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Egito: o Berço do Ideal Imperial
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12
– O Período Ptolomaico:
O
século IV a.C. foi marcado pela maior transformação que a História do Mundo
sofrera até então: a expansão sem precedentes do mundo Grego. Esse movimento
foi comandado por Alexandre III da Macedônia, que ficou conhecido como Alexandre,
o Grande.
Após a perda do pai, o Rei Filipe II, Alexandre eliminou
seus concorrentes ao trono e, depois de organizar e reiterar o poder da potência
Macedônica sobre a Grécia, iniciou uma campanha de conquista dirigida sobre
os domínios do Império Persa. Em pouco mais de oito anos de expedições, Alexandre
dominou todo o Crescente Fértil e ainda atingiu o Vale do Indu.
| Tende
sido pupilo de Aristóteles (visto que Filipe II queria que seu herdeiro fosse
um Rei na total acepção da palavra, ou seja, um bom guerreiro, mas também
um governante sábio), Alexandre recebeu, ainda que de forma indireta, a tradição
Platônica, sendo assim, desde cedo, além de ser um apaixonado pelos clássicos
da época (a Ilíada, a Odisséia e a Marcha de Xenofonte), Alexandre também
conheceu a Metafísica e, por conseguinte, suas tradições originárias do
Egito. |
Busto de Alexandre |
É verdade que de um ponto de vista político-militar, a expansão
de Alexandre não poderia deixar de atingir o Egito, visto que essa região
se situava muito perto da Grécia (o coração de seu poder), que possuía um
potencial comercial muito grande e que estava dominada pelo Reino de Dario
III. No entanto, havia razões sentimentais (como as reveladas acima), Históricas
e proféticas para que a conquista dessa região se desse.
Do ponto de vista Histórico é natural que se perceba que
o cargo de Faraó era algo cobiçado por todos os grandes Monarcas e pretensos
grandes Monarcas do Crescente Fértil e Mediterrâneo Oriental, visto que em
nenhuma outra parte havia uma legitimação ao trono tão grande quanto a que
existia no Egito, em outras palavras, em nenhuma outra região o governante
era um Deus Vivo. Além disso, a glória do Império de Ramsés II ainda resplandecia
como sendo a de um Império Original a ser conquistado ou, ao menos, superado.
Quanto ao tom profético que a conquista do Egito pode ter
tido para Alexandre, podemos consultar Plutarco que nos diz que havia vários
rumores a respeito da gravidez de Olímpia, mãe de Alexandre, ter sido provocada
não por Filipe, mas por uma entidade Divina. Para alguns, tratava-se de Zeus,
que teria engravidado Olímpia ao atirar um relâmpago em seu ventre e fazendo
com que as faíscas penetrassem em suas entranhas enquanto ela dormia. Para
outros adivinhos Reais Macedônios, tratava-se de um Deus zoomórfico, com
forma de serpente que havia engravidado Olímpia da forma convencional. Vejamos
o que Plutarco nos diz sobre isso (a tradução é de Gilson César Cardoso):
(...) Filipe, depois de ver a aparição, enviou
a Delfos Querão de Megalópolis, que lhe trouxe, segundo se diz, um oráculo
em que Apolo lhe recomendava sacrificar a Amon e venerar esse Deus dentre
todos. O oráculo acrescenta que Filipe perderia um olho, aquele que aplicara
à fenda da porta para espiar o Deus deitado com sua mulher sob a forma de
serpente. Segundo Eratóstenes, Olímpia, ao despedir-se de Alexandre, que
partia para sua expedição, revelou-lhe em particular o segredo do seu nascimento
e exortou-o a cultivar sentimentos dignos de sua origem. Outros afirmam,
ao contrário, que ela repelia essa fábula com ímpia, replicando: “Alexandre
não parará nunca de caluniar-me junto a Hera?”
Como pudemos ver, havia a lenda que, se não
era pregada pela própria Olímpia (que, diga-se de passagem, era uma cultista
de Dionísio, entregue às chamadas orgias regadas a vinho, comida em abundância,
danças, sexo e rituais com serpentes (daí, talvez, a lenda da serpente Divina)),
ao menos era pretendida e espalhada pelo próprio Alexandre, de que o conquistador
Macedônio havia sido gerado por Zeus, mas Zeus em sua forma de Zeus-Amon,
cujo principal santuário era no oásis de Siwa, justamente no Egito. Mais
um motivo (e em se tratando de povos da Antiguidade (época em que o fanatismo
religioso era muito mais forte), pode-se considerar um grande motivo) para
quase necessidade da conquista do Egito por Alexandre.
É verdade, no entanto, que Plutarco não é exatamente
uma fonte fidedigna para a História. Não que desejasse inventar episódios,
mas costumava florear as vidas dos personagens a quem biografava, em especial
das contrapartes Gregas de suas “Vidas Paralelas”, afinal, num período de
dominação Romana da Grécia (como aquele do início do século II d.C., quando
viveu Plutarco), nada mais natural do que um escrito Grego querer exaltar
a imagem da Grécia através da comparação de Heróis Gregos com Heróis Romanos
sendo aqueles necessariamente superiores a estes. Reparem ainda que a contraparte
Romana da biografia de Alexandre foi justamente Júlio César, homem cuja fama
foi tanta no imaginário do último período da Antiguidade que seu nome se
tornou sinônimo de governante, sendo adotado como título pelos senhores de
Roma posteriores. Sendo assim, não estaremos exagerando se dissermos que
o paralelismo das biografias de César e Alexandre se deu por ambos serem
os maiores Heróis de suas civilizações até então e, conseqüentemente, o enaltecimento
de Alexandre sobre César corresponde ao enaltecimento da cultura Grega sobre
a Romana, ou seja, da própria Grécia sobre sua dominadora.
Pois bem, Alexandre iniciou sua campanha de
conquista do Império Persa da Dinastia Aquemênida no ano de 333 e, um ano
mais tarde, em 332, depois de retomar as antigas colônias Gregas da Jônia
(que apesar de já haverem sido reconquistadas pela Grécia após as Guerras
Médicas, haviam sido perdidas novamente durante a Guerra do Peloponeso e
o Período das Guerras Fratricidas Gregas que possibilitaram a ascensão do
poder de Pela (capital da Macedônia)), na Anatólia e de submeter a Fenícia,
a Judéia e a Síria ao domínio da Macedônia, o Rei então chegou ao Egito.
A chegada de Alexandre ao Egito se deu em paz,
o Monarca não precisou travar batalhas em solo Egípcio. Os exércitos de
Dario III, depois de derrotados na batalha de Issus, ainda não haviam logrado
se reagrupar, sendo assim, não houve qualquer resistência Persa à tomada
do Egito por Alexandre. O Grande-Rei Persa não tinha mais forças para manter
domínios tão distantes, fazia-se mais importante organizar seus homens para
defender as capitais e o centro de seu Império que, segundo seus estrategistas,
seriam atacados mais cedo ou mais tarde.
Sem ter de enfrentar guarnições inimigas, Alexandre
apenas desfilou pelo Vale do Nilo. Segundo Plutarco e outros cronistas, foi
aclamado como libertador pelas populações das vilas por onde passava.
Não resta dúvidas que o domínio Persa havia
sido traumático para os Egípcios, além disso, os Gregos eram tidos pelos
mais proeminentes habitantes do Vale do Nilo como parceiros antigos e quase
irmãos, sendo assim, é muito provável que a coroa (não se pode precisar se
por essa época as coroas do Alto e do Baixo Egito ainda existiam, mas o mais
provável é que já se encontrassem irremediavelmente perdidas; pode-se constatar
isso especialmente por causa das imagens entalhadas da coroação de Ptolomeu
I, de quem falaremos mais adiante) do Egito lhe tenha sido entregue em Mênfis
sem nenhuma relutância, como contam os cronistas, no entanto, não é tão provável
que a população comum o tenha ovacionado por onde quer que tenha passado
como está relatado, afinal, para ela não fazia muita diferença quem seria
o seu dominador, se um Persa ou um Macedônio, de qualquer forma ela seria
dominada.
Alexandre, contudo, parece ter conhecido o Egito
apenas até Mênfis, aliás, é possível que o fato de sua coroação ter se dado
naquela cidade também tenha sido uma jogada de propaganda (como podem ter
sido as suas declarações anteriores de descendência Divina), visto que os
antigos Faraós, dos áureos, e agora remotos, tempos do Egito sempre se faziam
coroar naquela cidade, seguindo exemplo de Narmer (como já foi mencionado).
Depois de sua coroação como Faraó, Alexandre rumou para a beira do Mediterrâneo
onde tencionava passar o inverno com seus homens antes de partir rumo à conquista
do restante do Império de Dario III. O Monarca invernou numa vila de pescadores
chamada Racótis e lá muitas transformações para a História Egípcia dos próximos
três séculos vieram a ocorrer.
12.1 – A Fundação de Alexandria:
Segundo Plutarco, podemos concluir que Alexandre
havia concebido um plano de domínio do Mediterrâneo Oriental através da
construção de uma cidade portuária de grande capacidade no Delta do Nilo.
Ao que parece, Racótis se tornou, aos olhos do conquistador, o sítio ideal
para a criação de uma cidade Grega no Egito, uma cidade grande e poderosa
o suficiente para se tornar a nova capital daquele país e para ser a sede
da frota de guerra da Macedônia.
É claro que os floreios de Plutarco nos remetem
a novas possíveis inspirações Divinas para a construção da cidade, na medida
em que Alexandre teria tido um sonho no qual Zeus lhe indicava o ponto entre
a ilha de Faro e o lago Mareótis como sendo o lugar ideal para a construção
de sua cidade.
Seja como for, o fato é que no inverno de 332,
Alexandre Argeade ordenou a construção de uma cidade em sua homenagem, a
qual batizaria com seu nome: Alexandria. É fato que a megalomania de Alexandre
fez com que construísse cerca de trinta cidades em sua própria honra, algumas
chamadas Alexandrópolis, mas, a maioria, tendo o nome de Alexandria. No final
de sua marcha, após a morte de seu amado cavalo Bucéfalo, antes de dar meia
volta e iniciar a navegação rumo à Babilônia, onde morreria, Alexandre fundou
a única cidade de sua expansão cujo nome não era em sua homenagem: Bucefália,
em nome de seu cavalo.
Mas voltemos à Alexandria do Egito. Segundo
Plutarco, o que é muito verossímil, aliás, a construção da cidade foi iniciada
pelas muralhas, todavia, segundo o mesmo biógrafo, o que é duvidoso, os alicerces
das muralhas estavam sendo demarcados pelos arquitetos de Alexandre com cal,
entretanto, num dado momento a cal acabou e os arquitetos passaram a utilizar
farinha de trigo.
