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A Política de Cotas
nas Universidades Públicas Brasileiras |
Muitas pessoas se assustam ao
ouvirem a idéia de criação de cotas para negros nas universidades
públicas Brasileiras. Este artigo busca compreender o medo e a falácia
que giram
em torno das cotas, bem como demonstrar minha sincera opinião
sobre
o sistema de cotas no Brasil, e de como o compreendo dentro de um
universo
muito maior de uma série de correções de nossa sociedade tão
“democrática”
e “anti-racista”.
Há mais ou menos um ano tenho
trabalhado como professor colaborador do cursinho para população
carente do Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo,
entidade referencial na luta contra o preconceito racial no Brasil,
ministrando as aulas da disciplina
de História Geral. Neste universo, me deparei com situações que puseram
abaixo tudo o que pensava até então sobre o sistema de cotas para
negros nas universidades
públicas brasileiras. A diferença se pautou em algo extremamente
relevante:
a passagem do discurso teórico que até agora tinha, para a prática;
aquela
que me defrontou com uma verdade bem mais latente e contundente do que
aquelas
demonstradas por muitos demagogos (como até aquele momento acredito ter
sido)
ou inocentes (o que não acredito muito) em seus discursos.
Martin Luther King, o assassinado
líder
negro dos EUA
|
Os discursos contrários à política
de cotas se pautam basicamente em dois elementos que não se sustentam:
o primeiro seria que ao invés do ingresso de negros através da política
de cotas, o fundamental
seria a melhoria substancial do ensino médio no Brasil que garantiria
uma
equiparação de saberes para os alunos que pretendem ingressar em uma
universidade
através do vestibular; e o segundo, como desdobramento do primeiro,
seria
que no Brasil a diferenciação entre os ingressantes em uma universidade
e
aqueles que não conseguem sucesso no vestibular estaria pautada na
diferença
econômica, ou seja, a entrada em uma universidade pública dependeria
exclusivamente
do poder aquisitivo do aluno e a economia despendida em sua formação
escolar. |
Estes dois argumentos fazem parte
do discurso comum, daqueles que se pronunciam contrários ao sistema de
cotas
e não possuem muita coisa a acrescentar; o primeiro argumento de que “é
necessário uma melhoria do ensino no Brasil” é um discurso de décadas,
ou seja, aguarda-se a melhoria também a décadas ao passo em que a
exclusão permanece; defendemos tal argumento e o que se apresenta como
proposta para que isto se efetue?
Quase nada! Não peça aos movimentos de inserção do negro que abandonem
suas
políticas efetivas em troca da espera; não espere a acomodação na
esperança
da equiparação da formação escolar dos alunos oriundos de escolas
públicas
em relação aos oriundos de escolas particulares. A exclusão do negro da
Universidade
Pública é latente!!!!!!!! Percebam o perigo deste argumento, na medida
em
que nos reduz a paciente do processo, sendo que o que a comunidade
negra
no Brasil precisa é da aplicação de medidas imediatas, independente se
for
para reparação do mal que se faz até hoje a esta comunidade ou se para
realmente
começarmos a dar um fim a exclusão do negro no ensino superior
brasileiro.
Sobre o segundo argumento que
trata sobre
a desigualdade social, mas é claro que o pobre é que não consegue
ingressar
em uma universidade pública, entretanto mesmo entre os pobres, o número
de
negros pobres está 47% acima dos brancos, ou seja, existem mais pessoas
miseráveis
negras do que brancas, e entre estas, os negros são os de menor salário
e
poder aquisitivo; a remuneração para um mesmo cargo é diferente entre
negros
e brancos. A maioria (na realidade, uma minoria) dos alunos oriundos de
escolas
públicas que conseguem entrar em uma universidade pública no Brasil são
brancos,
ou seja, mesmo entre aqueles que conseguem vencer a diferença, os
negros
são minoria.
Você que está lendo este artigo e
estuda
em uma universidade pública, ou até mesmo privada no Brasil, repare a
sua
volta em sua universidade, e veja a gritante diferença entre o número
de negros
e brancos. Desigualdade Social? Também, mas muita desigualdade racial
presente.
Recentemente lendo um artigo de um
jornal
universitário chamado Revelação da Universidade de
Uberaba,
de autoria do aluno Rodolfo Rodrigues do 6º período de Jornalismo[1],
me assustei; o artigo que tentava combater a política de cotas,
envolvia
todas estas idéias do discurso comum e algumas outras muito piores, com
todo
o respeito ao colega. Este citava em seu artigo (além do ideário comum)
a
idéia de que biologicamente somos todos iguais e por isso não poderia
se
estabelecer as cotas e que o negro apenas precisaria de seu esforço e
dedicação
para ingressar em uma universidade pública!
Caro Rodolfo e aqueles que pensam
como ele, é lógico que somos muito parecidos geneticamente falando,
entretanto,
ao contrário de sua “democracia biológica” o preconceito e o racismo no
Brasil estão pautados pela cor que o negro traz em sua pele e não no
sangue que
corre em suas veias e, por favor, se ainda existe a crença de que a
única
diferença entre os alunos que entram em uma universidade pública e
aqueles
que não ingressam, está pautada no esforço e dedicação que estes
desprendem
em sua preparação para o vestibular, gostaria que estes fizessem uma
visita
a minha turma no Núcleo de Consciência Negra aqui da Universidade de
São
Paulo e separassem os que não trabalham, os que não ajudam em casa e os
que
sustentam famílias, ou seja, possuem muito mais obrigações do que
aquelas
impostas pelo vestibular. A diferença está na dedicação? Aquele que
ainda
não ingressou no mercado de trabalho ou que não tem obrigações para com
sua
família é um maior merecedor da vaga na universidade porque se
“dedicou”?????? Convenhamos, se este poder
fosse me dado, eu estaria muito
mais propenso a colocar o aluno trabalhador em uma universidade, se o
mérito
for a dedicação, do que o aluno que pode dedicar-se integralmente ao
vestibular
tendo como estrutura educacional bons colégios particulares.
