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Egito: o Berço do Ideal Imperial
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5
– As Guerras Divinas no Panteão Egípcio:
Neste
item explicarei algumas das questões mais pertinentes sobre a religião Egípcia,
no entanto é muito importante que se atente para o fato de que a Mitologia
Egípcia além de ter se modificado muito ao longo dos séculos, também não
era conexa, na medida em que se baseava em tradições orais e em cleros independentes
que visavam obter poder elevando as características de seus Deuses acima dos
demais.
Para uma mais perfeita compreensão, dividirei este item
em sub-itens que se dedicarão a partes isoladas da Mitologia Egípcia. Recomendo
ao leitor que atente para o fato de que muitas das Histórias são paradoxais
e não se encaixam, além disso, também venho alerta-los para o fato de que
por vezes existe mais de uma versão para a mesma História, entretanto, por
razões de espaço, só me aterei às versões mais populares dos mitos, deixando
as demais parcial ou totalmente de lado.
5.1 – A História da Colina Primeva:
Havia
duas teologias básicas para a criação do mundo; aliás, para que se note, mundo
(ou terra) é sinônimo de Egito, que, literalmente, significa “a Terra”; a
teologia de Heliópolis e a de Hermópolis. Essas duas cosmogonias se fundiram
numa terceira, a Menfita, que as sintetizava de comum acordo sendo, dessa
forma, ao menos oficialmente, a teoria aceita de criação do mundo. Vamos a
ela:
No início havia apenas a água, chamada de Nun, uma deusa
que vivia solitária em sua imensidão infinita. Certo dia, de dentro da água
emergiu uma colina, a Colina Primeva, que se chamou Hermópolis, o primeiro
lugar da terra.
Uma das representações de Ra
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Sobre
Hermópolis estava uma flor de lótus coma as pétalas fechadas. De dentro da
flor, contudo, percebia-se uma forte claridade, tão forte que a flor mal
pôde segura-la e assim sua pétalas se abriram revelando Aton, também chamado
Ra, o sol que trouxe luminosidade à Colina. Em sua infinita sabedoria e poder,
Ra contemplou Nun e desejou que com eles houvesse mais coisas, por isso,
sentado sobre a Colina Primeva, o Deus Pássaro agarrou seu falo (pênis) e
começou a se masturbar. Quando Ra atingiu seu clímax, de seu sêmen surgiram dois irmãos: o ar, chamado de Shu e a umidade, chamada de Tefnut. |
Agora eram quatro
os Deuses que se reconheciam como tais e que se entreolhando, desejaram ser
mais. Por isso, na boca de Ra, Shu gerou o céu, Deusa chamada de Nut e Tefnut
gerou a Geb, o Deus da Terra.
Os novos Deuses queriam mais companhia. Por isso, depois
que Ra ascendeu a Nut (céu); lá ficando a brilhar sobre Hermópolis; Geb e
Nut resolveram também procriar e de sua união nasceram quatro irmãos: as irmãs
Isis e Néftis e os irmãos Osíris e Set.
Em Nut, Ra encontrou Ptah e assim ficou sabendo que tudo
se havia dado por sua vontade, pois ele era a própria essência da Criação.
Ptah explicou a Ra que ele deveria Reinar sobre a Colina, mas que esta se
expandiria, porque Nun (a água original), não tendo gostado de ter sua tranqüilidade
abalada, se retiraria para lugares distantes, voltando, contudo, com mais
força, de tempos em tempos. Ela era o próprio Nilo e como tal, a fonte de
toda a vida.
5.2
– O Reinado de Ra:
Ptah
era o Deus principal de Mênfis e sua sobreposição a todos os demais Deuses
como sendo o Deus da Criação pela vontade do qual tudo se originou é tida
como sendo um marco representativo da unificação do Egito, visto que Mênfis,
a cidade de Ptah e capital do Egito unificado, havia sido construída num lugar
supostamente neutro para apaziguar as tensões entre o Alto e o Baixo Egito,
sendo assim, não é de se espantar que a cosmogonia dessa cidade tenha se
esforçado para englobar as teologias pré-existentes da maneira mais sincrética
possível de modo a não gerar descontentamentos.
A figura de Ra como Deus mais importante do panteão não
é casual, possivelmente ela remonta à época da ascensão do clero desse Deus,
durante a IV Dinastia. A intensificação do culto a Ra, que originalmente também
era Aton, fez com que o Egito se tornasse definitivamente um país devotado
ao culto solar. Mas vejamos a história do governo de Ra sobre o mundo:
Incumbido de comandar os destinos dos homens e das coisas
num tempo anterior àquele em que os homens pudessem se estabelecer numa sociedade
própria, Ra se viu muito atribulado de funções. Decidiu, então, tomar a
forma humana e realizar a unificação do Egito.
Ra foi o primeiro Faraó e em seu governo tudo e todos prosperaram.
A pujança era tanta e a alegria tamanha que, aos poucos, os homens deixaram
de reverenciar Ra por seu trabalho, o que fez o Deus se revoltar contra seus
súditos.
Utilizando-se dos segredos que só ele conhecia, Ra criou
uma Deusa maligna chamada Sekhmet, uma mulher com corpo de leoa e tamanho
gigante, e a enviou para punir seus súditos ingratos.
| Por
vários dias Sekhmet destruiu vilas e matou pessoas promovendo um banho de
sangue jamais visto. A crueldade da Deusa fez com que os homens se lembrassem
novamente de seu bondoso e poderoso Faraó-Deus, rogando-lhe que fizesse a
Deusa Leoa parar a carnificina.
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Estátua de Sekhmet |
Temendo que Sekhmet destruísse toda a humanidade, Ra convocou
pela primeira vez o Conselho dos Deuses e ordenou que todos trabalhassem
em conjunto para deter a Leoa.
A uns coube a tarefa de produzir cerveja e a outros a de
conseguir corante vermelho. Quando tudo estava pronto, os Deuses tingiram
grandes quantidades de cerveja com corante vermelho e a espalharam pelo chão,
no meio da madrugada.
Ao amanhecer, Sekhmet retornou para beber o sangue derramado
e iniciar um novo dia de matanças, mas ao beber a cerveja, ficou embriagada
e pôs-se a dormir. Ra, aproveitando a chance, apareceu e capturou sua criatura
levando-a para sempre para Amentet, o mundo dos mortos.
Ra governava já há muitos anos e estava velho, conhecia
todos os segredos e por isso podia Reinar soberano, entretanto, Isis cobiçava
o poder e não aceitava vê-lo por tanto tempo nas mãos de Ra, agora que o
Deus estava velho ela vislumbrava uma chance de obtê-lo.
Isis |
Isis
era Deusa de muitas coisas, das mulheres, dos partos, da cura e da magia.
Depois de Ra ela era quem mais conhecia segredos, na verdade, Ra só conhecia
um segredo que Isis não conhecia e era por isso que ele podia governar e não
ela. O segredo que Ra conhecia era seu próprio nome secreto, a essência de
sua liberdade. Isis queria arrancar isso dele. Mesmo tendo a velhice tornado Ra menos poderoso, ele ainda era o Deus mais poderoso dentre todos, por isso Isis precisaria de um bom plano para arrancar seu nome sem incorrer no risco de despertar sua ira. Lembrava-se bem do que a ira do velho Deus era capaz, a destruição que Sekhmet provocara quase havia sido impossível de deter. |
Enquanto
o velho Deus dormia em seu leito, Isis recolheu a baba que lhe escorria da
boca. Misturando essa baba à essência de Geb (a terra), Isis enrolou-a e assim,
produziu uma serpente venenosa.