Mal os arquitetos haviam terminado o serviço,
uma revoada de pássaros famintos atacou as linhas de farinha de trigo e
devorou todo o seu trabalho. Alexandre teria visto tal acontecimento como
um presságio de mal-agouro, mas seus adivinhos se apressaram em interpretar
o ocorrido como um sinal de que naquela cidade a fartura seria tamanha que
pessoas de todas as partes viriam para ela tornando-a um centro cosmopolita.
De fato, tal presságio viria a se confirmar, no entanto, se pensarmos que
Plutarco escreveu sua obra cerca de 500 anos depois da fundação de Alexandria,
quando esta já era realmente um centro cosmopolita (talvez o maior depois
de Roma no contexto do mundo Mediterrâneo), podemos concluir que essa devesse
ser apenas mais uma das lendas de fundação mítica das grandes cidades da
Antiguidade, como a lenda de que Hércules havia deixado seus rebanhos pastando
no sítio escolhido por Rômulo para fundar Roma e que depois o teria transferido
para o sítio que viria a se tornar a cidade de Toledo, na Espanha, acontecimento
imediatamente anterior à separação da Europa e da África perpetrada pelo
Semi-Deus que criara o atual Estreito de Gibraltar, antigas Colunas de Hércules.
Demarcadas as muralhas, Alexandre ordenou que
os construtores iniciassem a construção da cidade segundo o plano que será
detalhado mais adiante, mas, enquanto isso, partiu com alguns de seus homens
em direção ao templo de Zeus-Amon no oásis de Siwa. Vejamos como Plutarco
descreveu essa expedição e seus acontecimentos importantíssimos para a História
e mitologia de Alexandre (também na tradução de Gilson César Cardoso):
(...) Ordenou então que os mestres-de-obras iniciassem a tarefa, enquanto ele próprio partia para o oráculo de Amon. O caminho era longo e difícil, duplamente perigoso pela falta de água, que torna a região deserta por vários dias de marcha, e pelo vento sul, quando sopra com veemência e surpreende os viajante na imensidade dos areais profundo. Foi isso que, segundo se conta, aconteceu outrora ao exército de Cambises: o vento levantou montões de areia que, à medida das vagas oceânicas, tragaram naquelas paragens cinqüenta mil homens. Esses riscos preocupavam os companheiros de Alexandre, mas seria difícil desvia-lo de um projeto formado, fosse ele qual fosse. É que a fortuna, cedendo a seus esforços, firmava-o nas decisões, e o ardor que mostrava até o fim em suas empresas tornava-lhe a ambição invencível, pois submetia à força não apenas os inimigos, mas até os lugares e as circunstâncias.
Seja como for, na marcha que então empreendeu,
o amparo que lhe veio do Deus quando se viu embaraçado gozou de muito maior
crédito que os oráculos depois exarados a seu respeito. De alguma maneira,
aliás, esse amparo é que deu verossimilhança aos oráculos. Para começar,
Zeus despejou águas abundantes do céu; chuvas suficientes dissiparam o medo
da sede e suprimiram a secura da areia, a qual, agora úmida e compacta, tornava
o ar mais respirável e puro. Depois, como os marcos que serviam de orientação
aos guias estivessem quase sumidos e os viajantes, incertos quanto à rota,
errassem ao acaso distanciando-se uns dos outros, apareceram alguns corvos
que tomaram a direção da marcha; as aves voavam rapidamente quando eram seguidas
e esperavam os homens quando estes ficavam para trás. Mas o mais assombroso,
no dizer de Calístenes, foi que chamavam aos gritos os que se desgarravam
durante a noite e, crocitando, reconduziam-nos ao caminho certo! Depois que
Alexandre cruzou o deserto e chegou a seu destino, o profeta de Amon saudou-o
da parte do Deus como se ele fosse seu filho. O rei
perguntou-lhe então se algum dos assassinos de seu pai conseguiria escapar.
O profeta aconselhou-o a ter cuidado com o que dizia, pois seu pai não era
mortal. Alterando a forma da pergunta, Alexandre insistiu em saber se os
assassinos de Filipe haviam sido castigados; em seguida, inquiriu-o a respeito
do Império: consentiria o Deus em fazê-lo dono do mundo? O Deus respondeu
que consentiria e que Filipe fora plenamente vingado. Alexandre, então, cumulou
o Deus de magníficas oferendas e deu dinheiro aos sacerdotes. Eis o que relatam
quase todos os autores a propósito dos oráculos. Todavia, o próprio Alexandre,
em carta endereçada à mãe, afirma que recebeu predições secretas, que só
a ela comunicaria quando regressasse. Sustentam alguns que o profeta, querendo
saudá-lo em Grego com uma palavra afetuosa, chamou-o “Meu Filho” (Ô paidion),
mas, em sua pronúncia bárbara, substituiu o ‘n’ final por um ‘s’: Ô pai
Dios (“Filho de Zeus”). Conta-se ainda que, no Egito, ouviu o filósofo Psamão,
aprovando-lhe sobretudo esta máxima : “Deus é o Rei de todos os homens porque
um princípio Divino dirige e governa cada um deles”; o próprio Alexandre,
porém, teria emitido a esse respeito uma opinião ainda mais profundamente
filosófica, estatuindo que Deus sem dúvida é o pai comum de todos os homens,
mas só perfilha os melhores.
Ao retornar do oásis de Siwa, Alexandre apenas
passou por Alexandria para conferir como andavam as obras (lançando, segundo
Derek Adie Flower, sua pedra fundamental em 7 de abril de 331) e, em seguida
seguiu seu caminho rumo à Ásia. Nunca mais retornou ao Egito com vida, embora
tenha sido o Faraó do país enquanto viveu e o tenha governado, juntamente
com todo o restante do Império que conquistara, até 323, ano em que faleceria,
ainda muito jovem, com apenas 33 anos, de uma grave doença (possivelmente
tifo), na Babilônia.
12.1.1 – O Plano Interno da Cidade:
Alexandria foi, a exemplo de Akhetaton, cerca
de 1000 anos antes, uma cidade planejada para se tornar a capital do Egito,
sendo assim todos os seus mínimos detalhes haviam sido pensados.
Primeiramente, contudo, há que se perceber que
se tratava de uma cidade Grega no Egito e não de uma cidade Egípcia, dessa
forma, apesar da incorporação de alguns elementos arquitetônicos Egípcios
em sus estrutura, em especial, o palácio, centro maior de poder do Egito
e que, no mundo Grego de até então, era um elemento quase desconhecido, visto
que, à exceção, é verdade, da Macedônia, a Grécia era majoritariamente dividida
em Cidades-Estado Democráticas e/ou Oligárquicas, mas não em Monarquias
radicadas em palácios. As muralhas também constituem não só um sinal de Helenização,
mas também um sinal dos tempos: já não era mais possível construir cidades
importantes sem que estas fossem protegidas por muralhas; o mundo estava
muito perigoso e cheio de guerras e invasões estrangeiras.
A característica mais importante da nova capital
do Egito era, no entanto, o fato de ser dividida em bairros, uma espécie
de expropriação do modelo Grego dos Demos, mas de uma forma diferente, pois,
na medida em que haveria um Rei ou governante a quem obedecer, os bairros
não adquiririam a característica essencialmente política que haviam adquirido
nas póleis da Grécia. Havia, ao todo, três bairros que se estendiam por cerca
de trinta quilômetros ao longo de uma extensa avenida situada entre o lago
Mareótis e o Mar Mediterrâneo. O bairro mais oriental era residência de Judeus
e Semitas em geral. Lá viviam os trabalhadores mais qualificados e a baixa
elite. No bairro mais ocidental viviam os Egípcios, estes eram tratados com
certo desprezo e não possuíam quase direito algum junto à corte que governava
a cidade (lembremos que estamos tratando da elite de uma maneira superficial,
pois durante a vida de Alexandre Alexandria esteve em construção e não havia
nenhuma autoridade real governando diretamente o Egito, visto que Alexandre
esteve praticamente todo o tempo em guerra, depois do fim das campanhas,
mas mesmo antes da morte do Monarca Macedônio, como veremos, uma elite se
estabeleceu na cidade e, aí sim as generalizações aqui empregadas passam
a ser relativamente válidas); eram apenas os trabalhadores braçais utilizados
nos serviços mais pesados como a estiva nos portos, o transporte e a mão-de-obra
na construção ininterrupta que a cidade sofreu durante cerca de 50 anos (e
até depois, se considerarmos as grandes obras que Alexandria conheceu). O
bairro central, o mais nobre e, também, o mais seguro era chamado de Bruquíon.
Ele se localizava relativamente próximo ao porto e seu centro se dava exatamente
na intersecção entre as duas grandes avenidas da cidade, exatamente a região
onde ficavam alguns dos mais imponentes palácios e onde foram construídas
“jóias” como a Grande Biblioteca de Alexandria e o Soma, o famoso túmulo
de Alexandre Magno.
Além da divisão em bairros e esquematização
em avenidas (técnica copiada dos próprios Egípcios), Alexandria também possuía
excelente rede de comunicações, grandes mercados que a abasteciam de tudo
o que necessário e vários mirantes espalhados pela cidade inteira e construídos
com a finalidade manter a criminalidade (presumivelmente grande em uma cidade
construída para ser uma capital) sob o controle da vigilância.
12.2 – Ptolomeu I Sóter:
Se Alexandre foi o fundador da nova Dinastia,
por outro lado, nunca chegou a governar o Egito propriamente dito. Seu talento
como conquistador de povos talvez não fosse o mesmo no campo da administração
de Impérios.
Quando o Rei morreu, três homens de sua maior
confiança: Seleuco, Antípater e Ptolomeu dividiram entre si a administração
do Império que ele havia legado. Na verdade, ao menos inicialmente nenhum
dos três era um governante autônomo, visto que o herdeiro de Alexandre (o
único que ele deixara, aliás), seu filho com Roxana, Alexandre IV, ainda
que sendo um bebê que nascera após a morte do pai, vivia.
A situação do Império de Alexandre era confusa,
na prática, Antípater, governante da Grécia-Macedônia, havia tomado o pequeno
Alexandre IV como seu dependente e, uma vez cuidando dele, era uma espécie
de tutor do Império.
Ptolomeu e Seleuco aceitaram ao menos nominalmente
essa situação, no entanto, como Antípater era o mais velho dos três, foi
também o primeiro a morrer e, com sua morte, precipitou-se a desintegração
do Império construído por Alexandre, o Grande.
