Olmecas:
O Elo Perdido das Civilizações Mesoamericanas


Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Bacharel em História pela USP
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4 – A Expansão, a Cronologia e o possível Império Olmeca:

    Este é o item central da maioria dos trabalhos que desenvolvo na seção Grandes Impérios e Civilizações Antigas e Medievais de Klepsidra. Isso se deve ao fato de uma de minhas preferências no campo da História ser a História Política. Acredito que a partir de uma ordenação cronológica dos fatos (governantes, guerras, disputas internas, fundações e destruições de cidades...) torna-se não só mais fácil, como também mais interessante, estudar História. Não creio que o estudo da História se limite a isso, de maneira nenhuma, apenas tenho em mente que as pessoas em geral lêem aquilo que lhes agrada, que lhes apraz. É justamente por isso que os livros mais vendidos são os de literatura ficcional; no entanto, se os livros de não-ficção se esforçassem em se tornar menos enfadonhos para o leitor médio, talvez assim e só assim, um indivíduo interessado na cultura Egípcia, por exemplo, deixasse de ler Christian Jacq e passasse a ler verdadeiros livros de Egiptologia. Foi-se o tempo em que o bom remédio tinha que ser amargo.

    Pois bem, como referi, esta costuma ser a parte central de meu texto, entretanto, os dados de que dispomos para a sua elaboração não são completamente confiáveis, sendo assim, talvez ela acabe por não ser a parte mais completa deste trabalho, mesmo assim, prometo ao leitor que me esforçarei para torna-la o menos repetitiva o possível e, também, o mais informativa o possível. É certo que algumas vezes utilizarei interpretações próprias sobre partes obscuras da História Olmeca, além disso, o último sub-item deste item, aquele que falará das possíveis causas do desaparecimento da civilização Olmeca será quase que exclusivamente baseado nas interpretações que pude ter sobre as leituras que fiz, visto que não há ainda nenhuma resposta certa para o que teria causado um declínio tão definitivo.

4.1 – A Zona Metropolitana e a Cronologia Olmeca:

    Como será possível notar mais adiante no texto, boa parte dos baixo-relevos Olmecas, bem como de suas pinturas rupestres são provenientes do atual Estado de Guerrero, no México, uma região próxima ao Oceano Pacífico e, sendo assim, na costa oposta àquela onde se desenvolveu a chamada Zona Metropolitana Olmeca. Essa constatação faz com que muitos Arqueólogos tendam a considerar Guerrero como o ponto de origem da civilização Olmeca, entretanto, esta hipótese é muito pouco confiável, visto que não há nenhum vestígio de grandes construções Olmecas (como há na Zona Metropolitana) e nem tão pouco a Arqueologia daquele estado é desenvolvida o bastante para precisar a antiguidade dos vestígios Olmecas encontrados, sendo assim este texto, bem como a maior parte dos pesquisadores, considera que o centro da civilização Olmeca tenha sido realmente a Zona Metropolitana. Entretanto, a apresentação desta hipótese só faz engrandecer o trabalho apresentando uma maior gama de possibilidades ao leitor.
   
4.1.1 – San Lorenzo (1200 – 900 a.C.):

    Não nos é possível precisar os nomes verdadeiros das cidades Olmecas, por isso o nome que nos chega é o nome das regiões atuais, o ainda o nome dado pelos Arqueólogos ao sítio por algum motivo.

    O sítio arqueológico conhecido como San Lorenzo é na verdade uma junção de três sítios menores: San Lorenzo, Potrero Nuevo e Tenochtitlán (esta última, apesar de ter o mesmo nome da cidade que hoje jaze sob as construções da Cidade do México e que um dia foi a capital do Império Asteca, é apenas um sítio menos, batizado assim pelos arqueólogos pois, a exemplo da Tenochtitlán Asteca, também estava localizada numa ilha).

    Esses três sítios representam o que há de mais antigo no que se pode chamar de alta cultura Olmeca. É possível que um dia tenham sido parte de uma mesma cidade, apesar da grande distância entre eles. Nas regiões desses sítios é onde há mais vestígios de habitações o que leva alguns Arqueólogos a supor que talvez estes sítios tenham sido cidade de fato e não meramente centros cerimoniais. Entretanto esta hipótese é menos aceita do que a de se tratarem de centros cerimoniais.

    San Lorenzo, propriamente dita é a casa de uma das mais impressionantes obras da engenharia Olmeca: o platô de San Lorenzo, totalmente construído pelas mãos do homem, num esforço monumental.

    É muito provável que este sítio tenha sido o primeiro centro cerimonial Olmeca, entretanto, sua construção inicial não parece ter sido feita por membros dessa civilização. Parece ser mais antiga. Segundo estudos, os Olmecas devem ter chegado à região por volta de 1200 anos antes de Cristo e lá teriam encontrado um povo que já a habitava de forma precária. Há sinais de batalha e de incêndios bem antigos, o que pode denotar que os Olmecas teriam aniquilado os habitantes mais antigos e tomado posse de seu território.

    Depois da conquista do território, os Olmecas começam a desenvolver sua civilização no local. Ocorre um aumento populacional muito grande e provavelmente se forma a casta governante composta por sacerdotes, ao que tudo parece indicar, mas também poderiam ser guerreiros (ou ainda sacerdotes-guerreiros).

    Em torno do primeiro século de ocupação da região é construído o platô de San Lorenzo e é possível que o sítio com esse nome (excluídos Potrero Nuevo e Tenochtitlán) tenha se tornado sede de governo dos Olmecas.

    É possível que tenha ocorrido um aumento populacional muito expressivo devido às boas condições de plantio e de pastoreio (não havia bovinos, nem eqüinos, mas ainda assim havia animais aos quais se domesticar, um exemplo eram os cachorrinhos sem pêlos do México, outro, os perus) e que, sendo assim, os governantes tenham incentivado seus súditos a realizar uma expansão para outras regiões.

4.1.2 – Tres Zapotes (1500 – 1200 a.C.):

    Tres Zapotes, também conhecida como Hueyapan, era uma localidade habitada há muito tempo por populações nativas (ou que haviam chegado à região bem antes do Olmecas), possivelmente havia um centro cerimonial razoável e até alguns guerreiros a serviço de uma possível elite naquela região, porém, nada muito elaborado. Alguns chegam a afirmar que os habitantes originais de Tres Zapotes eram verdadeiro semi-nômades só estacionados naquele sítio.

    Possivelmente esses povos que habitavam Tres Zapotes estivessem criando problemas para o nascente poderio de San Lorenzo, por esse motivo, a casta governante teria enviado tropas àquela região e exterminado com essas populações (talvez tenha havido escravizações ou até assimilações de sobreviventes), o fato é que em meados do século XII a.C., Tres Zapotes passa a ser ocupado pelos Olmecas. Era, possivelmente o início da expansão daquele povo.

4.1.3 – Tres Zapotes (1200 – 600 a.C.):

    Depois que a cidade foi ocupada pelas tropas Olmecas iniciou-se a construção de melhorias e de monumentos. Com efeito Tres Zapotes tornou-se um verdadeiro centro cerimonial Olmeca, sendo ali encontrada a primeira das Cabeças Colossais. Também em Tres Zapotes foi encontrada uma outra Cabeça Colossal tão instigante quanto as demais, mas por outro motivo: suas feições não eram negróides, mas sim mongolóides, o que pode sugerir algum contato com países do Extremo Oriente.

    Entre 1200 e 600 a.C., Tres Zapotes foi um centro cerimonial de razoável importância dentro do contexto da Zona Metropolitana Olmeca, no entanto, não há nenhum indício que nos leve a crer que esta cidade tenha sido a casa de qualquer tipo de sistema de governo Imperial.


