas, seções especificíssimas, já dissemos, nosso balizamento é o homem, ou ainda, a humanidade.

Contudo nossa proposta não inclui o caos ou a irresponsabilidade. A seriedade é nosso lastro, é o que nos equilibra no intuito de fazer a melhor ciência possível, e aqui esta um novo obstáculo. Fazer uma ciência inteligente, compromissada com a sociedade, séria, fiel e confiável porém agradável, acessível, que jamais seja academicista ou hermética. A ciência deve ser democratizada, esta é a base para o desenvolvimento seguro e em liberdade da humanidade, não a tecnologia, valor que o homem criou em si mesmo, mas a capacidade de se maravilhar e buscar a compreensão do mundo em que vivemos.

Assim surgem algumas novas questões, e estas mais íntimas à tarefa da história e do historiador: O que é história? Para quê serve a história? Para quem serve a história?

Em algum momento perdido na ancestralidade humana os homens decidiram que deviam guardar os fatos e contá-los às próximas gerações. Tudo era seguramente muito vago , misturando-se assim verdadeiros acontecimentos com outros tantos criados pela mente de nossos antepassados. Posteriormente achou-se que isto não bastava , devia-se registrar , de forma que a falibilidade e a corrosão da memória do homem não solapasse este legado tão caro. É claro que isto é um sonho , pouco sabemos dos motivos que levaram o homem a falar , a escrever e tampouco a preservar sua história , sabemos contudo que isto de certa forma foi útil e necessário para a sua sobrevivência, nossa certeza não vai além do campo das conjecturas.
Qual é a essência da história?

Ciência? Arte? Também aqui a complexidade se impõe, é ciência que contraria a exatidão e a certeza, é arte que não pode viver de abstração, é fato que gravado em algum lugar do tempo nos desafia na eterna tarefa da reconstrução, é a interpretação pessoal do historiador que vê nisto tudo uma lógica, uma articulação que desemboca na realidade visível. História é ainda algo que cada ser carrega em si, perceptível ou não, compreendida como tal ou não, todos sabemos e guardamos de acordo com um sistema pessoal de seleção um pouco de história, talvez memória, talvez ambas.

Podemos então nos aventurar na tarefa de solucionar o próximo dilema proposto: Para quem se deve destinar a história? Esta resposta ao contrário das anteriores é de uma simplicidade ultrajante, de uma solução tão clara que nos faz perguntar: Por que não é assim? Por que insistimos em errar?

A História é para todos, ninguém pode se apropriar de algo que construído pela vida de cada criatura que por aqui passou e se concatena no presente. Algo que foi construído pelos sucessos e pelas falhas humanas, pelas suas relações entre si e com o meio que nos abriga. Esta história que é de todos habitualmente é tomada como território de alguns, não perderia tempo para descrever os que o fazem, todos os conhecemos, alguns da academia, outros não.

Desta forma definimos que o norte de nosso trabalho além dos que já foram arrolados é também o da criação de uma ciência para todos, não basta esperar o salto cultural, o salto educacional que nunca chega temos que levantar dos bancos da universidade, não se pode viver de retórica. Não basta esperar que as pessoas cheguem à história, esta também tem que chegar às pessoas.

Desta forma declaramos nossa primeira indisposição ou melhor nosso primeiro desafio: mostrar que assim como as ciências humanas são complexas e jamais exatas é possível conciliar seriedade, disciplina e honestidade com alegria, com sabor. Aos que gostam de maniqueísmo as batatas. Nada que o homem criou é simplesmente branco ou preto.

A segunda indisposição é a da divisão, briga esta muito mais graúda. Na medida em que nossa imprudência permitir abandonaremos a divisão clássica das ciências humanas, o motivo é simples: todas nos servem por serem apenas uma, só existe uma ciência humana que é a ciência do homem, sociologia, antropologia, história, etc. são apenas nomes que estes mesmos homens criaram para garantir seus quinhões de notoriedade e seus “currais” de ciência, locais onde se dizem “especialistas” e se defendem como quem guarda uma fortaleza. Mais batatas. Só se aprende com a diferença e com a mistura, para entender o homem e sua obra na plenitude não é possível adotar áreas estanques, pessoas que não conhecem seu vizinho por serem eles “de outra ciência”, “de outra disciplina”

Não poderia terminar estas parcas linhas sem falar sobre o maior compromisso , aquele que toca a todos ,  ao menos deveria , envolvidos no projeto da revista ou não. É algo que de tão sério e tão grande torna as palavras insuficientes , nosso “coração civil” se aperta em pensá-lo , em tempos onde querer o melhor , onde lutar pelo melhor para todos é visto por olhares e narizes torcidos como se estivéssemos roubando o maior dos tesouros , o mau humor e o pessimismo que se tornou uma entidade dona de suas próprias vontades , e que então só nos restasse obedece-las . Este compromisso é o de ser útil , não apenas a si próprio mas à sociedade , é o de através do nosso trabalho e dedicação fazer deste país e deste mundo um lugar mais justo , mais claro e mais verdadeiro. Não se trata de empenhar uma luta “quixotesca”  mas de realizar o mínimo que se espera , de dar significação a cada linha escrita , a cada página lida e às horas de discussão . Nada terá valido se vivermos em um mundo onde nem o direito de viver é respeitado , onde nem ao menos a oportunidade de escolher o que ler e aprender existe pelo simples motivo que não se sabe ler , que não se permite o acesso à educação e à cultura. Isto obviamente não passa pelos rótulos ideológicos , não passa pela credulidade em mártires , não passa pela superestimação do nosso trabalho e ação , passa sim pela consciência pessoal , pela ação miúda no dia a dia , pelo papel , de como diria uma professora nossa , “de formiguinha” que cada um deve aceitar e executar. Assim exercendo o nosso papel ,  e por quê não nossa sina , de historiador , e não somente historiador mas “historiador cidadão” escrever , pesquisar , estudar , construir. “Enquanto a chama arder todo dia te ver passar”.

Boa sorte e bom trabalho e boa leitura para todos !