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Egito: o Berço do Ideal Imperial

Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Mestrando em História Social/USP

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Geografia e Climatologia
Período Formativo
Período Pré-Dinástico
Reino Antigo
Guerras Divinas
1º Período Intermediário
Reino Médio
2º Período Intermediário
Novo Reino
Supremacia do Sol
Período de Caos
Período Ptolomaico
Disseminação do Ideal Imperial
Outros pontos
Bibliografia

<- O Novo Reino


         10 – A Supremacia do Sol na Guerra dos Deuses Egípcios:

 

         A religião realmente foi um dos principais e mais complexos aspectos da civilização Egípcia, justamente por isso é que neste texto dois itens inteiros (este e o item 5) foram dedicados a ela, além disso, em praticamente todos os outros itens (exceto talvez o item sobre a Geografia) algumas menções a algum tipo de caráter religioso foram feitas.


        
Se você busca saber mais sobre a mitologia Egípcia em si, recomendo-lhe a leitura do item 5 deste texto, visto que é lá que me debruço sobre isso, falando sobre a criação do mundo, o surgimento dos Deuses, suas guerras originais e mesmo fornecendo uma coligação com a mitologia vigente no Antigo Império e I Período Intermediário.


        
Neste item em me debruçarei sobre o aspecto do canibalismo Divino, já mencionado no item 5, explicarei a teologia provável do Período de Amarna e me debruçarei sobre a figura de Amon (aliás, é justamente por estudar especialmente Amon e Aton, dois Deuses ligados ao Sol, que este item tem o nome que tem), além disso, investigarei alguns dos possíveis paralelismos religiosos entre o Egito e as demais regiões do Crescente Fértil e Mediterrâneo Oriental.

        


         10.1 – Uma Observação Crítica acerca de Isis:

 

         Segundo a Dr. Elaine Farias Veloso Hirata, Professora de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), é possível que houvesse um culto Neolítico a uma espécie de Deusa-Mãe, comum a todas as regiões litorâneas do Mediterrâneo Oriental. Segundo a Professora, as origens desse culto seriam obscuras, mas poderiam remontar a uma época em que a humanidade ainda não se havia dado conta da importância da participação masculina na geração dos bebês.


        
Esse culto é ainda uma especulação, existindo a possibilidade de que ele venha a ser tido como uma mera tolice daqui a alguns anos, no entanto, os elementos que tornam sua existência verossímil são muitos, entre eles, pequenas estatuetas de mulheres grávidas encontradas ao longo da costa da Grécia, da Anatólia, da Síria, do Líbano, da Palestina e no Delta do Egito.


        
Se levarmos em conta que na mitologia Egípcia, como já vimos, Nun, a Água Primordial, era uma Divindade feminina e que depois de seu esquecimento (ela não foi propriamente esquecida, mas simplesmente desapareceu do contexto religioso Egípcio, visto que a divindade da água era Hapi, Deus do Nilo e se Nun era importante para os oceanos, isso dizia muito pouco aos Egípcios médios), a única Divindade feminina de relevância (notem que não se trata da única Deusa, mas da única com participação direta e determinante na cosmogonia) passou a ser Isis, além disso, se incorporarmos outros interessantes aspectos a essa lenda, como por exemplo:


        
O fato de o foco principal do culto a Isis se localizar no Delta (inclusive, suas Histórias se desenvolvem principalmente nessa região), ou seja, perto do mar e de onde foram encontrados os vestígios comuns da tal Deusa-Mãe.


        
Em segundo lugar, Isis é uma Deusa (ao contrário das demais Deusas do panteão Egípcio (Hator, Sekhmet, Bast, Néftis...)) com características maternais acentuadas, ou seja, ela zela por seu filho o tempo todo, amamenta-o (a imagem de Isis com o Horus bebê no colo já foi discutida no item 5) e, ainda que furiosa, a dor de uma mãe que acabara de perder o filho (a mãe do Delta que teve o bebê morto pelos escorpiões de Isis) é o suficiente para amolecer seu coração e trazer o bebê de volta à vida.


        
Assim como Maria (o que é, sem dúvidas, mais uma das recorrências Cristãs à mitologia Egípcia), quando Horus morre, ela o segura em seus braços e, chorando, clama a Ra por sua vida. O filho ressucita...


        
Por todos os aspectos de ícone da mãe e da mulher ideal, além de transmissora do poder (como devemos nos lembrar, o costume Egípcio de o poder Real ser transmitido pelas mulheres a seus maridos advém da História de Isis que obteve o poder de Ra e o transmitiu a Osíris), ou seja, uma figura importantíssima e, sobretudo, originária do Delta (a região de difusão no Egito da provável Deusa-Mãe Neolítica), podemos vir a pensar que talvez Isis seja o nome que essa Deusa-Mãe tenha adquirido no Egito. Sendo assim, talvez essa Deusa seja a mais antiga Divindade Egípcia e, quiçá, do mundo Mediterrâneo, havendo a possibilidade de que esteja ligada muito de perto com a primeira noção de Divindade idealizada pela humanidade. Para isso, devemos regredir um pouco no tempo e pensar (esquecendo-nos de nossos conhecimentos em genética e anatomia atuais) como deveria ser encarada a gravidez pelos homens Pré-Históricos. Certamente eles não deveriam ser capazes (ao menos não no início) de relacionar um ato sexual de nove meses antes com o nascimento de um bebê, sendo assim, é muito possível que não existisse entre eles qualquer noção de paternidade e, por esse mesmo aspecto, é possível que as mulheres, por serem capazes de gerar a vida à partir do nada, fossem vistas como criaturas Semi-Divinas, a serem reverenciadas, talvez.


        
Por essa linha de raciocínio (há que se lembrar que são apenas hipóteses, especulações que têm como base empírica tão somente as referidas estatuetas Neolíticas), não é muito estranho pensarmos que os homens Pré-Históricos de dezenas milhares de anos atrás podem ter relacionado a criação de tudo (a partir, é claro, do momento em que começaram a ter um pensamento abstrativo consistente o suficiente para notarem que tudo nem sempre foi da maneira como eles conheciam, que um dia eles poderiam não ter estado na Terra e coisas do gênero, ou seja, quando perceberam que existe algo inerente à própria existência: a evolução, ou, mais propriamente, a modificação) com a criação das pessoas que, em sua concepção, se dava devido às mulheres, sendo assim, é possível que a Divindade Original tenha sido uma mulher grávida. Grávida do mundo. Essa mulher pode, no caso do Egito, ter sido Isis.


 

         10.1.1 – A Figura de Isis como Determinante de uma Origem:

 

         Como pudermos ver, Isis pode ter sido uma herança do culto a uma Deusa-Mãe Neolítica, sendo assim, isso explicaria a correlação entre seu culto ser originário do Delta e suas características serem essencialmente maternais. Se observarmos, a própria História de Isis é um tanto quanto sem objetivos e parece se desenvolver em torno dos objetivos de Osíris (antes) e de Horus (depois).


        
Agora que já temos esse conceito em mente, podemos tocar num ponto que para muitos é calamitoso e confuso. Acredito que seja muito provável que eu venha a receber duras críticas por minhas colocações neste item, mas, mesmo assim, não deixarei de faze-lo.


        
Vejamos, atualmente a hipótese mais aceita pela paleontologia é a de que o homem deve ter surgido na África e de lá se disseminado para o restante do mundo. As recentes descobertas apontam até mesmo para o achado de um elo perdido na corrente evolutiva entre o símio primitivo e o homem atual, ou seja, o homo sapiens idaltu.


        
Agora pensemos de uma maneira um pouco mais Platônica, ou seja, por analogias e abstrações muito mais do que por análise de fatos empíricos. A História não registra (excetuando-se o movimento isolado e efêmero de conquista do Egito perpetrado pelos Núbios, que, no entanto, como veremos, se motivou por questões ideológicas e por proximidade territorial, e não por uma simples idéia de movimento migratório) nenhuma marcha expansionista oriunda da África em direção ao Mediterrâneo; ao contrário, essas marchas são sim, oriundas da Ásia em direção ao Mediterrâneo e mesmo em direção à América (se considerarmos a teoria do Estreito de Bering para a ocupação inicial da América).


        
Vejamos esse dado, partindo das marchas mais recentes em direção às mais antigas de que se tem notícia:

 

         1 – Entre os séculos XII e XV d.C., os Mongóis fizeram vários reides em direção a Europa e aos países da Ásia Mediterrânea. Chegaram a conquistar a Rússia e ocupar regiões Balcânicas, além de impor seu domínio sobre grandes partes do mundo Islâmico.


        
2 – Um pouco antes, por volta do século IX d.C., os Turcos, também oriundos de uma região hoje pertencente à China, marcharam por toda a Ásia até atingirem a Anatólia onde, depois de 1071, com a vitória sobre o Império Bizantino, na batalha de Mazinkert, se estabeleceram.


        
3 – Entre os séculos VII e VIII d.C., saídos da Península Arábica, os Árabes realizaram uma impressionante marcha de conquista que terminou por delimitar as fronteiras do mundo Islâmico Contemporâneo. Em sua extensão máxima, o Império Islâmico chegou a dominar todo o norte da África e a Espanha, além do sul da Itália.


        
4 – Entre os séculos III e VI d.C., diversos povos, batizados com os nomes pejorativos de Bárbaros, ou mesmo com os errôneos coletivos de Germânicos, atacaram o Império Romano vindos da Ásia Central e de Monções. Dentre esses povos, podemos dar destaque especialmente para os Hunos, os Vândalos, os Godos (Visigodos e Ostrogodos), os Suevos, os Avaros, os Lombardos e os Teutões.


        
5 – No século III d.C., o poderoso Império da Partia, Império que mesmo os Romanos nunca lograram derrotar, entrou em colapso pela marcha de Persas vindos da margem oriental do Golfo Pérsico: os Sassânidas.


