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Egito: o Berço do Ideal Imperial
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Como
havia sido dito, por volta de 2133 o Egito estava novamente dividido em dois
Reinos: o Baixo Egito com a capital em Herakleópolis, no Fayum, e o Alto Egito,
com a capital em Tebas.
Mentuhotep I havia sido o responsável pela criação de uma
forte Dinastia em Tebas e pelo início da unificação do Alto Egito, após sua
morte, seus sucessores Inyotef I, II e III concluíram sua obra, tanto que,
à época do governo de Mentuhotep II, a XI Dinastia de Tebas entrou em choque
com a X Dinastia de Herakleópolis.
O Nomarcas do Alto Egito haviam sido o último baluarte do
poderio militar do Antigo Império, por isso, possuíam armas superiores e melhores
táticas de guerra. É verdade, contudo, que a reunificação do Baixo Egito
se havia dado como meio para expulsar os estrangeiros que ocupavam o Delta,
porém, até no campo da tarimba em batalhas os combatentes do sul estavam
mais adiantados, visto que haviam se reunificado pela imposição da força
das armas de Tebas sobre os demais Spat.
A falta de força política dos governantes de Herakleópolis
também parece ter sido determinante na derrota da X Dinastia frente à XI.
A submissão do Fayum, no entanto, não garantia a submissão de todo o Baixo
Egito, por isso, Metuhotep II teve que organizar diversas campanhas militares
para submeter um a um todos os Spat do Baixo Egito. Foi questão de tempo apenas,
pois ainda em seu governo, Mentuhotep II pôde se considerar o Faraó do Alto
e do Baixo Egito.
A tática de Mentuhotep II, que foi mantida por seus sucessores
(Mentuhotep III e IV) foi a de confiscar as terras que haviam sido doadas
aos templos no Antigo Império e substituir os Nomarcas do governo de seus
Spat, colocando em seus lugares indivíduos de sua confiança.
A tática de organização estatal dos Faraós de Tebas gerou
muita insatisfação entre os Nomarcas e suas cortes locais, além disso, o clero
de Ra, que até então era o mais forte do Egito, viu seu poder esvair-se com
o confisco de suas terra e a ascensão do Deus de Tebas como nova Divindade
principal do panteão.
7.1
– Transferência do Centro de Poder:
Apesar
de o Médio Império ser também conhecido como o Primeiro Período Tebano da
História Egípcia, na realidade apenas três foram os Faraós que Reinaram em
Tebas: Mentuhotep II, III e IV. Quando este último morreu, ocorreu uma séria
crise política que terminou por ocasionar a mudança da capital do Egito.
O fato foi que o governo dos Faraós da XI Dinastia foi totalmente
voltado para a centralização do poder que estava descentralizado desde o
final do Antigo Império, por isso, diversas foram as medidas por eles tomadas.
Algumas, de cunho mais político-militar ou religioso e de caráter mais óbvio,
como o confisco das terras dos templos (em especial dos de Ra), a substituição
dos Nomarcas por funcionários leais e imposição do culto à sua Divindade local
(que será visto mais adiante) já foram ao menos mencionadas, porém, houve
outras que também tiveram relevância.
Primeiramente, os Faraós da XI Dinastia chegaram mesmo
a extinguir os Spat, dividindo o Egito em quatro grandes regiões administrativas,
cada uma delas sob a supervisão de um funcionário leal ao Faraó, isso gerou
insatisfação não só nos antigos Nomarcas que haviam sido destituídos de seus
postos, mas também nas populações dos Spat que agora não possuíam um governante
local tão próximo delas como costumavam possuir. Porém, o ponto que detonou
a crise foi ocasionado talvez pelo único erro dos Faraós desta Dinastia:
a diminuição (ou talvez extinção, como querem alguns autores) de sua corte.
