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Gangues, sangue, intolerância e democracia
nos EUA |
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Gangues
de Nova York, de Martin Scorsese, foi um dos principais perdedores na
cerimônia do Oscar de 2003. Filme épico, ambientado na Nova York de 1863,
toca em uma complicada ferida norte-americana: a violência e o preconceito
frente ao outro, e como isso refletiu no surgimento dos antagonismos entre
Republicanos e Democratas.
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Apesar de ter chegado aos cinemas
norte-americanos no final de 2002, o filme estava sendo rodado durante o
11 de setembro de 2001, acompanhou o desenrolar dos acontecimentos e o surgimento
da Doutrina Bush. E uma crítica ferrenha a isto está na obra.
Retratando a violência frente ao outro, a exclusão e o conservadorismo,
Martin Scorsese fez uma metáfora do período em que vive. Mostra a que ponto
podem chegar os ânimos exaltados dos conservadores e suas raízes marcadas
com o sangue. Na cena final, a mensagem é clara: “vocês podem ter feito
todo esse massacre para tentar continuar no poder, mas no final acabaram
enterrados lado a lado com aqueles que perseguiram. E o país que construíram,
intolerante e violento, tornou-se alvo dos excluídos e atacados”.
A elite tradicional novaiorquina também é duramente criticada, os métodos
do Estado para enfrentar rebeliões idem. E o filme nos mostra de uma forma
sutil que nada mudou. Se em 1863 o alistamento militar era praticamente
obrigatório – apenas quem tivesse muito dinheiro poderia comprar a dispensa
– a forma como o Estado e a elite responderam ao levante popular não poderia
ser mais incisivo: bombardeou o bairro sublevado. Hoje, quem critica o bombardeio
ao Iraque nos EUA é preso sob a alegação de subversão.
| Se houve uma versão tradicional no
cinema que mostrou que os EUA foram construídos apesar da violência
– seja a Guerra Civil, os ataques a negros ou imigrantes – Gangues diz que
os EUA foram construídos a partir da violência. Como canta a música-tema
do filme (do U2), These are the hands who built America, ou seja,
foram essas as mãos que fizeram os EUA. Sejam as do conservador xenófobo Bill,
sejam as da prostituta Jenny ou do imigrante rebelde Amsterdam. Todos com
muito sangue nas mãos e marcas nos corpos e consciências, retratos de suas
histórias. |
Apesar da violência: E o vento levou |
Podemos inclusive fazer um paralelo
entre a crítica à violência como resposta ao medo do outro, do diferente,
feita por Scorsese, e a história da violência ou da paixão por armas apresentada
no documentário Tiros em Columbine (“Bowling for Columbine”, 2003),
vencedor do Oscar e imortalizado pela dura crítica feita por seu diretor,
Michael Moore, ao Presidente dos EUA na cerimônia do Oscar 2003: Temos
vergonha de você, Sr. Bush! (“Shame on you, Mr. Bush!”).
Os "nativistas" partem para o ataque.
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A história começa com uma sangrenta briga entre duas gangues: uma encabeçada
por um padre católico – de imigrantes – e a outra por americanos chamados
de “nativistas”, cujo líder é Bill, o açougueiro (Daniel Day-Lewis). Estes
vencem a batalha, o líder católico morre, e seu filho é enviado a um orfanato. O tempo passa, e o filho (Amsterdam,
interpretado por Leonardo DiCaprio) sai, já adolescente, do orfanato
com a única missão de vingar seu pai.
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O pano de fundo para esta história trivial de morte, vingança e amor
(é claro que precisa haver um triângulo amoroso entre os dois rivais e uma
moça do local) é a tumultuada Nova York durante a Guerra Civil Americana,
com seus alistamentos obrigatórios para imigrantes e pobres, lutas políticas
sangrentas, batalhas entre gangues, corrupção, repressão e preconceito.
| Amsterdam aproxima-se de Bill (o
assassino de seu pai), passando a conviver com a “elite” da máfia local,
presenciando corrupção, roubos, tentativas de assassinatos, estelionatos
e perseguições preconceituosas. Após ser traído por um amigo e desmascarado por Bill, reordena os imigrantes do local, recriando a oposição entre os “nativistas” e os perseguidos imigrantes. Tal antagonismo cresce, ultrapassa a briga entre gangues e se torna a raiz do embate entre Democratas (imigrantes e “progressistas”) e Republicanos (“nativistas”, xenófobos, assassinos, etc). |
Bill e Amsterdam passaram a controlar a máfia local |
Com a proximidade das eleições e
com o desenrolar da Guerra Civil, um embate entre pobres e ricos contra
o alistamento militar obrigatório (inclusive de imigrantes recém-chegados)
torna-se uma luta campal contra a elite dirigente e entre os “nativistas”
e os “progressistas”. Esta disputa é refletida nas eleições – vencidas pelos
Democratas – e ultrapassada somente após o bombardeio do bairro sublevado
pela Marinha, que assassina os dois lados e termina com a ameaça à elite.
A história se passa em 1863, durante o draft riot, a revolta
antialistamento durante a Guerra Civil. O diretor fundiu com este movimento
rebelde diversas outras explosões violentas populares na Nova York do século
XIX. São eles: a revolta antiabolicionista de 1834 (cenas dos negros sendo
perseguidos e assassinados), dos election acts (as brigas entre republicanos
e democratas antes, durante e após as eleições) e os flour acts (as
invasões de armazéns em busca de comida).
A condensação dos fatos não os diminui, apenas funciona como uma forma
de retratar as condições sociais da Nova York do período: a Guerra Civil
criando milhares de mortos e inválidos, a emancipação dos negros, a chegada
dos imigrantes, a corrupção e as famosas lutas entre as gangues.
| A conjuntura de 1863 exaltou os
ânimos: os imigrantes chegavam e eram vistos por uns como bucha de canhão
para a Guerra e por outros como competidores no mercado de trabalho; os
negros viviam uma situação semelhante: em extrema pobreza, iam à Guerra
ou enfrentavam a fúria de brancos conservadores desempregados; e em torno
disso mantinha-se um sistema político dito como democrático onde as eleições
eram vencidas pela força. |
O embate Bill x Amsterdam simboliza a luta entre a velha e a nova América |
Scorsese fez um filme longo demais
(talvez uma sina dos filmes de DiCaprio), o que o torna em alguns momentos
excessivamente arrastado no desenrolar das cenas de romance entre o triângulo
Amsterdam, Bill e Jenny (Cameron Diaz), ou no transcorrer dos fatos da vingança
pessoal. Se tudo isso alonga o filme, a meia hora final vale como uma lição
da construção dos EUA, da desconstrução de seu mito democrático e como uma
lição sobre sua elite frente aos problemas do presente.
Sua importância é por explicitar o chocante fosso social entre os milionários
da nascente indústria e a população pobre, o surgimento de um movimento
conservador xenófobo e violento que é mantido com altos e baixos até hoje,
o uso intenso da máquina estatal na repressão, e a explicitação da crítica
aos Republicanos e aos falcões xenófobos e intolerantes que hoje estão no
poder e suas raízes de sangue, traições e violência.
Para saber um pouco mais sobre este período, indico: Revoltas, Repúblicas
e Cidadania, do professor da PUC-RIO e da UFF, Marco A. Pamplona e o
reeditado As gangues de Nova York, de Herbert Asbury, um livro da
década de 1930.