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O mito do "Povo Eleito" dos EUA começou a ser construído com a chegada do navio "Mayflower" à Costa Leste |
Não se faz necessário explicitar
a íntima ligação entre a mentalidade dos protestantes
dos EUA e a dos europeus. Buscaremos neste ensaio, então, localizar
na construção mítica do passado destas populações,
os fatores que podem ser considerados importantes para o ressurgimento
deste medo e desta violência.
O medo daqueles diferentes à comunidade
local descende geralmente da aflição diante de idiomas, costumes
e aparências diferentes a partir da chegada de contingentes populacionais
geralmente à procura de melhores condições de vida. |
Um momento marcante para a criação
do mito do medo do diferente na mentalidade européia cristã
é a Idade Média. Vivendo em pequenas comunidades, mas com
um sentimento de pertencer a uma totalidade européia-cristã,
os medievais assustaram-se com as inúmeras invasões e violências
"bárbaras", vikings e muçulmanas, criando então um
sentimento negativo quanto aos povos diferentes, que funciona como raiz
para muitos movimentos da atualidade.
Naquela época, as invasões
vikings causaram muita comoção por seu caráter surpreendente
e violento. |
Mouro invadindo a Sicília a cavalo. Afresco, séc XIII |
Tratou-se logo, então, de traduzir
tais ações como reflexo dos diferentes costumes e religião
daqueles "bárbaros". Por trás deste termo, escondeu-se um
medo pontual da nobreza e do clero, preocupados também com a perda
de sua legitimidade, de suas propriedades e riquezas. O preconceito, então,
foi estimulado e apropriado por uma parte da sociedade como uma forma de
defender seus interesses a partir de um medo generalizado.
A forma de defender-se destes estranhos
passou, então, rapidamente pelo questionamento da violência.
Sentindo-se agredidos, os europeus optaram por agredir também aqueles
diferentes que viviam a gerações junto, mas que também
concorriam economicamente. |
Conversão forçada de muçulmanas após a tomada de Granada, 1492. |
Imagem que ilustrava o manual "Secreta fidelium crucis" para jovens aspirantes a cruzados, seculo XIII |
Ambos os movimentos, profundamente ligados
à religião, estão também muito próximos
da nossa realidade, mas em caráter invertido.
Naquela época, era a Europa que
exportava pessoas para outras regiões, para locais onde havia riqueza
e terras. Então, os Reis e o Papado financiaram grandes guerras
para invadir tais localidades e assentar sua população que
não tinha mais onde trabalhar em suas terras natais. |
A tortura era uma prática recorrente na Inquisição |
Enquanto exércitos lutavam no Oriente,
uma outra batalha começou a ocorrer em plena Europa: a caça
aos hereges pela Igreja, ou seja, a Inquisição. O Tribunal
do Santo Ofício expandiu sua área de atuação
da Península Itálica até a Ibérica, perseguindo
e torturando aqueles que não se adaptavam aos dogmas católicos,
e muitas vezes, usando esta desculpa para confiscar seus lucrativos bens
e propriedades. |
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A violência diante do outro, está,
portanto, na maioria das vezes vinculada ao resgate (ou construção)
de um medo do passado (e em geral já superado), que se transformou
em um preconceito e que foi então trabalhado pelos interesses econômicos
para a obtenção de lucro.
Pudemos observar o surgimento do medo do
diferente na Idade Média, quando já começou a utilização
deste para a preservação da ordem vigente e ampliação
do poderio econômico. Com o passar do tempo, as noções
de "outro" e de "diferente" mudaram, assim como os preconceitos que as
cercam, mas os interesses econômicos e o pensamento conservador por
trás, continuam. |
Nos três casos, o governo tratou
de - literalmente - limpar o terreno para os interesses da elite, seja
ela industrial, comercial e/ou agrária. O trabalho de eliminar os
povos autóctones das terras, para que estas fossem introduzidas
ao capitalismo em expansão foi realizado sempre com o apoio das
Forças Armadas, o que criou "heróis nacionais" em todos os
casos.
A historiografia oficial destes países,
aquela ensinada na ampla maioria das escolas e retransmitida a partir da
mídia, criou imagens de homens empreendedores para os comandantes
de tais tropas.
Em 1844, os franceses finalmente "pacificaram"
a Argélia. Tal feito ficou a cargo do Marechal Thomas-Robert Bugeaud,
futuro Duque d'Isly. Este militar, que foi também deputado e governador
geral da Argélia, ficou conhecido pelos massacres promovidos contra
os africanos para submetê-los ao poderio francês. Mesmo assim,
sua figura é até hoje notória e bem conhecida naquele
país.