Com um passe de mágica, a Deusa transformou sua serpente
num pedaço de madeira e colocou-o no caminho que sabia que Ra traçaria no
dia seguinte.
Ao acordar, o Faraó-Deus saiu a caminhar, mas, devido à
velhice, vinha andando cada vez mais arqueado, por isso, quando se deparou
com um pedaço de madeira, julgou que ele poderia ser um bom cajado. Pegou-o
e nesse exato instante, ele se transformou numa serpente que picou-lhe a
mão a fugiu.
Isis fez-se presente então ao lado do Deus Sol que gemia
agoniado, prestes a morrer. Ela ofereceu ajuda dizendo que se soubesse seu
nome verdadeiro poderia fazer um feitiço capaz de cura-lo. Ra, é claro, não
desejava dizer seu nome a Isis, sabia que a Deusa só precisava disso para
tomar-lhe o lugar, por isso recusou-se.
Contudo, a morte se avizinhou do Deus e, temendo-a, o Faraó
disse seu nome verdadeiro à Deusa. Isis, mais do que depressa recitou um
encantamento que curou Ra, deixando-o livre para seguir seu caminho, porém,
retirando-lhe o trono.
5.3
– A Epopéia de Osíris e Set:
A
tomada do poder de Ra por Isis, como vimos, pode ser interpretada como a origem
da tradição Egípcia de as mulheres serem as portadoras do poder Real. É interessante
se notar que a origem da crença Egípcia do poder dos nomes está contida nesta
lenda. Para os Egípcios os nomes tinham poderes, sendo assim, todos os Egípicos
tinham dois nomes, o nome público, pelo qual eram conhecidos por todos e
o nome secreto, que só era conhecido pelas pessoas mais próximas do indivíduo,
afim de evitar que ele fosse enfeitiçado, como aconteceu com Ra quando Isis
descobriu seu nome.
No que se refere ao panteão
Egípcio; a esta altura existiam alguns outros Deuses cujas origens não são
explicadas, alguns deles, como Hapi (o Nilo, visto que Nun era toda a água)
são plenamente aceitáveis como extensões de Deuses pré-existentes, porém outros,
como Anúbis (Deus do Embalsamamento) e Thot (Deus da Escrita e, futuramente,
também da Magia), têm origens desconhecidas, parecem muito mais ter sido
criados na medida em que se fizeram necessários, como veremos:
Quando Ra partiu para o ocidente, o mundo dos mortos e das trevas onde todos
eram imortais, o poder passou às mãos de Isis, porém de acordo com os desígnios
de Ptah, ela não poderia governar, porque era uma mulher, sendo assim, seu
poder foi exercido por seu marido, Osíris.
Pintura com representação de Osíris |
Assim
como Isis, Osíris não tinha traços animais e até esse momento, não possuía
nenhuma característica Divina que o diferenciasse. Esmo assim tornou-se o
sucessor de Ra no comando do Egito. O governo de Osíris foi marcado por muita prosperidade, tanta quanto, ou até mais que no início do governo de Ra. O novo Faraó-Deus ensina os homens a cultivarem Geb depois que esta era fertilizada por Hapi, e assim permite-lhes possuir alimentos indefinidamente. Porém, a principal criação desse Deus foi o marco principal do poder do Egito. Osíris criou Maat. |
Essa entidade invisível não era propriamente um Deus, mas
uma espécie de Espírito Divino. Através de Maat Osíris governou com justiça,
verdade e ordem por muitos e muitos anos. Em seu governo, a convocação do
conselho dos Deuses, assim como Ra fizera no caso de Sekhmet, era constante,
Osíris queria governar agradando a todas opiniões.
Todos os Deuses, outrora ciumentos com o poder de Ra, agora
estavam contentes com o governo de Osíris, se sentiam respeitados e não excluídos
por um Sol que brilhava sozinho. Todos, menos um...
| Set
(Deus antropozoomórfico cuja feição animal não é muito bem definida, não sendo
identificada a nenhum animal, mas talvez seja uma hiena ou algo parecido),
o irmão gêmeo de Osíris, Deus dos Desertos, dos Animais, do Caos e do Mal,
não estava contente, queria poder governar, sentia-se em relação a Osíris
da mesma forma que Isis, outrora, sentiu-se em relação a Ra. |
Estátua de Set |
Da
mesma forma que Osíris casara-se com sua irmã Isis, também Set casara-se com
sua irmã (os quatro Deuses eram irmãos entre si) Néftis, a Deusa da Morte.
Eram pares equivalentes e opostos.
Em sua ânsia por destronar o irmão, Set conseguiu amealhar
seguidores, eram 72 ao todo e todos haviam sido convencidos pela eloqüência
de Set a trair Osíris, mesmo esse sendo o “Deus Perpetuamente Bom”.
Com a ajuda de seus seguidores, Set consegue adentrar nos
aposentos de Osíris e enquanto este dorme, tira todas as suas medidas. Com
base nas medidas do irmão, Set constrói a mais bela arca que já fora construída;
perfeita em seus mínimos detalhes, feita com o mais belo cedro, as mais perfeitas
jóias e o mais puro ouro.
Na noite seguinte, Osíris ofereceu um banquete aos Deuses
em seu palácio e, durante a festividade, Set ordenou que seus seguidores
trouxessem a arca para o salão. Os comentários foram gerais, todos os Deuses
adoraram a obra de Set. Todos queriam possuí-la!
Vendo que seu plano estava funcionando, Set propôs um jogo
aos convivas. A arca seria daquele Deus que coubesse deitado perfeitamente
dentro dela.
Um a um os Deuses foram se deitando na arca de Set, mas
nenhum cabia perfeitamente nela. Uns eram muito grandes, outros muito pequenos
e assim, todos se deitaram e a vez de Osíris, que por educação deixara todos
os seus convidados tentarem a sorte antes dele, testar a arca do irmão.
Quando Osíris se deitou, coube perfeitamente dentro arca.
Claro, ela havia sido feita sob medida para ele!
Nesse exato momento, os seguidores de Set avançam para a
arca e seguram Osíris em seu fundo. Set, mais do que depressa, coloca a tampa
sobre ela e seus seguidores pregam-na. Para assegurar que Osíris não escaparia,
Set derruba metal derretido sobre as frestas de modo a soldar a tampa na caixa.
Atônitos, os Deuses nada fazem para impedir que o Faraó-Deus
seja capturado por seu irmão. Muitos ainda pensam se tratar de parte do
jogo proposto por Set. O Deus e seus seguidores carregam a caixa para fora
do palácio e atiram-na no Nilo, onde ela vai boiando até desaparecer nas
longínquas águas de Nun.
Uma vez tendo expulso o Faraó-Deus, Set se torna o novo
governante do Egito e Néftis, sua esposa. Os 72 seguidores de Set são agraciados
com altos cargos e se inicia um verdadeiro período de terror. Néftis espalha
a morte entre a população e Set, com seu governo de caos, praticamente destrói
a Maat.
