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A construção do nacionalismo
em São Tomé e Príncipe Renato
Pignatari Pereira
renato_pignatari@klepsidra.net Bacharel em História pela USP download - saotome.doc - 16KB |
O presente trabalho tem por objetivo
compreender as questões nacional e colonial em São Tomé, mais precisamente,
entender a falta de um sentimento nacional anterior à independência. Para
tanto, foi basicamente utilizada a bibliografia final.
| Num primeiro momento será apresentada
pequena história do arquipélago, a fim de que seja possível identificar revoltas
contra o colonialismo e aspectos que poderiam ter desenvolvido uma nacionalidade são-tomense. A história de São Tomé e Príncipe, assim
como a história de todos os países africanos, é marcada pelos maus tratos
dirigidos aos negros e mestiços. |
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Num segundo momento, aspectos dessa
história serão analisados. Não serão trabalhadas as relações entre grupos
políticos, no caso o MLSTP (Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe)
- e a questão nacional.
| O arquipélago de São Tomé e Príncipe
é formado por ilhas vulcânicas e de grande vegetação. Foi provavelmente descoberto
por João de Santarém e Pedro Escobar, os quais descobriram Tomé em 1460 e
Príncipe em 1461. Há dúvidas relativas à habitação de São Tomé e Príncipe
antes da descoberta, alguns estudiosos dizem que o arquipélago era habitado
por “angolares”. Tais figuras, que apresentavam uma atividade simples
de agricultura e pesca, serão posteriormente utilizadas para a construção
da idéia nacional. Sua imagem está ligada ao ataque de engenhos. |
A Ilha de Bom Bom, no Arquipélago de São Tomé e Príncipe |
Vários grupos humanos uniram-se para
formar a população do arquipélago: europeus (em sua maior parte degredados),
filhos de judeus e escravos originários da costa africana; São Tomé foi importantíssimo
entreposto comercial.
Vista
atual da Roça Água Izê
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No período que vai de 1470 a 1485, o
arquipélago era administrado pelo sistema das capitanias hereditárias. A
principal cultura era a de cana-de-açucar, introduzida em 1501, tendo seu
término no ano de 1822; posteriormente, foram introduzidas as culturas de
cacau e fumo e o comércio de pimenta e madeira. Indubitavelmente, a ação
colonizadora européia rapidamente ocupa as terras realizando um sistema de
latifúndio e monocultura; em São Tomé, os grandes sítios eram conhecidos
como “roças”. |
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Para o trabalho foi utilizada, em enormes
quantidades, a mão de obra escrava, a qual se rebelou diversas vezes contra
os desmandos do sistema colonial. Basicamente, a sociedade sãotomense é constituída por grandes proprietários e administradores, pequenos proprietários nativos, trabalhadores rurais e, com o fim da escravidão, serviçais contratados, a enorme maioria. |
Residência
do Administrador da Roça Água Izê
com seus funcionários em dia de pagamento à frente |
Durante o período que se iniciou em 1501 com a exploração da cana-de-açucar,
o tráfico negreiro era sobremaneira praticado, as hostilidades contra os
negros eram cada vez maiores e várias revoltas ocorreram; entretanto, devido
ao caráter localizado das mesmas, ao excesso de espontaneidade e à falta
de organização, o colonizador sempre conseguiu conter os revoltosos. Em decorrência
das grandes e violentas repressões, assim como pelo desejo de fugir da colonização
e viver a própria cultura, os escravos sempre escapavam para o interior,
para as florestas, onde se juntavam a outros escravos fugidos e revoltados.
Muitas vezes continuavam atacando as grandes fazendas, provocando incêndios
e mortes que abalavam a estrutura dos colonizadores.
