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A
Cidade e a Província de São Paulo às Vésperas da Revolução Liberal de 1842 |
INTRODUÇÃO
A HISTORIOGRAFIA
E A REVOLUÇÃO DE 1842
Em estudo intitulado "São Paulo", Sérgio Buarque de Holanda busca demonstrar que desde o início da formação do Estado brasileiro, ou seja, desde a Independência, o “povo” paulista já possuía em seu seio a semente liberal. A composição dos políticos paulistas, entretanto, variou ao longo do Império em decorrência da evolução econômica da Província. Em 1822, a grande lavoura ainda se encontrava em seu início, obrigando os grupos dirigentes a um natural recrutamento entre as profissões urbanas, como militares e religiosos[1]. Após a criação do curso de Direito, em 1828, este quadro se alterou cedendo espaço aos novos juristas que, paulatinamente, vão crescendo em status social, e através de casamentos aliam o conhecimento das leis à tradição familiar e poderio econômico da “nobreza paulista”. Sobre o movimento revolucionário, o autor apresenta uma imagem desoladora dos revolucionários, sendo eles “mal exercitados, com escassas armas de préstimo e muito menos munições”[2], levantando assim uma ambigüidade , pois se, em um primeiro momento, o mesmo narra a bravura e a organização dos paulistas comprovando tais virtudes com a envergadura do movimento, mais a frente em seu relato prefere apresentar um panorama bem mais desorganizado.
| A obra
de Augustin Wernet[3] mostra que o momento da abdicação é muito
importante para a formação política da Província de São Paulo, pois é nesse
momento que surgem diversas associações políticas
que serão a base dos partidos políticos da província. Uma delas foi a Sociedade dos Defensores da Liberdade e Independência
Nacional da cidade de São Paulo. O autor mostra que três dos conselheiros
da Sociedade Defensora vieram depois a pertencer ao partido "liberal"(Joaquim
Antão Fernandes Leão, Manoel Dias de Toledo e Manoel de Jesus Valdetaro) e
cinco ao partido "conservador"(Carlos Carneiro de Campos, Vicente Pires da
Mota, Paulino José Soares de Souza, José Antônio Pimenta Bueno,
Antônio Mariano de Azevedo Marques e Antônio da Silva Prado)[4].
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Paulino José Soares de Souza, futuro Visconde do Uruguai |
Augustin aponta, porém, que esta Sociedade foi muito
"efêmera" pois reunia liberais exaltados e moderados e futuros caramurus[5]. Diversas outras "Sociedades
dos Defensores" apareceram por toda a Província. Para o autor, essas "sociedades
políticas" surgiram em função da crise decorrente da abdicação de D. Pedro
I[6].
Paulo Pereira de Castro chama atenção para uma
questão apenas citada por Sérgio Buarque de Holanda: o objetivo da Revolução.
Segundo o primeiro estudioso “não se pretendia derrubar o Governo pela
força das armas. A demonstração armada era uma forma de compelir o Imperador
a medidas apaziguadoras que implicariam a demissão do Ministério e a suspensão
das reformas.”[7] Entretanto,
o levante possuiu dimensões capazes de questionar o caráter sugerido por
Paulo Pereira de Castro, pois não queriam apenas a demissão do Ministério,
queriam que o partido a qual pertenciam, o liberal, retornasse ao comando
do Estado.
Aluísio
de Almeida traça um histórico da revolução na Província de São Paulo e em
Minas Gerais fazendo diversas considerações sobre o movimento. Para ele,
a revolução poderia ter sido evitada, pois os liberais quando voltaram ao
poder, em 1844, não fizeram nada para abolir as leis de reforma do Código
do Processo e do Conselho de Estado que causaram a revolução[8]. O movimento já estava organizado
há tempo e não aconteceu de uma hora para outra, assim como a repressão.
O autor expõe que nem toda a província era liberal, pois a região do Oeste
Paulista (Campinas) tinha influência conservadora[9].
Eugênio
Egas trata os acontecimentos de 1842 em São Paulo e Minas Gerais como uma
rebelião. Para ele "aquela rebelião é considerada um erro da política
liberal(...), não tiveram visão exata do momento político(...), só produziu
vítimas, que foram presas, deportadas e castigadas severamente(...) A rebelião
de 1842 foi um protesto partidário sem fundamento(...) Os chefes liberais
fizeram o contrário do que pregavam"[10].
