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Desenvolvimento, Civilização e Modernidade: O sonho da industrialização em Feira de Santana Alane
Carvalho Santos
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O
progresso é um imperativo de todo povo realmente capaz. Quem pára está regredindo.
O tempo não transige. É preciso continuar marchando. Marchando para a frente,
para o futuro, para a aurora .Mas o coração reage. Não se desliga facilmente
do que nos trouxe uma ilusão de felicidade.
Dival Pitombo
Feira de Santana é
uma das cidades que mais se destaca no interior da Bahia, desfrutando de
uma localização privilegiada, de um comércio que já é parte integrante de
sua história e contando com um contigente demográfico considerável em relação
aos municípios circunvizinhos.
A
instalação de um centro industrial ocorrida em 1970, significou o início de
novos tempos, o começo de uma nova fase não mais calcada no comércio, setor
mais importante da cidade responsável por boa parte do seu desenvolvimento
econômico. A partir do CIS- Centro Industrial do Subaé, acreditava-se que
a expansão econômica do município seria assegurada
pela industrialização. Ao lado dessa expansão supostamente impulsionada pela
indústria, assistimos à difusão de um ideário desenvolvimentista
que finca raízes na cidade por mais de uma década.
| A
ideologia desenvolvimentista nos moldes cepalinos foi abraçada no Brasil a
partir do governo de Juscelino Kubischek. Nos anos 50 e 60, o discurso da
superação das desigualdades regionais, tendo o Nordeste como um dos seus maiores
catalisadores, fez com que essa ideologia fosse transplantada para os marcos
de uma região. [1] Na
Bahia, a instalação dos centros industriais na capital, contribuiu para
que o crescimento do setor secundário fosse preconizado como agente central
da redução das disparidades. |
JK e o trator: ícone do desenvolvimento |
Apesar
do final dos anos 60 assinalar uma nova fase de expansão econômica no país,
resultado de uma divisão inter- regional do trabalho, na qual as regiões brasileiras
teriam que se especializar em função da expansão capitalista [2] ,
o desenvolvimentismo permaneceu influenciando os principais estados do Nordeste
que se inseriram nessa expansão econômica por meio da especialização de
determinados bens industrializados [3] .
Feira de Santana, o mais importante pólo de desenvolvimento do interior
baiano, dentro desse contexto, sofreu a influência de todo esse ideário
desenvolvimentista a partir da instalação de seu centro industrial em 1970.
Ao se integrar num processo exógeno de integração
econômica, a cidade acabou adquirindo uma nova feição que se disseminou principalmente
por meio dos jornais. A quantidade de jornais que circulavam em Feira de Santana
desde a sua fundação foi bastante reduzido. O primeiro jornal que se tem
notícia na cidade foi O Feirense, fundado em 1862. Uma boa parte dos jornais
existentes na cidade, até meados do século XX, tiveram curta duração, alguns,
inclusive, chegaram a circular menos de um ano. O
único jornal bem sucedido, publicado regularmente e com ampla repercussão
no interior do estado foi o Fôlha do Norte. Na década
de 70, três jornais se destacavam na cidade; eram eles
O Fôlha do Norte (local), O Feira Hoje (local) e o A Tarde (estadual) publicados
diariamente [4] .
Segundo
Mascoviche, esse tipo de comunicação “jamais se reduz à transmissão das mensagens
de origem ou ao transporte de informações inalteradas. Ela diferencia, traduz,
interpreta e combina, assim como os grupos inventam, diferenciam ou interpretam
os objetos sociais ou as representações de outros grupos.” [5]
Sendo assim, o jornal não apenas transmite informação, como difunde novas
e velhas idéias. Importante instrumento de comunicação, eles impõem respeitabilidade
por conduzirem notícias e pontos de vista considerados “verdadeiros”. Em Feira,
a imprensa se constituiu em um significativo instrumento de propagação das
idéias desenvolvimentistas. Ao longo do decênio, foram constantes as manchetes
que mencionavam o progresso e o desenvolvimento da cidade enfaticamente vinculada
à industrialização. Por meio da imprensa feirense, a imagem de uma cidade
moderna, civilizada, progressista e, sobretudo industrial, começava a ser
construída.
O
desemprego, principal problema enfrentado pela cidade, se constituía em um
das maiores justificativas para a implantação do CIS, principalmente depois
que o seu Plano Diretor divulgou uma demanda total de 71.264 empregos (incluindo
o total de empregos diretos e indiretos). Em 1970, foram constantes as manchetes
que faziam alusão à relação direta entre indústria e emprego.
É preciso,
contudo, que a comunidade feirense tome consciência do que representa a industrialização
para o desenvolvimento econômico de sua cidade e mesmo de sua região. Se o
Subaé conseguir se firmar e disso já não se tem dúvida ninguém pode imaginar
os benefícios que tal fato proporcionará a uma extensa
faixa da população que hoje se debate com um grande problema de desemprego.
Essa é uma conquista que temos que defender acima de todas as paixões, pois
a continuação do progresso da
nossa terra perpassa principalmente na opção que fizemos pela industrialização. [6]
Segundo o jornal, a indústria não só seria
responsável por um número significativo de empregos como seria responsável
pela continuidade do progresso da cidade. A partir de 1970, a idéia de progresso
juntamente com as concepções de modernidade e civilização adquirem uma conotação,
sobretudo econômica, estando associadas intrinsecamente com a expansão industrial
que ora estava atravessando a cidade. Sendo assim, Feira de Santana era uma
cidade moderna, civilizada e progressita por ser possuidora de um centro
industrial, transformado em panacéia, responsável pelo ingresso da cidade
na trajetória de um desenvolvimento seguro e estável.
A
partir do CIS, se desenvolveriam todos os demais setores da economia; em função dele a vida urbana seria dinamizada, a produção
seria mais racionalizada, a renda local teria condições favoráveis de aumentar,
os índices de desemprego e desqualificação profissional seriam minimizados [7] ,
num movimento mecânico que se seguiria a implantação das fábricas, gerando,
assim, em toda comunidade grandes expectativas pelas possibilidades de minar
boa parte dos principais problemas sociais existentes na cidade. A difusão
dessas idéias foram responsáveis pela universalização dos interesses de
um pequeno grupo cujos objetivos restritos são assegurados e transformados
em um objetivo coletivo, uma aspiração popular de todos os feirenses em favor
do seu próprio bem-estar. [8]
Com
base ainda no jornal pode-se perceber que a ideologia desenvolvimentista se
propôs a despertar a consciência da necessidade do desenvolvimento, ela alerta a população
para o futuro prospero e promissor que a cidade inevitavelmente
irá passar desde que continuassem seguindo o seu destino, a sua “vocação
industrial”. O desenvolvimento atinge a todos, tanto os que comandam a expansão
(o estado e a classe empresarial) como os que cooperam com ela (a população
em geral) e os que são posteriormente por ela incorporados (a população desempregada
e marginalizada).