Os demais Deuses sabem que não podem com o poder de Set,
sua Grande Mulher e seus seguidores, por isso, aceitam voltar a uma condição
bem inferior àquela que conheciam durante o egoísta governo de Ra, uma vez
que, ao menos, Ra era bondoso.
5.4
– A Busca pelo Corpo de Osíris:
Pode-se
notar claramente que alguns mitos Egípcios influenciaram a religião Grega,
por exemplo, para os Gregos, o mundo havia surgido do caos, para os Egípcios,
também e este caos eram águas negras e solitárias, além disso, se o mundo
surgiu do caos, ele deve caminhar para a ordem, o fundamento básico da existência
Egípcia, ou seja, a busca de Maat. Na Grécia, Saturno, o Céu, fecundando
Gaia, a Terra, criou os demais Titãs, no Egito, alguns dos principais Deuses
surgiram da fertilização de Geb, a Terra, por Nut, o Céu. Na Grécia, Chronos,
filho de Saturno, derrota-o e mata-o tomando seu lugar, no Egito, Isis (de
um certo ponto de vista uma filha, ou ao menos neta de Ra) faz o mesmo, mas
só não toma seu lugar porque é mulher. Set expulsa e mata Osíris da mesma
forma que Chronos fizera com Saturno, porém, também da mesma forma, acaba
expulso por um Deus subseqüente, ele por Hórus, Chronos, por Zeus. É interessante
traçar paralelos entre doutrinas religiosas para se perceber que elas podem
se difundir de uma região para outra, assim como o fizeram no fim da Antiguidade
(como é o caso do Cristianismo), já o faziam bem antes, na época Egípcia.
Quanto ao governo de Set, pode-se perceber uma clara influência
do Baixo Egito nesta lenda, visto que, como vimos, o Deus padroeiro da
I Dinastia, aquela que conquistou o Baixo Egito e unificou o país era justamente
Set. É claro que nessa época ele não era associado ao caos e ao mal, mas essa
associação deve ser posterior à mudança da Divindade padroeira da Monarquia,
com a substituição de Set por Hórus, o Deus dos Monarcas do Baixo Egito. Como
já vimos, essa substituição se deu provavelmente para aplacar a ira das populações
do Delta e, sendo assim, as memórias das mortes ocorridas na conquista e
nas primeiras tentativas de pacificação pela força devem ter se refletido
na atribuição a Set de um governo de Caos e Morte, implantado pela traição
e pelo assassinato.
Depois que Set toma o poder, a única Deusa que se levanta
contra ele é Isis, vejamos como a lenda continua:
Osiris |
Isis,
por ser a verdadeira guardiã do poder Real, não aceita que Set o tenha usurpado
de seu marido e irmão Osíris, por isso, faz menção de enfrenta-lo. Contudo,
Thot (Deus que deu a escrita aos homens e que por isso será citado mais adiante,
além de ter sido adotado como padroeiro dos Escribas), o mais sábio dos Deuses,
aconselha-a a não tentar contestar o poder de Set, pois ele se havia tornado
muito poderoso como Faraó-Deus e não poderia ser derrotado facilmente. O Deus diz a Isis que o melhor a fazer seria fugir para o Delta e se refugiar por lá a fim de evitar que a cólera de Set se voltasse também contra ela. Isis acaba achando a idéia de Thot boa e vê nela uma oportunidade de encontrar Osíris que ela ainda tem esperanças de que esteja vivo. Parte então para o Delta, porém, Thot dá a ela sete escorpiões para que a acompanhem e protejam na viagem. |
Chegando
no Delta, Isis percebe o quão difícil é se locomover por entre os brejos,
por isso, assim que encontra uma casa, pede à sua moradora para que possa
passar a noite. A mulher, contudo, nega o pedido da Deusa, visto que tem os
escorpiões que a acompanham. Isis, furiosa, decide continuar seu caminho por
entre o brejo. É quando ouve a mulher que lhe negara abrigo gritando desesperada.
Decide voltar para ver o que havia acontecido.
Quando chega na casa da mulher, percebe o que ocorrera,
seis de seus escorpiões haviam picado um deles, e nome Téfen, matando-se
para injetar seu veneno no escolhido. Este escorpião, então, antes de morrer
envenenado, esgueirou-se por entre as frestas da parede da casa da mulher
e, ao encontrar seu bebê dormindo no berço, picou-o. A picada matou o bebê
e também o escorpião. De tão contrariada, Isis nem sequer se havia dado conta
que não tinha sido acompanhada por seus escorpiões protetores, no entanto,
quando viu a mulher chorando com seu bebe morto no colo, estendeu as mãos
sobre o rosto da criança e, com um passe de mágica, restituiu-lhe a vida.
A mulher ficou tão agradecida que ofereceu estadia à Deusa,
no entanto, esta não aceitou, havia mudado de idéia, não iria só se refugiar
no Delta, iria vasculha-lo inteiro à procura de seu marido.
Dias se passaram... Meses... E Isis não encontrou o esquife
de Osíris. Pensou então que ele não deveria ter ficado retido nos brejos
do Delta, mas sim, deveria ter flutuado em direção ao mar sendo levado, talvez
à Fenícia.
Com um barco a Deusa saiu navegando e mapeando a costa desde
o Delta até a Fenícia, não queria deixar de procurar em lugar algum, sabia
que em algum lugar Osíris haveria de estar, vivo ou morto.
Conversando com pescadores e pessoas que habitavam o Sinai,
a Palestina e a Fenícia, Isis não ficou sabendo sobre a localização do corpo
de seu marido, mas, em compensação, ouviu rumores sobre uma árvore maravilhosa
que havia em Biblos, na Fenícia. Imaginando que tal árvore deveria estar relacionada
com a presença de Osíris e concluindo que se se tratava de uma árvore maravilhosa
deveria estar nos jardins do Rei, Isis foi até Biblos e, para não levantar
suspeitas sobre sua presença na região, se disfarçou de empregada do palácio
do Rei.
Todos os dias a Deusa limpava, arrumava, cozinhava, tecia
e procurava... Queria encontrar a tal árvore maravilhosa, revistou todas as
árvores dos jardins do Rei e também as mais espetaculares dentre as do bosque
Real. Havia muitas árvores fantásticas, mas nenhuma parecia ser mais do que
uma árvore normal.
Certo dia, quando já estava cansada de tanto procurar, Isis
entrou no salão principal do palácio e então, ao prestar atenção numa magnífica
coluna de madeira que, sozinha, sustentava todo o teto do recinto, percebeu
que sua busca acabara. A árvore que procurava não estava em estado bruto,
já havia sido trabalhada pelas mãos do homem e, por ser tão maravilhosa,
fora escolhida para sustentar o teto do saguão principal do palácio do Rei
de Biblos. A Deusa se aproximou da coluna, se desfez de seu disfarce e,
sem esforço, devido às suas qualidades Divinas, retirou o esquife de dentro
da coluna. Agora ela compreendia que quando a correnteza levou o baú até
a Fenícia, este acabou se enroscando numa árvore que estava por nascer. Percebendo
a divindade de Osíris dentro da caixa, a árvore cresceu rápida e majestosamente
a fim de envolver e proteger o Deus. Vendo essa árvore, o Rei de Biblos ordenou
que fosse cortada e trabalhada para que se tornasse o principal e mais belo
pilar de seu palácio.