        
6 – No século I a.C., a Ásia Selêucia, cujas raízes formadoras remontava à expansão de Alexandre, o Grande, foi tomada de assalto pela invasão dos Partos que, com suas táticas de guerra baseadas em arqueiros à cavalo (táticas consagradas em regiões distantes da China e conhecidas como “Tática do Arqueiro Zen”) atropelaram os Selêucidas e construíram um Império que serviu de cordão de isolamento contra a expansão Romana no oriente.


        
7 – No século VI a.C., repentinamente surge um grande Império Persa que, em menos de trinta anos (entre Ciro II, o Grande e Cambises), conquista praticamente todo o Crescente Fértil criando o maior Império que o mundo já vira até então. Este Império só seria derrotado pelos exércitod e Alexandre, o Grande, em sua marcha no século IV a.C..


        
8 – Entre os séculos VIII e VII a.C., a Assíria se expandiu tanto que além de conquistar de maneira efêmera (apenas 4 anos) o Egito (como veremos), foi capaz de impor seu domínio sobre toda a Mesopotâmia e Palestina, destruindo diversos Reinos poderosos.


        
9 – Entre os séculos XV e XII a.C., vários movimentos populares se destinaram ao Mar Mediterrâneo, dentre eles podemos destacar o avanço dos Dórios sobre a Grécia, que provocou a Primeira Diáspora Grega, e o primeiro movimento expansionista da Assíria que teve ímpeto para destruir o Império Hitita, o Reino do Mitani e tomar a Judéia e a Mesopotâmia.


        
10 – Entre os séculos XVII e XV a.C., Vedas (no Mitani), Hurritas, Cassitas, Hititas, Jônios, Eólios e Aqueus, dentre outros povos, chegam ao contexto do Mundo Mediterrâneo. É neste período que se situa a invasão do Egito pelos Hicsos (“Os Príncipes de Países Estrangeiros”).

        

         Acredito que dez marchas migratórias sejam mais do que suficientes para se comprovar que meu argumento deve, ao menos, ser levado em consideração, não acham?


        
Pois bem, quantas marchas oriundas da África nós conhecemos? Nenhuma! A única marcha que se supõe, teria ocorrido há centenas de milhares de anos, realizada por homens semi-homínideos que teriam se espalhado pelo mundo. É uma teoria que não procede (segundo uma análise Platônica dos acontecimentos) se analisarmos o clima e as barreiras climáticas.


        
Pensemos, mesmo considerando-se que os estudiosos de Climatologia estejam certos e que, dessa forma, o Deserto do Saara e suas ramificações (como o Deserto da Líbia) não existissem antes de 10000 a.C., mesmo assim, temos que considerar que a África negra é uma região muito mais agradável de se viver do que a Europa, visto que na Europa o clima proporciona uma estação de destruição anual: o inverno, onde nada se planta e onde é necessário que se busque abrigos confortáveis e aquecidos, caso contrário, morre-se de frio.


        
Na África negra não existe esse problema, além disso, a fauna é muito mais variada e abundante, proporcionando melhores condições de caça. Por que, então, num contexto de pujança como este, o homem primitivo (e, portanto, sem tantas capacidades de alteração da natureza como nós, por exemplo, não conhecia a agricultura, meio de subsistência básico para se sobreviver ao inverno Europeu, visto que sem ela não se pode garantir um excedente necessário para se estocar para o inverno) teria optado por deixar a África, caso tenha surgido realmente lá?


        
Alguns dirão a resposta padrão: superpopulação!


        
Certo, agora sejamos realistas, num mundo sem remédios, de vida nômade ou semi-nômade e com diversas feras (leões, crocodilos...) a serem combatidas com armas simples como pedras e paus, certamente a expectativa de vida não seria muito alta. É certo que comunidades coletoras e caçadoras tendem a destruir o meio em que vivem, sendo obrigadas a marchar quando esgotam a antigo acampamento. Nessas marchas, ocasionalmente uma comunidade devia se deparar com outra, no que resultavam guerras e/ou fusões. Tudo isso é verdade, mas se observarmos essa ocorrência de uma forma Malthusiana, chegaremos à conclusão de que talvez fosse mais provável que a minoria dos grupos optasse por abandonar uma região de extrema pujança natural, sendo que a maioria absoluta optaria por decidir a ocupação do território através de guerras.


        
Pensando a esse respeito e comparando-se a África com a Ásia em termos de qualidade da natureza local (conjunto de fauna, flora e hidrografia), somos levados a crer (sustentados pelas invasões e marchas Históricas de cujo conhecimento dispomos) que, talvez, a vida tenha surgido na Ásia. Teria que, ao menos eu, nunca ouvi à respeito.


        
Devo assumir que apenas conheço a teoria de que o homem deve ter surgido na África, coisa que, particularmente (inclusive em professores que já tive e conheci) tende a servir como legitimação de preconceitos, uma vez que se torna fácil, para a mente mais suscetível, pensar que se o homem veio de uma espécie de macacos e se os macacos têm as peles mais escuras, logo, os primeiros homens teriam as peles mais escuras e, como os homens de peles escuras são originários da África: a vida deve ter surgido na África.


        
O preconceito não pára por aí, pois, uma vez que, toda a nossa idéia de civilização e mesmo de mundo é pautada numa noção de evolução, ou seja, na idéia de que aquilo que vem depois é necessariamente melhor e mais adaptado do que aquilo que existia antes. Podemos concluir que os homens descendentes dos homens originais são melhores do que eles e se os homens originais são os Africanos, somos levados a crer que eles são naturalmente inferiores aos demais humanos.


        
Eu sei que será muito fácil refutar tudo o que eu disse de forma “científica”, dizer que não tenho material empírico para alegar que a vida pode ter surgido na África. Muitos dirão até que este item de meu texto é totalmente sem propósito, visto que se insere num contexto de religião e, em hipótese alguma falou de religião, não é mesmo? Bom, para esses eu não tenho resposta, ao menos não uma que eles pudessem compreender...


        
Mas voltemos ao eixo principal agora que já mostrei que a vida pode não necessariamente ter surgido na África, mas, talvez, na Ásia. Continuando com o pensamento Platônico, podemos analisar que a Ásia é justamente o centro do mundo. Não estou sendo reducionista nem mesmo, sou ignorante o suficiente para pensar que uma esfera possa ter um centro localizado em sua superfície, não é isso. Falo de uma maneira mais geopolítica, ou seja, a Ásia é o único continente de onde se pode ir à pé (ou fazendo uso de embarcações pequenas) para qualquer outro continente do mundo, sem ter que passar por outro continente que não seja a própria Ásia e o seu destino.


        
Baseado nessas reflexões e também numa hipótese quase que matemática da História, ou seja, na hipótese de que antes do primeiro processo de “globalização mundial”, iniciado com as Grandes Navegações dos séculos XV e XVI, as levas migratórias de caráter violento incidiam sobre o Mediterrâneo Oriental (vindas da Ásia) a cada período médio de 200 anos, podemos pensar que talvez as dez marchas relacionadas acima não sejam as únicas, que talvez tenham havido outras mais antigas das quais perdemos a memória pela falta de registros. Sendo assim, venho através desse item, e, agora sim, baseado em algumas evidências materiais (as estatuetas da Deusa-Mãe), propor que talvez Egípcios, Cretenses, Fenícios e os Micênicos (também ditos Pelasgos) tenham sido oriundos de uma marcha Asiática mais antiga, de um povo (ou conjunto de povos) que, a exemplo de tantos outros que lhe foram posteriores, tenha abandonado a Ásia como forma de fugir das grandes instabilidades climáticas do continente.


        
Sei que minha proposta é complicada, na medida em que nos obriga a questionar o que temos como verdade científica, mas só proponho que não tomemos a ciência como a religião do século XXI. Na Idade Média, e mesmo ainda hoje, muitas pessoas se recusavam a pensar de uma maneira que fosse de encontro com aquilo que a Bíblia propunha. Deixavam que a religião as cegasse, não se permitiam ver as barbaridades que cometiam. Dentre essas pessoas se encontram muitos heróis nacionais de diversos países que entraram para a História por terem mantido, criado e/ou reforçado preconceitos que se tornaram vencedores em seus respectivos tempos. Pretensos heróis que tiveram suas causas derrotadas como Hitler, Mussolini e Napoleão, se viram convertidos em monstros pela História. Porém, talvez se Hitler tivesse vencido a guerra, o holocausto teria sido encarado assim como as bombas de Hiroshima e Nagasaki o são nos parâmetros da História Mundial, ou seja, como uma mácula quase perdoável num passado brilhante de um povo que quem odeia o faz por inveja e, obviamente, sem razão...


        
Apenas como forma de complemento e também visando fornecer ao leitor mais elementos para que possa pensar por si só em minha proposta, gostaria de que pensássemos a respeito das primeiras técnicas de combate. Como já mencionei neste texto, espadas (sejam elas de cobre, bronze ou ferro (e depois aço)), arcos e flecha, carros de guerra, animais adestrados (como cavalos, elefantes e camelos), armaduras, escudos, dentre outras armas criadas pela tecnologia bélica humana são originárias da Ásia. Vendo isso podemos muito bem pensar que o que pode ter levado os Asiáticos a desenvolver tais armas pode muito bem ter sido a vontade de sair da Ásia, de se verem livres de um território distante do mar, onde desertos (sejam de gelo ou de areia) se alternam a montanhas e estepes, onde a fauna é muito escassa e onde os rios se concentram apenas em pequenas regiões, tornando difícil até a obtenção de água. Talvez tenha sido esse ímpeto que tenha levado os Asiáticos a povoarem a Oceania e a América, mas porque não pode ter sido este mesmo ímpeto o responsável pelo povoamento da Europa e da África.