A palavra
industrialização tornou-se nos últimos anos, uma das mais pronunciadas pelos
feirenses. Não só pela expansão dêste importante setor, em todo país, mais
pela própria entrada do município nessa nova dimensão de progresso e civilização,
resultado da ação conjunta e consciente do poder público e da iniciativa privada, bem como de tôda a população, e que
resultou na definição de novos e precisos rumos para a consolidação do desenvolvimento
harmônico da economia feirense. [9]
A opção de industrializar não é fruto de articulações
políticas que privilegiam os grupos empresariais extra locais mas é fruto
de uma união coletiva composta pelo poder público, pela classe empresarial
e por toda a comunidade (não uma parcela dela) em prol do “desenvolvimento
harmônico da cidade”. Esse desenvolvimento não abarca desigualdades não diferencia
grupos ou classes sociais, ele é homogêneo e se propaga por toda comunidade
indistintamente [10] .
Assim, o discurso desenvolvimentista cria no plano ideológico, uma sociedade
utópica, irreal sem conflitos sociais nem dissidências políticas, a comunidade
em todas as suas dimensões políticas, econômicas e sociais é que abraça
o projeto da industrialização em função dos interesses coletivos. Dessa
forma, apagando-se as diferenças e as contradições, a ideologia ganha força
e coerência. Ao longo dos anos 70 e 80, o discurso dos jornais permanece
disseminando uma concepção idealista e irreal quando faz alusão ao setor
secundário ignorando qualquer conflito existente no seio de sua produção.
No seu
sentido integro indústria é arte, é invensão, é astúcia, é um ramo da atividade
humana, é a únião de duas coisas importantes : capital e trabalho. È a aplicação
dos métodos científicos de transformação de matérias simples em produtos acabados,
destinados ao consumo da massa populacional proporcionando divisas e o enriquecimento
geral do país. Indústria não é simplesmente máquina destinada ao enriquecimento
de um pequeno grupo, o grupo capitalista dirigente,
e sim, tudo aquilo que foi dito. [11]
Essa cidade vocacionada à indústria não poderia mais viver
em função do comércio nem conviver com uma feira livre, esses dois representantes
do arcaísmo da cidade deveriam ter sua importância diminuída, não podendo
mais se sobrepor à atmosfera civilizadora que se disseminava por todo espaço
urbano.
Comércio
e Indústria: Arcaismo X Civilização.
O ataque
principal do desenvolvimentismo em sua forma juscelinísta residia particularmente
no peso da exportação de produtos primários para a economia do país, era essa
atividade tradicional a responsável por todo o subdesenvolvimento da nação.
Da mesma maneira que sugeria um caminho novo de crescimento econômico baseado
na indústria, a produção de bens primários para a exportação teria que deixar
de ser estimulada por trazer significados opostos em relação às possibilidades
de desenvolvimento [13] .
Nos
anos 70, esse ideário que ainda persiste no país, preservaria boa parte de
seus traços norteadores, como o peso atribuído ao setor secundário. Na Bahia
e em Feira de Santana particularmente, esse ideário acabou legitimando a ação
dos grupos empresariais principalmente do Centro-sul que comandam o processo
de industrialização tanto na capital como no interior do estado. Por meio
dos jornais, pode-se perceber que o ideário desenvolvimentista em Feira de
Santana adquiriu certas particularidades.
Mesmo
colocando a indústria como locomotiva do desenvolvimento, o responsável pelo
subdesenvolvimento não seria a agro exportação, mas o comércio [14]
que, mesmo sendo parte singular do passado feirense começa a perder prestígio
e hegemonia [15] .
O progresso,
o moderno, o novo – imaginados como produtos do CIS – não apenas redimiriam
a vida econômica de Feira de Santana, eles ajudariam também a apagar o “antiquado” título de cidade comercial e lhes
concederiam um “prestígio” jamais alcançado. Feira de Santana vivia enfim,
sua “revolução industrial” era uma cidade que se industrializava,
uma cidade industrial (não mais comercial. Estava devendo menos então, a Salvador
e a São Paulo; tinha enfim, um centro industrial. [16]
A atual imagem de Feira
de Santana a partir de fotos do site da Prefeitura: modernidade, tradição e limpeza. |
Feira
de Santana historicamente é uma cidade marcada pela vitalidade da atividade
comercial, se constituindo desde os tempos coloniais como um importante cento
de comercialização de produtos. Essa posição vincula-se diretamente à sua
localização que se constitui em passagem obrigatória para quem circula para
o Norte e para o Sul do país acrescido ainda do seu sistema de cruzamento
de estradas de rodagem. Identificada como “entreposto comercial de vida própria”
pouco a pouco se tornava a porta do sertão, o seu entreposto comercial e seu
canal de comunicação. A história da cidade se confunde
com a história do comércio e a expansão desse setor foi responsável por torná-la
conhecida em todo Nordeste principalmente após as conexões rodoviárias com
as mais importantes cidades do estado, da região e até mesmo do país. O comércio, durante todo o século XIX, era fonte de prestígio e status, a centenária feire livre desenvolvida no arraial era responsável pela circulação cada vez maior de pessoas oriundas das regiões vizinhas que vinham comprar mercadorias semanalmente. Ao longo da primeira metade do século XX a sua importância permaneceu. A cidade em franco processo de modernização se constituía no centro comercial líder do interior. Em fins da década de sessenta, conforme atesta o PDLI, era imensurável a importância do setor terciário principalmente no que se refere à diminuição do desemprego. |
O que mais
importa assinalar é que o setor terciário absorve expressiva parcela do subemprêgo
no município – o que não representa nenhuma novidade em economias subdesenvolvidas.
Todavia os números são muitos significativos. Com efeito, 77% dos subempregados
se concentram nêste setor. [17]
(...) Feira
de Santana devido a certas circunstâncias especiais que lhe dão uma condição
privilegiada no momento, deve fazer um grande esforço para tirar o maior
proveito da fase que ora atravessamos. A experiência
histórica registra que o progresso com base no comércio pode ser passageiro,
com ameaça de cessar... nossa
cidade ganhou muito pela sua posição geográfica, tornando-se importante centro
rodoviário. Quem nos garante que êsse fator permanecerá indefinidamente? O
caminho certo portanto é industrializar (...) o povo feirense certamente mostrará
que possui também aquêle espírito dinâmico e decisão, indispensável a tôda
comunidade que tem no desenvolvimento global a sua máxima aspiração. [18]
Para
a lógica da expansão econômica que vinha se processando no Nordeste e na Bahia,
a função de Feira de Santana, na divisão inter regional do trabalho, é a
de exportar seus produtos industrializados; o setor industrial se constitui
em agente dinâmico do processo, assegurando os interesses dos grupos extra
locais que ampliam sua área de investimento. O comércio da cidade, dentro
desse contexto, não adquire importância peculiar nem se insere nesse processo,
principalmente porque a expansão econômica não o requisita para exercício
de sua função que residiria na venda dos produtos industrializados
postos no mercado consumidor. Como a lógica é outra, o comércio permanece
sendo um centro de circulação de mercadorias originárias de outras localidades
que é consumida na própria cidade e na sua área de influência composta por
21 municípios.