Isis arrastou a caixa até o mar e, colocando-a num barco,
navegou de volta ao Egito. A Deusa sabia que, dentro do esquife, Osíris jazia
sem vida, mas, mesmo assim, queria leva-lo de volta à Colina Primeva (o
Egito) para que pudesse ter um enterro digno.
Assim que as águas ao redor do barco de Isis perderam a
salinidade, a Deusa percebeu que já estava no Delta, em terras Egípcias,
sendo assim, retirou o esquife do barco e o escondeu em meio a arbustos,
depois rumou para Buto, no Alto Egito, para encontrar os outros Deuses e
comunicar seu achado.
Na noite em que Isis rumava para Buto, Set decidira caçar
patos no Delta. A caça era sua diversão favorita, estava ligada à morte e
ele não precisaria se preocupar com o governo enquanto a realizava, afinal,
queria o poder, não as responsabilidade dele advindas. Quando se esgueirava
em silêncio por entre as moitas do delta com seu arco armado, Set tropeçou
em algo que o fez cair e soltar um grito. Seu grito espantou as aves que saíram
voando e, com ira, o Faraó-Deus se levantou para ver o que o tinha feito
cair.
Qual não foi sua surpresa quando notou se tratar do esquife
que havia construído para seu irmão Osíris. Nesse exato momento, Set foi
tomado de ódio e, com as próprias mãos passou a golpear sua obra de arte.
Sua fúria era tanta que nem mesmo o cedro e o ouro do esquife foram capazes
de resistir a ela. Com alguns golpes o Deus rasgou os esquife em pedaço e,
ao se deparar com o corpo do Deus-Faraó morto, sua ira não se aplacou e, sendo
assim, ele continuou golpeando. Fez o corpo de Osíris em pedaços, pedaços
que lançou ao vento e, só então se deu por feliz.
Isis, em meio a sua jornada a Buto percebeu o que estava
acontecendo e mudou a direção de seu caminho, porém, não teve tempo de impedir
seu irmão maligno de destroçar o cadáver de seu marido irmão. Quando chegou
ao Delta, só encontrou os pedaços do caixão destroçados. Sabia que teria que
procurar os pedaços de Osíris para poder, enfim dar-lhe um sepultamento decente.
5.5
– O Nascimento de Hórus:
Obviamente
os mitos religiosos são, como não poderiam deixar de ser, baseados nas experiências
cotidianas da comunidade que os cria. Por isso, no caso da peregrinação de
Isis à Fenícia, podemos perceber diversas coisas: por exemplo, o comércio
de cedro com a Fenícia produziu no imaginário Egípcio a idéia de que o país
possuía as mais maravilhosas árvores do mundo, inclusive, uma capaz de agir
de modo a proteger o cadáver de Osíris. Pode-se perceber no comportamento
de Isis um dualismo característico da sociedade Egípcia; se por um lado ela
pode ser má a ponto de permitir que seus asseclas matassem um bebê, por outro
ela pôde ser boa a ponto de se comover com essa morte e reviver a criança.
Se por um lado ela pode ser uma Deusa de aparência esplêndida e imponente,
por outro ela pôde se disfarçar de empregada do palácio do Rei de Biblos
e lá trabalhar, de fato, por vários meses. É claro que a história também
nos mostra a determinação vencendo os contratempos e, no final sendo recompensada,
por outro lado, ela também nos mostra que descuidos podem acarretar em perdas
irreparáveis, como o que aconteceu com Isis ao deixar o corpo de Osíris
sem ser vigiado no Delta do Nilo.
A História, contudo, ainda está por ter um desfecho e, sendo
assim, vou continuá-la:
Isis percebeu o que Set tinha feito com o corpo de seu marido,
por isso, resolveu partir em busca de seus pedaços que se haviam espalhado,
levados pelo vento, por todas as partes do Egito.
A jornada de Isis foi longa, pois a fúria de Set fez Osíris
em 15 pedaços e estes não ficaram em nenhum lugar aparente, mas escondidos
nas mais diversas regiões.
Pouco-a-pouco, navegando o Nilo sem ser incomodada em sua
busca nem mesmo pelos mais violentos crocodilos, a esposa de Osíris foi encontrando
os pedaços de seu irmão marido e, em cada lugar onde encontrava uma parte
de seu corpo, erigia um templo em sua honra, sendo assim, o culto de Osíris
se espalhou por todo o Egito.
Dentro em pouco tempo Isis já contava com 13 dos quinze
pedaços do corpo de Osíris, faltavam-lhe, no entanto, duas partes fundamentais:
a cabeça e o falo.
Subindo o Nilo em direção ao sul, ao Alto Egito, Isis avistou
uma bela árvore, uma tamargueira. Ela parecia tão frondosa que nem sequer
se inseria no contexto das pequenas, frágeis e retorcidas árvores Egípcias.
Parecia uma árvore da Fenícia. A Deusa, por jamais ter notado tal árvore
em suas viagens pelo Nilo, logo percebeu que ela não estava ali por acaso,
mas que era um sinal para que se percebesse a presença de Osíris. A Deusa
atracou sua embarcação e se aproximou da árvore. Nada viu em seu caule, como
havia visto na árvore da Fenícia. Resolveu, então, escala-la. E o fez.
No topo da árvore, bem no entroncamento dos galhos mais
altos, Isis encontrou a cabeça de Osíris. Agora a Deusa dispunha de 14 pedaços
de seu marido, porém, ainda faltava seu falo. Seu corpo não estava completo...
Isis desceu da tamargueira e, enquanto reunia os pedaços
de Osíris, se deu conta de que havia procurado em todos os lugares possíveis
e que se até aquele momento ainda não havia encontrado o falo de Osíris
era porque seria impossível faze-lo. Por isso, quando todos os pedaços de
Osíris estavam reunidos, Isis, com o barro do Nilo, fez-lhe um falo artificial.
Moldou-o exatamente igual o original e o colocou em seu devido lugar. Depois,
com uma prece, invocou Anúbis, o Deus dos Embalsamamentos, e pediu-lhe que
imortalizasse Osíris.
O Deus com cabeça de Chacal preparou o antigo Faraó-Deus
para a vida eterna e, finalmente quando terminou sua cerimônia de abertura
de boca (essa cerimônia era a última etapa das mumificações e também era
utilizada o final das construções de estátuas de Deuses, consistia em cortar
a perna de um carneiro e esfrega-la contra a boca da múmia ou da estátua
restituindo-lhe simbolicamente a vida), Osíris voltou à vida. O Deus tocou
sua esposa num sinal de gratidão e depois seguiu sua jornada para Amentet
(o Ocidente, o mundo dos mortos).
Em Abidos, local onde se encontrava a tamargueira onde fora
encontrada a cabeça de Osíris, foi erigido o principal santuário fúnebre do
Egito, onde muitos Faraós vieram a ter sua imagem imortalizada através de
estátuas.
Quando Osíris tocou Isis, a Deusa sentiu com se algo dentro
dela houvesse mudado, percebeu então o que havia acontecido. De alguma forma,
quando a Deusa ficou sabendo o nome verdadeiro de Ra e, dessa maneira, tomou-lhe
o trono, destinando-o a Osíris, era como se o Faraó original, o Grande Sol
do Egito, tivesse compartilhado sua semente de poder com ela. Agora que ela
acabara de ajudar a salvar o Faraó-Deus do Egito, Osíris, ajudando-o a completar
sua jornada para Amentet. Essa semente havia começado a germinar. Dentro dela
nascia um novo Faraó-Deus.
