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Egito: o Berço do Ideal Imperial
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– Geografia e Climatologia:
Quando
se fala em Egito, logo se lembra do deserto do Saara e do rio Nilo. É verdade
que estas são as principais marcas regionais que vieram a delimitar o país,
no entanto, não são as únicas. Neste item discorrerei sobre as diversas características
regionais do Egito antigo, lembrando que hoje, devido à construção de uma
imensa barragem pelo presidente Nasser no início da década de 60, as características
climáticas do Egito vêm mudando drasticamente, o que vem contribuindo para
a proliferação de doenças e para uma diminuição notável no fluxo (outrora
constante) do Nilo. O Egito corre riscos devido a esta obra.
1.1– O Ressecamento do Clima
e a Formação dos Desertos:
Inicialmente
é necessário que se saiba que o Egito muito possivelmente não foi sempre tão
seco quanto é hoje, ou mesmo quanto era na época dos Faraós. Na verdade, há
teorias que chegam a afirmar que por volta do IX milênio antes de Cristo,
a região poderia ter sido verdejante e de clima muito úmido. Algum fenômeno,
no entanto (talvez uma glaciação, talvez uma ligeira alteração no eixo terrestre,
talvez outra coisa), ocorrida por volta de 9000 a.C., fez com que gradualmente
o a região se tornasse mais seca.
Animais que habitavam inicialmente todo o Egito migraram
para as margens do Nilo e mesmo a vegetação começou a dar lugar a um deserto
crescente.
Além das implicações no povoamento original da região, como
será explicado mais adiante, a geografia da região também teve importante
papel na consolidação do próprio modo de vida Egípcio. Vejamos:
| Diferentemente de outras
regiões de antigo povoamento, como a Mesopotâmia, o Egito não estava sujeito
a ataques constantes sendo verdadeiramente uma espécie de “Vale Perdido”.
Sendo cercado ao norte pelo mar Mediterrâneo, ao sul pela cataratas do Nilo,
ao oeste pelo deserto da Líbia e ao leste pelo deserto da Núbia e por uma
cordilheira com pontos altíssimos como os montes Kuror (1240m), ao sul e Gharib
(1750m), ao norte. Esses acidentes geográficos funcionaram como muralhas naturais
que permitiram grandes períodos de paz e desenvolvimento (com pouca influência
externa indesejada) e que também ocasionaram uma certa estagnação que, como
veremos, em períodos mais tardios, acabou por prostrar o Egito perante os
grandes Impérios vizinhos. |
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Quanto
ao Nilo, as palavras de Heródoto em sua “História”, já nos dizem praticamente
tudo “O Egito é uma dádiva do Nilo!”. O calor da região é grande o ano todo,
por isso, por lá é praticamente impossível se distinguir quatro estações no
ano como nas mais variadas partes do mundo se faz. Dessa forma, os antigos
Egípcios desenvolveram uma técnica de contagem das estações do ano muito particular.
Dividiram o ano em três grandes estações de aproximadamente quatro meses
cada uma (na verdade havia toda um cálculo matemático complexo que determinava
o início de uma nova estação, mas, aqui, a explicação de tais cálculos não
se faz necessária).
Após estar desaparecida por
setenta dias, a estrela Sothis (também chamada de Sírio) reaparecia nos céus,
o que marcava o ano novo e a chegada da primeira estação desse: a Inundação,
que perdurava (nos meses correspondentes ao nosso calendário) de julho a outubro.
Nesse período, os Egícipios se dedicavam às grandes construções estatais,
ao lazer e à arte, além de, em muitos casos, a guerra (especialmente nos
primeiros tempos, quando não havia exército regular) e o ócio. Esse período
de tempo relativamente “livre” de que as pessoas desfrutavam uma vez ao ano
proporcionou muitos dos avanços da civilização Egípicia.
Nilômetro de Elefantina |
Em novembro, quando as águas
baixavam e os nilômetros (marcadores do nível da água do Nilo estabelecidos
ao sul, em Elefantina (a primeira cidade Egípcia depois da Núbia) e ao norte,
no atual Cairo (o ponto de intersecção entre o Alto e o Baixo Egitos)) voltavam
a marcar o nível normal, iniciavam-se os trabalhos de plantio: era a Semeadura,
estação que perduraria até fevereiro. |
Neste período de tempo, os
Egípcios plantavam diversos produtos, mas, em especial, linho (para a fabricação
de roupas), cevada (para a fabricação de cerveja) e trigo (para a fabricação
de pão).
Entre março e junho, ocorriam
as colheitas das safras plantadas no período da Semeadura: era a estação da
Colheita. Quando a colheita estava próxima de terminar e Sothis de reaparecer
nos céus, o Nilo adquiria uma colaração esverdeada, sinal de que os últimos
produtos deveriam ser rapidamente colhidos, antes que as águas subissem e
o Nilo adquirisse a cor avermelhada, característica do período de cheias.
