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Egito: o Berço do Ideal Imperial
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9
– O Novo Reino:
Em
1567, Ahmés, um Faraó de Tebas, conseguiu tomar Avaris e impor uma derrota
definitiva aos Hicsos. O Faraó voltou a Tebas cumulado de glórias e, por
seu feito heróico, data de seu governo o estabelecimento de uma nova Dinastia:
a XVIII. Estava iniciado o período Clássico da História Egípcia: o Novo
Império.
Antes de mais nada, só a título de elucidação, é bom que
os leitores compreendam o que significa delimitar um período como sendo Clássico.
Clássico é o período da História de uma civilização em que ela não só atinge
o apogeu de suas técnicas artísticas, militares, políticas, tecnológicas e
sociais, mas, especialmente, o período que melhor caracteriza aquela civilização
como um todo, ou seja, o “período modelo” daquela civilização. No caso do
Egito, embora a figura mais conhecida de sua História seja Cleópatra (que,
como veremos, foi sua última governante, tendo vivido no período anterior
à conquista Romana da região) e ainda embora as construções Egípcias que mais
povoam o imaginário popular ao redor do globo sejam as Pirâmides (como vimos,
construídas no Antigo Império); mesmo assim, o período que melhor compreende
o que foi a civilização Egípcia é aquele conhecido como Novo Império.
Além de ser já considerado como o Período Clássico da História
do Egito, o Novo Império será também o eixo central desta obra, pois é durante
este período que se constrói, consolida e, no final dele, desmorona aquilo
que foi o primeiro Império Internacional do Mundo: O Império Egípcio.
Pois bem, comecemos pela recuperação da narração da História
da reunificação do Egito perpetrada pela XVII Dinastia de Tebas e concluída
por Ahmés (em Grego o nome deste Faraó é Ahmosis e como as principais fontes
acerca do Novo Império são Gregas, muitas vezes será visto seu nome grafado
desta maneira, no entanto, neste texto optei pela grafia que mais se assemelha
à original Egípcia, retirada do Copta, como já mencionei na Introdução). Este
Faraó é um daqueles homens legendários, sobre o qual não se sabe muito, aliás,
não se sabe nem se quer se existiu realmente ou se não passa de um Faraó
mítico criado para explicar e marcar uma transição entre um período de caos
e um novo período de ordem. Em todos os sentidos, Ahmés está para o Egito
assim como Narmer, ou seja, um ancestral fundador cujo governo é envolto
em lendas e sombras e cujo grande feito parece ter sido apenas a unificação,
ou reunificação, no caso de Ahmés.
O processo de guerras contínuas por quase cem anos que culminou
com a derrota dos Hicsos deu ao Egito não apenas a restauração da soberania
sobre seu território e as inovações trazidas pelos invasores (entre elas se
contam diversos tipos de frutas, o gado zebu, alguns legumes, a metalurgia
do bronze (e as conseqüentes armas desse material), roldanas e guindastes
há muito utilizados na Mesopotâmia, o gado eqüino, os carros de guerra e
a disseminação do uso do arco e flecha, até então muito restrito), mas, especialmente,
uma inovação criada no Egito e que viria a ser a responsável, juntamente com
as novas técnicas militares introduzidas pelos Hicsos, pela viabilização da
construção do Império Egípcio nos próximos anos. Essa inovação foi a criação
de um exército nacional.
Pela primeira vez o Egito tinha
um corpo militar fixo e grande o suficiente para realizar campanhas militares
constantes em todas as partes. É verdade que desde o Antigo Império o uso
de mercenários estrangeiros já era disseminado no Egito, no entanto, estes
serviam apenas como uma espécie de guarda palaciana, nunca sendo usados
em ataques a países estrangeiros. O novo exército nacional era dividido
em diversos pelotões chefiados por comandantes e generais, todos submetidos
à autoridade suprema do Faraó que, devido aos conflitos geradores da nova
ordem, emergira, mais do que nunca, como um grande líder militar. Os soldados,
por sua vez, eram pagos em ouro e trigo para não terem que se dedicar a
outra coisa senão o serviço militar, sendo assim, em qualquer época do ano
o Egito dispunha de um contingente armado e, sobretudo, bem treinado, para
realizar campanhas onde quer que fosse.
O treinamento militar profissional
também passou a existir no Egito. Antes, o grosso dos contingentes militares
era composto de aldeões livres do trabalho pela cheia do Nilo. Agora, com
a profissionalização do exército, os soldados que não estavam combatendo
estavam em quartéis sendo treinados e, com isso, melhorando suas técnicas
militares. O uso de bigas e do arco e flecha modificou completamente o modo
de combater dos Egípcios. Se antes muitos homens perdiam as vidas em combates
corpo-a-corpo, agora os combates, centrados em disparos à distância e em
ataques com lanças realizados por lanceiros em cima das bigas reduziam muito
as perdas Egípcias. Com a conquista das primeiras regiões (novamente a Núbia
e a Líbia); novo contingente de mercenários foi introduzido no contexto do
Egito, estes, destinados à infantaria e, sendo assim, a uma morte mais provável.
Já que estamos falando das
técnicas militares básicas, falemos um pouco mais sobre as bigas. Estes carros
de guerra foram amplamente utilizados no Egito e em muitos países do Crescente
Fértil. Posteriormente, Gregos e Romanos ainda fariam uso deles, mas com
algumas incorporações, como sua transformação em quadrigas (puxadas por quatro
cavalos ao invés de dois) e a adaptação de facas nas extremidades das rodas
de modo a que cortassem as pernas das tropas de infantaria que ousassem se
interpor ao seu lado. Porém as bigas Egípcias ainda não contavam com tais
adendos, eram meros carros de guerra puxados por dois cavalos. No carro,
em si, iam de três a quatro homens, cada qual eximiamente treinado em sua
função, com efeito, a biga estava para o Novo Império do Egito assim como
o cavalo estava para a Nobreza feudal da Idade Média. Os ocupantes do carro
de guerra eram:
1 – O Condutor: Geralmente o mais velho e experiente
dos ocupantes da biga. Tinha que estar apto a conduzir ambos os cavalos à
mesma velocidade para evitar acidentes, inclusive desviando prontamente de
desníveis no terreno que poderiam fazer a biga capotar, além de manobrar
de modo a buscar os melhores ângulos para os combatentes que com ele estavam.
O condutor não portava quaisquer armas e era geralmente o único da biga
a utilizar armadura (uma vez que se todos os ocupantes vestissem armaduras,
o peso seria muito grande e a velocidade diminuiria). Na realidade, o uso
de armadura pelo condutor era indispensável, pois, caso ele fosse atingido
e morto, todo o conjunto estaria comprometido, ele era a peça chave. Em
geral, os Faraós eram treinados desde a infância para esta função, se bem
que alguns tenham preferido ocupar outras.
2 – O Arqueiro: Outra função indispensável
das bigas. O arqueiro era alguém com muita desenvoltura com o arco e flecha,
geralmente o responsável pelo maior número de mortos entre as fileiras
inimigas. Justamente por esse caráter decisivo na batalha, muito Faraós
optaram por desempenhar esta função em seus respectivos carros de guerra.
O arqueiro geralmente se posicionava entre os outros três ocupantes da biga
e tanto por não ter aonde se segurar, quanto por ter que utilizar ambas as
mãos para operar o arco e as flechas, mantinha-se sobre o carro porque era
amarrado a ele. Além de um lugar no piso da biga para que seus pés fossem
encaixados, havia também uma corda que o prendia pela cintura à própria
estrutura do carro. Com efeito, o arqueiro era o ocupante que tinha menos
chances de cair da biga. Em geral suas flechas eram disparadas para trás,
tanto por uma questão de facilidade, quanto para evitar acidentes, como
acertar um dos companheiros ou um dos cavalos.
3 – O Lanceiro: Num dos lados da biga se localizava
o lanceiro. Algumas vezes este indivíduo também era amarrado à biga, mas,
em geral, não. Além da lança, o lanceiro geralmente possuía um kopesh na
cintura para a eventualidade alguém se aproximar demais e de ele próprio
vir a cair, ficando no meio do campo de batalha. Sua função primordial era
impedir que inimigos se aproximassem demasiadamente da biga, o que poderia
não só assustar os cavalos, como também ferir o condutor ou mesmo tombar
o carro. Quando ocorria de o arqueiro vir a perecer, às vezes a biga era
utilizada para realizar rápidas escaramuças nos flancos da infantaria inimiga,
sendo assim, o lanceiro se fazia ainda mais útil.