Isis e Anúbis seguiram pra Buto e depois se separaram. Vivendo
disfarçada nessa cidade, a Deusa teve seu filho, o Deus Falcão Hórus. Ela
e o filho viveram disfarçados, como gente comum e foi como gente comum que
certo dia Hórus, enquanto ainda era apenas um bebê, foi picado por um escorpião
enquanto repousava em sua canoa de junco, embalado pelas águas do Nilo e sob
o olhar da mãe.
Hórus, como o bebê da mulher do Delta, morreu e, como aquela
mulher, Isis ficou desesperada. Ela era poderosa, havia restituído a vida
ao bebê daquela senhora, porém, aquele era um bebê comum, um humano destinado
a viver como tal, e não um Deus-Bebê carecendo apenas de crescer para reclamar
o trono do Egito. Para trazer seu filho de volta à vida Isis não tinha nenhum
poder.
Ra odiava Isis pelo que ela o havia feito, contudo, ele
também era pai do bebê que acabara de morrer, por isso, a ver seu filho
sem vida, largado nos braços de sua impotente mãe em prantos, o Deus Sol
ordenou a Thot, o deus Íbis (espécie de ave Egípcia), que fosse até Isis
e revivesse seu filho Hórus. E assim fez Thot, aquele que mais rapidamente
chegava aos lugares.
Com um toque o Deus da Sabedoria trouxe Hórus de volta a
vida. O bebê jamais se lembrou de sua passagem pelo Reino que seu pai (Osíris)
agora governava, porém, depois dela, se tornou diferente. Tão logo começou
a andar, começou a praticar as técnicas de combate. Empunhava muito bem um
kopesh, atirava flechas como ninguém, conduzia carros de guerra (não devemos
nos esquecer que as lendas evoluíam conforme novas tecnologias iam sendo introduzidas)...
Era muito hábil, sábio e destro, porém, não possuía muito vigor físico.
Depois de muitos anos, quando já era um adolescente, Hórus
resolveu sair de Buto e da proteção da mãe. Queria ir ao conselho dos Deuses.
Queria requisitar para si o que era seu de direito, o trono do Egito.
Hórus |
A
reunião do conselho dos Deuses foi a primeira vez em que Set soube da existência
do Filho de Osíris. O surgimento de um herdeiro legítimo não estava em seus
planos, queria continuar governando de maneira inconteste e espalhando o caos
e a morte por todo o Egito como vinha fazendo desde que matara Osíris. Diante
do conselho dos Deuses, Hórus declara que o trono do Egito, por ter pertencido
a seu pai e por ter sido concedido a este por sua mãe, lhe é de direito e
que Set é um usurpador. Thot e Shu dão-lhe razão e a assembléia se tumultua.
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A
resposta vem rápida, Ptah quer que a coroa seja entregue a Hórus, pois este
é o Filho de Osíris.
Parecia que a decisão estava tomada, afinal, o Criador havia
proferido sua sentença e ainda havia acrescentado a ameaça de que o céu
desabaria caso sua decisão fosse contrariada. Porém, os Deuses não conseguiam
chegar a uma acordo e, sendo assim, mesmo um veredicto parecia em vias de
ser proferido, Ra, o chefe do conselho dos Deuses, contrariado pela arrogância
de Ptah e revoltado por também não ser mencionado como pai de Hórus, alega
que o Filho de Osíris é muito jovem e inexperiente para assumir o trono que
já foi dele.
Novo tumulto se inicia, Set se dá por feliz por ter obtido
o apoio de Ra à sua causa e incita mais ainda o caos entre os Deuses, contudo,
Ra, apesar de sua influência e poder, não consegue convencer seus pares de
que seu ponto de vista é razoável, por isso, sem chegar a qualquer decisão,
a assembléia se dissolve.
Irado com a situação, Ra se recusa a iluminar o mundo deixando
tudo e todos perdidos na escuridão perpétua da criação. Porém, sua filha Hator,
Deusa da Lua, do Amor e da Música, ao ver o pai tão contrariado, mesmo à
luz da lua, resolveu cantar e dançar para ele. A Deusa Vaca conseguiu alegrar
Ra que decidiu voltar a reunir o conselho dos Deuses para deliberar sobre
a questão de Set e Hórus.
Novamente a assembléia se reúne, porém, desta vez é Set
quem consegue angariar a preferência dos Deuses. A maioria defende que se
ele já é o Faraó, assim deve permanecer. Ra é quem mais argumenta em seu
favor, visto que afirma que Set obtivera o poder através de uma trapaça semelhante
àquela que Isis utilizara para transferir o poder a Osíris, porém, naquela
ocasião ninguém se posicionou contra o governo do Deus agora morto.
Isis e Thot se indignam com as exposições e declaram que
Hórus é o herdeiro legítimo, coisa que não havia na época em que Ra perdeu
o trono.
Neste momento, nervoso, Set se manifesta pela primeira vez.
Declara que abandonará a assembléia e a julgará inválida se dela Isis não
for impedida de participar.
Todos, em especial Ra, concordam com o ponto de vista do
Deus-Faraó e, sendo assim, uma nova reunião é marcada, esta, a se realizar
na ilha de Filae, no Nilo. O barqueiro que conduz as pessoas àquela ilha
é instruído para não permitir que Isis chegue até a ilha e, sendo assim, a
assembléia prossegue sem a Deusa.
Contudo, como já fizera outras vezes, Isis muda de forma.
Desta vez, assume a forma de uma velha senhora e se aproxima do barqueiro
pedindo para ir à ilha. O barqueiro, seguindo as ordens dos Deuses, não permite
que ela siga para Filae, visto que nenhuma mulher deveria pisar naquele solo
até que a reunião Divina acabasse. Isis, no entanto, alega ter ouvido sobre
tal proibição, mas diz que o barqueiro está equivocado, visto que a proibição
se restringe apenas à Deusa Isis. Ela, ainda sob a forma de velha, diz que
precisa visitar seu filho que está na ilha e que se o barqueiro a conduzir
ganhará seu anel de ouro. E mostra-o ao homem...
Fascinado pelo reluzente brilho da jóia, o homem aceita
conduzir a Deusa até Filae em troca dela.
Uma vez na ilha, Isis toma a forma da mais bela das mulheres
e surge na reunião num lugar em que apenas Set podia avista-la. Ao ver tão
bela forma, o Deus se apaixonou imediatamente e, afastando-se da reunião,
foi abordar a jovem.
Quando Set aborda Isis, ela diz a ele que está com um problema
e pede sua ajuda para resolve-lo. Ele, prontamente, se oferece para ajuda-la.
Ela então, diz que tem um filho, mas que, após a morte de seu marido, um
estranho tomou posse de seus bens e, sendo assim, seu filho agora não pode
usufruir daquilo que o pai lhe deixou.
Indignado com a injustiça e querendo impressionar a moça,
Set se compromete a reparar o que está errado, custe o que custar. Diz que
lutará pessoalmente pela jovem se for preciso. Dito isso Isis se transforma
numa ave e voa até o meio da assembléia onde, reassumindo sua forma normal,
brada que Set havia decretado sua própria sentença. Que ele próprio considerava
injusta a situação a qual estava submetendo Hórus.
