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Renato Pignatari Pereira
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Introdução
Historicamente ambíguo, o conceito
de nação muda de época para época. Inicialmente,
o conceito de nação indicava origem comum, passando posteriormente
a indicar elementos que possuem um passado comum. Posteriormente, no período
conhecido como Romantismo, a nação passou a significar principalmente
o "espírito" e/ou a "alma" de um povo.
| Sabe-se que, de acordo com os ideais franceses,
os quais tiveram grande influência em terras americanas, a nação
foi concebida como indivisível, logo, além de buscar a liberdade,
a independência também deveria almejar a unidade política.
Diversos estudos mostram a impossibilidade de, no Brasil, haver um sentimento
nacional capaz de engendrar o processo responsável pela independência.
O processo que culmina com o 7 de setembro é, em primeiro plano,
resposta à política implementada pelas cortes.
Perante a independência monárquica, a República mostrou-se impossível; não obstante, a unidade brasileira foi assegurada. O grupo político que conduziu o processo da emancipação era cônscio da fragilidade nacional e do simbolismo inerente à monarquia. Devido à inexistência da nação, fez-se necessário representá-la através de ritos e ornamentos, os quais foram utilizados em grande escala. |
D. Pedro I |
Além da cerimônia da aclamação, existente em Portugal, foram aqui acrescentadas as cerimônias de coroação e sagração. Tais cerimônias agiam, sem sombra de dúvida, no imaginário coletivo da época, indo além de quaisquer fronteiras sociais e políticas. As cerimônias representam a forma de governo que o país representa perante o resto do mundo, legitimando-as e, através do poder simbólico da igreja, tornando-as sacras. Os elementos simbólicos diretamente associados à figura imperial relacionam-se diretamente aos ideais de justiça, paz, ordem e equilíbrio. Através dessas representações buscava-se, além de dirimir as dificuldades inerentes à uma nação que não se configurava como tal, evitar o perigo republicano das colônias espanholas em constante guerra civil.
O presente trabalho, além da Introdução,
articula-se em duas partes. A primeira, A Nação Inexistente,
objetiva mostrar a inexistência de um sentimento nacional capaz de
fomentar um espírito nacional favorável à independência;
logo, diversos aspectos do processo histórico que culminou no 7
de setembro - entre eles, as causas da vinda da família real para
o Brasil, o papel da imprensa e da maçonaria na divulgação
do ideário emancipacionista, alguns aspectos da política
das cortes às vésperas da independência etc - foram
deixados de lado e não tratados com o devido relevo; não
obstante melhor desenvolvidos na parte seguinte. A segunda parte, Sagração
e Coroação: o Nascimento Simbólico da Nacionalidade,
procurou, na medida do possível, analisar os aspectos simbólicos
de tais cerimônias através de seus componenetes estruturais,
ou seja: a cor, os gestos, as personagens, as palavras etc. Tal análise
foi desenvolvida, principalmente, a partir do documento Coroação
e Sagração de S. M. I. o Sr. Dr. Pedro 1, no dia Iº
de dezembro de 1822 - Descrição dos festejos, de Mello
Morais; também foram acrescentados elementos de Coroação
de D. Pedro - Imperador do Brasil; Explicação do Desenho,
e de Coroação de D. Pedro, Imperador Constitucional e
Defensor Perpétuo do Brasil, celebrada na capela imperial a 1º
de dezembro de 1822, ambos da autoria de Debret.
