Infanticídio, Parricídio e Joseane:
A História da Revisão de Conceitos


Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Bacharel em História pela USP
download - infanticidio.rtf - 58KB


PARTICIPE DA DISCUSSÃO SOBRE ESTE TEXTO NO
FÓRUM DA REVISTA KLEPSIDRA


 

Introdução:

    Este é meu segundo texto para Klepsidra na sessão História do Tempo Presente. Desta vez, ao contrário da primeira quando escrevi sobre o julgamento de um dos maiores criminosos do século, Sloboban Milosevic, escrevo sobre crimes que poderiam ser considerados comuns. Ocorrências do cotidiano das grandes cidades do Brasil e do mundo.

    A grande questão desse texto é justamente saber por que tais crimes que acontecem diariamente se tornaram tão dignos de notoriedade e, justamente por isso, acabaram dando origem a este texto. Mais ainda, é importante saber por que você, caro leitor, se dispôs a ler este texto sobre banalidades. O que o incitou a isso?

    Talvez aquilo que me proponha a fazer neste texto esteja além de minhas capacidades como Historiador que sou, talvez esse texto fosse mais próprio de um Psicólogo ou até de um Sociólogo, no entanto, como sempre venho fazendo nesses quase três anos de Klepsidra... Assumo a responsabilidade por minha própria conta e risco.

    Gostaria, entretanto, de ressaltar que não sou um especialista naquilo que irei escrever e que, além disso, este texto não terá (ao contrário dos textos das demais sessões de Klepsidra) uma base bibliográfica. Ao contrário, a maioria das afirmações aqui feitas e discussões aqui propostas estará embasada tão somente nas reportagens divulgadas nas imprensas escrita, televisiva e virtual. Além disso, utilizarei de meus próprios conceitos e abstrações para guiar as palavras até meu objetivo final, a tese desse texto.

    Os casos criminosos que aqui serão comparados são o assassinato do casal Richthofen, a louca tentativa de homicídio dos próprios filhos perpetrada pelo casal Alvarenga, em Campinas, interior de São Paulo, e a farsa montada pela ex-participante do Big Brother Brasil 3, a ex-Miss Brasil Joseane Oliveira.

    É interessante que se note que assassinatos ou tentativas de assassinato constituem crimes, mas o que pouca gente sabe é que o que Joseane fez, mentir publicamente à respeito de seu estado civil e obter ganhos com essa mentira também constitui. É um crime chamado Falsidade Ideológica, basicamente, mentir com intuito de obter ganhos, ou ainda de se safar de problemas.


1 – A Nossa Sociedade:
   
    Muitos acreditam que a História seja cíclica, ou seja, que, de tempos em tempos, os acontecimentos passados tornem a acontecer sob uma nova roupagem, uma que seja adequada aos tempos em que ressurge. Essa teoria, no entanto, não é considera séria pela historiografia Contemporânea.

    Para outros, a História caminha de forma evolutiva, ou seja, nunca um povo, uma cultura ou mesmo o mundo involui. De acordo com essa teoria estaríamos sempre caminhando rumo a novas descobertas, a mudanças positivas de comportamento e a uma sociedade quiçá perfeita. Essa tese é bem mais simples de ser aceita, visto que sempre tendemos a nos considerar superiores àquilo que já passou. Para muitos, inclusive, não há mais o que caminhar, a História já atingiu seu ponto máximo, o apogeu tecnológico do homem já é o hoje. O curioso é pensar que alguns Gregos também pensavam dessa maneira há cerca de 2500 anos.

    Por fim, existe um terceiro grupo de pessoas que pensa que as coisas acontecem de forma caótica e imprevisível, que revoluções ocorrem porque as pessoas de determinada região estão saturadas de suas lideranças e de suas condições e almejam melhorias, que guerras acontecem devido às diferentes necessidades político-econômicas das nações e que o mundo não evolui nem involui; porque cada época e lugar tem sua história que só pode ser comparada com ela própria e não com a História de outras épocas e lugares.

    Atualmente, vivemos um período de união mundial, a chamada Globalização. É verdade que, na prática a Globalização pode ser vista como uma releitura dos Imperialismos e Colonialismos passados, com os países mais ricos dominando os mais pobres e, dessa forma tirando proveito da situação de “união”, enquanto os mais pobres, explorados como são, não têm o direito e nem as condições de reclamar porque suas economias tornaram-se intrinsecamente dependentes daquelas que lhes exploram. Por esse viés, poderíamos dizer que a primeira tese, a de que a História se repete, estaria correta, visto que vivemos hoje uma situação semelhante à que viviam os países da Ásia e da África no final do século XIX, com o Neocolonialismo.

    No entanto, nossa situação não é de todo igual, visto que agora não existem metrópoles espalhadas pelo mundo (ou, como era o caso, concentradas na Europa), mas sim, blocos comerciais regionais de países que tentam se unir para escapar das garras da expansão Norte-Americana que, até outrora, era meramente comercial, mas que de quatro anos para cá (desde o escândalo que ficou conhecido mundialmente como Sex Gate, em que o então presidente Bill Clinton se viu envolvido num caso de assédio sexual) vem se tornando cada vez mais bélica do que nunca, com intervenções militares da ONU e da OTAN, chefiadas pelos EUA a várias partes do mundo com os mais diversos propósitos. Os países dominados também não têm sido dominados diretamente, mas de forma indireta, sendo assim, não existem mecanismos como o exclusivo comercial da metrópole com a colônia, além disso, a Internet vem se provando (ou tentando se provar) o maior campo de intercâmbio justo entre as culturas oprimidas e seus opressores. Por esse ponto de vista, poderíamos dizer que a segunda tese estaria correta, visto que os atuais dominantes teriam, sim, se inspirado nos acontecimentos passados para realizar seus planos, mas sua possibilidade só pode ser praticada na medida em que se adaptasse à evolução atual do mundo.

    Mas, vejamos, por que eu estou fazendo tamanha digressão se o assunto principal do texto são os crimes referidos na introdução?

    Simples, porque o mundo em que vivemos influi diretamente na nossa maneira de pensar. Longe de mim referendar teses deterministas, mas se está provado que o meio não determina o comportamento dos indivíduos que o habitam, acredito ser indiscutível que o influencie.

