www.klepsidra.net

Egito: o Berço do Ideal Imperial

Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Mestrando em História Social/USP

download


Geografia e Climatologia
Período Formativo
Período Pré-Dinástico
Reino Antigo
Guerras Divinas
1º Período Intermediário
Reino Médio
2º Período Intermediário
Novo Reino
Supremacia do Sol
Período de Caos
Período Ptolomaico
Disseminação do Ideal Imperial
Outros pontos
Bibliografia

<- A Disseminação do Ideal Imperial


         14 – Outros Pontos Relevantes:

 

Este item pode ser considerado um anexo ao texto. Nele falarei de temas que não couberam em nenhum outro item anterior, mas que, ainda assim, podem ser relevantes; ele será dividido em diversos subitens, porém, nenhum deles deverá ser muito longo no sentido em que não há muito o que se falar sobre os assuntos que reservei para esta parte. Não há, na realidade, muita conexão entre as partes, portanto, tentarei dividir os subitens em outros itens um pouco mais gerais que dêem conta de agrupa-los por assunto. Espero que o leitor possa aproveitar estes adendos.


 

14.1 – A Vida do Cidadão Comum:

 

Um grande problema com o qual nos deparamos ao estudarmos civilizações tão antigas quanto a Egípcia refere-se à vida do cidadão comum. É importante que tenhamos em mente que os governantes só podem construir a grandiosidade das nações porque nelas existem pessoas que acordam cedo todos os dias e que cumprem uma rotina de trabalho árdua e estafante a fim de manter-se a si próprias e também ao Estado através de seus impostos.


No entanto, já se passaram mais de 2000 anos da morte de Cleópatra VII e está, como vimos, nem sequer viveu no Egito Faraônico, mas numa sociedade Grega radicada no Egito e que praticamente governava sua cidade sem se preocupar muito com o resto do país. Por isso, se quisermos saber qualquer coisa sobre o Egito Faraônico temos que conseguir reconstituir um tempo que está mais de 3000 anos distante de nós no passado. Tarefa difícil dadas as pilhagens (muitas delas ocorridas ainda na Antiguidade), as cheias do Nilo (especialmente nas regiões do Delta), o movimento das areias (que encobrem toda sorte de artefatos e até grandes construções como a Esfinge que esteve coberta por várias vezes ao longo da História) e a própria passagem natural do tempo.


No caso do Egito, temos um grande aliado no estudo da vida dos cidadãos comuns e este aliado já está morto há mais de 3300 anos. Seu nome é Horemheb. O Faraó Horemheb, por ter empreendido uma política tão sistemática de eliminação dos vestígios do Período de Amarna, acabou legando a Arqueologia um dos maiores achados que ela poderia ter: a cidade de Akhetaton. É que, como já foi referido, pelo fato de Horemheb ter ordenado o “desmanche” da cidade, seus alicerces e ruas ficaram intactos e, como não havia nada para ser roubado (ou assim pensaram os ladrões ao longo dos tempos) a região foi deixada em paz e hoje, depois de redescoberta, nos fornece boas pistas sobre como se esquadrinhava uma cidade, uma casa, a vida Egípcia.


Porém, se por um lado Akhetaton nós é de tão grande valia, por outro, não podemos esquecer que se tratava de uma cidade atípica, visto que foi construída em menos de dois anos e segundo padrões estilísticos recém-criados pelo Faraó revolucionário que a fundou.


E qualquer maneira, o que podemos concluir a partir das reconstituições de Akhetaton é que os Egípcios habitavam casas pequenas, com apenas um ou dois cômodos (quando eram dois cômodos um se restringia à família propriamente dita e o outro era uma espécie de sala de visitas). Em frente à casa havia um terreno murado onde os moradores criavam alguns pequenos animais domésticos e, às vezes um ou dois bois (as pessoas comuns não tinham dinheiro para manter cavalos, se bem que asnos não fossem incomuns). Neste mesmo terreno ficava um, ou às vezes mais, pequeno silo onde os moradores guardavam o trigo a cevada e os demais grãos que iriam consumir. Especialmente durante a época da cheia, estes silos eram os responsáveis pela sobrevivência dos Egípcios.


Como as cidades não ficavam muito distantes do Nilo, a água era coletada diretamente no rio e, sendo assim, não havia necessidade de reservatórios de água nas casas (exceto nas casas dos ricos onde podiam existir balneários e lagos artificiais). O interior das casas era muito quente devido ao sol escaldante do Egito, sendo assim, as pessoas não deviam passar muito tempo em seu interior sendo que o lugar mais fresco da casa deveria ser a laje em cima dela, para a qual havia uma escada. Sobre essa laje os Egípcios instalavam toldos protetores contra o sol e, sendo assim, especialmente as mulheres e crianças, deviam passar o dia sob esse toldo recebendo a brisa do Nilo sem estarem expostas ao sol.


Em algumas cidades mais populosas, calcula-se que as casas chegassem a ter vários andares, no entanto, deve-se pensar que quanto mais cômodos tivesse a casa, mais rica seria a pessoa que nela habitava, sendo assim, não devemos imaginar que casas e vários andares fossem a regra.


Havia casos, especialmente em casas de artesãos, onde a casa possuía um anexo que era justamente a oficina ou atelier do proprietário, esta oficina tinha uma entrada privativa e, em geral não possuíam ligação com a casa, sendo assim, o artesão poderia atender seus clientes sem ter que expor a intimidade de sua casa.


       
Nos períodos mais recentes da História do Egito Antigo, estatuetas de Divindades passaram a ser não apenas comuns, como obrigatórias dentro das casas. Em geral as pessoas possuíam estatuetas dos Deuses de seus respectivos Spat e de Divindades nacionais de culto generalizado, como Imhotep e Bes, Deuses ligados à cura, Osíris, Isis com seu bebê Horus e finalmente, no período Ptolomaico, Alexandre (se bem que se culto nunca tenha se difundido da maneira que os outros fizeram).

 


        
14.1.1 – Os Hábitos Cotidianos:

 

         Ao que parece os Egípcios costumavam ser muito asseados, dessa maneira, banhavam-se diariamente, tanto para se refrescarem do calor, quanto para se limparem do suor e da areia que o vento trazia consigo. Tanto homens quanto mulheres costumavam se depilar sendo que os homens não utilizavam barbas e muitos também se viam livres de seus cabelos. É provável que os pêlos fossem vistos como portadores de sujeiras e, sendo assim, anti-higiênicos.


        
Besuntar-se em óleo semanalmente era quase um ato religioso para os Egípcios, sendo que nos trabalhos Estatais, parte do pagamento consistia em ungüento para o corpo e cosméticos em geral. Eram muito apreciados entre a população os perfumes e as maquiagens oculares, sendo que tanto homens quanto mulheres pintavam os olhos diariamente, atitude que consideravam ter caráter terapêutico. Paul Johnson nos diz que o segundo produto no comércio internacional Egípcio eram os cosméticos, perdendo apenas para os cedros da Fenícia.