Diante dos argumentos de Isis, todos os Deuses, sem exceção,
se voltam contra Set, no entanto este não desiste de seu trono. Dispõe-se
a lutar contra Hórus para que, num combate físico, possam decidir quem será
o novo Faraó-Deus.
Muitos anos de discussões se arrastam até que a luta de
fato aconteça. Nesses anos, Set defende-se sempre sozinho no conselho dos
Deuses. Os anos, no entanto, só fazem trabalhar em favor de Hórus que, agora,
já não é mais um adolescente, mas um adulto.
Chega então o dia em que os dois se opõem frente-a-frente.
Set é forte e resistente, porém lento e não muito esperto. Hórus tem constituição
física frágil, mas é muito inteligente e ágil, além de estar bem treinado.
No momento da luta, contudo, Hórus tem a estranha sensação
de que está sendo protegido por seu pai. Ele é o Filho de Osíris, não Set.
Com o ânimo mais que renovado, o jovem Deus investe contra seu tio e o fere
gravemente em diversos pontos. Porém, Set é muito resistente e não está disposto
a desistir facilmente. Com sua lança, investe contra Hórus furando-lhe um
dos olhos. A luta é indefinida...
Percebendo que aquela disputa não decidiria realmente nada,
Thot se interpõe entre os combatentes. Afasta-os um do outro e, depois de
curar os ferimentos de ambos, inclusive restituindo o olho vazado a Hórus,
propõe que só há um indivíduo capaz de decidir quem deve ser o novo Faraó-Deus:
Osíris. Dito isso, Thot propõe enviar uma mensagem a Osíris em Amentet, coisa
que todos temem fazer.
Thot, porém, providencia que um mensageiro entregue a correspondência
e traga uma resposta do Deus morto.
A resposta não tarda e é tão categórica quanto previsível:
Hórus deve ser o herdeiro de Osíris. Diante de uma intervenção de tamanha
magnitude, até mesmo Set se curva. A coroa de Osíris é entregue a Hórus que,
a partir de então se torna o governante do Egito.
Quando Hórus chega ao palácio, os 72 seguidores de Set que
o haviam ajudado a matar Osíris fogem e em direção ao Delta. Para evitar serem
rastreados pelo Filho de Osíris, eles se fazem animais, os Animais de Set.
Porém, Hórus os encontra e os mata a todos pondo um fim ao Reinado de Set
sobre os Homens.
5.6
– O Reino e o Tribunal de Osíris:
As
comparações entre o mito de Hórus e as tradições Judaico-Cristãs são inevitáveis.
Primeiramente, é óbvia a comparação entre as lutas de Hórus com Set e de
Davi com Golias. Em ambos os casos o que está em jogo é uma decisão política
na base do confronto físico. Em ambos os casos existe um confronto de um indivíduo
mau, grande, forte e burro com um indivíduo bom, franzino, inteligente e
ágil. Em ambos os casos o indivíduo que em condições normais seria derrotado
sai vitorioso.
No entanto, a principal comparação que se pode depreender
da epopéia de Hórus é a com a vida de Cristo. Inicialmente, ele é uma verdadeira
trindade: Pai (Osíris), Filho (Hórus) e Espírito Santo (Ra). Em segundo lugar,
também ele é concebido sem relação sexual, afinal, Osíris nem sequer dispunha
de um falo de verdade e ele apenas toca Isis e ela engravida. Ainda enquanto
criança ele morre e ocorre sua ressurreição, como a de Cristo. Também o reino
de seu pai (Osíris) não é deste mundo, mas do outro. Também ele, quando morto
fica largado nos braços de sua mãe em prantos. Também Hórus é o Salvador da
Humanidade (no caso dele, a única coisa que importa é o Egito, no de Jesus,
seu povo eleito é o povo de Israel). Também ele tem de enfrentar o Demônio
(e o que é Set, senão o Demônio Egípcio?) para poder se purificar. Também
ele passa por enormes sofrimentos e estigmas em seu caminho para a Salvação
da Humanidade. Além disso, uma imagem recorrente na mitologia do Mediterrâneo
Oriental era a de Isis com o bebê Hórus no colo, imagem que depois do Cristianismo
será adaptada para a de Maria com o bebê Jesus no colo. Acredito que não
é necessário dizer que tais semelhanças não são por acaso e, nem tão pouco,
que são meras coincidências.
Bem, salientadas as coincidências com a mitologia Judaico-Cristã,
não podemos nos esquecer de ressaltar algumas coincidências também com a
mitologia Grega. O conselho dos Deuses guarda uma grande semelhança com o
Olimpo da Grécia e a posição de líder semi-ditatorial de Ra também é muito
próxima da ocupada por Zeus frente ao seu panteão. Além disso, a postura
de Ptah lembra aquela dos Titãs Gregos, ou seja, como grandes Deuses originais,
os Titãs não se intrometiam muito nos feitos dos Deuses, ou, quando o faziam,
tal intromissão não era muito relevante (leve-se em consideração que, na
mitologia Grega, depois da ascensão dos novos Deuses a participação mais
relevante de um Titã é a de Atlas, quando colhe uma maça de ouro de uma árvore
do Jardim das Espérides para Hércules), assim como Ptah que decide, faz ameaças,
não vê sua vontade feita e, mesmo assim, nada faz para punir a desobediência,
como seria de se esperar que fizesse.
Agora que já explicamos um pouco melhor a relação entre
a mitologia Egípcia e as outras Mitologias que lhe são posteriores, podemos
concluir esta parte da História. Há que se explicar o que foi feito dos Deuses:
Como se pode notar, todas as histórias até aqui se remetem
a um tempo em que os Deuses caminhavam livremente entre os homens, porém
depois da vitória de Hórus sobre Set, vitória essa que não é definitiva,
na medida em que set não morre (o que é proposital para deixar a lição de
que deve-se tomar cuidado na manutenção da Maat, pois o mal e o caos espreitam),
as coisas se tornaram diferentes.
O próprio Hórus, como se pode constatar, na mitologia Egípcia
é um deus atípico. Filho de três Deuses (Ra, Osíris e Isis), ele morre, mas
ressucita, o que indica que pode voltar do mundo dos mortos, de onde ninguém
volta. Sua ressurreição explica o fato de um novo Faraó ser empossado após
a morte do anterior, afinal, o Faraó é o Hórus Vivo.
Quando Hórus assume o trono, o que, na mitologia Egípcia
equivale à unificação do Egito e à entrega do poder aos homens, os demais
Deuses não perdem seus poderes, mas passam a não mais caminhar por entre
o mundo dos vivos, vão se juntar a Osíris em Amentet. Lá, organizam sua
sociedade divina e de lá são convocados todas as manhãs em seus respectivos
templos, por seus Sacerdotes, ou pelo próprio Faraó. O único Deus Vivo a
caminhar por entre os homens era o Hórus, na figura do Faraó. Este, por sua
vez, era uma figura dual, ao mesmo tempo homem e Deus (Niswt) e Homem
(Hm).
Todos os homens, contudo, estavam aptos a entrar em Amentet,
o Reino dos Mortos, e lá viverem ao lado dos Deuses por toda a eternidade.
Para isso, no entanto, alguns cuidados deveriam ser tomados, cuidados estes
que, originalmente, como vimos, estavam ligados à pessoa do Faraó, mas que
posteriormente, ainda no Antigo Império, passaram a ser cada vez mais individualizados.