    Pois bem, vivemos num país de esmagadora maioria Cristã (mais de 80%, segundo o último Censo do IBGE), país esse que, apesar da separação legal entre Igreja e Estado, tem um governo que sofre fortíssima influência de entidades ligadas às mais diversas doutrinas Cristãs. Os princípios régios de nossas leis são baseados nas doutrinas Cristãs (não matar, não roubar, não cobiçar a mulher do próximo (leia-se a nova lei do concubinato), não levantar falso testemunho...).

    As leis, por sua vez, são o artifício criado pelos governantes para legitimar suas ações e, em especial, ganhar credibilidade ao realizar punições. Não deixam de ser um paradigma, um parâmetro pelo qual a sociedade deveria se organizar para funcionar de acordo com o ponto de vista de quem está no poder e, dessa forma, fortalece-lo.

    Um ditado popular muito famoso diz que “uma mentira repetida à exaustão torna-se uma verdade”, e é assim também com as leis. No princípio, quando as leis são instituídas, muitos se sentem lesados e protestam contra elas. No entanto, passados alguns anos, as pessoas se acostumam e torna-se natural para elas cumprir tal lei, de modo que as gerações que surgem sob a égide de uma determinada lei já em vigência, dificilmente se revoltam contra ela, pois esta passa a fazer parte de seu modo de vida.

    Vejamos um exemplo: Há alguns anos, no final da década de 80, houve uma campanha da qual, inclusive, participaram diversos artistas, pela abolição de todos os impostos e sua conseqüente substituição por um imposto único de 1% sobre todas as transações financeiras. Dessa forma, os que tinham mais dinheiro não poderiam sonegar e o imposto não pesaria no bolso de ninguém.

    Lembro-me que nessa época, Jô Soares chegou a aparecer num comercial dizendo que “O Brasil é o país com o maior número de impostos no mundo, mas mesmo assim, não temos os mesmos benefícios de países como a Suíça, ou o Canadá. Temos que acabar com a sonegação e com o exagero de nossos impostos”. Pois bem, a idéia perdeu apoio e acabou morrendo até que, em 1994, foi revitalizada com a criação de um imposto provisório sob as transações financeiras de 0,5%. Esse imposto, originalmente seria destinado à área da Saúde e, por isso, ficou conhecido como o imposto do Jatene, em homenagem (ou crítica) ao Ministro da Saúde da época, o Dr. Adib Jatene.

Jô Soares, um dos defensores
da proposta derrotada, que
depois inspirou a CPMF


    As críticas a esse imposto cuja idéia fora copiada de um imposto que viria a substituir todos os outros foram tão ferrenhas que acabaram por derrubar o então ministro, mas o imposto permaneceu e hoje gira em torno dos 0,75%, mas ninguém mais reclama dele, aliás, é uma importante fonte de renda do Governo Federal e ninguém sequer cogita a possibilidade de acabar com ele.


Pe. Marcelo Rossi, ícone
da defesa de ideais
institucionalizados em
detrimento da abstração
individual

    Por essa abstração, pudemos perceber como nosso pensamento pode ser moldado pelo costume gerado por uma imposição.

    Pois bem, nossa sociedade Cristã é a mesma que diariamente é inundada com programas onde violência e sexo são presença marcante (lembremos que devemos não matar e também não pecar contra a castidade), é a mesma onde livros de esoterismo e auto-ajuda são mais vendidos do que os de não-ficção (apesar de as seitas Cristãs serem contra as práticas de magia (ou qualquer tipo de utilização sobrenatural de poderes) e, até mesmo de busca por salvação (ou conforto) fora dos templo (profana), afinal, “Deus (ou Cristo) é o único caminho para a Salvação”).


    Vemos diariamente programas de altos índices de audiência (em especial nas tardes televisivas) insistirem em explicações de que o indivíduo estava perturbado, de que estava fora de seu juízo perfeito quando cometeu determinado ato, dentre outras. Nos mesmos programas, vemos pessoas defenderem energicamente a Pena de Morte, porque “bandido bom é bandido morto”. Nos noticiários vemos que o presidente dos EUA está determinado a matar civis Iraquianos inocentes para desarmar um governante que ele julga com sendo membro do “Eixo do Mal”.

    O que podemos entender disso tudo?


2 – Os Valores de Cada Sociedade X A Individualidade:

    No mundo de hoje, uma das profissões cujo campo mais cresce é a de Psicólogo, mas por quê?

    Bem, o ser humano é dotado de muitas faltas, de muitos vazios que precisam ser preenchidos de alguma forma. É justamente a busca pelo preenchimento desses vazios que acaba por gerar a individualidade de cada um. No entanto, muitos acabam se acovardando dessa busca e se mesclando no meio de pessoas que lhes aprazem, sendo assim, abdicam de sua individualidade em prol de um conforto momentâneo (que pode até durar alguns anos) no seio de um determinado grupo, ou tribo. Porém, depois que as necessidades da vida acabam por separar o indivíduo daquele grupo onde ele havia se inserido, os problemas de identidade voltam e, possivelmente, com mais força ainda. É justamente por isso que nossa vida é cheia de períodos conhecidos como “fases de transição” (vestibular, final da faculdade, casamento, nascimento dos filhos, menopausa/andropausa, aposentadoria, morte de entes queridos, dentre outras). Quando atravessam esses períodos, muitas pessoas caem em depressão e algumas chegam mesmo a se matar ou buscar ajuda em drogas. É de pessoas que estão nessas fases de suas vidas (ou próximas a elas) que se compõe a grande maioria dos freqüentadores de consultórios psicológicos e psiquiátricos.

    Quando nos sentimos sozinhos, fora de nossos grupos, nossa necessidade de encontrar nossa individualidade se potencializa. Procuramos, mas não encontramos, nos sentimos mal e, no final, encontramos alguma solução, mas, dificilmente essa é a nossa individualidade, mas, tão somente um placebo, algo que irá, novamente, nos afastar de nossa busca eterna.

    “Conhece-te a ti mesmo”, era o que estava escrito sobre a entrada do Oráculo de Apolo, em Delfos, na Grécia Clássica. Isso significa que, desde os tempos mais remotos a busca do homem é por ele próprio, visto que milhares de pessoas passavam diariamente por aquele templo que, para os Gregos, era o centro do mundo com o intuito de receberem respostas às suas perguntas, mas que, no fundo, a maior resposta que poderiam procurar já se lhes apresentava logo no batente da porta de entrada, ou seja, encontre sua individualidade.