1- A Nação Inexistente
| A vinda da família imperial para o Brasil e a conseguinte abertura dos portos (1808) jogou por terra o chamado "pacto colonial". O comércio da produção brasileira já não era intermediado por Portugal. Posteriormente, o Brasil passou a ser conhecido como reino unido a Portugal e Algarves. O regente e a Corte, instalados no Rio de Janeiro, objetivavam administrar todo o Império, inclusive as possessões em África e Ásia. |
A conturbada saída da Corte Portuguesa de Lisboa |
A administração portuguesa
no período colonial favoreceu a quase total ausência de laços
entre as diversas regiões da colônia; a própria extensão
do país muitas vezes causava embaraços comunicacionais que
impediam a formação de um sentimento nacional preso a uma
unidade territorial. Em fins do século XVIII e início do
XIX diversas lutas separatistas eclodiram na América Portuguesa,
entretanto, essas lutas sempre foram locais. Conforme dito anteriormente,
o caráter local desses movimentos explica-se pelo fato de o desejo
emancipacionista não estar ligado, de modo algum, a um inexistente
espírito nacional.
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Após o fim das guerras napoleônicas, Portugal devia sair de seu lugar secundário na política e economia européias; entretanto, D. João VI permaneceu no Brasil. Tal fato, para os portugueses de Lisboa, colocava Portugal numa posição de inferioridade dentro de seu próprio império. Desde a abertura dos portos e dos tratados comerciais assinados com a Inglaterra, a burguesia não parou de sofrer prejuízos. Em 1820, a burguesia do porto, cansada de seu papel secundário no Império Português, eclode em revolta. O rei sente-se obrigado a retornar a Portugal. |
A possível volta da família real pôs em choque brasileiros nascidos na América Portuguesa e brasileiros nascidos em Portugal. Organizaram-se dois blocos: o "partido português" - essencialmente formado por comerciantes portugueses contrários a medidas favoráveis ao Brasil - e o "partido brasileiro", claramente favorável à permanência do rei na América Portuguesa. Não obstante, esse entrave inicial de modo algum traduzia-se em um sentimento de independência, tanto brasileiros como portugueses sentiam-se pertencentes à mesma nação, ou seja, à nação portuguesa.
D. João VI finalmente retorna à
Lisboa. O príncipe herdeiro é nomeado regente e encarregado
do governo geral e da administração do Reino Unido do Brasil.
Os meses seguintes marcam a presença de correntes de opinião
contrárias ou favoráveis à política imposta
pelas cortes; à medida que favoráveis são rejeitadas,
observa-se o recrudescimento paulatino de idéias favoráveis
à independência, essas idéias estiveram, no início,
presentes na imprensa e em sociedades secretas. Porém, o projeto
da independência nada tem a ver com um espírito nacional ou
de união; a emancipação deve aqui ser vista como resposta
à política das Cortes de Lisboa, e não como representante
de um desejo nacional. O Estado, através de um processo ideológico,
criou a pátria e a nação, legitimando-as através
do regime monárquico.
2 -Sagração e Coroação: o Nascimento Simbólico de uma Nacionalidade
Antes da separação, o Brasil encontrava-se sob jurisdição portuguesa; entretanto, após a independência, o aparelho administrativo português continuou a ser o instaurado em 1808. O sentimento nacional e, conseguintemente, a nação eram frágeis demais.
Apesar de a monarquia brasileira ser legítima,
isto é, o imperador pertencia a uma dinastia européia e tinha
direito à coroa portuguesa, as cerimônias monárquicas
não seguiram os costumes portugueses. Alguns rompimentos com a tradição
portuguesa foram introduzidos; além da cerimônia de aclamação,
também houve as de coroação e sagração.
Algumas hipóteses parecem explicar o fato: os símbolos e
emblemas objetivam afirmar um estado novo que, cercado por repúblicas,
precisava mostrar-se legítimo em frente às outras nações.
Como não existia nação, o estado precisou criá-la
por meio de ritos e emblemas.
| Não obstante, tratando-se de uma
monarquia constitucional na qual o caráter divino da aclamação
foi abolido, parece controverso o uso das cerimônias de coroação
e sagração. A aclamação objetivava fundar a
legitimidade do poder imperial sobre a soberania popular; entretanto, o
novo império - fracamente nacional - requeria outras cerimônias
que o afirmassem capaz de representar a nação. As cerimônias
de coroação e sagração não são
contrárias, de modo algum, à aclamação. Na
verdade, ambas são complementares, cabendo à coroação
e à sagração conferir maior autenticidade e autoridade
ao império e ao imperador.