Eu lhes digo o porque, porque para infelicidade dos EUA, eles ainda não puderam encontrar nenhum fóssil Americano (em parte porque a umidade do solo da América facilita a decomposição, impedindo, em muitos casos a fossilização e/ou a preservação de tecidos e ossos como ocorre no clima seco e/ou gelado) com idade superior a 30000 anos, por isso, nunca foi possível contestar as teorias de que o homem se originou no Velho Mundo. Essas teorias dão conta de que o processo natural de dominação da terra parte e sempre partiu do Velho Mundo em direção ao Novo Mundo, e não ao contrário, inclusive, os primeiros “cientistas” a realizarem escavações Arqueológicas e Paleontológicas na África foram justamente aquele que estavam a serviço de Napoleão, o mesmo Napoleão que foi o criador do termo América Latina, com a intenção de identifica-la aos países Latinos dos quais o mais poderoso (e, por conseguinte, destinado a domina-los) era a França.

 

        

          10.1.2 – As Estatuetas da Deusa-Mãe e uma outra Hipótese:

 

         Bem, mas toda a polêmica do item anterior foi suscitada pela existência de estatuetas de mulheres grávidas (em geral, mas não só, visto que existem mulheres não grávidas também), certo? Certo, mas o que isso prova de verdade?


        
Prova, de um ponto de vista Positivista, apenas e tão somente, que os homens Neolíticos do Mediterrâneo Oriental faziam este tipo de estatuetas.


        
Porém, o Positivismo já é há muito uma ótica de pensamento desatualizada e, até mesmo, vista como errada, especialmente em se tratando de Ciências Humanas. Sendo assim, uma vez que já vimos (no item anterior) como podemos analisar essas estatuetas de um ponto de vista Platônico e, por que não, Fenomenológico, veremos agora como poderíamos fazer uma análise Nihilista dessa mesma situação.


        
O Nihilismo pressupõe uma desconstrução do que foi dito para que seja colocada apenas uma grande pergunta em seu local, em outras palavras, ele não apresenta explicações, assim como as demais teorias fazem (afinal, ou bem, ou mal, todas as teorias buscam uma maneira menos ruim de se explicar o real, pressupondo que este exista; mesmo a Fenomenologia, que leva em consideração que é impossível estudar o real na medida em que ele está preso num instante passado e que seu estudo se pautará nas diversas impressões tomadas a respeito desse real passado, pressupõe um real, mas não o Nihilismo). Para o Nihilismo, de quem podemos destacar como criador (se bem que ele talvez tenha sido apenas aquele que primeiro tenha se atrevido a divulgar tais tipos de pensamentos já existentes e reprimidos na humanidade desde a Idade Média) Friedrich Nietzsche, Filósofo Alemão do final do século XIX e início do XX, o importante é mostrar que a verdade e os conceitos não são nada mais do que criações e que, portanto, não existem. Porém, se nós temos perguntas e queremos respostas, não devemos espera-las dessa corrente, pois, certamente, só obteremos mais dúvidas, por esse motivo, tão poucos Filósofos até hoje se enveredaram pelos caminhos do Nihilismo, mesmo que, em seu âmago, tivessem alguma simpatia pela teoria.


        
O que farei neste item é, até certo ponto, uma ação Nihilista, visto que apenas desconstruirei o que já havia falado, no entanto, como minha fala anterior levou em si a construção de uma verdade em cima da demolição de paradigmas anteriores, o que restará será o nada e, por conseguinte, a dúvida.


        
Pensemos na América Pré-Colombiana apenas para começarmos a discussão. As crianças indígenas, em especial na cultura Asteca (mas também entre os índios Brasileiros, por exemplo) possuíam pequenos bonecos feitos de madeira ou pedra com os quais brincavam. Esses bonecos eram nada mais do que estatuetas que, se encontradas numa região onde o contexto nada possa informar, poderiam sugerir que fossem pequenas Divindades de culto, talvez portáteis, como talismãs pessoais, devido à enorme quantidade.


        
Pensemos num outro exemplo, esse hipotético, mas, ainda assim, interessante. Em meu porão, disponho de uma lata (daquelas de quartos de meninos, que servem também como banquinhos) onde estão guardados diversos bonequinhos de minha infância. São guerreiros, como os da série HE-MAN, soldados, como o RAMBO e os COMANDOS EM AÇÃO, além de bruxos e magos. Nada de mais, brinquedos velhos que guardo de recordação de meus tempos de infância. Pois bem, imaginemos que um cataclisma se abatesse sobre a Terra que a civilização fosse inteiramente dizimada (seja lá porque motivo fosse). Daqui a alguns milhares de anos, uma raça alienígena chega à Terra e, ao descobrir vestígios de uma civilização extinta, resolve estuda-los. Como não têm base de como foi nossa civilização, os estudos dessa raça se basearão em achados e na abstração sobre eles. É claro que tal abstração se dará a partir de um parâmetro, ou paradigma estabelecido. Este paradigma, certamente será o modo de vida da própria sociedade alienígena que nos descobriu, sendo assim, eles podem descobrir minha lata de bonequinhos (que, por algum motivo teria restado) e, ao abri-la, pensar que, por exemplo, se tratasse de um costume que se remetesse a práticas funerárias, sendo assim, esse bonequinhos estariam guardados numa lata colocada no sub-solo de uma casa para que os proprietários da casa se lembrassem de parente que perderam. As roupas dos bonequinhos seriam vistas como claros indícios de nossas vestimentas, sendo assim, seria provável que os alienígenas concluíssem que nós utilizávamos roupas de guerreiros medievais, ninjas, e fardas de soldados no nosso dia-a-dia, ou, ao menos, que tais roupas fossem roupas de gala com as quais éramos enterrados.


        
Pense sobre isso!

 


        
10.2 – A Invisibilidade e a Abstração:

        

         No século XXI a.C, Mentuhotep II conseguiu, a partir de Tebas, reunificar o Egito depois do I Período Intermediário. Tebas era, até então, uma cidade de pouca relevância no cenário nacional, mas, tendo se tornado a campeã da reunificação, acabou por se tornar não só a nova capital do Egito, mas também uma força político-religiosa que só viria a desmoronar com o saque perpetrado pelos Assírios, no século VII. Se bem que, mesmo depois desse período a cidade ainda continuasse influente até o início do Período Ptolomaico, no final do século IV.


        
Para que uma força se levante do nada e se transforme em algo tão poderoso que sua influência seja capaz de perdurar por cerca de dezessete séculos, ela não deve ser algo sem fundamentação, ao contrário, deve ser muito bem enraizada nas cabeças da população.


        
Como já foi mencionado, cada aspecto, ainda que seja o mais simples, da vida no Egito Antigo tinha uma forte implicação religiosa. Um Renascimento depois de um período de caos, ou seja, um fato extraordinário dentro de um contexto nacional, não poderia ser diferente. E realmente não foi...


         Cada Spat tinha, e sempre teve, seu Deus principal, além de inúmeros outros Deuses menores. Os Deuses principais de cada Spat sempre foram considerados os mais importantes em suas respectivas localidades, ainda que houvesse leis, acordos e determinação que implicassem na aceitação de um Deus nacional, como foi o caso de Ra, no Antigo Império. No caso de Tebas e sua região, o Deus principal era Amon, o Deus com Cabeça de Carneiro.

         Na realidade, apenas originalmente o culto a Amon o representava como sendo um carneiro e depois, um homem com cabeça de carneiro. Sua representação mais comum é a de um Faraó portando a Nems do Alto Egito na cabeça. Sempre fora uma Divindade relacionada com o Sol, se bem que seu título fosse “O Invisível”.

Uma das várias
representações de Amon


        Originalmente, ainda no Antigo Império, quando houve o embate entre os blocos teológicos (Enéades) de Hermópolis e Heliópolis, Amon fazia parte da Enéade de Hermópolis, no entanto, quanto Mênfis criou o sistema nacional unificado (que é o que foi registrado no item 5), Amon foi sutilmente excluído dele. Segundo a teologia de Hermópolis, que atribuía a cada Deus uma contraparte feminina, Amon seria casado com Amonet, e juntos seriam o casal da invisibilidade (os outros casais são Nun e Naunet (água), Heh e Hehet (espaço) e Kek e Keket (trevas); todos os oito Deuses teriam criado Hermópolis e, sobre ela, posto um ovo do qual nascera Ra, o único que não tem par: o Sol).


        
A Amon foi atribuída a responsabilidade pelo resgate do Egito que estava mergulhado no caos, sendo assim, em sua homenagem, foi construído o Templo de Karnak (o maior do Egito e o maior templo do mundo a ser construído até então). Os Faraós de Tebas e do Médio Império (mesmo depois da capital ter sido transferida para Iti-tauí, pela XII Dinastia) naturalmente eram muito devotados a Amon, pois consideravam seu poder como oriundo dele, mas, como o Deus principal era, até então Ra, um problema teológico foi criado: Como ascender um novo Deus dentro de um contexto em que já existem dois Deuses poderosos lutando pela hegemonia.


        
Se o leitor bem se lembra, no item 5 eu mencionei que o Faraó era considerado a encanação de Horus, mas que depois da ascensão do Clero de Ra, estes dois Deuses se fundiram num só que ficou conhecido erroneamente como Horus-Ra, mas cuja pronúncia correta seria Ra-Horemkhet, ou seja “Ra, O Horus no horizonte”, também dito Harmachis.


        
Vejamos então, como já foi dito, Horus era sim (e também) filho de Ra e, como estava a ele associado numa única Divindade, o simples culto a Ra já englobaria também o culto a Horus. Como Amon se havia convertido no Deus mais importante, mas como Ra era que deveria ser reverenciado como sendo o Deus Dinástico (com Horus implícito nele, e, justamente por causa disso, que fique bem claro, uma vez que quem possuía o direito sobre a coroa era Horus, não Ra), então, a saída teológica encontrada foi associar os dois Deuses.


        
O problema surge na medida em que se pensa que não existia a possibilidade dos dois Deuses meramente se associarem sem perdas para um deles. Como nos casos dos Deuses menores que Ra havia canibalizado (até mesmo o grande Criador Ptah, muitas vezes era referido como Ra-Ptah), suas imagens resistiam, mas, na maioria das vezes, associadas ao Deus maior.