Os Egípcios antigos nunca souberam,
mas o processo de cheias e vazantes do Nilo é desencadeado pela chegada do
verão nas montanhas do centro da África onde se situam suas nascentes. O
gelo acumulado durante o inverno no topo das montanhas se desfaz dando à
água uma coloração verde (devido às algas que morrem com as águas geladas).
Aos poucos o volume de água aumenta na medida em que se intensifica o degelo
das montanhas e, uma vez que as algas já estão mortas, a cor esverdeada desaparece,
sendo substituída pela avermelhada, característica do excesso de terra desprendida
das margens mais altas às quais o rio subiu. Na medida em que o verão termina
e que o degelo se encerra, o fluxo de água nas nascentes também volta ao normal
e, sendo assim, o nível do Nilo vai abaixando gradualmente. Com a menor violência
das águas, a quantidade de terra desprendida também diminui e, dessa forma,
deixa de fazer diferença na coloração das águas que volta ao tom azulado
característico da maioria dos rios do mundo.
1.2– A Fauna do Vale do Nilo:
No tocante à fauna Egípcia,
as principais zonas de criação e domesticação de animais eram o sul (próximo
à Núbia) e o Delta, mas o Egito central não dispunha de muitos animais nativos,
isso porque, quando da migração dos animais após a desertificação da região,
poucos optaram por seguir em linha reta rumo a rio e os que o fizeram, acabaram
rapidamente extintos pelos grupos humanos que, como veremos, tomaram este
caminho.
| Os principais animais
nativos da região eram os babuínos (espécie de macaco africano com a região
glútea despelada e vermelha), os hipopótamos (batizado pelos Gregos com
este nome por seu rosto se assemelhar ao de um cavalo, seu nome significa,
portanto, cavalo do rio), os crocodilos, gazelas, bovinos, ovinos, asnos
e patos (um dos principais pratos da culinária Egípcia). |
Os hipopótamos do Nilo |
Ao contrário do que se acredita,
animais como girafas, leões, tigres, rinocerontes, hienas e elefantes não
faziam parte da fauna da região. Não que os Egípcios os desconhecessem completamente,
na verdade, em seus contatos com regiões do centro da África os habitantes
do Império Faraônico importaram alguns desses animais, justamente por serem
exóticos. Leões, ainda que raros; vez ou outra apareciam nas redondezas das
vilas e cidades à procura de caça, o que certamente causava comoção popular
geral, não se sabe, contudo se os leões do Egito eram do tipo Africano (o
tipo que todos conhecemos até hoje) ou do tipo Europeu (uma espécie de leão
maior extinta na Idade Média e que deu origem à associação, em diversos Reinos
Europeus da figura do leão à da Realeza).
Mas espere, você nem sequer
mencionou cavalos e camelos. Todos sabemos que os Egípcios eram grandes cavalgadores
desses animais, certo?
Errado! Para começar, os Egípcios
jamais cavalgaram animal algum, não se pode precisar se por desconhecerem
as selas ou se por algum tipo de crença, mas eles jamais montavam em seus
animais de tração. Em segundo lugar, é bom que se saiba que nem cavalos, nem
camelos eram animais nativos do Egito. Os cavalos foram introduzidos na região
pelos Hicsos durante o Segundo Período Intermediário, ou seja, apenas por
volta do século XVI a.C., muitos anos após a construção das Pirâmides. Eles
eram utilizados primordialmente como puxadores de bigas (carros de guerra
que transportavam cerca de quatro guerreiros e que marcaram, como veremos,
todo o período do Novo Império). Já os camelos, animais naturalmente associados
pelo imaginário popular aos desertos, chegando a ser conhecidos com “os navios
do deserto”, só chegaram ao Egito durante o domínio Persa, ou seja, no século
VI a.C., época em que o esplendor Egípcio já havia se esgotado. Foi também
por essa época que os famosos elefantes de guerra passaram a ser utilizados
no Egito, porém, nunca em tão grande escala como no Império Persa, de onde
eram naturais.
1.3– Os Recursos Naturais:
Por ser seco em demasia, o Egito
não dispunha de madeira de boa qualidade, o que o obrigava a pagar altos
preços para importar o cedro da Fenícia, indispensável à construção dos barcos
que subiam e desciam o Nilo, interligando o país. Justamente pelo fato de
a madeira de boa qualidade ser importada e cara é que seu uso se tornava
restrito a dois tipos de ocasiões: as necessárias (como a navegação) e as
de ostentação (nas casas de ricos, nobres, nos templos e entre o mobiliário
do Faraó). O cidadão comum não dispunha de madeira de boa qualidade e, dessa
forma, era obrigado a se haver com a madeira que o Egito lhe fornecia, construindo
jangadas para uso pessoal e móveis de madeira entrelaçada para suas casas.