A opinião de Egas baseou-se nas palavras do cônego José Antônio Marinho e
de João Batista de Moraes, testemunhas dos acontecimentos.
Manuel Eufrásio de Azevedo Marques em sua obra
Apontamentos históricos, geográficos, biográficos, estatísticose noticiosos
da Província de São Paulo seguidos da Cronologia dos acontecimentos mais
notáveis desde a fundação da Capitania de São Vicente até o ano de 1876[11] chama o movimento de "Rebelião
de São Paulo", e limita-se à narrativa dos acontecimentos pois, para ele,
ainda era cedo "para historiar detalhadamente e com imparcialidade o movimento
revolucionário"[12]. A obra, porém,
é importante pois traça dados biográficos de figuras da
Revolução.
Arnaldo Daraya Contier, em sua obra Imprensa
e ideologia em São Paulo(1822-1842)[13]
chama o movimento de 1842 de "sedição" e o compara com o motim de Francisco
Inácio, ocorrido na cidade de São Paulo no ano de 1822 às vésperas da independência
brasileira. Para o autor, os dois movimentos ocorreram devido aos mesmos
problemas, mas as ramificações da "sedição" de 1842 e suas implicações econômicas,
políticas, sociais e ideológicas foram muito mais profundas[14].
Segundo Míriam Dolhnikoff, em sua obra Caminhos
da Conciliação: o poder provincial paulista(1835-1850)[15], a Assembléia Provincial
de São Paulo era majoritariamente liberal em 1842[16], devido ao fato de ter sido eleita em um período em que os liberais se encontravam
no poder. Para a autora, as
relações entre as Câmaras municipais e a Assembléia Provincial "muitas vezes
eram de aliança contra o Governo Central"[17]
como, por exemplo, em 1842 quando chegaram à Assembléia Provincial paulista
representações de câmaras municipais e juizes de paz logo após a reforma
do Código do Processo Criminal.
Ilmar Rohloff de Matos, em O tempo Saquarema:
a formação do Estado Imperial[18],
sugere que o interesse dos liberais na época da eclosão da Revolução
era o de conduzir a política de modo a assegurar o predomínio de cada grupo
em seu âmbito provincial, criando uma monarquia descentralizada. Mas, esta
proposta não era suficiente para estabelecer uma unidade de ação, pois os
liberais divergiam nos fundamentos e nos modos de agir e também porque havia
prevalência dos interesses mais imediatos e particulares dos grupos locais[19]. O que o autor ressalta, e
o que a documentação estudada aponta, é que dentro da própria Província de
São Paulo nem todos os liberais tinham a mesma posição, como é o caso dos
de Curitiba, talvez por isso a revolução não tenha tomado proporções maiores
na Província.
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Maria Odila Silva Dias, em seu ensaio "A Interiorização da Metrópole"[20] não trata especificamente do movimento liberal de 1842, mas da formação do Estado Nacional brasileiro desde a época da Independência, em 1822. Para a autora "a vinda da Corte com o enraizamento do estado português no Centro-Sul daria início à transformação da Colônia em metrópole interiorizada(...)(e este processo) se consolidaria com a centralização política realizada por homens como Caxias, Bernardo de Vasconcellos, Visconde de Uruguai, consumando-se politicamente com o Marquês de Paraná e o Ministério da Conciliação(1853-1856)"[21]. |
Visconde do Uruguai |
Podemos
notar por toda a sua obra que, primeiramente, a Independência não coincidiu
com a consolidação da unidade Nacional, que "viria através da integração
das diversas Províncias e seria uma imposição da nova Corte no Rio(1840-1850)
conseguida a duras penas através da luta pela centralização do poder e da
'vontade de ser brasileiro'"[22];
e que o Império brasileiro e a nova Corte seriam um prolongamento da administração
e da estrutura colonial. O processo de consolidação nacional se deu por meio
de acordos entre as elites dominantes, com imposições do poder central sobre
os interesses regionais.