 

14.1.2 – As Comidas Exóticas:

 

Como já foi mencionado, os Egípcios comiam peixe e pão de trigo e bebiam, sobretudo cerveja. Mais tarde, quando o gado bovino é introduzido, o leite também se torna parte da alimentação cotidiana. A carne era uma iguaria rara devido a seu preço, se bem que na mesa de pessoas ricas ela não devesse faltar. Os Faraós mais tradicionalistas como os do Antigo Império e, bem depois, os da XXV Dinastia Kushita, não comiam, nem permitiam que aqueles que freqüentassem seu meio de convívio ou apenas o palácio comessem, carne de porco.


No entanto, a iguaria mais interessante que fazia parte do menu diário dos Egípcios simples era os biscoitos. Exatamente, as bolachas e os biscoitos que nós comemos hoje foram inventados pelos Egípcios e faziam parte de sua alimentação cotidiana. Depois do declínio do Egito Antigo, esse costume ficou restrito apenas ao Alto Nilo sendo que os Franceses, no século XIX, o descobriram e, levando para a França, tornaram-no viável comercialmente. É claro, no entanto, que os Egípcios não conheciam muitas variedades de biscoitos e bolachas, no entanto, deviam faze-los de trigo e/ou cevada. Alimentos ideais por serem saborosos, de simples preparo e altamente duráveis (o que os tornava propícios para serem estocados durante a cheia do Nilo).

        


         14.1.3 – As Diversas Profissões:

 

         Além das óbvias ocupações agrícolas que, certamente empregavam mais de 80% da população comum, havia também outros vários empregos que um Egípcio poderia ocupar. Os que davam mais poder e status estavam ligados aos templos e ao serviço burocrático nacional, sendo assim, se tornar Sacerdote ou Escriba eram o sonho de muitos indivíduos. No entanto, tais profissões requeriam que a pessoa soubesse ler e, muitas vezes, escrever, sendo assim, acabavam restritas aos filhos de pessoas importantes (ainda que apenas importantes localmente, no contexto dos Spat) e apenas raramente alguém realmente do povo conseguia ascender a uma dessas posições, no entanto, esse tipo de serviço, ou seja, saber ler, constituía uma oportunidade real de se melhorar de vida (se levarmos em consideração as oportunidades de enriquecimento advindas da corrupção que, em muitos períodos, assolou a burocracia nacional, podemos perceber que a sociedade Egípcia possuía uma certa mobilidade, apesar de não poder ser considerada exatamente uma sociedade de classes).


        
O artesanato, seja ele a confecção de estátuas, de jóias, de enfeites... era outra profissão muito comum no Egito e, por requerer uma boa dose de dedicação e aprendizado, podemos pensar que talvez fosse hereditária, sendo assim, ninguém escolheria ser um artesão, apenas se tornaria um se seu pai também o fosse.


        
O trabalho em madeiras deveria ser uma profissão nobre e deveria haver poucos indivíduos capacitados a ela em todo o Egito, estes, contudo, deveriam ser muito bem remunerados e não é de se duvidar que, dada a raridade da madeira no Egito, o indivíduo capacitado a construir tronos, cadeiras, mesas e esquifes também deveria ser capaz de construir navios, deveria ser um trabalhador da madeira.


        
Outra profissão da qual não podemos nos esquecer é a de trabalhador das Necrópoles. Em geral estes indivíduos estavam associados a algum templo e, se ele fosse trabalhador da Necrópole Régia, talvez estivesse sob as diretas ordens do Clero de Amon. Estes indivíduos devem ter tido grande poder, visto que, segundo vimos, durante o governo de Ramsés XI, tais trabalhadores foram capazes de depor o Sumo-Sacerdote de Amon com suas revoltas.


        
Os remadores, barqueiros, marinheiros, capitães e pescadores também devem ter tido um destaque muito grande dentro do contexto Egípcio, visto que o país não contava com estradas e, dessa maneira, todas as comunicações se davam através do Nilo. Desde mensagens até a pesca e o comércio nacional e internacional, tudo passava pelas águas e, conseqüentemente pelas mãos desses profissionais.


        
Arquitetos parecem ter gozado de grande prestígio entre os Faraós, no entanto, ao que parece este cargo não estava disponível aos homens do povo, ficando antes, restrito aos homens de confiança e até, muitas vezes, da família do Faraó, assim como também eram restritos os cargos de oficial do exército e de médico. Estes, por sua vez, muitas vezes eram Sacerdotes capacitados na cura e esta, ao contrário do que se pensa, não era muito desenvolvida no Egito. Na verdade, a medicina Egípcia era muito mais um amontoado de simpatias e fórmulas mágicas do que uma ciência verdadeira. A medicina como ciência só viria a nascer na Idade Média e na Pérsia, não no Egito. Ainda assim, os Egípcios realizavam pequenas cirurgias, amputações, extrações dentárias (que, apesar de fazerem parte da gama de atribuições atuais do dentista, quando se trata de civilizações antigas, pode-se dizer com segurança que eram desempenhadas pelos “médicos”). Chás e emplastros eram considerados os maiores remédios, mas não visavam curar o corpo, mas sim, o ka do paciente, visto que doenças sem um motivo aparente (por motivo aparente podemos tomar um golpe na cabeça, uma flechada, uma mordida de crocodilo, mas não uma gripe, por exemplo) eram vistas como desequilíbrios espirituais que deveriam ser curadas, sobretudo, através de rezas e poções mágicas. Com efeito, para os Egípcios era mais fácil cuidar de uma perna decepada por um ataque de um leão do que de um simples resfriado.


        
Talvez o Clero que por mais tempo perdurou no Egito e que mais se difundiu por todo o país sem, contudo, nunca participar ativamente das disputas pelo poder, mas, ao contrário, mantendo-se à margem da sociedade, habitando em templos-oficinas nas bordas das cidades, tenha sido o Clero de Anúbis. Não incluí os Sacerdotes de Anúbis entre os Sacerdotes normais porque suas atribuições eram completamente diferentes, ao invés de se dedicarem a leituras e/ou ao culto do Deus, os sacerdotes de Anúbis se dedicavam à mumificação. Poucos eram os que oravam a Anúbis, mas praticamente todos passavam pelas mãos de seus Sacerdotes antes do derradeiro descanso. Mais uma vez, ao contrário do que se aprende nas escolas e ao contrário do que muitos pensam, a prática da mumificação ensinou muito pouco aos Egípcios no tocante ao funcionamento do corpo humano, no entanto, sobre a mumificação, em si, falarei mais adiante.


        
Havia outras inúmeras profissões, como a prostituição, as profissões ligadas à criminalidade, como a dos saqueadores de sepultura e dos ladrões urbanos, a olaria (fabricação de tijolos), a pintura (usada na decoração de ambientes e de sepulturas), o entalhe (também utilizado na decoração de ambientes, e sepulturas)...