O
descompasso da indústria feirense com o setor comercial
já se fazia notar no final dos anos 60, a década vindoura só fez confirmar
e aprofundar a situação marcada sobretudo pela desarmonia entre secundário
e terciário. Como atestou o PDLI, “O diagnóstico do setor industrial constatou
uma insuficiência e inadaptação da produção industrial local à estrutura
de consumo de produtos industrializados na cidade”. [20] Apesar
da previsão, nenhum esforço foi feito pelas autoridades competentes para
alterar essa situação.
No
dia do comerciante, em janeiro de 1971, uma crítica contudente é realizada
pela classe que via seus interesses negligenciados em detrimento da expansão
do setor secundário.
A industrialização,
pura e simples, não pode solucionar em todo os nossos problemas. O problema
de desenvolvimento econômico regional não pode excluir o comércio, a pecuária
e a agricultura como polos de desenvolvimento e de amparo à industrialização
(...) esses setores devem merecer dos órgãos responsáveis pela política de
desenvolvimento, as atenções e ajudas que se fazem necessárias. [21]
Os
ataques constantes ao setor comercial não levavam em consideração a importância
que este ainda possuía para a economia da cidade, função esta que dificilmente
seria desempenhada por outro setor. Conforme atesta o IBGE, o setor terciário,
no período de 1970-1985, obteve um destaque considerável
no que se refere ao volume de mão-de- obra empregada.
Tabela 1
Feira de Santana- Pessoal Ocupado
no Comércio 1950-1985.
|
ANO |
POPULAÇÃO
OCUPADA |
|
1950 |
1.206 |
|
1960 |
2.706 |
|
1970 |
5.897 |
|
1975 |
6.706 |
|
1980 |
8.422 |
|
1985 |
13.825 |
Fonte: IBGE.
Censo Comercial – Bahia, 1950-1985.
O
mesmo destaque, contudo, não pode ser verificado no setor industrial que,
mesmo passando por um desenvolvimento digno de nota, a sua importância para
a economia da cidade, no que se refere ao volume de empregos gerados, não
pôde fazer frente ao setor comercial [22] .
Outra evidência que caracteriza o peso do setor terciário refere-se à sua
contribuição no PIB municipal ao longo do período de estudo.
Tabela 2
Feira de Santana: estrutura
do PIB por setores da economia (1970- 1980)
|
|
1970 |
1980 |
|
Primário |
20% |
17% |
|
Secundário |
27% |
28% |
|
Terciário |
53% |
55% |
|
|
|
|
Fonte: IBGE.
1970-1980.
Apesar
dos índices evidentes que atestam o crescimento e a importância do comércio
para a economia da cidade, os ataques em torno do setor permaneceram. Vale
ressaltar que os jornais, quando faziam menção do destaque assumido pela Princesa
do Sertão em âmbito estadual e regional como importante pólo de desenvolvimento
do interior, ressaltavam o papel da cidade como importante centro comercial,
juntamente com outros elementos, como a localização geográfica que a constituía
em importante entroncamento rodoviário do país, os serviços de comunicação
ditos modernos, o sistema de água e esgoto, as redes bancárias e a existência
de um centro industrial (principalmente). Em âmbito local, entretanto, o
comércio permanecia desacreditado, seu papel era sobreposto à propagação
das idéias industrialistas amparadas pelo discurso desenvolvimentista com
a chegada de indústrias que se instalavam no centro industrial, somente nelas
é que se deveria depositar esforços, expectativas e anseios.
A
importância atribuída à indústria era tão considerada que em 1977, o PDLI
foi atualizado, sendo revista suas diretrizes gerais. Estas, após exame criterioso,
estavam desmembradas em uma cadeia de diretrizes setoriais, existindo um certo
destaque para as diretrizes econômicas. Tais diretrizes econômicas encontravam-se
desmembradas em seis pautas norteadoras, das quais três se referiam especificamente
ao setor industrial. Seriam elas:
Desenvolver
esforços para a expansão industrial de Feira de Santana, consolidando concamitantemente,
o Centro Industrial de Subaé, implantando uma política de desenvolvimento
industrial local através de condições favoráveis
à localização industrial. Estimular a localização
industrial, no Centro Industrial do Subaé, aproveitando racionalmente as
potencialidades locais do CIS, no sentido de ampliar o seu papel de Centro
dinamizador da região. Desencorajar tecnologias do tipo capital intensivo
e aproveitar o potencial de mão-de-obra disponível [23] .
Existia
uma preocupação clara por parte do poder público de que as indústrias que
escolhessem a cidade para se instalar se direcionassem para o centro industrial,
para isso vultuosas somas haviam sido gastas para prover o CIS de uma infra-estrutura
apropriada.
|
Vale
lembrar que o Prefeito, inclusive, chegou a vender ações da Petrobrás e do
Banco do Nordeste que se encontravam em nome da Prefeitura para promover
a industrialização da cidade. O espaço urbano feirense começava a ser pensado
mais racionalmente a partir de 70, a nova legislação urbanística, visando
disciplinar o crescimento físico da cidade, previa um espaço reservado para
a indústria que deveria ser respeitado [24] .
|
Os
pequenos e médios estabelecimentos industriais que não conseguem transferir
suas instalações para o CIS, permanecem no centro da cidade sendo vistos
como um obstáculo ao desenvolvimento.
Os
anos 70: a influência das idéias desenvolvimentistas.
Em
1973, ano do centenário de Feira de Santana, a instalação do CIS se constituía
em um dos principais conquistas alcançadas pela cidade nos últimos cem anos,
se não a maior conquista.
A palavra
industrialização tornou-se nos últimos anos, uma das mais pronunciadas pelos
feirenses. Não só pela expansão dêste importante setor, em todo país, mais
pela própria entrada do município nessa nova dimensão de progresso e civilização,
resultado da ação conjunta e consciente do poder público e da iniciativa privada, bem como de tôda a população, e que
resultou na definição de novos e precisos rumos para a consolidação do desenvolvimento
harmônico da economia feirense. [25]
Apesar
do poder público concentrar esforços para a modernização da cidade, alguns
problemas permanecem assolando o espaço urbano feirense, caracterizando-se
como elementos que contribuem para o esmurecimento
da condição de Feira de Santana como cidade modelo.
