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Egito: o Berço do Ideal Imperial

Danilo José Figueiredo
danilo@klepsidra.net
Mestrando em História Social/USP

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<- Tribos, Deuses e Migrações: O Período Formativo

         3 – O Período Pré-Dinástico:

 

         Religião sempre foi a mais forte presença na vida dos Egípcios antigos, sendo assim, não é de se estranhar que essa tradição seja proveniente do período formativo. Pois bem, junte-se num caldeirão a falta de animais aliada às técnicas rudimentares de domínio das cheias e vazantes do Nilo, o que ocasiona falta constante de alimentos, e um mundo povoado por diversos deuses, por vezes inimigos; e se tem um campo perfeito para a eclosão de diversas guerras, na verdade, se tem um campo perfeito para guerras quase constantes.


        
Era assim o Egito em seu período formativo. Agora vejamos, de acordo com as teorias mais aceitas sobre a origem das Monarquias, normalmente considera-se que estas estejam ligadas à guerra, mas por quê?


        
Bem, como já havia sido mencionado, decisões polêmicas e/ou difíceis deveriam ser legitimadas pelos Zazat, no entanto, este não poderia se reunir constantemente para tomar decisões, uma vez que era composto pelo grosso da população e que esta precisava trabalhar para que a própria existência do Spat fosse possível, por isso, não é de se espantar que frente a uma situação de guerras quase constantes, o próprio corpo dos indivíduos que guerreavam (predominante ou exclusivamente homens) escolhesse entre suas fileiras uma espécie de chefe militar supremo, responsável tanto pela organização dos exércitos, quanto pelas táticas de guerra.


Este, por sua vez, obtendo vitórias proveitosas para a comunidade, poderia se converter numa espécie de herói e adquirir uma posição de respeito diferenciada da dos demais. Com o tempo, esse indivíduo poderia não ver mais necessidade na antiga estruturação do Spat, ou ainda, o próprio Spat poderia abdicar (a princípio temporariamente, mas depois indefinidamente) de sua antiga organização em prol da vontade e da capacidade desse indivíduo. É assim que surgem os Reis.


Esta transformação, cuja enumeração dos fatos exposta acima é apenas a mais provável, mas não a única, teria ocorrido nas sociedades do Vale do Nilo por volta do ano 3100, quando se inicia o período conhecido como Pré-Dinástico.


 

3.1 – Das Guerras à Formação dos Dois Egitos:

 

Entre 3100 e 2920, o Egito vive períodos de guerras quase ininterruptas. É nesse período que começam a se formar os Estados Egípcios e é nesse período também que a Cosmologia Egípcia tradicional começa a tomar forma, pois, na medida em que um Spat vai anexando outro, um deus vai se sobrepondo na hierarquia a outro e, dessa forma, surge uma espécie de hierarquia divina. É óbvio que cada Spat tinha sua divindade principal, mas, além dela, diversas outras que também eram cultuadas. Possivelmente havia divindades cultuadas em vários Spat, o que também pode ter ocasionado alianças entre eles sem que conquistas militares fossem necessárias.


Por volta de 3400, uma infiltração cada vez maior de Mesopotâmicos, em especial Acadianos, no Delta do Nilo denota ou um conquista da região, ou uma leva migratória de comerciantes e artesãos, seja como for, esse movimento pode ter sido importante não apenas para a introdução de novas tecnologias e idéias (como a própria idéia da escrita, todavia, a escrita cuneiforme não foi copiada, mas pode ter influenciado o povo do Egito na criação de sua própria forma de relatar aos fatos) no Egito, mas também para a aceleração do processo de unificação daquela região. Existem teorias que associam o culto ao deus Hórus a esses imigrantes, sendo assim, aquele que viria a ser um dos (senão o) principais deuses do Panteão Egípcio não seria Egípcio realmente, mas Acadiano. Seja como for, falaremos sobre a Religião em ocasiões um pouco mais adiante.


      
Por volta do ano 2980, a configuração política do Vale do Nilo havia se transformado profundamente. Os Spat do sul haviam se unido (por tratados e conquistas) sob um Rei em Hierakonpolis, formando o Alto Egito, o povo de Set.


        
Já os Spat do Delta, muito possivelmente devido à influência centralizadora externa, se haviam unido (talvez como fruto de uma associação, talvez de conquistas, talvez de uma mistura) sob um Rei residente em Buto e temente a Hórus.