Os motivos de ordem dinástica também
devem ser levados em consideração: o imperador era um Bragança.
A data escolhida para as cerimônias de sagração e coroação
foi a mesma da aclamação de D. João VI, primeiro monarca
da dinastia de Bragança. A data relembra duas coisas, a continuidade
dinástica e o desligamento entre Portugal e Espanha, após
sessenta anos. A data também representava, através do uso
das cerimônias de sagração e coroação,
o apartamento do Brasil em relação a Portugal.
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D. João VI, Rei de Portugal e pai de D. Pedro I |
Toda a cerimônia foi fundamentada no Pontificial romano, objetivando, desse modo, que a monarquia brasileira tivesse a mesma sacralidade e legitimidade que as européias. As cerimônias funcionam, simbolicamente, como batismo do império recém-nascido. Apesar de baseadas em regras contidas no Pontificial romano, os elementos dinásticos foram continuamente invocados: a legitimidade monárquica baseava-se na monarquia, a qual representava a nação. Entretanto, não foi apenas o Pontificial romano a única fonte na qual se basearam as cerimônias, certamente, em conseqüência da participação de Jean Baptiste Debret, a sagração e a coroação também se basearam nas cerimônias de Napoleão Bonaparte.
O lugar escolhido para a cerimônia, a capela real, garante, através da Igreja, a legitimidade da sagração e da coroação. Por meio da igreja, o imperador adentra o universo mítico-sobrenatural, tornando sacralizada a transmissão do poder. Por ser considerada um espaço sagrado e propício à comunicação divina, a igreja é autoridade na legitimação dos rituais.
Dá-se uma origem mítica ao
império do Brasil, origem essa conferida pelo próprio estado.
Ao se invocar o passado ancestral (elementos dinásticos) através
do culto, a monarquia mostra-se, ao mesmo tempo, sagrada e legítima.
2.1- Aspectos Estruturais da Coroação e Sagração:
2.1.2 - As personagens e seus lugares
| Em quaisquer cerimônias, o lugar
e o papel das respectivas personagens é sobremaneira importante.
Na cerimônia de coroação e sagração as
principais personagens são o Imperador, os bispos, o corpo diplomático
e o senado.
Os papéis mais importantes foram os do imperador, dos bispos, e de alguns membros da corte. O Senado, o restante da corte e o corpo diplomático apenas ocuparam papéis secundários, cujo objetivo era testemunhar a continuidade dinástica e a legitimidade do Império recém criado. Já no cortejo que parte do paço em direção à capela observa-se o papel que cabe a cada personagem. |
D. Pedro I logo após sua coroação |
Observa-se também que as personagens da sagração e coroação já estiveram presentes no cortejo de aclamação. Os arqueiros, timboleiros, o rei de armas etc, reaparecem; não obstante, ao contrário de Portugal, no Brasil tais cargos foram nomeados apenas para a cerimônia, as funções não foram mantidas.
O Imperador localizava-se no centro do cortejo, caminhando entre a Corte, a qual segurava as insígnias imperiais e o pálio, logo atrás da Corte ia o Senado, que, ao contrário do ocorrido na cerimônia de aclamação, desempenhou papel secundário na sagração e coroação.
O príncipe, no decorrer da cerimônia, submeteu-se a um poder superior ao seu, um poder que advém de Deus, não dos homens; esse poder foi recebido através da intermediação do bispo, o qual representa Cristo. Durante o desenrolar da cerimônias, os outros, espectadores e testemunhas (família real, membros da Corte, Senado e corpo diplomático), assistiam, cada um postado em seu devido lugar. O Senado encontrava-se à direita, na fila mais próxima do centro; os ministros e personagens da corte à esquerda; logo atrás, os procuradores-gerais das províncias e as pessoas que compareceram ao cortejo. O lado direito das tribunas foi ocupado pelas damas da Corte; o esquerdo, pelas damas de altos dignitários e outros convidados. O corpo diplomático e os oficiais que serviam junto à imperatriz, cuja tribuna localizava-se de frente para o trono, ocuparam as tribunas do coro.