    Nós, humanos, somos seres contraditórios; ao mesmo tempo que queremos nossa individualidade, queremos impedir que os demais tenham as suas. Por isso criamos o governo. Dessa maneira, uma instituição superior a todas as individualidades iria controlar até que ponto a individualidade de cada um poderia chegar. É claro que o governo, como instituição, não existe e, sendo assim, é o governante que tem o poder de determinar até que ponto as individualidades alheias podem ir em seu país. Como indivíduo que é, ele fará isso segundo sua própria percepção e, por que não, individualidade. Sendo assim, tudo o que o governo faz é dar nas mãos de outro (ou de outros em Oligarquias e Democracias) o poder sobre as individualidades.

    Tudo o que fazemos todos os dias em nossas vidas está diretamente relacionado com duas coisas (que, por sua vez, não se excluem entre si): nossa busca por nossa individualidade e nosso julgamento de valores.

    Sobre a primeira, já exprimi algumas impressões, sobre a segunda, não me alongarei muito. Nosso juízo de valores está impregnado em nossos atos, mas pode mudar muito durante nossa vida. Mente aquele que diz que não julga os outros ou as coisas. Todos julgam, é assim que qualificamos o que achamos bonito e o que achamos feio, o que é certo e o que é errado, o bom e o mal, o competente e o incompetente, o melhor e o pior... Quando somos pequenos, nossos pais nos ensinam as primeiras coisas com juízos de valores. Dizem: “não faça isso porque é feio”; “não tome gelado por que você vai ficar doente”; “ai, que bonitinho”; “como você está sujo”; “que rápido que você tomou banho”... Todas essas frases têm algo em comum: apresentam palavras que dão origem a comparações, a rótulos. Crescemos assim. Queremos ser fortes (não fracos), bonitos (não feios), inteligentes (não burros), vencedores (não fracassados, ou derrotados), populares (não desconhecidos).

    Como qualquer um pode ver, quero dizer que nosso juízo de valores faz com que alimentemos um ideal do que se deve ser e que, dessa forma, idealizemos uma identidade a qual lutaremos para alcançar.

    Até aqui, não falei nenhuma novidade (e talvez não fale nenhuma no restante do texto), mas o que não podemos esquecer é que, em nosso juízo de valores, aquilo que fazemos é sempre o melhor, o bom, o bonito. Estamos certos porque queremos estar certos, não podemos aceitar que estejamos errados, que sejamos piores, mais feios, maus... Temos objetivos e estes convergem para nossa idealização, para nossa busca. Quando somos questionados (seja diretamente, através de uma conversa, prova ou pesquisa; seja indiretamente, através da ação de nosso subconsciente, por exemplo, quando lemos um texto) sobre a validade de nossos valores, tendemos a agir como se já fôssemos tudo aquilo que queremos ser, sendo assim, muitas pessoas se tornam ríspidas, amargas, ferinas... Em suas críticas àqueles que colocaram seus valores em cheque. É assim com nossos gostos, com nossas crenças, com nossos “saberes”. É assim com aquilo que pode balançar a ordem estabelecida, porque não gostamos do caos, da incerteza; buscamos a ordem, a certeza e não podemos aceitar que, de fato, vivamos na incerteza completa.


3 – O que Sabemos e o que Queremos:

    Em suma, esse item pode ser resumido numa expressão bem simples: não sabemos verdadeiramente de nada e, para compensar essa imensa falta, queremos absolutamente tudo.

    A busca incessante por tudo (incessante na medida em que é impossível, por razões óbvias, obter tudo) nos faz eternamente insatisfeitos e nos torna nossos piores inimigos, jogando não apenas um homem contra o outro, mas, jogando-nos contra nós mesmos.

    Se vemos alguém em posição mais confortável do que a nossa (quer seja por qual motivo for), imediatamente passamos a nutrir inveja daquela posição ocupada pelo indivíduo, mas a atitude de cada um em relação a essa inveja é diferente. Uns farão de tudo para obter a mesma posição do indivíduo, ou até supera-la, mas não se importarão se o indivíduo mantiver a sua posição; no entanto, outros tentarão derrubar o indivíduo da posição que ocupa, mesmo que nunca cheguem a ocupa-la. Para os primeiros, sua busca é encarada como uma realidade possível e, sendo assim, eles tendem a lutar por sua ascensão. Para os segundos, em contrapartida, sua busca é vista como muito árdua ou mesmo impossível, sendo mais fácil tentar demover os outros de suas pequenas conquistas do que correr atrás de seus próprios objetivos, afinal é a comparação que nos faz sofrer, se todos fôssemos pobres, sujos, feios e ignorantes iguais, não haveria motivo para infelicidade, afinal, não haveria juízo de valores, não haveria comparação.

    A propósito deste trabalho, o tipo de pessoa que mais nos interessa não é nem o primeiro, nem o segundo, mas um terceiro grupo. Um grupo que reúne algumas características tanto de um quanto do outro grupo. O grupo das pessoas que lutam, sim, por alcançar seus próprios objetivos, mas que não se importam em eliminar pessoas que se interpõem em seus caminhos se isso for necessário. Perceba-se que eliminar aqui não está apenas no sentido de matar, mas sim no de fazer qualquer coisa que seja para, digamos, ultrapassar aqueles que lhes impedem de alcançar seus objetivos. Essas pessoas não têm escrúpulos de mentir, roubar, matar ou quebrar outras leis quaisquer (não que todas as pessoas que façam parte desse grupo sejam capazes de quebrar todas as leis) que lhes impeçam os objetivos.

    Sobre esse comportamento falarei um pouco mais no último item do texto, visto que agora analisarei um pouco cada um dos três casos que me dispus a discutir.


4 – A Miss que não era Miss:

    Para aqueles que não perceberam, o título desse item é um trocadilho com a palavra Inglesa miss. Essa palavra quer dizer senhorita, o que indica que a referida mulher é solteira. Para mulheres casadas utiliza-se a palavra mrs que, apesar de terem a mesma pronúncia (algumas regiões pronunciam a palavra miss com um “s” um pouco mais prolongado para caracterizar a diferença), se escreve e tem significado diferente.


Joseane Oliveira, a Miss que não era
miss (esq.), e Thaisa Thomsen (dir.),
a nova Miss Brasil 2002.