No caso dos EUA, é ainda mais explícita
a relação de heroísmo e combate ao outro. São
inúmeros os militares que ganharam título de herói
nacional e memoriais por terem vencido os bravios índios. Um deles,
bastante lembrado e homenageado, é o General George Armstrong Custer,
que foi de grande importância na Guerra Civil Americana e responsável,
posteriormente pelo extermínio das tribos Sioux e Cheyenne. Sua
dedicação a esta tarefa foi tamanha que ele morreu em serviço
(um mártir!), em 1876, ao cair em uma emboscada durante perseguição
ao cacique Sioux Búfalo Sentado.
Três anos após a morte do
General Custer em campanha, foi a vez da Argentina aplicar sua campanha
de eliminação do outro, que ficou conhecida como "Campanhas
do Deserto", nome já bastante tendencioso, chamando a ampla região
ao sul da Província de Buenos Aires, dominada pelos índios,
por Deserto.
Sob o comando do General Roca, cinco tropas
que cercavam o território indígena saíram ao mesmo
tempo com um único objetivo: eliminar os "bárbaros" daquelas
terras (ainda) improdutivas. |
Mar. Thomas-Robert Bugeaud
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Santiago Matamoros |
O último exemplar deste tipo de
herói é um santo. Santiago Matamoros (sobrenome sugestivo,
Mata / moros) foi um dos santos católicos mais importantes durante
as Cruzadas, pois criou-se um mito que, de cima de seu cavalo comandava
e motivava as tropas. Sua representação clássica na
Espanha é a de um santo cavalgando cercado de mouros, e lutando
arduamente contra todos eles.
Não tem como afirmar-se, então,
que os Estados não utilizaram o preconceito e a mitologia em torno
de um ancestral medo diante do outro para legitimar seu poder e ampliar
a força econômica de suas elites.
O século XX foi profundamente marcado
pelo uso estatal deste tipo de violência, sendo que o mais óbvio
e claro foi o empregado pelos regimes nazi-fascistas nas décadas
de 20 a 40 na Europa, no Japão e em outros lugares. |
Durante este período, os governos
de Hitler, Mussolini, etc, assumiram uma postura oficial de eliminação
física das "anormalidades" dentro de suas sociedades perfeitas.
Se o governo nazista foi o que chegou mais longe em suas atrocidades contra
judeus, ciganos, negros, homossexuais, deficientes físicos, loucos,
etc, não se pode afirmar que os outros governos de tendência
(aberta ou não) fascista deixaram de utilizar táticas explícitas
(campos de concentração) ou não (eugenia, por exemplo)
para a "limpeza de seu sangue, pátria e povo".
E o que mais assusta hoje é o ressurgimento
com enorme força deste tipo de pensamento no mundo. |
Adolf Hitler |
Se alguns anos atrás o líder
fascista austríaco Haider era uma voz que mais lembrava um anacronismo,
a chegada ao poder de Berlusconi na Itália, e as expressivas votações
dos partidos nacional-fascistas na França (Jean-Marie Le Pen), Bélgica
e Holanda fazem-nos pensar se este renascimento do fascismo é aleatório
ou não.
Se grande parte da União Européia
vêm defendendo um discurso anti-imigracionista e racista, o mesmo
acontece nos EUA. George W. Bush, presidente daquele país vem conseguindo
dia-a-dia a aprovação de novas leis que combatem os imigrantes
ilegais, os estudantes estrangeiros, as organizações políticas
e as liberdades individuais. |
Jean-Marie Le Pen, 2º candidato à presidência francesa mais votado na eleição deste ano |
Estará o mundo voltando ao fascismo?
Esta é uma pergunta que não quer calar, mas que também
ainda não sabemos responder. As políticas racistas e segregacionistas
dos países "desenvolvidos" podem apenas ser um falso sinal que logo
passará. A defesa de políticas de "tolerância zero"
no Brasil podem ser apenas fogo de palha, mas todos devemos ficar atentos
quanto a todo tipo de violência e autoritarismo contra quem quer
que seja. Já vimos este filme uma vez e não precisamos revê-lo,
seja na Europa, nos EUA, no Japão, no Brasil, na Ásia ou
na África. |
Líder fascista austríaco Joerg Haider |
Os preconceitos e os medos diante do estranho
são construções históricas, muito bem trabalhadas
por grupos sociais com interesses bem delimitados, que se preciso, estimulam
e usam da violência para conseguir seus objetivos. Resta-nos compreender
quem ou o que nos dá realmente medo, e porquê.
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Ariel Sharon e George W. Bush |