        
Devemos, por fim, atentar para o fato de que as profissões ligadas à milícia e ao exército eram, em geral, exercidas por mercenários estrangeiros estes, por sua vez, eram os únicos trabalhadores pagos em ouro, visto que os demais trabalhadores estatais eram pagos em gêneros agrícolas, sobretudo o trigo. Os trabalhos considerados muito pesados, como aqueles nas minas, eram relegados aos escravos e, além disso, o trabalho temporário utilizado na construção de templos, palácios, pirâmides, diques de irrigação e obras públicas em geral era baseado especialmente na mão-de-obra agrícola que estava ociosa durante o período de cheia.

 


        
14.2 – A Mumificação:

 

         A mumificação e as múmias são, talvez juntamente com as Pirâmides, a principal marca da civilização Egípcia. Porém, o que pouca gente sabe é que a palavra múmia não é Egípcia e nem sequer os Egípcios chamavam assim os seus cadáveres que passavam pelo processo de mumificação. Na verdade, a palavra múmia é Persa e foram justamente os Persas, durante seu domínio sobre o Egito, os primeiros a referirem os defuntos Egípcios dessa maneira.


        
Múmia significa betume, em outras palavras, piche, petróleo. Os Persas fizeram essa associação porque muitas múmias, por receberem um verdadeiro banho de ungüentos protetores, acabavam, quanto encontradas (lembrem-se que devido aos saques era normal que se resgatasse múmias de seus descansos eternos e se sepultassem-nas novamente em outros lugares) demonstrando um aspecto que dava a impressão de que haviam sido mergulhadas em piche antes de serem sepultadas o que, de fato, os Persas pensavam que acontecia.


        
O problema dessa confusão não foi apenas essa divertida troca de nomes, mas sim, outro muito mais grave.


        
Desde tempos imemoriáveis, na Pérsia e no Oriente Médio, o betume era usado para fins terapêuticos. Colocava-se betume em feridas abertas a fim de cicatriza-las, utilizava-se a substância como uma espécie de cola em cirurgias e amputações e, em alguns casos, ela chegava mesmo a ser ministrada oralmente, misturada com água, com a finalidade de curar doenças.


        
Pois bem, com a chegada da Idade Média e a conquista do Egito pelos Árabes, os médicos daquele povo trouxeram consigo as tradições dos antigos povos da Ásia, como os Selêucidas (através dos quais boa parte dos textos Gregos foi preservada, retornando à Europa pelas mãos dos Árabes) e os Persas.


        
Seguindo essas tradições antigas, os Árabes continuaram a prescrever betume como excelente curador de doenças, no entanto, no caso de não haver betume disponível, os médico prescreviam carne de múmia, pois, segundo escreveu Abdel Latif (médico Árabe Medieval): “A carne mumificada encontrada nos ocos dos cadáveres do Egito difere apenas um pouco da múmia natural”.


        
Vieram as cruzadas e os Francos se estabeleceram (ainda que temporariamente apenas) no Egito e lá tiveram contato com tal novidade (é claro, distorcendo o que os Árabes disseram de modo a que o betume, em si, fosse esquecido): a carne das múmias curava doenças!


        
De volta à França, espalharam a boa nova e daí em diante, o leitor pode imaginar o que aconteceu. Entre os séculos XII d.C. e XIX d.C. (isso mesmo, até meados do século XIX d.C. essa prática ainda estava em uso) toneladas de múmias inteiras ou em pó foram tiradas do Egito e levadas à Europa. Podia-se comprar meio quilo de carne mumificada por oito Xelins (um dinheiro relativamente alto, mas que valia uma cura quase milagrosa).


        
Essa foi apenas mais uma das crendices que se perpetuaram pela Idade Média acerca do Egito, mas, infelizmente essa crendice fez com que os Árabes saqueassem diversas tumbas a fim de vender suas múmias para os Europeus. No entanto, depois de um certo tempo, tanto Árabes quanto Judeus (os indivíduos que abasteciam esse comércio) perceberam que era mais simples comprar os corpos dos mortos nos hospitais da própria Europa e moê-los misturando-os a betume do que ir buscar múmias autênticas nos túmulos egípcios, talvez por isso ainda tenhamos múmia hoje em dia. Além disso, na Europa Central se disseminou a idéia de que os cadáveres de bruxas, virgens idosas e pessoas ruivas eram mais eficazes do que as múmias Egípcias, o que diminuiu um pouco a procura.

 


        
14.2.1 – Processos de Mumficação:

 

         A mumificação, apesar de revestida de mistério, era uma técnica relativamente simples. Consistia basicamente na retirada dos órgãos internos do morto através de uma pequena secção realizada no abdômen (nem todos os órgãos eram retirados, o que nos faz supor que talvez os Egípcios os desconhecessem). Depois um gancho metálico era introduzido nas narinas do cadáver e, uma vez forçado, quebrava o osso nasal atingindo o cérebro, o gancho era girado e modo a transformar o cérebro (que tem uma consistência semi-pastosa) numa massa mole. Depois o cadáver era deitado de bruços com a cabeça num nível ligeiramente mais baixo que o restante do corpo de modo a fazer com que o cérebro escorresse (os Egípcios não conheciam a função do cérebro e julgavam que nosso pensamento, bem como nossos sentimentos, residiam no coração, aliás, vem do costume Egípcio dizer coisas como “você mora no meu coração”, ou “você partiu meu coração”), depois que o cérebro tivesse escorrido completamente pelo nariz, os mumificadores derramavam cera quente dentro do nariz de modo a cauterizar qualquer parte do cérebro que, porventura não tenha se soltado (nesse processo o corpo era posto de cabeça para baixo de modo a cauterizar o topo da cabeça e depois recebia mais cera quente e era deitado de costas, de modo a cauterizar a parte posterior do crânio). Antes de iniciar a segunda fase do processo, os mumificadores retiravam os olhos das cavidades oculares e também jogavam-nos fora (não que os Egípcios não soubessem a função dos olhos, no entanto sabiam que se trata de uma parte muito susceptível ao apodrecimento, o que poderia comprometer todas a múmia).


        
Uma vez livre de seu cérebro e de seus olhos e sem seus principais órgãos internos, a múmia, bem como seus órgãos, era enterrada por setenta dias no natrão, uma substância com alta capacidade de absorção de líquidos.


        
Depois de setenta dias o cadáver já estava completamente seco, sem nada de água, então ele era removido do natrão e passava por um último tratamento. Este tratamento variava muito de acordo com o poder aquisitivo do indivíduo, mas atenhamo-nos às múmias dos Faraós como exemplo.