        
O ascendente Clero de Amon não poderia aceitar que seu Deus se tornasse mais um aspecto de Ra, especialmente porque na teologia oficial vigente até então, por culpa da influência vitoriosa da Enéade de Heliópolis sobre a de Hermópolis na criação da teologia de Mênfis, Amon não havia sido considerado um dos Deuses originais. As pressões foram muito grandes e refletem bem o período conflituoso em que Amenemés I, fundador da XXI Dinastia, decidiu mudar-se para Iti-tauí, no Fayum, a fim de escapar das pressões do Clero. Este, porém, insatisfeito com as ações do Faraó, pode ter sido o responsável por seu assassinato, o que constituiu uma grave crise política (como vimos em “Sinuhe”).


        
Talvez para resolver a crise política, Senuosret I tenha se decidido a construir o Templo de Karnak e, também por isso, é provável que tenha aceito que Amon era, de fato, mais poderoso do que Ra e que, na verdade, o continha dentro dele, assim sendo, surgia o Deus mais famoso do Egito Antigo: Amon-Ra.


        
Com efeito, no Novo Império era Amon-Ra e seu Oráculo que legitimava os governantes. Estes se consideravam filhos desse Deus e sob esse nome e esse culto o Egito fundou seu Império. Amon-Ra, a fusão dos dois Deuses mais importantes do Egito (dentro de um contexto de culto nacional oficial, visto que entre a população comum, Osíris nunca deixou de ser o Deus mais popular, assim como também o eram Imhotep (o arquiteto de Djeser) e Bes, Divindades ligadas à cura de doenças e ferimentos) à época do Médio Império, foi a primeira das grandes revoluções teológicas que o Egito viria a conhecer.

 


        
10.2.1 – Um Deus Tipo Exportação:

 

         Apesar de Tutmés I ter sido o primeiro Faraó a realizar grandes reides na Ásia, foi seu neto, Tutmés III, quem iniciou a construção do Império Asiático do Egito. Uma das grandes providências desse Faraó-Guerreiro, o mais notável entre eles, aliás, foi criar uma espécie de pacto Divino com Amon-Ra, de quem era filho. Segundo esse pacto, o Templo de Amon seria o principal beneficiário das conquistas que o Deus o permitisse realizar. Sendo assim, Karnak, que já era absolutamente majestoso, se tornou um verdadeiro lugar de sonhos na Terra. Tudo com a afluência das riquezas advindas das conquistas do Faraó.


        
Antes de Tutmés III o temor Egípcio em sair do país era muito grande. Esse medo era perfeitamente explicável, visto que os templos, os Deuses e as práticas mortuárias adequadas para a entrada de um indivíduo em Amentet ficavam no Egito e, no exterior, tudo o que havia era a perspectiva de se morrer e não se poder encontrar a vida após a morte em função da qual os Egípcios viviam. Após Tutmés, o medo de se morrer longe do Egito permaneceu nas mentes dos Egípcios, no entanto, ao menos agora eles sabiam que seus Deuses, ou melhor, seu Deus, os estavam protegendo, afinal, se por um lado Amon era invisível, por outro, Ra era o sol, sendo assim, se o sol se fazia presente nos céus, Amon se fazia presente em qualquer lugar, pois sua invisibilidade também denotava imaterialidade e, sobretudo, onipresença.


        
Não é exagero pensarmos que Amon, na figura de Amon-Ra, possa ter sido o primeiro Deus de caráter onipresente da História. É interessante de se notar, no entanto, que esse caráter onipresente não foi pensado para o Deus, mas surgiu naturalmente. Na medida em que ele era invisível e que, por isso, não se podia saber ao certo onde ele estava, quando ele foi associado ao sol, que se pode ver em qualquer lugar onde seja dia, o calor natural do sol se tornou a idéia da presença que não se vê, apenas se sente e, sendo assim, Amon-Ra se fez onipresente.


        
Como onipresente, o Deus podia acompanhar os exércitos em combate e sendo assim, motiva-los a lutar. Em contrapartida, os tesouros obtidos pelos exércitos em luta eram repartidos com Amon-Ra o que tornava compensador ao Deus acompanhar os exércitos e verossímil aos combatentes acreditar que ele, de fato, os acompanhava.


 

         10.3 – Aton e a Segunda Revolução Divina:

 

         Se, como eu afirmei, a primeira revolução Divina do Egito foi a criação de Amon-Ra, por outro lado, o culto a Aton foi a segunda e, se não pôde ser tão duradoura, certamente trouxe à humanidade implicações muito mais efetivas.


        
Aton é, segundo a teologia oficial, o primeiro Deus a ser criado, bem como também é o primeiro Deus a ser canibalizado. Se bem o leitor se lembra, de dentro da flor de lótus que estava sobre Hermópolis (ou sentado sobre a colina) quando esta emergiu de Nun, saiu Aton que, ao caminhar entre os homens, se tornou Ra. Ra, sendo assim, rapidamente incorporou Aton em si, tornando-se Ra-Aton, o primeiro de seus múltiplos nomes.


        
Na medida em que Ra foi incorporando outros Deuses (Horus, Ptah...) e, especialmente depois que foi incorporado por Amon, o nome de Aton praticamente desapareceu, na verdade, quando se queria referir a Amon com seu nome completo, dizia-se apenas Amon-Ra-Ptah (inclusive, discutirei isso um pouco mais adiante).


        
Se Aton foi o primeiro Deus a ser canibalizado e se seu culto foi praticamente esquecido, no entanto, ele não foi completamente esquecido, sendo assim, no governo de Amenófis III (mas, talvez por influência de governos anteriores como os de Amenófis II e Tutmés III) o culto a esse Deus ressurgiu com força total.


        
Na verdade, o culto a Aton ressurgido no governo de Amenófis III não era, segundo especulações teológicas, um culto tipicamente Egípcio, mas uma forma de se cultuar um Deus Egípcio de uma forma Asiática. Aton era o próprio Sol, o círculo que flutua em torno da Terra (como acreditavam os Egípcios); ele era o responsável pela luz e pelo calor, mas também pela própria vida. Dele não se faziam estátuas como dos demais Deuses, mas apenas se cultuava sua própria imagem, ao alcance do olhar de todos, mas que, a exemplo do que acontecia com o Faraó, não poderia ser contemplada diretamente (pois olhar para o sol ofusca e fere os olhos).


        
Aton era cultuado em templos muito diferentes daqueles dedicados aos demais Deuses do Egito, não havia dezenas de salas e, nem sequer a tradicional sala escura onde se encerrava a imagem do Deus e onde só o Faraó e os Sacerdotes podiam entrar. Tudo o que havia era um grande salão, sem teto, com diversos bancos onde os fiéis podiam se sentar e adorar o próprio Deus em toda a sua glória celestial.


        
É notório que a Fé em Aton caminhava no mesmo sentido da Fé em Amon-Ra, ou seja, visava se tornar um culto popular, sendo assim, todos podiam entrar no templo e adorar o Deus e não apenas se contentar em saber que rituais desconhecidos eram praticados numa sala escura por determinadas pessoas em absoluto segredo.


        
Quando Amenófis III faleceu e seu filho Amenófis IV assumiu o trono, a Fé em Aton passava por um período de baixa. Após um grande incentivo a esse culto no auge do governo de Amenófis III, no final do Reinado o Faraó havia se reaproximado do Clero de Amon, em Tebas. Mênfis havia sido marcada como sendo a cidade de renascimento do culto a Aton e isso por se encontrar distante em muitos quilômetros de Tebas, a auto-intitulada capital religiosa do país; mas, também devido à rivalidade entre Tebas e Mênfis, visto que esta não aceitava que o poder daquela lhe fosse superior no cenário nacional.


        
O rompimento entre Amenófis IV e o Clero de Amon em Tebas no quarto ano de governo desse Faraó se deu em circunstâncias nebulosas, como já vimos, mas o fato é que, depois disso, o Faraó reuniu seu séqüito e mais fiéis adoradores e bajuladores e, com eles, partiu para uma região distante onde fundou uma nova capital para o Egito: Akhetaton, “O Horizonte de Aton”.


        
O próprio Monarca mudou seu nome para Akhenaton (“É Benéfico a Aton”) e, à partir dessa data, iniciou a maior revolução teológica que o mundo já conhecera até então. No tocante ao estilo artístico e às próprias características físicas e mentais do governante, já nos referimos quando estudávamos a política do período conhecido como Período de Amarna, sendo assim, agora estudaremos tão somente as repercussões religiosas desse período.


        
É bom que se tenha em mente que tudo o que se disser não passará de uma construção a esse respeito, sendo que a verdade não é passível de ser conhecida (e talvez nunca venha a ser). No entanto, este texto trabalhará de acordo com as teorias mais aceitas a respeito da reforma religiosa de Akhenaton e, além disso, proporá algumas abstrações pessoais do autor.


 

         10.3.1 – A Cidade de Aton:

 

         Quando Akhenaton ordenou a construção de Akhetaton, não o fez aleatoriamente (ao menos não alegou que o estivesse fazendo), mas segundo uma inspiração divina. Segundo o Faraó, fora o próprio Deus quem teria indicado o lugar destinado à construção de sua cidade. Segundo o Faraó, Akhetaton teria sido a Colina Primeva, e não Hermópolis ou Heliópolis, como queriam as cosmogonias mais antigas.


        
Depois de criar Akhetaton, Aton teria criado o mundo todo, mas sua criação principal seria o Egito. Nenhum outro Deus havia, houve ou haveria, segundo a cosmogonia do Período de Amarna, apenas Aton, Reinando solitário e soberano. Ele era ao mesmo tempo o criador de tudo e também aquele que a tudo mantinha.