Cabeça colossal sem feições negróides

4.1.4 – La Venta (1100 – 1000 a.C.):

    A exemplo de Tres Zapotes e também de Potrero Nuevo e de Tenochtitlán (essas duas últimas, por se localizarem nas proximidades de San Lorenzo, devem ter sido as primeiras a serem ocupadas), La Venta deve ter sido ocupada por Olmecas oriundos de San Lorenzo. Também a exemplo de Tres Zapotes, La Venta era ocupada anteriormente por populações não Olmecas, entretanto, diferentemente daqueles centros, em La Venta parece ter havido algo incomum.

    Depois da guerra de conquista que, assim como as demais, parece ter sido rápida e vitoriosa para o lado Olmeca, ao invés de se iniciar a edificação de mais um centro cerimonial comum como o de Tres Zapotes, ocorreu sim a construção de um dos maiores monumentos do mundo Olmeca: a Pirâmide de La Venta.

    A Pirâmide de La Venta parece ter sido a primeira Pirâmide da Mesoamérica, dessa forma, os Olmecas teriam criado um novo estilo arquitetônico, no entanto, segundo os poucos Arqueólogos que tiveram a felicidade de visitá-la antes de sua destruição pelas instalações da PEMEX, ela não tinha o mesmo objetivo das Pirâmides de Maias e Astecas; ou seja, ela não havia sido construída para servir de pedestal a um templo. Ao contrário, ela havia sido construída para servir, ao que parece, como um monumento por si só. Ao que parece, ele lembraria um vulcão, fato que comprovaria que os Olmecas seriam um povo oriundo de regiões montanhosas (ou ainda que, há exemplo de povos como os Incas, eles cultuassem montanhas como deuses).


Piso em mosaico com a cabeça de um Jaguar, mais
um dos monumentos de La Venta

    No entanto, ainda há que se solucionar uma questão: por que os Olmecas escolheram La Venta para construir uma verdadeira cidade de luzes, como o fizeram? Teria o lugar algum significado religioso prévio ou teriam os Olmecas se encantado com a localização do sito (La Venta ficava numa ilha fluvial)? Ainda há a possibilidade de a guerra de conquista ter sido muito trabalhosa de ser vencida, o que justificaria a construção de um monumento em homenagem à sua vitória. O fato é que da expansão inicial dos Olmecas, La Venta parece ter sido a última parada.

    Talvez realmente a guerra de conquista de La Venta tenha sido muito trabalhosa e, por isso, os Olmecas tenham decidido reter temporariamente os seus impulsos expansionistas. Além disso, há que se pensar que o contingente populacional acumulado por San Lorenzo em pouco mais de um século não permitiria uma expansão desenfreada que perdurasse por muito tempo.



4.1.5 – La Venta (1000 – 800 a.C.):


Mapa de La Venta, a Capital Olmeca
    Depois do estabelecimento de um centro cerimonial Olmeca em La Venta, os dois séculos que se seguiram viram a cidade receber um número muito grande oferendas votivas. Há um número de enterramentos cerimoniais (em geral machadinhas de pedra gravadas) e, certamente há uma presença cerimonial muito forte na região, o que faz com que a teoria de que a região talvez tivesse algum significado religioso importante para os Olmecas seja reforçada.

    A civilização Olmeca aqui se desenvolve de uma forma peculiar, mas que é a tida como a mais verdadeiramente Olmeca de todas. Praticamente não existem cerâmicas nesse período, o que denota que não devia haver população fixa, apenas talvez um reduzido número de sacerdotes e de guerreiros (ou sacerdotes-guerreiros) que administrasse a cidade. Não parece ter havido vilarejos periféricos a La Venta nesse período, no entanto, a construção de monumentos e palácios ia de vento em popa.


    La Venta parece ter estado, neste período, para os Olmecas assim como Teotihuacán esteve para os Astecas, ou seja, seria sua capital espiritual.

4.1.6 – San Lorenzo (900 – 600 a.C.):

    Depois de sua fase expansionista inicial, San Lorenzo (mais uma vez excluídas Potrero Nuevo e Tenochtitlán) estagnou-se. Num dado momento parece que todos os esforços financeiros que inicialmente estiveram voltados para a expansão e conquista de outras regiões haviam se transformado em esforços religiosos e culturais, sendo que, à partir do ano 1000 a.C, as oferendas e o embelezamento de La Venta pareciam ser as únicas coisas a importar para a casta governante Olmeca.

    Todo o século X a.C. foi marcado por uma certa desmilitarização Olmeca, o que pode ter ocasionado uma das duas seguintes coisas:


Exemplo de estátua com os braços
articuláveis


    1ª) Frente aos pesados tributos que seus governantes lhes impunham e frente a um nítido desinteresse destes em relação a sua cidade, em detrimento de seu recente interesse em sua bela capital espiritual (La Venta); a isso somadas a facilidade da desmilitarização constante e a revolta devido aos privilégios da casta governante em relação às demais pessoas. Os Olmecas de San Lorenzo teriam se revoltado e, insurgidos, derrotado a casta governante de modo a quebrar todo o sistema que se havia estabelecido até então. O centro cerimonial teria sido queimado e abandonado e os poucos sobreviventes da casta governante teriam ido se refugiar em La Venta (ou ainda, seriam justamente os que estivessem em La Venta durante a insurreição). Depois da deposição dos governantes, os clãs teriam passado a viver por conta própria em seus respectivos vilarejos e San Lorenzo teria deixado de ser um centro cerimonial Olmeca, ficando abandonado.

    2ª) As guerras de expansão e conquista realizadas nos séculos XI e XII a.C. teriam expulsado vários povos de suas terras. Muitos dos membros dessas populações foram exterminados nas batalhas, outros foram escravizados ou assimilados pelos Olmecas e continuaram vivendo onde viviam, mas sob a tutela Olmeca. No entanto, muito deveriam ter fugido e se refugiado em comunidades fora dos pântanos da Zona Metropolitana. Esses indivíduos teriam criado toda uma cultura de ódio àqueles que lhes expulsaram das terras onde a água é abundante e a colheita é fértil e, depois de cerca de 150 anos, ao verem o enfraquecimento de seus inimigos, resolveram se vingar. Realizaram um ataque maciço à capital daquele povo visando acabar com suas estrutura de poder. O ataque pode ter-lhes custado a vida de milhares de pessoas (sempre é difícil realizar um cerco, ainda mais quando não se tem tecnologia de cerco) e, sendo assim, não lhes foi possível conquistar o centro cerimonial derrotado (além disso, os Olmecas sobreviventes podem ter ateado fogo em San Lorenzo para evitar que suas coisas caíssem nas mão dos inimigos). Esses povos teriam se enfraquecido definitivamente com esse (ou esses) ataque e, sendo assim, nos anos seguintes teriam sido exterminados (ou conquistados) pelos Olmecas em seu renovado ímpeto expansionista.

    Qualquer uma das duas versões pode ser verdadeira, mas o fato é que por volta do ano 900 a.C. San Lorenzo foi totalmente abandonada depois de sérios sinais de batalha. A cidade ficou abandonada por cerca de trezentos anos e, nesse período foi, repetidas vezes, depredada. As estátuas de San Lorenzo (inclusive as Cabeças Colossais) têm marcas de buracos feitos com um nítido intuito vandalizador, não com o intuito de saque para a construção de outras coisas. Estátuas decapitadas e desmembradas, construções postas abaixo, afrescos e baixos-relevos riscados... Marcas da revolta de alguém contra a casta dominante Olmeca de San Lorenzo. Ícones brilhantes da arte Olmeca foram totalmente perdidos com esse vandalismo, dentre eles o mais impressionante era realmente uma estátua de braços e cabeça articuláveis, uma maravilha da arte e da engenharia Olmecas.

    Depois da destruição do centro cerimonial de San Lorenzo, as populações dos vilarejos periféricos permaneceram habitando onde estavam, o que leva a crer que a primeira hipótese para a destruição do sítio é a mais provável, visto que os habitantes, revoltados, iriam freqüentemente demonstrar mais um pouco de sua ira contra os antigos símbolos do poder que lhes oprimia. Além disso, caso tivesse havido um ataque externo maciço, as populações certamente ficariam receosas acerca de outro ataque e, sendo assim, se retirariam, buscando o abrigo de outro centro cerimonial Olmeca.

