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Egito: o Berço do Ideal Imperial
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Como
vimos, o período denominado Antigo Império (também chamado Reino Antigo)
inicia-se com a III Dinastia, por volta de 2686. Mas qual foi a grande transformação
que determinou que a Arqueologia (que, no caso específico do Egito, tem um
nome mais apropriado: Egiptologia) e a História passassem a considerar o
período iniciado com o Reinado de Sanakhte como sendo um período distinto
daquele vivido pelas duas primeiras Dinastias Egípcias?
| Bem,
além do fenômeno da construção de pirâmides, que se inicia no governo de
Djeser (ou Djoser), segundo Faraó da III Dinastia, outro forte dado para
a escolha da III Dinastia como sendo o marco inicial do Antigo Império foi
o provável estabelecimento da escrita hieroglífica (se bem que muitos estudiosos
dessa escrita não concordem que as formas utilizadas no início do Antigo
Império fossem as mesmas que se eternizaram como sendo o padrão de escrita
hieroglífica clássica, encontrado, sobretudo, nos túmulos das Dinastias do
Novo Império). Para este trabalho, aceitaremos a datação do início do Antigo
Império na III Dinastia, mas entenderemos que o principal divisor de águas
entre este novo período e seu predecessor seria tão somente a adoção de Hórus
como nova Divindade Dinástica suprimindo o culto oficial de Set. |
Baixo-relevo em parede mostra ilustração de Djeser |
4.1
– Os Semi-Deuses de Mênfis:
Os
Faraós do Antigo Império governaram à partir da cidade de Mênfis, construída
por Narmer e Aha no local tido como a mítica vila natal do Escorpião-Rei:
Tura. Se esta procedência era verdadeira, não é possível saber, muito pelo
fato de Mênfis não conter tantos resquícios arqueológicos quanto outras capitais
Egípcias posteriores, como Tebas. Isso porque, pelo fato de a cidade se localizar
praticamente no Delta, os índices pluviométricos, bem como os estragos causados
pelas cheias do Nilo se fazem muito mais fortes; o que destruiu muitos possíveis
achados.
Agora que o Egito estava definitivamente apaziguado e que
já se podia contar com uma escrita (ainda que não totalmente definitiva) capaz
de permitir a administração de longas faixas de terra (é bom que se saiba
que aquilo que se entende como sendo o Egito compreende uma faixa de terra
relativamente estreita que se localiza nas margens do Nilo nos seus últimos
1200km antes de atingir o Mediterrâneo), era chegada a hora de se estabelecer
um regime que proporcionasse sua eterna continuação. Algo precisaria ser
criado nesse sentido.
Com o intuito de se eternizarem no poder, os soberanos, devem,
por volta do final da II Dinastia, ter se feito proclamar criaturas divinas.
Isso talvez não fosse algo absurdo para aqueles homens e, possivelmente teria
sido uma mera amplificação das atribuições dos antigos Reis-Heróis dos Spat
Pré-Dinásticos. Na medida em que um desses Reis conseguiu se sobrepor aos
demais e se fazer proclamar Faraó, o Rei do Alto e do Baixo Egito, era mais
do que natural que só o tivesse podido fazer pela graça dos Deuses e, sendo
assim, a idéia de que ele próprio fosse um “Escolhido dos Deuses” e, posteriormente
um “Deus Vivo” não constituía um delírio, algo inaceitável pela população.
Há que se lembrar que o Egito não contava com nenhum meio
de comunicação que não fosse o Nilo, ou seja, as notícias corriam, em geral
através de convocações Estatais e histórias contadas de boca-a-boca, levadas
Nilo acima e Nilo abaixo por mercadores, viajantes e oficiais do Faraó. Sendo
assim, um indivíduo de tamanho poder, vivendo num palácio numa cidade mitológica,
sobre o qual se contavam histórias incríveis seria naturalmente digno de
temor, senão de adoração (ou talvez ambos); como um verdadeiro Deus.
A deificação do faraó se concretiza na III Dinastia e esta
aliada à crença (agora reforçada pela descoberta da mumificação) na vida
após a morte, tendia a transformar o poder do soberano algo incomensurável
dentro dos padrões humanos.
4.2 – A Maat e o Espírito do Egito:
É
impossível se estudar a História do Egito Antigo sem se mencionar e, principalmente,
se compreender o conceito de Maat. Não é possível, no entanto, conceber com
exatidão quando este conceito começou a ser formulado pelos Egípcios, porém,
algumas sugestões podem ser dadas a esse respeito (farei isso, contudo, neste
mesmo item, porém, após a explicação do que é a Maat).
Maat é uma palavra Egípcia cuja tradução literal implicaria
em dois termos distintos, se bem que afins: Verdade e Justiça! Essa era a
base sociedade Egípcia e, toda vez que este conceito era abalado, algo acontecia
de muito grave no Vale do Nilo.
Para os Egípcios, a Maat estava relacionada à idéia de Ordem,
de continuidade, ou seja, se tudo continuasse como sempre foi (camponeses
trabalhando, guerreiros guerreando, governantes governando, o Faraó organizando
tudo e prestando culto aos Deuses...), a Justiça e a Verdade estariam sendo
cumpridas e espalhadas pelo Egito. Porém se algo abalasse a Ordem (algo
simples como a morte do Faraó, ainda que por causas naturais), então a Maat
estaria em risco.
Como foi afirmado, não é possível precisar quando esse conceito
foi estabelecido, mas o mais provável é ele seja o resultado de uma busca
por estabilidade político-social no Período Proto Dinástico (I e II Dinastias)
enfim alcançada. É certo, porém, que para ter se tornado um conceito universal
dentro do Egito, sendo cultuado e aceito por cada indivíduo desde o mais humilde
camponês até o próprio Faraó e sua corte, a Maat não pode ter sido meramente
formulada num dado momento e imposta à força à população, por isso, é provável
que seu conceito seja uma reelaboração (e talvez até uma revisão) de costumes
mais antigos, que talvez remontassem a épocas longínquas onde a população
ainda era nômade. Aliás, uma boa teoria para o surgimento do conceito de
Maat seria a idéia de diferenciação entre os povos sedentarizados das margens
do Nilo e os povos ainda nômades que vagavam pelo deserto acampando e se
estabelecendo temporariamente em oásis.
Quando um Faraó morria, o período de tempo até que um outro
soberano assumisse o poder era um período de conturbações onde a Maat corria
sérios riscos. As crenças populares relacionavam anos de cheias irregulares
(muito altas (capazes de destruir vilas e casas ao invés de ajudar com o
humos restaurador da vida) ou muito baixas (o que trazia a certeza de más
colheitas e, portanto, de fome)) do Nilo com distúrbios na Maat. Tamanha
era a crença na Maat que não é difícil relaciona-la com uma modificação na
teoria da vida após a morte surgida no início do Antigo Império, ou seja,
esta estaria agora totalmente dependente da Maat. Vejamos:
Se o Faraó era o enviado dos Deuses os Egito para assegurar
a manutenção do Reino, cabia a ele, acima de qualquer outro, zelar pela Maat.
Se seu governo tivesse sido bom e, dessa forma do agrado dos Deuses, então
o Faraó mereceria culto por muitos e muitos anos (virtualmente pelo resto
da eternidade), sendo assim, seria eterno no pós-morte. Se o Faraó fosse
eterno no pós-morte, ele continuaria exercendo por lá o mesmo papel que
exercia em vida, ou seja, o de governante e, dessa forma, precisaria de um
Estado para governar. Esse Estado seria composto pelos indivíduos que habitavam
o Egito enquanto ele era vivo e que, dessa maneira foram beneficiados por
sua competente manutenção da Maat. Sendo assim, se o Faraó fosse bom e vivesse
para sempre, logo todo o Egito viveria, ou seja, a vida após a morte dos
indivíduos do Antigo Império não era individual, mas ligada ao Espírito do
Egito: a Maat. Esta, por sua vez era dependente do bom governo do Faraó que,
por sua vez, só poderia se realizar com a colaboração da população o que
obrigava todos a se engajarem na luta pela manutenção da Maat.