        
As múmias Faraônicas eram então reconstituídas com cera e resina de modo a terem sua aparência vivente aproximadamente restaurada. Depois, ela era enfaixada e, à medida que as faixas iam sendo colocadas, jóias iam sendo adicionadas às ataduras (o que fez com que muitas múmias fossem desenfaixadas pelos saqueadores à procura de jóias). Depois de pronta, a múmia Faraônica era besuntada com ungüentos protetores e recebia sua máscara funerária de ouro. Era colocada num esquife de ouro onde eram adicionados alguns ubshabtis e um exemplar do Livro dos Mortos. Depois o esquife de ouro era colocado num de cedro e este num de pedra. O túmulo era entulhado de toda a sorte de coisas que o morto fosse querer ou precisar em Amentet e, depois, selado para sempre (até que os saqueadores chegassem e eles sempre chegavam, exceto no túmulo de Tutankhamon, responsável por quase todo o nosso conhecimento a respeito dos enterramentos Reais do Egito (e há que se lembrar que Tutankhamon foi um Faraó inexpressivo e que morreu cedo o que impediu que fossem realizados grandes preparativos para seu funeral)).


        
No caso das múmias de pessoas com poucas posses, toda a sorte de coisas poderia acontecer nas oficinas dos mumificadores. Bob Brier relata que, certa vez, quando examinava uma múmia de um desconhecido, se surpreendeu ao ver que apesar da aparência mumiforme que o cadáver tinha quando estava envolto em ataduras, tão logo estas foram retiradas, e o que se viu foi uma confusão de ossos amontoados sendo que o crânio estava no meio da barriga e ossos das mãos no lugar onde deveria estar o crânio. Certamente o trabalho deveria ser fatigante e os mumificadores não deveriam conceder a mesma atenção a todos, sua atenção deveria depender do bolso do cliente. Tais cadáveres não eram besuntados em ungüentos (que são caros), mas eu outras coisas (talvez até mesmo em betume), não recebiam jóias ou máscaras mortuárias (se bem que na última fase das mumificações, que se concentraram em Fayum e perduraram até o século I d.C., aproximadamente, os mortos, apesar de enterrados em tumbas coletivas, recebiam máscaras mortuárias de gesso onde eram retratadas suas fisionomias de uma forma chapada (e não de perfil, como as representações bidimensionais Egípcias exigiam), tipicamente bizantina, afinal, o Fayum nos tempos do domínio Romano, se tornou uma colônia Romana) nem ubshabtis e o único luxo ao que se davam era o de terem consigo um exemplar (ainda que de qualidade chula) do Livro dos Mortos.

 


        
14.3 – O Teatro Egípcio?

 

         Segundo Bob Brier, no templo de Edfu, no Alto Egito, está gravada a peça de teatro chamada “O Triunfo de Horus” que, ainda segundo Brier, era encenada anualmente no Alto Egito. Essa peça consistiria da reprodução do mito de Osíris sendo coroado com a vitória de Horus sobre Set. O Faraó em pessoa participava da encenação e, é claro, representava Horus.


        
Como encontrei menção a essa passagem apenas em Bob Brier e em nenhuma outra das fontes consultadas e como também sempre soube e li que o teatro nasceu nas Grécia e também como Bob Brier não diz de onde tirou tal informação, fico tendencioso a pensar que se trate de uma sobrevalorização de determinadas inscrições. Talvez apenas o mito de Osíris, Set e Horus esteja gravado nas paredes do templo de Edfu e haja alguma menção a uma visita de algum  Faraó ao templo e, por isso bob Brier tenha concluído que tal peça era encenada. De qualquer forma, deixo a cargo do leitor acreditar ou não que existisse tal peça apenas quero ressaltar dois pontos:


        
1 – Se tal peça existia realmente, então o Egito foi o inventor do Teatro e não a Grécia como todos sempre aprendemos.


        
2 – Como o Faraó poderia participar de uma peça de Teatro onde deveria se envolver numa luta sendo que ele próprio era um Deus que não poderia ser olhado nos olhos e nem mesmo referido diretamente. Além disso, Osíris, Isis, Thot, Ra, Set e tantos outros Deuses também fazem parte dessa História e os Egípcios não tinham o costume de deixar que homens se transfigurassem como Deuses. Que o Faraó, um Deus Vivo, interpretasse Horus, que não deixava de ser ele próprio, é perfeitamente aceitável, mas quem interpretava os demais Deuses? Quem tinha o direrito de receber tal honra?

 


        
14.4 – A Passagem do Tempo e seu Registro:

 

         Como já foi dito, os Egípcios não tinham uma noção passagem de tempo semelhante a que nós temos hoje. Eles marcavam seus anos a partir do nascimento de seus Faraós, sendo assim, ao invés de terem uma sucessão de décadas e séculos, ele possuíam uma sucessão de Faraós.


        
Outro fator importante no que se refere à demarcação do tempo diz respeito à divisão interna do ano. Os Egípcios dividiam seus anos em doze meses de trinta dias com cinco dias festivos para ajuste de calendário no final de cada ano. As semanas, por sua vez, eram de dez dias, sendo assim, cada me contava três semanas. Acho que é desnecessário dizer, mas mesmo assim o farei: os Egípcios não tinham finais de semana, férias ou mesmo dias de folga esse conceito é muito recente e só foi introduzido depois da Revolução Industrial quando os trabalhadores começaram a se sindicalizar e exigir seus direitos; é bem verdade que nos países Cristãos o domingo sempre foi considerado um dia de descanso, mas não de ócio e sim de oração, era um dia dedicado a Javeh para seguir os Dez Mandamentos.


        
O calendário Egípcio era tão bem feito que quando César estabeleceu suas relações com Cleópatra, pediu a Sosígenes, um astrônomo de Alexandria que o ajudasse a reformar o calendário Romano e, sendo assim, baseado no Calendário Egípcio, nasceu o Calendário Juliano que mais tarde, no século XVI, foi ajustado pelo Papa Gregório XIII e se tornou o Calendário Gregoriano, que está em vigência até hoje, eis aí mais um legado do Egito Antigo.


        
Quanto às horas, os Egípcios também dividiam o dia em vinte e quatro períodos de uma hora sendo que, durante o dia, se orientavam por relógios solares e, durante a noite atribuíam a passagem do tempo a doze babuínos de Amentet responsáveis cada um por uma hora da noite. Reprem que essa marcação era imprecisa, pois só nos dois equinócios (os dois dias do ano em que o dia e a noite tem exatamente a mesma duração) havia doze horas de sol e doze horas de noite.

 


        
14.5 – Livros e Papiros:

 

         A grande revolução da escrita Egípcia, independentemente de ela ter ou não influenciado a escrita Fenícia e, portanto, a nossa, foram os papiros. Até então, o único modo que se conhecia para se escrever eram as tabuletas de argila utilizadas na Mesopotâmia, o primeiro lugar do mundo a se ter notícia de uma língua escrita.


        
Porém, no Egito havia uma planta fluvial em abundância, o papiro. Cedo os Egípcios descobriram que se trançassem os caules dessa planta, batessem-no e deixassem-no a massa secar ao sol obteriam uma superfície branca e lisa ideal para escrever. Foi o primeiro papel a se inventar. Aliás, o papiro era tão útil que servia até para a confecção de velas para os barcos que subiam e desciam o Nilo.