4 – O Ajudante: O quarto ocupante da biga,
quando havia, era uma espécie de coringa. Em geral um jovem; ainda em treinamento;
que estava indo junto com o exército para adquirir experiência prática nos
combates, o ajudante podia desempenhar qualquer uma das funções, exceto
a do arqueiro. Sendo assim se o condutor perecesse, ele deveria estar pronto
para assumir as rédeas dos cavalos, o que seria a diferença entre a vida
e a morte de todos os tripulantes. Se o lanceiro perecesse, ele deveria tomar
seu lugar. Caso nenhum infortúnio acontecesse, o lanceiro deveria servir
de flechas o arqueiro, o que aumentava a taxa de disparos dele, ou ainda,
caso surgisse a necessidade, atuar como um segundo lanceiro. Por ser uma
espécie de faz tudo, ajudante não era amarrado à biga e, por isso, estava
muito sujeito a cair. Justamente por estar sujeito a quedas, ele também levava
um kopesh à cinta.
Agora que já compreendemos
o funcionamento das bigas, resta-nos ver algumas das novas tecnologias militares
que foram introduzidas no Egito do Novo Império. Por exemplo, além do kopesh
que já era usado há muito tempo e que passaram a ser feitos de bronze,
espadas curtas, também de bronze, foram introduzidas no Vale do Nilo. O
uso de escudos e armaduras, bem como o de capacetes, também passou a ser
generalizado entre a infantaria, contudo, devido à necessidade da importação
do estanho para se criar a liga estanho-cobre, que resulta no bronze, este
se fazia caro, o que fazia com que a maioria das armaduras, escudos e capacetes
fossem feitas de cobre, sendo apenas as armas feitas de bronze. O cobre
é menos resistente que o bronze, por isso, mais sujeito a corte e amassos,
mesmo assim, é superior à madeira, também cara, anteriormente utilizada
na confecção dos escudos.
A profissionalização dos exércitos
se deu em todos os âmbitos, por exemplo, havia pelotões de homens (e também
mulheres e crianças) que acompanhavam as tropas para carregar pertences,
levar água e comida e também cozinhar. Com efeito, o Egito desenvolveu uma
grande logística militar, o que propiciava a seus exércitos irem muito mais
longe e realizarem feitos muito mais grandiosos do que antes.
9.1 – A XVIII Dinastia:
Sem exageros, pode-se dizer
que a XVIII Dinastia é a mais conhecida dentre todas as Dinastias Egípcias.
Isso se deve ao fato de a única tumba Faraônica a resistir intacta até os
dias de hoje ter sido a tumba de Tutankhamon, o jovem Faraó desta Dinastia.
A partir do estudo dos objetos encontrados nela foi possível reconstituir
com quase exatidão o modo de vida Faraônico e, por conseguinte, a História
Política do Egito no Novo império, em especial, na XVIII Dinastia, mas falaremos
de Tutankhamon num outro item, agora a principal preocupação deve ser contar
a História da XVIII Dinastia e de seus feitos.
Como foi dito, Ahmés foi uma
espécie de Faraó mítico, cuja existência é provável, mas os feitos não são
comprovados parecendo mais uma espécie de herói criado como marco da transição
do caos para a ordem novamente. Se acreditarmos naquilo que é atribuído
ao seu governo, veremos que ele não só impôs a derrota definitiva aos Hicsos,
mas também retomou as expedições à Núbia, submetendo rapidamente as regiões
(entre a primeira e a terceira cataratas, mas não além) outrora dominadas.
Além disso, Ahmés também teria reaberto a rota para o Sinai e construído
um posto de avançado de defesa em Sharuen, na Palestina.
Ahmés foi sucedido por seu
filho Amenófis I (em Egípcio a grafia mais correta seria Amenhotep I, no
entanto, como se trata de um nome consagrado e como a grafia Egípcia é muito
diferente da consagrada, preferi manter a forma Grega). Este Faraó procurou
organizar a política do Reino que herdara do pai, sem, contudo, ter operado
grandes conquistas militares, pode ser apontado, no entanto, como o consolidador
da XVIII Dinastia fornecendo a ela fortes bases políticas para que pudesse
agir.
Amenófis I foi sucedido por
seu filho, Tutmés I (que a nomenclatura Grega imortalizou como Tutmósis
I), este foi, com efeito, o iniciador do Império Egípcio.
Tutmés I partiu para uma grande
expedição rumo à Ásia. Com efeito, as primeiras marchas dos Povos do Mar
não haviam criado problemas apenas para o Egito, mas todo o Oriente Próximo
havia sentido o peso da chegada de novos povos. Hititas se haviam estabelecido
na Capadócia (região oriental da Anatólia), formando o Reino de Hatti, Mitanitas
se haviam estabelecido na Mesopotâmia, especialmente a leste do Tigre, mas
também influenciando a região entre Rios como um todo. Foi contra esses
povos que Tutmés I combateu. Por vários meses ele impôs severas derrotas
às cidades da Palestina e ao Mitani chegando a erigir uma estela Egípcia
na margem ocidental do Eufrates.
Contudo, a expedição de Tutmés
I não constituiu um esforço de conquista, mas, tão somente mais uma expedição
de saque, como as tantas realizadas pelos Faraós do passado, só que agora
o Egito havia atingido lugares jamais visitados antes, tanto a sul quanto
a oriente.
Tutmés I morreu e, após sua
morte, foi o primeiro Faraó a ser enterrado no Vale dos Reis, nas colinas
a oeste de Tebas. Depois dele, praticamente todos os Faraós do Novo Império
viriam a ser enterrados também no Vale dos Reis. Era mais uma das iniciativas
tomadas por Tutmés I, o primeiro grande Faraó do Novo Império.
Tutmés I havia, seguindo o
costume iniciado no Médio Império, associado um filho seu ao trono, porém,
antes que seu pai, o filho faleceu. Tutmés I, não teve nem sequer tempo de
escolher aquele que seria o seu novo “herdeiro necessário”, já estava velho
e também faleceu, sendo assim, seu filho, Tutmés II, herdou o trono. Ele
não era filho da Grande Mulher do Rei, mas, ao casar-se com sua irmã Hatshepsut,
que o era, legitimou-se como herdeiro legal ao trono. É curioso notar no
Novo Império a força do Clero de Amon havia se tornado tal que ele era quem
arbitrava as sucessões Reais no caso de controvérsia, sendo assim, Tutmés
II só pôde ser Faraó porque os Sacerdotes de Amon assim o desejaram.
O governo de Tutmés II foi
tão efêmero que nem sequer foi digno de muitas notas, além das tradicionais
ampliações no Templo de Karnak, o Faraó nada realizou de importante. Como
sua morte foi prematura, o Faraó ainda não tinha tido tempo de escolher
um “herdeiro necessário”, sendo assim, seu filho mais velho (filho dele
com uma concubina) foi legitimado por um oráculo de Amon como sendo seu
herdeiro, casando-se com uma das filhas de Tutmés II com Hatshepsut.
Como o novo Faraó era ainda
uma criança, a Grande Mulher de Tutmés II, seu pai, governou como regente.
Hatshepsut era uma mulher de caráter extraordinário. Parece ter tido tanta
força política quanto carisma, além de saber controlar habilmente o Clero
de Amon, sendo assim, num dado momento, conseguiu usurpar o trono de Tutmés
III e se tornar, com direito a todas as honras, o Faraó do Egito. Ao contrário
do que viria a ocorrer no Período Ptolomaico; as mulheres não podiam ocupar
o cargo de Faraó. Não eram nem sequer Rainhas, eram, no máximo, a Grande
Mulher do Rei. Por isso, a ascensão ao trono de Hatshepsut foi um fenômeno
tão importante dentro do contexto político nacional.
Ao que parece, Hatshepsut conseguiu
convencer o Clero de Amon (ou parte dele) a ver nela a verdadeira encarnação
de Amon-Ra (como veremos a seguir, o atual Deus Dinástico não era mais
Hórus, nem mesmo Ra-Horemkhat, mas Amon-Ra) e, sendo assim, a herdeira do
trono. Ela tomou para si o cajado, o mangual, as coroas e até mesmo a barba
Reais e, sendo assim, se tornou o novo Faraó.
Como mulher, a Rainha não se
arriscou a dar continuidade à expansão militar rumo à Ásia, preferiu se
ater a embelezar o templo de Karnak (colocando nele os mais altos obeliscos
que viria a ter) e a incentivar o comércio. Em seu governo o Egito voltou
a comercializar com o Reino de Punt, trazendo de lá diversos animais e produtos
exóticos.
No campo da construção, assim
como Mentuhotep II fizera na XI Dinastia, ela decidiu construir um suntuoso
túmulo-palácio escavado nas rochas do Deir el-Bahari, este, porém, muito
mais amplo e bem acabado do que seu parceiro, tendo inclusive uma pirâmide
externa, uma das últimas a ser construídas no Egito. O executor dessa obra
foi também o homem forte de seu governo. Seu nome era Senmut e, possivelmente
tratou-se de um amante da Rainha. Com efeito, Senmut fora nomeado por Hatshepsut
como sendo o tutor e guardião de Neferurá, sua filha, que a Rainha queria
que ocupasse o trono após sua morte.