No ano
de seu centenário, a cidade, além de ruas quase que totalmente às escuras,
apresenta-se suja, com ruas interditadas por montes de lixo e material de
construção, o que de forma alguma deveria acontecer. Pra quem duvida, basta
dar uma olhada no centro da cidade, para ver as ruas tomadas pelos materiais
de construção, provocando até problemas com o trânsito (...) onde se tem a
impressão que os logradouros estão sendo pavimentados com lixo. [26]
As
construções desordenadas, que já eram uma realidade na década anterior, aumentam
desproporcionalmente e contribuem para os desequilíbrios do tecido urbano.
Se são elencados, no decorrer de todo o ano do centenário, muitos aspectos
que dificultam a consagração de Feira à condição de uma cidade modelo, desenvolvida
e completamente civilizada, a indústria mais uma vez renasce como protagonista
nos discursos dos jornais, dá o grito de misericórdia e (re)integra a cidade
nos caminhos do progresso que se tornam evidentes pela contínua instalação
de estabelecimentos industriais. Dessa forma, a imagem de uma cidade suja,
poluída e desordenada é contraposta por uma atmosfera de modernidade trazida
pela industrialização.
Todo feirense
acredita no desenvolvimento da sua cidade e está ansiôso por vê-la totalmente
industrializada. Quem viaja de Salvador com destino ao Sul do estado, tendo
que passar obrigatóriamente por Feira de Santana, terá que se empolgar ao
ver as enormes placas com os nomes das futuras instalações industriais que
preenchem o espaço do Km 180. Não se engane viajante as atuais placas serão
substituídas por bases de concreto para consolidar o progresso já evidente. [27]
Segundo
a imprensa, o município estava adquirindo uma feição moderna, civilizada,
gerando expectativas em toda cidade. A Princesa do Sertão já estava ingressando
no âmbito das cidades mais modernas do Nordeste. O desenvolvimento industrial,
pressuposto do progresso e da modernização estava elevando
a cidade a um patamar radicalmente novo.
| Em
14 de maio de 1976, um marco da nova história que estava se construindo em
torno da cidade calcado, sobretudo nessa atmosfera do progresso e da modernidade
ganha um novo alento quando o Presidente da República, Ernesto Geisel, vem
pessoalmente a Feira de Santana inaugurar a indústria Pneus tropical. O clima
de euforia e o impacto social era evidente. Desde o dia 11 de maio, existia uma movimentação entre os políticos, o serviço de segurança e as entidades de classe para assegurar uma boa estadia ao então presidente. Representantes da Associação Comercial, Centro das Indústrias, Clube de Diretores e Lojistas, Departamento Nacional de Estradas de Rodagem da Bahia, Coordenadoria Regional de Educação, INPS, IAPESB e o delegado regional se reuniram no auditório do Hospital D. Pedro de Alcântara para tratar da presença do Presidente da República. [28] |
O ex-presidente Ernesto Geisel |
O
DETRAN havia montado um esquema de segurança que entraria em ação nas primeiras
horas da manhã de sexta-feira. O Centro das Indústrias havia solicitado a
seus filiados que dessem folga aos seus funcionários. A Associação Comercial
solicitou o fechamento dos estabelecimentos comerciais das 10 às 14 horas
e o Sindicato Rural convocou os congêneres de outras cidades a vir prestigiar
a visita presidencial. Além disso, as casas comerciais onde iriam se localizar
as concentrações populacionais prepararam vitrines especiais com retratos
do presidente. No pátio da Pneus Tropical foi armado um palanque para os atos
inaugurais [29] .
Para
qualquer eventualidade, a cidade estava contando com as ambulâncias do Hospital
D. Pedro de Alcântara, com o serviço médico do 35 BI e com o 1º Batalhão
de Polícia que ficaria também de prontidão. Até a feira livre foi retirada
temporariamente do centro.
[30]
O segundo dia de visita presidencial na Bahia era marcado
pela inauguração de uma ferrovia que atenderia ao Centro Industrial de Aratú
e pela inauguração da fábrica Pneus Tropical em Feira de Santana. A visita
presidencial, apesar de toda a preocupação das entidades,
não seria longa, ficando prevista a sua chegada para 10 horas aproximadamente
regressando logo em seguida para Salvador onde embarcaria para Brasília
por volta das 14 horas [31] .
O
principal objetivo da visita da Geisel na Bahia, como descreve os jornais,
estava diretamente atrelada à expansão do setor industrial, a ferrovia iria
facilitar as atividades do CIA e a instalação da Pneus Tropical contribuiria
para tornar a Princesa do Sertão “a cidade mais importante do interior nordestino”.
Como último desenvolvimentista latino americano, Geisel foi o mais acabado
realizador da proposta de industrialização da CEPAL [32] . Em seu pronunciamento na praça João Pedreira, ratificava
o papel incontestável atribuído à indústria como carro chefe do desenvolvimento,
contribuindo diretamente para alimentar o ideário que já era compactuado pelos
baianos e pelos feirenses que depositavam anseios no setor mais dinâmico da
economia.
A Feira
de Santana com muita honra e enorme satisfação, recebe hoje, a visita do Presidente
da República, que, em deferência ao desenvolvimento e ao progresso da nossa
cidade, vem presidir e assinar atos da maior importância para que o desenvolvimento
e o progresso sejam acelerados. É realmente significativo para um município em plena ascensão receber a visita do Chefe
da Nação. (...) A tarefa é árdua e difícil. Mas o presidente (...) com moderação
e equilíbrio, tem sabido conduzir os destinos do Brasil. E a Feira de Santana
sente que as preocupações governamentais chegam até ela [33] .
O
apoio do presidente seria evidenciado não só pela sua ida pessoal à cidade
mas também pelos incentivos concedidos às indústrias
que se instalavam em Feira de Santana, revelando o esforço do governo federal
em reduzir as disparidades. [34]
Apesar
da pouca estadia do chefe de estado, foi grande o impacto de sua visita que
se fazia sentir pelos pronunciamentos dos membros ilustres da sociedade feirense,
que ratificavam o caminho percorrido pela Princesa do Sertão. O destaque da
cidade era sempre resultado das aspirações de toda a comunidade como menciona
o Cardeal Brandão Vilela, Primaz do Brasil, mais conhecido como Dom Avelar,
quando benzia as instalações da indústria.
O Brasil
de estradas abertas de todas as direções; pneus que rodam pelo solo brasileiro
a serviço do desenvolvimento nacional. Desenvolvimento que todos nós perseguimos
e queremos, Governo, Igreja, instituições políticas e culturais, povo da nossa
terra. Desenvolvimento que jamais se conseguirá sem o auxílio do patriotismo
e da fé (...) e se identifica com as justas aspirações do ser humano. [35]
Os
pneus que se encontravam “a serviço do desenvolvimento nacional” eram utilizados
como justificativa para mascarar o verdadeiro sentido da industrialização
que se processa com um olhar exógeno voltado para fora das fronteiras da cidade.
Novamente identificamos uma inversão de interesses, ou melhor, uma harmonia
de interesses que se sustenta apenas no campo do discurso.