Antípater havia sido um dos principais generais
de Filipe II, pai de Alexandre e, sendo assim, já era velho quando Alexandre
iniciou sua campanha, justamente por isso, não partiu com ele, mas, ao contrário,
foi escolhido para ficar em Pela governando as regiões já submetidas. Quando
sua figura patriarcal desapareceu, com sua morte, Roxana, a viúva de Alexandre,
passou a temer por sua vida e, sendo assim, partiu para o Épiro, região próxima
à Macedônia, mas que não se havia submetido completamente, visto que a união
dos dois Reinos se havia dado pelo casamento de Olímpia (princesa do Épiro)
com Filipe (Rei da Macedônia). No Épiro, contudo, Olímpia, Roxana e Alexandre
IV foram capturados por Poliperconte e conduzidos à Macedônia. Ali chegando,
caíram nas mãos de Cassandro, o novo Rei da Macedônia, homem que queria legitimar
sua autoridade através da eliminação do passado e da figura de Alexandre,
sendo assim, Roxana e seu filho foram executados.
A morte de Alexandre IV, em 306, com dezessete
anos, pôs fim a uma estrutura que só sobrevivia nominalmente após a morte
de Alexandre III, o Grande. Sendo assim, a Ásia se tornou um Reino independente,
a Macedônia se dividiu, perdendo a Grécia, a Trácia e o Épiro e o Egito se
tornou novamente a terra dos Faraós.
12.2.1 – Um Novo Faraó para o Egito:
Depois que Alexandre parara sua expansão e se
estabelecera na Babilônia, Ptolomeu, o mais velho dentre seus companheiros,
fora mandado ao Egito como Sátrapa do Rei. Por quase vinte anos, Ptolomeu
terminou a construção de Alexandria e organizou as finanças da região, destruídas
pelas guerras internas que havia assolado o país nos últimos anos do domínio
Persa.
É verdade que os Persas haviam instalado diversas
melhorias dentro do Egito, como um sistema de comunicações eficiente e os
próprios camelos, aliás, a ênfase Persa na melhoria das redes de comunicação
e mesmo nos sistemas de transporte das regiões que conquistavam foi fator
determinante na facilitação da conquista de Alexandre, visto que os exércitos
(que também podiam se guiar pelos relatos de Xenofonte que havia comandado
um grupo de mercenários Gregos dentro do Império Persa há pouco mais de
um século) Macedônicos não precisaram enfrentar grandes dificuldades geográficas
para atingirem seus destinos, uma vez que podiam contar com estradas Persa
que os guiavam até eles em segurança; mesmo assim, golpes sucessivos como
os perpetrados pela XXVIII, XXIX e XXX Dinastias acabaram enfraquecendo a
economia Egípcia.
Ptolomeu, que era dez anos mais velho do que
Alexandre, sempre se destacara no campo administrativo, sendo que a guerra,
em si, nunca fora seu forte. Sendo assim, nos anos em que administrou o
Egito como uma Satrapia do Império de Alexandre, conseguiu consolidar novamente
a nação como uma grande força econômica e mesmo militar do contexto de sua
época.
Com 60, ou talvez 62 anos de idade, Ptolomeu,
vendo que não havia mais quaisquer chances do Império se manter coeso, declarou
a independência do Egito e se fez coroar Faraó, com o título de Ptolomeu
I Sóter (ou seja, Salvador). Não se pode precisar se Ptolomeu se fez coroar
Faraó em 306 ou 304, mas realmente essa data não é muito importante.
Tão logo se viu livre dos grilhões que o prendiam
ao antigo Império de Alexandre, Ptolomeu I, sabendo que seus exércitos eram
os mais poderosos dentre todos os exércitos Helenísticos, iniciou a expansão
do Egito. Com efeito, o primeiro dos Ptolomeus, fundador da XXXI Dinastia
(é interessante que alguns Egiptólogos referem-se à Dinastia Ptolomaica (ou
Ptolemaica) como sendo a XXXII Dinastia, visto que consideram que a reconquista
do Egito pelos Persas (coisa que parece nunca ter acontecido, pois, como
vimos, os Persas nunca chegaram a perder o Egito e as XXVIII, XXIX e XXX
Dinastias teriam sido apenas Dinastias rebeldes que contestaram o poder dos
Persas) iniciaria a XXXI Dinastia e, sendo assim, a tomada do Egito por Alexandre
dá início à XXXII Dinastia), realizou no final do século IV uma expansão
Egípcia quase tão notável quanto aquela realizada por Tutmés III pouco mais
de 1000 anos antes.
Ptolomeu I conquistou Cirene (principal cidade
da Cirenaica, a região mais oriental da Líbia), o sul da Síria, a ilha de
Chipre, algumas ilhas Gregas do Mar Egeu e chegou a desembarcar tropas na
própria Grécia continental. Ptolomeu I, dentre todos os Monarcas Helenísticos
que surgiram imediatamente após a morte de Alexandre Magno foi aquele que
fez sua influência ser sentida com mais peso no panorama do Mediterrâneo
Oriental; mesmo em certas regiões do Mar Negro alguns de seus navios chegaram
a excursionar.
12.2.2 – As Reformas Sociais de Ptolomeu
I Sóter:
Ptolomeu I Sóter, pode ser observado por vários
aspectos. Se levarmos em conta que ele fez de tudo para impor sua imagem
ao Egito da mesma forma que Alexandre havia feito para impor a sua a seu
Império, podemos pensar que se tratava de um plagiador com aspirações megalomaníacas.
Se, por outro lado, percebermos que o Faraó
fez de tudo para promover uma nova cultura Egípcia que levasse em consideração
tanto o caráter cultural dos dominadores Gregos quanto o dos dominados Egípcios,
podemos nos lembrar de que se tratava de um homem que, a exemplo de Alexandre,
havia sido educado por Aristóteles e, sendo assim, um depositário do que
havia de melhor no pensamento Grego Clássico.
Quando se tornou Faraó, ao mesmo tempo em que
organizou sua expansão, Ptolomeu nunca se esqueceu de atrair cérebros para
Alexandria. Estava convencido de que somente através da concentração do saber
é que uma civilização pode, de verdade, se tornar grandiosa, por isso, se
esforçou para atrair a Alexandria toda a sorte de filósofos, matemáticos,
astrônomos, arquitetos, gramáticos...
A História não era algo muito valorizado no
governo de Ptolomeu, pelo menos não no sentido em que Heródoto havia definido,
sendo assim, Historiadores estrangeiros não tiveram muito lugar na Alexandria
de Ptolomeu I Sóter. Entretanto, um sacerdote de Osíris chamado Mâneton conseguiu
se destacar nessa área (se bem que não tenha sido esse o seu destaque principal,
como veremos) sendo convocado pelo Faraó a compor a História do Egito, bem
como a lista de todos os seus governantes.
Mâneton de Sebenito foi educado na cidade de
Mendes, no Delta, mas foi em Heliópolis (não no Clero de Ra, mas no de Osíris)
que ele adquiriu prestígio, visto que ingressou no Clero de Osíris e lá cresceu
até se tornar um Alto Sacerdote. Sendo o único Egípcio a integrar o séqüito
mais próximo de Ptolomeu I, Mâneton escreveu a Egipicíaca (obra em que contava
toda a História do Egito desde a unificação até o governo de Ptolomeu I,
mas que hoje se encontra perdida, sendo que dela só sabemos algumas coisas
devido à obra “Contra Apião” de Josefo, cronista Judeu Romanizado que fez
uso da Egipcíaca de Mâneton para associar os Hicsos aos Hebreus e provar
a antiguidade do povo Hebreu, bem como para demonstrar que eles não descendiam
dos Egípcios, como sugeriam alguns), obra que se insere perfeitamente no
contexto da Antiguidade, quando homens como Tito Lívio, por exemplo, dedicavam
suas vidas a compor a História de seus países desde sua fundação até a vida
do autor. Contudo, se a Egipcíaca não nos chegou, por outro lado, as listas
de Reis que Mâneton também compusera nos chegaram e, dessa maneira, hoje
podemos saber os nomes (senão de todos, visto que Akhenaton, Tutankhamon,
Aye e Smenkhare, por exemplo, não constam dessas listas, da maioria) dos
Faraós que governaram o Egito.
As listas de Reis e a Egipcíaca foram, com certeza,
muito apreciadas por Ptolomeu I, porém, pra o Monarca, o maior feito de Mâneton
não foi nenhum destes, mas sim, a criação de Serápis, a Divindade padroeira
de Alexandria, criada para suprir as exigências de Gregos e Egípcios e, em
si, ratificar a unidade nacional sob a nova Dinastia.
Serápis não foi criado à partir do nada, na
verdade, Mâneton, ao cria-lo, inspirou-se no Deus de quem era sacerdote,
ou seja, Osíris e no culto mais forte do Egito de então, ou seja o culto
ao Boi Ápis. Como pouco antes da criação de Serápis, Ptolomeu se havia feito
divinizar como sendo uma encarnação de Dionísio (o que reforça as teorias
de que o séqüito mais próximo de Alexandre, entre eles, sua mãe e até seus
amigos, fossem adeptos das orgias Dionisíacas, vistas na Grécia com maus
olhos por aquela época), tudo o que Mâneton fez foi fundir os cultos de Ápis
e Osíris (que já eram co-relacionados, visto que Ápis, após a morte, se tornava
Osíris em Amentet) ao culto a Dionísio e, dessa maneira, criar Serápis que
era retratado com as feições de Zeus.
Realmente, Ptolomeu I pensara em todos os requisitos
necessários para se construir um grande nome. Um dos primeiros atos de seu
governo, atitude que resume muito bem sua idéia de construção da própria
imagem através da legitimação do poder, foi a ordem que deu para que se buscasse
na Babilônia o corpo de Alexandre. O cadáver (morto há quase vinte anos)
foi trazido num luxuoso carro e, ao chegar ao Egito, depois de ser enviado
para desfilar por todo o Egito, foi levado a Alexandria onde foi sepultado
definitivamente num suntuoso mausoléu erigido ao lado do palácio Real, exatamente
no centro da cidade, onde as duas avenidas se cruzavam. Este túmulo ficou
conhecido como Soma e se tornou um dos maiores pontos turísticos do mundo
Greco-Romano.
Todo o incentivo cultural de Ptolomeu I Sóter
e toda a atração de cérebros que ele promoveu a Alexandria acabou culminado
na fundação do maior centro de saber da Antiguidade: a Biblioteca e o Museu
de Alexandria.