É certo que o fato de uma mulher
(mesmo se fazendo passar por homem) ocupar o trono do Egito deve ter desagradado
muito os Sacerdotes mais ortodoxos de Amon, afinal, isso ia contra a ordem
estabelecida e, sendo assim, contra a Maat. Porém, o Reinado de Hatshepsut
era perfeitamente aceitável, o que não era aceitável era a idéia da Rainha
de garantir que sua filha assumisse o trono após sua morte. Por isso, tão
logo Hatshepsut morreu, o Clero de Amon organizou uma conspiração palaciana
que ajudou Tutmés III a chegar ao trono.
Para chegar ao trono Tutmés
III, que havia sido enquanto criança legitimado pelo Clero de Amon, precisou
organizar o extermínio do séqüito de Hatshepsut, sendo assim, Senmut, o
Imhotep da Rainha, foi assassinado e, logo em seguida, Neferurá também desapareceu
da História, pode ter sido assassinada ou enviada para servir como Sacerdotisa
em algum templo de menor relevância.
Apenas 75 dias após assumir
o trono, Tutmés III partiu em campanha rumo a Ásia.
9.1.1 – As Raízes do Império
Egípcio:
Como veremos no item 10, sobre
a supremacia do Sol nas guerras Divinas, não é possível entender a formação
do Império Egípcio sem se entender a participação de Amon-Ra nela. No entanto,
neste item só será exposto o elemento humano desse fenômeno, ficando o
elemento Divino para o item 10 por questão de manutenção da lógica na estrutura
do texto. Espero que os leitores compreendam.
O governo de Hatshepsut, bem
como o de seu marido Tutmés II fez com que os grandes avanços militares
de Ahmés, bem como os resultados da campanha de Tutmés I à Ásia se encontrassem
agora quase desfeitos. Tutmés III partiu para a primeira de suas 17 (segundo
alguns Historiadores, não seriam 17, mas 14) campanhas, realizadas em 16
anos de governo. Seu primeiro passo foi expandir ainda mais os domínios na
Núbia, construindo e reformando as fortalezas ao longo do Nilo. Com efeito,
sob este Faraó o Egito atingiu a quinta catarata do Nilo, um lugar antes
nunca sonhado em ser atingido. No forte Napata (fundado por este Faraó),
no meio do caminho entre a quarta e a quinta (limite máximo da expansão Egípcia
na Núbia) cataratas, foi estabelecida a capital da Província Egípcia da Núbia.
O lugar passaria a ser administrado por um Vice-Rei e concederia a base
financeira de que o Egito necessitaria para se expandir rumo a Ásia.
Na Palestina, Tutmés III submeteu
diversos governantes ao seu poder estabelecendo guarnições militares nos
pontos em que julgava de maior importância. Marchou então contra o Mitani
impondo severa derrota a este Reino, o que o fez recuar para os limites
geográficos impostos pelo rio Eufrates.
Depois da vitória sobre o Mitani,
Tutmés recebeu embaixadas de diversos Reinos, tais como Hatti, Creta, Biblos,
Reinos Mesopotâmicos e o próprio Mitani. Todos traziam presentes ao grande
conquistador. Presentes esses que foram tratados e registrados como tributos,
o que contribuiu para a atribuição a Tutmés III do título de “o Grande”.
Talvez o primeiro Monarca da História a fazer jus ao título.
No âmbito interno, Tutmés III
estabeleceu que o Egito deveria ter duas capitais: uma religiosa e uma
política. Sendo assim, Mênfis, a lendária cidade fundada por Narmer (possivelmente
o Menés dos Egípcios) voltou a ser uma capital desde o final do Antigo Império.
Por sua vez, Tebas nunca perdeu a glória de ser a legitimadora Real, local
onde os Faraós eram coroados e onde obrigatoriamente deveriam realizar obras
de ampliação, restauração e embelezamento do Templo de Karnak, dedicado
a Amon, seu Deus invisível. O principal ato de Tutmés III em relação à
política interna (e também externa) foi a captura dos herdeiros dos países
que conquistara, com efeito, o Faraó os trazia para o Egito onde ele eram
educados no Kap, uma espécie de escola secreta da qual falaremos
mais tarde. Além de revitalizar Mênfis, Tutmés III ainda conseguiu associar
seu filho ao trono, sendo assim, após sua morte, a sucessão foi tranqüila.
Ao contrário da sua, que havia sido turbulenta e retardada pelas pretensões
de Hatshepsut.
Aliás, os últimos anos de seu
governo Tutmés III dedicou à destruição da memória de Hatshepsut. Por sua
ordem a maior parte dos monumentos por ela erigidos e das inscrições que
continham seu nome foram destruídas, foi a tentativa de Tutmés III de, ao
menos frente à História, receber de volta os anos de governo que lhe haviam
sido tolhidos pelas manobras da Grande Mulher de seu pai. Hoje em dia só
se sabe da existência e dos feitos de Hatshepsut por causa das pinturas
de seu túmulo (que foi deixado em paz por Tutmés III) e por causa da inscrição
contendo seu nome no topo dos obeliscos por ela erigidos no Templo de Karnak
(é que tais obeliscos eram tão altos que, talvez por preguiça, talvez por
acharem que ninguém os veria, talvez até por desconhecimento de tais inscrições
em seus topos, foram deixados em paz pelos executores da ordem de Tutmés
III).
Amenófis II, filho de Tutmés
III, ascendeu ao trono logo depois da morte de seu pai. Como ele, realizou
diversas campanhas militares, seus feitos, é claro, não podem ser comparados
aos do pai que já havia conquistado boa parte daquilo que se havia para
conquistar, no entanto, ele manteve os limites do Império Asiático e Núbio
e conseguiu, apenas simbolicamente (para mostrar que havia atingido um local
mais distante do que aquele atingido por seu pai), transpor o Eufrates,
erigindo uma estela em sua margem oriental.
Da mesma forma que Tutmés III,
Amenófis II também assegurou uma transição pacífica de seu governo para
o de seu filho, associando-o ao trono. Sendo assim, Tutmés IV pôde tomar
posse sem maiores complicações.
O governo de Tutmés IV foi
marcado por uma única transformação no panorama político internacional: o
Reino de Mitani, antes inimigo do Egito, agora se aliara a este por livre
e espontânea vontade. Na verdade, os soberanos de Wassuganni (capital do
Mitani) haviam concluído que de maneira alguma conseguiriam se defender contra
os ataques de dois adversários poderosos: Egito e Hatti, sendo assim; tão
logo começaram a ser atacados por Hatti (o país dos Hititas), que visava
expandir seus domínios sem, por hora, se interpor com os poderosos Egípcios;
propuseram aliança ao Egito enviando-lhes princesas para servirem de Esposas
Secundárias aos Faraós.
O filho de Tutmés IV, Amenófis
III, foi um Faraó padrão, realizou algumas campanhas militares (se bem que
poucas, o que fez com que o Clero de Amon, principal beneficiário dos botins
de guerra, se tornasse um pouco contrário ao Faraó), investiu no comércio,
erigiu monumentos e se fez ser reconhecido como a verdadeira Divindade que
era. Aliás, foi justamente no campo religioso que se deu a maior realização
do governo de Amenófis III.
Para começar, devemos ter em
saber que este Faraó tinha como característica principal o autoritarismo,
tanto que foi o primeiro Faraó de que se tem notícia a se casar com uma
mulher do povo e eleva-la à condição de Grande Mulher do Rei. Sua notificação
ao Clero de Amon sobre seu casamento em nada legitimador do governo (que
já havia sido legitimado pela sua associação ao trono, perpetrada por seu
pai) foi simples, objetiva e com um forte tom autoritário. Ele enviou ao
Sumo Sacerdote de Amon, em Karnak, um escaravelho (escaravelhos são insetos,
mas, no caso do Egito, também eram utilizadas réplicas desses insetos feitas
em pedra como forma de correspondência entre pessoas abastadas, por exemplo,
o Faraó) com a seguinte inscrição na base: “Viva Tiye, a Grande Mulher
do Rei. O nome de seu pai é Yuya. O nome de sua mãe é Tuya. Ela é esposa
de um poderoso Faraó”. O recado era claro: gostassem ou não, ele iria
se casar com aquela mulher e fazer dela sua Grande Mulher, pois, tinha poder
para isso.
Ao que parece, um forte conflito
religioso vinha se desenrolando desde o governo de Tutmés IV. As conquistas
Asiáticas parecem ter trazido aos Egípcios uma nova forma de ver o Sol,
sendo assim, começou a se intensificar um culto há muito abandonado na região:
o culto ao Sol em si, ou seja, ao disco solar que brilha nos céus. Se o
leitor se recordar, no item sobre a mitologia Egípcia eu mencionei que o
Sol nascera de dentro de uma flor de lótus como sendo Aton, mas que se tornara
Ra ao caminhar sobre a Colina Primeva. Pois bem, Aton era o nome do disco
solar, era um Deus antigo e, como tal, nunca totalmente abandonado, apenas,
canibalizado há muito por Ra.