4.3 – A Expansão Territorial e a Formação do Exército:
Tão
logo o Egito estava consolidado, a intenção dos Faraós se voltou para os
territórios além Nilo, ou seja, para a Núbia (que, apesar de se localizar
também às margens do Nilo, ao sul, talvez pela etnia, talvez pelas cataratas
que constituíam barreiras naturais à expansão humana, não fazia parte do
Egito), para a Líbia, para o Sinai e para os povos dos oásis.
O Egito havia alcançado um nível de organização político
incomparável com qualquer civilização da mesma época, no entanto, seus exércitos
ainda eram organizados da mesma forma primitiva que aqueles dos antigos
Spat.
Homens que trabalhavam no campo e que não dispunham de qualquer
treinamento militar eram periodicamente convocados pelos líderes regionais
(sobre a organização política do Egito discorrerei um pouco mais adiante)
para integrar o exército nacional. Recebiam lanças, fundas, clavas e manguais,
às vezes recebiam certos tipos de capacetes e escudos e partiam, divididos
em pelotões de infantaria apenas, para marchas de conquista.
É certo que a organização do Estado Egípcio, bem como a agricultura
de irrigação, permitiam que o contingente populacional fosse bem grande,
o que tornava praticamente impossível aos agredidos resistir por muito tempo
aos assaltos Egípcios. Porém, perdas constantes de homens que constituíam
força de trabalho tanto privada quanto pública (no período da Inundação)
poderiam enfraquecer o poder do Egito.
Não é comprovado, mas especula-se que desde os tempos mais
remotos o Faraó sempre fora o comandante militar supremo do Egito, sendo
assim (coisa que não é de se admirar, uma vez que eram os descendentes dos
antigos Reis-Heróis glorificados no combate), sua presença necessariamente
inspirava os guerreiros que, afinal de contas, estavam combatendo lado a
lado com um Semi-Deus.
Os contatos comerciais com a Fenícia foram alguns dos primeiros
movimentos internacionais realizados pelo Egito centralizado, talvez até
os Monarcas do Proto Dinástico já os tivessem iniciado e era através desses
contatos que o Egito obtinha o cedro tão necessário para a navegação.
Os primeiros esforços militares
de expansão devem ter sido em direção à Núbia, afinal, sabia-se que lá havia
muitas minas de ouro. A região que não era tão bem organizada (na realidade
não se sabe quase nada sobre a organização política da Núbia (atual Sudão)
numa época tão recuada) foi facilmente submetida e nela foram instalados
colonos mineiros. Além da instalação de Egípcios na Núbia, é muito provável
que tenha havido um certo intercâmbio populacional, já que produtos da Núbia
eram bem vistos no Egito e que, dentro de pouco tempo, passa-se a ver mercenários
Núbios agindo como guardas pessoais do Faraó.
O domínio da Núbia consistia em se vencer as cataratas do Nilo e, sendo assim,
no Antigo Império, ele não passou da região entre a primeira e a segunda
cataratas.
Tomadas as minas da Núbia, o próximo passo era marchar rumo
ao Sinai, a península que divide a África e a Ásia, localizada ao norte do
mar Vermelho. No Sinai existiam grandes quantidades de cobre e este material
era indispensável para a evolução militar do Egito, além de turquesas, pedras
muito apreciadas pelos Egípcios (acredita-se que as primeiras expedições
ao Sinai com o objetivo de obter turquesas tenham ocorrido ainda na I Dinastia,
sob a liderança dos Faraós Djet e Den). Com o cobre extraído no Sinai foram
confeccionadas novas armas, mais eficientes que as de madeira, sílex e pedra
utilizadas até então e, a partir desse domínio, o fôlego militar do país
dos Faraós aumentou.
Com o domínio do Sinai, estabeleceram-se portos no mar Vermelho
e, a partir deles, foram lançadas expedições marítimas ao lendário Punt (país
ou região mais comumente associada à atual Somália), de onde foram trazidas
diversas raridades, inclusive girafas.
O próximo rumo dos exércitos seria os oásis, ou seja, seria
a pacificação das populações nômades e semi-nômades que, por sua própria
existência, comprometiam a Maat, visto que não pode haver Ordem num mundo
de Caos e incerteza como o dos nômades e o que era pior, esse indivíduos
habitavam as proximidades do Nilo e, vez por outra, atacavam populações de
vilas menores em busca de saques e de animais domesticados. Isso precisava
parar e os Faraós se dedicaram a faze-lo.
No caminho natural da expansão o Egito atingiu a Líbia, região
que, devido à proximidade com o Delta e à característica nômade de sua população
atacava freqüentemente o Egito, e de lá trouxe mais produtos inusitados e
mais mercenários para servirem nos palácios do Faraó, bem como escravos
(o Faraó Snefru, da IV Dinastia, aprisionou mais de sete mil Núbios e onze
mil Líbios em duas campanhas distintas).
Por volta do início da VI Dinastia, os primeiros contatos comerciais
entre Egito e Creta são relatados por fontes Minóicas (Cretenses), o que
comprova que os Egípcios já haviam conseguido dominar a navegação marítima
com certa tranqüilidade, a ponto de arriscarem precisos navios em comércio
com Creta.
Com efeito, a expansão do antigo Império não foi um fenômeno
rápido como a narrativa linear faz parecer, ela perdurou por mais de 400
anos sendo interrompida em determinados períodos e intensificada em outros.
Porém, mais do que formar um grande Império, coisa que ela não foi apta a
fazer (uma vez que apenas conseguiu pacificar parcialmente os povos nômades
do deserto, e estabelecer colônias mineradoras no Sinai e no norte da Núbia
a região mais tarde conhecida como País de Kush), essa expansão foi uma
das responsáveis pela consolidação do ideal de nação Egípcia, na medida em
que fez com que povos das mais variadas regiões lutassem juntos num só exército,
além de por o Egito em contato com povos estrangeiros, coisa que, em escala
tão grande, nunca tinha acontecido até então.
Como efeito secundário da expansão podemos notar a formação
de uma espécie de guarda nacional de mercenários, responsável pela defesa
do Egito e não pela conquista de territórios e uma melhora significativa
na capacidade bélica dos exércitos com a introdução gradual de novas armas
(primeiro os escudos, depois os capacetes e, por fim, as armas de cobre).
No final do Antigo Império surge o kopesh, uma arma que viria a ser uma
marca registrada da região do Egito por muitos e muitos anos, até mesmo os
soldados de Napoleão Bonaparte tiveram que enfrentar guerreiros Mamelucos
do Egito que, montados em camelos, empunhavam cimitarras, aperfeiçoamentos
do antigo kopesh Egípcio inventado no final do Antigo Império.
4.4 – O Faraó, a Política e Poder no Egito:
Mencionei
anteriormente que o Egito era dividido em Spat, ou Nomos, mencionei também
que estes eram espécies de conglomerados de vilas próximas ligadas a uma
espécie de vila-mãe e que eram aproximadamente 40 distribuídos ao longo de
toda a extensão do Nilo.
Pois bem, a partir desses Spat, como já foi mencionado, se
processou a unificação gradual do Egito que culminou na criação de dois Reinos
que posteriormente foram unificados em um só por Narmer e seus sucessores.
A questão que nos resta é justamente como se processava a
divisão política dentro do Egito depois de sua unificação, visto que, como
já expliquei, antes dela havia Assembléias Populares (Zazat) e Conselhos
de Anciãos (Saru), que foram gradualmente substituídos por autoridades Reais
obtidas em batalhas.
Continuando uma evolução lógica da polícia Egípcia, percebe-se
que através de alianças e/ou combates os antigos Reis-Heróis foram unindo
os Spat sobre sua autoridade e essa união resultou no Egito, mas não podemos
deixar de ter em mente que não é porque um povo é conquistado por outro e
passa a ser por ele dominado que todas as suas particularidades culturais
desaparecem. É certo, no entanto, que um domínio muito prolongado pode impor
certos traços culturais do dominador, como, por exemplo, a língua (o que
explicaria que apenas um idioma (o Egípcio) se espalhasse por todo o Egito).
Após a unificação de alguns Spat, o Rei do Spat que se encontrava em situação
de preponderância era intitulado Rei e os demais, governadores de províncias,
essa situação permaneceu mesmo após a unificação de todo o Egito, sendo assim,
esse antigos Reis passavam agora a ser espécies de governadores que, neste
texto, seguindo o termo Grego, serão chamados de Nomarcas.
