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Gangues, sangue, intolerância e democracia nos EUA

Gabriel Passetti
passetti@klepsidra.net
Bacharel em História / USP
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   Gangues de Nova York, de Martin Scorsese, foi um dos principais perdedores na cerimônia do Oscar de 2003. Filme épico, ambientado na Nova York de 1863, toca em uma complicada ferida norte-americana: a violência e o preconceito frente ao outro, e como isso refletiu no surgimento dos antagonismos entre Republicanos e Democratas.
    Como em todo filme épico, Gangues de Nova York pode ser analisado tanto em relação ao roteiro que segue, quanto ao contexto em que foi produzido. Todo filme, por mais que procure retratar com o máximo de fidelidade um período histórico, acaba refletindo muito mais sua relação com o presente. 

   Apesar de ter chegado aos cinemas norte-americanos no final de 2002, o filme estava sendo rodado durante o 11 de setembro de 2001, acompanhou o desenrolar dos acontecimentos e o surgimento da Doutrina Bush. E uma crítica ferrenha a isto está na obra.


    Retratando a violência frente ao outro, a exclusão e o conservadorismo, Martin Scorsese fez uma metáfora do período em que vive. Mostra a que ponto podem chegar os ânimos exaltados dos conservadores e suas raízes marcadas com o sangue. Na cena final, a mensagem é clara: “vocês podem ter feito todo esse massacre para tentar continuar no poder, mas no final acabaram enterrados lado a lado com aqueles que perseguiram. E o país que construíram, intolerante e violento, tornou-se alvo dos excluídos e atacados”.


    A elite tradicional novaiorquina também é duramente criticada, os métodos do Estado para enfrentar rebeliões idem. E o filme nos mostra de uma forma sutil que nada mudou. Se em 1863 o alistamento militar era praticamente obrigatório – apenas quem tivesse muito dinheiro poderia comprar a dispensa – a forma como o Estado e a elite responderam ao levante popular não poderia ser mais incisivo: bombardeou o bairro sublevado. Hoje, quem critica o bombardeio ao Iraque nos EUA é preso sob a alegação de subversão.


    Se houve uma versão tradicional no cinema que mostrou que os EUA foram construídos apesar da violência – seja a Guerra Civil, os ataques a negros ou imigrantes – Gangues diz que os EUA foram construídos a partir da violência. Como canta a música-tema do filme (do U2), These are the hands who built America, ou seja, foram essas as mãos que fizeram os EUA. Sejam as do conservador xenófobo Bill, sejam as da prostituta Jenny ou do imigrante rebelde Amsterdam. Todos com muito sangue nas mãos e marcas nos corpos e consciências, retratos de suas histórias.

Apesar da violência: E o vento levou

    Podemos inclusive fazer um paralelo entre a crítica à violência como resposta ao medo do outro, do diferente, feita por Scorsese, e a história da violência ou da paixão por armas apresentada no documentário Tiros em Columbine (“Bowling for Columbine”, 2003), vencedor do Oscar e imortalizado pela dura crítica feita por seu diretor, Michael Moore, ao Presidente dos EUA na cerimônia do Oscar 2003: Temos vergonha de você, Sr. Bush! (“Shame on you, Mr. Bush!”).



Os "nativistas" partem para o ataque.
    A história começa com uma sangrenta briga entre duas gangues: uma encabeçada por um padre católico – de imigrantes – e a outra por americanos chamados de “nativistas”, cujo líder é Bill, o açougueiro (Daniel Day-Lewis). Estes vencem a batalha, o líder católico morre, e seu filho é enviado a um orfanato.

   O tempo passa, e o filho (Amsterdam, interpretado por Leonardo DiCaprio) sai, já adolescente, do orfanato com a única missão de vingar seu pai.


    O pano de fundo para esta história trivial de morte, vingança e amor (é claro que precisa haver um triângulo amoroso entre os dois rivais e uma moça do local) é a tumultuada Nova York durante a Guerra Civil Americana, com seus alistamentos obrigatórios para imigrantes e pobres, lutas políticas sangrentas, batalhas entre gangues, corrupção, repressão e preconceito.