Os cultos a Ra se davam em
recintos abertos, sem teto, para que as pessoas pudessem contemplar o Sol
em toda a sua grandeza. Com certeza tais práticas não contentaram os Sacerdotes
de Amon que, a esta altura já eram os verdadeiros senhores do Egito, sendo
o Faraó apenas o chefe político-militar, enquanto eles faziam o papel do
grande conselho de impunha sua vontade ao governante.
Para acalmar os ânimos já muito
acirrados por sua decisão de se casar com Tiye, Amenófis III aceitou se
legitimar ao trono casando-se com uma Princesa Real, sua própria filha, Sit-Amon.
Contudo, a medida não parece ter surtido o efeito desejado, o Clero de Amon
continuou descontente com o Faraó e até pode ter encarado sua atitude de
se casar com a própria filha como sendo um desaforo, uma gozação para mostrar
que ele próprio fizera da menina uma Princesa Real e agora a desposara para
se legitimar por sua própria criação e não pela tradição.
Amenófis III, que tinha o autoritarismo
como marca registrada, não aceitou a continuada repudia do Clero de Amon
às suas manobras, por isso, resolveu mostrar-se mais poderoso do que ele.
Iniciou uma espécie de reforma
religiosa tendo como Mênfis a cidade principal de sua ação. Para ele, Aton
era o principal Deus do Egito e guardava dentro de si as essências de Ra,
Ptah e Amon. Sendo assim ele era a um só tempo o Criador, o Sol e o Invisível
e Onipresente. Seu filho e “herdeiro necessário”, Tutmés, foi escolhido
como Sumo Sacerdote de Mênfis e responsável pelo culto à nova Divindade
Solar. Enquanto isso, para humilhar os Sacerdotes de Amon, Amenófis III
erigiu um enorme templo na margem ocidental de Tebas. Este templo não era
em homenagem a outro Deus senão ele próprio, o Faraó.
Do fabuloso templo de Amenófis
III hoje nos restam apenas duas estátuas colossais: os Colossos de Memnon,
duas estátuas do Faraó sentado em seu trono que adornavam a entrada de seu
magnífico templo.
Amenófis III Reinou por 43
anos (37 para alguns), porém, quando estava próximo da morte, já muito velho
e doente, teve o desgosto de ver seu “herdeiro necessário” falecer. Amenófis
III pode ter interpretado tal acontecimento como um sinal de reprovação
de Amon em relação a seus atos, por isso, no final de seu governo aproximou-se
novamente do Clero de Tebas, reformando o Templo de Karnak, ampliando o
salão principal do Templo (sempre que mencionar Templo com letra maiúscula,
estarei me referindo a Karnak, visto que ele foi o principal templo do
Egito Antigo), construindo pilonos em sua frente e iniciando a construção
de novas portas para o recinto principal.
Antes de morrer, Amenófis III
se viu obrigado a associar ao trono um filho por quem aparentemente não
nutria afeição (ao menos é o que nos diz o Egiptólogo Americano Bob Brier):
Amenófis, que viria a se tornar o Faraó Amenófis IV; aquele que mudaria
a História do Egito e, quiçá, do mundo posterior a ele.
9.2 – O Complexo Período
de Amarna:
Para
Barry Kemp, Egiptólogo de Cambridge: “No momento em que alguém decide escrever
sobre essas figuras [de Amarna], começa a escrever ficção”.
A meu ver, esta afirmação não é válida apenas para o Período
da Amarna, ou mesmo para a História Egípcia, mas sim, para qualquer evento
passado a ser estudado; mesmo que seja de um passado recente como o dia de
ontem, ou horas atrás. O passado nada mais é do que uma construção e, como
tal, uma ficção. É óbvio que, diferentemente do autor ficcional, o Historiador
tem uma obrigação profissional para com a verdade. No entanto, também é verdade
que a verdade não pode ser alcançada, afinal, não passa de um ponto de vista.
Porém, a busca da verdade implica em seriedade e, sendo assim, mesmo que o
Historiador vá construir um passado hipotético ele não pode faze-lo pautando-se
unicamente em sua imaginação, mas, também, em documentos Históricos. Platão
defendia que a abstração é a peça fundamental para as conclusões a que se
pode chegar a respeito de algo. Concordo com ele, no entanto, faço uma ressalva.
Penso que em termos de História a abstração deve ser feita em cima dos documentos
e não livremente, ou seja, não a abstração pela abstração. É isso que, a
meu ver, diferencia o trabalho do Historiador daquele realizado pelo Filósofo:
ambos são Cientistas Humanos, no entanto, o primeiro tem um compromisso
com a verdade (mesmo que nunca a atinja) e o segundo apenas com a abstração
em si.
Depois dessa digressão que deve ter situado o leitor melhor
no contexto daquilo que está lendo, ou seja, uma construção de alguém que
teve acesso a alguns documentos e a alguma bibliografia, além de estar minimamente
interado com o trabalho da profissão de Historiador, mas, ainda assim, uma
construção. É claro que a farei, assim como venho fazendo em todo o texto,
segundo uma busca da verdade, no entanto, estou consciente de que não poderei
alcança-la e, mesmo que pudesse, não o saberia, pois, infelizmente (ou felizmente)
a máquina do tempo ainda não foi inventada, vamos à descrição do Período de
Amarna em si:
Após a morte de Amenófis III, seu filho, Amenófis IV, tomou
posse como novo Faraó. Por essa época o Egito vivia ainda dos frutos das conquistas
militares de Tutmés III e Amenófis II. O novo Faraó que parece ter ascendido
ao trono ainda muito jovem, com cerca de 17 ou talvez 20 anos, de início,
não tomou nenhuma atitude drástica. Pelo contrário, nos quatro primeiros
anos de seu governo, esforçou-se para ser um Faraó o mais “normal” possível.
Amenófis IV terminou os portais do Templo de Karnak que
haviam sido iniciados por seu pai e depois disso, iniciou ele próprio as
suas adições àquele Templo. Porém, inexplicavelmente, num dado momento ele
ordenou que as obras fossem interrompidas, reuniu seus seguidores mais próximos
e leais, convocou uma grande massa de trabalhadores ao longo de todo o Egito
e se mudou para um local ermo e distante de tudo, a meio caminho em Tebas
e Mênfis. Um lugar que ele chamou de Akhetaton.
Não há razões aparentes para tal mudança repentina no comportamento
de Amenófis IV, por isso, diversas teorias surgem a esse respeito. As mais
plausíveis dão conta de que o Clero de Amon, depois de dois governos de relativa
paz (sendo que o de Amenófis III durara cerca de 40 anos) começava a pressionar
o Faraó para que partisse em expedições militares. Amenófis IV, contudo,
não tinha nem sequer as características físicas de um Faraó-Guerreiro, nem
mesmo a fé em Amon que seu ancestral Tutmés III demonstrara em suas campanhas,
por isso, ao se recusar a partir pode ter gerado sérios conflitos com o
poderoso Clero de Amon, motivo que o teria feito tomar tais decisões radicais.
Mas, para que possamos entender melhor esse Faraó, estudemos
sua vida.
9.2.1 – Akhenaton:
Ainda
criança, Amenófis IV presenciou seu pai romper com o Clero de Amon em detrimento
de um novo culto a um Deus Solar: Aton. O culto, sediado em Mênfis, longe
do poder do Clero de Amon, se tornou um pesadelo para estes Sacerdotes.
No fim da vida, porém, o pai de Amenófis IV reatou seus elos rompidos e
voltou a favorecer Amon. No entanto, para alguém que crescera tendo uma
religião como certa, especialmente numa época como o Egito Antigo, mudar
de crença não era nada simples.
Além disso, segundo alguns estudiosos, Amenófis IV não estaria
sendo preparado para governar, não seria o “herdeiro necessário” de seu pai,
mas apenas alguém que fora indicado para governar de improviso, como uma peça
de substituição. Como a múmia deste Faraó nunca foi encontrada, só podemos
supor sua aparência devido às suas representações artísticas. No entanto,
como já foi mencionado, a arte Egípcia não tinha o costume de retratar as
coisas tais como elas pareciam ser, mas, segundo Platão, como elas realmente
eram. Sendo assim, seria impossível determinar a real aparência de um Faraó
através de uma estátua ou mesmo de uma pintura sua. Porém, o rompimento de
Amenófis IV com o Clero de Amon em Tebas criou não só uma revolução política,
mas também uma revolução religiosa e, principalmente, artística.
Estátua de Akhenaton |
A
partir do quinto ano de seu governo, Amenófis IV (cujo nome se referia a
Amon) trocou seu nome para Akhenaton (Benéfico a Aton) e mudou-se para uma
nova localidade, onde iniciou a construção de uma nova capital para o Egito.