Cada Nomarca era, com efeito, uma espécie de Rei em seu Spat.
Vivia em uma cidade central e controlava-a, bem como às diversas vilas que
constituíam seu domínio. Havia um resquício do antigo Saru, ou seja, uma
espécie de Conselho dos cidadãos mais importantes de cada uma das vilas que
assistia o Nomarca no governo da província. O Zazat nunca deixou de existir,
mas, é muito provável que se algum dia tivesse realmente tido algum tipo
de poder de voto, no Egito unificado tenha sido reduzido apenas a uma reunião
pública onde os membros do Saru comunicavam as decisões do Nomarca e/ou
do Faraó.
É óbvio que um sistema burocrático tão descentralizado e,
ao mesmo tempo tão centralizado (descentralizado do ponto de vista em que
existiam diversas instancias de poder público e centralizado no sentido em
que algumas dessas instâncias eram de fato detentoras de muito poder sobre
as regiões às quais lhe cabia mandar) não poderia existir se não contasse
com muitos oficiais régios. Estes oficiais, bem como os próprios governantes
das mais variadas instâncias tinham de ser necessariamente letrados, sendo
assim, os oficiais redigiam documentos ditados por seus superiores e eram
encarregados de leva-los a quem fosse devido e de, no caso de avisos à população,
lê-los em público. Estes oficiais são popularmente conhecidos como Escribas
e trabalhavam na só no governo, mas também nos mais variados templos.
4.4.1 – O Alto e o Baixo Egito:
Como
originalmente o Egito havia sido unificado em dois Reinos e como ele nunca
deixou de se reconhecer oficialmente como a união de dois Reinos sob um
único governante, nada mais natural que houvesse um governante no Alto Egito
e um no Baixo Egito, ambos imediatamente abaixo do Faraó. Este cargo realmente
existia era conhecido como Tjati (muitos livros referem-se a este cargo com
o título de Vizir, o que é um erro, uma vez que tal título é de origem Turca
e só seria implantado por volta do século XII d.C., quando os Seldjúcidas
se tornariam Vizires dos Califas Abássidas de Bagdad), uma espécie de Primeiro
Ministro.
Na realidade, o Tjati era o supremo chefe político do país
e habitava em uma grande cidade do Reino, usualmente Hierakonpolis no Alto
Egito ou Buto no Baixo Egito.
As atribuições dos Tjati eram as mais variadas possíveis,
desde servirem como supremas cortes judiciais no caso de o julgamento dos
Nomarcas não ser considerado adequado em algum caso, até ordens administrativas
de menor importância relacionadas ao Reino. Com efeito, a própria existência
do Tjati visava reduzir um pouco a já atribulada agenda do Faraó. Em tempos
futuros, na época do Novo Império, passará a haver dois Tjati, um no Alto
Egito que viria a viver em Tebas e um no Baixo Egito em Hiliópolis, sendo
que, dependendo de onde o Faraó optasse por morar, ele poderia vir a ser
controlado por um de seus Tjati. Este era o cargo de maior prestígio que
poderia ser ocupado por alguém de origem popular, desde que, é claro, fizesse
por merecer uma indicação do Faraó.
Ser Tjati implicou, como veremos, em várias épocas, em mandar
no Egito inteiro sem que seu nome fosse conhecido por muitos, uma verdadeira
“Eminência Parda”.
4.4.2 – A Agenda do Faraó:
O
Faraó era o único verdadeiro Sacerdote de todo o Egito, além de ser o chefe
supremo dos exércitos e da política. Apesar de ser considerado um Semi-Deus,
o Faraó era apenas humano e, como tal, jamais daria conta de exercer todas
essas obrigações sozinho, sendo assim, utilizava-se de auxiliares.
No caso da política, esse auxiliar era o Tjati, no caso dos
exércitos, os Generais e no caso das funções religiosas eram os Sacerdotes.
Dependendo das características pessoais do Faraó ele poderia
optar por ser aproximar mais de uma ou de outra função. Portanto, houve Faraós
que se empenhavam muito e pessoalmente em campanhas militares, outros que
viajavam o Egito inteiro freqüentemente para fazer cerimônias religiosas
nos mais diversos templos da nação e outros que preferiam se ocupar de ordens
políticas, como construções e recrutamentos para trabalhos diversos.
Estando presente o Faraó, era ele quem realizava o culto
ao deus do templo, fosse este qual fosse, afinal, o Faraó era um Deus em
essência, apesar de ser um homem na forma, o que lhe fornecia a atribuição
de cultuar os seus iguais.
Como Sacerdotes, os Faraós podiam entrar nas câmaras escuras
onde residiam os Deuses representados por suas estátuas, podiam vê-las, unta-las
e vesti-las, podiam dar-lhes de comer e orar a elas. Em sua falta, quem fazia
estas tarefas eram os Sacerdotes, os homens indicados pelo Faraó, ou em nome
dele, para realizar funções sacras. O mais interessante sobre os Sacerdotes
é que eles eram funcionários do Estado e não necessariamente fiéis do Deus
que eram incumbidos de cultuar. Ocorriam muitas vezes de Sacerdotes devotos
de um Deus serem nomeados para o culto de um outro, o que não influenciava
na qualidade do serviço do indivíduo, visto que fazia parte de suas obrigações
para com a manutenção da Maat prezar pelo cuidado com as estátuas dos Deuses.
De uma maneira um tanto aproximada, os Deuses originais de
cada Spat continuaram sendo os Deuses principais daquelas comunidades para
sempre, porém, a fama de alguns Deuses fazia deles campeões da fé nacional
(como veremos mais adiante). O que é mais interessante é que aquelas entidades
originalmente zoomórficas, com a deificação do Faraó (um humano), foram adquirindo
formas intermediárias entre animais e homens, sendo assim, começam a surgir
Deuse antropomórficos e ainda antropozoomórficos.
4.4.3 – A Sucessão Real:
Talvez
por causa da atitude de Narmer de ter desposado uma princesa do norte, talvez
por algum costume Neolítico mais obscuro, talvez por alguma tentativa de
apaziguamento das populações do Baixo Egito perpetrada pelos Monarcas do
Proto Dinástico, ninguém sabe ao certo, mas o fato é que a fórmula de sucessão
ao trono desde os primórdios do Antigo Império seguiu praticamente inalterada
até o final do Novo Império, sendo que alguns Faraós posteriores vieram a
adota-la novamente como forma de legitimação de seus poderes.
A fórmula não era tão simples quanto a tradicional primogenitura
masculina Européia, ou seja, a forma de sucessão onde o mais velho filho
homem do Monarca será o próximo governante. Entre os Egípcios, a sucessão
Real era transmitida pelas mulheres, se bem que elas não pudessem legalmente
ocupar o trono (ainda que em determinadas ocasiões o tenham feito).
Para começar a exposição, precisamos explicar que apesar
de a monogamia ser a regra na sociedade Egípcia, o Faraó, e apenas ele, estava
livre para se casar com quantas mulheres quisesse. As mulheres do Faraó eram
distribuídas em três categorias de importância: Concubinas, Esposas Secundárias
e a Grande Mulher do Rei.
Qualquer mulher que o Faraó desejasse, desde simples criadas,
até uma camponesa, passando por escravas e até mesmo estrangeiras poderia
ser uma Concubina. Essas esposas terciárias habitavam o harém do Faraó e
eram verdadeiras escravas sexuais do Semi-Deus. Estavam sempre bem limpas
e cuidadas estando à disposição do Faraó para saciar seus impulsos sexuais.
Seus filhos muitas vezes se tornavam Oficiais, Escribas, Sacerdotes e Sacerdotisas,
além de possíveis esposas (no caso de filhas) de Sacerdotes e dignatários
de importância intermediária.
Princesas estrangeiras, filhas de grandes Sacerdotes e dignatários,
esposas do Faraó morto, dentre outras mulheres de grande ou relativa importância
poderiam vir a se tornar Esposas Secundárias do Faraó. De fato, os Faraós
utilizavam este tipo de casamento como política de alianças e como chances
de diversificação das chances de possuírem um filho homem. Porém, não devia
haver muitas Esposas Secundárias, talvez um número aproximado de dez apenas.