12.3 – A Grande Biblioteca:
A Grande Biblioteca de Alexandria é um edifício
que povoa a imaginação de milhões de pessoas em todo o mundo. Os Historiadores,
Filósofos e pesquisadores em geral, imaginam qual o tamanho de seu acervo
e especulam sobre o conteúdo de saber que, com seu fim, se viu perdido para
todo o sempre. Os adeptos do ocultismo, por outro lado, vivem a se referir
a textos e/ou fragmentos de texto arcanos que teriam sido encontrados ou
que seriam remanescentes da Grande Biblioteca. Na verdade, não se pode precisar
com era o tamanho do acervo da Biblioteca de Alexandria, o que se pode dizer,
com certeza são apenas quatro coisas: era muito maior do que a biblioteca
que foi construída recentemente com o intuito de recria-la; não tinha todo
o seu acervo contido num único edifício, mas, ao que se sabe, em três, sendo
dois contíguos e um terceiro, chamado de Biblioteca Filha, bem distante;
dispôs de algumas das mentes mais brilhantes do período final da Antiguidade
não-Cristã; e finalmente, tinha contíguo a si (ao menos no que se refere
aos dois edifícios componentes da Biblioteca Mãe) um grande Santuário às
Musas, chamado de Museu. Praticamente tudo o que se disser sobre o acervo
ou mesmo sobre a localização exata da Biblioteca será uma mera especulação.
Por volta de 291, quando Ptolomeu I já governava
há cerca de 15 anos como Faraó, a Biblioteca ficou pronta. Ptolomeu I Sóter
fez de tudo para embeleza-la e torna-la o mais completa possível: comprou
livros e pergaminhos de todas as partes e, segundo consta, conseguiu se mandasse
trazer da Grécia toda (ou ao menos a maior parte) a biblioteca de Aristóteles.
Ao que parece, o Faraó estava interessado em
compilar todo o saber do mundo, sendo assim, mantinha na Biblioteca todo
um grupo de copistas e tradutores a fim de traduzir para o Grego os papiros,
rolos e livros trazidos de todas as partes para Alexandria.
A História da Biblioteca de Alexandria se confunde
com a do Egito por praticamente todo o seu tempo de existência sendo que
pôde registrar o crescimento de Alexandria e a superação de Atenas pela cidade
como sendo o maior pólo de saber do mundo Mediterrâneo. A Biblioteca sentiu
os reflexos dos governos frágeis de Faraós despóticos que possuíam a ilusão
de grandeza proporcionada pelo governo de Egito e que não se davam conta
do iminente poder de Roma que se consolidava cada vez mais no Mediterrâneo
Ocidental após as Guerras Púnicas. Alexandria e sua Biblioteca puderam perceber
o desgaste de um mundo que havia sido superado, do mundo do Mediterrâneo
Oriental, mundo do qual o Egito Ptolomaico foi o último bastião e cuja queda
perante Roma simbolizou o fim do mundo que hoje estudamos como sendo a Antiguidade
Oriental, mas que, talvez, tenha sido, realmente o Mundo Antigo, sendo o
outro que o conquistara, o Mundo Romano, uma outra realidade que, ao se inserir
como potência vitoriosa, ditou os rumos da humanidade dali em diante, transferindo
o foco da História do Mediterrâneo Oriental, que se tornaria um eterno adendo,
para o Mediterrâneo Ocidental e, mais tarde, para a Europa Ocidental. Era
vitória de um mundo que foi coroado com o Cristianismo e cuja sobreposição
final sobre o Mundo Antigo viria a se dar justamente quando, em 415, o Patriarca
de Alexandria, o Bispo Cirilo (que viria a ser São Cirilo, talvez o Santo
mais reverenciado pelo famoso Papa Pio XII, o Papa de Hitler), incitou seus
fiéis a destruir a Biblioteca Filha, a última parte da Grande Biblioteca
que ainda restava.
Os Cristãos exaltados, bradando contra os Deuses
antigos (a Biblioteca Filha se localizava nas dependências do Serapeum, o
Templo de Serápis, no bairro Egípcio de Alexandria) e contra os antigos blasfemadores
(como Platão e outros), invadiram a Biblioteca Filha e, depois de destruírem
tudo o que encontravam pela frente (e estou me referindo a obras que, depois
de tal ação, foram completamente perdidas, talvez e, possivelmente, a Egipcíaca
de Mâneton, entre outras), puseram fogo nos entulhos e no próprio edifício.
É verdade que muitas obras foram salvas porque
os Egípcios não-Cristãos que trabalhavam na Biblioteca, prevendo a catástrofe
iminente, esconderam em suas casas e em outros lugares tudo o que puderam
carregar, mas o grosso das obras (ou mesmo aquelas que talvez não interessassem
tanto àqueles indivíduos por suas próprias motivações pessoais, mas que nos
seriam de igual, ou até maior, importância) foi perdido.
Esta não foi a única catástrofe a se abater
sobre a Grande Biblioteca, na verdade, mesmo ainda no tempo dos Ptolomeus,
dependendo do humor do Faraó (e apenas os três primeiros e Cleópatra parecem
ter sido extremamente preocupados com a Biblioteca), a Biblioteca e seus
pesquisadores poderiam vir a sofrer os mais variados tipos de perseguições.
Com efeito, apenas Ptolomeu I Sóter, Ptolomeu II Filadefo e Ptolomeu III
Evergeta se preocuparam em engrandecer aquele centro de pesquisas e saber;
os demais, se não o dilapidassem, também não o ampliavam. Apenas Cleópatra,
às custas de Marco Antônio, fez novas adições ao acervo, porém, tais adições
não se comparavam às perdas acarretadas pela batalha que Júlio César fora
obrigado a travar em Alexandria contra o irmão de Cleópatra: Ptolomeu XIV
Novo Dionísio (se bem que haja muita controvérsia entre as fontes consultadas
a respeito de quem teria sido realmente o irmão de Cleópatra, visto que algumas
fontes afirmam ter sido Ptolomeu XII, outras, Ptolomeu XIII e outras Ptolomeu
XIV; neste texto, optei pela cronologia Ptolomaica oferecida pela Enciclopédia
Delta Larousse, visto que, dentre as obras consultadas, é a única que trás
uma lista completa de todos os Ptolomeus, inclusive com uma pequena descrição
de seus respectivos governos, entretanto, outra fonte muito fidedigna, a
Cambridge Ancient History, atribui a Ptolomeu XIII a presença nos famosos
episódios de Cleópatra, assim como também o fazem diversas outras fontes
(possivelmente baseadas na Cambridge Ancient History); portanto, apesar
da obrigatoriedade da opção por um nome, deixo a cargo do leitor a decisão
de em quem confiar).
12.4 – O Farol de Alexandria:
Os faróis são uma criação legitimamente Egípcia,
existiam desde os tempos do Médio Império (ou talvez até antes) e eram utilizados
por Sacerdotes para enviar mensagens e para adorar os Deuses. Não havia qualquer
função sinalizadora para os faróis e todos, sem exceção se situavam em terra
firme.
Seu tamanho não era muito grande, contavam alguns
metros apenas. Os mais altos podiam atingir cerca de cinco metros, como um
pequeno obelisco com a ponta iluminada por um sistema que hoje nos é desconhecido.
Com a chegada dos Gregos, a tecnologia Egípcia
para a construção de faróis (que, como veremos, não eram chamados assim)
foi tomada como sendo um belo modelo para a construção de um objeto perfeito
para a sinalização naval, sendo assim, o filho de Ptolomeu I Sóter, Ptolomeu
II Filadelfo, ordenou a construção de um grande farol na ilha de Faros, exatamente
na costa de Alexandria.
As correntes marítimas de Alexandria faziam
a navegação para aquela região uma aventura perigosa, sendo assim, dando
continuidade ao plano de Alexandre de transformar Alexandria no maior porto
do Mediterrâneo, Ptolomeu II Filadelfo realizou a construção do mais improvável
edifício do Egito desde as Pirâmides de Gizé: o Farol da ilha de Faros.
Todos nós já ouvimos falar das Sete Maravilhas
do Mundo, porém, poucos são os que sabem listar as sete, por isso, vamos
lá, em ordem cronológica de sua construção elas são:
1 – As Pirâmides de Gizé, no Egito, construídas
por volta de 2575.
2 – Os Jardins Suspensos de Semíramis, na Babilônia,
construídos por volta de 800.
3 – A Estátua de Zeus em Atenas, construída
por volta de 450.
4 – O Túmulo do Rei Mausolo, em Halicarnasso,
na Jônia, que, por sua grandiosidade, acabou passando a designar túmulos
suntuosos que passaram a ser denominados mausoléus.
5 – O Colosso de Hélio, na ilha de Rodes, construído
por volta de 300.
6 – O Templo de Ártemis, em Éfeso, também na
Jônia, construído por volta do século VI, mas que, como foi reconstruído
diversas vezes, acabou tendo sua grandiosidade atribuída à sua última reconstrução,
que data de algo em torno de 285.
7 – O Farol da ilha de Faro, em Alexandria,
concluído em 279, quatro anos após a morte de Ptolomeu I Sóter, por seu filho.
Este Farol ficou tão famoso que passou a dar nome a todos os demais que vieram
a ser construídos depois, visto que Farol era apenas uma desinência relativa
à torre de iluminação naval construída na ilha de Faros, por isso, Farol.
O Farol de Alexandria foi o primeiro edifício
da História a merecer o título de arranha-céu. Infelizmente, a degradação
do tempo agravada por terremotos que são relativamente constantes na costa
do Mediterrâneo Oriental (além de particularmente intensos, haja vista os
recentes acontecimentos da Turquia), acabaram por destruir o Farol que, segundo
relatos atingia uma altura superior a 150m; para alguns, se somada a altura
da estátua de Poseidon (o Deus dos mares dos Gregos que, entre os Romanos
também era chamado de Netuno) que o encimava, a construção chegava a medir
cerca de 180m. O equivalente a um prédio de cerca de 45 andares, algo realmente
impressionante para as capacidades tecnológicas da Antiguidade.
Outro enigma que nos resta hoje refere-se ao
funcionamento do aparato gerador da luminosidade do Farol em si. O que se
acredita é que o Farol funcionasse a partir de um sistema de espelhos giratórios
capazes de refletir a luminosidade de uma fonte de luz (possivelmente uma
tocha gigante) a distâncias colossais. Outras teorias afirmam que durante
o dia a luminosidade do sol era refletida pelos espelhos do Farol e, durante
a noite, os mesmos espelhos refletiriam a luz da tal tocha gigante.