Richard Morse traça em toda a sua obra diversos
aspectos da cidade de São Paulo[23]. A preocupação com os negócios do município iria ser posta
em segundo plano, pois o mais importante era que ela era a Capital da Província,
inserindo-se assim nas questões nacionais. Morse comenta a Lei de 1º de Outubro
de 1828, que regulamenta as Câmaras Municipais do Império. Para ele "a
Lei tirava aos paulistanos sua capacidade de resolver as necessidades orgânicas
da cidade como cidade. Os membros da Câmara conheciam essas necessidades
porque as viviam. A autoridade máxima, entretanto, passara-se a pessoas(...)
que não participavam da vida municipal..."[24],
ou seja, para o autor a Lei de 1º de Outubro era danosa à Câmara Municipal
e à cidade pois quem controlaria o futuro da cidade seriam pessoas que não
viviam os problemas da cidade, já que a Câmara se tornava meramente administrativa,
e o Conselho Geral da Província (depois Assembléia) e o Presidente da Província
tinham autoridade de decisão sobre os atos das Câmaras. A Câmara se tornou
administrativa, todavia não é possível afirmar que a Lei tirava aos paulistanos
a capacidade de resolver seus problemas, pois como a comparação das atas
de anos posteriores à criação da Lei das Câmara com as anteriores demonstram,
a vida da cidade tornou-se muito mais dinâmica, pelo menos dentro da Câmara
Municipal, com maiores discussões e mais assuntos a serem discutidos. Para
Morse a municipalidade perdera totalmente o seu poder após a Lei de 1828
e o Ato Adicional em 1834. Em nossa opinião, essa municipalidade perdera
certo poder, mas as fontes estudadas sugerem o contrário, pois as Câmaras
ainda detinham o poder de interferir nos distritos de paz da cidade, escolhendo
os juizes e também escolhendo os postos da Guarda Nacional após 1831, instituição
muito importante para deter o controle policial do território. Além de que
muitos vereadores também eram deputados provinciais, como veremos na análise
das fontes, e participavam tanto das questões do município como também da
Província.
Morse expõe suas opiniões sobre a Revolução de
1842. Para ele" três atos em particular causaram a dissidência; a lei
de 18 de Setembro( de 1841), conhecida como 'interpretação do Ato Adicional',
pela qual os vice-presidentes das Província seriam nomeados pelo Imperador
e não eleitos; a Lei de 23 de Novembro( de 1841), criando um Concelho de
Estado, de provimento vitalício, por isso temido pelos liberais como um reduto
para os oponentes despóticos; e a Lei de 3 de Dezembro(de 1841) que reformava
o Código Penal e centralizava as nomeações do judiciário, ocasionando a remoção
de muitos ocupantes liberais de cargos"[25].
É importante ressaltar esse aspecto da reforma do Código do Processo que
removeria muitos liberais, pois com a reforma criavam-se os cargos de delegados
e subdelegados, nomeados pelo Presidente da Província, conservador, e consequentemente
os cargos seriam ocupados por conservadores, e com esses novos cargos os
liberais, juizes de pazes de diversas paróquias na Província perdiam diversas
de suas atribuições, e consequentemente perdiam poder de decisão nas questões
judiciárias, ou seja, perdiam poder político.
Sobre a relação da cidade com a Revolução o autor
nos diz que tal relação "veio pôr em relevo que as figuras políticas
de importância na Capital já não eram os caciques regionais vivendo em orgulhoso
isolamento em suas fazendas, mas os bacharéis, quer estadistas, quer políticos
que convergiam do interior e do Rio, com novas técnicas de domínio, fixando
residência na cidade, assenhorando-se de sua imprensa e de suas tribunas,
fazendo entrosarem-se aos da nação os interesses e destinos da cidade"[26]. Em nossa opinião é preciso
acrescentar que os "caciques regionais" ainda permaneciam na cidade, pois
esta era a Capital, e centro dos negócios da Província, entretanto os bacharéis
aos quais o autor se refere, formados na Academia do Largo São Francisco,
transformaram a divisão política da cidade , onde os representantes dos
dois partidos, conservador e liberal, se dividiam, principalmente nas freguesias
centrais da capital, ou seja, nas freguesias da Sé (distrito Norte e Sul),
Santa Ifigênia e Brás, e, ao contrário de como se
imagina, e do que as fontes sugerem os liberais não possuíam uma maioria
absoluta na capital paulista.