   Pois bem, em abril do ano passado, 2002, ocorreu, como ocorre anualmente, o concurso de Miss Brasil, ou seja, Senhorita Brasil. Em tempos mais remotos o concurso era muito badalado e, de fato, elegia a mulher que a maioria dos Brasileiros concordava que era a mais bonita do país. Dentre as provas, havia a clássica prova do desfile de trajes de banho (antigamente maiôs, hoje biquinis) e outras de conhecimentos (ainda que mínimos) regionais, visto que cada uma das concorrentes representava um Estado do Brasil (por já ter vencido o concurso de Miss de seu respectivo Estado, que, por sua vez, para poder ter sido disputado requeria que a moça tivesse vencido o concurso de Miss de sua cidade ou região).

  Hoje o concurso já não é mais televisionado pelas grandes emissoras nacionais, nem conta com toda a pompa da qual dispunha nos tempos da lendária Marta Rocha, mas, ainda assim, serve de trampolim para a fama, ao menos para a vencedora.

    Em abril do ano passado, o concurso foi vencido por Joseane Oliveira, atualmente com 21 anos, a Miss Rio Grande do Sul. O concurso passou totalmente despercebido (apesar de ter sido transmitido pela Rede TV) e só veio ganhar notoriedade por causa da confusão na disputa do concurso de Miss Mundo (disputado entre as segundas colocadas dos concursos de Miss de diversos países ao redor do mundo).

    O Miss Mundo seria disputado na Nigéria, país onde o radicalismo religioso Muçulmano chega a extremos como o apedrejamento em praça pública de mulheres adúlteras. E foi justamente esse o caso. Uma mulher que havia traído o marido (ao que parece ela já estava legalmente separada do cônjuge) tinha sido condenada à morte por apedrejamento. As Misses de alguns países, tentando resgatar a fama de exemplo de mulher perfeita que as Misses tinham no passado, ameaçaram boicotar o Miss Mundo caso a pena não fosse revogada. Por isso o concurso acabou atrasando.

    Nesta ocasião, Taiza Thomsen (a Miss Santa Catarina que recebeu a faixa de Miss Brasil das mãos de Joseane) ganhou notoriedade por ser contra o boicote, para ela, as Misses não tinham nada haver com as resoluções penais do país onde o concurso estava sendo realizado. Temia que o Miss Mundo 2002 fosse cancelado e que ela perdesse a chance de vence-lo.

    Tanta discussão ocorreu em torno da questão do boicote que o concurso acabou, de última hora, sendo transferido para Londres. Lá, Taiza não venceu. Por volta da mesma época estava sendo disputado o Miss Universo (entre as vencedoras dos concursos de Miss nacionais) e, nele, Joseane estava. Porém, nem venceu, nem sequer ficou num segundo lugar honroso como o de Marta Rocha. Ficou numa posição irrelevante no ranking.

    Acabada a polêmica, concurso realizado, parecia que Joseane iria sumir como tantas Misses Brasil sumiram depois de Vera Fisher. Porém, não sumiu.

    No fim de 2002, a TV Globo começou a divulgar através de seu portal na Internet as inscrições para a terceira edição de seu show campeão de audiência: o Big Brother Brasil. Nesse programa participam seis ou sete casais de pessoas desconhecidas que se inscrevem através de cartas e vídeos enviados. Para essa edição, a emissora recebeu um número recorde de fitas de interessados e, mesmo entre tantos desconhecidos interessantes, olhem que coincidência: uma conhecida (ou nem tanto) foi convocada. Isso mesmo, a Miss Brasil Joseane Oliveira.

Joseane Oliveira no BBB3, quando ainda
era Miss Brasil 2002


    Era óbvio que a inscrição da moça não passara pelo mesmo critério pelo qual passara a inscrição dos demais participantes, mas isso não interessava nem ao telespectador, nem à emissora, afinal, a Miss Brasil estaria vivendo confinada junto com pessoas normais e tendo sua rotina filmada vinte e quatro horas por dia.

    Logo nos primeiros dias, a Miss ensaiou um romance com o motoqueiro Dilson, mas logo depois de beija-lo duas vezes (uma, segundo ela, forçada e a outra no escuro) a garota desistiu do rapaz e começou a espalhar entre as companheiras de programa que não podia continuar com aquilo porque tinha alguém que a esperava aqui fora.

    Com seu jeito de quem não aceita derrotas e também de quem costuma resolver seus problemas de formas não amigáveis, Dilson, não agüentou a rejeição da Miss e, apesar de negar que fosse por causa dela (no que Boninho, o diretor do programa, o contradiz), o motoqueiro abandonou o programa.

    O fim precoce do possível futuro romance fez com que tanto a casa quanto o público se colocassem contra Joseane, de modo que ela foi ao chamado “Paredão” e acabou eliminada da casa.

    Enquanto estava na casa, a Miss despertou a ira de diversas mulheres do Brasil. Como se já não bastasse a moça ser Miss Brasil (um sonho secreto de quase toda Brasileira), ela ainda estava no Big Brother (outro sonho de muitos Brasileiros e Brasileiras), aparecia de biquíni na maior parte do tempo e ainda estava em vias de engatar um romance, tendo um homem considerado bonito por muitas aos seus pés e podendo rejeita-lo (outro sonho de muitas). Surgiram críticas: “só ela aparece”, “como essa mulher pode ser Miss, ela é gorda”, “mas que boca enorme, credo”, “ela é tão musculosa e alta que parece um travesti”, “ela fuma como uma chaminé”...

    Joseane foi para o “Paredão” contra Andréa, uma concorrente fraca, mas o voto feminino foi decisivo em sua eliminação e também no início de seu inferno astral. Depois que Joseane foi eliminada, veio à tona toda a sujeira que estava por trás de sua participação nos concursos de Miss.

    Para começo de conversa, ela não é uma Senhorita, mas uma Senhora. Joseane é casada há cinco anos e, sendo assim, não poderia ter participado dos concursos. Se não tivesse participado dos concursos, não os teria ganho e, se não os tivesse ganho, provavelmente não teria sido convocada para participar do Big Brother Brasil.

    Na última terça-feira, dia 4 de fevereiro, a moça foi entregar sua faixa de Miss Brasil para a segunda colocada (ela sim Senhorita), Taiza Thomsen. Em entrevista, Joseane disse não se arrepender do que fez, mas que não faria tudo outra vez se pudesse voltar no tempo (o que é estranho, pois se ela não se arrepende, porque não faria de novo?). Alega que fez o que fez porque, desde menina sempre teve o sonho de ser Miss Brasil, além disso, precisava ajudar a família (é que o prêmio inclui duas jóias no valor de R$6000,00 cada, mais um salário de R$1000,00 por mês até o próximo concurso, um contrato de publicidade que lhe garante um cachê de R$3000,00 por aparição pública e, no fim do mandato, um carro popular zero) que estava em dificuldades financeiras.