Antes, porém, talvez como forma de humilhar os Sacerdotes de Amon, o Faraó
celebrou seu Festival de Sed. |
O
Festival de Sed era um acontecimento raro no Egito. Ocorria somente quando
um Faraó conseguia Reinar por 30 anos, era um jubileu especial onde o Faraó
desfilava com as coroas do Alto e do Baixo Egito e depois, trancado em salas
secretas de diversos templos, reverenciava cada uma das Divindades Egípcias.
O pai de Akhenaton, Amenófis III havia celebrado o seu, segundo as lendas,
Pepi II teria celebrado três Festivais de Sed (um aos 30, um aos 60 e outro
aos 90 anos de governo), mas, ainda assim, este era um acontecimento especial
na História do Egito. Porém, Akhenaton celebrou-o no quarto ano de seu governo.
A celebração do Festival de Sed de Akhenaton não foi diferente
apenas no fato de ocorrer muito antes do que deveria (se é que viria a ocorrer),
mas também em sua configuração principal. Akhenaton não reverenciou nenhuma
estátua Divina, mas a sua própria. Algo estava acontecendo no Egito, mas o
que?
Bob Brier, Egiptólogo com formação em Medicina (há que se
saber que o Egiptólogo não é necessariamente um Arqueólogo, apenas mais comumente;
para ser considerado um Egiptólogo o indivíduo deve ser um Cientista capaz
de oferecer alguma contribuição científica para o esclarecimento da História
do Egito Antigo, por isso existem Médicos, Historiadores, Geógrafos, Geólogos,
Lingüistas, Arqueólogos, Dentistas... que ostentam tal título), em seu livro
“O Assassinato de Tutancamon”, sustenta que Akhenaton deve ter sido preterido
e até mesmo rejeitado por seu pai por sofrer de uma doença congênita causadora
de deformações físicas. Essa teoria não é nova, no entanto, esse Egiptólogo
encontrou uma nova doença mais plausível para Akhenaton. Vejamos:
As estátuas e representações de Akhenaton retratam-no como
sendo um indivíduo de crânio e dedos alongados, tórax estreito, quadris largos
e, por vezes, hermafrodita. As explicações para um retrato tão bizarro o indivíduo
que deveria ser (e era) um Deus Vivo são muitas, mas nenhuma é muito clara.
Lembremos que até então os Faraó, independentemente da aparência real que
tivessem, eram retratados como sendo pessoas fortes e viris, de traços perfeitos
e equilibrados, sem demonstrar quaisquer emoções, como um Deus deve ser.
Independentemente do que tenha acontecido, uma coisa é
certa: as modificações artísticas foram ordenadas por Akhenaton, pois só
o Faraó teria poderes para romper com mais de 1500 anos de tradições estilísticas.
Resta saber por quê?
Baixo-relevo representando Akhenaton, Nefertiti e Aton |
As
teorias mais antigas, em geral convergiam para a indicação de que Akhenaton
seria portador da Síndrome de Froelich, uma doença causada por uma disfunção
na hipófise. Esta síndrome, contudo, causa atrofia dos órgãos genitais o
que torna o indivíduo invariavelmente estéril. No entanto, Akhenaton, que
fora casado com a célebre Nefertiti (da qual falaremos mais adiante) teve,
só com ela, seis filhas, além de seus eventuais filhos com Esposas Secundárias. |
É claro, no entanto, que
se pode imaginar que as filhas de Akhenaton não fossem dele realmente, mas
geradas por homens contratados para dar um herdeiro ao Faraó. No entanto,
as cenas familiares nas quais o governante aparece com suas filhas e também
com Nefertiti em situações bem íntimas (mais uma das inovações da arte do
Período de Amarna, nunca antes um Faraó seria retratado em cenas familiares,
talvez, na verdade, nem se desse ao luxo de desfrutar da companhia afetuosa
dos filhos e, mesmo com as esposas, só mantinha contato físico em situações
reservadas (lembrem-se que quem tocasse o Faraó era morto por sua pele ígnea!))
depõem contra o fato dele não ter sido o pai verdadeiro das crianças, ou mesmo
não ter sido um marido de fato de sua esposa.
Bob Brier formulou a teoria de que Akhenaton não seria então
portador da Síndrome de Froelich, mas da Síndrome de Marfan. Esta última,
descoberta no final do século XIX d.C. pelo Médico Francês Antoine Marfan,
implica em características físicas muito semelhantes àquelas apresentadas
pelo Faraó em seus retratos e estátua. Os portadores da Síndrome de Marfan
possuem olhos alongados, crânio e queixo alongados, dedos dos pés e das mãos
também alongados, tórax estreito e são mais altos da que as pessoas em média,
sendo assim, por vezes se tornam curvados.
O Egiptólogo, a fim de estudar o possível comportamento
de Akhenaton e, com isso poder formular teorias mais plausíveis sobre o que
o teria levado a realizar a revolução que realizou, reuniu-se com a Associação
dos Portadores da Síndrome de Marfan de Nova York. Depois de entrevistas individuais
com estas pessoas (em geral a síndrome afeta mais mulheres do que homens),
ele mostrou-lhes slides com fotos de estátuas e desenhos de Akhenaton. A
reação foi imediata, todos se identificaram com o Faraó, vendo nele um seu
par.
É claro que as impressões da platéia (que obviamente buscava
um ícone (hoje o encontrou, desde essa reunião, Akhenaton tornou-se oficialmente
o símbolo da referida associação) com o qual se identificar) de muito pouco
valem na pesquisa de Brier. No entanto, as entrevistas pessoais com os portadores,
de muito valeram. O Egiptólogo descobriu que, ao contrário do que se pensa,
os portadores da Síndrome de Marfan não se sentem feios ou mesmo inferiores,
pelo contrário, muitos relataram gostar de suas aparências e se sentirem
figuras exóticas, mas não feias. Há casos de pacientes que usam roupas com
listras verticais e alongadas para realçar mesmo o seu visual. O próprio
Bob Brier declarou que tais pessoas não são feias, mas exóticas e que guardam
uma beleza incomum em seus traços proporcionais e alongados.
Certo, Akhenaton era então portador da Síndrome de Marfan!
Mas o que isso tem a ver com o fato de ter realizado uma revolução no Egito
Antigo?
Bem, a análise psicológica de Brier sobre os pacientes de
Marfan visava justamente descobrir traços que pudessem ser comuns à personalidade
do Faraó. Por isso ele só fez a exposição dos slides posteriormente às entrevistas
individuais. Sua conclusão foi a de que, por ser diferente desde criança o
Faraó fora rejeitado por seu pai, só tendo chegado ao trono por ocasião da
morte prematura do “herdeiro necessário”. Quando se viu em posição de mando,
talvez inspirado pelos atos revolucionários de seu próprio pai, Akhenaton
resolveu restaurar a fé em Aton e, proscrevendo os demais Deuses (inclusive
e especialmente Amon), considerar-se o Aton Vivo. A mudança das concepções
artísticas seriam explicadas como sendo uma expressão absoluta não só da
vontade, mas também da aparência do Faraó a todos os indivíduos. Com efeito,
no Período de Amarna, todas as pessoas passam a ser retratadas com crânios
semelhantes ao de Akhenaton, além disso, as cenas familiares (coisa que Akhenaton
pode ter sentido falta enquanto criança e que, por isso, fazia questão de
dar às suas filhas) se tornaram um recurso artístico comum.
A teoria de Bob Brier pode até ser questionável, afinal,
não sabemos nem sequer se a Síndrome de Marfan já existia há 3500 anos, mas
que é uma teoria razoável, isso é. Além disso, num mundo teocêntrico como
aquele em que viveu Akhenaton é razoável pensar que um Faraó (já um Deus
em sua própria existência) que possuísse características tão ímpares poderia
facilmente ser considerado, e/ou se considerar, um indivíduo “tocado pelos
Deus” (apenas a título de exemplo, num outro contexto teocêntrico igualmente
forte, mas completamente distinto como o do Mundo Maia, os indivíduos portadores
de deformações físicas e/ou mentais eram de tal forma considerados “tocados
pelos Deuses” que eram nomeados Reis mesmo sem pertencerem a linhagens Reais).
9.2.2
– Akhetaton:
Depois
de já termos examinado quem foi Akhenaton, vejamos agora como foi sua revolução
em si, porém, tenhamos em mente que os aspectos religiosos de tal revolução
(alguns dos mais importantes) não serão tratados neste item, mas no item
10, com havia sido dito.
Akhenaton tomou posse como Faraó por volta de 1353. Governou
normalmente até 1349 quando enfim iniciou sua rápida revolução. Nesse mesmo
ano, deixou de ser Amenófis IV e passou a ser Akhenaton, ordenou a proscrição
do culto aos demais Deuses do Egito e realizou o seu Festival de Sed. No ano
seguinte, reunindo o maior número de pessoas que pôde, inclusive sua mãe
e seus sogros, partiu rumo a um local desconhecido Nilo abaixo.