No
dia seguinte à inauguração da fábrica, a cidade começaria a retornar evidentemente
a sua normalidade, a feira livre, com os dias contados, retornaria para o
centro, o esquema de segurança e de emergência, montado pelo DETRAN e pelo
Hospital D. Pedro de Alcântara, havia sido desmontado, o comércio e a indústria
retornariam as suas atividades naturalmente. Mesmo assim, a ida do Presidente
contribuiria ainda por algum tempo para ratificar a opção que a cidade estava
fazendo nos caminhos do tão idealizado desenvolvimento.
Em
1977. um forte componente de atraso da cidade, a tradicional feira livre
da cidade deveria ser varrida, banida do espaço urbano cada vez mais disciplinado.
Se o atraso da cidade encontrava-se localizado no comércio formal, o comércio
informal recebia ataques ainda mais contundentes.
Medieval;
anti-higiênica; poluidora; incompatível com o grau de desenvolvimento de Feira
de Santana, causadora da evasão de 50% das rendas; número crescente de feirantes
e pouco espaço disponível; provocava engarrafamento de veículo e problemas
para a circulação de pedestres; atraía ladrões; aumentava o número de roubos
e furtos; as barracas tinham péssimo aspecto(...) péssimo cartão de visitas
para o turismo, tornava “feia” a vida urbana de Feira de Santana(...) [36]
Em
algumas manchetes a crítica ficava a beira do extremo.
Quem entra
na feira livre desta cidade tem a impressão de que foi parar no inferno antes
do tempo. Não se pode encontrar em nenhuma parte, maior demonstração de desordem e abandono. As feiras realmente são pura e simplesmente
criação popular. Pode-se argumentar seguramente que as feiras antigamente
eram menores e que hoj, tal como hidras incontroláveis vão se multiplicando
a ponto de não mais haver nenhuma possibilidade de se estabelecer qualquer
espécie de fiscalização e comando sobre ela [37] .
A
feira livre de Feira de Santana, que se constituía em uma das maiores tradições
existentes desde os tempos coloniais na cidade, foi considerada
a maior de todo o Nordeste chegando a ser conhecida nacionalmente. O anúncio
de sua extinção, ou melhor, a decisão por parte do poder público de transferir
a feira para um outro local gerou polêmicas discussões. Para os barraqueiros
assim como para algumas personalidades como o jornalista e historiador Helder
Alencar e para o folclorista Fernando Pinto, era o fim de uma tradição,
o fim da única atração turística permanente na cidade, o fim também de um
importante agente social que atuava com amplo significado para a unidade
regional, nela “as pessoas de todas as cidades, se encontram, trocam informações,
dão notícias, reecontram-se, separam-se” [38] .
Nos
anos 70, ainda era inquestionável o poder atrativo que a feira livre possuía
em relação principalmente aos municípios circunvizinhos, em alguns deles tanto
as repartições públicas como as atividades comerciais eram suspensas [39] .
Para as importantes personalidades políticas da época como Colbert Martins
(prefeito eleito) e José Falcão (prefeito em final de gestão), o deslocamento
da feira livre para o Centro de Abastecimento, construído em função dela,
visava principalmente o melhor ordenamento do solo urbano e era mais condizente
com a nova feição da cidade, pois
(...)tomando
todo o raio de ações das artérias centrais da cidade os problemas por ela
evocados passaram a incomodar a cidade de Feira de Santana que passa de uma
fase estreitamente comercial para a etapa industrial. [40]
Segundo
o projeto “Memória da Feira Livre de Feira de Santana”, encabeçado pelo profº
Vicente Delcleciano, a centenária feira livre, a partir de dos anos 70, começou
a sofrer ataques e pressões que, no decorrer dos anos, elevam-se em maiores
proporções. Conforme esclarece Deocleciano, a extinção da feira livre, em
1977, foi motivada pelos ideais modernizadores relacionados com a chegada
das indústrias na cidade. Apesar das pressões, a feira persiste ao longo dos
anos sessenta; em meados de setenta, contudo, sofre ataques cada vez mais
contundentes que culmina com a sua extinção.
A
instalação do Centro Industrial foi muito importante para a extinção da centenária
feira. Não se pode ignorar o acentuado crescimento populacional que se direciona
para o centro urbano da cidade ao longo da década de 70, em busca, principalmente,
de uma melhoria na qualidade de vida. Como a imprensa relatou na época, a
população egressa do campo e de regiões circunvizinhas se vê atraída pelo
setor industrial que cresce acentuadamente, depositando nele boa parte das
expectativas de aquisição de um emprego.
Um fato
vem ocorrendo na zona rural de Feira de Santana: o êxodo. Muitas famílias
estão se retirando deixando suas pequenas roças, suas propriedades em busca
de novas oportunidades nos centros urbanos sobretudo no setor industrial que
vem crescendo. Essa viagem muitas vezes se transforma em aventuras (...) uma
providência mais concreta deve ser adotada, no sentido de fixar o homem na
terra [41] .
Como
atesta o censo demográfico, a partir de 1950, começa a se constatar um acentuado
crescimento da população urbana. Em 1970, pela primeira vez, a população urbana (134.263) ultrapassa a população rural
(55.813) do município de Feira de Santana [42] . Dessas 134.263 pessoas, sua quase totalidade (126.972)
localizavam-se na cidade de Feira de Santana [43] .
A migração em 1970 foi responsável pela chegada de 53.569 pessoas correspondendo
30,77% do crescimento urbano verificado na sede do município nesse período.
Apesar do alarme de 17.816 empregos diretos no setor industrial este acabou
absorvendo até 1975 um total de 5.580 pessoas, o que significa afirmar evidentemente
que não existe emprego para todo esse contigente [44] .
Além disso, não se pode esquecer que as modernas empresas implantadas exigiam
habilidade e qualificação para trabalhar com os equipamentos. O migrante
que residia anteriormente no campo acostumado com a lida da terra não possuía
tal qualificação.
Sendo
assim, suas expectativas se frustram, excluídos da indústria duplamente ou
por não terem postos de trabalhos suficientes ou por não serem qualificados.
O setor informal começa a ser uma alternativa de sobrevivência. Dessa maneira,
o CIS acabou contribuindo, ainda que indiretamente, para o crescimento físico
e demográfico da centenária feira livre
O fator
feira-livre da maneira como está existindo em Feira
de Santana, torna muito difícil a sua disciplina e,
em conseqüência, uma evasão de 50 por cento das rendas.
Não há mais espaço onde acomodar os feirantes – já chegaram a mais de três
mil que a cada dia aumentam de número. Um exemplo disso é que, às segundas-feiras é necessário isolar quase todo um trecho da Avenida Senhor
dos Passos, já totalmente tomado pelas barracas, o que antes não acontecia [45] .
Esse
crescimento inesperado da feira nesse período, que passa a ocupar inclusive
outros dias da semana além da tradicional segunda-feira, contribuiu para intensificar
os ataques que também se realizavam em nome do progresso, da modernidade
e da civilização. Ideários que vieram acompanhar a expansão industrial da
cidade e que se constitui em mais um componente para o fim da feira.