        
Estava configurado o panorama que daria origem ao Estado que unificaria o Vale do Nilo: o Egito.

 


        
3.2 – O Escorpião-Rei e os Símbolos Monárquicos:

 

         Certamente a unificação dos diversos Spat era tarefa que requeria algo mais do que a força militar, na realidade, pode-se praticamente afirmar que ela seria impossível se não fosse a escrita.


         A Escrita se fazia necessária para organizar o controle de tributos, de tropas, de população. Se fazia necessária para contar a terra possuída e mesmo para registrar os feitos dos grandes conquistadores.


        
Um desses grandes conquistadores foi justamente imortalizado pela escrita rudimentar dos últimos anos do período Pré-Dinástico. Esse governante era o famoso Escorpião-Rei.



O "Escorpião-Rei"
do cinema

           Antes de falarmos mais profundamente sobre este personagem, devemos ressaltar que o filme feito a seu respeito em nada tem de verossímil. Primeiramente, é pouco provável que o Escorpião-Rei fosse um estrangeiro (o filme o intitula Acadiano), uma vez que se tratava de um Rei do Alto Egito e a penetração Acadiana se deu no Baixo Egito. Em segundo lugar, sua aliança com a Núbia é impensada numa época tão remota; a Núbia e o Egito ainda não tinham estabelecido qualquer contato formal. Em terceiro lugar, o filme utiliza cavalos e camelos que, como já foi explicado, não existiam no Egito nessa época.


        
Em quarto lugar, as armas utilizadas são de aço e ferro, enquanto que nem sequer as armas de cobre ou de bronze haviam sido introduzidas no Egito, possivelmente os guerreiros daquela época lutavam com lanças com pontas de sílex, pedras arremessadas, maças de madeira e manguais (até arcos e flechas são improváveis numa época tão recuada). Em quinto lugar, a capital do Egito (já unificado, o que é um erro, visto que o Escorpião-Rei é um Rei anterior à unificação) é Sodoma, cidade bíblica que, caso tenha existido, certamente não se situava no Egito. Por fim, as cidades Egípcias não eram muradas (como no filme é sugerido), o Escorpião-Rei não unificou o Egito e, não havia nenhum tipo de inventor-alquimista com possibilidades de inventar a pólvora, também não havia contatos do Egito com a China.


        
Agora que o filme “O Escorpião-Rei” já foi desmistificado, podemos tratar do personagem histórico Escorpião-Rei. Este governante parece ter Reinado na cidade de Hierakonpolis, a capital do Alto Egito. A cidade contava à época de seu governo com uma população aproximada de 10000 habitantes, ou seja, era a maior cidade do Egito. À partir dessa capital, o Escorpião-Rei, que utilizava a coroa branca do Alto Egito na cabeça, invadiu e derrotou o Baixo Egito, mas, apesar de tê-lo pilhado e de ter matado muitas pessoas (talvez milhares), não foi capaz de eliminar a Realeza de Buto e de capturar a coroa vermelha do Baixo Egito.


 

         3.3 – A Unificação do Egito:

 

         Segundo Mâneton de Sebennitos, Historiador Grego que viveu em Alexandria na época da XXXI Dinastia e para quem o Faraó Ptolomeu Sóter I encomendou uma lista dos Faraós do Egito, o unificador do país teria sido um Faraó de nome Menés. Mâneton é até hoje a maior referência que se tem para listar os Faraós e descrever seus governos, se bem que, por falta de material, para agradar ao Faraó e para colaborar com a crença vigente em sua época (século IV a.C.) de que o Egito seria a mais antiga civilização do mundo, Mâneton recuou as origens do Estado Egípcio para datas impraticáveis como 9500 a.C.. Essa teoria, tida como válida por muito tempo, hoje esta totalmente desmistificada (ao menos do ponto de vista científico), no entanto ainda gera controvérsias no campo da especulação esotérica.


    Mas pautemo-nos por hora em Mâneton (posteriormente falaremos melhor das questões esotéricas que envolvem o Egito). Para ele Menés teria sido o unificador do Egito. Não sabemos quais fontes o Historiador teria utilizador e tal tarefa é hoje (passados tantos anos da destruição da Biblioteca de Alexandria) virtualmente impossível, mas dados os principais achados arqueológicos disponíveis, somos levados a crer que Menés seria uma forma Grega de se dizer o nome de Narmer.