Na verdade, talvez se pautando na História final do Antigo
Império, os primeiros Faraós do Médio Império teriam percebido que as cortes
Reais teriam precipitado a crise que pôs todo o sistema a perder. Por isso,
limitaram o máximo que puderam seu séqüito de seguidores e parentes. É possível
que até mesmo costume da poligamia Faraônica não tenha sido observado por
esta Dinastia. O que não surpreenderia, afinal, o Faraó havia acabado de reaver
seus poderes Divinos e, sendo assim, os indivíduos que ocupavam o cargo ainda
não estavam totalmente acostumados à sua real importância, e conseqüentes
direitos, Divina.
A limitação do número de esposas (mesmo que a poligamia
não tenha sido abolida, o que não é comprovado, é certo ao menos que os Faraós
dessa Dinastia tiveram bem menos esposas do que seus predecessores costumavam
ter) ocasionou uma conseqüente redução no número de herdeiros o que fez com
que Mentuhotep IV morresse sem ter um filho homem para assumir o trono em
seu lugar.
Todo o clima de discórdia contido que estava fermentando
no Egito nas últimas décadas ameaçou explodir. Não havia um “herdeiro necessário”
(título dado ao filho do Faraó que estava sendo preparado para governar) para
assumir o trono e continuar a conduzir a Maat, por isso os Nomarcas depostos
(mas que ainda conservavam grande influência sobre suas populações) ameaçavam
se rebelar contra o sistema de divisão territorial imposto pela XI Dinastia.
Foi nesse clima de desordem que um oficial oportunista,
na verdade, o Tjati, apoiado por alguns Nomarcas do Baixo Egito conseguiu
desposar a filha de Mentuhotep IV e, dessa forma, se tornar o novo Faraó.
Seu nome era Amenemhat I e ele viria a se tornar um dos mais famosos Faraós
do Egito, pois seria o responsável por uma reforma política essencial que
viria a ser adotada no Egito posterior pela maioria dos Faraós.
Para começar, Amenemhat I resolveu abandonar Tebas onde
as pressões políticas sobre ele (cuja base de sustentação era o Baixo Egito)
eram muito fortes e se mudar para o Fayum. Porém, ele não queria se instalar
em Herakleópolis para não dar ao Alto Egito a impressão de que o Faraó governava
em prol do Baixo Egito, por isso, mudou-se para uma cidade sem muita expressão
até então, chamada Iti-tauí. De lá os Faraós da XII Dinastia, fundada por
Amenemhat I, governaram o Egito. Com efeito, esta foi a capital Egípcia durante
o Médio Império. A medida política mais importante de Amenemhat I, contudo,
não foi a transferência de capital, mas sim uma outra. Antes de falarmos
dela, todavia, devemos lembrar que tão logo se estabeleceu na nova capital,
o Faraó desfez o que seus sucessores haviam feito, ou seja, devolveu as terras
confiscadas aos templos e acabou com a divisão do Egito em quatro, voltando
à antiga divisão em 44 Spat.
Falemos agora, finalmente, da inovação de Amenemhat I. Este
Faraó sabia que havia podido ascender ao trono devido à redução de membros
da família Real operada pelos Faraós da XI Dinastia. Porém, ele também sabia
que esta redução se fazia necessária para evitar a proliferação, à volta do
Monarca, de pessoas com poder e influência suficientes para exigir “direitos”
e favores. Para resolver o problema que ele podia ver que o havia favorecido,
mas que ainda poderia vir a colocar o Egito em sérios problemas, Amenemhat
I associou seu filho ao trono, dessa forma, ele governava, mas o filho era
uma espécie de co-regente e, após sua morte, não haveria a necessidade de
uma transição, visto que bastaria que o co-regente assumisse o trono. Na prática,
o co-regente não tinha poderes, apenas status. Sua função era a de se tornar
conhecido e respeitado como aquele que viria a ser Faraó, isso facilitaria
sua legitimação no cargo. A medida de Amenemhat I realmente deu certo visto
que, como veremos, reduziu drasticamente (nos momentos de estabilidade política)
a velocidade com que se mudavam as Dinastias.
O co-regente era também chamado de “herdeiro necessário”
e passava a ser preparado para assumir o trono de seu pai aprendendo tudo
o quanto fosse necessário para se governar bem. Para se destacar das demais
crianças e/ou jovens, ele utilizava o cabelo quase todo raspado, exceto por
uma trança no lado esquerdo da cabeça. Quando se tornava Faraó, o “herdeiro
necessário” tinha sua cabeça inteira raspada e assim iria viver pelo resto
de seus dias, como todos os Faraós sempre fizeram.