O “discurso
competente”: o mascaramento da subordinação econômica.
| Como
foi visto no início do artigo, a apologia à indústria como referencial de
modernidade, civilidade e desenvolvimento para a comunidade feirense foi identificada,
ao longo da primeira década que seguiu à implantação do CIS. Foram constantes
as notas quantificadas que se referiam a sua importância para o desenvolvimento
da cidade. O ideário desenvolvimentista tendo os jornais como um de seus
maiores disseminadores como também já havia sido mencionado, foi o principal
responsável em ocultar o verdadeiro sentido da industrialização que vinha
ocorrendo. |
O histórico edifício-sede da Prefeitura |
Não
foram encontradas, ao longo do período de estudo, críticas prolongadas ou
contundentes acerca da natureza da industrialização da cidade, mesmo sendo
esta processada para fora de sua área de influência, importando a sua produção
final majoritariamente para mercados extra locais, importando boa parte da
matéria-prima para a composição da produção, sem mencionar ainda a importação
de tecnologia o que contribuiu diretamente para a diminuição do emprego. Não
se revelou como uma industrialização dessa natureza, beneficiaria todo o
corpo social e as classes econômicas. O discurso ideológico, dentro desse
contexto, cumpre seu papel ganhando força e coerência, por não explicar nem
mencionar claramente esse tipo de informação, nem poderia fazê-lo, por ser
um discurso lacunar que não pode ser preenchido, e nisso reside o seu poder,
a condição sine qua non de sua existência, caso ele transmitisse
as informações plenamente (preenchendo as lacunas deixadas propositadamente
em branco) levaria a publico o projeto de dominação que estava implícito e,
conseqüentemente, se auto destruiria enquanto ideologia [46] .
Sendo
assim, o caráter exógeno da industrialização que se processava e as suas reais
implicações não chegam a ficar inclusive no plano secundário. O interesse
de grupos específicos são universalizados, representando “conquistas da industrialização
feirense no cenário regional e até nacional”.
Os
jornais que circulavam em Feira de Santana, enquanto importante instrumento
ideológico, transmitiram informações relacionadas à expansão industrial com
uma aparente neutralidade, como se estivessem testemunhando e registrando
uma realidade visível com a construção de galpões para sediar as futuras unidades
fabris e que não poderiam ser ocultadas. Essas informações, contudo, mascaram,
ocultam chegando inclusive a inverter o significado da notícia. É nesse sentido que uma possível oposição à indústria (processada
com um olhar para fora da cidade) significaria oposição ao progresso, à modernidade
e à própria cidade [47] .
Todos os esforços são feitos para e em nome da Princesa do Sertão.
As
nove empresas despontadas no cenário brasileiro, que tinham instalações localizadas
em Feira, direcionam sua produção em grande parte para o mercado regional,
algumas inclusive chegam a abastecer boa parte do território brasileiro, foi
o caso da Peterco S/A, que, mesmo possuindo sede em outra região e sendo dirigida
por grupos sulistas, se constitui um orgulho para
a cidade.
Fundada
em 1954, em São Paulo, a Peterco S/A, estendeu-se até Feira de Santana (...)
instalada às margens da rodovia BR- 324, num terreno em parte doado pela Prefeitura,
em parte adquirido, tem ela uma das mais sólidas construções fabris (...)
De sua produção de motores, no exercício passado, a Peterco exportou 51%
para os Estados Unidos, com o que foi contemplada com o prêmio “ Medalha
de Ouro de Exportação” como única empresa baiana exportadora de manufaturados,
e com orgulho podemos dizer made in Feira de Santana [48]
A
Peterco se instala em Feira assim como as outras indústrias do período, em
função de todas as facilidades cedidas pela política econômica da época. Dedicando-se
à linha de reatores, motores e usinagem, a empresa forneceu sua produção
para quase todas as centrais elétricas do país, sendo classificada entre
as melhores fabricantes de reatores no Brasil. O produto
é feirense, apesar dos fatores responsáveis por parte do processo
de produção não serem, como a matéria-prima que provém de outras regiões, os modernos equipamentos são
importados de outros centros mais dinâmicos e a assistência técnica que era
genuinamente francesa.
Mesmo
refletindo essa empresa, o perfil da industrialização na cidade, o caráter
exógeno da indústria é sucumbido pelas idéias desenvolvimentistas que valorizam
a ascensão da Princesa do Sertão no cenário nacional por meio da circulação
de seus produtos encontrados em boa parte do território brasileiro, até os
centros mais desenvolvidos como São Paulo e Rio de Janeiro solicitam os produtos
fabricados em Feira. Evidentemente o que vai a público explicitamente e o
que se constitui em satisfação coletiva é a expressão made in
Feira de Santana, utilizada constantemente por indústrias que exportavam
sua produção.
A
Pneus tropical, inaugurada por Geisel mesmo direcionando sua produção para
mercados fora do estado e importando suas principais matérias-primas, representaria
um grande incentivo para a completa “emancipação industrial” da “Grande Feira”.
Esse novo título adquirido pela Princesa do Sertão havia sido dado pela grandeza
de sua vitalidade industrial [49] .
Outro
caso semelhante é a da empresa INCONVEG S/A- Indústria e Comércio de Óleos
Vegetais, implantada na cidade como sendo uma indústria feirense de nascimento,
que anuncia:
A INCONVEG
S/A, primeira indústria a se instalar no Centro Industrial do Subaé e que
já vendeu tôda a sua produção até dezembro do ano em curso, para o exterior.
(...) Feira de santana, desenvolve-se tornando-se “ A GRANDE FEIRA”, é a nova
mentalidade empresarial consolidando-se, o desejo do progresso apossando-se
dos homens de negócios. [50] .
O
discurso desenvolvimentista inverte radicalmente o sentido da expansão industrial
nos anos 70 e parte dos 80, a integração subordinada da cidade no processo
de industrialização não significa prejuízo para ela, pelo contrário significa
a consagração da cidade à condição de “cidade industrial”. As empresas escolhiam
Feira “pelo seu fértil solo de desenvolvimento” ou por ter a cidade emprestado
“o seu imprescindível estímulo (...) envolvendo-nos na torrente ininterrupta
das suas riquezas, direcionadas para o progresso, alias, meta maior e sempre
querida dos seus dirigentes e do seu povo” [51]
O
estímulo, na maioria das vezes, assumia essa conotação romântica sem muita
lógica real, a maioria dessas empresas assumia esse procedimentos, as isenções
fiscais e os financiamentos que se constituíam nos
maiores estímulos para se instalarem ou não eram mencionados, ou, quando eram,
se referiam sem muitos alarmes; o progresso de Feira é que atraia essas empresas.
| A empresa “feirense” Válvulas Schrader, que desponta juntamente com as outras oito empresas feirenses no cenário nacional, conta a sua história e justifica também a sua chegada. |
|
Em 1814,
August Schrader, um jovem alemão de Hanover, abriu uma oficina em Nova York,
sendo solicitado, pelo seu então vizinho Charles Goodyaner, a produzir uma
válvula segura para colchões de ar e salva-vidas pneumáticos. Auxiliado por
seu filho George Schrader, em 1898, a válvula foi aceita
com “standart” em todo mundo. A partir de 1935 a Schrader se integrou na
Scovil Manufacturing Company, uma organização da qual participavam nove empresas
fabricantes de extensa e variada linha de produtos (...) e peças de produtos
para outras indústrias. Instalada no Brasil, em 1953, a Schrader teve crescimento
espantoso (...). Acreditando no progresso do Estado da Bahia, a atual diretoria, resolveu por bem criar uma sede em Feira
de Santana [52] .