    O que mais espanta no caso de Joseane não é o fato de ela ter mentido com a cumplicidade de todos os seus amigos e familiares (inclusive o próprio marido que permanece escondido até hoje), afinal, eles compareceram no palco do Big Brother no dia de sua eliminação (o pai da moça inclusive declarou gostar muito de seu namorado, enquanto sua mãe disse que estava infeliz porque Joseane não estava sendo ela mesma na casa (agora sabemos o que ela quis realmente dizer)), mas sim, o fato de ninguém, nem a sociedade, nem mesmo os diretores do concurso (como Boanerges Gaeta, que se diz espantado com o que aconteceu, mas feliz com Joseane por seu caráter e por como cumpriu seus compromissos de Miss) sequer cogitarem a hipótese de processar a moça por crime de Fraude e Falsidade Ideológica. É isso o que mais nos indigna, pois a mesma sociedade que fez tudo para derrubar, por ciúme e inveja, alguém que havia feito tudo legalmente para subir, agora se condescende de uma criminosa. Isso por quê? Porque agora, Joseane não é nada mais do que uma pessoa comum que fracassou na perseguição de seu sonho. É como todos os outros e, por isso, não lhes provoca inveja.


5 – O Diabo ou o Simplismo:

    No Brasil campeão de vendagem de livros de auto-ajuda e esoterismo, quase ninguém pode se dizer totalmente livre de influências que vão diretamente de encontro à ortodoxia Cristã. Recomendo àqueles que se deixam impressionar facilmente que não leiam este trecho do texto.

    Pois bem, no último domingo, dia 2 de fevereiro de 2003, um casal de Campinas, cidade do interior de São Paulo, estava passeando de carro com seus dois filhos: uma menina de 6 anos e um menino de apenas 13 meses. Nada mais normal. O casal habitava um prédio de classe média na própria cidade e parecia se comportar de forma exemplar. Ele, Alexandre Alvarenga, 31 anos, Produtor Artístico já fizera parte do conselho sindical do prédio e se mostrava um pai muito preocupado com seus filhos. Ela, Sara Maria Roselon Alvarenga, 32 anos, não era uma mãe menos exemplar.

    Os dois não utilizavam drogas (ao menos não que se tenha notícias), bebiam com moderação (como a maioria das pessoas) e se davam bem enquanto casal.

    Aos olhos de todos parecia uma família normal, no entanto, no referido domingo, enquanto passeavam de carro aconteceu um acidente. Um corriqueiro acidente de trânsito, como aqueles que acontecem todos os dias nas grandes cidades (Campinas tem mais de um milhão de habitantes). O carro do casal se chocou de frente com o carro de um médico que vinha em sentido contrário.

    Depois do acidente, o médico prontamente saiu do carro para ver se estava tudo bem com os passageiros do outro carro. Tentou falar com Alexandre, mas ele não respondia, parecia em estado de choque. Depois de alguns instantes se inicia uma cena que parece saída de um filme Trash, o pai abre a porta do carro, pega o bebê e dispara numa corrida aparentemente sem rumo. A mãe pega a filha pela mão e passa a correr atrás do marido. Depois de correr por cerca de dois quarteirões, Alexandre arremessou o bebê contra o pára-brisa de um carro que vinha em sentido contrário ao de sua corrida. O vidro do carro se estilhaçou e o bebê, com sérias lesões na cabeça e no cérebro, caiu no colo do motorista que ainda não entendera o que estava acontecendo. Em meio à confusão, Sara alcançou o marido e juntos, eles levaram a filha até um bosque nas proximidades. Lá, segundo relatos da própria menina (que devia estar apavorada) os pais começaram a cantar preces e a bater sua cabeça (a da menina) contra uma árvore. Enquanto isso acontecia, Sara também batia a própria cabeça contra a árvore. Antes que pudessem matar a menina, a polícia chegou e prendeu os dois em flagrante.

    A menina teve alta no próprio domingo, tinha apenas ferimentos leves na cabeça e, apesar de ter chegado ao hospital Mário Gatti desacordada, não teve maiores complicações. O mesmo não se pode dizer do bebê; seu estado clínico ainda é grave e não se sabe quais seqüelas ele terá caso sobreviva.

     Segundo notícia divulgada no site de notícias Último Segundo, do IG, ao chegar ao hospital a mãe teria dito que “as crianças já estavam com o pai Satanás”.

O RG de Sara, divulgado
pela imprensa

                                                                                                                                                           O pai de Sara, Santo Octávio Roselon, avô das crianças (com o qual a menina está depois do ocorrido) declarou que o casal sempre se comportara bem, mas que seu comportamento mudara quando, há 10 dias, começaram a visitar um site de Satanismo na Internet.

    Agora esperem, há algo de mal contado nessa história! Satanistas não contam aos outros que o são. Principalmente, pelo fato de sua religião ser vista como criminosa, mas também porque, segundo seus dogmas, eles são proibidos de faze-lo. Vejamos os 11 mandamentos dessa religião:


I
Nunca dê opiniões e conselhos a menos que seja perguntado
II
Nunca conte suas dificuldades aos outros, a menos que esteja certo de que eles queiram ouvi-las
III
Quando no lar de outrem, mostre-lhe respeito ou nunca vá lá
IV
Se um convidado em seu lar lhe ofende, trate-o cruelmente e sem piedade
V
Nunca faça avanços sexuais, a menos que você receba o sinal de acasalamento
VI
Nunca apanhe o que não lhe pertence, a menos que seja um peso para outra pessoa e ela implore para ser ajudada
VII
Reconheça o poder da mágica se você a tem empregado com sucesso para obter seus desejos. Se negar seu poder depois de tê-lo invocado com sucesso, perderá tudo o que obteve
VIII
Nunca se queixe de nada de que não necessite para si
IX
Nunca moleste crianças
X
Nunca mate animais não-humanos, a menos que seja atacado ou para comer
XI
Quando em território aberto, não aborreça ninguém. Se alguém lhe aborrecer, peça-o que pare. Se ele não parar, destrua-o


    Se, como vimos, os Satanistas não devem falar de seus dogmas com os outros, como o pai de Sara saberia que sua filha e seu genro estavam acessando tal site? E mais, se sabia, por que não havia feito nada até então? Será que preferiu esperar até que o pior acontecesse?