4.1.7 – La Venta (800 – 450 a.C.):

    Depois da destruição de San Lorenzo, La Venta começou a se tornar o principal centro cerimonial da cultura Olmeca. Começa a haver um aumento das populações periféricas, mas, principalmente, uma movimentação maior de vida no próprio centro cerimonial.

    É possível que depois da destruição das antigas elites governantes, a nova elite (agora radicada em La Venta) tenha se composto de uma forma diferente. É provável, segundo as indicam as próprias tradições Mesoamericanas, que os Olmecas tenham passado a ter um (talvez dois) governante apenas, sendo assistidos por uma espécie de Conselho de Notáveis. O governo de um único indivíduo é muito mais eficiente em tempos de conflitos, afinal, as ordens são dadas e executadas de uma forma direta (além disso, o costume Mesoamericano era que os povos fosse governados dessa forma, por um Tlatoani (algumas vezes, como no caso Asteca, assistido por um segundo governante) aconselhado por uma espécie de Senado; os povos Mesoamericanos desenvolveram um governo que (apesar de diferente em muitos pontos) se assemelhava em muitos pontos à República Romana).

    Depois do susto que a destruição de San Lorenzo lhes causou, os novos governantes se tornaram muito mais militaristas do que os anteriores um dia haviam sido. Inicialmente os Olmecas passaram a se recompor militar, política e financeiramente do desastre do final do século X a.C., mas por volta do início do século VI a.C. estavam prontos para reiniciar sua expansão e entrar na era de ouro da cultura Olmeca.

    A partir de La Venta os Olmeca se expandiram muito (como veremos mais adiante) e, além de reunificarem a Zona Metropolitana, chegaram a conquistar (ou mais provavelmente colonizar) regiões muito distantes.

    As pedras de La Venta agora eram buscadas nas montanhas e Los Tuxtlas, há mais de 100 km de distância da cidade, o que indica um imenso poderio Olmeca nesse período. Foi também nesse período que podem ter ocorrido os principais contatos com povos estrangeiros (caso tenha havido algum, como veremos mais adiante) e também foi nesse período que se desenvolveram até o apogeu as artes, a religião e a cultura Olmecas. É possível que nesse período tenham sido descobertas a escrita e o calendário.

4.1.8 – San Lorenzo (600 – 400 a.C.):

    Depois da destruição de San Lorenzo, por volta de 900 a.C., qualquer vestígio de uma unidade Olmeca desfez-se no ar. Tenochtitlán e Potrero Nuevo, bem como Tres Zapotes ficaram ao léu, cada qual tendo se tornado uma espécie de cidade independente. O período que vai da destruição de San Lorenzo até o ano de 600 a.C. foi uma espécie de “Idade das Trevas” Olmeca.

    Porém, por volta de 600 a.C., La Venta já era poderosa militarmente e tinha um contingente populacional grande o suficiente para poder iniciar sua expansão. Os povos dos vilarejos que outrora estavam na periferia de San Lorenzo foram submetidos; e o próprio centro cerimonial reocupado. San Lorenzo estava em ruína depois de trezentos anos de pilhagens, vandalismo e ação da natureza. Por isso, teve que ser reconstruída.

    Reconstruir uma obra faraônica como a antiga capital (lembrem-se que ela era edificada sobre um platô artificial) foi algo que custou muito aos Olmecas, mas também foi algo que os governantes de La Venta só devem ter se proposto a fazer por conhecerem muito bem a História de seu povo e, sendo assim, tentarem resgatar sua glória passada.

    A reconstrução de San Lorenzo deixou a cidade novamente habitável, mas com seu centro cerimonial sendo nada mais do que uma réplica em tamanho reduzido do que o fora no passado. O período, da História de San Lorenzo, que se seguiu desde a reconstrução da cidade por La Venta até o seu novo abandono, por volta do século IV a.C., é conhecido como período Palangana.

    La Venta conquistou também os centro cerimoniais de Potrero Nuevo e de Tenochtitlán. Neste último há vários indícios de que tenham construído um campo para a prática do Jogo de Pelota, mas tarde chamado de Tlachtli, sendo assim, sua expansão não teria sido apenas militar, mas também cultural e não há indícios que comprovem que tenha havido grande resistência dessas cidades em se renderem à autoridade de La Venta. É possível que tenham se rendido diplomaticamente para evitar uma guerra e ainda receber melhorias, como, por exemplo, o campo de Tlachtli, em Tenochtitlán.

    San Lorenzo (Potrero Nuevo e Tenochtitlán incluídas) ficou sob o domínio de La Venta até o final do século IV a.C., quando finalmente a civilização Olmeca chegou a seu fim (como veremos mais adiante).

    Depois de ter sido novamente abandonada, por volta de 300 a.C., San Lorenzo e suas cidades vizinhas só voltaram a ser reocupadas por volta do ano 900 d.C., quando o civilização Olmeca já estava extinta há mais de 1000 anos.

4.1.9 – Tres Zapotes (600 – 100 a.C.):

    A exemplo de San Lorenzo, Potrero Nuevo e Techtitlán, Tres Zapotes também foi reunida ao núcleo Olmeca depois de ser conquistada por La Venta
.
    A cidade nunca teve grande importância no contexto político-econômico e militar Olmeca, sua importância, no entanto reside em dois fatos principais: a Cabeça Colossal com feições mongolóides e o fato de ter sido a única cidade Olmeca a continuar existindo mesmo depois do fatídico século IV a.C., que levou consigo a civilização Olmeca.

    É possível que a explicação para o declínio da civilização Olmeca resida nas ruínas de Tres Zapotes. Isso porque, à partir do século III a.C. a cidade passa a se transformar cada vez mais numa cidade Maia, chegando a ter, por um certo período de tempo, elementos sincréticos das duas culturas. Pode-se ver nitidamente em Tres Zapotes elementos típicos de cidades Maias como Kaminaljuyú e Izapa, além de ícones Maias mais tradicionais como a cabeça troféu. É muito provável que Tres Zapotes tenha, numa certa época de sua existência, passado a cultuar os Deuses Maias e a praticar sacrifícios humanos.

    Depois de 100 a.C. já não é mais possível encontrar traços da cultura Olmeca em Tres Zapotes, o centro havia completado sua transição rumo à cultura Maia. Sua História, como centro cerimonial, ainda perduraria por muitos e muitos anos, até o declínio da cultura Maia, por volta do século  d.C..

4.1.10 – La Venta (450 – 350 a.C.):

    Em meados do século V a.C. a cultura Olmeca (baseada em La Venta) começa a entrar em declínio. Inicialmente as rotas de comércio vão tendo seus fluxos diminuídos; depois é perdido gradualmente todo o contato com as colônias, depois a própria autoridade de La Venta sobre os centros da Zona Metropolitana começa a se enfraquecer até que, por fim, por volta de 350 a.C., a cidade é completamente abandonada não restando sequer um habitante seja do povo seja das elites.

    Muitos anos depois do abandono de La Venta (que ao que parece foi pacífico e não em decorrência de uma guerra, como aconteceu em San Lorenzo) a cidade teve o mesmo destino que a antiga capital havia tido no período em que esteve deserta, ou seja, foi ataca, vandalizada, saqueada (sendo que até mesmo as oferendas e, talvez os cadáveres, foram desenterrados) e queimada. O motivo de tais agressões permanece um mistério, mas, como veremos mais adiante, nos é possível especular sobre os motivos que levaram ao fim dessa que talvez tenha sido a primeira civilização a alcançar o estágio de alta cultura em toda a América Pré-Colombiana.