Esse
tipo de notícia contribuiria significativamente para confirmar o solo fértil
de desenvolvimento, a atmosfera de progresso que atrai empresas das mais diferentes
localidades para Feira de Santana. Uma empresa desse porte, especializando-se
na linha de aparelhos eletrodomésticos, laminação de materiais não ferrosos,
purificadores de ar, fabricação de peças e produtos para outras indústrias,
aproveitava-se não só das facilidades concedidas pelo poder público e dos
órgãos financiadores, como também da localização da cidade de entroncamento
rodoviário e Feira era, por assim dizer, um local estratégico. As empresas
desse ramo na cidade discriminadas pelo Cadastro Geral das Empresas direcionam
sua produção para todo o país, conforme atesta a revisão do PDLI, sendo a
origem dos insumos (aço, sucata de ferro, arame cobreado, gás carbono, oxigênio)
provenientes de outros centros e também do exterior. [53]
A
tecnologia utilizada por essas empresas, geralmente capital intensiva, contribui
para uma diminuição da absorção de mão-de-obra nesse setor; no discurso as
inovações técnicas refletiam a modernidade e o progresso
.
O País
é desprovido de oferta regular de um produto que, pelas condições de alto
padrão tecnológico, tenha penetração no mercado. Sem dúvida a Tamoyo, com
seu processo produtivo, alcançará padrões internacionais. Essa assertiva tem
como suporte factível o uso de tratamento técnico das engrenagens, pois a
Tamoyo será a primeira êmpresa no País a usar a forno dêsse padrão tecnológico.
(...) Considerando, ainda, os fatos ligados a sua condição de primeira e única
emprêsa no gênero, nas regiões Norte e Nordeste, a Tamoyo será igualmente
a pioneira nacional de nôvo processo tecnológico, a ser alcançado com o uso
de moderno tratamento térmico de todos os seus produtos (...) tudo isso, motivo
de orgulho para o brasil, está localizado na margem da BR- 324 (...), na
área do Centro Industrial do Subaé. [54] .
E nisso residiu a vitória do desenvolvimento
enquanto ideologia capaz de escamotear o conflito e dissimular dominação.
Por encobrir e mascarar informações, ele contribui para tornar legítima,
necessária e pública a vontade particular de determinados grupos que são
transformados em missão, vocação e destino aspirado pela comunidade feirense.
¨Especialista em Teoria e Metodologia da História pela
Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS, Mestra em História Social
pela Universidade Federal da Bahia - UFBA e professora da Faculdade Zacarias
de GóesFAZAG.
[1] Ver: CANO, Wilson. Desequilíbrios Regionais no Brasil: alguns problemas controversos. In: MARANHÃO, Silva. A Questão Nordeste: estudos sobre a formação histórica, desenvolvimento e processos políticos e ideológicos. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1984.
[2] Ver: OLIVEIRA, Francisco. Elegia para uma Re(li)gião. Sudene, Nordeste. Planejamento e conflito de classe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
[3] Como menciona Friori, ainda nos anos 50, “ a História
foi mostrando que a estratégia desenvolvimentista de industrialização só seria
viável em alguns de seus países (...) em meados da década de 70, só se poderia
falar, ainda, da vigência do projeto de desenvolvimento de inspiração cepalina
no Brasil e no México, dos quais, no final dos anos 80, só o Brasil ainda
não havia abandonado de todo o ideário desenvolvimentista”. FRIORI, José
Luís. Em busca do dissenso perdido: ensaios críticos sobre a
festejada crise do Estado. Rio de Janeiro: Insight, 1995. p. 98.
[4] Nesse artigo, a principal fonte utilizada será o Jornal
Feira Hoje, pelo estado de conservação em que se encontram as edições e por
sua coleção encontrar-se quase completa, faltando poucos números que não
chegam a comprometer a análise. Os outros dois jornais serão utilizados secundariamente,
o jornal A Tarde por se tratar de um jornal estadual que só traz notícias
da cidade em datas especiais e o Folha do Norte pelo fato de não dispor de
uma coleção completa referente ao período de estudo.
[5] MASCOVICHE, Seije. A Representação Social
da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p.28.
[6] Jornal Feira Hoje, Feira de Santana, 17 dez. 1970.
(grifo adicionado)
[7] A racionalização da produção se daria em função da
importação de modernos equipamentos provenientes das regiões mais desenvolvidas
e até do exterior, a qualificação profissional seria alcançada por meio
do SENAI e do SESI - entidades que tinham como público alvo o trabalhador
industrial ou os que intensionavam se direcionar para
indústria.
[8] A industrialização do interior beneficia
diretamente os grupos empresariais que investem na Bahia. ver: SANTOS, Alane
Carvalho. A integração de Fira de Santana no processo de industrialização
baiana: O Centro Industrial do Subaé. In: Feira de Santana nos
tempos da modernidade: o sonho da industrialização. Salvador; UFBA, 2002.
[9] O dia da indústria. Jornal Feira Hoje, Feira de Santana,
27 mai.1973.
[10] Ver: A vocação industrial de feira. Jornal Feira Hoje,
Feira de Santana, 04 set. 1971.
[11] Integração Social. Jornal Feira Hoje, Feira de Santana,
05 mai. 1981.
[12] Jornal Fôlha do Norte, Feira de Santana, 10 mar. 1970.;
25 abr. 1970,12 mai. 1970. Jornal Feira Hoje, Feira de Santana, 21 nov. 1970.;
18 set.1971.; 27 mai. 1972.
[13] LIMOEIRO, Silvia. A Ideologia do Desenvolvimento.
São Paulo: Moderna, 1989.
[14] O setor agrícola da cidade não possuía uma importância
significativa na pauta das exportações, boa parte do que é produzido no
campo é utilizado para a subsistência do agricultor e a outra parcela é direcionada
para a cidade para ser comercializado na feira livre ou nas pequenas firmas
comerciais do centro urbano. O único produto que possuía uma importância
na pauta de exportações era o fumo que na década de 70, encontrava-se em uma
situação de decréscimo.