Martins de Andrade dedica sua obra inteiramente
à Revolução de 1842, tanto na Província paulista como em Minas Gerais[27]. Para
o autor , foi com a maioridade que as duas facções (partidos liberal e conservador)
se definiram, assumindo uma atitude permanentemente hostil. As fontes estudadas,
os Anais da Assembléia Provincial, demonstram algo em torno disso.
O autor nos mostra um documento importante, encontrado
em um jornal mineiro, onde Rafael Tobias de Aguiar propõe condições ao Presidente
da Província (Costa Carvalho) para que a situação não se inflamasse na Província.
Entre essas condições estão que não se desembarcasse tropa alguma nos portos
da Província; que se conservassem os empregados existentes; que se demitisse
imediatamente o comandante da guarnição da capital escolhendo outro de confiança
dos paulistas; e que se comprometesse a procurar com eficácia a remoção,
para fora da Província, do indivíduo (o célebre Pacheco)[28] que ocupava a vara do juízo
do cível[29]. É interessante ressaltar
este último ponto, pois como será visto mais adiante, através da análise
dos Anais da Assembléia, havia uma discórdia
profunda dos liberais ante o conservador Joaquim José Pacheco.
Para Andrade, a capital paulista não se submeteu
aos revolucionários em 1842 pois o major Francisco Galvão de Barros França
(liberal) tentou alcançar Itu, com o fim de unir-se às forças revolucionárias
que deviam estar a caminho, com o intuito de reforçar o seu contingente;
isso acabou gerando uma perda de tempo por parte dos rebeldes, impossibilitando
a tomada da capital. É possível perceber que para o autor o movimento liberal
não vingou por erros puramente de estratégia militar.
| A partir
da historiografia lida, podemos indagar se realmente toda a Província de São
Paulo se colocava a favor dos revolucionários, se todos os paulistas possuíam
realmente a "semente liberal" citada por Sérgio Buarque de Holanda. As fontes
demonstram o contrário, que nem todos os paulistas eram liberais, apesar
de serem maioria naquele momento. Os conservadores da Província não eram
apenas homens da elite, possuiam "partidários" em todas as diversas classes
de homens livres na Província, além da população cativa ligada à essas classes
senhoriais conservadoras. Mesmo diante dessa maioria liberal da Província
é possível discutir até que ponto esse liberalismo (e os liberais) era homogêneo.
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Brasão Imperial Brasileiro |
Não se pode dizer que o conservadorismo dentro
da província fosse homogêneo. A heterogeneidade dos grupos conservadores
e liberais era corrente em todo a nação. Ilmar Mattos, em O tempo Saquarema
trabalha essa questão da heterogenidade dos grupos políticos na formação
do Estado Nacional brasileiro[30]
A historiografia
estudada relata e comenta os acontecimentos de 1842 como se só existissem
adeptos do partido liberal na Província de São Paulo, e como se os conservadores só aparecessem em 1842, comandados por Costa Carvalho,
enviado da Corte pelo poder central para apaziguar os liberais. As fontes
demonstram que na Província existia uma bipolaridade partidária (conservadores
e liberais) desde, pelo menos, 1838. Além disso, a situação da Província
no período é muito mais complexa do que a demonstrada pela a historiografia.
Seguindo-se os textos historiográficos analisados
é possível reconstituir os principais episódios do movimento revolucionário
ocorridos entre os meses de maio e junho de 1842 na Província de São Paulo.
O movimento continuou na Província de Minas Gerais, mas apenas nos ataremos
aos ocorridos em São Paulo, devido a pesquisa estar centrada na análise
do movimento na Província paulista.
Boa parte da elite paulista ligada ao partido liberal,
liderada principalmente pelos proprietários rurais, estava descontente com
a atuação do Gabinete Conservador na Corte, nomeado em março de 1841 e com
seu representante na Província, José Costa Carvalho. Tais “latifundiários”
do Partido Liberal, com base nas culturas da cana de açúcar e do café, começaram
a angariar simpatizantes após a aprovação, na Corte, da Lei de Interpretação
do Ato Adicional, da Reforma do Código do Processo Criminal e da dissolução
da Assembléia eleita com o Gabinete da Maioridade nas chamadas “eleições
do cacete”. Com a antecipação da Maioridade articulada pelos Liberais, estes
teriam como assegurar sua consolidação no poder por meio das eleições para
a Assembléia que ocorreriam no ano de 1842. Entretanto, a extrema violência
com que foi conduzido o pleito e as irregularidades e fraudes ao longo do
processo provocaram a dissolução da Câmara recém-eleita[31] e a reação armada dos Liberais.