Até aqui, tudo bem, no entanto, há dois enigmas
insolúveis (ao menos até que as expedições de Arqueologia marítima (como
a que se realiza desde 1995 ao redor da ilha de Faros, comandada por Jean-Yves
Empereur) sejam capazes de encontrar a cabeça do Farol que teria se desprendido
e caído no mar por volta do ano 700):
1 – Se havia uma tocha gigante esta, certamente
demandaria um grande consumo de combustível, no entanto, como a lanterna
ficava a mais de 100m de altura, era pouco provável que homens subissem e
descessem a torre 24 horas por dia para manter a tocha funcionando continuamente.
Dessa maneira, ou os Gregos de Alexandria desenvolveram algum tipo de elevador
(o que é plenamente possível, visto que um bom elevador só precisa de uma
ou duas plataformas movidas por correias), o que pode nos levar a perguntar
se a tecnologia Alexandrina era capaz de construir um elevador forte o suficiente
para transportar grandes pesos de combustível; ou desenvolveram uma espécie
de bomba de combustível, uma revolução sem precedentes, pois implicaria na
construção de algum tipo de motor pelo menos 2000 anos antes da Revolução
Industrial (se bem que, segundo o Dr. Norberto Guarinello, professor de História
Antiga da USP, os Gregos de Alexandria chegaram a inventar uma espécie de
robô que se movia através da força do vapor (o autômato era capaz apenas
de andar sozinho, mas já constituía algo sem precedentes por si só) entretanto,
segundo o Dr. Guarinello, esta tecnologia só não foi empregada amplamente
por não haver uma demanda para ela, visto que o professor considera que a
humanidade só se esforça em inventar aquilo que considera útil ou vendável,
por isso o boom de invenções na era do Capitalismo Comercial).
2 – Se o mecanismo de abastecimento da fonte
luminosa já é por si só um problema difícil de se resolver, pensemos agora
no mecanismo de irradiação da luz do farol, visto que, segundo se sabe, no
século III a.C. não se conhecia o uso dos espelhos côncavos e convexos. É
possível, contudo, que os estudiosos da Grande Biblioteca tivessem criado
um sistema de espelhos planos capazes de simular o efeito de um espelho côncavo.
Esse sistema, no entanto, se fosse encontrado, poderia revelar alguns dos
conhecimentos perdidos com a Grande Biblioteca e seus adendos. Realmente
é interessante de se imaginar uma sala recoberta de espelhos, capaz de girar
em 360º e de irradiar a iluminação de uma fonte pontual (como uma tocha
gigante) a distâncias enormes, num contexto de um mundo 300 anos anterior
a Cristo.
Até o ano de 700 d.C., o Farol de Alexandria
funcionou fazendo da cidade um porto seguro para navios de todas as regiões
do Mediterrâneo, porém, por volta desse ano, por algum motivo, possivelmente
um terremoto, a lanterna do Farol se soltou e caiu no mar. Quatrocentos anos
mais tarde, em 1100 d.C., um terremoto (sobre esse terremoto há registros)
destruiu a torre inteira, lançando-a ao mar; restou apenas a base quadrada
do Farol, base que media algo em torno de oito metros de altura. Essa base
perdurou na ilha de Faro até o século XIV, quando foi destruída por mais
um terremoto, mas como não era muito alta, seus escombros não caíram ao mar,
ficando entulhados na própria ilha, sendo assim, oitenta anos mais tarde,
Qait Bey, governante de Alexandria, ordenou que, com os restos da base do
Farol, se construísse um forte para proteger a cidade. Assim foi feito e
tal forte, batizado com o nome do governante, existe até hoje (sendo, no
entanto, apenas uma relíquia de um passado distante, visto que depois de
1882, quando Alexandria foi invadida pela Inglaterra, o forte foi desativado),
marcando o lugar onde se encontrava o Farol de Alexandria.
Os enigmas do Farol de Alexandria não são nem
de longe os maiores enigmas da civilização Egípcia, mas a própria existência
do Farol, bem como a da Grande Biblioteca, servem para se ter uma idéia da
grandiosidade do último período independente do Egito, afinal, se por um
lado o Egito não era governado por sua população nativa, por outro, pelo
menos, possuía um Faraó que vivia em seu próprio território e cujas preocupações
centrais eram com o próprio Egito.
12.5 – Os Ptolomeus e seus Costumes Inusitados:
Após a morte de Ptolomeu I Sóter, em 283, com
oitenta e três anos, após ter Reinado por mais de vinte anos, seu filho,
Ptolomeu II Filadelfo, assumiu o trono. Como já mencionei, Ptolomeu II foi
o responsável pela construção do Farol de Alexandria, além disso, manteve
o poderio Egípcio que seu pai construíra. Sob seu governo, uma embaixada
foi enviada à Índia onde estabeleceu relações com o Rei Asoka. Segundo Derek
Adie Flower, sob Ptolomeu II, Alexandria se tornou uma cidade tão cosmopolita
que era possível ver monges Budistas e mulheres Indianas desfilando pelas
ruas com vacas sagradas (é, no entanto questionável que seja realmente uma
verdade essa afirmação, afinal, deve-se levar em consideração que Derek Adie
Flower é um cidadão de Alexandria e que seu livro “A Biblioteca de Alexandria”
é, nada mais, do que uma grande propaganda de sua cidade natal, sendo assim,
é provável que ele tenha “plutarquizado” (para usar um jargão Histórico inusitado
acerca de outro autor já mencionado) muitas das informações a respeito de
Alexandria no sentido de torna-la ainda mais grandiosa).
No entanto, a fama de Ptolomeu II e, inclusive
seu título, Filadelfo, se deve a um aspecto mais pessoal de seu governo.
Ptolomeu II não era filho legítimo de Ptolomeu I Sóter, mas de uma esposa
secundária (visto que aquele Monarca, seguindo o costume Egípcio de que o
Faraó poderia ter diversas esposas, casou-se duas vezes: com Eurídice (irmã
de Cassandro que agora Reinava na Macedônia), de quem teve um filho chamado
Ptolomeu Cerenau, e com Berenice, uma viúva de Cirene, que foi mãe de Ptolomeu
Filadelfo) sendo assim, pelo fato de Ptolomeu I ter designado seu filho
secundário como seu herdeiro, este, a fim de se legitimar no trono, casou-se
com Arsinoé II, sua irmã por parte de pai e mãe; daí Filadelfo: amante da
irmã.
O costume dos casamentos consangüíneos era repudiado
entre os Gregos e mesmo entre os Egípcios, já não era praticado há vários
séculos, praticamente desde o final do Novo Império.
O governo de Ptolomeu II Filadelfo, entretanto,
foi o mais glorioso dentre todos os governos Ptolomaicos. É certo que do
ponto de vista militar ele não realizou grandes expedições nos 37 anos em
que governou, mas do ponto de vista social e político, o Faraó incentivou
as artes e comprou para a Grande Biblioteca muito mais livros do que seu
pai havia comprado (é verdade que alguns atribuem a paixão de Ptolomeu II
pelos livros a sua irmã Arsinoé II, no entanto, não se pode precisar se isso
confere), além de ter estabelecido embaixadas em várias regiões distantes,
o que implicava em relações comerciais e, é claro, em um maior afluxo de
riquezas e cérebros para o Egito, em especial, para Alexandria.
Quando Ptolomeu II morreu, em 246, com 63 anos,
seu filho, Ptolomeu III Evergeta (benfeitor), assumiu o trono. Com efeito,
ele foi o último dos grandes Ptolomeus, seu Reinado assinala o apogeu militar
do Período Ptolomaico e, também o fim de sua glória. Ao se casar com Berenice
de Cirene, filha do Rei de Cirene, acrescentou toda a Cirenaica (lembrando-se
que seu avô havia conquistado apenas a cidade de Cirene no passado) ao Egito,
além disso, adotou uma política expansionista semelhante à dos grandes Faraós
do passado, sendo assim, pôs-se a guerrear na Ásia o que deu ao Egito um
Império Asiático semelhante ao de Tutmés III, ou seja, Ptolomeu III Evergeta
conquistou a Síria e boa parte da Mesopotâmia chegando mesmo às portas da
Babilônia. Com efeito, a Ásia Seleucida estava a seus pés e ele chegara muito
perto de estar apto a repetir o feito de Alexandre Magno e unificar todo
o antigo Império Persa Aquemênida sob o poder de um Monarca de origem Grega
(se bem que os Ptolomeus fossem Gregos nascidos no Egito). Em seu governo
vários códices raros e livros de lugares distantes foram engrossar o acervo
da Grande Biblioteca.
Ptolomeu III morreu em 221, com 59 anos, após
governar 25 anos.
12.5.1 – A Decadência Alexandrina:
Não foi por acaso que Ptolomeu II Filadelfo
realizou um governo de calmaria militar, visto que governou entre os anos
de 283 e 246, período que englobou quase que a totalidade da Primeira Guerra
Púnica (264 – 241), onde o poderio de Roma começou a se destacar no cenário
Mediterrâneo ao derrotar Cartago, até então a grande potência do Mediterrâneo
Ocidental, em contraposição ao Egito, a grande potência do Mediterrâneo Oriental.
Ptolomeu III Evergeta pôde se dedicar às campanha
militares pois, apenas os primeiros anos de seu governo conheceram a instabilidade
de uma guerra Mediterrânea que, se não afetava o Egito diretamente, certamente
influenciava-lhe em diversos aspectos, como, por exemplo o comercial, talvez
até mesmo por isso o pai desse Faraó tenha se empenhado em estabelecer novas
fronteiras comerciais e diplomáticas.
Três anos após a morte de Ptolomeu III Evergeta,
o grande conquistador do Oriente, Cartago e Roma iniciam um novo conflito:
a Segunda Guerra Púnica (218 – 201). Este, muito mais encarniçado do que
o primeiro, mobilizou diversas potências do mundo Mediterrâneo Oriental,
como o Épiro e a Macedônia. Nesse contexto de instabilidade o Egito conheceu
um Faraó ausente. Ptolomeu IV Filopátor (amante do pai, talvez e, possivelmente,
apenas por admiração, sem qualquer conotação homossexual) escolheu não governar,
entregando o governo a uma espécie de Tjati: Sosíbio, homem de sua confiança.