Filhas dessas mulheres estavam destinadas a se casarem com seus irmãos,
com altos funcionários, como o Tjati, com Reis estrangeiros ou ainda a se
tornarem Sacerdotisas de grandes templos do Egito. Os Filhos dessas Esposas
Secundárias do Faraó poderiam vir a se tornar os novos Faraós, ou ainda altos
Sacerdotes, Generais, chefes de colônias mineradoras estrangeiras (como no
Sinai e na Núbia) e, mais tarde, Vice-Reis de importantes regiões submetidas.
A Grande Mulher do Rei era apenas uma, muitos autores se
referem a ela como sendo a Rainha do Egito, mas isso é um erro, pois o seu
título não a nomeava dessa forma. Sua procedência é controversa, sabe-se,
no entanto, que Faraós poderosos como Amenófis III casaram-se com mulheres
de origens não dignas e elevaram-nas à condição de sua Grande Mulher. Acredita-se
que originalmente a Grande Esposa do rei devesse ser necessariamente uma
princesa do Baixo Egito, sendo assim, ela poderia ser de linhagem estrangeira
(descendente dos Acadianos), ao menos no Antigo Império. Caso ela tivesse
filhos homens, uma deles (usualmente o mais velho) seria o novo Faraó, no
entanto, caso ela só viesse a ter filhas, o indivíduo que viesse a desposar
a mais velha delas seria o novo Faraó.
Por essa razão os Faraós costumavam preparar seus escolhidos
como sucessores (usualmente um filho de uma de suas Esposas Secundárias) para
estarem aptos a ocupar o cargo quando chegasse a hora e entre essas preparações
constava o casamento do herdeiro com a filha mais velha do Faraó com sua
Grande Mulher. Essas precauções eram tomadas para que no momento de perturbação
de Maat advindo da morte do Faraó, nenhum oportunista forçasse seu casamento
com uma das princesas e, dessa forma, se tornasse o novo Faraó.
Caso a Grande Mulher do Rei não tivesse nenhum filho, o novo
Faraó seria aquele que com ela se casasse após a morte de seu marido. Com
efeito, no Egito Antigo eram as mulheres que portavam o poder Real e os desígnios
da Maat faziam com que um determinado indivíduo se casasse com elas e, dessa
forma se mostrasse como sendo o eleito dos Deuses para ser o novo Faraó,
para ser o Deus Vivo do Egito.
Mas se as mulheres transmitiam o poder Real, como as Dinastias
mudavam?
Bem, Dinastias podiam mudar de várias maneiras, ataques, golpes
de Estado... Porém, o modo mais usual era quando o Faraó morria sem deixar
filhos homens, sendo assim um indivíduo que não pertencia à linhagem Real
desposava a filha mais velha da Grande Mulher do Rei e se tornava Faraó.
É bom, no entanto, que se tenha em mente que quem dividiu a História do Egito
em XXXI Dinastias foi Mâneton, sendo assim é muito pouco provável que os
Egípcios tivessem essa noção de continuidade e descontinuidade de governantes,
só o que sabiam era que seu Semi-Deus os estava governando.
4.4.4
– Os Símbolos do Poder Faraônico:
Como
já mencionei no item sobre o Escorpião-Rei, os principais símbolos de poder
do Egito eram as duas coroas: a branca do Alto Egito e a vermelha do Baixo
Egito. No entanto, não eram esses os únicos símbolos de poder daquela civilização
que se encontravam nas mãos do Faraó.
A coroa branca e a coroa vermelha eram os mais antigos símbolos
de poder do Egito tendo sido estabelecidas na época do Período Pré-Dinástico.
Talvez fossem os símbolos de poder dos Spat que unificaram respectivamente
o Alto e o Baixo Egito. Quando da unificação nacional, ambas caíram nas mãos
de um só indivíduo e, ao invés de serem substituídas por uma terceira coroa,
foram brilhantemente fundidas numa só, aliás, as duas coroas se encaixavam
perfeitamente fazendo uma terceira coroa.
As influências semíticas nas tradições Egípcias são muito
visíveis, por exemplo, um dos principais símbolos de poder dos Faraós era
uma longa barba falsa presa a seu queixo, um símbolo de sabedoria e, por
conseguinte, poder oriundo das tradições semitas.
Como o Faraó era ao mesmo tempo um bom pastor que guiava
seu povo segundo os desígnios da Maat e um Deus punidor capaz de castigar
quaisquer indivíduos que fossem merecedores de tal punição, ele utilizava
em uma das mãos um cajado de ponta curva, como aqueles utilizados pelos
pastores de ovelhas; e na outra mão um mangual como o utilizado pelos guerreiros
nos campos de batalha para massacrar seus inimigos.
Com a expansão militar do Egito ao longo do Antigo Império
e a participação do Faraó em campanhas militares, ele precisaria de um capacete
que o protegesse de possíveis ataques nos combates, mas que também demonstrasse
perante seus súditos que ele era o Faraó. Este capacete foi criado por volta
do final da II Dinastia e concentrava em si o poder militar de todo o Egito.
Ele era azul com listras douradas, talvez de ouro, além de possuir fitas
de linho presas em sua parte posterior.
Outro símbolo de poder era o rabo de touro que o Faraó utilizava
atado à sua cinta em ocasiões especiais, os especialistas ainda não conseguiram
chegar a um consenso sobre a função simbólica deste ícone, mas, possivelmente
ele está relacionado à característica de pastor (condutor) que o Faraó possuía,
algo semelhante ao cajado de pastor por ele portado.
Talvez o mais conhecido símbolo do poder Faraônico eram toucas
de linho rijo com fios de ouro, normalmente vermelhas ou azuis que o Faraó
utilizava sobre a cabeça quando estava em seu palácio, visto que ele nunca
era visto em público com a cabeça descoberta (por razões que serão explicadas
mais adiante neste mesmo sub-item).
Por fim, o Faraó possuía dois Nems, espécie de coroa que
ele utilizava sobre a cabeça. Uma delas possuía as insígnias do Baixo Egito
(duas enormes penas erguidas) e a outra possuía as insígnias do Alto Egito
(um chifre de carneiro encerrando um disco solar).
Salvo pela exceção das coroas do Baixo Egito e Alto Egito
e da coroa militar, todos os demais pertences podiam ser sepultados junto
com o Faraó. Porém, as três coroas, por representarem o Egito, deveriam
permanecer na atividade sendo transferidas de Faraó para Faraó. É possível
que só tenha havido um único exemplar de cada uma delas ao longo de toda
a História Egípcia, no entanto, nenhuma delas jamais foi encontrada.
Em todas as coberturas de cabeça utilizadas pelo Faraó havia
uma serpente pendendo sobre a testa do Monarca. Acreditava-se que caso alguém
se aproximasse muito dele sem ser convidado a serpente o fulminaria com um
fogo venenoso. Além disso, qualquer um que tocasse ou fosse tocado pelo Faraó
morreria instantaneamente por ter tocado o próprio Sol. A única maneira
de evitar a morte numa ocasião dessas era obter o perdão do Faraó. Apenas
em ocasiões muito especiais o Faraó permitia que indivíduos ilustríssimos
se prostrassem perante ele e beijassem seus pés.
Havia Sacerdotes especialmente designados para manter as
pessoas longe do Faraó, esses Sacerdotes, devido à proximidade que mantinham
com o governante do Egito, precisavam se purificar constantemente com banhos
para evitar sua própria ruína.
4.5 – Razões para a Desintegração do Antigo Império:
Ao
longo de quatro Dinastias o Egito cresceu, se expandiu e dominou outras regiões.
O comércio com países distantes como Punt, Fenícia e Creta trouxe artigos
nunca antes vistos no Vale do Nilo, além de mercenários e escravos das mais
diversas etnias. A introdução do cobre inseriu o Egito, ainda que tardiamente,
na Idade dos Metais e o poder dos Faraós só fez crescer, sendo que a IV
Dinastia foi seu período de maior esplendor em todos os tempos.