    As duas maiores possibilidades dentro desse caso são:

    1) O senhor Santo Octávio Roselon de nada sabia, mas, por não encontrar uma explicação que lhe parecesse mais plausível, resolveu recorrer ao Diabo, aquele que, juntamente com Deus, tudo explica (a diferença é que o último dá as boas novas e o primeiro nos provém das notícias ruins).

    2) Uma explicação mais trágica, mas menos simplista do que a dada pelo pai de Sara seria o envolvimento do próprio Santo Octávio Roselon na dita seita Satanista, dessa forma ele teria contado o que a filha e o genro fizeram para incrimina-los e ficar com a guarda da neta que pode vir a ser usada num ritual futuro, uma vez que este não deu certo.

    Para a sociedade, o caso do casal Alvarenga é muito complicado de se trabalhar porque toca num dos pontos mais centrais das certezas humanas: a família.

    A família é, segundo muitos, um dos três pilares da sociedade. Os outros dois seriam a tradição (ou seja, a continuidade daquilo que era feito no passado, em especial, da religião) e a propriedade. É muito confortável, para quem tem os três, pensar dessa forma e, sendo assim, mais e mais pessoas mundo-a-fora se rendem a essa filosofia de vida. O que poucos sabem é que foi justamente essa filosofia que embasou o Nazi-Facismo e mesmo a Ditadura Militar Brasileira. Porém, quando um desses três pilares é abalado, a sociedade se comove.

    Diariamente acontecem crimes bárbaros, assassinatos de mendigos (que às vezes são índios e, por isso aparecem nos noticiários), estupros, seqüestros...

Getúlio Vargas, durante seu governo os ideais
Integralistas ajudaram a promover as elites ligadas à Tradição, Família e Propriedade


    Mas todos são crimes corriqueiros, se encaixam no esperado pela sociedade, o que não se encaixa é a desapropriação de terras (ou sua ocupação por posseiros), é o fim da proibição do aborto, a ratificação da clonagem humana, filhos que matam os pais ou pais que matam os filhos.

    Essas coisas mexem com a cabeça das pessoas porque lhes tiram as únicas certezas que elas têm em vida: a de que têm uma família na qual podem confiar, a de que têm tradições as quais cultivar e a de que, se trabalharem (ou assim dizem os filósofos Capitalistas), terão sua propriedade.

    Desde a Revolução Russa que o conceito da Propriedade perdeu um pouco a força em relação aos outros dois, no entanto, a Tradição (em especial a Religião) e, mais ainda, a Família, continuam (parafraseando o ex-Ministro do Trabalho Rogério Magri) imexíveis.
   

6 – Interlúdio:

    Se você é uma pessoa facilmente impressionável e, por isso não leu o item cinco, saiba que é justamente por sua causa que esta parte do texto está separada dele, pois acredito que ela poderia ser seu final, mas como considero-a de suma importância para a compreensão dos itens subseqüentes, separei-a. Aos demais leitores cuja curiosidade ou necessidade de auto-aprovação forçou a ler o item que continha a advertência digo apenas que devem continuar a ler do próximo parágrafo como se este não existisse.

    A família é o primeiro núcleo no qual buscamos identidade e, em última instância, pode vir a ser o último também. É na família que aprendemos, como já mencionei, nossos primeiros juízos de valores e é a ela que, quando velhos, recorremos para nos identificar através dos papéis de pais, avós, bisavós... Que satisfação pode ser maior na vida de um ancião do que realizar uma reunião familiar (onde comparecem quatro, às vezes cinco gerações da família) na qual ele ou ela se senta na cabeceira da mesa, faz as honras de anfitrião e, por fim, é saudado com uma oração à sua saúde. A família alimenta a tradição e esta, por sua vez, alimenta a família e, sendo assim, a propriedade torna-se secundária dentre do plano de pilar social. Todo ancião já foi criança e também adolescente e, muitos deles, quando nessa fase, se integraram em outros grupos com os quais se identificavam mais do que com sua própria família. No entanto, devido a uma evolução, uma repetição ou a acontecimentos caóticos da história, ele um dia abandonou o grupo com o qual se identificava e voltou a se identificar com a família.

    Dentro de uma lógica Marxista, esse fenômeno pode ser interpretado como uma eterna luta de classes, visto que na infância e na adolescência, a posição do indivíduo em relação à sua família é de submissão, sendo assim, ele busca por sua identidade em outros grupos ou ainda busca destruir sua própria família que lhe impõe tal condição. Porém, mais adiante, quando ele passa a poder exercer um poder dentro da família, ele passa a aceitar tal poder (visto que o poder é confortavelmente corruptor) e, então, repete muitos dos comportamentos que, outrora, lhe irritavam seguindo a máxima irrefutável de que: “o que foi bom para mim também será para meus filhos”. É a família colaborando com a tradição e a tradição colaborando com a família.


7 – O Caso von Richthofen:


Manfred von Richthofen, o
Barão Vermelho

    Se o título acima tivesse sido escrito em 1918, ou um pouco depois, muitos pensariam se tratar da história da morte de um dos maiores guerreiros do século XX: o Barão Vermelho, cujo nome era, assim como o do pai de Susane, Manfred von Richthofen. O fato de os dois serem homônimos não é mera coincidência, na realidade, o pai da namorada de Daniel Cravinhos era sobrinho-neto do lendário aviador Alemão, inclusive, ele próprio era Alemão de nascimento.

    Assim como seu parente homônimo, Manfred von Richthofen morreu de forma traiçoeira. O Barão Vermelho morreu alvejado por um outro aviador, o Canadense Roy Brown, que, utilizando-se da tática inventada pelo próprio Alemão, atingiu-o por trás enquanto ele perseguia um avião inimigo.


    O Manfred do Brasil morreu, juntamente com sua mulher, Marísia, na noite de quinta-feira, 31 de outubro de 2002. Esse crime, inicialmente tido como mais um latrocínio (roubo seguido de morte) tão freqüente nas grandes cidades, acabou por se tornar o crime que mais chocou o Brasil desde o Caso da Rua Cuba, no final da década de 80.

    O casal, ele Diretor da Dersa, ela Psiquiatra, tinha dois filhos: Susane Louise von Richthofen, de 18 anos, e Andreas Albert von Richthofen, de 15 anos. Susane era uma menina esforçada que havia entrado na faculdade de Direito da PUC-SP, mas que namorava um rapaz que desagradava os pais: Daniel Cravinhos de Paula e Silva, de 21 anos.