4.2 – A Expansão Territorial:

    No período que vai de 600 a 450 a.C., como já foi referido, a cultura Olmeca, radicada em La Venta, estava em franca expansão. A nova elite já estava totalmente reconstituída da destruição de San Lorenzo, em 900 a.C. e a gora estava pronta para reunificar o povo Olmeca. Depois de feito isso, os Olmecas não pararam, seu poderio só fazia crescer e, sendo assim; agora com o advento do apoio populacional de Tres Zapotes, Potrero Nuevo e Tenochtitlán; partiram rumo à conquista de novas terras. Essas conquistas levaram a civilização Olmeca a se estender por uma área muito vasta, áreas esta que, como já afirmei anteriormente, viria a se transformar (a grosso modo) no que hoje conhecemos como Mesoamérica.

4.2.1 – Os Vales de Oaxaca:

    A primeira região fora da chamada Zona Metropolitana com a qual os Olmecas mantiveram contato foi a região dos Vales de Oaxaca. Uma região de vales cercados de montanhas onde tremores de terra são uma constante.

    Ao que parece, os primeiros contatos dos Olmecas com esta região que se situa exatamente ao sul-sudeste da Zona Metropolitana se deram por volta do ano 1100 a.C. e, portanto, ainda no período de preponderância de San Lorenzo, durante a primeira fase da expansão Olmeca e conseqüente formação da Zona Metropolitana.

    Como se sabe, esta região foi o berço de duas importantes culturas Mesoamericanas: Zapotecas e Mixtecas. Os primeiros são nitidamente mais antigos do que os últimos tendo surgido como civilização por volta do século V a.C., sendo assim, ainda na época Olmeca.

    Os indícios arqueológicos apontam para contatos pacíficos e comerciais entre os Zapotecas primitivos (anteriores, por exemplo, à edificação de Monte Alben, o maior centro daquela cultura) e os Olmecas centralizados em San Lorenzo. Isso pode denotar uma série de coisas.

    Primeiramente é interessante notar que contatos comerciais geralmente se davam através de acordos Estatais, ou seja, entre os governantes das diferentes regiões, sendo assim, depois da destruição de San Lorenzo, a nova elite de La Venta teria se apressado em continuar os contatos comerciais que já mantinha quando estava em San Lorenzo para não perder muito de seus rendimentos financeiros. Isso teria sido facilitado por dois fatores: inicialmente, La Venta era muito mais próxima dos Vales de Oaxaca do que San Lorenzo ou qualquer outro centro cerimonial da Zona Metropolitana. Em segundo lugar, quem quer que tenha destruído a antiga capital Olmeca, não estava interessado em (ou não tinha meios para) expurgar completamente essa civilização, sendo assim os contatos comerciais Olmecas não devem ter sido abalados.

    É possível que os Zapotecas primitivos fossem muito mais atrasados do que os Olmecas, mas que lhes servissem como bons peões em alguma causa (talvez fossem uma espécie de zona tampão ou coisa de gênero), por esse motivo e ainda talvez por um escasseamento de recursos depois da formação da Zona Metropolitana (ou ainda por uma mudança súbita nos interesses da civilização Olmeca, fazendo tornar-se religiosa no lugar de expansionista, como já foi referido), os Olmecas não se empenharam em conquistar a região dos Vales de Oaxaca, limitaram-se a contatos amistosos.

    As duas regiões, entre 1100 e 900 a.C., mantiveram uma relação de simbiose, sendo que os Olmecas se favoreciam dos produtos dos povos de Oaxaca (como a magnetita e a hematita) e estes, por sua vez, recebiam (à conta gotas) avanços culturais e tecnológicos daqueles com quem mantinham relações.

    Depois de 900 a.C., com a destruição de San Lorenzo, parecem estreitar-se mais os laços entre os Olmecas e os Zapotecas primitivos. É justamente entre 900 e 600 a.C. que Mitla, outra grande cidade Pré-Colombiana da região é fundada, possivelmente com o patrocínio Olmeca. Além disso, os primeiros trabalhos de construção de Monte Alban também se iniciam nesse período (é verdade que a cidade só ficaria completamente pronta por volta de 400 a.C.), possivelmente com a ajuda dos Olmecas.

    Provavelmente os Olmecas de La Venta estivessem interessados em criar uma espécie de Estado Vassalo que lhes ajuda-se no caso de uma nova crise como a que havia ocorrido em San Lorenzo. Mixtecas e Zapotecas passam a guardar uma dívida cultural imensa com os Olmecas. Seu estilo arquitetônico, sua escultura e até, possivelmente sua forma de governo haviam sido inspirados nos correspondentes Olmecas. É certo, no entanto, que estas civilizações não foram um prolongamento da civilização Olmeca, apenas têm para com ela uma forte dívida cultural (é possível que nem sequer tivessem chegado ao estágio evolutivo ao qual chegaram sem os impulsos Olmecas, mas isso não lhes tira o mérito próprio), nada mais.

    Por volta de 640 a.C., um centro cerimonial dos Vales de Oaxaca chamado Monte Negro foi completamente destruído por um incêndio. Os Arqueólogos acreditam que este incêndio se deveu a uma batalha perdida e, talvez isso seja um indício de que a região realmente fosse uma zona tampão para os Olmecas, visto que dentre todas as cidades da região, Monte Negro era, talvez, a que mais sofresse a influência Olmeca, representando realmente uma espécie de posto avançado daquela civilização.

    Pode-se dizer que os Vales de Oaxaca e, conseqüentemente, as civilizações Mixteca e Zapoteca, tenham sido Estados agregados ao poderio Olmeca e mais, tenham sido as responsáveis pelo engrossamento do poder de La Venta e, dessa forma, tenham possibilitado a expansão daquela cidade.

4.2.2 – O Planalto Central Mexicano:

    Esta região é hoje a mais importante do México, pois é lá que se situa a Cidade do México, sua capital. Desde o período Asteca e até antes, no período Tolteca (quando Tula era a capital) tem sido assim, mas nem sempre foi dessa maneira. No período Olmeca a região do Planalto Central Mexicano era extremamente atrasada, com tribos nômades convivendo com tribos semi-nômades e recém assentadas. O único atrativo dessa região para uma cultura tão mais avançada como a Olmeca foi realmente a diversidade de produtos, visto que, devido à altitude elevada da região, o clima se torna radicalmente diferente daquele encontrado na Zona Metropolitana e, sendo assim, a região produz gêneros bem diferentes daqueles que eram comuns aos Olmecas.

    Os primeiros contatos com esta região também se deram na época de preponderância de San Lorenzo (1200 – 900 a.C.), mas neste período é possível que os Olmecas apenas tivessem mapeado a região (isto é modo de dizer, não há indícios de que os Olmecas conhecessem a tecnologia da confecção de mapas, mas mapear não significa apenas fazer mapas, mas também, conhecer) e estabelecido contatos amistosos. Talvez um pseudo-comércio baseado em escambo. Nada mais do que isto.

    É muito provável que entre 900 e 600 a.C. todos os contatos entre os Olmecas e essa região tivessem se extinguido, de modo que só fossem ser restabelecidos depois do início da expansão de La Venta, no século VI a.C..

    Por volta do século VI a.C. em diante é possível constatar um aumento muito grande de artefatos Olmecas encontrados na região. Esses artefatos variam desde espelhos de hematita até estatuetas do Deus Jaguar, mas nesta região há uma espantosa incidência de um tipo de estatuetas Olmecas que são, no mínimo, curiosas. As chamadas estatuetas Baby-Face.

    Estas estatuetas representam bebês (há controvérsias se representam realmente bebês, a mim parecem mais homens adultos) totalmente desnudos, mas sem nenhuma marca de definição sexual. O mais intrigante é que os rostos de tais imagens são muito semelhantes às feições características dos povos orientais (se assemelham a homens Chineses).