Dentro de um contexto de tanta pujança é difícil pensar que
o Egito pudesse entrar em decadência. Muitos Historiadores têm se questionado
sobre a razão que teria feito com que o Antigo Império se desagregasse. Porém,
dada a distância no tempo em que se encontram os fatos é muito difícil precisar
alguma coisa. Em termos gerais, três grandes teorias se mostram as menos
imperfeitas acerca de tal desintegração. Vejamos as três:
Segundo alguns estudiosos, a razão para a bancarrota do Antigo
Império teria sido o longo governo de Pepi II (Neferkará Phiops II), que,
segundo alguns, teria durado mais de 90 anos. Para estes pesquisadores, o
fato de um Faraó governar tanto tempo teria comprometido a política militar,
uma vez que para eles apenas o Faraó poderia liderar expedições punitivas
e conquistadoras, sendo assim, devido ao grande período de senilidade pelo
qual teria passado Pepi II, essas expedições teriam deixado de ocorrer o
que teria ocasionado a perda das colônias da Núbia e do Sinai, bem como um
fortalecimento demasiado dos Líbios, dessa maneira, quando o Faraó morreu,
seu sucessor não teria sido forte o suficiente para combater as investidas
Líbias e o Antigo Império teria entrado em colapso. Para agravar a situação,
Pepi II teria vivido mais do que seus filhos e esposas, sendo assim, teria
morrido sem deixar herdeiros legais, o que acarretou numa mudança de Dinastia
e, por conseguinte, na ascensão de um Monarca sem legitimidade ou ainda,
quiçá, no início de disputas Dinásticas que teriam corroído o Reino de dentro
para fora.
Essa teoria pode ser convincente, mas há nelas alguns problemas,
por exemplo, um dos mais fortes indícios para se crer que Pepi II viveu tanto
são as listas de Mâneton (que já foram mencionadas), no entanto, como já
foi dito, no que se refere às seis Dinastias do Antigo Império, Mâneton prolonga
em demasia os governos de modo a conseguir fazer com que a História do Egito
remonte ao século XCV a.C., ao invés do século XXXI a.C, como se pensa hoje.
Outro motivo é que se alega que uma estela datada do governo de Pepi II confirmaria
o longo governo daquele Faraó, no entanto, se analisarmos a própria História
do Egito, veremos que no Novo Império, o Faraó Horemheb (último governante
da XVIII Dinastia) fez com que os nomes de seus quatro predecessores (Aye,
Tutankhamon, Smenkhare e Akhenaton) fossem riscados do mapa, dessa forma,
seu primeiro ano de governo foi legalmente seu trigésimo. Caso este Faraó
tivesse governado por trinta anos mais, teríamos um governo de sessenta anos.
É claro que no caso de Horemheb, sua farsa foi descoberta pelos Egiptólogos,
porém, ele Reinou quase mil anos depois de Pepi II, sendo assim, muito mais
vestígios nos restam dos tempos de seu governo. É muito possível e provável
que Pepi II, seja por que motivo for (no caso de Horemheb, como veremos,
foi pra apagar da História o Período de Amarna, comandado por Akhenaton),
tenha querido alongar seu tempo de governo e, sendo assim, talvez tenha mandado
suprimir da História o governo de um ou mais Faraós ganhando vários anos
para seu governo e conseqüente glória. Dou essas afirmações como certas pelo
fato de a expectativa de vida média dos habitantes do Egito Antigo não ser
superior a 45 anos. É verdade que as condições de vida do Faraó eram as melhores
possíveis, mas também é verdade que mais do que dobrar a expectativa de vida
média de uma população é algo muito difícil, para se ter uma idéia, um brasileiro
que conseguisse a proeza de Pepi II teria que viver ao menos 150 anos. Como
disse uma vez ao jornalista Roberto Navarro da Revista Super Interessante,
em entrevista; acredito que seja pouquíssimo provável, senão impossível,
que Pepi II tenha vivido tanto, sou muito mais propenso a pensar que seus
infindáveis anos de governo se tratem de uma fraude Histórica ainda não descoberta.
Agora que já desmistifiquei o longo governo de Pepi II, resta-me
a árdua tarefa de explicar porque então o Antigo Império entrou em desintegração
e acabou ruindo tão rapidamente.
Antes de começar a expor minhas teorias, gostaria de dizer
que elas não são minhas, mas apenas duas das teorias a que tive acesso em
minha pesquisa. Não as considero perfeitas, mas, tão somente, as melhores
dentre as que pude ler.
Alguns pesquisadores, apoiados em dados climáticos passados
(não me perguntem como tais cálculos são feitos, não entendo nada de astronomia,
geologia e coisas do gênero) chegaram à conclusão de que houve um período
de leve resfriamento no centro da África por volta do final do século XXIII
e início do XXII a.C.. Este resfriamento não foi significativo a ponto de
se tornar perceptível para as populações que habitavam as margens do Nilo,
no entanto, foi o suficiente para reduzir o fator de degelo das montanhas
onde nasce aquele que é tido como o mais extenso rio do mundo. Graças a esse
degelo diminuto, as cheias de vários anos a fio não foram suficientes para
sustentar a agricultura necessária para a manutenção do Egito e, sendo assim,
uma crise iniciou-se.
Com os armazéns vazios, o Faraó não teve escolha senão suspender
o envio de comida para as colônias mineiras do Sinai e da Núbia, além disso,
expedições militares se tornavam inviáveis, por demandarem provisões em
estoque. Sem comida e sem ouro, o comércio internacional também naufragou
e, dessa forma, o Egito começou a regredir.
Naturalmente, esses desequilíbrios climáticos provocaram
o caos e foram vistos como um forte abalo na Maat, sendo assim, o poder do
Faraó começou a ser contestado. Aliado a isso, talvez esteja o fato de Pepi
II ter vivido muito (não os quase cem anos que lhe são atribuídos, mas ainda
assim, muito), o que pode tê-lo deixado sem herdeiros, sendo assim, quando
este veio a falecer, uma luta sucessória pode ter sido desencadeada (como
falaremos mais adiante) essa luta aliada às invasões do Delta pelos Líbios
que já não eram combatidos em suas terras, fez com que o poder dos Nomarcas
voltasse a crescer e, sendo assim, os Spat voltaram a ser independentes na
prática e cada Nomarca voltou a ser uma espécie de pequeno Rei.
A outra teoria, a que considero a melhor e, portanto, a que
deixei por último, não associa a derrocada do Antigo Império a um rápido
período ocorrido na VI Dinastia, mas sim, a um longo processo Histórico iniciado
na gloriosa IV Dinastia. Segundo essa teoria, os Monarcas da IV Dinastia,
por se sentirem tão divinos quanto a população julgava que fossem, teriam
desenvolvido práticas protecionistas em relação a família Real. Dessa forma,
todos os cargos públicos importantes passaram a ser ocupados por pessoas
dessa família, talvez para evitar, como havia ocorrido na III Dinastia,
que um indivíduo de origens populares como Imhotep (do qual falaremos mais
adiante) ascendesse a cargos que lhe proporcionassem uma futura deificação.
Talvez como forma de garantir que sua família fosse perpetuada
na condição de grande soberana do Egito para todo o sempre; os Faraós da
IV Dinastia desenvolveram uma revolução religiosa (que será pormenorizada
no item específico). Essa revolução consistiu basicamente em intensificar
o culto a uma divindade antiga: Ra, de Heliópolis.
Ra, o Deus Pássaro, era tido como pai de Hórus (se bem que
como veremos, este Deus também era filho de Osíris), o Deus Falcão da Realeza
e, sendo assim, seu clero passou a ser imposto como o principal clero do
Egito, coisa que até então nunca havia acontecido. O acesso ao clero de Ra
só era permitido aos membros da família Real e, sendo assim, por esse subterfúgio,
eles podiam permanecer no controle de todos os aspectos da sociedade, com
seus pares legitimando suas ações.
No entanto, o que inicialmente pareceu uma boa idéia, logo
se mostrou ruim, visto que a procedência Real dos Sacerdotes de Ra fazia
com que suas reivindicações possuíssem muito mais legitimidade do que a
de quaisquer outros indivíduos, sendo assim, o Faraó passou a doar terras
para o clero de Ra, o que fez com que ele se tornasse extremamente poderoso.