Durante seu governo, que durou 18 anos (221
– 203), os Seleucidas, liderados por Antíoco III, o Grande, reagiram às derrotas
que lhe haviam sido impostas por Ptolomeu III Evergeta e, sendo assim, atacaram
o Egito. A derrota iminente só foi contornada porque Sosíbio teve astúcia
suficiente para perceber que se apenas os Gregos lutassem (como estava instituído
desde os tempos de Ptolomeu I Sóter, com a finalidade de prevenir os Egípcios
de terem acesso às armas) a batalha seria perdida, sendo assim, em 217,
ele autorizou o alistamento de Egípcios no exército e, com esse reforço,
foi capaz de derrotar os Seleucidas na batalha de Ráfia. Se o Egito continuava
independente, seu Império Asiático se mostrava ameaçado e o faraó, ao invés
de tomar alguma atitude concreta, vivia num mundo à parte, enfurnado em seu
palácio e cercado de mulheres (um dos feitos de Ptolomeu IV Filopátor foi
a recriação do harém Faraônico) e bebida ele não tomava parte na política
nacional.
Ptolomeu IV morreu em 203, com 41 anos e, em
seu lugar, assumiu Ptolomeu V Epifânio (a manifestação Divina), seu filho
com Arsinoé III, sua irmã de pai e mãe. O Reinado desse Faraó se deu num
período de grandes transformações no cenário Mediterrâneo. Em seu segundo
ano de governo, Roma terminaria de impor a derrota definitiva a Cartago na
Segunda Guerra Púnica, sendo assim, como conseqüência, obteria um grande
Império no Mediterrâneo Ocidental. O governo de Ptolomeu V foi ainda grande
o suficiente para testemunhar a submissão do Épiro e da Macedônia aos domínios
Romanos, visto que a nova potência desejava punir aqueles que haviam se alinhado
com Cartago no conflito recém-concluído.
A Ásia Seleucida, que não havia desistido de
tentar se recompor, fez novas investidas contra os domínios Egípcios e, desta
vez, o Faraó não foi capaz de impedir a perda de seu Império Asiático. Era
o início do eclipse do Mundo Helenístico que se iniciava.
Ptolomeu V Epifânio, morreu com 29 anos, em
181, depois de governar por 22 anos, ou seja, era apenas uma criança de 7
anos quando teve que assumir as funções de Faraó, um dos principais motivos
para o ataque Seleucida e para os desastres de seu governo, marcado para
sempre pelo registro de sua Divinização gravado na Pedra de Roseta, o primeiro
texto Egípcio a ser traduzido na Idade Contemporânea. Seu sucessor foi Ptolomeu
VI Filométor (amante da mãe, talvez, também sem conotação sexual, apenas
de admiração), seu filho de apenas 5 anos.
Certamente as mortes prematuras dos Faraós estavam
obrigando seus filhos a assumirem o trono com cada vez menos idade e isso,
ao enfraquecer a figura do governante, fortalecia os inimigos do Egito. Durante
o governo de Ptolomeu VI, Antíoco IV Epifânio (filho de Antíoco III, o Grande)
atacou o Egito aproveitando os sucessos de seu pai que conseguira retomar
as províncias Asiáticas. As tropas Seleucidas tomaram o Delta e cercaram
as muralhas de Alexandria, o que obrigou o Faraó a recorrer a Roma.
O Cônsul Caio Popilo Lena socorreu o jovem Faraó,
no entanto, como condição para a ajuda, o Cônsul teria desenhado um círculo
no chão ao redor do Faraó e só teria permitido que ele saísse de dentro do
círculo se aceitasse as imposições de Roma, na prática, à partir daquele
momento o Egito se tornara um Protetorado Romano, ou seja, retinha sua independência,
mas estava sujeita à vontade de Roma sendo que, em troca, receberia ajuda
militar contra seus inimigos.
As tropas Romanas eram de fato as melhores do
mundo Antigo e, sendo assim, conseguiram expulsar Antíoco IV Epifânio do
Egito e recuperar o que havia sido perdido. Porém, todo o Império internacional
que Ptolomeu I Sóter e Ptolomeu III Evergeta haviam conquistado havia sido
reduzido a zero (restando apenas Chipre para o Egito). Os Ptolomeus passavam
a depender de Roma e ficavam restritos ao governo do próprio Egito.
Como se não bastassem todas as atribulações
do governo de Ptolomeu VI Filométor, ele, em seus 36 anos de governo, viveu
para ver a Grécia se tornar uma província Romana e teve que disputar o trono
com seu irmão Ptolomeu VII Evergeta II que, entre 181 e 166 (ano em que morreu)
aplicou vários golpes de Estado no Faraó chegando a governar por vários anos
no total, além de ter tomado para si a Cirenaica por um certo período.
Essa alternância de poder, somada ao início
da dependência em relação a Roma, fez com que o mais poderoso dentre os
Reinos Helenísticos passasse a ser apenas uma sombra do que um dia fora.
Ptolomeu VI Filométor morreu em 145, com 41
anos, sendo sucedido por seu filho Ptolomeu VIII Eupátor (o bem nascido),
que chegou a governar como co-regente do pai, numa prática antiga que remontava
ao Médio Império, no Reinado de Senuosret I, no Médio Império.
O governo de Ptolomeu VIII é um dos últimos
que merece alguma menção, pois este Faraó foi o primeiro a desenvolver uma
política ostensiva de perseguições contra os sábios e estudiosos da Grande
Biblioteca. Ao que parece, o caráter semelhante ao de uma Universidade contemporânea
que a Grande Biblioteca adquirira devia irritar o Faraó, o fato é que ele
condenou vários estudiosos a morte, o que provocou um efeito inverso daquele
ocorrido nos governos dos três primeiros Ptolomeus, ou seja, ocorreu uma
grande fuga de cérebros, a maioria, em direção a Roma que, nesta época, já
começava a tomar de Alexandria o título de cidade mais cosmopolita do Mediterrâneo.
Depois de Ptolomeu VIII, os únicos governantes
que merecem algum destaque antes dos episódios que envolveram Cleópatra,
são Cleópatra III, mulher de Ptolomeu VII, que expulsou o filho, Ptolomeu
IX Sóter II (se bem que sobre esse episódio também haja controvérsia, uma
vez que Luciano Canfora nos diz que quem teria sido expulso do Egito por
sua mãe, sendo obrigado a habitar no Chipre teria sido Ptolomeu XII (que
ele chama de Novo Dionísio, ao contrário da Delta Larousse que chama o Monarca
de Alexandre III), no entanto, uma hipótese que terminaria com várias das
confusões é a de que talvez Ptolomeu IX e Ptolomeu XII teriam sido a mesma
pessoa, visto que o dito Monarca exilado passou cerca de vinte anos fora
do Egito (tempo em que habitou tanto Chipre, quanto Roma), período durante
o qual teriam governado Ptolomeu X Alexandre I e Ptolomeu XI Alexandre II
(o que tem coerência, se pensarmos que os governos de Ptolomeu X e XI devem
ter ocorrido antes do governo do Ptolomeu XII que, no entanto teria sido
expulso do Egito por sua mãe antes que seus irmãos subissem ao trono, sendo
assim, depois de seus governos e de ter sido reempossado pode ter assumido
o título de Ptolomeu XII) para o Chipre, onde foi obrigado a viver exilado
até a morte da mãe, quando retornou ao Egito e foi reempossado; e Ptolomeu
X Alexandre I, que apesar de ter governado apoiado pela mãe, cometeu o erro
fatal de saquear Soma, o túmulo de Alexandre, o Grande.
Além de ter sido considerado Divino pelo oráculo
de Zeus-Amon, Alexandre também foi Divinizado por Ptolomeu I Sóter quando
seu esquife desfilou pelo Egito antes de ser instalado no Soma. Alexandre
era reverenciado tanto por Gregos quanto por Egípcios como sendo o libertador
do Egito, o fundador de Alexandria e um verdadeiro Deus que havia pisado
na Terra, sendo assim, o saque de sua tumba levantou a população contra o
Faraó e fez com que ele terminasse expulso do Egito, panorama que proporcionou
a Ptolomeu IX Sóter II, com o apoio do Senado Romano, retornar do Chipre
e reassumir o trono, massacrando Ptolomeu XI Alexandre II.
Contudo, Ptolomeu IX só pôde ser reempossado
(e já falamos sobre a controvérsia a respeito de quem teria sido o Monarca
reempossado, mas por coerência, optei mais uma vez pela cronologia da Delta
Larousse) por ter concordado em validar um documento que Ptolomeu XI Alexandre
II havia assinado para com Roma. Segundo este documento, Roma teria o direito
de governar tanto o Chipre quanto o próprio Egito, esta, no entanto, havia
se contentado com Chipre tendo, para o Egito, apenas nomeado um Ministro
das Finanças Romano (chamado de dioiketes) de modo a garantir que o Egito ficasse dependente
da administração indireta de Roma. Era praticamente o fim da autonomia política
da Terra dos Faraós.
12.6 – Cleópatra:
Talvez a mulher mais famosa da Antiguidade (já
que não se pode precisar se Maria existiu realmente ou não), Cleópatra foi
eternizada no imaginário contemporâneo graças ao filme de Elizabeth Tailor.
Para muitos, Cleópatra foi uma bela mulher (afinal, Liz Taylor foi considerada
por muitos anos (quando fez o filme, inclusive) a mulher mais bonita do mundo),
com grande poder de sedução e que fundamentava seu poder político na utilização
de seus atributos físicos para inebriar a mente de altos políticos Romanos,
fazendo com que esses estivessem a seus pés.
Cleópatra VII |
Esse retrato de Cleópatra não corresponde exatamente
à realidade que as pesquisas sobre sua vida construíram, visto que segundo
indicam os bustos e estátuas encontrados dela, a mulher não era exatamente
de uma beleza estonteante (se bem que beleza seja um conceito relativo, existem,
com efeito, padrões estéticos que indicam que determinada mulher é bonita
em detrimento de outras e mesmo que servem de comparação).
Ao que parece, Cleópatra VII (é importante que
atentemos para o fato de que antes dela houve diversas outras Cleópatras,
não só as seis de Alexandria, mas também algumas na Grécia e/ou na Macedônia,
como a famosa irmã de Alexandre Magno) foi uma grande articuladora política
que soube envolver os políticos-generais Romanos com a habilidade de sua
fala e de seus estratagemas, antes do que por sua beleza. Cleópatra VII Filopátor Nea Tea (Glória a seu amado pai) foi escolhida como esposa de seu irmão, Ptolomeu XIV Novo Dionísio, com quem deveria governar como co-regente. Ao que parece, a prática iniciada por Ptolomeu II Filadelfo de que os Ptolomeus se casariam com suas irmãs teve continuidade até o final do Período Ptolomaico. Porém, talvez depois de Cleópatra III, as mulheres passaram a realmente dividir o poder com seus maridos, se bem que estes realmente governassem em detrimento delas, exceto em casos extremos. |
Como Cleópatra tinha 18 anos ao assumir o trono
e seu irmão tinha apenas 9, com efeito ela passou a ser a verdadeira governante
do Egito, o que desagradou em muito o séqüito mais próximo de Ptolomeu XIV.