    Especialmente Marísia, já havia proibido o namoro, o que fez com que o casal (Susane e Daniel) fingisse terminar. Na ânsia de obter dinheiro para se casar e de se ver livre da proibição do namoro pelos pais, Susane arquitetou sua morte.


Susane e seu irmão,
Andreas, no enterro

    Os detalhes do crime, acredito, podem ser omitidos nesse texto, visto que todos já estão mais do que cansados de saber como foi que Daniel e seu irmão, Christian, executaram aquilo que haviam combinado com Susane.
    O que mais chocou a sociedade não foi o fato de os assassinos terem comparecido ao enterro das vítimas (coisa que já havia acontecido antes, inclusive na mídia, no caso Daniela Perez, de 1992), nem a forma pela qual se deu o crime (o casal foi morto a pauladas), mas sim, o fato de a própria filha ter arquitetado, ainda que com a ajuda do namorado, o crime que vitimou seus pais.


    O fato de uma filha que tinha tudo (em termos de bens financeiros) que pudesse querer matar os pais (inclusive, sua mãe era Psiquiatra o que indica que, por profissão ela deveria saber identificar os problemas alheios e, sobretudo, ajudar a resolve-los) faz com que um ponto de interrogação se forme no pensamento de boa parte das pessoas. Elas não conseguem entender o que aconteceu.

    “Foram as drogas”, diz um, “foi o namorado dela que a enganou”, diz outro, “ela estava desequilibrada”, acrescenta um especialista. Essas são apenas algumas das opiniões colhidas entre tantas divulgadas pela imprensa. Ora vejam, se tivesse sido o vizinho, a empregada, ou um ladrão qualquer, o caso já estaria esquecido e teria dado não mais do que uma nota ou duas nos jornais. E isso porque o casal tinha um alto padrão financeiro, senão, nem isso.

Christian Cravinhos, Daniel
(o namorado ) e Susana,
quando foram presos.


    O que motivou a imprensa a mostrar o caso com tantos detalhes e com tanto empenho foi a busca por audiência. Os diretores de jornais e de emissoras de televisão sabiam que o caso daria IBOPE. O caso von Richthofen deu e continua dando tanta audiência porque se transformou numa espécie de Big Brother sangrento, onde a sociedade quer ver a rotina, não da Miss Brasil, mas de uma pessoa tão diferente quanto, uma menina capaz de matar os (ou tramar a morte dos) próprios pais.

    Psicólogos escreveram textos com títulos como “Para não matar outros pais”, programas de auditório gastaram tardes (ou manhãs) inteiras entrevistando Psiquiatras e Psicólogos que tentavam explicar logicamente o que aconteceu e, de quebra, prevenir os pais sobre como identificar comportamentos semelhantes em seus filhos. Homens, mulheres, crianças, idosos e adolescentes ficaram chocados com o que aconteceu. Houve alguns mais exaltados que tentaram linchar Susane no dia da reconstituição do crime. Mas por quê?

    Bem, vejamos, no final de reality shows, como o Big Brother e a Casa dos Artistas, sempre há uma grande aglomeração de pessoas tentando ver seus ídolos de perto e, quem sabe, aparecer um pouco na TV para ter seus 15 segundos (e não minutos) de fama. No caso dos von Richthofen é a mesmíssima coisa. Se por um lado os participantes de reality shows passam de ilustres desconhecidos a pessoas famosas por terem suas imagens veiculadas no vídeo, por outro, Susane também o fez e da mesma forma, a diferença é que o seu caso constitui um verdadeiro reality show, um show onde não há regras e onde cada um faz realmente aquilo que deseja, até matar os próprios pais.

    Para a audiência? Não tem muita diferença! Todos querem se divertir, passar o tempo com alguma coisa que esteja sendo veiculada na TV. Se antes as novelas eram a coisa mais parecida com a realidade que as emissoras podiam mostrar, hoje existem os reality shows e, quem diria, os velhos telejornais, onde os personagens são as Susanes da vida e onde se pode ter a certeza de que o indivíduo não está fazendo um tipo, além disso, se você não gosta de um participante do Big Brother porque, em seu íntimo o vê como um rival (como era o caso de muitas mulheres em relação à Miss Brasil), você não pode verbalizar toda a sua ira; tem que se contentar em “detona-la” no “Paredão”, já a Susane, como todos concordam que ela é do mal, essa sim você pode xingar à vontade e, se tiver tempo e paciência, pode até arriscar ir até uma das saídas de reality show (perdão, reconstituições de crime) e tentar lincha-la para demonstrar o quanto você se sente ofendido pelo que ela fez a pessoas que você nem sequer conhecia.
   

8 – O que uma coisa tem haver com a outra?

    Este item também poderia ter se chamado conclusão; mas aí eu receberia E-Mails de leitores (ou melhor, de pessoas que não tiveram a paciência de ler meu texto inteiro, mas que, mesmo assim querem me criticar) indignados dizendo que eu sou louco e que os casos da Joseane, dos Alvarenga e dos von Richthofen não têm nada em comum. Por isso, poupei esse trabalho a eles. Já coloquei no título a pergunta que eles me fariam para que, no mínimo, tenham que pensar em outra e aí, quem sabe, leiam o texto inteiro para procurar o que criticar. É, existem pessoas do segundo grupo!

    Como disse no final do item 3, considero que existam três grupos, ou tipos de pessoas e, depois de explicar os dois primeiros grupos, disse que falaria melhor sobre o terceiro grupo no último item do trabalho. Pois bem, acredito que a maioria das pessoas faça parte do terceiro grupo, um grupo intermediário, que tem princípios, que quer conseguir as coisas, que quer lutar, mas que não suporta ver que, por mais que lute, o sucesso dos outros sempre é maior do que o dela.

    Nesse grupo de pessoas, sem sombra de dúvidas, estão incluídas Joseane Oliveira e Susane Louise von Richthofen. Elas, ambas, eram batalhadoras, uma estudava bastante, estava numa das melhores Universidades do país, e a outra, correu atrás de seu sonho. No entanto, ambas viveram contos de fadas bizarros, foram “Cinderelas às avessas” (para citar um filme teen do final dos anos 80) e acabaram indo do luxo ao lixo.