Com o fim da IV Dinastia e a ascensão da V, o clero de Ra
continuou dominado pelos descendentes da antiga Dinastia Reinante e, sendo
assim, como já não viam seus parentes sentados no trono de Mênfis, começaram
a utilizar seus poderes políticos (advindos das terras dos templos que lhes
haviam sido doadas pelos Faraós da IV Dinastia) e sua força religiosa para
pressionar o poder central. Em pouco tempo, o Faraó, que antes era o Hórus
vivo, ou seja, um Deus, passou a ser visto como o filho de Ra, ou seja, o
filho de um Deus, o que diminuiu seu status. Isso explicaria o fato de na
V Dinastia a construção de pirâmides ter declinado (com a diminuição do
tamanho e da importância devotadas a essas construções) e a construções de
templos e obeliscos (estes eram os tronos de Ra na Terra, onde ele se sentava
todas as manhãs, com o nascer do Sol) a Ra ter se intensificado.
Visando consertar essa situação, os Faraós da VI Dinastias
passaram a favorecer os Nomarcas, visando adquirir uma forte base de sustentação
política que lhes permitisse suplantar o poder do clero de Ra. Porém, essa
tentativa teria sido o último erro dos Monarcas do Antigo Império, uma vez
que os recursos destinados a financiar a expansão eram agora doados aos Nomarcas.
Estes, por sua vez, ao invés de garantir sustentação política ao Faraó, se
fizeram, aos poucos, pequenos Reis em seus próprios Spat, alguns, se fazendo
adorar entre seus subalternos, como verdadeiros Deuses. O Faraó viu seu poder
ruir e aí talvez entre o longo governo de Pepi II, que, por ter visto o Faraó
morrer sem deixar herdeiros legítimos, teria precipitado uma crise que já
se arrastava lentamente desde o período de maior poder dos Faraós do Antigo
Império.
4.6 – Práticas Funerárias do Antigo Império:
Durante todo o Antigo Império
a capital do Egito foi a cidade de Mênfis e, em suas proximidades existe
uma região conhecida como Sakkara. Nesta região, desde os primórdios da
I Dinastia, os Faraós eram enterrados em suas mastabas (como já foi mencionado).
Sakkara acabou por se transformar numa espécie de Necrópole, a primeira do
Egito Antigo.
Com o tempo os Faraós construíam
suas mastabas e, ao seu redor, mastabas menores eram erigidas para seus
asseclas mais próximos.
Não se sabe ao certo com que
intuito (se bem que isso será discutido mais adiante), mas provavelmente
com o de demonstrar sua grandeza, o segundo Faraó da III Dinastia: Djeser
(de quem já fiz alguns comentários), incumbiu seu Arquiteto Real de construir
um túmulo piramidal.
Ao contrário do que se pensa,
os Egípcios não eram grandes matemáticos (ao menos não até Euclides, no século
IV a.C., mas mesmo este não era Egípcio, mas Grego radicado em Alexandria),
sendo assim, suas obras arquitetônicas monumentais se tornam ainda mais maravilhosas.
Pirâmide de Imhotep |
A pirâmide de Djeser,
por exemplo, foi construída por Imhotep (sim este é o indivíduo que inspirou
o filme “A Múmia”, se bem que seu comportamento e sua história nada tenham
em comum com os do personagem monstruoso do cinema hollywoodiano) à partir
de cálculos simples apoiados por tentativas. Esta pirâmide, também chamada
de pirâmide de mastabas foi a primeira do Egito e consistiu basicamente de
uma pilha de cinco mastabas em tamanho decrescente. |
Estátua de Imhotep
O Imhotep do cinema ("A Múmia") |
A fama alcançada por Imhotep
devido à construção da pirâmide foi tamanha que ele se tornou popularmente
conhecido como o homem mais sábio do Egito, sendo considerado um grande arquiteto,
médico e mágico. Quando faleceu, passou a ser cultuado como Deus da Cura,
tendo seu culto resistido até o Período Ptolomaico. Ele foi realmente o criador
da medicina Egípcia, além de ser o inventor dos tetos sustentados por colunadas,
técnica que depois seria exportada do Egito para a Grécia e se tornaria
a principal marca arquitetônica daquela civilização.
A idéia de culto ao Faraó ganhou mais força ao longo da III Dinastia chegando ao seu ápice durante a IV. Nesta época, quando um Faraó morria, seu corpo era sepultado em Sakkara, mas uma estátua sua era erigida em Abidos onde ele seria cultuado para todo o sempre. |
4.6.1 – As Glórias da IV
Dinastia:
Sem exageros a IV Dinastia
pode ser considerada como sendo aquela em que o poder dos Faraós mais foi
grande, além disso, também é a Dinastia que construiu as obras mais impressionantes
da História Egípcia.
A Dinastia se inicia com Snefru
chegando ao trono por se casar com a filha do Faraó Huni (último governante
da III Dinastia que morreu sem deixar filhos homens). Em seu governo, Snefru
construiu nada menos do que três pirâmides. Na verdade, concluiu a pirâmide
deixada incompleta por seu sogro e construiu mais duas: a Pedra do Sul (a
famosa pirâmide inclinada) e a Pedra do Norte (a primeira pirâmide no estilo
tradicionalmente conhecido), ambas em Dahshur.
A Pedra do Norte era a maior
pirâmide construída até então e foi a primeira a se parecer com aquilo que
nós hoje entendemos por pirâmides. Isso porque Snefru teve a idéia de mandar
preencher os degraus externos de sua pirâmide para dar a ela um visual mais
suave e retilíneo (de acordo com a Maat, como ela se expressa na arte Egípcia).
O filho de Snefru, Khufu (mais
conhecido como Quéops) levou a construção de pirâmides ao auge de seu esplendor.
Sua pirâmide (construída no planalto de Gizé) levou mais de vinte anos de
trabalho de cerca de cem mil homens para ficar pronta, mas é a maior maravilha
do Egito Antigo tendo consumido mais de 2,3 milhões de blocos de pedra (para
se ter uma idéia do volume de tal pirâmide, basta saber que se ela fosse
transformada em cascalhos, seria possível construir com esse produto uma
estrada de duas pistas e trinta centímetros de espessura que saísse Monte
Caburaí (na Amazônia) e fosse até o Arroio Chuí (no Rio Grande do Sul), ou
seja, que cortaria o Brasil inteiro). E não é só, a pirâmide era recoberta
por uma cobertura calcária de Tudra que brilhava ao sol e sobre tal cobertura
estavam gravados milhares de hieróglifos (hoje já não existem tais inscrições
que foram destruídas e/ou roubadas por Cristãos, Muçulmanos e pretensos magos
ao longo dos séculos, no entanto, no século XII d.C., o escritor Árabe Abd
el Latif escreveu que os hieróglifos que ainda recobriam a pirâmide seriam
suficientes para preencher mais de dez mil páginas de livros). O que estava
escrito na Grande Pirâmide de Quéops? Nunca saberemos...
Agora imaginemos como deve
ser difícil construir algo de tamanhas proporções sobre as instáveis areis
do deserto. Bem, agora que já pensamos nisso e uma vez que já sabemos que
os Egípcios não eram exímios matemáticos, como explicar que a Grande Pirâmide
esteja situada sobre um chão cuja margem de erro em relação à horizontalidade
perfeita é de apenas 0,004%?
| Agora vejamos, será mesmo
que é possível conceber a construção de edifícios tão complexos quanto as
Grandes Pirâmides num tempo tão recuado e com uma matemática tão pouco avançada?
Bem, para muito isso não parece razoável e é justamente daí que surgem teorias
como as de Erich von Däniken, que atribuem construções como as Pirâmides
a seres extra-terrestres, ou ainda teorias como as que falam sobre Atlântida
e outras civilizações perdidas muito mais antigas do que as mais antigas
civilizações de que se tem notícias e que de tão avançadas teriam inspirado
toda a evolução subseqüente do mundo. |
Esquema de um corte lateral na Pirâmide de Quéops, com seus caminhos internos e câmaras mortuárias secretas |
Essas teorias são, em sua grande
maioria, completamente infundadas, mas não resta dúvida que existem muitas
passagens obscuras na História da Humanidade, ainda mais se levarmos em conta
que toda a História posterior à Antigüidade conta apenas pouco mais de um
quarto da duração de tempo que aquele período teve sozinho, ou seja, tempo
para que coisas acontecessem e fossem esquecidas houve, especialmente se
levarmos em conta que não havia meios de comunicação eficientes como os de
hoje. Não estou, é claro, falando em alienígenas ou mesmo em civilizações
antigas mais desenvolvidas. Estou apenas deixando um ponto em aberto, algo
que, a meu ver não deve ser abandonado como falso na medida em que não se
pode prova-lo como tal, mas que também não deve ser aceito como verdadeiro
pela mesma razão, deve apenas ser deixado em aberto.