7.2
– As Duas Capitais do Egito:
Qualquer
um que conheça minimamente a História do Egito já ouviu falar em pelo menos
duas de suas muitas capitais: Mênfis e Tebas. Realmente estas foram as duas
primeiras capitais do Egito unificado, porém, não se deve a isso sua enorme
fama.
Mênfis foi a cidade construída (como vimos) pelo próprio
e legendário Narmer para ser a capital do Egito unificado. Sua localização
foi escolhida a dedo para ficar na intersecção entre o Alto e o Baixo Egito,
não diferenciando nenhuma das regiões aos olhos do poder central e até sua
Divindade principal, Ptah, foi a responsável pela conciliação entre as Enéades
de Heliopolis e Hermópolis.
Tebas, por sua vez, emergiu como potência capaz de operar
a reunificação do Egito após quase cem anos de desordens e abalos na Maat.
Porém, esta cidade foi abandonada após ter sido residência de apenas três
Faraós, portanto, porque veio a se tornar tão importante?
Bem, como foi o Spat de Tebas que teve forças para unificar
o Egito, essa força foi considerada advinda de sua Divindade: o obscuro
Amon. Até então este Deus sempre existira, mas nunca havia sido mais do que
um Deus local, padroeiro de um Spat e sem qualquer relevância no cenário
nacional. Com a tendência extremamente centralizadora dos três Faraós imediatamente
seguintes à unificação, Tebas se tornou rapidamente o centro político do
Egito e, com a drenagem da força do Clero de Ra, o Clero de Amon se tornou,
em pouco tempo, o principal do Egito.
A decisão de Amenemhat I de abandonar Tebas e devolver as
terras confiscadas ao Clero de Ra favoreceu em muito o culto a esse Deus,
porém, os Sacerdotes de Amon, aproveitando-se do descontentamento natural
do Alto Egito pela transferência da capital e pela ascensão ao trono de um
Monarca apoiado pelo Baixo Egito, começaram uma conspiração contra o poder
Faraônico.
Tebas não precisava da presença do Faraó para ser poderosa,
o Clero de Amon podia cuidar disso. Com efeito, Tebas se tornou tão mitológica
no imaginário Egípcio que, no futuro, seria considerada como sua eterna capital
religiosa, mesmo tendo Mênfis voltado a ser a capital administrativa.
7.3
– Sinuhe:
Readquirida
a soberania nacional, o Egito reiniciou suas campanhas de dominação sobre
as regiões próximas. É verdade que séculos foram necessários para que o Egito
pudesse enfim submeter, durante o Antigo Império, a Núbia, os nômades do
deserto e o Sinai, bem como realizar campanhas punitivas à Palestina e à Líbia.
Porém, sempre era tempo de se reiniciar tais campanhas.
Senuosret, filho mais velho de Amenemhat I e por ele associado
ao trono estava justamente em campanha na Líbia quando a conspiração dos
Sacerdotes de Amon contra seu pai se deu. O Faraó foi assassinado e como seu
“herdeiro necessário” estava longe, seus demais filhos começaram, certamente
instigados pelo Clero de Amon, a disputar o trono.
Mensageiros foram enviados para avisar Senuosret do ocorrido, mas
a crise ocasionada foi tal que gerou um conto, tal qual as “Admoestações
de Ipuwer”, porém, encontrado em sua totalidade e, por ser mais recente,
com um estilo literário mais bem acabado.