       
Narmer é o primeiro Faraó que a Arqueologia tem indícios fortes para considerar como sendo o lendário Menés. Existe uma paleta (conhecida como Paleta Narmer) que mostra em uma de suas faces este Faraó utilizando a coroa branca do Alto Egito e na outra o mesmo Faraó utilizando a coroa vermelha do Baixo Egito.


Reprodução da Paleta de Narmer


         Segundo a tradução de Sir Alan Gardiner, um dos maiores especialistas contemporâneos em hieróglifos, apesar de a escrita do tempo de Narmer ser ainda uma versão não aprimorada daquele que surgiria na III Dinastia e que perduraria por toda a História do Egito Faraônico, é possível notar que Narmer está sendo saudado como conquistador do norte (Baixo Egito), tendo matado 1400 homens e capturado 400 mil bois e 1,422 milhão de cabras, além dos estandartes dos Spat do Baixo Egito.


        
Se a Paleta Narmer realmente tiver sido traduzida corretamente e realmente o Alto Egito conquistou o Baixo, então, temos um problema de ordem religiosa a resolver.


        
Pensemos, se as guerras entre os Spat foram causadas originalmente por, entre outros motivos, disputas religiosas, eram natural que os vencedores fossem impondo suas crenças aos derrotados, certo?


        
Porém, como já havia sido dito, a divindade principal do Alto Egito era Set e a do Baixo Egito era Hórus. Se o Alto Egito conquistou o Baixo, então por que Hórus se tornou o Deus da Monarquia Egípcia?


        
Bem, inicialmente devemos notar a disposição de Narmer em apaziguar a região conquistada e dar a ela realmente uma consciência de unidade em relação a seu conquistador. O Faraó (o primeiro a merecer o título, uma vez que Faraó, a rigor, é o governante do Alto e do Baixo Egito, sendo assim, antes de Narmer é mais corretor que se se refira aos governantes como Reis) casou-se com uma princesa do Baixo Egito (se bem que é provável que toda a Dinastia de Buto tenha sido exterminada e/ou expulsa, mas uma princesa foi escolhida para legitimar o governo sobre a região conquistada) e iniciou a construção de um Palácio de Muros Brancos ao redor do qual se ergueu uma nova capital para o Egito unificado. Esta capital, localizada quase na divisa entre o Alto e o Baixo Egito foi batizada de Mênfis, ou seja, Palácio dos Muros Brancos. Lá, todos os Faraós recém-coroados deveriam dar uma volta correndo sozinhos ao redor do palácio para comprovar sua saúde física e para simbolizar que haviam percorrido todo o Egito mantendo-o unificado.



Pintura mostra Narmer, ao centro
         Pois bem, Narmer (e também seus sucessores, que mantiveram a prática de se casarem com princesas do norte (talvez filha de Nomarcas (governantes de Spat))) fizeram de tudo para que o Baixo Egito aceitasse a dominação imposta pelo Alto Egito não como uma dominação imposta, mas como um acordo entre as partes. No entanto, a destruição da Monarquia Acadiana e a subserviência de seu Deus Hórus em relação a Set fizeram com que revoltas eclodissem e, sendo assim, a I Dinastia acabou por se encerrar de forma trágica, como assassinato do Faraó Qa’a.


        
A II Dinastia teve como seu primeiro Faraó Hotepsekhemuy, cujo nome significa “Os dois poderes estão pacificados”. O que indica uma solução para a crise que se havia estabelecido no final da I Dinastia. No entanto, a crise voltou a imperar com uma conspiração de Peribsen para derrubar Nineter do trono e se tornar Faraó. Aproveitando esses distúrbios na casa Real, o Baixo Egito se sublevou mais uma vez, o que fez do governo de Peribsen um fracasso.


        
Khasekhem assumiu o poder restaurando a crise que não voltou a eclodir, mas, a partir dessa data, o que se vê é a figura de Hórus como Deus principal da Monarquia, o que nos leva a crer que para aplacar a fúria da população do norte que se via como dominada, o Faraó resolveu mudar o Deus Dinástico de modo a se aproximar do povo revoltado e se mostrar amigável.