As primeiras Câmaras Municipais na Província de São Paulo a se manifestarem
a favor da demissão do Gabinete Conservador de 23 de Março de 1841 foram
as das regiões que também seriam os principais focos da Revolução: Porto
Feliz, Tatuí, Sorocaba, São Carlos, Pirapora, Taubaté, Guaratinguetá, Queluz,
Cunha, Bragança, Atibaia e São Bernardo[32].
A intenção de tais políticos
era de que o movimento eclodisse, simultaneamente, nas quatro principais
Províncias e na Corte, ou seja, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul
e Rio de Janeiro. Assim, as forças repressoras do Governo Central estariam
divididas numericamente. É interessante observar que esses quatro núcleos
foram os mesmos que se reuniram em 1822 contra as Cortes de Portugal.
Em finais de 1841, fora designado José da Costa
Carvalho, o Barão de Monte Alegre, para apaziguar os ânimos antes que estes
se tornassem incontroláveis. Porém, devido à sua intensa relação com o Gabinete
Conservador, isto apenas deixou as lideranças liberais ainda mais indignadas.
A principal tarefa de Monte Alegre passou a ser, então, preparar a defesa
para uma evidente sublevação liberal. Um dos atos do Barão foi substituir
os principais chefes das Guardas Nacionais, que poderiam apoiar os revolucionários.
Assim, a 9 de Maio de 1842, Monte Alegre substituiu o Capitão Francisco
Antônio de Oliveira colocando em seu lugar o Tenente Cel. João Joaquim da
Luz no comando da guarnição de São Paulo[33].
Os sorocabanos, entretanto, supondo que o quartel
da capital havia se sublevado, iniciaram a Revolução em 12 de maio de 1842,
após a dissolução da Câmara no Rio de Janeiro. Nove dias depois, chega à
Capital a primeira das chamadas “colunas libertadoras”. Sorocabanos e ituanos
juntaram-se aos rebeldes de vilas próximas a São Paulo em frente à ponte
sobre o Rio Pinheiros, nos campos do Pirajussara, região onde se localizava
a fazenda do conservador Antônio da Silva Prado.
Porém, quatro dias antes, foi nomeado na Corte o Barão de Caxias – futuro Duque de Caxias— para comandar a força repressora. Luís Alves de Lima e Silva chegou com seu “Exército Pacificador” a São Paulo dois dias antes das forças revolucionárias chegarem à mesma cidade e assim pôde organizar a defesa da Capital da Província.
A defesa foi extremamente bem desenvolvida, com
isso, em poucos dias Caxias já pode se dirigir a Venda Grande para reprimir
os revolucionários, e vencer uma batalha importante para o desfecho da revolução
no oeste paulista. Após esta vitória das forças do poder central, a luta
passou a ser pela busca dos líderes. Com uma ação repressiva de amplo alcance
e efeitos drásticos, as forças sublevadas eram vencidas não só nas províncias
como também na Corte, através de medidas que, suspendendo as garantias constitucionais,
possibilitavam a prisão de parlamentares envolvidos, como o ex-Regente Feijó
que seria finalmente preso em Sorocaba a 21 de junho de 1842.
Os principais chefes liberais foram, ainda, transportados
para Lisboa a bordo da fragata Paraguaçu e lá conservados sem direito
de locomoção a pedido do governo brasileiro. O levante foi tema político
de grande importância até 1844, quando foi decretada a anistia e o Partido
Liberal pode ter novamente sua existência legal no Sul do país[34].
Algumas forças revolucionárias isoladas ainda seguiram
sua luta no Vale do Paraíba, em Areias e Silveiras principalmente, tendo
sido debeladas dramaticamente pelas forças legalistas, com a ajuda dos conservadores
que haviam se refugiado anteriormente em Guaratinguetá.