Foto
atual do Centro da Capital, São Tomé
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Uma das mais conhecidas oposições, a
mais forte delas, foi realizada por Amador, o qual se autoproclamou rei de
São Tomé em julho de 1595, e seu grupo. Amador - que foi escravo de um capitão-do-mato,
e em decorrência disso conseguiu aprender alguma estratégia de guerra, organizou
de forma militar um enorme contingente de escravos e combateu os colonos,
conseguindo libertar a maior parte do território e, inclusive, a administração
colonial localizada na capital. Devido ao menor poderio bélico e à traição
de alguns membros do exército, Amador foi capturado e assassinado em janeiro
de 1596. |
Entretanto, a derrota do rei Amador não caracterizaria o fim das resistências,
as quais teriam continuidade por todos os séculos seguintes. Vale ressaltar
que o incidente do rei Amador também foi utilizado na posterior construção
de uma pretensa nacionalidade.
| No período que vai do fim do séc. XVI
ao final do séc. XVIII a economia agrícola mostra-se estagnada, porém, com
a introdução das culturas de cacau e café, que prosseguem até a independência,
a agricultura recebe nova injeção de vigor. Mais mão-de-obra é requerida,
porém, a escravidão já não se constitui como método válido e vantajoso para
os colonos. Ocorre a abolição, imediatamente seguida pela introdução do contrato
do trabalho, o qual trouxe a São Tomé enormes quantidades de negros angolanos,
cabo-verdianos e moçambicanos. |
Empregados cabo-verdeanos da Roça Boa Entrada (foto do começo do Séc. XX) |
Não obstante, os contratados continuam desgostosos com as condições
de trabalho, as quais, a bem da verdade, continuavam péssimas e só objetivavam
os lucros dos colonizadores, desconsiderando os mínimos direitos dos povos
submetidos. Vários movimentos contestatórios ocorrem, entre eles o de 1953,
que ficou posteriormente conhecido como Massacre de Batefá. Tal acontecimento,
que foi um movimento de total resistência aos trabalhos nas roças, recebeu
esse nome pois aproximadamente mil revoltosos foram mortos pelos colonizadores.
Aparentemente, esse acontecimento separa a revolta são-tomense em dois grandes
momentos, a saber: o anterior a ela, quando as revoltas eram mais espontâneas
e desorganizadas; e o posterior a ela, onde a resistência começa a ficar
mais organizada e, vista a falta de uma sociedade revolucionária, toma as
características de resistência cultural.
Igreja
de Santana
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Uma das características da colonização
é tentar dar um fim à cultura do colonizado, substituindo-a pela cultura
do colonizador. Em São Tomé, esse também foi um ponto. As danças e músicas
tradicionais eram proibidas, não obstante, com a ajuda delas, especialmente
do Congo – dança de querra que poderia incitar o povo à revolta –
e do Lundum – canções metafóricas que muitas vezes escarneciam os
colonizadores e o sistema colonial – começou a se forjar a idéia de nacionalidade
e de unidade. |
Como dito anteriormente, na falta de
uma sociedade revolucionária ou de um projeto político para a independência,
o projeto independentista foi baseado na oposição racial, sendo considerada
(criada) uma unidade a partir de tudo aquilo que não era branco. Entretanto,
tal projeto racista encobriu uma série de diferenças sociais que existiam
em São Tomé, deixando de fora todo um pluralismo social. Forjou-se um sentimento
identitário, de pertença a algo, encobrindo uma série de diferenças sociais
em nome de uma semelhança. Em 12 de julho de 1975, quando São Tomé e Príncipe
tornou-se independente de Portugal, podia-se falar em Estado São-tomense,
entretanto, a nação são-tomense continuava inexistindo.
Após a anterior exposição dos fatos e de aspectos da questão colonial, passamos
agora à análise que buscará mostrar que, mesmo em face de um passado colonial
comum, não foi possível o surgimento de um sentimento nacional são-tomense
responsável pela independência. Apesar de uma certa identidade, principalmente
racial, não se pode falar em nacionalidade.