A governante não desejava, ao que parece, que seu irmão fosse levado em consideração
como co-regente, sendo assim, fez com que as moedas cunhadas em seu Reinado
tivessem o seu rosto impresso sozinho, e não a efígie do casal Real como
era de costume.
Cleópatra VII e Ptolomeu XIV assumiram o trono
em 51, depois da morte de seu pai, Ptolomeu XII (ao que parece, Ptolomeu
XIII (na cronologia da Delta Larousse) não chegou a ser o governante do
Egito (daí esse título ser atribuído na maioria das publicações ao irmão
de Cleópatra VII), mas sim, teria sido um irmão de Ptolomeu IX (que, como
já foi dito, eu estou supondo que seja também Ptolomeu XII) que governava
o Chipre como sátrapa quando seu irmão foi expulso de lá pela mãe, isso explicaria
o porque de o Faraó exilado ter conseguido se refugiar na ilha; porém, quando
Ptolomeu XI Alexandre II assinou o tratado que dava Chipre a Roma, o tal
Ptolomeu XIII (governador do Chipre) teria se recusado a aceitar a perda
de seu território que, com efeito, desde o exílio do irmão, teria se tornado
o seu próprio Reino e, sendo assim, segundo Luciano Canfora, teria sido
morto pelos Romanos, o que também serviu de pressão para que Ptolomeu IX
aceitasse as condições Romanas e fosse reempossado como Ptolomeu XII) faleceu.
A situação política era crítica, desde 55, quando seu pai havia sido reempossado
pelas tropas Romanas da Síria, comandadas pelo Propretor Aulo Gabínio.
Gabínio, a mando de Pompeu, invadiu o Egito
e destronou Ptolomeu XI Alexandre II instalando na região o poder de Roma.
Na realidade, Roma não se tornava ainda a dona definitiva do Egito, visto
que o acordo feito com o Faraó Ptolomeu XII lhe garantia o poder político,
no entanto, o país passou a ser protegido por um corpo de Legionários Romanos
chamado milites Gabiniani, além
de ser invadido pelos vários credores do Faraó que, agora que ele reassumira
o trono, queriam cobrar as dívidas que ele adquirira nos vinte anos que passara
fora do Egito, vivendo como um Rei às custas de dinheiro emprestado.
Essas dívidas de Ptolomeu XII foram, com efeito,
um dos principais motivos para que Roma se esforçasse em reempossa-lo, visto
que, devido a elas, ele não poderia se recusar a nada que lhe fosse pedido,
além disso, se não recuperasse seu trono, não poderia saúda-las. Cercado
por todos os lados e vendo seu principal credor, Caio Rabírio Póstumo, nomeado
por Roma para o cargo de dioniketes (onde poderia se apropriar das finanças do
Estado Egípcio a seu bel prazer até conseguir ser ressarcido), o Faraó teve
que recorrer a Júlio César, o comandante Romano que realizava vitoriosas
e enriquecedoras campanhas militares na Gália, além de participar do Triunvirato
que o havia apoiado na recuperação de seu trono.
César, que sabia que empréstimos significariam
mais Clientes (termo Romanos utilizado para designar pessoas que deviam dinheiro
e/ou favores a grandes políticos e que, por isso, lhe eram completamente
fiéis, constituindo sua base de sustentação política, com efeito, quanto
mais clientes um político tivesse, mais poderoso ele seria), tinha desde
o começo de sua carreira política, o costume de emprestar dinheiro a praticamente
todos que pedissem, sendo assim, saudou as dívidas do Faraó, mas, em contrapartida,
passou a tê-lo nas mãos.
Foi nesse contexto político que Cleópatra VII
assumiu o trono do Egito, em 51. Com essa situação se desenhando, estava
claro que a autonomia política do Egito estava prestes a cair por terra,
no entanto, apenas dois anos depois que a nova Faraó havia assumido o trono
com seu irmão criança, um novo evento internacional acenou a ela com a possibilidade
de uma restauração do poder de seu país: na Itália, César cruzara o Rubicão
e deflagrara a Guerra Civil contra Pompeu.
Nesse evento, Cleópatra que, até então havia
feito o que podia para governar segundo os interesses Romanos, viu uma grande
possibilidade, uma vez que o único credor que o Egito tinha – César – havia
declarado guerra ao invencível Pompeu Magno, o vencedor de Mitrídates, o
que significaria sua derrota certa e a conseqüente liberação do Egito do
pagamento de suas dívidas. Com esse pensamento (que, aliás, segundo Luciano
Canfora, era comum entre as populações do Mediterrâneo Oriental), ou seja,
o de que Pompeu iria massacrar César, Cleópatra cedeu ao pedidos do filho
mais velho de Pompeu e enviou 60 navios para apoiar o Magno. As embarcações
estavam abarrotadas de trigo e ainda contavam com 500 homens das tais milites
Gabiniani. Para si, Cleópatra, segundo
nos diz Plutarco, certificou-se de obter o amor do filho de Pompeu e, segundo
consta, este foi o primeiro político Romano a ceder aos seus “encantos”.
Cleópatra havia sido muito hábil, sabia que
se Pompeu vencesse e César fosse morto ou humilhado, ela não só teria eliminado
seu credor como também haveria de se casar com o filho de Pompeu (que certamente
se tornaria Ditador de Roma), o que, a um só tempo, acabaria com as pretensões
do séqüito de seu irmão e garantiria a integridade do Egito, visto que o
Magno não ousaria atrapalhar os negócios de seu primogênito.
Contudo, como o leitor já deve ter percebido
na descrição de todo o Período Ptolomaico, os Faraós Greco-Macedônicos não
se importaram muito com o Reino que governaram, mas, apenas com sua capital
majestosa. Muitos Ptolomeus não passaram de prefeitos de Alexandria deixando
que o restante do território fosse administrado por oficiais corruptos que
não possuíam nenhum interesse no bem daqueles bárbaros (como o mundo Greco-Romano
tendeu a ver todos aqueles que não desfrutassem de suas tradições, como os
próprios Egípcios), mas, tão somente no de seus próprios bolsos. Esse descaso
prolongado fez com que praticamente tudo falisse no Egito, desde a antiga
Religião até os diques de irrigação, sendo assim, a produtividade agrícola
já não era a mesma dos áureos tempos do Novo Império. Essa reflexão não se
encontra deslocada na medida em que dá as bases para que o leitor perceba
que num panorama de falta de mantimentos como o que Cleópatra enfrentava,
a doação de 60 navios carregados de trigo para uma guerra que nem era Egípcia,
mas que favorecia os interesses da Faraó provocou uma situação geral de fome
o que, aliado ao descontentamento das populações locais (Gregas e Egípcias)
com a política de favorecimento Romano adotada por Cleópatra, fortaleceu
o séqüito de Ptolomeu XIV e fez com que Cleópatra fosse expulsa do Egito
sendo obrigada a se exilar na Síria, terra de seus aliados, visto que, desde
a morte de Crasso (que era o responsável pela região no Triunvirato), era
governada por homens indicados por Pompeu, que ela estava apoiando.
Na Síria, Cleópatra conseguiu reunir tropas
para tentar retomar seu trono e finalmente banir seu irmão do Egito, seja
matando-o, seja expulsando-o. Ela atacou o Delta e iniciou um movimento que
pode até ser visto como um componente da Guerra Civil generalizada que atingia
Roma, visto que envolvia tropas Romanas em ambos os lados: tanto aliadas
de Cleópatra, quanto aliadas de Ptolomeu XIV.
12.6.1 – Júlio César:
Quando Ptolomeu XIV se encontrava em Pelusa,
no Delta, ao lado de seu exército, guerreando aqueles que eram leais a Cleópatra,
alguns navios Romanos se aproximaram da costa e, de um deles, um pequeno
barco partiu em direção ao Faraó trazendo um mensageiro. Ptolomeu XIV era
ainda um garoto e, de fato, quem mantinha o poder eram seus tutores e homens
de confiança: Aquilas, um general Egípcio; Teódoto de Quios, seu professor
de retórica; e Potino, seu tutor e eunuco particular. Dessa maneira, o mensageiro
Romano se dirigiu a eles e não ao Faraó em pessoa.
O Romano trazia um pedido de Pompeu, o Grande,
que, derrotado em Farsália, na Grécia, por Júlio César (ao contrário das
expectativas de Cleópatra e de todo o Mediterrâneo Oriental), buscava agora
se refugiar de seu perseguidor num Reino que julgava poderoso o bastante
para deter César, além de lhe dever a estabilidade política (que Pompeu,
absorto nas disputas com César como tinha estado, julgava existir (ainda
que muitos historiadores aleguem que a rede de informações de Pompeu estivesse
a par do que estava ocorrendo no Egito)), uma vez que tinha sido seu homem
de confiança, Aulo Gabínio, que restaurara o pai dos atuais Monarcas no trono.
Plutarco nos conta, na Vida de Pompeu, que os
três detentores do poder Egípcio se reuniram e deliberaram sobre o destino
daquele que conquistara a alcunha de Magno (o Grande) após vencer Mitrídates
do Ponto, o pretenso Novo Alexandre. Segundo Plutarco, as deliberações e
suas conseqüências foram as seguintes (também na tradução de Gilson César
Cardoso):
(...) As opiniões divergiam muito: uns queriam expulsar Pompeu, outros acolhê-lo. Mas Teódoto, para alardear eloqüência e talento, garantiu que nenhuma dessas condutas seria segura: se o recebessem, teriam César por inimigo e Pompeu por déspota; se o repelissem, Pompeu os odiaria por ter sido afastado e César por lhe haverem subtraído aquele a quem perseguia. Melhor seria ir ao encontro de Pompeu e mata-lo, pois assim agradariam a um e não teriam nada a temer do outro. E acrescentou, sorrindo segundo se diz: “Um cadáver não morde!”