Mas, depois dessa digressão,
voltemos a falar das Grandes Pirâmides. Elas foram construídas por Khufu
(Quéops), Khafre (Quéfren) e Menkaure (Miquerinos) e, segundo algumas teorias
tidas como mais sérias, poderiam ter feito parte de uma espécie de programa
estatal de combate ao desemprego gerado pelo “boom” populacional dos primeiros
anos do Antigo Império.
| É claro que tais teorias
têm que ser compreendidas dentro da ótica de seus teóricos, pessoas que aceitam
como verdadeira a “Hipótese Causal Hidráulica” e que, dessa forma, entendem
que depois da centralização do poder o Egito teria atingido o estágio necessário
para começar a explorar os recursos do Nilo, coisa que, segundo a teoria
adotada neste texto, o Egito já fazia muito tempo antes da unificação, mais
precisamente, desde os tempos dos Spat. Seja como for, essas três pirâmides demandaram muito tempo e mão-de-obra para serem construídas e construções tão bem acabadas não podiam ser feitas com quatro meses (o Período da Inundação) de trabalhos anuais apenas, mas necessitavam de trabalhos constantes, sendo assim é quase certo que houvesse um grupo de trabalhadores altamente qualificados que fosse contratado do Estado em tempo integral para organizar a obra e montar sua infraestrutura, sendo que durante o Período da Inundação esse grupo era reforçado por legiões de trabalhadores. Quanto ao fato de escravos terem sido utilizados na construção das pirâmides, essa hipótese já está totalmente descartada. Isso porque tanto a população pagava seus tributos ao governo em trabalhos, quanto a construção de um local de repouso eterno para o Semi-Deus se tratava, antes de tudo, de um ato de fé, o que certamente arrastava muitos trabalhadores de livre e espontânea vontade, em busca da garantia de suas próprias vidas após a morte, uma vez que a do Faraó fosse assegurada. |
Pirâmide de Quéfren, com a Esfinge à frente
Esquema interno da Pirâmide de Quéfren
Esquema interno da Pirâmide de Miquerinos |
No que se refere aos processos
de construção, o que mais se acredita possível é que houvesse uma espécie
de moldura arredondada de madeira que era encaixada nas laterais das rochas
de modo a faze-las aptas a rodas. Porém, outra teoria forte era a de que
uma espécie de tapete era colocada sob a rocha e o chão por onde este iria
deslizar era molhado para facilitar o deslocamento, sendo assim, a rocha
seria arrastada do porto onde desembarcava (sim, porque o grosso do trajeto
era feito de barco pelo Nilo) até o local da construção. Os que defendem
esta teoria o fazem por dizer que as rodas afundariam nas areias, o que dificultaria
ainda mais o transporte, além disso, eles também dizem que antes do Novo
Império, quando da introdução das bigas, não há indícios da utilização da
roda no Egito, visto que todo o transporte era realizado pelo Nilo, não havendo
nem sequer estradas. A acomodação das pedras era, com certeza o processo
mais trabalhoso, visto que não havia qualquer tipo de guindaste, sendo assim,
para cada novo andar seria necessária a ampliação da passarela de acesso
que era desmontada tão logo a pirâmide estava concluída. É ainda possível
que se utilizasse um modo de construção destacado na Grécia, ou seja, o modo
de ser ir enterrando o andar que estava pronto para se ter acesso aos níveis
mais altos através de um andaime natural de areia. Por fim, quando a construção
ficava pronta, desenterrava-se o edifício dando-lhe seu acabamento.
4.6.2 – Os Enigmas da Esfinge:
Se as Pirâmides de Gizé foram
consideradas por Antípatro de Sídon, no século II a.C. como uma das Sete
Maravilhas do Mundo, a Esfinge certamente não o foi por estar, à época da
passagem do Grego pelo Egito, coberta pelas areias do deserto, como, aliás,
ela esteve por vários períodos da História do Egito. Existe uma inscrição
encontrada em sua capela (entre suas patas, como será explicado mais adiante)
que diz que o Faraó Tutmés IV a desenterrou das areias onde jazia há muito
tempo.
A Esfinge |
A Esfinge é uma grande
estátua antropozoomórfica, com corpo leonino e feições humanas cuja presença
está inserida no contexto do complexo funerário da Pirâmide de Quéfren,
inclusive com uma espécie de avenida ligando-a a pirâmide. Ela foi esculpida
naquilo que é o cume de uma montanha recoberta pela areia, sendo assim,
não foi necessário transportar toneladas de pedras de lugares distantes para
o Planalto de Gizé. Até aí, nenhum mistério, nenhum enigma. |
No entanto, como sempre sucedeu
com tudo o que se refere ao Egito Antigo, a Esfinge sempre esteve cercada
de especulações científicas e pseudo-científicas a respeito de tudo, desde
sua origem até seu propósito, passando pelos padrões de erosão de sua superfície.
Para começo de conversa, existem
os rumores de que é possível entrar dentro da Esfinge, ou seja, de que existem
câmaras internas dentro da estátua. Na realidade, nunca ninguém encontrou
(ou ao menos divulgou ter encontrado) uma entrada para a esfinge, contudo,
exames de densidade da rocha e de ressonância comprovam que de fato há galerias
internas e o que é mais intrigante: cheias d’água. Alguns especialistas explicam
o fenômeno de forma simples, dizem que existem cavernas dentro da montanha
no topo da qual a Esfinge foi esculpida e que tais cavernas estariam cheias
d’água por uma dessas duas razões: ou seria apenas um braço do lençol freático,
ou seria a conseqüência de uma suposta prática do Egito Antigo de encher
com água o recinto da Esfinge de modo que esta ficasse apenas com a cabeça
fora d’água. Esta água teria se infiltrado e se acumulado nas galerias internas
estando impedida de evaporar e permanecendo lá até hoje.
É bem verdade, no entanto,
que escavações realizadas entre as patas da Esfinge encontraram uma espécie
de capela abarrotada de estelas de Faraós, aliás, numa dessas estelas aparece
o nome Khaf, primeira sílaba de Khafre (Quéfren), o que serviu como reforço
indelével para a teoria de que este Faraó teria sido o responsável pela
construção da Esfinge, no entanto, o que muitos não levam em consideração
é o fato do nome estar incompleto e não estar envolto na Cártula Real (espécie
de circunferência oval que contornava os nomes dos Faraós Egípcios). Além
disso, o texto em que esse nome aparece não indica que este indivíduo construiu
a Esfinge, mas sim que construiu algo para o Deus Aton-Harmakhis (também
chamado de Ra-Horemkhat), ou seja, a Esfinge (uma vez que se acredita que
a Esfinge seja a representação do deus solar), o que pode indicar apenas que
tenha construído uma imagem, ou mesmo a própria estela, para a Esfinge.
Seja como for, existem videntes
e profetas que alegam que dentro das galerias da Esfinge estariam papiros
com informações sobre o destino do mundo e que das duas uma: ou esses papiros
ainda estão por ser encontrados e, sendo assim, por trazer suas informações
para a humanidade, ou já foram encontradas e hoje constam dos arquivos secretos
de alguma antiga potência colonialista Européia (ou mesmo dos EUA).
O que fica de realmente instigante
nessa especulação é a necessidade de se saber o que há realmente dentro
das galerias da Esfinge e se elas são naturais ou não.
Outra interessante teoria sobre
a Esfinge diz respeito aos padrões de erosão encontrados em sua superfície.
Há algum tempo, em 1991, um renomado Professor de Geologia da Universidade
de Boston chamado Robert Schoch, a pedido e patrocínio do esotérico John
Anthony West (indivíduo extremamente mal quisto entre os Egiptólogos tradicionais,
por defender, desde os anos 70, teorias de que Atlântida realmente existiu
e de que uma civilização perdida de Marte teria influenciado a evolução da
civilização na Terra), estudou os padrões de erosão da estátua (que mede
73,15m de comprimento por 20m de altura) e chegou à conclusão de que eles
só poderiam ter sido causados por água. Essa conclusão gerou frisson entre
os Egiptólogos, uma vez que os índices pluviométricos dos últimos 4000 anos
não seriam suficientes para causar tais erosões. Novamente falou-se da teoria
de que se enchia o recinto da Esfinge de água deixando-a apenas com a cabeça
para fora o que, aliás, explicaria o fato de a cabeça ser bem menos erodida
do que o resto do corpo da estátua. Houve diversas discussões e o Professor
Schoch acabou propondo que uma piscina de águas paradas não seria suficiente
para causar aquelas erosões, sendo assim, o impasse estava criado.