Parafraseando o que afirma Augusto Nascimento em seu texto Identidades
e Saberes na Encruzilhada do Nacionalismo São-Tomense (op. cit.),
recusa-se ver, nas circunstâncias que cercam as revoltas do período colonial,
em qualquer reação contra as autoridades coloniais, um indício qualquer de
nacionalismo, antes, eram um sinal de revolta grupal contra um inimigo comum,
não a batalha de uma identidade comum contra um inimigo comum. Ou seja, as
revoltas do período colonial, até mesmo o levante do rei Amador, não são
revoltas que trazem algum cunho nacionalista, são revoltas contra a ordem
imposta. Antes de ser de cunho nacionalista, a independência foi marcada
pela conjuntura e pelo arrastamento da questão colonial portuguesa. Em 1974,
já bem perto do 12 de julho, apenas uma pequena minoria tinha a independência
como projeto político, mas rapidamente conseguiu apoio popular. Como dito
anteriormente, esse projeto, que criava a identidade são-tomense levando
em conta a oposição com a raça branca, acabava por encobrir uma diferença
social entre os filhos da terra e os de outra origem. Além disso,
após a independência, em vez da repartição das terras, a estrutura das roças
foi mantida, traçando desse modo a estrutura da distribuição do poder no
período pós-independência.
Entrada
da Roça Sundy, em Príncipe
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O fato de os roceiros utilizarem mão-de-obra
angolana, cabo-verdiana e moçambicana nas roças são-tomenses também é um
empecilho para a formação de um ideário nacional antes da independência.
Por meio dessa contratação, os roceiros tentavam prevenir as contestações
e as mudanças sociais nas roças, evitando a criação de uma identidade comum;
os trabalhadores também tinham as suas localizações modificadas constantemente. |
Sem dúvida, o arquipélago de São Tomé e Príncipe assemelha-se mais a uma
sociedade colonial, ou seja, uma sociedade que se arregimenta ao redor dos
valores e do poderio da metrópole, no caso Portugal. Se a semelhança fosse
com uma sociedade crioula, onde ocorre maior interação-integração entre os
diversos grupos, raciais e de outros matizes, ao redor de valores locais,
provavelmente haveria maior crescimento relativo à idéia e sentimento de
nação.
Por fim, outro aspecto que merece ser levantado é o que chamaremos aqui de
“mestiçagem”, o qual foi muito bem trabalhado por Roland Corbisier em seu
prefácio ao livro Retrato do Colonizado Precedido Pelo Retrato do Colonizador
(op. cit.), de Albert Memi. De acordo com Corbisier, o colonizado, só
existe em função do colonizador, fazendo sua imagem a oposta da dele. Entretanto,
tanto colonizador como colonizado são influenciados um pelo outro, num processo
constante de mestiçagem cultural. Ao negar totalmente a raça branca, forjando
sua identidade num projeto racista de oposição e total rejeição ao branco,
o povo são-tomense perde a oportunidade de se compreender melhor em comparação
ao outro, além de, conforme dito anteriormente, encobrir uma série de diferenças
sociais. Deixa de compreender seu caráter mestiço, o qual, infelizmente, ocorreu
por imposição. Daí claramente se justifica o projeto de oposição racial,
pois após anos de exploração, passa-se a se odiar aquele que explorou.
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Bibliografia:
1)
AGUIAR, Armindo: “Os Fundamentos
Históricos da Nação São-tomense” in V/A: A Construção da Nação
em África – Os Exemplos de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e
S. Tomé e Príncipe. Colóquio INEP / CODESRIA / UNITAR.
2)
MEMI, Albert: Retrato do Colonizado
Precedido Pelo Retrato do Colonizador. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989,
3 ed.
3)
NASCIMENTO, Augusto: “Identidades e Saberes na Encruzilhada
do Nacionalismo São-Tomense” in Revista Política Internacional: nº 24, outono
/ inverno de 2001.
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