Exemplo de figura baby-face, muito
comum no Planalto Central Mexicano


    É possível que os Olmecas tenham iniciado uma forte rota de comércio com esta região, de modo que os produtos das zonas mais frias do México pudessem chegar à Zona Metropolitana. Para manter organizada uma região que não dispunha de estruturas de governo nem de civilização avançada os Olmecas de La Venta devem, possivelmente, ter instalado na região uma espécie de sede de armas, ou seja, um posto militar onde tropas permanecessem aquarteladas sob as ordens de algum dignatário de La Venta para obrigar os nativos a produzir e entregar aquilo que os Olmecas quisessem. Se tal prática tiver realmente ocorrido, então este pode ter sido, juntamente com a inevitável expansão da religião Olmeca, o ponto de base para o surgimento dos Estados posteriores do Planalto Central Mexicano, dos quais o primeiro foi Teotihuacán, por volta de meados do século II a.C..

    Não a toa que o Planalto Central Mexicano se tornou (no futuro, perdurando até hoje) a região mais importante do México, afinal, ela têm água, solos férteis e o mais importante: defesas naturais contra invasores e boa localização geográfica (fica praticamente no centro do país). Sendo assim, muitos pesquisadores acreditam que o domínio dessa região (um importante ponto estratégico) pelos Olmecas possibilitou os grandes passos seguintes que sua expansão daria.

4.2.3 – O Oceano Pacífico:

    Esta região é a mais difícil de se estudar e de se enquadrar dentro do panorama Olmeca. Nela há muitos vestígios dessa civilização, mais vestígios do que seria de se esperar de uma colônia tão distantes da Zona Metropolitana, principalmente porque os Olmecas não possuíam estradas, apenas, talvez algumas picadas na mata, o que dificultava muito a comunicação entre essas duas regiões.

    No entanto, o que mais pode vir a nos intrigar é justamente o sítio de Chalcatzingo, onde os vestígios Olmecas são muito abundantes e, sobretudo, mais antigos do que deveriam ser. Digo isso porque segundo a cronologia que se pode acompanhar e que está sendo desenvolvida neste texto, não deveriam haver vestígios Olmecas nessa região que datassem de antes de 600 a.C., uma vez que antes disso La Venta ainda não tinha iniciado sua expansão para além dos limites da Zona Metropolitana. No entanto, a Arqueologia do Estado de Guerrero aponta que os vestígios Olmecas de Chalcatzingo remontam há 900 ou 800 a.C..

    Dessa afirmação podemos extrair que, talvez, os que pensam que os Olmecas sejam oriundos da costa do Oceano Pacífico estejam corretos. Entretanto, apesar dos diversos indícios que podem nos levar a crer nesta possibilidade, temos que nos ater a uma informação muito importante: a Arqueologia de Guerrero é muito pouco confiável, sendo imprecisa e parcial.

    Depois de tomarmos a informação acima em conta, é bom que saibamos que a cultura Olmeca da região próxima ao Pacífico é muito peculiar. Há sítios, como Gualupita, onde a cultura Olmeca acabou sendo fundida à cultura local (mais atrasada), mas com a preponderância desta sobre a invasora. Há também uma grande incidência de pinturas rupestres, coisa que não ocorre na Zona Metropolitana, nem em nenhuma outra área de presença Olmeca confirmada.

    Além das pinturas rupestres, também podemos constatas a existência de templos subterrâneos, localizados em cavernas ou grutas profundas, marcados por baixos-relevos e desenhos, além de um provável culto a uma Deusa da Chuva, um Deus do Milho e, talvez, a uma Serpente Emplumada.

    Se a Arqueologia de Guerrero estiver mesmo enganada à respeito das datas atribuídas a Chalcatzingo, então o mais provável é que a região tivesse sido colonizada de uma maneira semelhante àquela empregada no Planalto Central, ou seja, com um posto (ou postos) militar controlado por um dignatário e com tropas aquarteladas no intuito de, através da força, obrigar os povos ainda não adeptos de formas de governos muito elaboradas a trabalhar segundo a vontade Olmeca.

    Só nos resta saber uma coisa. O que motivou os Olmecas a querer colonizar a costa do Pacífico? Sim, porque o que os motivou a colonizar o Planalto Central teriam sido os produtos exóticos que aquela região poderia proporcionar, mas a costa do Oceano Pacífico não produzia nada tão estranho aos costumes Olmecas que justificasse sua colonização. Para isso a explicação é das mais simples. Um exame mais acurado nos objetos de jade Olmeca nos mostra que boa parte das jades e jadeítas  utilizadas pela cinzelagem daquele povo são oriundas de minas localizadas nas proximidades do rio Balsas, perto do Pacífico. O controle de minas de jade justificaria um contingente grande (para impedir roubos), mas compacto (apenas ao redor das minas e acompanhando as caravanas que levavam a jade até a Zona Metropolitana), sendo assim, é possível que a vida daqueles povoados coloniais se restringisse às cercanias das minas que, em geral são subterrâneas, o que explicaria a presença única de templos, afrescos e baixos-relevos em cavernas e grutas.

4.2.4 – A América Central:

    Provavelmente a influência Olmeca na América Central e Sul do México não foi tão forte quanto aquela exercida nos Vales de Oaxaca, no Planalto Central ou na costa do Pacífico. Há poucos indícios de centros cerimoniais dessa cultura, se bem que existam muitas peças de arte Olmeca menor.

    Devemos, no entanto, levar em consideração que peças pequenas (estatuetas, medalhões, lanças...) não indicam uma presença real de uma civilização numa dada região, apenas a difusão de sua cultura até aquele ponto. Indicativos verdadeiros da presença de um povo num local são palácios, estátuas grandes, baixos-relevos detalhados, ou seja, bens imóveis cuja edificação só se justificaria se membros daquele povo tivessem a real intenção de habitar aquela região por um período de tempo razoável.

    O atual Estado de Chiapas (uma região onde a presença Maia foi muito forte, visto que constituía parte da Área Central daquela cultura, porção que foi a segunda a ser ocupada pela expansão Maia, segundo os estudo realizados) é uma região muito rica em vestígios Olmecas. Ele não fica muito distante ao sul dos Vales de Oaxaca e, sendo assim, é possível que sua penetração pelos Olmecas tenha atiçado a fúria dos Maias e originado guerras, talvez até o ataque a Monte Negro (como já foi referido), talvez fosse contra os Maias da Área Central que os Olmecas desejassem se proteger utilizando para isso o seu possível Estado tampão de Oaxaca.

    Xoc, uma região muito distante da Zona Metropolitana, parece ter sido uma tentativa Olmeca de estabelecimento dentro do país Maia. Isso porque lá as esculturas são muito bem trabalhadas e a arte em geral lembra muito a de La Venta. Talvez fosse uma tentativa de impressionar pela grandioside.

    Em Pijiapán, há baixos-relevos Olmecas que estão com os rostos raspados num evidente esforço de tornar inidentificáveis as feições que estavam entalhadas. É possível que a cidade tenha sido conquistada e os Olmecas tenham sido expulsos, dessa maneira, o povo que os conquistou quis se livrar da imagem dos inimigos.

    O Xoconochco, a região que os Astecas mantinham sob seu controle dentro das Terras Altas Maias (a primeira parcela do país Maia a ter sido ocupada, possível berço dessa civilização e que foi densamente povoado entre 1500 a.C. e 400 d.C., para depois praticamente ser esvaziada, na época Asteca), parece ter sido uma importante zona de passagem de caravanas Olmecas. Há muitos indícios de um freqüente trânsito de mercadores daquele povo nessa região, no entanto, não há indícios de que os Olmecas tenham se fixado ali. É interessante notar que antes do período Maia Clássico (que só se inicia por volta de 200 d.C.), as Terras Altas eram o principal centro da civilização Maia. Por isso, é muito provável que as caravanas de mercadores Olmecas tivessem que pagar tributos para poderem passar por aquela região e, os vestígios daqueles tributos são hoje encontrados em Xoconochco.

    O mais meridional vestígio comprovadamente Olmeca encontra em El Salvador, no sítio de Las Victorias e trata-se de um baixo-relevo, o que indica (como já foi referido) uma presença mais duradoura e até uma possível ocupação.