        
Com efeito, o papiro se tornou um dos principais produtos de exportação do Egito, pois os países vizinhos logo perceberam que ra mais fácil e até mesmo bonito, escrever em folhas brancas do que em tabuletas de argila.


        
O principal parceiro comercial do Egito era a cidade de Biblos, na Fenícia, sendo assim, era para lá que a maior parte do papiro exportado ia. Em Biblos os Fenícios inventaram uma forma diferente de guardar documentos, contos e coisas escritas. Ao invés de emendarem um papiro no outro e formarem um rolo, os Fenícios prendiam diversas folhas de mesmo tamanho numa seqüência correta e depois protegiam-nas por uma capa de couro curtido. Essa maneira de guardar documentos foi adotada também (ainda que com muito atraso) na Grécia e, pela falta de um nome melhor, foi batizada com o nome da cidade que o inventara, ou seja, Biblos que, em Grego quer dizer Livro.

 


        
14.6 – O Egito e o Sobrenatural:

 

         Escolhi este subitem como encerramento de meu texto de modo a coroa-lo com o tema mais usualmente relacionado ao Egito, ou seja, o misticismo. Para muitos, o passado é algo tão distante e confuso que figura quase num mundo de sonhos. Se pensarmos que aliado a isso reside o fato das viagens internacionais serem muito caras e, portanto, estarem fora das possibilidades dos bolsos de milhões de pessoas, podemos chegar à terrível conclusão de que talvez as crenças religiosas funcionem de uma maneira bizarra nas mentes de muitos de modo a produzir uma idéia de que no passado a magia e/ou os milagres corriqueiros como eram (percebam que estou sendo sarcástico) pudessem significar para aqueles povos o mesmo que as máquinas significam para nós hoje, ou seja, a base de nossa capacidade produtiva.


        
Diante de tais idéias e considerando-se que sempre houve no mundo pessoas com grande capacidade imaginativa, somos levados a pensar que, talvez (e apenas talvez), da mesma forma que as crenças em magia, demônios, seres fantáticos ou tecnologias místicas podem ser consideradas bobagens, também as verdades divinas, tidas por muitos como absolutas, podem e devem ser contestadas, na medida em que não há sentido em se duvidar da existência de Atlântida apenas por não se ter provas concretas de que ela existiu e se acreditar em Santos e Deuses baseado nos mesmos argumentos. Mas há provas de que Jesus existiu e de que era Deus encarnado, basta olhar na Bíblia, dirão uns. Para esses, digo que da mesma forma que a Bíblia diz coisas a respeito de Deus, de Jesus e do mundo em que foi escrita, também Platão fala da existência de Atlântida, também Plotino ligou Hermes Trimegisto à eterna busca da sabedoria arcana por meio da Alquimia, também Omm Seti fez descobertas fantásticas no campo da Arqueologia baseada (segundo ela dizia) apenas em suas lembranças de sua vida passada. Em que e quem vamos acreditar?


        
Hoje existem charlatães? Sim, existem! Mas em que tempo eles não existiram? E mais, será mesmo que podemos julgar que uma civilização como a Egípcia que, entre altos e baixos, perdurou por mais de 3000 anos, foi governada apenas por charlatães? Que não teve um só governante íntegro, honesto e bem-intencionado? É claro que não, na verdade, os Faraós (exceto, é claro, por alguns) realmente acreditavam que eram Deuses Vivos, não conseguiriam sustentar uma pura mentira por tanto tempo. Viam nas mínimas ocorrências diárias os pequenos e grandes milagres que estamos acostumados a atribuir a charlatães ou a Santos (e pretensos Santos, como até o falecido cantor Leandro parece estar se tornando, não é?).


        
Escrevi todas essas coisas apenas para que o leitor pense a respeito delas, não pretendo defender aquilo em que acredito ou julgar o certo e o errado (que, em última instância, são pontos de vista individuais e que não devem ser impostos, mas, tão somente, discutidos), mas apenas criar o clima de polêmica que será fundamental para a leitura dos itens subseqüentes; itens estes que foram ordenados segundo os graus de verossimilhança (em outras palavras, segundo a falta de conteúdo da ciência tradicional em desmenti-los) que apresentam. Esperam que gostem da leitura.

 


        
14.6.1 – Atlântida:

 

         A todo ano surgem novas teorias e conjecturas a respeito da famosa ilha relatada na obra de Platão. Muitos dos que escrevem a respeito dela, no entanto, não levam em consideração o que o autor Grego escreveu. Tratam-se de inscrições baseadas em comparações aparentemente convincentes entre construções espalhadas ao redor do mundo, no entanto, muitas delas não levam sequer em conta os processos científicos para a datação dos sítios Arqueológicos, preferem meramente desqualificar a Arqueologia como se o intuito desta fosse o mesmo que outrora tivera a Igreja ao caçar aqueles que contestassem seus dogmas. Os autores (quando não dizem que adquiriram seus conhecimentos através de contatos com alienígenas ou com espíritos (psicografando suas obras)) apenas tiram fotos dos referidos lugares, nos ângulos mais propícios, diga-se de passagem, e põem-se a tecer comentários comparativos entre o Egito e o México, entre o Peru e o Cambodja e por aí afora.


        
É verdade que tanto Egípcios quanto Astecas, Maias e outros povos do México Pré-Colombiano construíam pirâmides, mas sua função e mesmo método de construção eram, no mínimo, diferentes. Como já vimos, para os Egípcios as pirâmides serviam como túmulos para seus governantes e altos dignatários e, mesmo isso, ocorreu apenas em épocas bastante recuadas. Os povos da Mesoamérica construíam suas pirâmides como sendo espécies de montanhas artificiais que serviriam para sustentar templos nas proximidades dos céus.


        
O método de construção, bem como a forma das pirâmides também variava muito uma vez os Mesoamericanos nunca chegaram a produzir uma pirâmide perfeita (geometricamente falando), sendo que a que mais se assemelha a isso é a Pirâmide do Sol em Teotihuacán. Em geral as pirâmides Mexicanas eram escalonadas, como a Pirâmide de Mastabas que Imhotep construiu para Djeser. No entanto, mesmo que os Olmecas (o primeiro povo da América que se pode considerar como “civilizado”) tenham construído pirâmides (como indicam estudos realizados no sítio de La Venta antes que este fosse destruído pelas estruturas da PEMEX), estas também seriam escalonadas, mesmo tendo sido construídas mais de 1500 anos depois das Grandes Pirâmides de Gizé. Sendo assim, se realmente as pirâmides Mexicanas foram construções influenciadas pelos Egípcios ou por uma civilização construtora de Pirâmides anterior até ao Egito, como Atlântida, por exemplo, por quê motivos elas teriam sido construídas com uma tecnologia já superada no Egito há tanto tempo se sua construção foi posterior?