        
Esse conceito claramente Monoteísta inserido na ideologia Egípcia acostumada a um Politeísmo confuso (na medida em que o Politeísmo Egípcio não partia do pressuposto de que todos os Deuses fossem iguais nem também de que houvesse uma hierarquia fixa entre eles, mas sim, do pressuposto de que oficialmente Amon era o Deus supremo, mas localmente cada Deus era o soberano de sua comunidade estando todos os demais, inclusive Amon, abaixo dele; sendo assim, canibalizações de Deuses poderiam ser até mesmo invertidas nos cultos regionais: não devemos ser ingênuos o suficiente para acreditar que Heliópolis, por exemplo, tivesse aceitado a absorção de seu Deus Ra por Amon de uma forma normal, na verdade, para eles, Ra continuava o supremo soberano do panteão e isso valia para todas as regiões) não deixou de trazer em si um grande paradoxo: Akhenaton não queria abrir mão de sua condição de Rei-Deus, por isso, em sua doutrina Monoteísta havia um pleno espaço para que o Faraó pudesse ser considerado como um Deus sem que fosse concorrente de Aton ou mesmo que isso descaracterizasse o Monoteísmo.


        
Na prática, o que ocorria com Akhenaton dentro da teologia de Amarna era o mesmo que viria a ocorrer com Cristo mais de treze séculos depois, ou seja, ele era um ser Divino, filho do Deus e, ao mesmo tempo, uma sua encarnação. A forma pela qual se podia fazer adorar acima de todos na Terra era simples: só através dele se poderia acessar Aton.


        
A semelhança com tudo o que o Cristianismo prega é impressionante, visto que também no Cristianismo o Cristo não era nada mais do que o Filho e Pai, mas também o Espírito Santo em um só indivíduo. Essa idéia de tríades ou trindades não é Judaica, mas Egípcia. Em todas as regiões os Deuses Egípcios se dividiam em tríades e todas as Histórias convergiam para três indivíduos importantes (Horus, Ra e Osíris; Horus, Osíris e Isis; Isis, Osíris e Set; Isis, Horus e Set; Ra, Isis e Osíris; Anúbis, Isis e Osíris...). Sendo assim, era natural que Aton também pudesse ter seu pensamento pautado na trindade, sendo assim, ao conceber seu novo credo, pôde basear-se em Amon-Ra-Ptah (o Invisível (e, por isso, Onipresente), o Onipotente e o Criador Onisciente) para determinar que Aton brilharia sobre ele e que, através dele as demais pessoas receberiam sua luz, seu poder, sua atenção.


        
Dessa forma, podemos perceber que quando na Bíblia Jesus diz que não há outro caminho para se chegar a Deus senão através dele, essa não é exatamente uma idéia nova, mas uma idéia de quase 1500 anos, celebrizada por Akhenaton recebendo os raios do sol (o Aton que, ao final de seus raios traziam Ankhs (a cruz Egípicia que simboliza a vida)) e sendo adorado por multidões.


        
É certo que de tais imagens poder-se-ia depreender que Akhenaton fosse um Deus distinto de Aton, uma espécie de canalizador de seu poder na Terra e, sendo assim, não haveria um Monoteísmo, no entanto, há outras imagens onde Akhenaton aparece prostrado adorando a si próprio, ou seja, dois Akhenatons se fazem ver em uma só imagem no sentido de se mostrar que ele não adorava a Aton apenas pelo Sol, mas por si próprio, visto que ele era o Aton Vivo.


        
Se Akhenaton, um homem, podia ser filho de um Deus que era ele próprio, então ele era Pai e Filho ao mesmo tempo, mas o que garantia isso a ele era o seu ka, no seu caso, o Espírito Santo.


 

         10.3.2 – Idéias Antigas Realizações Recentes:

 

         Pensar que a História de Akhenaton pudesse ser tão semelhante à do Messias Cristão e pretenso Messias Judeu é, no mínimo perturbador para muitas pessoas, visto que toca na questão de suas Fés e, sendo assim, as faz encontrar os argumentos mais variados, mesmo os mais absurdos, para invalidar essa possibilidade.


        
Porém, pautemo-nos na Bíblia para pensarmos sobre essa questão. A Bíblia fala que os Hebreus fugiram do Egito onde eram escravos tendo sido liderados por Moisés. Essa História é tida como tendo ocorrido durante o Reinado de Ramsés II o que, de um certo ponto de vista, até faz um certo sentido, visto que foi por essa época que novos povos (dentre eles, por que não os Hebreus) começaram a se tornar uma ameaça crescente na Ásia. Se ligarmos esses acontecimentos aos dados que se tem de que o culto a Aton foi finalmente proscrito no governo de Seti I, pai de Ramsés II, o Faraó que teria ordenado o assassinato de todos os bebês Judeus com medo da profecia de que surgiria um escolhido entre eles para liberta-lo, podemos obter a seguinte situação:


        
Os Hebreus que poderiam ter sido os Hicsos, trabalhavam como escravos e/ou mão-de-obra de segunda categoria no Egito desde que Ahmés terminara a reconquista da independência e fundara a XVIII Dinastia. Por não serem nem se sentirem Egípcios, os Hebreus teriam adotado Set (o Deus dos Estrangeiros) como seu Deus Dinástico quando governavam, mas, quando foram derrubados, passaram a buscar por um elo que os mantivesse coesos e fortes e, na Antiguidade, que elo poderia ser mais forte do que a Religião? Talvez os Hebreus tenham encontrado nas palavras de Akhenaton um novo sentido em sua consciência e, sendo assim, não é absurdo assumir que Akhetaton tenha sido construída por trabalhadores Hebreus dispostos a abandonar suas vidas oprimidas em Tebas e outras regiões do Egito em busca de um novo caminho, de uma nova orientação religiosa.


        
Quando Akhetaton deixou de ser habitada pela Realeza, continuou a ser uma cidade até o governo de Horemheb, quando ele ordenou que a cidade fosse desmontada e a população dispersada. É certo que não havia muitos habitantes, mas também é certo que os que haviam permanecido o fizeram por algum motivo que não o econômico, visto que a cidade praticamente morrera desse ponto de vista desde o falecimento de Akhenaton (e até um pouco antes). A Religião, portanto, seria um bom motivo para manter os últimos habitantes ligados à cidade, visto que a Religião a havia criado. Com a dispersão, esses habitantes (assumindo-se que fossem Hebreus e que fossem seguidores de Aton) continuaram cultuando o Deus criado por Akhenaton, porém, cerca de 50 anos depois, no Reinado de Seti I, viram seu culto ser completamente proibido e aqueles que o praticavam passarem a ser caçados. Isso pode ter feito com que as lideranças Hebraicas passassem a se organizar no sentido de abandonar o Egito, o que foi possibilitado durante o governo de Ramsés II, quando o exército já não era mais tão ativo e quando as principais preocupações do Faraó se voltavam à expansão de sua própria imagem.


        
É claro que a figura de Moisés se não for inexistente foi, no mínimo, mitificada, na medida em que é muito pouco verossímil a História contada no filme de Charleton Heston e tida como verdadeira por milhões de pessoas. Porém, uma marcha migratória de fiéis fugindo de um país que proibira o culto à sua divindade não é de todo impensável, ainda mais num contexto teocêntrico como o do Crescente Fértil.


        
As pragas do Egito, a abertura do Mar Vermelho, os 40 anos perdidos no deserto e o próprio Moisés são, quase que com 100% de certeza, mitos, mas a marcha em si pode ter acontecido. Até mesmo o episódio do ídolo de ouro não é de todo impensável, visto que, dadas as dificuldades da marcha, alguns podem ter pensado em desistir e, construindo o ídolo, tentado retornar. Os dez mandamentos, com efeito, representam a tentativa final de construção de uma consciência étnica Hebraica forjada na religião que surgia: o Judaísmo.


        
As semelhanças e verossimilhanças não param por aí, originalmente, o primeiro mandamento (“Amar a Deus sobre todas as coisas”) continha em si uma proibição de se criar imagens de Deus, coisa que se remete sensivelmente ao Período de Amarna, quando não havia imagens de Aton, visto que este era adorado diretamente através do culto ao Sol.


        
O Messianismo, outra característica marcante do Judaísmo (e que foi responsável pelo desmembramento que se tornou o Cristianismo), também pode ser visto como uma herança do Período de Amarna, visto que o Faraó era um Deus Vivo que governava os mortais e que vivia para salva-los. Os Hebreus (agoras também Judeus) podem muito bem ter passado a aguardar um novo Rei-Deus que viesse a salva-los, assim como alguns ainda aguardam volta de Dom Sebastião de Portugal há mais de 400 anos.


 

         10.3.3 – Um Consolo para a Fé e uma Revisão Conceitual:

 

         Todas as teorias aqui expostas são controversas, muito, é verdade, por causa de barreiras religiosas que são difíceis de derrubar, mas que, lentamente, caem uma a uma.


        
Como consolo para aqueles mais sérios que se dão ao trabalho de ao menos pensar na possibilidade de tais teorias serem verdadeiras, vai uma interessante observação que, especialmente por partir de um ateu, deve ser levada em consideração. São, todavia, apenas conjecturas:


        
Se é que Deuses existem e se é que as Religiões do Grande Eixo Monoteísta (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) estão corretas, por que descartar a hipótese de Akhenaton ter estado correto e de, sendo assim, este Faraó ter sido um verdadeiro Rei-Deus, um filho de Deus e um Deus Vivo ao mesmo tempo? Se observarmos bem, ele teve até mesmo um final semelhante ao de Cristo, ou seja, não viu suas pregações renderem nenhum fruto em vida e se viu abandonado por aqueles que lhe eram mais próximos no momento em que mais precisava (como Pedro que, segundo o Novo Testamento, negou Cristo e Judas que o traiu). Há até mesmo um Judas na História de Akhenaton: Aye, que depois de ter sido um dos indivíduos mais próximos do Faraó, seu Tjati, foi o principal idealizador do abandono de Akhetaton e da reaproximação com o Clero de Amon.