Ao que parece, o local escolhido para ser a nova sede do
poder Faraônico já havia sido escolhida de antemão. Era um lugar isolado uma
reentrância nas colinas protegida por elas em três de seus lados e pelo Nilo
no outro. Segundo consta, Akhenaton teria escolhido o lugar por ter recebido
um sinal divino de Aton. Possivelmente um nascer do sol atrás das colinas
avistado de um barco no Nilo.
Os
melhores artesãos de todo o Egito foram empregados na construção de casas,
palácios, do porto, de fortes, de tumbas nas colinas e de estelas, muitas
estelas. Numa destas estelas esta gravada a mensagem de Akhenaton segundo
a qual ele havia jurado a Aton que jamais sairia dos limites de Akhetaton.
Por quê? Não se sabe.
Nos quase doze anos em que viveu em Akhetaton (que hoje
é conhecida pelo nome de Tell el-Amarna pelo fato de se localizar nas proximidades
de um vilarejo que tem esse nome e, sendo assim, ter recebido este nome dos
Arqueólogos que a descobriram no século XIX). A corte de Akhenaton foi contemplativa.
Dedicou-se a construção de obras de arte (algumas, no entanto, consideradas
heréticas, como o famoso busto de Nefertiti, por não se encaixarem no perfil
estabelecido pelo faraó), de edifícios, ao culto a Aton (que, como veremos,
era realizado em santuários muito diferentes dos até então existentes),
à pesca, ao comércio nacional (com efeito, Akhetaton se tornou, em sua época,
o principal porto do Egito) e às exibições públicas do Faraó. Akhenaton
era uma espécie de “Messias” da nova religião. Era a um só tempo o profeta,
o Sacerdote e o Deus.
A criação desta nova cidade, bem como a revolução religiosa,
afastaram definitivamente o Faraó de seus compromissos militares. Porém, como
seus dois predecessores (Tutmés IV e Amenófis III) também não haviam tido
muito ativos militarmente, o Império Egípcio começava a entrar em colapso.
A correspondência internacional de Akhetaton (que se encontra,
por motivos que veremos mais adiante, praticamente toda preservada, assim
como o desenho da cidade), escrita em Cuneiforme (a escrita Mesopotâmica era
utilizada para as comunicações entre os Reinos do II milênio e início do
I), revela que os vassalos Asiáticos que costumeiramente escreviam a seu pai
demandando ouro da Núbia para manter tropas, agora escreviam reclamando que
tais remessas haviam cessado. Muitos pedem que o Egito envie tropas para auxiliar
na defesa contra os Hititas que vinham se expandindo através de incursões
sobre os territórios Egípcios da Ásia. Vejamos um exemplo com as correspondências
de Rib-Addi, Rei de Biblos para Akhetaton (segundo compilação de Samuel
Mercer):
Quem é Abdi-Assuta, o servo,
o cão, para tomar as terras do Rei para si?
...Portanto, envia-me 50 parelhas de cavalos e 200 homens de infantaria, para que eu possa permanecer em Sigata (...)
Os
pedidos do Rei de Biblos não foram atendidos, por isso ele enviou outra
correspondência, esta não a Akhenaton, mas ao General Amanappa:
A Amanappa, meu pai, assim (diz) Rib-Addi, teu
filho:
Aos pés de meu pai me prostro (...)
Por que te contiveste e não falaste
como o Rei, teu senhor, para que possas
avançar com arqueiros (...)?
Portanto, transmite esta palavra ao Rei, teu senhor
(...)
Para que ele me mande ajuda o mais depressa possível.
Continuando
sem resposta (é sabido que não foi enviada uma resposta porque as cópias
das correspondências enviadas eram guardadas juntamente com as recebidas
e nenhuma foi achada), Rid-Addi voltou a escrever a Akhenaton, desta vez,
em tom de desespero:
Rib-Addi falou a (seu) seu senhor, Rei das terras,
O grande Rei, o Rei das batalhas (...)
Aos pés de meu senhor, meu sol,
mais sete vezes me prostro.
Saiba o Rei, o senhor, que tudo vai bem com Gubla,
A fiel criada do Rei, desde o tempo de seus pais.
Mas, vede, agora Abi-Asirti tomou Sigata para si
e disse ao povo de Amnia: “Matai vossos príncipes.
Então
sereis como nós e tereis descanso.”
E eles agiram conforme suas palavras,
e se tornaram o povo de Gaza.
E agora, vede,
Abdi-Asirti escreveu aos guerreiros:
“Reuni-vos na casa de Nimit e cairemos sobre Gubla...”
Fizeram, portanto, uma conspiração entre si,
e tenho assim grande temor de que homem algum venha
resgatar-me de suas mãos.
Qual pássaro numa armadilha, assim estou eu.
Como a corte de Akhetaton continuasse a ignorar os apelos de seu vassalo, este, depois de sofrer um grave atentado no qual quase foi morto, voltou a escrever. Foi a última correspondência dele de que se tem notícias:
Um estranho postou-se de adaga
desembainhada (...) contra mim;
mas o matei (...)
Não posso sair [dos portões] e escrevi ao palácio.
(Mas não me) enviaste resposta.
Fui ferido [nove] vezes
E muito tenho temido [por] minha vida (...)
Por
tais correspondências pode-se ter uma idéia bem exata de que Akhenaton não
se importava com a política Imperial desenvolvida por seus antepassados.
Não era, nem pretendia ser um Faraó-Guerreiro, contudo, tal desleixo custou-lhe
o império Asiático que praticamente desmoronou perante as investidas Hititas.
Estes, que há cerca de cem anos havia se curvado perante Tutmés III enviando-lhe
presentes (ou tributos, como registraram seus Escribas), agora, vendo a
fraqueza e a falta de ímpeto que o Egito vinha demonstrando, começaram a
lançar-se sobre seus domínios, tomando-lhes uma a uma todas as suas posses
na Ásia. Até o Mitani, o aliado Egípcio mais importante, foi completamente
aniquilado e a Dinastia de origem Védica (na Índia), desapareceu, sendo
que se povo acabou por seu fundir com os Urritas nativos.
A decadência do Império durante o governo de Akhenaton não
passou em pune, com efeito, a quantidade de ouro que entrava anualmente nos
cofres Faraônicos já não era mais a mesma, uma vez que não havia os territórios
Asiáticos para tributar. Sendo assim, frente a falta de verbas a qualidade
de vida da nova capital (que até então deveria ser semi-utópica) começou a
declinar. Muitas pessoas importantes começaram a abandonar Akhetaton, visto
que não haviam aderido à causa do Faraó por princípios religiosos verdadeiros,
mas por ganância. Para manter junto a si os asseclas que lhe restavam, Akhenaton
adquiriu o costume de presentear quase diariamente seus mais importantes seguidores
com colares de ouro que ele lançava da passarela sobre a avenida principal
de sua capital.
Quando o ouro para as doações também começou a escassear,
Akhenaton mostrou sua face mais tirânica. Ao ver que muitos haviam abandonado
Akhetaton para, voltando às suas cidades de origem, voltar também a cultuar
os Deuses proscritos, em especial Amon, o Faraó enviou suas tropas a todas
as cidades do Egito, mas em especial para Tebas, onde estavam encarregadas
de destruir todas as imagens de Amon que encontrassem, além de apagar o nome
do Deus de quaisquer monumentos que o contivessem. É claro que tal ordem não
pode ser cumprida na íntegra, mas ainda que tenha sido apenas parcialmente
cumprida, certamente causou ódio nas populações que contemplaram a destruição
de seus Deuses de uma hora para outra. O Faraó não podia esperar ser amado
por este ato extremo de demonstração de força.
Com o passar do tempo, a redução populacional (em seu auge
Akhetaton chegou a ter cerca de 20 mil habitantes) deve ter comprometido a
realização de todos os serviços importantes, sendo assim, não seria de se
estranhar se uma peste tivesse se abatido sobre a cidade, coisa que explicaria
a sucessão de mortes que ocorreu na corte de Akhenaton: Kiya (que veremos
mais adiante), foi a primeira a morrer; depois foi a vez de Tiye, mãe do Faraó;
duas de suas filhas pequenas; Smenkhare (se “herdeiro necessário”); talvez,
Nefertiti e, por fim, o próprio Akhenaton.
Tantas mortes num espaço tão curto de tempo trouxeram um
terrível destino para a cidade sagrada de Aton. Um destino que entenderemos
melhor lendo os itens subseqüentes.
9.2.3
– O Problema de Nefertiti, Kiya e Smenkhare:
Estes
três personagens são, de fato, alguns dos mais controvertidos do Período
de Amarna, ao seu redor figuram muitos dos mistérios que cercam este período
obscuro e fascinante da História Egípcia.