    É possível que minas de jade na Costa Rica tenham atraído mercadores Olmecas, no entanto a presença duradoura não é comprovada, o que é mais provável é que, na impossibilidade de estabelecer uma colônia para forçar os nativos a extrair jade para eles, os Olmecas tenham se contentado em comercializar o minério com os nativos que já o extraíam por si próprios. Uma guerra tão longe de cãs e no seio do território Maia não seria muito sábia.

    Por fim, nas proximidades de Tonalá (que apesar de ser homônima do rio onde se situava La Venta, não é próxima a ele), na cidade Tzutzuculi, a presença Olmeca parece ter sido forte entre os anos de 545 e 340 a.C.. Entretanto, o centro cerimonial não parece ter sido Olmeca, mas sim, dominado por eles, visto que há vestígios de uma população muito vasta para ser Olmeca, afinal, a região se situava muito distante da Zona Metropolitana.

4.2.5 – Chavin de Huantar: Olmecas na América do Sul?

    Assim como os Olmecas estão para a Mesoamérica, a civilização de Chavin de Huantar está para as civilizações da América Andina. Também não se sabe seu verdadeiro nome, sua forma de governo, se formou ou não um Império ou mesmo quais tecnologias conhecia. Sobre Chavin de Huantar sabe-se apenas duas coisas (quer dizer, não apenas, mas são estas as duas coisas de maior relevância para este texto): que este sítio arqueológico foi, por muito tempo, uma espécie de Teotihuacán Andina, ou seja, um centro de peregrinações mesmo depois de abandonado e que fora o centro de uma religião que tinha como Deus um certo Deus Jaguar.

    Calcula-se que o estilo Chavin date aproximadamente do ano 1200 a.C., mas o centro cerimonial é muito mais recente, tendo sua construção iniciada não antes de 800 a.C.. Certamente Chavin de Huantar não foi o centro gerador da cultura que difundiu, mas o marco do início de seu apogeu.

    Para alguns, a mera semelhança de credo entre Chavin e os Olmecas (o Deus Jaguar) já é o bastante para afirmar que a cidade Sulamericana teria sido fundada ou, ao menos conquistada, por aquele brilhante povo Mexicano. As teorias que falam sobre contatos entre a América Andina e a Mesoamérica são muito fortes, em especial no período imediatamente anterior à conquista, quando uma estava dominada pelo Império Inca e a outra pelo Asteca, ambos Estados fortes, expansionistas, centralizados e organizados o suficiente para empreenderem expedições (mesmo que meramente diplomáticas) a terras tão longínquas. No entanto, se formos acreditar na teoria que diz que a América foi povoada à partir do Estreito de Bering, então, temos que pensar que os homens da América Central e do Norte (incluindo os da Mesoamérica) teriam um dia vindo para o Sul e se tornado os homens da América do Sul, sendo assim, não haveria o porque de se estranhar os contatos entre a Mesoamérica e a América Andina, visto que esta só teria se formado devido a migrações de populações daquela.

    Entretanto, como afirmei no início de meu texto, existem teorias (que cada dia são menos vistas como absurdas) de que o homem poderia ter chegado à América em levas marítimas oriundas do Extremo Oriente, levas essas motivadas pela vontade desesperada de fugir da Era Glacial. É claro que à História dos vencedores (e o que são os países da América do Norte hoje perante o mundo senão os vencedores?) é muito mais interessante que suas raízes se mostrem originais e que, de uma certa maneira, o restante do mundo (ou, no caso, do continente) seja considerado como o seu “quintal” por comprovações (parciais, eu diria) arqueológicas. Dessa forma, não é de se estranhar que a historiografia oficial (a dos vencedores) esteja demorando tanto em aceitar como possível a teoria da chegada via mar, afinal (como já referi anteriormente), quem fugiria do frio do norte indo mais para o norte ainda?

    Se levarmos em consideração as teorias de que o homem possa ter chegado à América pelo mar, fica mais fácil de se explicar várias coisa, dentre elas, o porque do nível de “civilização” ter sido alcançado na Mesoamérica e na América Andina na mesma época, coisa que não seria muito lógica, se a segunda tivesse sido povoada posteriormente e, conseqüentemente, tivesse sido submetida a todo um processo pré-civilizatório tardio em relação à primeira.

    Ainda levando em conta a teoria de que o homem teria chegado à América pelo Oceano Pacífico, nós poderíamos pensar que talvez o culto ao Deus Jaguar tivesse surgido em Chavin, por volta de 1200 a.C. e que, de lá, tivesse se difundido (como realmente se difundiu por toda a América Andina) até a Mesoamérica, sendo assim, talvez os Olmecas tivessem sido convertidos pela religião de Chavin de Huantar.

    Seguindo, agora, a linha ortodoxa da História, podemos dizer que ultimamente está havendo uma tentativa relativamente grande se modificar as descobertas e de se adulterar datas a fim de fazer com que se acredite que a elite Olmeca, após o abandono inexplicável de La Venta, talvez tenha vindo se hospedar num centro cerimonial distante, na América Andina, que tivesse sido fundado (ou conquistado) por ela no limiar de sua expansão territorial: Chavin de Huantar. A julgar por essa adulteração Histórica, pode-se, no futuro, chegar a conclusões ainda mais geniais (comparáveis àquelas que dizem que um dia houve o Império da Atlântida e que dele surgiram tanto o Egito, quanto os povos da América, porque ambos faziam Pirâmides. Mesmo sendo ambos distantes mais de 1000 anos no tempo e mesmo as Pirâmides de uns não tendo nada haver com as dos outros) de que os Olmecas de Chavin teriam resistido à uma terceira aniquilação e, formado o Império Wari, que depois de aniquilado, teria (através de suas elites (adivinhem... Olmecas) sobreviventes) dado origem ao poderio Inca. Seria, no mínimo interessante, digno de um romance histórico, mas não de uma teoria séria a ser aceita como “verdadeira”.

4.3 – O Império Olmeca:

    Neste sub-item irei tentar abstrair; baseado nos vestígios arqueológicos, mas, sobretudo, em comparações com outras sociedades Mesoamericanas; sobre a forma como estava organizado o possível Império Olmeca.

    Como já me referi, os Olmecas primeiro se estabeleceram em San Lorenzo e, de lá, povoaram a Zona Metropolitana criando vários centros cerimoniais, dentre os quais, os mais notáveis foram Potrero Nuevo, Tenochtitlán, Tres Zapotes e La Venta. Inicialmente, o Estado Olmeca deveria ser uma espécie de Oligarquia Aristocrática, onde apenas um pequeno grupo de pessoas controlava o Estado. Digo isso porque em geral, nas sociedades primitivas não há um rei ou governante centralizado, mas sim uma espécie de conselho, em geral dos mais velhos, ou dos líderes de clãs, onde todos debatem e chegam a uma decisão quase democrática (lembrem-se que a Democracia não conta, necessariamente, com a participação de todos, decisões democráticas são, a rigor, decisões tomadas, dentro de um grupo, levando-se em consideração a opinião da maioria em detrimento da opinião da minoria) sobre as questões. Essa forma de governo era aceita como uma tradição pela população e, ao longo dos tempos, esses governantes podem ter se tornado uma espécie de casta (existem três tipos de divisões sociais: castas (são divisões que não permitem mobilidade social alguma, ou seja, o indivíduo tem seu destino determinado de acordo com o seu nascimento), estamentos (onde existe uma mobilidade social quase inatingível, mas possível, dessa forma, o indivíduo pode se ver como um igual a um membro de um estamento diferente do dele, entretanto, dificilmente poderá mudar sua posição social) e classes (que são, ao menos na teoria, as formas mais justas de divisão social, visto que numa sociedade dividida dessa forma, as pessoas são completamente livre para ascenderem ou descenderem socialmente de acordo com seu próprio esforço, entretanto, este modelo não funciona na realidade, pois as sociedades de hoje, apesar de serem consideradas de classes, assemelham-se muito mais a estamentos na prática de seu dia-a-dia) que controlava a política e, talvez a religião. Outra constante nas civilizações antigas era uma profunda vinculação da religião ao Estado, sendo assim, na maioria das vezes os governantes também tinham poderes devido aos desejos divinos e, às vezes, acabavam por serem considerados verdadeiros semi-deuses.