O conselho ratificou esse parecer e encarregou Aquilas de executa-lo. Convocou um tal Septímio, que outrora servira como oficial sob as ordens de Pompeu, um centurião chamado Sálvio e três ou quatro marinheiros, com os quais se dirigiu de barco ao navio de Pompeu, aonde tinham subido os companheiros mais chegados para ver o que aconteceria. Quando eprceberam que em lugar de uma recepção real, brilhante e conforme às esperanças de Teófanes, apenas uns poucos indivíduos aproximavam numa canoa de pescador, suspeitaram que ali não se fazia caso de Pompeu e aconselharam-no a virar de bordo para o mar alto, pois permaneciam ao alcance das flechas. Mas então a canoa já estava próxima e Septímio se levantava para saudar Pompeu em primeiro lugar, dando-lhe o título de Imperador. Aquilas, porseu turno, cumprimentou-o em Grego e convidou-o a passar para a barca, alegando que no local o mar atulhado de areia, não possuía profundidade suficiente para o avanço de uma Trirreme. Ao mesmo tempo, avistaram-se navios do Rei que aparelhavam e saoldados que guarneciam as praias, de sorte que seria impossível escapar, mesmo que tomassem rapidamente outra decisão. Ademais, mostrar desconfiança seria fornecer aos assassinos um pretexto para seu crime. Pompeu beijou Cornélia, que já chorava sua morte, e designou para descerem juntamente com ele dois centuriões, seu liberto Filipo e um escravo chamado Cites; quando Aquilas, da barca, estendia-lhe a mão, voltou-se para a mulher e o filho e disse-lhe estes versos jâmbicos de Sófocles:
“Quem procura um tirano torna-se seu escravo
Ainda que venha como homem livre”
Essas as derradeiras palavras que dirigiu aos seus antes de descer para a barca. Como a distância até a costa fosse grande e ninguém lhe dissesse uma palavra gentil, reparou em Septímio e perguntou: “Acho que o reconheço. Não és um de meus antigos companheiros de armas?” Septímio fez apenas um aceno de cabeça, sem lhe testemunhar nenhuma simpatia. Reinou novamente profundo silêncio, durante o qual Pompeu, que tinha em mãos um rolo onde escrevera em Grego um discurso preparado para Ptolomeu, pôs-se a reler o texto. Quando se aproximavam da costa, Cornélia, tremendamente inquieta e sempre a observar do alto da Trirreme, em companhia dos amigos, o que se estava passando, começou a animar-se vendo muitos oficiais do Rei caminhando para o local de desembarque, como se desejassem saudar Pompeu e render-lhe homenagem. No momento em que Pompeu tomava a mão de Filipo para se levantar com mais facilidade, Septímio, por trás, atravessou-lhe o corpo com a espada; em seguida, Sálvio e Aquilas desembainharam as suas. A vítima, erguendo com ambas as mãos a toga à altura do rosto, sem nada dizer ou fazer que fosse indigno de seu caráter, apenas gemeu e suportou firmemente os golpe.
Tinha cinqüenta e nove anos e morria no dia
seguinte ao de seu aniversário.
É fato que Pompeu desejava utilizar o Egito
como base e obrigar os Egípcios, os milites Gabiniani e os Gregos de Alexandria a servirem-lhe como
tropas contra César. Suas intenções, portanto, não eram boas em relação
ao jovem Faraó. Possivelmente, se tivesse obtido permissão para desembarcar,
Pompeu teria se apoderado da tutela de Ptolomeu XIV e se livrado de Potino,
Aquilas e Teódoto de Quios. Contudo, a decisão deste último de matar Pompeu
não foi sábia, visto que quando César finalmente chegou a Alexandria e lhe
teve ofertada a cabeça do rival, ao invés de aprovar o feito, tornou-se irado
contra seus algozes.
Talvez se Pompeu tivesse um pouco mais de conhecimento
sobre a situação política do Egito na época, ele tivesse obtido mais sucesso
em sua requisição, visto que teria se dirigido a Cleópatra, aquela que era
amante de seu filho e que lhe tinha ajudado a tentar se livrar de César:
aquela que favorecia os Romanos, não que se revoltava com seu domínio, como
fazia o séqüito de Ptolomeu XIV.
De qualquer forma, ao chegar em Alexandria no
dia 2 de outubro de 48, César fica sabendo que seu rival (aquele que ele
perseguira até o Egito com um intuito que provavelmente não era dos melhores)
estava morto há quatro dias. Segundo relatou em sus “Comentários sobre a
Guerra Civil”, o Político-General Romano só soube do ocorrido após desembarcar,
porém outras fontes alegam que ele só desembarcou após saber do ocorrido.
É certo, no entanto, que César não deve ter realmente se sentido entristecido
pela morte de seu genro (uma vez que Pompeu havia sido casado com a filha
de César, aliás, a morte da moça foi um dos motivos do enfraquecimento das
relações entre os dois Políticos-Generais), visto que, se outro não o houvesse
feito, ele próprio possivelmente o faria e aquele ato dos asseclas de Ptolomeu
XIV ainda havia servido para salvar suas mãos do sangue de Pompeu que poderia
provocar revoltas. Contudo, tanto para manter as aparências, quanto para
se ver livre da obrigação de qualquer agradecimento ao Faraó que lhe prestara
o serviço, César fingiu (segundo Lucano e Dião Cássio) chorar.
A perseguição a Pompeu havia se iniciado imediatamente
após sua derrota em Farsália, sendo assim, César não havia tido tempo de
recrutar mais homens a fim de recompor as perdas sofridas na campanha da
Grécia. Dessa maneira, desembarcou em Alexandria com pouco mais de 3000 homens.
Não julgava que iria ter problemas por lá, contudo, nos “Comentários sobre
a Guerra Civil” ele alega que tão logo aportou viu os exércitos e a população
exaltados, mas, mesmo assim, desembarcou, o que é muito pouco verossímil
em se levando em consideração que César foi um brilhante estrategista e que
não costumava se colocar em situações de desvantagem.
A guerra contra Pompeu estava liquidada, como
o próprio Teódoto de Quios falou em seu discurso a César no momento em que
lhe foi entregue a cabeça de Pompeu, no entanto, esta havia causado um verdadeiro
rombo nas contas de César e, sendo assim, ele desejava receber o que os Egípcios
lhe deviam pelas dívidas saudadas de Ptolomeu XII.
César desembarcou precedido dos fasces, ou seja,
os machados que simbolizavam o poder dos Cônsules de Roma, no intuito claro
de mostrar a que viera. Foi acolhido no palácio Real (na verdade, nessa época,
todo o bairro do Bruquíon era o palácio Real, no entanto, quando se fala
em palácio Real o que se está querendo mencionar é o Oppidum o palácio construído
por Alexandre, onde vivia o Faraó) e, mesmo sabendo do perigo que corria
(pois se os Egípcios haviam ousado matar Pompeu, bem poderiam também ousar
tentar mata-lo), se sentia seguro, pois julgava que os milites Gabiniani lhe seriam leais.
Como nos relata Plutarco, a fim de evitar qualquer
movimentação suspeita e também a fim de conhecer seus interlocutores, César
passou as quatro primeiras noites em claro, juntamente com Ptolomeu XIV e
seu séqüito, em fartos banquetes. Foi justamente num desses banquetes que
Potino sugeriu a César que se retirasse do Egito e desse seqüência às suas
campanhas militares, pois suas dívidas seriam saudadas em tempo.
Vendo que não poderia vencer Potino, que comandava
o Egito tendo a seu lado Teódoto e Aquilas, César mandou chamar Cleópatra
de volta a Alexandria. Com efeito, os exércitos dos dois irmãos ainda se
batiam nas redondezas de Pelúsio e Cleópatra era persona non grata em Alexandria, no entanto, César a queria junto
dele para que funcionasse como instrumento de barganha.
Ao contrário do que se acredita, não foi Cleópatra
quem decidiu ir ao encontro de César, mas sim o Romano que a chamou. De qualquer
forma, segundo nos conta Plutarco e também as lendas que vigoram a respeito
de Cleópatra (lendas essas que foram reforçadas pelo filme de Elizabeth Tailor),
certa noite uma pequena embarcação aportou no porto do palácio e dela desembarcou
um tal Apolodoro que se dizia mercador de tapetes vindo da Sicília para
encontrar César. No ombro o homem trazia um belo tapete que iria presentear
ao Romano. Foi recebido e, ao ficar sozinho na presença de César, desenrolou
Cleópatra de dentro dele.
Agora a Faraó estava no palácio e César podia
iniciar a reconciliação dos dois irmãos. No banquete da noite do dia 7 de
outubro de 48 ele foi acompanhado de Cleópatra e declarou enfaticamente que
se o Egito desejasse demonstrar suas boas intenções para com Roma, os dois
irmãos deveriam por fim àquela guerra interna que travavam.
Pegos desprevenidos, os membros do séqüito de
Ptolomeu XIV apenas concordaram com César e aceitaram a reunião de Ptolomeu
e Cleópatra dando ordens a seus exércitos para que parassem o confrontamento.
No ínterim, Cleópatra, agora com 21 anos, achou
que poderia tentar seduzir César, um homem de 53 anos; para tanto, disse-lhe
que ficara muito feliz ao ser chamada por ele ao palácio, visto que estava
numa situação em que não podia mais confiar nem mesmo naqueles que lhe eram
mais próximos, sendo assim, ficaria sob a inteira responsabilidade do Político-General.
Segundo Luciano Canfora, Cleópatra havia se informado sob a tendência promíscua
de César e chegara à conclusão de que a melhor forma de conseguir se aproximar
dele, apagando a mácula de ter apoiado Pompeu na Guerra Civil, seria através
do sexo.
Não é possível precisar até que ponto a estratégia
de Cleópatra funcionou, visto que César nunca chegou a abandonar sua esposa
Calpúrnia por causa da Faraó, mas isso também não indica que não pudesse
tê-la amado verdadeiramente.
Durante mais de um mês pareceu a César que seu
plano estava funcionando perfeitamente, mas, mesmo assim, ele permaneceu
na cidade para receber o que lhe era devido (a soma total chegava a 17,5
milhões de Sestércios ou Denários, no entanto, César aceitou perdoar 7,5
milhões contanto que recebesse os outros 10 milhões rapidamente), para mostrar
benevolência, César havia aceitado devolver Chipre ao Egito sendo que a ilha
passaria a ser governada por Arsinoé e Ptolomeu os irmãos mais jovens do
casal Real.
A obrigatoriedade do pagamento da dívida era
algo que irritava Potino e os outros, sendo assim, segundo consta, Teódoto
de Quios fomentou o plano de acabar com César enquanto ele ainda estivesse
em Alexandria, visto que ele estava sem muitas tropas. Potino convenceu
Ptolomeu XIV a enviar Aquilas até as tropas que, mesmo tendo cessado os
conflitos com Cleópatra, ainda permaneciam estacionadas em Pelúsio, e traze-las,
o mais rápido possível, para Alexandria a fim de pegar César de surpresa.