No mesmo artigo, há uma foto em
destaque
com uma aluna negra do 3° período de Comunicação Social da mesma
Universidade,
e ao seu redor 5 alunos brancos, com os seguintes dizeres “A
estudante ..... ingressou na Universidade sem precisar se valer das
cotas.”.
O que me causou estranheza foi o fato do próprio autor do artigo
corroborar
com a idéia de que são pouquíssimos negros dentro de uma Universidade
Pública
no Brasil, através desta foto que possui uma maioria de alunos brancos,
sendo
ela a única negra do grupo!
Como dito anteriormente, a questão
do negro na Universidade Pública no Brasil é bem mais complexa do que a
simples compreensão da desigualdade social, polarizada entre pobre e
ricos, compreensão esta que por muito tempo engessou e engessa as
reivindicações de uma maior igualdade da comunidade negra no Brasil. É
o discurso comum presente até
mesmo dentro das universidades que por vocação, teriam de se libertar
destas
amarras.
Recentemente, a USP tem realizado
obras
na intenção de facilitar o acesso a universidade de alunos portadores
de deficiências
físicas; entretanto, nossos departamentos não estão preparados para
receberem
os alunos portadores de deficiências visuais, mesmo que sendo
estabelecido
por lei a obrigatoriedade de tal adaptação. Seria justo interromper as
obras
na USP que visam facilitar o acesso de deficiente físicos visto que
elas
não contemplam os deficientes visuais? É justo suspender a política de
cotas
porque ela não da conta do todo?
Para aqueles que não sabem, as
universidade
públicas brasileiras possuem cotas para estrangeiros. E porque não se
levantaram
contrários? É que a questão dos negros para muitos deve permanecer como
está;
todos acreditando no mito da nossa “democracia racial” onde somos
felizes,
pacíficos e ordeiros, e só não se consegue a felicidade, satisfação
econômica
e realização de sua pessoa enquanto cidadão e ser humano, aqueles que
não
batalham por ela, pois as condições estão dadas “igualmente” para
todos;
Papai Noel e coelhinho da páscoa também existem.
No mesmo artigo o autor ainda
finaliza suas idéias rechaçando as pessoas que fazem uso de roupas com
dizeres do
tipo “100% negro”, “preto
brasileiro” ou “afrobrasileiro negão”, alegando que
isto também seria uma forma de manifestação de racismo, só que de ordem
invertida. Estranho, quantas pessoas não desfilam entre nós com
camisetas do tipo “MedicinaUSP”, “Poli USP”, “Mackenzie”, “PUC”, “UNIUBE” e não os tratamos como
racistas, apesar de a todo momento
afirmarem sua condição de superioridade educacional. É racismo a
afirmação
da cor que traz na pele? Não existe uma negação do outro, mas uma
afirmação
da condição que sou. Se me afirmo como Universitário, tranqüilo; se me
afirmo
como Negro sou racista???? Colocação absolutamente infeliz, que
infelizmente
faz parte do ideário comum e não apenas de nosso colega em Uberaba.
Não se trata apenas de uma
resposta
do artigo citado, mas sim da colocação dos vários temas que permeiam e
ocultam
as discussões sobre o preconceito e o racismo no Brasil do qual a
política
de cotas é apenas uma parte, mas que forçosamente por parte de alguns
vem
se transformando no todo.
Acredito plenamente que o ensino
no Brasil
deva ser repensado e reformado como um todo, garantindo uma melhoria na
qualidade
do ensino aplicado a comunidade carente que é a maioria deste país. O
que
não posso aceitar é que a espera da realização disto sufoque a questão
da segregação racial das universidades públicas brasileiras. Assim como
o negro, também estão os índios e minorias também discriminadas, que a
exemplo do ocorrido
com os movimentos negros, também tem o direito de reivindicar seus
direitos
e fazer valer sua voz.
Não acredito que a política de
cotas seja um fim em si, muito pelo contrário, é ela que está
estimulando todo
o debate em torno do racismo no Brasil, e é a partir destas discussões
que nascerão os rumos de muitas questões que hoje se colocam quase sem
solução.
O que não gosto de observar é o reducionismo a que certas pessoas
submetem
as cotas, o racismo e o negro no Brasil.
Apesar de se chamar Núcleo
de Consciência Negra da Universidade de São Paulo, o NCN atende em
suas
dependências, populações carentes oferecendo várias atividades e cursos
tais
como línguas (Espanhol, Inglês e Yorubá), Alfabetização de adultos e um
cursinho
comunitário pré-vestibular que busca a inserção dos alunos carentes
oriundos
em sua maioria de escolas públicas nas Universidades Públicas
brasileiras,
alunos estes que são atendidos independentes da cor que tragam em sua
pele,
nos mostrando uma fácil lição, na qual se configuram como um centro de
referência
contra a discriminação Racial no Brasil e na luta pelas cotas, e trazem
em
seus projetos alunos das mais diferenciadas raças.
Àqueles que ainda insistem em
perguntar,
para seus padrões de cores eu sou classificado como branco e não estou
legislando
em causa própria, mas em função daquilo que considero justo.
[1] Rodrigues, Rodolfo. O Racismo está na moda in “Revelação – Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social” . Universidade de Uberaba, abril de 2003, pág. 8.