[15] Como menciona Marilena Chauí, o discurso ideológico
não tem história, as modificações ocorridas no seu interior não dependem de
uma força que lhe seria iminente e que o faria transformar-se, mas decorre
de uma outra história que por meio da ideologia grupos dominantes procura
esconder. CHAUI. Marilena. Cultura e
Democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Cortez,
1993., p.04.
[16] MOREIRA, Vicente Deocleciano. A Feira está morta.
Viva a Feira. In: Projeto Memória da Feira Livre de Feira de Santana,
1984., p09. ( grifo adicionado)
[17] COPLAN. Plano de Desenvolvimento Local
e Integrado de Feira de Santana . Bahia: SERFHAU/BNH, v1, 1969., p.62.
[18] Industrialização. Jornal Feira Hoje, Feira de Santana,
28 nov. 1972. (Grifo adicionado).
[19] Ver: IBGE. Censo comercial –1950-1985, Bahia.
[20] COPLAN. Plano de desenvolvimento Local
e .... Op. Cit., p.64
[21] Por que comprar em Feira. Jornal
Folha do Norte, Feira de Santana 15 jul. 1972.
[22] Confome atesta o IBGE, a indústria feirense empregou
989 pessoas em 1950, 2.051 em 1960, 3.150 em 1970, 5.580 em 1975, 8.892 em
1980 e 8.183 em 1985. Ver: IBGE. Censo Industrial, 1950-1985.
[23] As outras três diretrizes eram: incentivar o nível
de construção do Projeto Cabana Centro de Abastecimento de Feira de Santana,
criar e implementar uma política de incentivos ao turismo dando uso aos recursos
potenciais locais e ainda implantar um programa agropecuário com diversificação
da produção agrícola de subsistência e matérias-primas industriais, intensificando
programas de extensão rural. Essa última diretriz ainda
contemplava o setor industrial. SUDENE/ PREFEITURA MUNICIPAL DE FEIRA DE
SANTANA. Avaliação do Plano Diretor de
Feira de Santana. Recife: SUDENE, 1977. Não paginado.
[24] As metas que foram estabelecidas pela Legislação
Urbanística em Feira de Santana e seus programas previstos para entrarem
em acão a partir de 70, foram encontradas no PDLI.
Ver: Legislação Urbanística. In: COPLAN. Plano de Desenvolvimento...,
Op.cit.,p. 163.
[25] O dia da indústria. Jornal Feira Hoje, Feira de Santana,
27 mai. 1973.
[26] Jornal Feira Hoje, Feira de Santana, 27 abri. 1973.
[27] CARDOSO, Edmundo. Indústria & Negócio. Jornal
Feira Hoje, Feira de Santana, 24 out.1973.
[28] Reunião de entidades. Jornal Feira Hoje, Feira de
Santana, 14 mai.1976.
[29] A cidade pronta para receber Geisel. Jornal Feira
Hoje, Feira de Santana,14 mai.1976.
[30] Idem.
[31] Este vai ser o programa de Geisel. Jornal Feira Hoje,
12 mai. 1976.
[32] FRIORI., Op.cit., p.102.
[33] Geisel em Feira de Santana. Folha do Norte, Feira
de Santana,14 mai.1976.
[34] Idem.
[35] Dom Avelar fala de desenvolvimento. Jornal Feira Hoje,
Feira de Santana,14 mai.1976.
[36] MOREIRA, Vicente Deocleciano. A Feira
está morta, viva a feira. Im memo, 1984. p.08
[37] Jornal Folha do Norte, Feira de Santana, 24 ago. 1976.
[38] MOREIRA, Vicente Deocleciano. Projeto
Memória da Feira Livre de Feira de Santana. Outras Palavras. Revista Sitientibus, Feira de Santana, n.14, 1996, p.211
[39] As localidades eram: Tanquinho, Santo Estevão, Santa
Bárbara, Candeal, Serra Preta, Anguera, Antonio Cardoso, São Gonçalo, Conceição
do Jacuípe e Amélia Rodrigues. Idem.
[40] SILVA, José Falcão da. Jornal Diário de Notícias,
Salvador, 10 de Janeiro de 1977.
[41] Jornal Feira Hoje, Feira de Santana,14 mai.1977.
[42] IBGE. Evolução da população do município 1950 a 1996.
Censos Demográficos.
[43] IBGE. População total do centro urbano e percentual
com relação ao município 1950 a1991. Censos Demográficos.
[44] IBGE. Censo industrial. 1950 a 1985.
[45] SILVA, op.cit.
[46] CHAUÍ, op.cit. ,p.23.
[47] Foi encontrado dois comentários negativos referentes
as industrias do CIS. O primeiro foi realizado pelos comerciantes em 1971,
o segundo foi realizado em 1976 e se referia à exclusão dos pequenos industriais
dos benefícios concedidos pelo estado. Ver: Jornal Folha do Norte, Feira
de Santana,15 jul.1972.; Jornal Feira Hoje, Feira de Santana, 23 jan.1976.
[48] Motores, reatores e usinagem: Peterco do Nordeste.
Jornal Feira Hoje, Feira de Santana, 10 mar. 1975.
[49] Tropical é produto de fácil vendagem. Jornal Feira
Hoje, Feira de Santana,16 mai.1976.
[50] Jornal Feira Hoje, Feira de Santana, 07 nov.1970.
[51] Ver: Por isso, escolhemos Feira. Jornal Feira Hoje,
Edição Especial Anos 70, Feira de Santana, 31dez. 1979.; Sem otimismo, o que
seria do mundo: Peterco do Nordeste S/A. Idem.
[52] Isto é Válvulas Schrader do Nordeste. Jornal Feira
Hoje, Feira de Santana, 05 set.1975.
[53] As empresas desses ramos existentes no CIS eram: a
Metalúrgica Cruzeiro LTDA, a Metalúrgica Jodan LTDA, a METUSA- Metalúrgica
Tubos S. A, a Vidroferro Serralheria, EMI – Caldeireira e Montagem industriais
LTDA, a Indústria e Comércio de Alumínio S. José LTDA, KLEDER – Caldeiras
e Montagens Industriais do Nordeste LTDA, Companhia
Metalomecânica do Brasil, a JOSSAN da Bahia S/A e a Válvulas Schrader do Nordeste
S.A. Ver: ACFS. CIS. UEFS. Cadastro Geral de Empresas de Feira
de Santana. Feira de Santana, 1978.,p.35. e SUDENE/ PREFEITURA MUNICIPAL
DE FEIRA DE SANTANA. Op.cit. Não paginado.
[54] Estamos
construindo a mais moderna fábrica de engrenagens da América Latina. Jornal
Feira Hoje, Feira de Santana, 27 mai. 1972. Ver também: Incobal é o símbolo
de esforço industrial. Jornal Feira Hoje, Feira de Santana, 14 mai.1976.