        
Existem teorias sobre mudanças de eixos polares da Terra e sobre uma civilização que poderia ter se espalhado pelo mundo desde os imemoriáveis tempos da Pangea (o bloco continental original, do qual todos os continentes derivaram), ou, talvez posteriormente, da Gondwana (o bloco continental do sul que compreenderia a América e a África, daí a proliferação de pirâmides nessas regiões). O que é interessante pensarmos é que esses blocos continentais deixaram de existir há milhões de anos e a existência do homem não conta sequer um milhão de anos segundo a Antropologia (e mesmo que conseguíssemos descobrir indícios de ancestrais humanos com mais de um milhão de anos de idade, seriam meramente símios, não criaturas capazes de construir civilizações), além disso, se as pirâmides (de qualquer região), ou qualquer outra construção, fossem tão velhas, não estariam no mesmo estado de conservação que estão, mesmo existindo num lugar tão propício ao bloqueio dos efeitos do tempo como no caso das Pirâmides do Egito.


        
Se pudermos entender que uma civilização humana possa remontar suas origens a Gondwana, temos que aceitar que nossos ancestrais teriam coexistido com Dinossauros em outras Eras Geológicas, o que é inaceitável do ponto de vista científico.


        
É, contudo, possível que tenha havido alguma civilização poderosa no mundo anteriormente aos Egípcios, aos Mesopotâmios e mesmo aos Chineses. No entanto, para que possamos sequer pensar em sermos sérios a respeito de uma descrição de seu modo de vida, de sua sociedade, de suas tecnologias e mesmo de sua localização espacial, devemos nos pautar em documentos, sejam eles de cunho material ou escrito, no entanto, em termos de documentação a única coisa que temos são os dois livros de Platão: “Timeo” e “Crítias”, este último, incompleto. Nestes livros, Platão não narra o que viu, mas uma História de família contada por seus ancestrais que, por sua vez, teriam recebido a informação de uma outra fonte, esta, por sua vez, Egípcia.


        
Não quero me estender muito ao tratar de Atlântida, visto que num futuro escreverei um trabalho a seu respeito (claro que não à respeito da ilha em si, mas da obra de Platão), no entanto, é bom que se tenha em mente que apesar da seriedade a que Platão se propunha (sendo que nunca inventou nenhuma das Histórias que passou a diante), esta é uma História de família e, como tal, contada a Platão por indivíduos que talvez não gozassem da mesma idoneidade do famoso Filósofo, além disso, como veremos no item seguinte, o método de pensamento de Platão, baseado muitas vezes apenas na abstração sem qualquer base empírica, foi responsável por uma tremenda confusão Histórica que resultou numa das mais fortes doutrinas arcanas de hoje em dia.

 


        
14.6.2 – A Ordem de Hermes e a Alquimia:

 

         Entre os Gregos, Hermes era o Deus da Velocidade e da Comunicação. Era o mensageiro dos Deuses. Filho de Zeus recebera do pai dois pares de asas que acoplava a seus tornozelos, o que lhe possibilitava voar e se movimentar muito rapidamente. Apesar de Atena ser considerada a Deusa da Sabedoria (além dos Combates, mas não da Guerra em si, visto que este era o ethos de Ares), Hermes era visto como seu transmissor; ainda que Prometeu tenha sido aquele que, contrariando os desígnios Divinos, tenha entregue o fogo aos homens e, dessa forma, iniciado a civilização.


        
Essas Histórias são Gregas e, ao menos aparentemente, em nada têm em comum com o Egito, no entanto, como já foi mencionado, depois da penetração dos Gregos no Egito, cada vez mais Deuses Gregos e Egípcios começaram a se fundir, tanto assim, que muitos pensadores (classe que era mais comum na Grécia pelas próprias condições sociais propícias, como a política desenvolvida e a própria existência do Liceu de Atenas) chegaram a propor que não houvessem Deuses Egípcios e Deuses Gregos, mas apenas Deuses: cultuados em diferentes regiões com diferentes nomes.


        
Como a cultura Egípcia estivesse em franca decadência e a cultura Grega vivesse seu momento de maior brilho e, sobretudo, estivesse às vésperas da expansão de seu poder político-militar, os Deuses Gregos acabaram sendo vistos como as verdadeiras interpretações dos Deuses que havia e, sendo assim, seus nomes foram os que prevaleceram.


        
Todo o preâmbulo dado até agora neste item foi necessário para esclarecer um dado: os Gregos tinham consciência de que sua escrita derivava da escrita Fenícia e mais, acreditavam que esta, por sua vez, havia sido inspirada na escrita Egípcia (como, provavelmente foi).


        
Mas, no que aquele preâmbulo esclareceu essa afirmação?


        
Realmente em nada, mas continuemos:


        
Platão, em sua obra “Filebo”, afirma que Theut fora o responsável pela atribuição da escrita aos Egípcios, sendo que no “Fedro”, ele diz que Theut era o deus Egípcio da Sabedoria, ou seja, Thot.


        
Como os Deuses Egípcios, como vimos no início do item, eram identificados com os Deuses Gregos, e como Platão, em sua época, foi o responsável pelo Liceu de Atenas, logo começou a circular entre a elite intelectual da Grécia que Hermes (o Deus Grego identificado com Thot) havia sido o pai da escrita e que a havia entregue, em sua forma pura e original, aos Egípcios.


        
Como na época, como vimos, os Egípcios utilizavam o Demótico em suas correspondências e mesmo no seu dia-a-dia, disseminou-se a idéia de que os Hieróglifos seriam uma escrita Divina, incompreensível aos humanos, mas, todavia, guardião da Sabedoria dos Deuses, enquanto que o Demótico seria a escrita comum dos homens do Egito. Essa crença foi reforçada por Heródoto que, ao passar pelo Egito sem conhecer os Hieróglifos, disseminou muitos “achismos” pela comunidade intelectual Mediterrânea.


        
Com a fundação de Alexandria e, sobretudo, da Grande Biblioteca, que intentava (e logrou sucesso em tal empreitada) roubar de Atenas o posto de capital mundial do saber, centenas de pensadores impregnados de tais ideais afluíram para o Egito e lá deixaram cerca de vinte mil volumes na Grande Biblioteca. Estes livros ficaram conhecidos como Corpus Hermeticum e poucos são os exemplares que dele nos restam. Sua autoria é atribuída ao próprio Deus Hermes, chamado pelos Gregos de Trimegisto, ou seja, Tri Eminente (três vezes importante).


        
No início do século III d.C., Plotino, o mais eminente dentre os Neoplatônicos de seu tempo, espalhou entre seus alunos (e ele lecionava em Roma, cidade que, à época, havia eclipsado a Alexandria que, outrora eclipsara a Atenas de Platão como capital do saber) a idéia de que os Hieróglifos (nessa época, um conhecimento praticamente perdido) seriam a Filosofia Pura, a forma perfeita da sabedoria, e que quem conseguisse decifra-los alcançaria o poder dos Deuses, ou seja, poderia transformar as matérias.