As teorias do geólogo Americano,
reforçadas pelas dos dois gurus, Adrian Gilbert e Robert Bauval, autores
do livro “The Orion Mystery” (que não trabalharam junto com ele, mas
que também formularam teorias (estas Astrológicas (e não Astronômicas)) para
o recuo da data da construção da Esfinge), chegaram à conclusão de que o
padrão de erosão seria resultado de chuvas torrenciais que teriam varrido
o Egito entre 10500 e 7000 a.C. (é bom que se saiba que para alguns as chuvas
teriam começado a escassear por volta de 9500, como foi mencionado no início
do texto, mas talvez só tenham realmente se encerrado por volta de 7000).
O problema é que esta data se situa, pelo menos, mais de 4500 anos antes
da data tida como sendo a da construção da Esfinge por Quéfren. Choveram
então hipóteses que iam desde a associação da Esfinge com a Atlântida, como
as divulgadas amplamente pelo esotérico Graham Hancock, até uma aceitação
das datações de Mâneton para a cronologia da História do Egito. Porém, outro
renomado geólogo, Dr. James Harrell, da Universidade de Toledo, na Espanha,
lançou uma teoria que contrapunha a do primeiro: segundo ele, os padrões
de erosão da Esfinge se dão (e aumentam diariamente por esse mesmo motivo)
por causa do sereno, pois como a Esfinge fica relativamente próxima ao Nilo,
o sereno noturno é úmido. Ele se infiltra nas camadas mais externas e porosas
da rocha e, com o amanhecer, que o esquenta e transforma em vapor, vai embora.
Porém, a expansão da água se gaseificando dentro da rocha provoca leves erosões,
o que acarreta no desprendimento de pequenas lascas de rocha da Esfinge diariamente.
Certo, muitos dirão, mas e
quanto à cabeça? Por que ela não é erodida da mesma forma que o restante
do corpo?
Bem, para pensarmos nisso temos
que antes pensar em outro problema em relação à Esfinge. Muitos dizem que
não foi Quéfren quem a construiu, afirmam que ela é mais antiga do que as
Pirâmides e que foi sua localização que determinou a escolha do local para
a construção destas. Estas teorias são as mais bem fundamentadas dentre todas,
talvez até estejam corretas, pois vejamos:
A cabeça da Esfinge é desproporcionalmente
pequena em relação ao restante do corpo da estátua. Isso leva a crer uma
das duas coisas: ou seus escultores não tinham muita noção de proporção,
o que parece um absurdo quando se está fazendo referência ao mesmo povo
capaz de construir as Pirâmides, ou então, a cabeça é propositalmente menor
do que o corpo. Agora vejamos, segundo as teorias mais aceitas, a cabeça
da Esfinge representa o Faraó Quéfren (se bem que o investigador de polícia
Americano Tem. Frank Domingo, especialista em comparação de retratos falados,
tenha comparado seu rosto com uma outra escultura de Quéfren (esta com o
nome do Faraó) e chegado à conclusão de que se tratam de pessoas diferentes,
no entanto, a Esfinge, como todos sabem, não tem nariz, o que torna uma comparação
muito difícil) e se isso for verdade, então por que justamente a parte da
estátua que deveria ser (segundo os próprios padrões da arte Egípcia) maior
por representar o Faraó é menor?
Talvez a resposta esteja no
fato de a Esfinge ser realmente mais antiga do que as Pirâmides, talvez ela
estivesse escondida debaixo das areias e tenha sido encontrada na época de
Quéfren, o que o fez eleger o Planalto de Gizé para construir sua Pirâmide.
Como o Faraó desejava ligara a estátua recém-encontrada ao seu complexo funerário,
ele pode ter mandado reesculpir o rosto da Esfinge (fosse ele qual fosse)
segundo o seu próprio, o que explicaria o fato dele ser desproporcionalmente
pequeno em relação ao corpo.
Existe a história de uma expedição
que se perdeu no deserto da Líbia a década de 20 do século XX d.C. e que
depois de ter retornado para o Cairo contou que teria avistado, em meio a
uma tempestade de areia, uma Esfinge que não a do Planalto de Gizé, mas com
proporções semelhantes. Essa história é tida como uma invenção por muitos,
mas o fato é que os caravaneiros nunca ganharam renome com ela e também que
ela nunca foi pesquisada mais profundamente. Alguns poucos a pensar sobre
ela chegaram à conclusão de que se ele for verdadeira, então poderia haver
diversas Esfinges espalhadas pelos desertos próximos ao Nilo e elas poderiam
ter uma espécie de função de defesa do território. Se isso for verossímil
(o que não parece ser) talvez a Esfinge de Gizé seja apenas uma das muitas
Esfinges que podem haver soterradas por entre os mares de areia do Saara
oriental.
É interessante lembrar que
em seu livro “Civilizações que o Mundo Esqueceu”, o Dr. Aurélio Medeiros
Guimarães de Abreu, Professor de Antropologia das Faculdades Santo Amaro
e da Fundação Cásper Líbero, nos diz que em 1952 uma expedição comandada
por Taminarakus, oficial responsável pelo Museu do Cairo na época, seguindo
os relatos do viajante Omar el Hawari, teria descoberto, numa região hoje
pertencente à Líbia (e, por conseguinte, inacessível a novas pesquisas, por
este governo, segundo o Dr. Abreu, não permitir a presença de pesquisadores
estrangeiros em seu território), uma Esfinge ainda maior que a de Gizé. Esta
descoberta, ainda segundo o Dr. Abreu, viria a confirmar a informação supostamente
descoberta num papiro de 900 a.C., e encontrada em 1943, que fazia referência
a seis Grandes Esfinges Guardiãs do Egito. Ah, sim. Em todos os livros que
constam desta bibliografia, não vi nenhuma outra menção a esta Esfinge Líbia
que o Dr. Abreu afirma estar descoberta e catalogada, por isso, como nunca
tive a oportunidade de visitar a região, não creio que tal construção exista
de verdade, caso contrário, a meu ver, deveria ser digna ao menos de menção
em obras mais conceituadas, mas, em última instância, é o leitor quem decide
no que acreditar.
Qual a verdade sobre a Esfinge?
Talvez nunca venhamos a saber.
Isso porque devido a vários problemas, desde conflitos religiosos até a
presença de pessoas sem real interesse científico (mas apenas a intenção
de comprovar suas crenças esotéricas) na região, a pesquisa séria se torna
muito comprometida. É interessante notar também, como falaremos mais no final
do texto, que a ação de ladrões de antiguidades também compromete muito a
formulação de teorias, visto que desde o Egito Antigo existem quadrilhas
que vivem de pilhar aquilo que restou do Período Faraônico. A falta de investimentos
financeiros (que deveria advir do turismo, mas que é comprometida devido
a ação de grupos extremistas que julgam o passado “pagão” do Egito como algo
a ser esquecer e não a se pesquisar) também é fator importante na demora
em se descobrir novos sítios e em se formular novas teorias. Hoje, para que
um Historiador decida se capacitar como Arqueólogo já é um custo, visto que
isso indica quase a certeza de maus ganhos financeiros futuros, se este indivíduo
decidir ser Egiptólogo, então, terá que romper sozinho diversas fronteiras,
como por exemplo os altos custos das viagens e da manutenção internacionais,
a dificuldade em se encontrar um orientador devidamente capacitado para orientar
uma Pós-Graduação em Egiptologia (na própria Universidade de São Paulo,
o maior centro de pesquisa do Brasil, não existem muitos professores capacitados
em orientar alunos nessa área), dentre outras... Este é o destino da pesquisa
científica em Humanidades, ser relagada ao segundo plano em detrimento de
pesquisas das áreas de Exatas e Biológicas.