Nesse sentido, a partir das obras estudadas, poder-se-ia pensar que a Revolução foi um episódio localizado sem fundamento ou fundamentado em apenas duas reivindicações: contra o movimento regressista vitorioso naquele momento e contra a centralização. Porém as fontes investigadas sugerem um quadro muito mais complexo dentro da Província de São Paulo, onde existiam disputas de interesse econômico interno e também disputas de poder.
[1] HOLANDA, S. B. de – São Paulo. In: Holanda, S. B. de (org.). História Geral da Civilização Brasileira 6ªed. São Paulo: DIFEL, 1984 . Tomo II, 2ºvol . p. 450.
[2] HOLANDA, S. B. de. Op. Cit., p. 468.
[3] WERNET, Augustin. As sociedades políticas da Província de São Paulo na primeira metade do período regencial. Tese de Doutorado. São Paulo: FFLCH/USP, 1975.
[4] Idem. p. 144.
[5] Idem. p. 110.
[6] Idem. p.266.
[7] CASTRO, P. P. de – Op. Cit., p. 66.
[8] ALMEIDA, Aluísio. Op. Cit., p. 27.
[9] Idem. p.65.
[10] EGAS, Eugênio. Galeria dos Presidentes de São Paulo: período monarchico 1822-1889. Publicação oficial do Estado de São Paulo. Comemorativo do 1º aniversário da independência do Brasil. Volume I. 1926, p. 106-107.
[11] MARQUES, Manuel Eufrásio de Azevedo. Apontamentos históricos, geográficos, biográficos, estatísticose noticiosos da Província de São Paulo seguidos da Cronologia dos acontecimentos mais notáveis desde a fundação da Capitania de São Vicente até o ano de 1876. São Paulo: EDUSP, 1980, 2 volumes.
[12] Idem, p. 199.
[13] CONTIER, Arnaldo Daraya. Imprensa e ideologia em São Paulo(1822-1842). Petrópolis: Editora Vozes, 1979.
[14] Idem, p. 283.
[15] DOLHNIKOFF, Míriam. Caminhos da conciliação: o poder provincial paulista(1835-1850). Dissertação de Mestrado apresentada à Área de História Econômica do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1993.
[16] Idem, p. 37.
[17] Idem, p. 65.
[18] MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo Saquarema: a formação do Estado Imperial. Rio de Janeiro: Access, 1994.
[19] MATTOS, Ilmar. Op. Cit., p.99.
[20] DIAS, Maria Odila Silva. "A interiorização da Metrópole(1808-1853)" in: MOTA, Carlos Guilherme(org.). 1822: Dimensões. São Paulo:Perspectiva, 1972. p. 160.
[21] Idem. p. 171.
[22] Idem. p. 169.
[23] MORSE, Richard. Formação histórica de São Paulo. São Paulo: Difusão Européia do Livro,1970.
[24] Idem. p. 81.
[25] Idem. p. 111.
[26] Idem. p. 119.
[27] ANDRADE, Martins. A Revolução de 1842. Rio de Janeiro: s/ editora, 1942.
[28] O célebre Pacheco, a qual o documento se refere, seria o conservador Joaquim José Pacheco, que era o Juiz do Cível do termo da Capital. Como demonstraremos na análise das fontes haverá uma grande discussão em torno do cargo de Pacheco nos diversos anos estudados da Assembléia Provincial.
[29] Idem. pp. 129-130.
[30] MATTOS, Ilmar R. . Op. Cit...
[31] CASTRO, P. P. de – A “experiência republicana”, 1831-1840. In: HOLANDA, S. B. de (org.). História Geral da Civilização Brasileira. 6.ed. São Paulo: DIFEL, 1984. T. II, 2ºvol, p. 65.
[32] DOLHNIKOFF, Míriam. Caminhos da conciliação: o poder provincial paulista(1835-1850). Dissertação de Mestrado. São Paulo: FFLCH/USP, 1993, p. 66.
[33] ALMEIDA, Aluísio de. Op. Cit., p.106.
[34] CASTRO, P. P. de – Op. Cit., p. 67.
[35] EGAS, Eugênio. — Galeria dos Presidentes de São Paulo: período monarchico 1822-1889. Publicação oficial do Estado de São Paulo. Comemorativo do 1º aniversário da independência do Brasil. Volume I. 1926, p. 170.
[36] ALMEIDA, Aluísio de. Op. Cit., p. 134-135.