        
É verdade que as Histórias de Cristo e Akhenaton são bem diferentes, afinal, um tinha um Reino que não era deste mundo e o outro, um Reino que era dos dois mundos, mas isso pode ser entendido como diferenças temporais, além do que, se o Período de Amarna é conturbado e controverso, a História de Cristo não é menos confusa. Para começo de conversa, não qualquer vestígio Arqueológico sério de que Cristo tenha realmente existido, sendo assim, pode-se propor de um ponto de vista científico com o mesmo ceticismo que os Cristãos demonstram em relação às crenças de religiões que, como as Egípcias, não seguem seu Deus, apenas Pedro e Paulo tenham existido de verdade que, em comum acordo, depois de tramarem tenham decidido espalhar uma nova visão do Judaísmo sobre a Terra. Até uma explicação plausível para isso há: a vinda de um Messias poderia assustar os Romanos que dominavam a Judéia.


        
É claro que minha última proposição teve até um certo tom blasfêmio, mas se formos capazes de pensar racionalmente apenas por alguns instantes, poderemos ver que propor o que eu propus é tão sério quanto se estudar o Período Amarna acreditando-se que Akhenaton, ao fazer o que fez, desejou apenas realizar uma poderosa manobra política. Por que é que quando se trata de mitologias já em desuso (ou em pouco uso com as de outros povos sobre os quais já escrevi) tem-se o costume de se pensar que tudo o que faziam e/ou acreditavam era regido por motivações políticas e sociais, uma visão cética e científica sobre aquelas religiões, mas, quando se trata daquilo em que o próprio indivíduo acredita, a mesma proposição adquire tom de blasfêmia?


        
Devemos ter isso em mente antes de estudar um culto passado, devemos ser coerentes, temos duas opções: ou seremos críticos ou crédulos, o que não podemos fazer é sermos críticos com o que não nos afeta e crédulos com o que nos afeta. Isso é hipocrisia e um verdadeiro placebo psicológico. Se optarmos por sermos crédulos, que olhemos para Osíris como o verdadeiro Deus dos Mortos, senhor do Amentet e Juiz das Almas, que olhemos para os Faraós (ou, ao menos para alguns deles) como verdadeiras encarnações Divinas e, dessa forma, como indivíduos dotados de poderes impressionantes. O que não é possível é que ao estudarmos um Faraó do Egito nós achemos absurda a idéia de que seu toque era ígneo que as serpentes em sua coroa poderiam cuspir um fogo venenoso àqueles que se atrevessem a atentar contra ele, mas, ao mesmo tempo, achemos perfeitamente plausível que um indivíduo tenha curado lepra com um toque, ressucitado os mortos, multiplicado alimentos, transmutado água em vinho, caminhado sobre as águas e que, no fim, depois de morto, tenha subido aos céus de corpo e alma.


Temos que decidir se acreditamos no sobrenatural (e isso inclui fantasmas, demônios, fadas, lobisomens...) ou se não acreditamos no sobrenatural, pois se formos ser seletivos, faremos isso às custas da seriedade, visto que há tantas provas dos milagres de Cristo quanto das proezas de Hércules ou da natureza Divina de Alexandre, o Grande, ou seja, nenhuma que não se esgote na Fé de cada um.

 


10.3.4 – O Hino a Aton:

 

Uma das mais importantes evidências da influência do Período de Amarna sobre o Judaísmo e, através deste, sobre o Cristianismo, é o Hino a Aton. Sendo uma espécie de canção religiosa cuja autoria é atribuída ao próprio Akhenaton, o Hino a Aton é, para muitos especialistas, muito semelhante ao Salmo 104 do Velho Testamento.


Apesar do Livro dos Salmos não fazer parte do Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) ou Torah, sua tradição também é antiga e remonta ao período Pré-Cristão, por isso está inserido no Velho Testamento (sendo o seu 19º Livro). Especificamente o Salmo 104 é aquele que trata da Criação do Mundo, bem como Hino a Aton que foi encontrado nas paredes do túmulo que Aye estava construindo para si em Akhetaton, antes de abandonar a cidade e abortar a construção desse túmulo (o Faraó foi enterrado em outro túmulo, no Vale dos Reis).


Vejamos ambas as canções (visto que os Salmos não deixam de ser canções como o próprio São Cirilo se referia a eles):

 

Hino a Aton

(compilação de Miriam Lichtheim e tradução de Vera Ribeiro)

 

Esplêndido te elevas nas terras claras do céu,

Ó Aton vivo, criador da vida!

Quando alvoreceres na terra clara do leste,

Enches a terra inteira com tua beleza.

És belo, grande, radioso,

Erguendo-te alto sobre toda terra;

Teus raios abraçam as terras

Até o limite de tudo o que fizeste.

Soberano Ra, alcanças seus limites,

E os curva (ante os) filhos a quem amas;

Ainda que estejas longe, teus raios estão sobre a terra,

Embora te vejam, teus passos não são vistos...

 

Quão inúmeros são teus feitos,

Conquanto se furtem à visão,

Ó Deus Único, comparado a quem não há nenhum!

Fizeste a terra como querias, apenas tu,

Todos os povos, rebanhos e manadas:

Tudo o que na terra anda sobre pernas,

Tudo o que nos céus voa sobre asas,

As terras de Khor e de Kush,

A terra do Egito.

Puseste cada homem em seu lugar

E lhes supres as necessidades;

Todos têm seu alimento,

E têm contados os seus dias de vida.

Diferem suas línguas na fala,

Assim como o seu caráter;

Suas peles são distintas,

Pois distinguiste os povos...

 

Estás em meu coração,

Não há outro que te conheça,

Somente teu filho, Nefer-Khepru-Re (Akhenaton), o Único de Ra

A quem ensinaste teu caminho e teu poder (...).

 

Agora vejamos o Salmo 104 para que tenhamos uma contrapartida para comparar.

 

Salmo 104

 

         1. Bendize minh’alma a Javeh!

         Javeh, Deus meu, como és grande!

         Tu te vestiste de glória e esplendor,

         2. envolvido em luz, como num manto!

         Entendeste o céu como um toldo

         3. e assentaste nas águas Tua morada.

         Fazes das nuvens o Teu carro

         e andas sobre as asas do vento.

         4. Fazes dos ventos os Teus mensageiros,

         de fogo e chama os Teus ministros.

         5. Fundaste a terra sobre seus alicerces,

         nunca ela vacilará.

         6. O oceano a cobriu como um vetido

         e por cima dos montes passaram as águas.

         7. Diante da Tua repreensão fugiram,

         à Tua voz trovejante se retiraram.

         8. Surgiram os montes, baixaram os vales

         para o lugar que lhes assinalaste.

         9. Puseste limites que não ultrapassam;

         nunca mais tornarão a cobrir a terra.

         10. Tu fazes jorrar fontes nos vales,

         que serpenteiam por entre os montes

         11. e dão de beber às feras do campo;

         os asnos selvagens matam nelas sua sede,

         12. às suas margens moram as aves do céu,

         que nos ramos ressoam suas vozes.

         13. Do Teu sobrado irrigas os montes,

         do fruto de Tuas obras se farta a terra.

         14. Fazes brotar relva parao gado

         e plantas para o uso do homem

         que tira alimento da terra,

         15. vinho que alegra o coração humano,

         azeite para abrilhantar o rosto

         e pão que fortifica seu coração.

         16. Fartam-se as árvores de Javeh,

         os cedros do Líbano que Ele plantou,

         17. onde os pássaros fazem seu ninho,

         em cujos cumes a cegonha tem sua casa.

         18. Os montes altos são dos cabritos-monteses

         e os penhascos o abrigo dos texugos.

         19. Fizeste a lua para marcar os tempos;

         sabe o sol quando deve deitar-se.

         20. Quando estendes as trevas

         e vem a noite,

         nelas se movem todas as feras do mato.

         21. Os leões rugem em busca de presa,

         pedindo a Deus o seu sustento.

         22. Ao nascer do sol se recolhem

          e vão deitar-se nos seus covis.

         23. Sai o homem para o seu trabalho

         e para a sua lida, até a tarde.

         24. Numerosas são tuas obras, Javeh!

         Fizeste-as todas com sabedoria!

         A terra está cheia de Tuas criaturas!

         25. Eis o mar, imenso e vasto,

         onde inúmeros seres se movem,

         animais pequenos e grandes.

         26. Por ele os navios caminham

         e o Leviatã que criaste,

         para que nele brinque.

         27. Todos esperam por Ti

         para que lhes dê de comer

         no devido tempo.

         28. Quando lhes dás, eles recebem,

         quando abres a mão, saciam-se de bens.

         29. Quando escondes Teu rosto, temem;

         quando lhes tiras a força vital, fenecem

         e voltam ao nada.

         30. Quando envias Teu sopro, renascem

         e renovas a face da terra.

         31. Perdure sempre a glória de Javeh!

         Alegre-se Javeh por Suas obras!

         32. Ele olha a terra e ela estremece,

         Ele toca os montes e eles fumegam.

         33. Quero cantar a Javeh enquanto viver

         e celebrar a Deus enquanto existir!

         34. Seja-Lhe agradável minha linguagem!

         Eu porei minha alegria em Javeh.

         35. Desapareçam da terra os pecadores

         e pereçam os ímpios!

         Bendize, minh’alma, a Javeh. Aleluia!

 

As semelhanças são muitas, se bem que o Salmo 104 seja maior, ele também é posterior e, sendo assim, pode ter sido muito modificado (ampliado, inclusive) pela tradição oral anterior à sua inscrição. Porém, é inegável mesmo ao observador mais incauto que ambos os textos tratam do mesmo tema e também que o segundo, em se sabendo mais recente, parece copiar o primeiro em diversas partes.


Semelhanças circunstanciais, mas, ainda assim interessantes podem ser constatadas, por exemplo, no fato de em ambos os textos o Deus Único ser chamado por dois nomes (Aton e Ra; e Javeh e Deus), nomes que dão a impressão, às vezes, de se tratarem de menções a outros Deuses.


Se o Salmo 104 foi realmente inspirado no Hino a Aton, não podemos precisar, mas que há uma boa chance de que tenha sido, isso há...


Essa possibilidade torna ainda mais verossímil a teoria de que talvez Akhetaton tenha sido uma comunidade Judaica. Essa teoria, não foi encontrada, é bom que se observe, em lugar algum, sendo, portanto, um fruto de minha abstração pessoal. É possível, no entanto, que alguém já a tenha desenvolvido antes de mim, mas quero afirmar que não se trata da expropriação da teoria de ninguém, visto que cheguei a essa possibilidade a partir da abstração sobre minhas leituras.