A disposição espacial de
tais personagens traduz-se em interessante simbologia judaico-cristã,
que atribui ao centro um simbolismo extremamente poderoso.
2.1.2 – As Palavras e os Gestos
A cerimônia começou no momento em que D. Pedro chegou à porta da capela, o ritual foi realizada em latim, de acordo com o rito estabelecido pela igreja. O objetivo das palavras e gestos era sagrar e coroar o imperador, de modo idêntico ao europeu. Dessa forma, o acontecimento adquiriu, através do poder divino, um aspecto mágico-simbólico, ganhando características de eterno.
Mesmo obedecendo ao Pontificial romano, a cerimônia incorporou, no juramento e no sermão termos concernentes ao contexto histórico do Brasil. No juramento, à soberania divina foi acrescentada a do povo; no sermão, a cerimônia ganhou conotação intensamente política, discorrendo sobre particularidades brasileiras, entre elas, a aclamação popular, as vantagens da monarquia etc. Razões de ordem externa foram intensamente utilizadas.
As palavras, complementadas pelos gestos,
funcionam como um conjunto simbólico altamente expressivo. A oralidade
apresenta, no rito, maior eficiência que o texto, perpetuando a cerimônia
simbólica.
2.1.3 - Os objetos:
As insígnias imperiais - espada,
coroa e manto - foram recebidas pelo imperador após a sagração.
A espada que cingiu o imperador representa a defesa da Igreja; a coroa,
entregue pelos bispo simboliza a glória e a santidade, o homem e
a força; o cetro simboliza a virtude e a verdade. Posteriormente,
o imperador trajou o manto.
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De acordo com estudos de simbologia, a
coroa e o cetro, objetos complementares, situam e distinguem o rei em seu
meio, identificando-o; os dois símbolos unidos representam também
a continuidade dinástica. A coroa, de ouro maciço e ramos
fechados, apresenta forma elíptica e grande proporção;
florões e escudos com as armas do Brasil alternam-se em sua base.
No ponto central da coroa encontra-se um globo celeste cortado ao meio
sobreposto por uma cruz; símbolo da totalidade, o globo significa
soberania sobre o reino (a esfera celeste é antigo símbolo
para a colônia brasileira).
O cetro, também fabricado a partir de ouro maciço, traz em seu ápice um dragão sentado sobre um pedestal quadrangular, representando a dinastia de Bragança. |
O manto é composto em claro estilo
nacional, seu bordado imitava a forma de folhas e frutos de palmeira. Além
do mais, a forma de poncho evoca influências americanas.
2.1.4 - As Cores:
Basicamente, as cores do Brasil Imperial são a verde e a amarela; isto é, cores diferentes das da dinastia de Bragança, que a azul e a branca.
Entretanto, diversas teorias buscam explicar o porquê dessas duas cores: segundo Debret, responsável pelas cores da emblemática brasileira, o verde liga o trono ao novo mundo; não obstante, a cor verde era uma das preferidas de Napoleão.
De acordo dom Varnhagem, a escolha das cores imperiais é decorrência de uma predileção de D. Pedro. Hoje em dia, os manuais escolares assinalam que as cores da bandeira brasileira referem-se às riquezas do país, tanto na fauna como na flora.
Curiosamente, mesmo não sendo as
cores verde e amarela diretamente representativas da dinastia dos Bragança,
verde é a cor do animal heráldico desta mesma dinastia. Talvez
a idéia da continuidade monárquica não esteja totalmente
fora de cogitação.
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