    Depois da destruição de San Lorenzo, a sede de governo se transferiu para La Venta e é a partir daí que a civilização Olmeca começa a se tornar aquilo que iria ficar para a História como a primeira alta civilização da Mesoamérica.

    Possivelmente a destruição de San Lorenzo se havia dado por causa de uma insurreição popular motivada pela insatisfação com o Conselho Governante. É possível que como sacerdotes, os governantes tenham se esquecido de seus deveres para com o povo e só se lembrado de seus deveres para com os Deuses e, sendo assim, o povo se rebelara e destruira a cidade, provavelmente matando vários (senão todos) dos membros do Conselho Governante.

    Os possíveis sobreviventes (deve-se levar em conta a possibilidade, ainda que remota, pensando-se que a cidade foi destruída, de um dos membros do Conselho Governante ter articulado a destruição dos outros para se tornar o único governante) do massacre migraram para La Venta e lá, resolveram mudar a forma de organização de sua política. Se é que apenas um sobreviveu, esta mudança foi simples, caso contrário, é possível que os sobreviventes tenham se reunido e escolhido entre eles um líder, aquele que estaria encarregado de governar tendo que, para isso, apenas ouvir os conselhos dos demais membros. É possível que o Conselho se reservasse o direito de veto às decisões do Imperador (vou chamar ao governante por este título apenas para ilustrar mais facilmente para o leitor), mas também é possível que, na medida em que o Império cresceu, o Imperador tivesse se tornado uma figura muito superior ao Conselho (agora que apenas um detinha o controle do governo, a possibilidade de que ele fosse considerado uma espécie de semi-divindade passava a ser muito grande). Com efeito, em La Venta, os Olmecas se impregnaram do clima religioso da cidade e se transformaram numa Teocracia.

    Como Teocracia, os desígnios divinos deveriam agora ser mais importantes do que já eram anteriormente, sendo assim, é possível que a expansão que se iniciou no século VI a.C. tivesse sido motivada (ao menos na teoria) por razões religiosas. Talvez a difusão da crença no Deus Jaguar (que será referido mais adiante). A crença no Bebê Jaguar (que será referida mais adiante) poderia estar ligada à figura do Imperador, ou ainda a uma tentativa de se encontrar o verdadeiro Imperador, sendo que aquele que estaria no governo não seria o soberano de direito, mas tão somente um guardião do trono para aquele que um dia viria (uma idéia que não era muito incomum dentro do contexto Mesoamericano, até mesmo Montezuma II tinha essa visão em relação a Carlos V e, em seu nome, a Cortez).

    A expansão Olmeca para fora dos limites da Zona Metropolitana se deu numa velocidade vertiginosamente alta, só mesmo justificável por uma missão divina. É óbvio que interesses financeiros estavam em jogo e, talvez os habitantes de Oaxaca pudessem ser um bom mercado consumidor dos produtos adquiridos nas regiões mais distantes.

    A expansão só pode ter sido realizada na forma de guerras e estas guerras podem ter gerado uma nova divisão (talvez casta) na sociedade Olmeca: os escravos.

    Além de escravos, a expansão de La Venta deve ter criado um novo mundo para os Olmecas. Como enquadrar os habitantes das demais cidades da Zona Metropolitana? Em pé de igualdade com aqueles de La Venta? E os habitantes das populações dominadas? Seriam todos escravos?

    O mais provável é que os Olmecas se tenham dividido da seguinte forma: uma igualdade teórica entre os habitantes das cidades da Zona Metropolitana (digo teórica, porque, o mais comum nos Impérios Mesoamericanos era a formação de Ligas e Alianças, nestas, algumas cidades governavam juntas o Império, como iguais na teoria, mas, na prática, uma das cidades sempre estava em situação de preponderância e acabava controlando até mesmo aqueles que deveriam ser seus iguais); uma situação de neutralidade (mas não de igualdade) em relação às populações dos Vales de Oaxaca; uma situação muito semelhante à pratica da Suserania e Vassalagem Medievais em relação às populações dominadas das colônias e a transformação em escravos (com possíveis sacrifícios humanos) daqueles que houvessem lutado conta os exércitos Olmecas.

    Quanto à situação política das colônias, é possível que os antigos chefes dos povos dominados continuassem a governar seus povos, no entanto, as guarnições Olmecas garantiriam que os desejos dos dominadores seriam cumpridos. Essa política em relação a povos dominados era também comum em toda a América Pré-Colombiana (até mesmo na América Andina), visto que poupava os dominantes de ter que se preocupar com a administração das regiões dominadas, tendo somente que mostrar-lhes freqüentemente a força de seus exércitos. O problema de tal política se verificou, no entanto, na época da conquista, quando os conquistadores se aproveitaram da insatisfação dos povos dominados para uni-los contra seus opressores e assim obter reforços vitais em suas fileiras.

    É possível (como veremos) que a escrita tenha sido desenvolvida durante a expansão, isso porque é muito difícil administrar um Império sem a presença de registros escritos. Caso isso seja verdade, é possível que existisse algum tipo de escola responsável pela educação (instrução nas letras) dos filhos das elites para que no futuro eles viessem a poder controlar o povo utilizando-se de suas fraquezas, no caso, o fato de não saber ler nem escrever.

4.4 – O Outono de um Povo:

    A esta altura já temos esquematizado em nossas cabeças como pode ter sido o Império Olmeca, se é que ele existiu, mas como entender como e por que ele desapareceu?

    Devido à falta de fontes escritas, dificuldades de traduções do pouco que há e escassos vestígios arqueológicos, muitas teorias podem ser criadas para explicar o desaparecimento de civilizações que, num dado momento, entraram em colapso e desapareceram sem um motivo aparente. É bem verdade que o que este texto está se propondo a fazer é justamente criar uma dessas teorias, entretanto, o que diferencia uma teoria válida de uma teoria não válida é o grau de base Histórica e Arqueológica que a abstração do teórico tem. Há livros de ficção e de esoterismo que dão explicações as mais absurdas para as passagens nebulosas da História da Terra. Os autores desses livros costumam se intitular “guardiões da sabedoria perdida”, ou ainda “desvendadores de teorias da conspiração”. Em geral (para não dizer que todos são assim), esses livros não servem para nada além de enganar e, talvez distrair por algumas horas os seus leitores. O problema está no fato de que muitas pessoas vão ler estes livros da mesma forma que lêem a Bíblia (e que, em geral, costumam ler quaisquer coisas que encontram pela frente), ou seja, sem senso crítico. Dessa forma, tornam-se presas fáceis de mentirosos e espertalhões que utilizam de retórica para enganar os menos preparados. Fazem de suas crenças uma espécie de ciência e, sendo assim, ganham dupla legitimidade para o que dizem.

    Como venho salientando ao longo de todo o texto, nada do que está sendo dito aqui é a verdade, não sabemos quase nada sobre os Olmecas, o que este autor está tentado fazer neste texto é dar uma interpretação (baseada em pesquisas arqueológicas sérias, mas nem por isso exatas) para o que pode ter sido a civilização Olmeca, sendo assim, a possibilidade que venho oferecer a vocês de como pode ter ocorrido o eclipse Olmeca é, como acabei de referir, apenas uma possibilidade.

    Toda ordem estabelecida um dia, por mais que esse dia tarde, chega ao fim. A História está aí para comprovar isso. Todos os Impérios que o mundo já viram tiveram suas ascensões, seus apogeus (mais ou menos longos dependendo do poder dos inimigos do Império e da época em que ele existiu) e suas quedas (em geral rápida, mas, às vezes, lenta e gradual).