 

10.4 – O Monoteísmo e a idéia de Evolução:

 

Temos, enraizada dentro de nós, uma forte noção de que as sociedades, as pessoas, os pensamentos, as tecnologias... evoluem. Toda a nossa concepção de História é centrada nesse conceito, sendo assim, talvez o que eu venha a falar agora colabore um pouco mais para confundir nosso pensamento, mas, confesso que até mesmo eu fiquei um pouco confuso quando li o que vou relatar (a tradução é de Pietro Nassetti):

 

Ao contrário do que se afirma hoje, a humanidade não representa uma evolução para algo melhor, mais forte ou mais elevado. O “progresso” não passa de uma idéia moderna, ou seja, de uma idéia falsa. O europeu moderno tem bem menos valor que o europeu do Renascimento. Desenvolver-se não significa forçosamente elevar-se, aperfeiçoar-se, fortalecer-se.

 

É claro que o trecho acima não poderia ter sido escrito por outra pessoa senão por Nietzsche, em sua obra intitulada “O Anticristo”, mas ela se articula de uma forma incrível com o que passei a pensar depois de ler o livro de Bob Brier “O Assassinato de Tutancamôn”.


O Egito, como vimos, conhecia uma panacéia de Deuses e credos. Não havia uma hierarquia muito bem estabelecida entre eles e os cultos locais se consideravam absolutos. A centralização religiosa se dava precariamente através do Templo de Karnak e da imposição do culto a Amon-Ra, no entanto, na realidade, apenas uma pequena elite governante (e às vezes nem mesmo ela) considerava, de fato, Amon como o principal Deus do Egito.


Nesse sentido, a revolução de Akhenaton e o Período de Amarna, em si, trouxeram uma evolução, ainda que efêmera, uma vez que foram capazes de terminar com as dissensões, ainda que em nível local, visto que, apesar da vontade do Monarca, a religião nova não conseguiu se expandir para todas as partes do Egito.


As afirmações do parágrafo anterior se reforçam se pensarmos na idéia filosófico-abstrativa que há por trás dos diferentes tipos de religião, ou seja, as religiões politeístas, como, as crenças Egípcias pressupõem um nível de compreensão de fenômenos inferior ao das pessoas que crêem em religiões dualistas (como o Cristianismo e a Fé de Aton), ou mesmo Monoteístas (como o Judaísmo).


Pois bem, as idéias dos dois parágrafos anteriores, em especial as do parágrafo anterior, são conceituais e filosóficas, no entanto, deixam de lado uma brecha abstrativa muito grande que eu mesmo em meu texto “A Religião e a Abstração”, publicado em Klepsidra (www.klepsidra.net) não pude me dar conta: Quanto mais restritivas forem as religiões (ou seja, quanto menos Deuses elas permitirem), mais autoritárias elas serão, visto que num universo onde há diversos Deuses também há diversas verdades, mas num universo onde há apenas um Deus (ainda que, como no caso do Cristianismo e da Fé de Aton, esses Deuses tenham caracteres dualistas ou mesmo de tríades, essas religiões se auto-denominam Monoteístas) passa a existir apenas uma verdade, sendo assim, ou o indivíduo está do lado da verdade, ou é um infiel e, como tal, merece a punição.


Essa idéia não é minha, mas de Bob Brier, se bem que eu a valide totalmente, pois num contexto Monoteísta, a religião é absoluta, a única verdade, sendo assim, todos os fiéis se identificarão entre si e, como sendo maioria, se sentirão no direito de punir (seja de quais formas forem) a minoria que não é fiel. Surgirão então as guerras religiosas. Se percebermos, aliás, as guerras da Antiguidade poderiam ter legitimação Divina (como a própria expansão de Alexandre), mas não eram realizadas no sentido de expandir uma Fé (talvez, como veremos, o Império Egípcio tenha se formado com esse objetivo, mas isso estaria ligado a um passo em direção ao Monoteísmo de Amon-Ra), como viriam a ser na Idade Média quando as Cruzadas (as principais guerras da Idade Média) se realizavam entre dois povos (o Ocidental e o Médio-Oriental) com o intuito de expandirem e defenderem suas verdades (ambas Monoteístas) em detrimento da outra, visto que ambos os lados sabiam que os vencedores seriam tidos como corretos e poderiam suprimir a religião do outro e não incorpora-la em si.


Nesse sentido, a existência dos Santos no Catolicismo se provou uma arma muito grande na conquista da América, por exemplo, visto que em diversas localidades, o multiverso de Santos foi associado aos Deuses locais e facilitou a conversão dos índios, não que os Sacerdotes Católicos acreditassem realmente que os Deuses indígenas poderiam ser aspectos dos Santos Cristãos, apenas o faziam crer para colaborar com seus interesses.


Como vimos (e para isso o excerto de Nietzsche foi fundamental), nem tudo o que vem cronologicamente depois é necessariamente melhor do que o que havia antes, sabendo disso, podemos começar a nos preparar para questionar toda a noção de História que temos. Será mesmo que hoje nós vivemos no período mais avançado da humanidade (deve ficar claro que estou me referindo a níveis de pensamento, não a níveis tecnológicos, afinal, não dou crédito a teorias que se referem a eras passadas ou a grandes civilizações antediluvianas, como Atlântida, que seriam mais avançadas do que o mundo de hoje e que não deixaram vestígios concretos de sua existência)?


 

10.5 – O Canibalismo Divino em níveis Internacionais:

 

Este item não será grande, na verdade, foi criado apenas para lembrar ao leitor do costume já mencionado da religião Egípcia de compreender a dança dos poderes divinos como uma série de canibalizações.


Conforme o Egito passou a entrar em decadência, Deuses estrangeiros começaram a chegar ao Vale do Nilo juntamente com imigrantes estrangeiros. Esses estrangeiros, no mais das vezes, tinham seu imaginário povoado pela grandeza passada do Egito. Lembravam-se das lendas de Ramsés II, o primeiro Monarca da História a ser conhecido internacionalmente como um Rei lendário.


O Egito, nos dois milênios de História que havia desenvolvido antes de sua decadência, no final do Novo Império, havia influenciado o pensamento do Mediterrâneo Oriental de tal maneira que muitos de seus costumes e mesmo de suas tecnologias acabaram por se difundir de maneira tão homogênea que nem mesmo os receptores da difusão se deram conta.


Foi através da influência Egípcia que a língua escrita se espalhou pelo ocidente (como veremos), foi através de sua influência que o modelo de construção com colunas sustentando os tetos também se difundiu e foi através de sua influência que o canibalismo divino (que em outras regiões adquiriu o caráter de mera fusão e, depois, de diferentes aspectos no sentido de um pensamento ecumênico) foi aprendido em outras regiões.


Para os estudiosos é um tanto ruim que esse fenômeno tenha acontecido, na medida em que se faz muito difícil compreender as cosmogonias através da interpretação dos diferentes aspectos das Divindades. Como estudar Zeus, da Grécia, por exemplo, se em um lugar ele era Zeus-Amon, em outro Zeus Olímpico e em outro apenas Zeus? E esse é apenas um dos problemas, visto que um mesmo Deus podia assumir diversos aspectos em um mesmo lugar, sendo assim, torna-se difícil compreender qual o real portfolio de cada Deus.


Na medida em que o Egito passou a ser dominado por povos estrangeiros, estes tentaram impor seus Deuses ao Egito, sendo assim, em tornaram os Deuses Egípcios em meros aspectos de suas Divindades.


A História da Grécia pode ser vista como uma espécie de continuidade da História Egípcia, visto que a História desta começa a ser contada, com o início do Período Arcaico (a que se perceber que a História da Grécia nos Períodos Homérico e Pré-Homérico não é muito mais do que um amontoado de lendas como as da Guerra de Tróia e do Labirinto do Minotauro; não que tais lendas não tenham certa origem Histórica, mas praticamente não há documento acerca delas, e muito poucas fontes escritas), na mesma época em que a História Egípcia entrava em decadência, com o fim do Novo Império.


No Período Clássico da História da Grécia, quando viveram filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, começou a ser desenvolvido o ideal que viria a ser propagado no Período Helenístico, que se iniciaria logo em seguida: o ideal do Ecumenismo. Muitas tradições e pensamentos envolvem esta questão, no entanto, o mais importante em se ter em mente (ao menos para este trabalho) é que foi segundo este ideal que Deuses como Zeus-Amon chegaram ao Egito.


Os oásis, que passaram a ser acessíveis depois da introdução dos camelos no país, se tornaram pólos de atração para templos de Deuses sincréticos como Zeus-Amon, em Siwa. Em contrapartida, o costume Egípcio de consulta a oráculos a fim de predizer o futuro foi absorvido também pela Grécia, sendo assim, no final do Período Clássico, cidades como Delfos viviam em função dos oráculos que nela estavam instalados.


Com o início do domínio Grego sobre o Egito no Período Ptolomaico (que veremos mais adiante), uma infinidade de Deuses Gregos foi introduzida no Egito de modo a se fundir como os Deuses Egípcios ou se fazer ver como sendo os Deuses de quem os Deuses Egípcios eram apenas aspectos. Nesse contexto é que Cleópatra (a famosa) pôde ser Divinizada como filha de Isis-Afrodite e também nesse contexto é que Ptolomeu I Sóter pôde dar a ordem para que se criasse Serápis, o Deus padroeiro de Alexandria, uma Divindade com a aparência física de Zeus e os portfolios de Dionísio (o Deus de quem Ptolomeu se considerava filho), Osíris (o Deus mais cultuado no Egito) e Ápis (a Divindade mais cultuada no Delta do Egito na época da conquista Grega).