    Amsterdam aproxima-se de Bill (o assassino de seu pai), passando a conviver com a “elite” da máfia local, presenciando corrupção, roubos, tentativas de assassinatos, estelionatos e perseguições preconceituosas.

    Após ser traído por um amigo e desmascarado por Bill, reordena os imigrantes do local, recriando a oposição entre os “nativistas” e os perseguidos imigrantes. Tal antagonismo cresce, ultrapassa a briga entre gangues e se torna a raiz do embate entre Democratas (imigrantes e “progressistas”) e Republicanos (“nativistas”, xenófobos, assassinos, etc).


Bill e Amsterdam
passaram a controlar
a máfia local

  

    Com a proximidade das eleições e com o desenrolar da Guerra Civil, um embate entre pobres e ricos contra o alistamento militar obrigatório (inclusive de imigrantes recém-chegados) torna-se uma luta campal contra a elite dirigente e entre os “nativistas” e os “progressistas”. Esta disputa é refletida nas eleições – vencidas pelos Democratas – e ultrapassada somente após o bombardeio do bairro sublevado pela Marinha, que assassina os dois lados e termina com a ameaça à elite.


    A história se passa em 1863, durante o draft riot, a revolta antialistamento durante a Guerra Civil. O diretor fundiu com este movimento rebelde diversas outras explosões violentas populares na Nova York do século XIX. São eles: a revolta antiabolicionista de 1834 (cenas dos negros sendo perseguidos e assassinados), dos election acts (as brigas entre republicanos e democratas antes, durante e após as eleições) e os flour acts (as invasões de armazéns em busca de comida).


    A condensação dos fatos não os diminui, apenas funciona como uma forma de retratar as condições sociais da Nova York do período: a Guerra Civil criando milhares de mortos e inválidos, a emancipação dos negros, a chegada dos imigrantes, a corrupção e as famosas lutas entre as gangues.


    Entender tudo isto como parte de um mesmo movimento é semelhante a interpretar tais rebeliões como um ponto nevrálgico no processo de mudanças profundas que aquela sociedade viveu durante o Século XIX, fundindo-as em um mesmo questionamento, seja ele partindo dos conservadores “nativistas” ou dos imigrantes e negros ultra-explorados.


    A conjuntura de 1863 exaltou os ânimos: os imigrantes chegavam e eram vistos por uns como bucha de canhão para a Guerra e por outros como competidores no mercado de trabalho; os negros viviam uma situação semelhante: em extrema pobreza, iam à Guerra ou enfrentavam a fúria de brancos conservadores desempregados; e em torno disso mantinha-se um sistema político dito como democrático onde as eleições eram vencidas pela força.

O embate Bill x Amsterdam simboliza a luta
entre a velha e a nova América

    Scorsese fez um filme longo demais (talvez uma sina dos filmes de DiCaprio), o que o torna em alguns momentos excessivamente arrastado no desenrolar das cenas de romance entre o triângulo Amsterdam, Bill e Jenny (Cameron Diaz), ou no transcorrer dos fatos da vingança pessoal. Se tudo isso alonga o filme, a meia hora final vale como uma lição da construção dos EUA, da desconstrução de seu mito democrático e como uma lição sobre sua elite frente aos  problemas do presente.


    Sua importância é por explicitar o chocante fosso social entre os milionários da nascente indústria e a população pobre, o surgimento de um movimento conservador xenófobo e violento que é mantido com altos e baixos até hoje, o uso intenso da máquina estatal na repressão, e a explicitação da crítica aos Republicanos e aos falcões xenófobos e intolerantes que hoje estão no poder e suas raízes de sangue, traições e violência.


    Para saber um pouco mais sobre este período, indico: Revoltas, Repúblicas e Cidadania, do professor da PUC-RIO e da UFF, Marco A. Pamplona e o reeditado As gangues de Nova York, de Herbert Asbury, um livro da década de 1930.





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