Pedra com "Sinuhe" |
A “História de Sinuhe”, ou simplesmente
“Sinuhe”, é considerada a melhor história do Egito Antigo, sendo que, também
por sua causa, o Médio Império é considerado a época Clássica da literatura
Egípcia, e conta justamente a transição do governo de Amenemhat I para seu
filho Senuosret I. |
| Este, aliás, como forma de pacificar
o Clero de Amon, mostrando que tinha para com ele baos intenções, construiu
em Tebas aquele que seria o maior templo do Egito e talvez de toda a Antiguidade:
o Templo de Karnak (como veremos, no item sobre o Novo Império, este templo
viria a ser não apenas a sede do Clero de Amon, mas também a principal forma
de legitimação do poder Faraônico). |
Ruínas do Templo de Karnak |
No
entanto, a principal preocupação do autor não foi retratar o assassinato do
Faraó, que nem sequer é mencionado na obra (diz-se apenas que ele morreu),
nem a ascensão de Senuosret I ao trono, mas sim, dado o reinício das campanhas
militares internacionais, manifestar a preocupação Egípcia em se morrer fora
do Egito. Com efeito, a universalização (dentro do Egito e para os Egípcios,
que fique bem claro) do conceito de ka (que já foi referido) fez com
que todo Egípcio adquirisse uma grande preocupação com seus ritos fúnebres,
sendo assim, a possibilidade de se morrer em combates e, o que é pior, fora
do Egito soava tétrica. Não receber os ritos fúnebres devidos era ser condenado
à destruição após a morte, sem nem mesmo a chance de se defender frente ao
tribunal de Osíris.
Não transcreverei “Sinuhe” como fiz com as “Admoestações
de Ipuwer” porque não julgo necessário, afinal, este conto é bem maior
que o outro e sua história, apesar de mais bem acabada, muito mais simples.
Em termos gerais, Sinuhe, um cortesão, após a morte do Faraó
e frente ao conflito iminente entre Senuosret e seus irmãos, passa a temer
por sua vida, pois o vitorioso certamente iria exterminar a corte e eleger
um séqüito próprio entre seus homens de confiança. Por isso, Sinuhe foge para
a Líbia. Quando vaga pelo deserto, já quase morto, é encontrado e salvo por
um beduíno e este o torna seu braço direito. Em várias ocasiões Sinuhe se
mostra leal ao Egito (mesmo tendo fugido do país por medo e mesmo sendo tentado
pelos beduínos a não sê-lo), o que mostra a superioridade de espírito dos
Egípcios em relação aos estrangeiros. Com o tempo Sinuhe se torna um grande
líder guerreiro, dono de muitas terras e conselheiro do chefe. Porém, à medida
que a velhice se aproxima, especialmente após vencer um combate muito difícil
contra um indivíduo que o desafiara, ele passa a pensar constantemente no
Egito e a rogar para que os Deuses o ajudem a voltar em segurança para lá,
para que possa ser sepultado dignamente. Os Deuses intervém em favor de Sinuhe
e levam um seu velho amigo a perguntar por ele (mesmo à custo de sua própria
vida) para o Faraó. Senuosret I, contudo, vendo que o requisitante, mesmo
tendo falado em sua presença sem obter permissão, pedia sinceramente, concorda
em ajuda-lo e, sendo assim, envia batedores para todas partes à procura de
Sinuhe. Estes o encontram e o trazem de volta para o Egito onde o Faraó o
cumula de honras e bens, inclusive a honra máxima, um túmulo próximo ao seu.
Falarei mais sobre as práticas funerárias do Médio Império
no item devido.
7.4
– A Decadência do Médio Império e suas Razões:
O
Médio Império durou menos tempo do que o Antigo Império e, também por isso,
foi constituído de menos Dinastias, apenas uma (a XII) e parte de outra (os
últimos três Faraós da XI). Porém, nem por isso ele deve ser visto como um
período de fraqueza ou de não tanta glória para o Egito.
Como já lemos, várias mudanças religiosas, políticas e sociais
ocorreram nesta época, mas também mudanças tecnológicas como a entrada do
Egito na Idade do Bronze ocorreram neste período. Na verdade, os Monarcas
do Médio Império restabeleceram os contatos comerciais com os países estrangeiros
que haviam sido quebrados com a desintegração do Antigo Império. Punt,
Biblios, Creta, Núbia e Sinai voltara a fornecer os mais variados materiais
ao Egito, desde ouro, prata e marfim até madeira e pedras.