    No caso dos Olmecas não foi diferente. Eles surgiram das cinzas e para elas retornaram, como diz o velho ditado bíblico. Da forma como desenvolvi a abstração de como pode ter sido a civilização Olmeca, parece claro que num determinado momento, por volta dos séculos VII ou VI a.C., eles acabaram por entrar em conflito com a civilização Maia. É certo que esta civilização ainda não tinha poder suficiente para  confrontar o poderoso Império Olmeca e, sendo assim, inicialmente pareceu ser mais uma povo a ser engolido por sua expansão.

    Inicialmente os Olmecas devem ter tentado penetrar no atual Estado de Chiapas, construindo centros cerimoniais e influenciando as populações, por volta do século VII a.C.. A resposta Maia pode ter sido o ataque e a destruição (pelo fogo) da cidade de Monte Negro, nos Vales de Oaxaca (vizinhos de Chiapas). Isso deve ter feito os Olmecas mudarem sua estratégia e atrasarem sua penetração na Área Central Maia. Queriam antes guarnecer suas defesas e conquistar o Planalto Central, um importante ponto estratégico para a conquista de todo o México.

    Uma vez completadas as conquistas do Planalto Central e da costa do Pacífico, os Olmecas devem ter tentado penetrar no país Maia através de suas partes mais fortes: as Terras Altas (onde estão Izapa e Kaminaljuyú). É possível que acreditassem que se aquela região tombasse, o restante iria junto.

    Devem ter havido algumas batalhas iniciais, por volta de 530 a.C., mas tais batalhas devem ter se decidido em favor dos Maias que, apesar de inferires tecnologicamente, estavam em imensa maioria por estarem se defendendo, além de terem em seu favor o fato de conhecerem o território em que estavam lutando (lembrem-se que os EUA, em pleno século XX, com aviões, radares e tudo o mais, não foi capaz de vencer um grupo de guerrilheiros da selva porque estes conheciam o território em que lutavam. Me refiro à Guerra do Vietna).

    Depois dessa derrota inicial da qual os registros podem ter ser perdido, pois uma batalha na selva, sem armas capazes de danifica-la, realizada há tantos milhares de anos e com tão poucas pessoas envolvidas (sejamos realistas, se mil homens tivessem participado de uma batalha como esta, já teria sido muito) não deixaria realmente vestígios capazes de serem detectados. Os Olmecas podem ter resolvido mudar de tática. Passaram a pagar tributos para poderem passar com suas caravanas pelo Xoconochco, no intuito ou de, através da penetração cultural gradual, criar nos Maias um sentimento que lhes impelisse a se render aos Olmecas na esperança de obter os mesmos benefícios; ou ainda, de, criando cidades dentro e além do país Maia, cerca-los para uma futura invasão maciça (devemos nos lembrar que há vestígios de ocupação Olmeca em Las Victorias, uma cidade muito próxima de Izapa), além disso, com a rota de passagem por dentro das Terras Altas, o conhecimento do terreno (que havia feito a diferença na primeira derrota) estaria garantido.

    Os Maias devem, a certa altura, ter percebido o plano dos Olmecas e iniciado as hostilidades (ou talvez as hostilidade tenham sido iniciadas pelos próprios Olmecas que acreditando já estarem preparados para enfrentar os Maias, começaram a se recusar a pagar os Tributos exigidos para a realização da travessia do Xoconochco).

    Essa guerra teria sido ferrenha, mas, novamente como os Maias estivessem na defensiva, estes teriam levado a melhor desde o princípio (a que se lembrar que mesmo os Espanhóis, no século XVI, tiveram muito trabalho em conquistar as cidades Maias, isso porque nelas até mesmo as mulheres, os velhos e as crianças se defendiam arremessando pedras dos telhados de suas casas).

    Acostumados a guerras, os Olmecas teriam acreditado que seria apenas questão de tempo até que vencessem mais essa, no entanto, só fizeram perder batalhas atrás de batalhas e, junto com elas, as vidas de seus melhores guerreiros, depois daqueles não tão boné, depois daqueles já velhos demais para lutar e, por fim, a daqueles jovens demais. Com efeito, os centros cerimoniais e os vilarejos ao seu redor começaram a ficar menos povoados por volta de 450 a.C.. As guarnições das colônias devem ter tido que ser movidas logo depois dos primeiros revezes e, sendo assim, as populações outrora dominadas, passaram a viver por conta própria, o que também contribuiu com a derrota Olmeca no sentido em que acabava com o abastecimento de produtos que oriundos das colônias.

    Perto do ano 400 a.C., o governo de La Venta deve ter se dado conta de que não poderia vencer a guerra, mas que também não poderia para-la, caso contrário, os Maias acabariam com sua civilização. Também por essa época, Tres Zapotes deve ter se rendido aos Maias, ou por livre e espontânea vontade, ou por ter sido conquistada em um assalto, mas a hipótese que parece mais provável é a de uma mistura das duas coisas, ou seja, deve ter havido um ataque Maia e uma derrota da cidade, em seguida, os administradores do centro cerimonial devem ter se reunido e resolvido se unir aos Maias contra o governo de La Venta.

    Com medo de sofrer o mesmo destino e, possivelmente, ainda mais enfraquecida pela guerra (uma vez que a cidade era menor, pois tinha sido reconstruída assim por La Venta em 600 a.C.), San Lorenzo deve ter sido abandonado por seus habitantes. Outros centros cerimoniais devem ter seguido o seu exemplo, o que desobrigou os Maias de empreender uma onerosa campanha de conquista do território Olmeca.

    Isolada La Venta deve ter tentado se prender em seus aliados Zapotecas e Mixtecas, mas, não obtendo o mesmo resultado que obtivera quinhentos anos antes, começou a encolher. A fome deve ter caído sobre a cidade que deveria contar agora com uma mísera população masculina (quase dizimada pelas guerras). Com a fome devem ter vindo doenças e, é claro, uma diminuição brutal no padrão de vida de todos.

    As guerras devem ter chegado ao seu fim por volta 375 a.C., fim esse propiciado pelo final das investidas Olmecas e pelo abandono gradual das cidades da Zona Metropolitana, o que fez os Maias desistirem da conquista.

    Com medo de invasões e irada com os privilégios da elite (que contrastavam com sua fome) a população de La Venta começou a se sublevar (ou a abandonar a cidade, deixando a elite sem ter quem trabalhasse para sustenta-la) e passou a ser duramente repreendida pelo que restava m das tropas Olmecas.

    Em cinqüenta anos, a situação não melhorou; não tinha como, o desgaste havia sido muito grande; e agora os governantes já não mais podiam contar com um efetivo de tropas grande o suficiente para protege-las de um levante popular. Temendo que o que ocorrera em San Lorenzo há mais de quinhentos anos se repetisse, as elites resolveram abandonar a cidade. Fugiram rumo a algum lugar (que alguns podem dizer se tratar de Teotihuacán (se bem que o centro cerimonial desta cidade só fosse ser construído por volta de 150 a.C.), outros podem dizer se tratar de Monte Alban (onde, como aliados, os governantes Olmecas podem ter sido acolhidos e, através de casamentos, desaparecido, fundidos na elite Zapoteca), ou até Chavin de Huantar (se bem que esta saída me pareça extremamente cinematográfica para ter sido real)) cuja relevância não é muito grande. Foi o fim de La Venta, por volta de 325 a.C. e, com ela, o fim do mundo Olmeca, cuja cultura ainda resistiria em Tres Zapotes por mais um ou dois séculos, mas depois, seria totalmente engolida pela cultura Maia de Izapa e Kaminaljuyú.

    As populações restantes em La Venta, vendo-se livres de seus opressores (pois um Estado falido tende a oprimir ainda mais a seu povo na esperança de manter o status de sua aristocracia), teriam permanecido vivendo na região sem uma autoridade central, ou ainda, sido engolida pela influência de algum centro cerimonial, talvez Zapoteca.

    Passados alguns séculos, os Maias poderiam ter encontrado La Venta desabitada e, tendo em seus registros as memórias da violenta guerra (que também deve ter vitimado muitos Olmecas), devem ter depredado as ruínas daquilo que um dia foi a capital do Império Olmeca.


Continuação