Estátua de Nefertiti |
Comecemos
por Nefertiti. Seu nome significa “É chagada a Bela”, o que para muitos
indica que se tratasse de uma mulher muito bonita. Uma história corrente
entre os fanáticos pela História do Egito diz que seu famoso busto encontrado
na oficina do artesão Tutmés, em Akhetaton, não foi terminado propositalmente,
pois, caso o fosse, sua beleza ofuscaria até a das Deusas. Exageros à parte, seu busto
revela realmente se tratar de uma mulher muito bonita, com traços perfeitamente
equilibrados e nada grotescos (como são seus retratos nos padrões da arte
de Amarna). |
No entanto, devemos notar que este busto segue os padrões da arte Egípcia
Clássica, sendo assim, não deve ser tido como um indicativo da real aparência
da Grande Mulher do Rei. Aliás, um bom motivo para que este busto não tenha
sido terminado pode ter sido realmente a proibição da arte Clássica em detrimento
dos padrões novos criados por Akhenaton, por isso o busto talvez tenha sido
guardado sem ter sido terminado.
Não se sabe ao certo a origem de Nefertiti, mas é provável
que fosse filha de Aye, o irmão de Tiye, mãe de seu marido. Se esse dado estiver
correto, então Nefertiti e Akhenaton seriam primos, o que seria perfeitamente
aceitável para os padrões do Egito Antigo.
Em muitos retratos, só é possível diferenciar Akhenaton
de Nefertiti por causa do tamanho, uma vez que o Faraó é sempre representado
em tamanho maior do que os demais indivíduos. Ambos são dotados de seios e
de caracteres femininos. Isso, segundo especialistas, por não se repetir em
todas as representações do Faraó, não indica que ele fosse hermafrodita,
mas que se fizesse representar como um para abarcar a idéia de que ele (como
o Aton Vivo) era ao mesmo tempo o pai e a mãe do Egito.
Em muitos momentos, ambos aparecem representados juntos,
o que leva a crer que ela desempenhasse uma função mais importante dentro
do governo do marido do que as Grandes Mulheres do Rei em geral desempenhavam.
Alguns pesquisadores chegam até a acreditar numa co-regência de Nefertiti
e Akhenaton. Porém, por volta do 12º ano de governo do Faraó que Reinou por
17 anos, Nefertiti desaparece do cenário político, o que leva a crer que talvez
tenha morrido. Entretanto existe uma outra teoria que, embora mais atraente
(justamente por ser mais romântica), parece-me menos verossímil.
Apesar de ser a Grande Mulher do Rei, filha do Tjati e pessoa
de grande atuação política, Nefertiti não foi a única esposa do Faraó e, ao
que parece, também não teve a sorte de gerar para ele um varão (pelo menos
não pelo que nos indicam as representações da família Real (Akhenaton, Nefertiti
e suas seis filhas), se bem que houvesse um costume no Egito de se omitir
o “herdeiro necessário” das representações até que o Faraó tivesse morrido;
esse costume se dava para evitar tentativas de golpe de Estado). Seja como
for, ao menos um filho homem Akhenaton deixou: Tutankhamon. Este, ao que tudo
indica seria um seu filho com uma Esposa Secundária: Kiya, que, inclusive,
detinha o título de “A muito Amada”.
Segundo a teoria que referi, depois que Kiya teve Tutankhamon,
Akhenaton teria pensado em dar a ela o lugar que era de Nefertiti, esta, por
sua vez, temendo perder seu status (ou ainda, segundo alguns, por ciúme (sentimento
que nem mesmo podemos comprovar se existia na sociendade Egípcia)) teria
envenenado Kiya. O certo é que uma das últimas aparições de Nefertiti é junto
a Akhenaton, segurando no colo um bebê varão, retratados na parede do túmulo
de Kiya. Por essa razão acredita-se que o bebê seja Tutankhamon, filho de
Kiya e que a morte de sua mãe tenha feito com que sua criação ficasse sob
a responsabilidade de Nefertiti.
Como explicar, porém, o desaparecimento subseqüente de Nefertiti?
Seu túmulo nunca foi encontrado (se bem que; como veiculado em notícia nesta
mesma edição; alguns acreditem ter descoberto sua múmia), sendo assim, não
se pode datar precisamente a sua morte. Existe uma corrente de Egiptólogos
que acredita que ela pode ter se afastado da vida pública para criar Tutankhamon,
outros ainda acreditam que ela pode ter sido banida da corte (sendo rejeitada
pelo Faraó) por ter assassinado a mãe do “herdeiro necessário” e outros crêem
que ela simplesmente morreu, talvez, como punição por seu suposto crime.
Mas por que tudo isso constitui um enigma? Qual a relevância
de se saber se Nefertiti morreu, criou Tutankhamon, foi banida, matou Kiya?...
Realmente, concordo que não haveria relevância nenhuma
se não fosse a inexplicável figura de Smenkhare. Se bem que, mesmo que não
houvesse essa figura, há que se pensar que Nefertiti é, depois, talvez, de
Cleópatra, a mulher mais famosa do Egito Antigo, por isso haveria aqueles
“fãs” que iriam querer saber a qualquer custo o que se deu com a Grande Mulher
de Akhenaton.
A História de Akhetaton nos fala de um governante chamado
Smenkhare. Este indivíduo é uma quase completa lacuna na Egiptologia. Sabe-se
que ele existiu e que governou como co-regente de Akhenaton em seus últimos
anos. Mais nada. Tudo o mais que se diz dele é a mais pura fantasia. Porém,
não é porque se trata de fantasia que deve ser descartado, afinal, a fantasia,
neste caso, também é História.
Para alguns, Smenkhare seria filho de Akhenaton e Nefertiti
e teria governado como co-regente do pai até poucos meses antes de sua morte.
No entanto, por razões inexplicáveis, acabou padecendo antes que o Faraó,
tendo que ter sua posição rapidamente substituída por Tutankhamon.
Para outros, Smenkhare teria sobrevivido à morte de Akhenaton
e governado por quatro anos antes de morrer e ser substituído no trono por
seu irmão Tutankhamon.
Outra teoria é a de que após a morte de Akhenaton, Nefertiti
(que não teria morrido), com medo de ver o sonho de marido solapado pela falta
de um herdeiro, visto que Tutankhamon teria apenas cerca de cinco anos de
idade, teria enviado um pedido de ajuda ao Rei de Hatti (país dos Hititas,
inimigos do Egito) e pedido por um filho seu. Este filho teria sido enviado
e, ao chegar a Akhetaton, teria se casado com Meritaton, filha mais velha
de Nefertiti, e se tornado o Faraó, com o nome de Smenkhare.
Outra teoria ainda dá conta de que após as mortes quase
seqüenciais de Smenkhare e Akhenaton; Nefertiti teria ascendido ao trono
(como no passado fizera Hatshepsut) com o nome do filho.
É possível ainda que o príncipe Hitita tenha chegado e governado
por um tempo, mas, ao tomar atitudes que desagradavam Nefertiti, teria sido
morto e teria tido seu lugar tomado por ele, com o mesmo nome.
Toda a controvérsia se dá pelo costume Egípcio de proteger
os nomes. Como já foi dito, todos os indivíduos tinham seu nome secreto e
seu nome público, porém, no caso dos Faraós, seu nome público não era seu
nome Real, por isso, eles possuíam três nomes. Aos nomes secretos são impossíveis
de se conhecer, visto que não eram escritos em lugar algum. Os nomes públicos
de alguns (nomes pelos quais eram chamados enquanto crianças, antes de se
tornarem a encarnação Divina do Deus Dinástico Vigente) nos são conhecidos
e os nomes Dinásticos são os que nos sobram na grande maioria das vezes. No
caso de Smenkhare, por exemplo, apesar de não termos muitas informações, temos
seu nome público e é aí que está o problema.
Smenkhare, na realidade é o nome público de um Faraó cujo
nome Dinástico era Ankhkheprure. Porém, existem, ao que parece, dois nomes
públicos relacionados a este Faraó. Considerando-se que a hipótese de um
desses nomes ser seu nome secreto é praticamente nula, nos fica uma grande
questão: teriam havido dois Smenkhare?
O primeiro nome público de Ankhkheprure era Smenkhare, porém,
o outro era, simplesmente Nefernefruaten; o nome de Nefertiti em Egípcio.
O que se pode tirar disso? Pouco além de uma porção de questões.
Mas, o que é a História senão a própria questão (na definição de Heródoto,
por acaso, o pai da História)?
9.2.4
– Tutankhamon:
A
cronologia mais aceita para o Período de Amarna aponta o ano de 1336 como
ano da morte de Akhenaton e o ano de 1332 como o da posse de Tutankhamon.
A lacuna de quatro anos que essa cronologia nos deixa seria justamente o
nebuloso período do(s) governo(s) de Smenkhare.
Considerando essa cronologia como correta, somos levados
a acreditar que nos quatro anos de governo de Smenkhare (seja ele quem for),
Tutankhamon estava sendo preparado para assumir o trono. Porém, esta hora
chegou muito mais cedo do que se podia esperar.
A tutela do jovem “herdeiro necessário”, possivelmente por
falta de alguém mais próximo, foi confiada ao pai de Nefertiti, o Tjati Aye.