As expedições militares também voltaram a ocorrer e com
elas aumentou a afluência tributos e de escravos capturados. Para se ter
uma idéia, o Faraó Amenemhat I, em sua ânsia por combater os beduínos do
oriente (que viviam nas proximidades do Sinai e para onde Sinuhe, em sua
história, deve ter fugido), construiu uma verdadeira coluna de fortalezas
na fronteira oriental do Delta. Ao que parece eram 14 ao todo.
Também a Núbia voltou a ser submetida. Se no Antigo Império
os Faraós havia podido tomar a primeira catarata do Nilo e conquistar toda
a região entre esta e a segunda catarata, no Médio Império, sob o governo
de Senuosret III, foram ainda mais longe, conquistaram toda a região entre
a primeira e a terceira cataratas, tendo estabelecido fortalezas para a defesa
das posições conquistadas.
Senuosret III, do ponto de vista militar, foi o principal
Faraó desse Período da História do Egito, as fontes não são claras, mas é
possível que tenha chegado a realizar uma expedição militar à Palestina.
As expedições militares eram constantes e se faziam, no mais das vezes como
formas de aquisição de tributos. De um ponto de vista mais contemporâneo,
sem exageros nós poderíamos associar estas expedições a campanhas de pura
pilhagem, visto que os Egípcios nem sequer se davam ao trabalho de assinar
tratados de paz ou mesmo deixar guarnições para garantir o pagamento de novos
tributos. Essas expedições seriam o mesmo que se o Brasil estivesse precisando
de dinheiro e/ou algum produto que a Argentina dispõe, ele pura e simplesmente
atacasse a Argentina, roubasse aquilo que deseja e depois fosse embora. O
Egito tratava seus vizinhos como reservas infindáveis de recursos os quais
bastava-se ir até lá e pegar.
Não devemos, todavia, exagerar o poder dos exércitos Egípcios.
Como já foi falado, nenhum tipo de animal de tração era utilizado, sendo assim,
os exércitos marchavam à pé o que demorava e diminuía sua capacidade destrutiva.
Tão pouco existiam máquinas de cerco como aquelas que serão inventadas na
Grécia posteriormente (torres de cerco, catapultas e balistas, principalmente).
O arco e flecha já era utilizado, se bem que não ainda nas proporções que
viria a ser no Novo Império. Apesar da metalurgia do bronze estar sendo desenvolvida
no Egito (diga-se de passagem, com um atraso de cerca de mil anos em relação
à Mesopotâmia), ela ainda não era empregada na fabricação de armas. Estas
eram ainda de madeira, cobre e couro (especialmente as armaduras). Armaduras
agora já eram empregadas com maior alcance, mesmo assim, muitos soldados
ainda lutavam sem qualquer proteção. Finalmente, não devemos nos esquecer
do fundamental: os Egípcios temiam os combates, pois estes representavam
chances muito grandes de se morrer fora de casa e, sendo assim, empregavam
grandes contingentes de mercenários como suas tropas principais, o que (pela
própria motivação) reduzia a eficiência dos exércitos.
Se a decadência do Antigo Império é um tanto quanto confusa,
a do Médio Império não é muito mais clara. Ao que parece, a política desenvolvida
por Amenemhat I e continuada por seus sucessores da XII Dinastia, ou seja,
devolver as terras confiscadas aos templos e os títulos caçados aos Nomarcas,
contribuiu para um isolamento da Realeza, de modo que seu poder efetivo se
limitasse ao Fayum, aliás, essa região era nitidamente a mais favorecida do
Egito durante esse período, afinal, seus pântanos foram drenados, barragens
foram construídas e a capacidade agrícola foi consideravelmente ampliada.
É certo que as campanhas militares e o controle sobre o exército davam ao
Faraó a legitimidade necessária para governar o país inteiro, mas não lhe
davam o mesmo reconhecimento e devoção de que dispunham os Monarcas do Antigo
Império, especialmente em seu período de maior glória: a IV Dinastia.
Contudo, a causa mais provável da decadência do Médio Império
é a que a relaciona ao início da infiltração dos povos Indo-Europeus no contexto
do Mundo Mediterrâneo. Sobre isso, acredito ser melhor dedicar um item à parte.