 

10.6 – O Retorno ao Zoomorfismo:

 

Como já foi referido no item sobre o Período Pré-Dinástico do Egito, no início as comunidades semi-nômades que deram origem aos primeiros Spat cultuavam Deuses totêmicos e de características zoomórficas, ou seja, com aspectos e animais.


Aos poucos, na medida em que o homem foi se tornando mais seguro de si e que a natureza começou a trabalhar segundo seus desejos, os Deuses animais foram adquirindo posturas mais eretas até que se tornaram homens com cabeças de animais ou até, em casos como o de Amon, apenas homens (lembremo-nos que ele originalmente era o Deus-Carneiro, depois o Deus com Cabeça de Carneiro e depois um Deus com feições humanas, apesar de sempre ter tido a qualidade da invisibilidade).

Pois bem, considera-se que artisticamente o Egito atinge seu momento de individualização em relação ao restante do Crescente Fértil no momento em que passa a retratar Horus não mais como um Falcão, mas como um Homem com cabeça de Falcão.


Falcão, a representação
original de Horus


Paul Johnson, em seu livro “A História Ilustrada do Egito”, diz que se pode analisar o sentimento do Egípcio em relação a si próprio a partir da figura de Horus, sendo que esse Deus surge como um falcão, ou seja, uma ave imponente a ser invejada por sua capacidade super-adaptada de caçar e se locomover pelos ares, depois, contudo, quando o Nilo é “domesticado” e as cheias e vazantes passam a garantir um suprimento contínuo de comida independentemente da caça e das habilidades físicas naturais, a figura do falcão deixa de ser invejada e, sendo assim, Horus passa a se tornar cada vez mais humano até que se torna um homem com apenas a cabeça de um falcão. O homem era agora seguro de si, sabia que era ele quem controlava a natureza e não o contrário. Por quase dois mil anos os Deuses Egípcios foram antropozoomórficos em sua maioria. Porém, com o fim da força da autoridade central e o início de um período de conturbações políticas que duraria cerca de 800 anos, a auto-confiança (e porque não, o orgulho) Egípcia desmoronou e, dentro desse contexto, qualidades animais voltaram a ser valorizadas, o que fez com que Horus, no III Período Intrmediário, voltasse a ser retratado como um mero falcão.


O curioso é que Paul Johnson não se dá conta da ambigüidade de seu texto, visto que um de seus capítulos chamado “A Anatomia da Arte Pré-Perspectivista”, ele afirma por A+B que a arte Egípcia era menos desenvolvida do que a arte Greco-Romana (apesar de apresentar o argumento de Platão em contrário, esse argumento não é muito discutido e acaba passando despercebido na medida em que o autor realiza um verdadeiro trabalho de construção da arte Egípcia como sendo um período necessário, sim, mas anterior e, sobretudo, inferior, à arte Grega, para ele, Perspectivista). Essa afirmação em nada contaria contra o autor se não viesse imbuída da idéia de evolução, idéia essa que é desconstruída paradoxalmente no momento em que ele fala da imagem de Horus. Se Horus pôde ser um falcão (algo antiquado), depois se tornar um homem-falcão (algo moderno) para depois voltar a ser um falcão (novamente algo antiquado), isso denota claramente que não há uma noção de evolução claramente definida, mas, ao contrário, uma alternância de acordo com as necessidades humanas do momento.


É a questão da evolução à qual já me referi. Essa questão é fundamentalmente recheada de preconceitos, visto que muitos não conseguem acreditar que as Pirâmides, por exemplo, possam ter sido construídas pelos Egípcios, mas nunca vi ninguém contestar a construção do Farol de Alexandria (do qual falaremos mais tarde) pelos Gregos Ptolomaicos. Ora vejamos, não é porque nossa civilização se orgulha de ser “descendente” dos Gregos (não em sangue, mas em ideais e pensamentos) que nós devemos acreditar que os Gregos (ou os Romanos, de quem também nos esforçamos para descender, inclusive, até os EUA, que não são descendentes de Latinos e que, aliás, nutrem um forte preconceito contra eles, construíram sua capital (Washington) inspirados na arquitetura e, evidentemente, no poder Romano) que devemos superestimá-los. Volta à questão da congruência. Se podemos dizer que não é possível construir um pirâmide sem guindastes e coisas do gênero, porque podemos aceitar que um edifício de cerca de 150m a 180m de altura pode ter sido construído sem as mesmas tecnologias?


Acho que, assim como na religião, a questão aqui está naquilo que nos toca. Se nós nos orgulhássemos em “descender” dos povos da América Pré-Colombiana, por exemplo, jamais nos passaria pela cabeça dizer que Macchu Picchu, Nazca e outras regiões tiveram participação alienígena em suas construções (como tantos, inclusive pessoas que conseguem publicar e vender livros, além de serem entrevistadas no Jô Soares, gostam de dizer). Já repararam que os alienígenas, segundo as teorias de pessoas como Erich von Däniken entre outros, só ajudaram as civilizações não Greco-Romanas a construírem coisas? Stonehenge, Nazca, Angkor-Vat, Ilha de Páscoa, Pirâmides do Egito... Todas regiões periféricas, nada que realmente comprometa a origem da qual nos orgulhamos, pois nossa civilização não pode descender de ETs, se, por acaso eles estiveram presentes entre nós no passado, a cultura que acabou por dominar o mundo foi aquela que esteve livre de sua influência.


Pensem sobre isso. É interessante que o façamos antes de formularmos teorias como as de que as estátuas de Divindades Egípcias eram os próprios Deuses na medida em que os Egípcios não possuíam a capacidade de abstrair e pensar que aquilo poderia ser apenas uma representação do Deus. Por que então, os milhões de Católicos que possuem crucifixos e imagens de Santos em suas casas não são considerados idólatras da mesma forma que os índios que eles queimaram no passado apenas por adorarem imagens de divindades? Será mesmo que todo Católico (até aquela mulher que amarra a estatueta de Santo Antônio embaixo da cama para arrumar namorado) tem a real consciência de que quando ele reza em frente à estatueta ele, na verdade, está rezando para uma entidade incorpórea e onipresente? Se tem, por que então rezar em frente a uma estatueta?


Sei que Cristãos e especialmente Católicos e todas parte se apressarão em responder das mais variadas formas essas questões, no entanto, eu apenas pergunto: Se por acaso os Católicos (mesmo aqueles mais humildes e das regiões mais afastadas) possuem o discernimento de que quando rezam em frente a uma estatueta, na verdade estão rezando para uma entidade incorpórea, por que então os índios das capitais de Impérios tão avançados como o Asteca e o Inca não poderiam ter a mesma capacidade de discernimento?


Agora que já fiz uma grande digressão, gostaria de voltar ao eixo central apenas para comentar a respeito de Bast (também chamada de Bastet) e Ápis.



Bast

Bast era a Deusa-Gata, sempre existiu e foi cultuada, no entanto, apenas no III Período Intermediário, quando os Líbios fundaram a XXII Dinastia, em Bubastis, no Delta, a Deusa passou a ser a Deusa Dinástica e, sendo assim, seu culto ganhou projeção. A exemplo de Bast, muitos outros Deuses passaram a ser cultuados na forma de animais, por exemplo, Thot, que era representado com Cabeça de Íbis, mas que também era associado (em outras regiões onde a ave era mais rara) ao Babuíno, passou a ser cultuado na figura desses dois animais. Em Bubastis há um enorme cemitério de gatos mumificados e em Hermópolis, um de íbis.

No entanto, a principal transformação no sentido da zoomorfização (ou teriomofização) dos animais se deu durante a XXVI Dinastia, quando os Monarcas de Saís, no Delta, instituíram o culto ao Boi Ápis.


       Desde muito tempo, em Mênfis, Ptah era associado à figura bovina, porém, Ápis não foi propriamente a zoomorfização de Ptah.



O Boi era considerado a encarnação do Deus, mas não só dele e sim da tríade da qual fazia parte, sendo assim, Ápis era Amon-Ra-Ptah. Ao contrário do que ocorria com o culto aos outros Deuses, não se identificava os bois em geral com Ápis, mas apenas um boi em especial. Na verdade, o processo se tornou algo muito semelhante à sucessão Divina dos Faraós.

Quando o atual Boi Ápis morria, ele se tornava Osíris em sua morte e, ao mesmo tempo nascia outro boi que seria a sua reencarnação. Esse boi era identificado pelos sacerdotes de Ápis e passava a viver no templo de Ptah em Mênfis. Quando morresse, seria mumificado (e apesar das técnicas de mumificação estarem caindo em desuso nessa época, no que se referia ao Boi de Ápis, elas eram observadas à risca) e enterrado na antiga Necrópole Régia do Antigo Império: Sakkara.


Boi Ápis


Ápis vem de uma crença que surge no final da XIX Dinastia, segundo a qual “Todos os Deuses são três, Amon, Ra e Ptah, nenhum outro os secunda. Enquanto Amon, seu nome, é Invisível. Na face ele é Ra; e no corpo, Ptah”. O Boi Ápis, então, unificava em si essas três Divindades e, ao se tornar Osíris depois da morte, abarcava todas as principais Divindades do Egito na época (se bem que, paralelamente, o culto de Isis (como Horus como seu correlato) se fortalecesse cada vez mais (especialmente no sul do Egito), inclusive, este foi o único culto Egípcio a ser exportado oficialmente sendo que, em tempos Romanos, por exemplo, chegou a haver um santuário a Isis em Pompéia).


Quando os Gregos chegaram ao Egito (oficialmente, com a excursão de Heródoto, na época de domínio Persa, se bem que antes, durante a XXVI Dinastia, já tivessem servido como mercenários aos Faraós e introduzido na região a metalurgia do ferro, mas não eram dominantes) identificaram o culto a Ápis com seus Mistérios, dedicados a Dionísio, por isso e também pelo fato de, posteriormente Ptolomeu I Sóter ter se considerado filho de Dionísio, no Período Ptolomaico a o culto a Osíris-Apis (Osoro-Ápis, ou Osorápis) se associou ao culto a Dionísio e se transformou no culto a Serapis, a nova Divindade de Alexandria.



Continuação