        
É claro que os interesses arcanos dos alunos de Plotino se aliaram a seus interesses financeiros, sendo assim, iniciou-se a busca pela chamada Pedra Filosofal, ou seja, a grosso modo, aquilo que a Pedra de Roseta viria a ser: um modo de se decifrar os Hieróglifos. Quem pudesse possuir tal sabedoria, não apenas poderia criar ouro e, com isso, ficar rico, mas também poderia transmutar seu próprio corpo impedindo assim os efeitos do tempo, sendo assim, a idéia da Pedra Filosofal contém em si, a um só tempo, a transmutação das coisas em ouro e o elixir da longa vida, visto que esse era o poder supremo dos Deuses e estava contido nos Hieróglifos.


        
Depois dessa época, aqueles que se dedicavam à procura de uma tradução para os Hieróglifos passaram a se intitular Herméticos, ou seja, membros da Ordem de Hermes, um das mais famosas ordens de magos do imaginário Medieval. Muitas “traduções” de Hieróglifos completamente inventadas ou realizadas à partir de inspirações Divinas (ou mesmo metodologias completamente absurdas) surgiram entre os séculos III d.C. e XIX d.C., quando Jean-François Champollion finalmente, com ajuda não da Pedra Filosofal, mas da Pedra de Roseta, conseguiu traduzi-los realmente e assim, criar um padrão de tradução científico para as escritas Egípcias.


        
Podemos ver que uma busca como a dos Alquimistas, que durante séculos teve extrema importância para a humanidade (na medida em que incentivou-a a descobrir várias coisas) pôde ser originada de uma interpretação equivocada e sem metodologia adequada das palavras de um Sábio e, posteriormente, de um seguidor seu: Platão e Plotino.

 


        
14.6.3 – A Maldição da Tumba de Tutankhamon:

 

         Quem já não ouviu falar da maldição da tumba de Tutankhamon? Praticamente todos os que já ouviram falar em Tutankhamon, certo? Bem, é interessante observar que a maldição de Tutankhamon jamais existiu e foi apenas um embuste criado por vários gurus do segundo quartel do século XX d.C. no intuito de adquirirem fama através de previsões macabras.


        
É verdade que todos os envolvidos na descoberta da tumba morreram, mas isso é natural, na medida em que a tumba foi descoberta por profissionais (se é que se pode chamar os Arqueólogos da década de 1920 d.C. de profissionais) que já estavam na casa dos quarenta anos, sendo assim, uma vez que a tumba foi descoberta em 1922 d.C., o estranho seria se algum deles ainda estivesse vivo. Todos morreram até a década de 1960 d.C., mas se somarmos os 40 anos que tinham quando da descoberta com os quarenta que se seguiram até a década de 1960 d.C., obteremos 80 anos de idade, o que se pode considerar uma expectativa de vida acima da média mundial, que é de 75 anos. Na realidade, quando se fala e se falou em maldição, apenas foram levados em consideração os descobridores da tumba em si e as pessoas importantes ligadas à empreitada; nunca se falou dos peões Egípcios que trabalharam de carregadores e que tinham algo em torno de 20 anos na época, este, com certeza, viveram suas vidas normalmente e não ficaram mais ou menos doentes por causa de Tutankhamon.



Howard Carter, descobridor da tumba de Tutankhamon
         O único indivíduo a morrer precocemente foi o patrocinador de Howard Carter: Lorde Carnarvon. No entanto, ele já era velho e, apesar das condições estranhas de sua morte, o mais provável e que tenha sido vítima de tifo, dengue, malária ou qualquer outra doença causada por picada de inseto, visto que havia levado (antes mesmo de entrar na tumba) uma picada no rosto e esta havia infeccionado.

         O único indivíduo a morrer precocemente foi o patrocinador de Howard Carter: Lorde Carnarvon.


         No entanto, ele já era velho e, apesar das condições estranhas de sua morte, o mais provável e que tenha sido vítima de tifo, dengue, malária ou qualquer outra doença causada por picada de inseto, visto que havia levado (antes mesmo de entrar na tumba) uma picada no rosto e esta havia infeccionado.


        
Todo o furor foi iniciado por Sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, ele confirmou que havia advertido seu amigo Lorde Carnarvon sobre os perigos de se violar a tumba de um Faraó, mas alegou que não havia sido ouvido e atribuiu a morte de Carnarvon a isso. Como uma escritora de romances chamada Marie Corelli, logo que Lorde Carnarvon adoecera (e ele levou mais de um mês doente até que morresse), declarara publicamente que havia enviado uma carta ao lorde pedindo-lhe que não violasse a tumba para não despertar a maldição do Faraó, toda a polêmica se criou. A partir daí, várias histórias foram criadas e contadas, algumas delas falavam sobre a morte trágica de um estudante do British Museum depois de examinar a múmia de Tutankhamon no museu. O detalhe é que a múmia nunca saiu do Egito.


        
Como se pode ver, não há maldição nem sequer fungo secreto, mas, tão somente, uma picada de inseto que poderia matar qualquer um sem que isso despertasse comoção, até mesmo o próprio Lorde Carnarvon, no entanto, como ele havia participado de um feito Histórico recoberto de mistérios, isso bastou para que rumores, boatos e crenças fossem espalhados e, como tudo o que diz respeito ao senso comum costuma fazer, se enraizassem na mente da população comum. É claro, no entanto, que na época não se pôde determinar com exatidão a causa mortis do magnata Inglês e, sendo assim, apesar de todos os argumentos muito mais plausíveis, muitos continuarão teimando em acreditar em uma maldição. É a lei do simplismo... O que se há de fazer?

 


        
14.6.4 – Omm Seti:

 

         Dorothy Eady, foi uma Inglesa que nasceu em 1904 d.C., filha de um casal de classe média, aos três anos de idade ela sofreu um acidente terrível: caiu da escada de sua casa. Os pais chamaram o médico e este, depois de examina-la, declarou-a morta. Foi embora e, uma hora depois, retornou com os agentes funerários. No entanto, a menina estava acordada e brincando como se nada tivesse acontecido.

         Depois do ocorrido, Dorothy nunca mais foi a mesma, passou a reclamar constantemente que queria ir para casa, além de ter um sonho recorrente com um belo lugar que ela julgava ser sua casa.

         Seus pais não sabiam o que fazer, mas pensavam que se tratava de mais uma brincadeira de criança, até que cerca ce um ano depois do acidente, foram passear com a filha no British Museum.

         Uma criança de quatro anos não se sente exatamente a vontade num museu e foi justamente assim que Dorothy se comportou ao longo de quase toda a visita, no entanto, quando sua família chegou ao setor Egípcio do museu a menina se transformou. Corria por toda a sala a observar e tocar todas as estátuas até que parou em frente à múmia do Faraó Seti I e lá ficou até que seus pais tiveram que leva-la embora à força. Fez escândalo, o que é natural, mas acabou indo. Segundo contava, quando sua mãe tentou leva-la embora na primeira vez ela teria dito: “Deixem-me aqui, este é o meu povo!”.