7.4.1 – Os Povos do Mar:
A
designação “Povos do Mar” engloba uma vasta gama de povos que começaram a
se infiltrar no contexto do Mundo Mediterrâneo no final do III milênio a.C.
e que, por volta do final do II milênio, tinham operado uma mudança radical
na ordem estabelecida até então naquela região. Outra designação possível
para esses povos é “Povos Indo Europeus”. Ambos os termos são ruins e quase
completamente vazios de sentido. Não se pode definir seriamente um grupo como
sendo Indo Europeu, exatamente pelo fato de que a Índia e a Europa se situam
a milhares de quilômetros, espaço suficiente para o surgimento de diversas
civilizações sem qualquer correspondência cultural. Já Povos do Mar se refere
à aparente impressão de que tais povos visavam atingir o Mediterrâneo, visto
que só interromperam suas marchas para o oeste quando o encontraram.
Dentro dessas designações se encontram povos como os Assírios,
os Hititas, o Mitanitas, os Dórios, os Medos, os Persas e outros. A grande
vantagem tecnológica que esses povos dispunham se referia ao campo bélico.
Uns, como os Dórios e os Assírios, chegaram ao Mediterrâneo conhecendo a metalurgia
do ferro enquanto os povos da região ainda estavam na Idade do Bronze, por
isso, possuindo armas melhores, conquistaram facilmente seu espaço. Hititas,
Medos e Persas, bem como também os Assírios, conheciam a técnica de se prender
animais a carros e assim, criar veículos de guerra rápidos e destruidores:
os carros de guerra.
Muitos povos inclusos nesse grupo chegaram ao contexto do
Mediterrâneo Oriental num período de 1000 anos (entre 2000 e 1000) e, para
Mâneton, os Hicsos eram um deles.
Os Hicsos, cujo nome em Egípcio significa “Príncipes de
Países Estrangeiros” (o que, portanto, não significa que este fosse o nome
pelo qual este povo se chamava a si mesmo) começaram a invadir e se estabelecer
no Delta oriental por volta de 1800. As fortalezas construídas na região com
o intuito de barrar os beduínos e talvez as primeiras incursões desses povos
invasores nada puderam fazer e, pelo contrário, uma vez sobrepujadas, passavam
a pertencer ao inimigo, tornando-se parte de sua própria linha de defesa.
A perda do Delta oriental fez com que o governo central
praticamente abandonasse a região do Delta, o que fez com que os Líbios
também se encorajassem a atacar o Delta em seu lado ocidental. Visando se
defender dos ataques Líbios e sem poder contar com a ajuda do poder central,
as populações do Delta ocidental se uniram criaram uma Dinastia independente
da Dinastia Reinante. Esta Dinastia é conhecida com sendo a XIV.
Você disse XIV? Deve haver um erro, você ainda não mencionou
uma XIII Dinastia. A Dinastia Reinante no Fayum é a XII, certo?
Bem, é praticamente isso. Na realidade, a XIII Dinastia
não tem muitos registros, nem sequer governantes (são apenas três: Sebekhotep
III, Khasekhemrá Neferhotep, e Meryankhrá Mentuhotep). Teria sido uma continuação
natural da XII Dinastia, tendo, inclusive, Reinado em Iti-tauí. O que pode
ter ocorrido é que dada a perda do Delta (principal componente do Baixo Egito,
a base de apoio da XII Dinastia), uma crise política pode ter se abatido sobre
a Realeza e feito com que o poder passasse às mãos de outra família.
Quanto a se fortificarem, como eu tinha dito que os Hicsos
haviam feito no Delta oriental, bem eles construíram uma cidade, Avaris (a
primeira cidade murada do Egito), e, de lá se lançaram contra todo o país,
conquistando-o por volta de 1640.
7.5
– Práticas Funerárias do Médio Império:
Depois
da descentralização política ocorrida no Primeiro Período Intermediário, com
a reunificação do Egito operada por Mentuhotep II, os Faraós voltaram a possuir
recursos para construir túmulo imponentes. No entanto, os saques dos túmulos
dos Faraós do Antigo Império fizeram com que um novo ideal de sepultura começasse
a ser formulado.