Não bastava apenas que o indivíduo fosse corretamente mumificado,
ele deveria ser sepultado de acordo com todas as normas, ou seja, deveria
possuir os quatro vasos canópicos nas formas dos Deuses (filhos de Hórus)
protetores de seus respectivos órgãos internos (estômago (protegido por Duamutef),
intestinos (protegidos por Qebesenuf), pulmões (protegidos por Hapi) e fígado
(protegido por Amset)), deveria receber uma cerimônia adequada de abertura
de boca na qual seu ka (espécie de conceito de alma Egípcio, em termos
gerais, a personalidade individual de cada um, por isso, no início apenas
o Faraó e os Deuses o possuíam, depois, esse conceito foi difundido a todos)
retornava para seu corpo, deveria ser corretamenete alimentado (com alimentos
que seriam devorados apenas pelo “olhar” da múmia), receber ungüentos e fragmentos
de encantamentos mágicos entre as bandagens e, por fim, um amuleto em formato
de escaravelho (o chamado “Olho de Hórus”, que ele perdeu na batalha com
Set, mas que, depois, teve restaurado por Thot) deveria ser adicionado às
bandagens.
Todas essas precauções, no entanto, de nada valeriam se
o indivíduo não fosse bem sucedido nos testes do Tribunal de Osíris. Quando
chegava ao Mundo dos Mortos o indivíduo era submetido ao conselho dos Deuses,
perante o qual deveria declarar que sempre colaborou com a manutenção da
Maat (inicialmente essa declaração deveria ser verdadeira e espontânea, mas,
com o passar do tempo, como veremos mais adiante, acabou se tornando uma mera
repetição mecânica de fórmulas mágicas contidas no Livro dos Mortos, que,
ainda não era utilizado no Antigo Império), ou seja, que não havia roubado,
matado, desviado canais de irrigação em benefício próprio, sonegado tributos,
invadido terras alheias, etc.
Se os Deuses julgassem sua
declaração como verdadeira, então Anúbis colocaria o coração (que os Egípcios
acreditavam ser o repositário tanto da mente (ou seja, da consciência) quanto
do ka (a alma)) do morto sobre um dos pratos de uma balança. Osíris
colocaria, então, uma pena (o símbolo da Maat) sobre o outro prato da balança
e então a medição se daria. Se o coração fosse mais leve ou do mesmo peso
que a Maat, o morto seria declarado apto a entrar no Reino de Osíris e, sendo
assim, a se tornar imortal. Contudo, se o coração do morto fosse mais pesado
que a pena, este seria atirado a Sebek, o Deus Crocodilo criado por Osíris
para devorar os corações impuros, e, sendo assim, o indivíduo seria destruído
para sempre.
Não se tem certeza, mas é fortemente
possível que sim, se os Egípcios acreditavam que o vilipêndio a um túmulo
destruiria a imortalidade do indivíduo dono da múmia. Se eles realmente acreditavam
nisso, então o trabalho dos ladrões de sepultura, cultistas de Set, era,
também, diminuir a população do Reino de Osíris.
5.7 – Culto a Deuses Solares:
Como
vimos, o culto ao Sol e a seus diversos aspectos povoava o imaginário religioso
dos Egípcios. Porém, já que este astro era tão importante na vida daquele
país, nada mais importante do que dissecar as diversas imagens que ele veio
a ter, bem como suas implicações até mesmo na política Egípcia, visto que
no Vale do Nilo política e religião eram um só assunto, uma vez que este era
governado por um Faraó-Deus.
Na história do panteão Egípcio pudemos ver que Ra foi o
primeiro Deus a surgir, mas que surgiu com o nome de Aton. Por que isso aconteceu?
a
Aton |
Bem,
porque Aton e Ra não eram exatamente a mesma divindade, mas sim, duas divindades
relacionadas a uma mesma coisa: o Sol.
Aton correspondia ao Círculo Solar, ou seja, àquela bola amarelo-avermelhada que se vê quando se olha para o céu durante o dia. Podemos dizer que Aton é a forma física do Sol, por isso, o primeiro a surgir.
|
Porém, quando Aton surge, inevitavelmente Ra surge junto
com ele. Ra é o Sol em si. O caráter Real e, porque não, Divino daquele astro.
É ele quem toma atitudes, tem personalidade e até uma forma física humanóide
(é um homem com uma cabeça de pássaro e uma coroa com o Sol sobre a cabeça).
Ra é o Sol que governa, Aton o sol que brilha nos céus, ambos são um e este
um são os dois.
Hórus, contudo, é, em seu aspecto humanóide, muito parecido
com Ra. Muitas vezes só se pode diferenciar os dois pelo adorno de cabeça
(o de Ra é o próprio Sol, o de Horus, a coroa dupla do Egito). Por esse motivo
e por ser filho de Ra, Hórus também é uma divindade solar. Com efeito, ele
é o Sol Vivo. O Sol que caminha entre os homens. Ele é o que Ra costumava
ser. Quando Ra deixa de sê-lo, praticamente se fundo a Aton em uma só divindade
cujo nome preponderante é Ra, mas também chamada Ra-Aton.
O fenômeno de fusão divina, tão comum na Antiguidade, também
é uma criação Egípcia. Antropologicamente falando, ele se deve, ao menos no
Egito, ao próprio fenômeno político da união gradativa dos Spat. Em muitos
casos, dois Deuses poderosos e que se relacionavam a aspectos (ou portfolios)
semelhantes acabavam se fundindo num só. Usualmente o nome do Deus preponderante
é colocado antes e o do Deus “vassalo”, depois, dessa forma, Ra-Aton constitui
a fusão de Ra com Aton sendo que este está em condição de inferioridade em
relação àquele. Muitas histórias (deve-se ter em mente que nem todas as histórias
da mitologia Egípcia foram aqui contadas, apenas o eixo narrativo principal)
falam sobre o canibalismo de Deuses, ou seja, sobre Deuses que se tornam mais
poderosos ao devorar outros. Este é um desses casos. No Catolicismo atual
podemos perceber ainda resquícios fortes dessa antiga tradição surgida no
Egito. Santos como Nossa Senhora de Fátima, Virgem de Guadalupe, Nossa Senhora
Aparecida, Nossa Senhora de Lourdes... são, na verdade, aspectos de uma mesma
Santa: Maria. No entanto, existem milhares de fiéis e registros de milagres
de cada uma delas e, ao menos em teoria ela acabam se tornando divindades
diferentes. O mesmo ocorreu na Grécia na medida em que esta se expandiu militarmente
no Período Helenístico e também em Roma, quando de sua expansão, ou seja,
o canibalismo divino com um mesmo Deus adquirindo diversos aspectos é um
fenômeno típico de fés expansionistas. Assim como empresas estrangeiras quando
compram uma empresa já conceituada tendem a manter o nome da empresa comprada
por um certo tempo (como, por exemplo, fez a Toshiba ao comprar a Semp, tornou-se,
por alguns anos a Semp-Toshiba, para hoje, agora que já conquistou o mercado
que outrora pertencera à outra, voltar a ser apenas Toshiba como, aliás,
em seu país de origem, ela nunca deixara de ser) para, não causando estranhamento
nos consumidores, angariar sua fidelidade, também as religiões adaptam seus
dogmas e seus Deuses às realidades de cada região para, não chocando os fiéis
com a pura e simples imposição, angariar sua fidelidade como se ela fosse
um prolongamento natural do culto às antigas Divindades nacionais agora suplantadas
pelo expansionismo (geralmente militar) de outra nação.