         A partir de então, passou a gostar do Egito e seus pais, querendo agradá-la, compraram uma enciclopédia infantil sobre o Egito. Ao examinar os Hieróglifos, disse a eles que conhecia aquela língua, mas que havia se esquecido. Quando tinha sete anos, um dia seu pai lhe comprou uma revista com o templo de Seti I, em Abidos, na capa. Ao observar a imagem a menina falou: “Esta é a minha casa! Era ali que eu morava! Mas por que está tudo quebrado? E onde está o jardim?”. Seu pai a repreendeu dizendo que não havia jardins no deserto (uma vez que o templo não é exatamente na beira do Nilo, mas na borda do deserto).


         O tempo passou, Dorothy cresceu e começou a trabalhar no British Museum, por onde conseguiu ser indicada para ir pesquisar no Egito. Era tudo o que ela queria, passou a viver numa casa nas proximidades do templo de Seti I, em Abidos. Viveu na casa desde quando chegou ao Egito, em 1956 d.C., até sua morte, em 1981 d.C.. Lá (no Egito, visto que ela chegou ao país em 1933 d.C., mas só conseguiu ir viver em Abidos em 1956 d.C.) ela se casou, teve seu filho, que batizou com o nome de Seti, se separou (visto que o marido não agüentou sua persistência e falta de dedicação a ele) e pesquisou muito.


         Por ter um filho chamado Seti, Dorothy logo passou a ser carinhosamente chamada de Omm Seti, ou seja, a mãe de Seti, nome com o qual adquiriu fama.

Omm Seti


          O fato é que a Arqueóloga insistia que havia um jardim nos fundos do templo, coisa que os demais pesquisadores acreditavam impensável. Ela indicou a localização e até descreveu o jardim como ele era. Sonhava com ele quase todas as noites desde os três anos de idade.

         Certo dia, uma escavação descobriu o impensável: Omm Seti estava certa. Havia realmente um jardim no exato lugar que ela havia delimitado, além disso, ela também falara sobre uma biblioteca secreta e indicara sua localização. Qual não foi o espanto dos Arqueólogos quando, ao escavar neste lugar, encontraram a tal biblioteca?


        
A História de Omm Seti é confusa, segundo uma entrevista que concedeu ao jornalista Jonathan Cott, autor de sua única biografia, Omm Seti teria sido, em sua outra vida, uma Sacerdotisa daquele templo. Devido aos seus votos ela deveria permanecer virgem, no entanto, quebrou-os ao se entregar ao próprio Faraó Seti I (para quem não se lembra, o pai de Ramsés II). O casal se encontrou escondido por muito tempo, no entanto, certo dia ela engravidou. Com medo de ser julgada pelas outras Sacerdotisas e, sob tortura, acabar obrigada a entregar o nome do Faraó, ela se suicidou, o que impediu sua alma de descansar em paz no Amentet (pois, como já foi dito, os Egípcios não acreditavam em reencarnação) e a fez voltar à vida.


        
Seti, quando a viu (agora já como Dortothy, em sua segunda vida) no museu naquele dia, quando ela tinha apenas 4 anos, teria prometido que a encontraria quando fosse a hora certa. Esta hora, segundo ela, chegou quando ela fez 14 anos. Enquanto ela dormia, foi acordada com o peso de alguém sobre ela, quando abriu os olhos viu a múmia do Faraó a pressionar-lhe o corpo e, segundo contou, foi possuída por ele.


        
O Faraó voltou diversas vezes, porém agora não mais como uma múmia, mas sim, com sua aparência humana, ou seja, um belo homem na faixa dos 50 anos de idade. Ficaram juntos por todas as noites até que ela se casou, quando, para não contrariar as leis do Amentet, o Faraó apenas a encontrava, mas eles não se tocavam. Quando ela finalmente foi viver em Abidos e se separou do marido, o Faraó quis voltar a procura-la, mas ela disse a ele que deveria se manter virgem em Abidos, visto que precisava reparar o erro da outra vida para, finalmente, poder entrar em Amentet.


        
Seti I teria então dito a ela que, tão logo ela se juntasse a ele no mundo dos mortos ele a desposaria para todo o sempre. Segundo o diário de Omm Seti, o Faraó vinha todas as noites para conversar com ela sobre todos os assuntos, inclusive sobre as atualidades do mundo, sendo assim, seu diário (que ainda não foi seriamente estudado) está recheado das opiniões de um Faraó do Novo Império. A informação mais impressionante, contudo é a de que a biblioteca que foi encontrada por orientação de Omm Seti não era do conhecimento da Sacerdotisa que ela tinha sido em sua outra vida, mas, como era secreta, sua localização foi contada a Omm Seti pelo próprio Seti I, construtor do templo.


        
A História de Omm Seti é extremamente inverossímil e, não fossem os achados miraculosos e inexplicáveis que ocorreram por suas indicações, não poderiam ser sequer levadas em consideração, no entanto, exatamente por esses achados, o caso de Omm Seti constitui a mais plausível evidência de fenômenos Parapsicológicos de que já se teve notícia. Ela, contudo, nunca foi estudada em vida por nenhum “especialista” nesta área, sendo assim, ficam-nos várias lacunas. Porém, só o que se pode afirmar são três coisas (sendo que a terceira é uma afirmação exclusivamente minha, ou seja, não precisa ser tomada como consensual):

 

         1 – Omm Seti foi valiosíssima para a exploração do sítio Arqueológico do templo de Seti I, em Abidos, sendo, inclusive, a maior responsável pela comprovação de que os templos possuíam um sistema tão avançado de irrigação que eram capazes de manter jardins suntuosos mesmo em meio ao deserto.


        
2 – As descobertas de Omm Seti impressionam até mesmo os mais céticos e podem, no mínimo ser consideradas muito grandes e difíceis para se encaixarem apenas no campo da sorte.


        
3 – A meu ver, o caso de Omm Seti sim, ao contrário de todas as outras especulações que se pode fazer e pensar constitui o maior enigma do Egito, afinal, se a Esfinge foi ou não construída por Quéfren, se ela representa a esta Faraó, ou não, se é a única, ou não, se é resquício de uma civilização anterior, ou não. Isso tudo pode apenas mudar um pouco as nossas concepções sobre um passado Histórico do qual nem sequer temos tantas certezas, mas, se acaso Omm Seti realmente tinha memórias de uma vida passada e realmente recebeu mensagens de algum morto há mais de 3000 anos, então nós não apenas devemos repensar nossos conhecimentos acerca de uma História ainda imprecisa, mas sim, repensar nossas crenças, sejam elas quais forem. Pensem a respeito...

        


Continuação