Primeiramente é interessante que se note que a restauração
do comércio com Biblos possibilitou aos Egípcios voltar a construir barcos
de cedro. Desses, os mais suntuosos pertenciam ao Faraó e por serem tão caros
e belos, quando seu proprietário Divino falecia, eram com eles sepultados.
Sendo assim, retomou-se no Médio Império a prática do Antigo Império de se
sepultar os Faraós com seus barcos. No Antigo Império essa prática havia se
difundido tanto que Imhotep, na falta de cedro (ou talvez por saber que o
cedro é passível de destruição pelo tempo e a pedra não), construiu um barco
de pedra para o conjunto funerário de Djeser.
Com medo dos saques, Mentuhotep II construiu para si o primeiro
túmulo escavado na rocha da história do Egito. Como já foi mencionado, o túmulo
em si não era a única coisa a compor a paisagem funerária do complexo de
um Faraó morto. Além dele haviam a capela, o santuário e também a pirâmide
(que, no caso de Mentuhotep II) não era o túmulo, mas apenas um monumento
fúnebre, talvez construído com o intuito de enganar possíveis ladrões.
Na medida em que foi se percebendo que a restauração da
autoridade central bastara para coibir os roubos, os Faraós, especialmente
os da XII Dinastia, voltaram a construir pirâmides. Estas, no entanto, não
eram tão grandes nem tão suntuosas quanto as do Antigo Império e, ao contrário
daquelas que eram construídas em Necrópoles à beira do deserto, estas foram
construídas no próprio Fayum. Isso se deve talvez à falta de recursos (pois
como já foi mencionado, o governo não era tão soberano assim) ou, mais possivelmente,
à falta de fé, visto que a construção de pirâmides não se dava com mão-de-obra
escrava (como vemos em filmes hollywoodianos antigos), mas livre. Os trabalhadores
colaboravam por convocação, mas, sobretudo, por fé, afinal, estavam construindo
a casa eterna de seu Deus Vivo, por isso, na medida em que a importância religiosa
do Faraó decresceu (deve-se notar que ele continuava venerado e cultuado
como um Deus (aliás, os cultos Egípcios ao Faraó, mesmo nas épocas de menor
intensidade, fariam qualquer fanático religioso dos dias de hoje parecer
um homem sem fé), apenas não tão fanaticamente quanto antes), o vigor da
construção também o fez. Os templos eram agora mais valorizados e continuariam
a sê-lo até o final da Históriaa do Egito.
Uma prática funerária importante e interessante que surgira
no final do Antigo Império, mas que fora restaurada no Médio e que perduraria
pelo Novo foi a prática de o Faraó financiar, em vida, a construção de uma
vila à beira do deserto onde haveria um santuário seu. Após sua morte, as
pessoas daquela vila ficariam responsáveis por manter sua memória viva. Essas
pequenas comunidades vivam uma vida monástica praticamente à parte do resto
do Egito e perduraram até a Era Cristã, quando finalmente foram atingidas
por missionários Cristãos que viram nelas uma grande oportunidade de perpetuação
de seu culto, sendo assim, converteram-nas e fizeram delas os famosos mosteiros
do deserto do Egito Medieval, de que nos fala Peter Brown. Mosteiros onde
surgiram diversas das teorias tidas como heréticas pela Igreja e que foram
responsáveis pela gestação do fanatismo religioso Cristão no Egito. Fanatismo
esse que, aliado ao Islâmico, foi responsável pela destruição de muitas peças
remanescentes do passado “pagão” do Egito. É, parece que o destino do Cristianismo
no mundo foi destruir, da mesma forma que um câncer faz com o corpo do paciente,
toda a memória histórica (tratando tudo, cada prédio, cada documento como
sendo de cunho religioso e, portanto, perigoso; parece que se trata de uma
fé que não se basta em si, precisa eliminar as outras para evitar a competição
teológica (o que é natural, na medida em que, como veremos, a teologia Cristã
de original nada tem, sendo uma série de compilações de teologias mais antigas
como a própria Egípcia)) das civilizações em que se infiltrou.