    Joseane perdeu o título de Miss, “queimou o filme” com o Brasil inteiro e ainda foi eliminada do Big Brother, já Susane, que não se contentava com o que tinha, quis mais, obteve, mas por um período muito curto, pois logo foi presa e hoje, tudo o que dispõe é de uma cela confortável numa delegacia.

    Tudo bem, dirá o leitor, posso até concordar que, guardadas as devidas diferenças de gravidade dos crimes, Joseane e Susane têm muito em comum, mas e os Alvarenga? O que têm haver com a história?

    Bem, respondo eu, o caso dos Alvarenga é, a meu ver, o que amarra ambos (e quero deixar claro que estes três casos foram escolhidos para ilustrar esse trabalho pelo fato de terem tido e estarem tendo destaque na mídia, mas, como eles, existem vários outros casos semelhantes que também poderiam ter sido escolhidos). Nesse caso há fortes indícios de que tenha ocorrido literalmente o que nos outros dois casos ocorreu apenas no subconsciente das pessoas (os telespectadores), ou seja, um Pacto Demoníaco.

    Segundo as lendas, os Pactos Demoníacos funcionam da seguinte forma: o indivíduo pede algo ao Diabo e este lhe concede mediante a alma do investidor. No entanto, tão logo tem o que deseja, o Diabo obriga o investidor a se render a ele, sendo assim, os Pactos Demoníacos acabam sendo somente vantajosos para o próprio Diabo.

    É claro que não acredito no Diabo, aliás, não acredito em divindade alguma, seja do bem, seja do mal; mas a idéia do Pacto Demoníaco não está (apesar de não parecer) intrinsecamente ligada à crença no Diabo. Explico: Joseane mentiu para todos para conseguir ser Miss e utilizou essa conquista para entrar no Big Brother, no entanto, sua conquista fez com que ela fosse odiada pelo público feminino e acabasse eliminada do programa, a eliminação colocou a vida de Joseane em evidencia e fez com que a notícia de seu casamento viesse à tona, tirando-lhe o título de Miss.

    Uns podem dizer “a mentira tem pernas curtas”, outros que “o Diabo cobra suas dívidas”.

    Susane, por sua vez, teve a sorte de nascer numa família rica que podia lhe dar tudo o que pudesse desejar (segundo relatos de seus familiares, a relação com seus pais também sempre fora boa, exceto em relação a seu namoro), tinha um namorado (coisa que muitas meninas almejam) e era bonita (outro desejo de muitas). No entanto, queria mais. Como eu disse, é próprio do ser humano sempre querer mais, mesmo eu e você nunca estamos satisfeitos com o que temos, sempre queremos mais e mais. Queria poder namorar quem quisesse, queria ter liberdade e também livre acesso ao dinheiro de seus pais. Como não via outra forma de conseguir o que queria, resolveu eliminar aqueles que a impediam (se notar, também Joseane fez isso, mas, no caso dela, ela simplesmente escondeu o marido). Depois de eliminar os pais, Susane conseguiu o dinheiro, a liberdade e o namorado. Porém, depois de alguns dias, perdeu tudo. É, o Diabo é um péssimo credor.

    Quanto ao casal Alvarenga, bem, eles possivelmente fizeram mesmo (ou eles acreditam assim) um Pacto Demoníaco e sabe-se lá o que pediram, mas o preço seria a vida de seus dois filhos. Tentaram dá-las, mas fracassaram. Talvez o verdadeiro Diabo não cobre suas dívidas.

    Quando disse que o Pacto Demoníaco de Joseane e de Susane não havia sido feito de fato, mas na cabeça dos telespectadores, quis dizer que, para eles (ou para nós), ambas representaram ou representam o mal e, como tal devem ser expurgadas. Mas elas só representam o mal porque quem assim as considera, considera a si próprio como um representante do bem e elas, como são diferentes, abalam esse bem e, dessa forma, a melhor maneira de qualifica-las é como más. Em sendo más, não têm lugar no mundo dos bons e, sendo assim, devem pagar até que voltem a não ser nada e, por esse motivo, a não despertar a atenção, pois, sem comparação não há bem nem mal e todos são iguais. Joseane será assim em breve, Susane, nem tão em breve assim, mas ambas o serão, se nenhuma fatalidade se acometer sobre elas antes.

    Quanto ao casal Alvarenga, em se confirmando que eles realmente são Satanistas, ficará claro que eles se consideram a si próprios como sendo o mal e, por isso, divergem das outras pessoas que se consideram a si próprias (ou àquilo que elas crêem ser ou gostariam de ser) como sendo ícones do bem. Por serem diferentes dos demais, não podem ser maus, mas loucos, pois estão voluntariamente fora dos parâmetros, ou paradigmas, da normalidade e, sendo assim, não podem ser presos, mas devem ser internados.

    Os loucos são mais perigos para o tripé da sociedade do que os maus, isso porque os maus podem ser detectados pela sociedade e, por ela expurgados até que se tornem bons (ou nada), mas os loucos, com esses não se pode fazer nada a não ser exila-los, visto que sua percepção distinta do mundo pode influenciar os demais (que não os veriam como maus, mas como diferentes) e, dessa maneira, acabar mudando a ordem estabelecida e todos tememos o caos.

    Para finalizar esse texto, gostaria de dizer que sou um profundo admirador do trabalho do Professor Dr. Nicolau Sevcenko, da USP, e que certa vez, quando fazia um seminário em um de seus cursos, ele me criticou por ter apresentado um problema já com sua solução à classe. Ele disse que o que eu deveria ter feito era apresentar o problema e discutir uma possível solução, ou ainda, deixar que a classe discutisse por si só uma possível solução. Justamente por isso, não finalizarei a discussão suscitada nesse texto, mas deixarei-a em aberto para que os leitores tirem suas próprias conclusões. Apenas recomendo-lhes que leiam cuidadosamente todo o texto, em especial o título, antes de começarem a digredir. Umas últimas perguntas (coisa de louco, vocês vão ver): Seria George W. Bush mau, bom ou louco? Seria o Eixo do Mal de fato mal? Será que todo o mal é bom ou só é mau aquele que é louco? Seriam os loucos os verdadeiros normais e os normais é que seriam os loucos? Você é louco? Você me acha louco?



PARTICIPE DA DISCUSSÃO SOBRE ESTE TEXTO NO
FÓRUM DA REVISTA KLEPSIDRA

 



Este texto é de total responsabilidade de seu autor e destina-se à divulgação científica.
Utilize-o apenas como fonte de consulta.