        
Parece que o estratagema deu certo, uma vez que à partir daí o Egito seguiu unificado por quatro Dinastias, no entanto, Set, antigo Deus Dinástico, acabou condenado a um papel de Deus maligno. Talvez esse papel lhe tenha cabido porque os habitantes do Delta associavam sua figura às milhares de mortes necessárias para a unificação do país.

 


        
3.4 – Práticas Funerárias Proto Dinásticas:

 

         A I e a II Dinastias também são chamadas de Período Proto Dinástico, visto que foi neste período (que durou de 2920 a 2686) que os elementos fundamentais da organização da civilização Egípcia posterior viriam a se estabelecer. Elementos esses como a pintura, a escultura, a escrita e, sobretudo, a mumificação.


        
É possível que a idéia da imortalidade da alma, inerente aos Egípcios antigos, tenha surgido através da observação, ou seja, é muito provável que as populações dos períodos Pré-Dinástico e Neolítico, devido à necessidade de preservar as boas terras para o plantio, enterrassem seus mortos nas secas areias do deserto. Essas areias desidratavam completamente o corpo antes que a putrefação fosse possível, sendo assim, ele ficava conservado. Eventualmente, tempestades de areia ou o simples mover vagaroso dos ventos do deserto punham um desses corpos mumificados naturalmente à mostra revelando cadáveres com cabelos e até roupas, o que permitia sua identificação. Essas experiências podem ter levados os antigos egípcios as acreditar na vida após a morte, teoria que seria o principal dogma de sua complicada Religião.


        
Com a substituição dos Zazat e Saru pelos Reis-Heróis, pode ter havido uma necessidade de se glorificar a vida post mortem de tais figuras e, sendo assim, passou-se a construir mausoléus funerários para eles. Porém, ao isolarem os corpos das causticantes areias do deserto, os mausoléus colaboravam com o processo de putrefação e, dessa forma, os corpos que visavam proteger acabavam por ser destruídos.


        
Com a unificação do Egito, o poder daqueles Reis (que agora eram um só: o Faraó) cresceu muito ascendendo a um status semi-divino (status esse que também só seria consolidado na III Dinastia) e, sendo assim, não era mais aceitável que tais soberanos corressem o risco de não desfrutar de uma vida após a morte adequada, sendo assim, desenvolveu-se uma técnica de evitar a putrefação do corpo, desenvolveu-se a técnica da mumificação.


        
Os soberanos possuíam muitos empregados, servos e, talvez até mesmo escravos, além de mulheres e pessoas de quem gostavam. Quando morriam, queriam que tais indivíduos estivessem com eles, por isso, sempre que um Faraó da I e II Dinastias morria, um grande séqüito de seguidores era obrigado (ou talvez se oferecia como voluntário, mas a primeira opção é mais plausível) a se envenenar para, morrendo, acompanhar seu Faraó em sua viagem para o além.


        
Disse que a hipótese da obrigação parecia mais plausível do que a do suicídio voluntário não por duvidar que alguém possa querer morrer por suas crenças, afinal, como se não bastassem os terroristas de hoje em dia que nos mostram diariamente que são capazes de se matar por sua fé, houve povos, como os Maias, que praticavam o auto-sacrifício com um regularidade tão grande que chegavam a comprometer seus contingentes populacionais em determinadas vilas. Afirmei, no entanto que entre os Egípcios essa não devia ser a regra porque, se o fosse, não teriam sido inventados os ubshabts, ou seja, pequenas estatuetas de servos para serem utilizados no além túmulo, dessa forma, poupando do sacrifício as dezenas (ou talvez centenas) de pessoas que estariam destinadas a servir o Faraó em sua vida após a morte.


        
Até este período não se construíam pirâmides no Egito e os Faraós, bem como os homens mais importantes eram enterrados em grandes tumbas de pedra retangular chamadas mastabas. Dentro das mastabas poderiam haver corredores que ligavam a várias salas, mas, não havia qualquer sistema de segurança contra roubos porque ate então era inconcebível que uma tumba Real fosse saqueada.


        
Apenas para um efeito de elucidação, os Egípcios antigos não acreditavam em reencarnação de qualquer tipo, afinal, seus esforços tumulares e seus sacrifícios não se destinavam a outra coisa senão gerar no além uma continuidade deste mundo, um mundo perfeito onde a Maat (conceito que será debatido mais adiante) era soberana.

 

 

Continuação