Por fim, não podemos nos esquecer que Osíris era o outro
pai de Hórus. Isso também é um acerto teológico para agradar a todos, visto
que ao menos nos primórdios, Osíris era a única Divindade verdadeiramente
nacional. Era adorado em todas as partes do Egito, em especial pelas camadas
mais pobres da população. Por isso sua lenda diz que em cada um dos 14 lugares
onde Isis encontrou um pedaço de seu corpo foi erigido um templo em sua homenagem.
Deve-se pensar que 14 é igual a 2X7 e que 7 é o número do infinito segundo
o ocultismo, cujas raízes são Egípcias. Por isso, não é de se espantar que
esse 14 queira na verdade dizer duas vezes o infinito, ou seja, na prática,
em todos os lugares.
Osíris foi o primeiro Deus importante a realmente morrer.
Porém, sua morte não é completa, na medida em que ele ressucita com a mumificação.
Ele vai então viver em Amentet, o Mundo dos Mortos, do qual se torna Rei.
O único Rei verdadeiro dos homens, visto que a existência no mundo dos vivos
é temporária, mas no mundo dos mortos é eterna. Essa lenda foi feita para
se salientar necessidade da mumificação no processo de busca da vida eterna,
com efeito, Osíris é a primeira múmia da História. No entanto, com o passar
do tempo Osíris foi associado à explicação de mais um fenômeno: o nascer
e o pôr do sol.
Se o Sol era Ra-Aton, isso era durante o dia, enquanto brilhava
forte e vigoroso, porém, assim como todos os indivíduos fazem uma vez na vida,
no final de cada dia o sol ia para o ocidente, para o Mundo dos mortos. Então
surgia a noite comandada por Hator, mas, enquanto ela alegrava a Ra-Aton depois
de sua jornada diária, no Mundo dos Morto era Osíris quem o conduzia de volta
ao Egito. Por essa razão Osíris passou a ser cultuado também como o Sol Noturno,
aquele sol que não se vê, pois, durante a noite, está em Amentet.
Como já foi dito, a partir da IV Dinastia o clero de Ra,
radicado em Heliopolis, foi ganhando cada vez mais força e isso pode ter sido
a razão da derrocada do Antigo Império. Pois bem, na V Dinastia, quando os
parentes dos Sacerdotes de Ra já não mais compunham a Realeza, estes começaram
a exercer o poder que haviam obtido durante o tempo em que seus parentes se
sentavam no trono de Mênfis.
Uma das primeiras e mais impressionantes demonstrações da
força do clero de Heliopolis foi a submissão de Hórus a Ra e a conseqüente
submissão da figura do Faraó ao clero de Heliopolis.
Durante a IV Dinastia Ra já havia canibalizado Aton fazendo
com que esse Deus fosse praticamente esquecido por muitos e muitos séculos
(ele viria ater muita importância ainda, mas apenas na XVIII Dinastia, como
veremos), agora sua missão era canibalizar também o Faraó-Deus. Para esse
propósito, a primeira coisa que o clero de Ra conseguiu foi considerar Hórus
como filho de Ra, data, portanto, da V Dinastia, a mudança na teologia oficial
que passa a aceitar dois pais para Hórus (é curioso notar que Osíris nunca
é descartado como figura paterna de Hórus porque os Egípcios em tudo, mas
especialmente em assuntos religiosos, tinham o costume de nunca descartar
totalmente tradições antigas, sendo assim, se uma nova explicação para algo
surgia, esta era simplesmente fundida às já existentes; isso, em muitos casos
é o responsável pela complexidade e dificuldade de compreensão de muitos aspectos
da história e da religião Egípcias).
A partir daí, ocorre uma mudança gradativa e progressiva
na figura do Faraó que passa de Deus Vivo a Filho de Deus, ou seja, um título
de muito menos poder. Por fim, ainda na V Dinastia, ocorre a submissão de
Hórus a Ra (se bem que em muitos lugares se possa ler a expressão Hórus-Ra,
o que inçaria uma submissão de Ra a Hórus, essa expressão é errada, sendo
a correta a que vem a seguir), passando esse Deus a se chamar Ra-Horemkhet,
ou seja, “Ra, o Hórus no Horizonte”, nome pelo qual esse Deus seria conhecido
por todo o Primeiro Período Intermediário e também por todo o Médio Império.
5.8
– Implicações da Religião na Vida da População:
Acredito
que grandes explicações neste item sejam dispensáveis, a esta altura o leitor
já deve ter podido perceber que a religião, no Egito Antigo, era a principal
preocupação de todos os indivíduos.
No entanto, apenas para que se possa ressaltar essa noção;
enumerarei algumas das influências da Religião na vida dos Egípcios:
As cidades Egípcias eram construídas, em geral na margem
oriental do Nilo e as tumbas e templo na margem ocidental. Isso se dava porque,
por causa do ciclo do sol, os Egípcios desenvolveram a noção de que a morte
está relacionada com o ocidente e a vida com o oriente, sendo assim, cidade,
onde se vivia, se situavam no oriente e túmulos (onde habitavam os corpos
dos mortos) e templos (onde se comunicava-se com o além) situavam-se no ocidente.
É claro que isso não é uma lei universal, existiam tumbas e, sobretudo, templos
na margem oriental do Nilo, bem como cidades e vilas na margem ocidental,
no entanto, via de regra o que ocorria era o contrário.
Quanto à criação do mundo, o Egito é nitidamente o centro
de tudo, do cosmos e do mundo. É a Colina Primeva e seus habitantes, leia-se
os Egípcios e não seus escravos e mercenários, são os verdadeiros habitantes
do mundo, os demais habitantes, os estrangeiros, são menos que humanos. Criações
grotescas de Set. Aliás, de uma forma um tanto quanto distante; essa tradição
dialoga com o Judaísmo, onde Seth, o terceiro filho de Adão e Eva, teria
sido o responsável pelo povoamento do mundo e, sendo assim, o pai da humanidade.
Como já foi falado, os nomes, para os Egípcios, eram considerados
fontes de poder, sendo assim, quem soubesse o verdadeiro nome de um indivíduo
poderia controla-lo, o que gerou a prática de se batizar os filhos com dois
nomes. Um nome verdadeiro e secreto e um nome público, mas falso.
As tradições mágicas do mundo (como veremos) em muito devem
ao Egito. É verdade que estas só se espalharam devido aos Filósofos Neo-Platônicos
que habitaram Alexandria, porém, muitas delas ou foram criadas pelos Egípcios
(sendo, às vezes, modificadas pelos povos que as recebiam), ou inspiradas
(mesmo que de forma errônea, com veremos, foi o caso do Hermetismo e da
Alquimia) em sua cultura.
O calendário Egípcio era muito confuso e se faz hoje de
difícil datação porque, como já foi mencionado, ele era zerado a cada nova
encarnação de Hórus, ou seja, a cada novo Faraó que tomava posse, sendo assim,
as datas eram registradas segundo a seguinte fórmula: tal evento ocorreu
no ano X do Faraó Y.