As pedras, abundantes nas proximidades
do Egito (nas montanhas a leste), com efeito, não eram a principal matéria
prima da construção. Sim, é verdade que quase tudo o que nos restou do Egito
antigo é confeccionado em pedra, mas isso não é à toa, mas proposital. Temos
diversos templos, túmulos, pirâmides (neste texto, sempre que fizer menção
a pirâmides com letra maiúscula, estarei me referindo às Pirâmides de Gizé,
ou seja, Queóps, Quefren e Miquerinos; nos demais casos, quano utilizar letra
minúscula, estarei fazendo menção às demais (ou mesmo a todas) pirâmides
do Egito), estátuas, mas poucos palácios e praticamente nenhuma casa, nenhum
armazém e estes estão em estados de conservação muito inferiores aos dos
primeiros e mais numerosos, mas, por quê?
Simples, porque os Egípcios
tinham uma cultura extremamente sacral e, sendo assim, tudo aquilo (e somente
aquilo) que era divino deveria ser (tal qual os deuses) eterno. O que, por
outro lado, fosse temporal, poderia ser passageiro e, sendo assim, não precisava
(e talvez mesmo não pudesse) ser eterno. Seguindo essa lógica, construções
como templos, túmulos, estátuas e pirâmides eram feitas em pedra e as demais,
feitas com tijolos. Os tijolos, por sua vez, eram feitos com o próprio lodo
do Nilo, ou seja, retirava-se a terra úmida das margens do rio, a colocava-se
em recipientes retangulares e deixava-se que secasse ao sol escaldante. Dentro
de alguns dias, toda a umidade evaporava e a mistura se solidificava de tal
forma que se tornava um verdadeiro tijolo. Logicamente, tijolos como estes
que não eram feitos com técnicas oleiras avançadas como as de hoje (ou mesmo
com as de outros lugares como a Mesopotâmia e a Grécia) não duravam muito.
Estavam muito sujeitos às chuvas (mesmo sendo essas tão escassas na região),
às cheias do rio e à simples passagem do tempo (com ventos e a erosão natural
devida à areia carregada eólicamente).
Finalmente, no que se refere
aos metais, o Egito nunca foi muito avançado, detinha, é verdade, boas minas
de ouro e prata (na Núbia) e de cobre no Sinai, mas não detinha estanho (necessário
para se criar a liga (estanho e cobre) que dá origem ao bronze) e nem tão
pouco o ferro. Sendo assim,enquanto em diversas outras regiões próximas as
ferramentas e armas já eram há muito construídas de cobre (e posteriormente
de bronze), no Egito estas ainda eram feitas de sílex (uma pedra vulcânica
cujas lascas são muito cortantes), pedra e madeira (inclusive, até o final
do Novo Império, os instrumentos agrícolas e de mineração do Egito ainda não
eram feitos de metal). O ouro e a prata, como metais preciosos que eram, eram
associados aos deuses e, sendo assim, em sua grande maioria, destinados a
enfeitar as tumbas dos Faraós e grandes dignatários que tivessem posses para
tal luxo (esse também era o destino das pedras preciosas). O restante desses
metais preciosos era empregado no comércio internacional, uma vez que, como
veremos, dentro do Egito, ao menos no período Faraônico, nunca houve uma
economia monetária. Por muito tempo, no Antigo Império, as minas de ouro
foram mais abundantes do que as de prata, o que acarretou numa maior valorização
deste metal em detrimento daquele, no entanto, com a descoberta de mais e
mais minas de prata no deserto, o ouro passou a valer mais do que seu par.
1.4 – O Papiro e a Escrita:
Um dos fatores regionais mais
importantes do Egito foi a existência nas margens do Nilo de uma planta
aparentemente sem uso específico, mas que, com um pouco de tratamento (ainda
que simples), se torna uma das maiores dádivas do Nilo ao Egito: o papiro.
O papiro
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Além dos utensílios,
como velas de barcos e até móveis que se podia construir com papiro trançado,
por volta de 3400, com os primeiros contatos com a escrita cuneiforme Mesopotâmica,
os Egípcios desenvolvem uma idéia que tornará sua escrita mais barata e funcional
do que a utilizada por seu vizinho: utilizar folhas secas de papiros para
desenhar e pintar as Histórias cotidianas. Assim nasceu a escrita Egípcia
e assim ela pode se difundir por todo o Egito e dele para a Fenícia, onde
se tornou o antigo alfabeto fonético que, uma vez aperfeiçoado pelos Gregos,
deu origem ao alfabeto Grego, que inspirou o alfabeto latino que é hoje utilizado
na maior parte do mundo, sendo, portanto, o maior legado Egípcio para a posteridade.
A escrita e, em especial, a escrita em papel com tinta, não em tabletes de
argila, com talhadeiras. |