Aye era uma espécie de tio do garoto e talvez tenha tido algum contato com
ele, como rezava a cartilha de Akhenaton, que pregava as relações afetuosas
entre os familiares.
| O fato é que quando
Tutankhamon assume o trono, para se legitimar como Faraó ele é obrigado a
se casar com sua irmã Ankhsenamon, ao que parece, a única das seis filhas
de Akhenaton e Nefertiti a estar viva nessa época. Os dois tinham a mesma idade e assumiram o trono com os respectivos nomes de Tutankhaton e Ankhesenpaaten. Porém, como ainda tinham algo em torno de nove ou dez anos, não podiam governar de fato e, sendo assim, o governo recaiu sobre as mãos de Aye, o Tjati e tutor do Faraó. |
Máscara mortuária de Tutankhamon |
Aye
era, ao que parece, um homem de visão e, sendo assim, tão logo teve o poder
nas mãos, achou que o melhor a fazer seria reatar com o Clero de Amon em
Tebas. Este Clero, apesar da proscrição e da “caça às bruxas” perpetrada
por Akhenaton, continuava existindo, forte e controlando de forma soberana
a cidade de Tebas. Aye parece ter conduzido o jovem Faraó para fora de Akhetaton
pela primeira vez na vida, visto que devido ao juramento de Akhenaton de
jamais deixar sua cidade, é de se concluir que não permitisse isso a seus
filhos também.
Chegando em Tebas, Aye ordenou que o Templo de Karnak fosse
restaurado, que o Festival de Opet (festival que será mais discutido no item
10) fosse executado novamente após tantos anos e que Tutankhamon fosse coroado
como mandava a tradição, no Templo de Karnak, adentrando no Templo ao lado
de sua nova esposa Ankhesenamon. Data do dia da coroação em Karnak a mudança
de nome dos dois (com a finalidade de renegar a reforma religiosa de seu
pai e se reaproximarem do Clero de Amon em Tebas) e também data deste dia
a estela da restauração, cujo texto é o seguinte (segundo compilação de John
Bennett):
Ora, quando esta majestade
se fez Rei, o templo dos Deuses e Deusas, desde Elefantina até os charcos
do Delta (...), tinha sido negligenciado.
Seus santuários haviam caído
em desolação e se transformado em terrenos cobertos de raízes.
Era como se seus santuários
nunca houvessem existido, e seus salões eram uma trilha calcada com os pés.
A terra estava em confusão,
os Deuses abandonaram esta terra (...)
Sua majestade estava administrando
esta terra e governando diariamente as duas margens do rio.
Então, sua majestade consultou
seu coração, em busca de todas as oportunidades excelentes, buscando o que
fosse benéfico para seu pai Amon, para moldar sua augusta imagem em ouro
realmente puro (...)
Todas as (oferendas) do templo
foram duplicadas, triplicadas e quadruplicadas com prata, ouro, lápis-lazúli,
turquesa, todas as pedras raras e de alto valor, linho real, tecidos brancos,
linhos finos, azeite, resina... incenso e mirra, sem limite de tudo o que
há de bom (...)
Os Deuses e Deusas que há nesta
terra têm o coração cheio de alegria.
Os donos dos santuários estão contentes,
As
terras encontram-se em estado de júbilo e festa,
Há celebração por toda [a terra] e boas [coisas]
sucedem.
Nos
dez anos de seu governo, Tutankhamon não tomou muitas decisões administrativas.
Era uma criança e, como tal, bricou e se divertiu ao lado de sua esposa-irmã.
Quem governou de verdade foi Aye, este sim revitalizou o comércio, enviando
expedições a Punt e à Fenícia. Reforçou o controle do Egito sobre a Núbia,
controle este que, assim como o sobre a Ásia, estava comprometido, porém,
diferentemente deste, ainda pôde ser mantido.
O jovem Faraó gastava seu tempo caçando aves no Delta, aprendendo
a conduzir bigas e viajando entre Tebas e Mênfis. Se bem que é provável que
tenha passado a maior parte de sua vida em Mênfis, visto que Tebas não deve
tê-lo agradado pela distância dos costumes em relação àquilo que estava acostumado.
Não se sabe se pela tenra idade ou se por de fato amar sua
esposa, possivelmente a única pessoa em quem confiava de verdade e com a qual
deve ter desenvolvido uma estreita relação (por motivos que vão desde o exemplo
paterno até as tensões que passaram juntos), o fato é que Tutankhamon não
teve outras esposas, apenas Ankhesenamon.
Enquanto Aye, como Tjati e detentor do poder de fato, reestruturava
a política e a economia do Egito, Akhetaton começava a se tornar uma cidade
fantasma. A ausência da corte acabou com a razão de ser da cidade e, sendo
assim, ela foi sendo gradativamente abandonada.
Tutankhamon e Ankhsenamon
|
Quando
Tutankhamon atingiu a idade adulta (algo entre 18 e 20 anos), um evento
inusitado aconteceu: ele foi golpeado na parte posterior de sua cabeça, mas
precisamente na nuca, com um pesado instrumento (talvez uma maça de pedra).
A análise de Bob Brier sobre as radiografias do crânio do Faraó concluiu
que a posição em que o golpe foi desferido só pode denotar que o Faraó foi
golpeado enquanto estava dormindo deitado de bruços. Por isso, ele certamente
não morreu numa batalha, mas foi assassinado. O ferimento provocou um leve
traumatismo craniano que não foi suficiente para matar o governante do Egito
no ato, mas que o levou a sobreviver alternando entre a consciência e o coma
por diversos meses (fato que explicaria a cicatrização parcial do ferimento),
no entanto, Tutankhamon pode ter morrido de fome ao entrar em coma, pois
como não existia a alimentação endovenosa através do sono fisiológico, os
Egípcios podem ter sido incapazes de alimentar seu Deus Vivo em coma e, sendo
assim, deixado-o morrer. |
Ao
longo dos dez anos em que foram casados, Tutankhamon e Ankhesenamon não
conseguiram ter nenhum filho. A garota engravidou duas vezes, mas sofreu
abortos espontâneos (será?) em ambas. Sendo assim, o Faraó morto não deixou
herdeiros o que tornava Akhesenamon, como a última das princesas do Egito,
a única capaz de legitimar um novo governante para o país.
Com certa lógica, Bob Brier situa nesta época (nos setenta
dias em que o Egito ficou sem governante, entre a morte de Tutankhamon e seu
sepultamento) o envio da correspondência ao Rei de Hatti pedindo-lhe um de
seus filhos. Sendo assim, carta enviada a Supiluliumas (cuja compilação de
Hans Gustav Guterbock consta abaixo) e comentada por seu filho Mursilis II,
encontrada em Bogazköy, antiga capital de Hatti, não teria sido escrita por
Nefertiti, o que faria um certo sentido em se observando seu conteúdo e o
contexto em que Nefertiti pode ter governado como Smenkhare, mas por Ankhesenamon.
Vejamos os comentários de Mursilis II sobre a carta:
Quando meu pai esteve na região
de Carquemich, enviou Lupakki e Tarhunta [?]-zalma à região de Amka. E
então eles atacaram Amka e trouxeram deportados, gado e ovelha para meu
pai. Mas, quando o povo do Egito soube do ataque a Amka, ficou temeroso,
e como, além disso, seu senhor Nibhuruiya havia morrido, a rainha do Egito,
que era Dahamunzu [?], enviou um mensageiro a meu pai e assim lhe escreveu:
“Meu marido faleceu. Filhos, não os tenho. Mas de ti, segundo dizem, os
filhos são muitos. Se me desses um de teus filhos, ele se tornaria meu marido.
Jamais escolherei um servo meu para torna-lo meu marido! (...) Tenho medo!”
Levando-se
em consideração o que de fato aconteceu: Ankhsenamon foi obrigada a casar-se
com Aye (que era possivelmente seu avô, pai de sua mãe, Nefertiti) e torná-lo
Faraó. Pode-se muito bem acreditar que os comentários à carta que Supiluliumas
teria recebido do Egito se refeririam a Ankhesenamon. Infelizmente os Hititas
costumavam traduzir os nomes dos Egípcios, por isso não é possível saber
ao certo sobre quem o documento está falando. A única coisa que se pode
fazer é situar a época e compara-la com o Egito, mas isso acaba sendo muito
impreciso, pois as melhores datações podem diferir em até 30, 50 anos e,
sendo assim, não esclarecem muita coisa. Quem seria Nibhuruiya e Dahamunzu?
Alguns acham que podem se tratar de Amenófis IV (Akhenaton) e Nefertiti;
e outros, que pode se tratar de Tutankhamon e Ankhesenamon. Possivelmente
nunca saberemos a verdade.
9.2.5
– Aye:
Em 1322 (ainda segundo a cronologia mais aceita), após a morte de Tutankhamon, Aye, pai de Nefertiti, assume o trono ao se casar