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Egito: o Berço do Ideal Imperial
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Introdução:
Este
é meu 18º texto em Klepsidra, o 8º sobre uma grande civilização do passado.
Nos textos anteriores, já escrevi sobre Incas,
Vikings, Japoneses, Astecas, Árabes, Mongóis e Olmecas. Finalmente, porém, é chegada
a hora de se falar sobre os Egípcios.
Confesso ao leitor que protelei a escrita desse texto o máximo
que pude, visto que sabia que seria um trabalho exaustivo e, sobretudo, difícil.
Havia, é verdade, uma vontade dentro de Klepsidra no sentido de que eu o
escrevesse, afinal, os Egípcios são uma civilização fascinante que intriga
tanto por suas Histórias, quanto por seus enigmas e mistérios. Ao contrário,
das demais civilizações sobre as quais escrevi, sobre os Egípcios existe
muita bibliografia, inclusive em Português. Existem, no entanto, livros
(aos montes, diga-se de passagem) que, ao invés de ensinar algo a seus leitores,
realizam um trabalho inverso, constroem verdades inverossímeis e tendenciosas
que tendem a confirmar pensamentos componentes do senso comum, ou seja, coisas
como a maldição da tumba de Tutankhamon, como a magia Egípcia, idéias sobre
a grandiosidade de Faraós que talvez nem tenham sido assim tão grandiosos,
dentre outras coisas.
Participação de alienígenas, herança de Atlântida, conhecimento
de tecnologias fantásticas... são muitas das idéias que se têm sobre o Egito
Antigo e que se cristalizaram de tal forma que muitos passam a defender como
verdadeiras. Os filmes de Hollywood, como “Cleópatra”, “Os Dez Mandamentos”,
“O Príncipe do Egito”, “A Múmia”, O Escorpião Rei”, dentre outros, também
contribuem muito para criar uma falsa idéia a respeito do modo de vida daquele
povo e, sobretudo, a respeito de seu legado.
Elisabeth Taylor
como Cleópatra |
Pensemos
em “Cleópatra”, nele o que é retratado não é o Egito Antigo, mas o Egito
Ptolomaico às vésperas da conquista Romana. É uma outra realidade, porém,
o cidadão comum que assiste ao filme, não se dá conta de que há entre Cleópatra
e a época das Grandes Pirâmides, por exemplo, mais de 2500 anos de distância
(na prática, só para se ter uma idéia, nós estamos mais perto, cronologicamente
falando, de Cleópatra do que ela estava de Queóps, Quéfren e Miquerinos,
coisa que parece inimaginável). |
Filmes como “Os Dez Mandamentos”
ou o desenho animado “O Príncipe do Egito”, que se referem ao período Faraônico,
em si, também pecam gravemente contra a construção do conhecimento sobre
o Egito na medida em que transformam os cultos Egípcios numa espécie de amontoado
de rituais pagãos e falsos (com os Sacerdotes Egípcios fazendo mágicas baratas
em contraposição aos grandes milagres de Moisés) e transformam o povo Hebreu
em escravos obrigados a prestar trabalhos forçados em construções públicas.
| Idéias completamente
descontextualizadas, na medida em que construções públicas eram trabalhos
muito apreciados pela população Egípcia livre e, possivelmente, muito bem
remunerado. Além disso, os escravos (como os Hebreus podem até ter sido,
mas o que não é confirmado pelos indícios Arqueológicos) eram empregados nas
minas e como mercenários na infantaria dos exércitos do Faraó. Os filmes hollywoodianos esquecem de nos mostrar alguns dos aspectos mais fundamentais do mundo Egípcio, como, por exemplo, a Divindade do Faraó. Ignoram que ao relatar uma crise de fé como a demonstrada por Ramsés II em frente à estátua do Deus Anúbis, em “Os Dez Mandamentos”, estariam implicando na desestruturação das bases do mundo Egípcio, coisa que não ocorreu no governo daquele Faraó. Omitem que ninguém (nem mesmo um membro da família Real, como Moisés se pretende nos filmes) poderia invadir o palácio e sequer dirigir a palavra ao Faraó, quanto mais afronta-lo diretamente, e conseguir sobreviver no final. |
A capa do filme "Os Dez Mandamentos" |
A fim de desconstruir tantos
pressupostos enganosos, especialmente confirmados hoje em dia, na medida
em que a febre da Egiptologia começa a ganhar força outra vez (com a divulgação
da possível descoberta da múmia de Nefertiti, por exemplo), sabia que meu
texto teria de ser denso e suficientemente embasado para poder cumprir seus
objetivos. Com este trabalho, venho a quebrar meus próprios recordes dentro
de Klepsidra, pois, se antes meu maior trabalho não atingia sequer 80 páginas,
este superou em muito as 200. Realmente, há cerca de sete meses, quando
comecei a empreitada para escrever este texto, não esperava que escreveria
tanto. Sabia que seria mais um de meus “mega-textos”, como brincam meus colegas
de revista, mas não imaginava que viria a escrever um verdadeiro livro. É
verdade que a gama de leituras que realizei para concluir esta obra foi muito
grande, afinal, abranger mais de 3000 anos de História num único texto é realmente
tarefa difícil, áspera e, talvez, que venha a se provar frustrante, na medida
em que sei que haverá críticas a meu trabalho, justamente por isso, visando
evitar críticas desnecessárias, gostaria de prestar meus já tradicionais
esclarecimentos:
Este é um trabalho de um Bacharel
em História, alguém apaixonado por História Antiga e que, inclusive, realiza
seus estudos de Pós-Graduação justamente nessa área. Contudo, meus estudos
se direcionam para o período final da República Romana e, sendo assim, em
nada têm a ver com um período tão recuado quanto o do Egito Faraônico. Apesar
de tantos indivíduos de tão diferentes áreas (Medicina, Antropologia, Teologia,
Arqueologia, História, Geografia, Geologia, Arquitetura, Odontologia, Engenharia
Civil...) se dizerem Egiptólogos apenas por serem interessados no tema e terem
lido (ou quem sabe feito uma ou duas viagens até o Egito) diversos livros;
eu não consigo me ver como tal, não sou um especialista no período. Acho até
que seria uma certa presunção de minha parte dizer-me Egiptólogo apenas por
ter lido por cerca de seis meses e escrito este trabalho de mais de 200 páginas
para publicação numa revista especializada em História.
Gostaria de terminar esta introdução
longa, que faz jus ao texto que também o é, falando a respeito de alguns
problemas com que o leitor se deparará no texto.
O principal dos problemas residirá
na grafia dos nomes. Muitos já devem ter lido palavras como Tutancamôn,
Tutmósis, Sethi, Seth, Aquenaton, Quéops, Quéfren, Miquerinos... Mas também,
Tutankhamon, Tutmés, Djehutimés, Seti, Set, Akhenaton, Khufu, Khafre, Menkaure...
Em ambos os exemplos escrevi
as mesmas coisas com grafias diferentes. Por que isso acontece?
Porque os nomes dos Faraós,
habitantes, Deuses, lugares, coisas do Egito Antigo eram grafados em Egípcio.
Esse idioma possuiu três tipos de escrita: hieróglifos, hieráticos e demóticos.
A primeira era composta de desenhos
que formavam 24 letras e incontáveis símbolos (chamados determinativos), cada
símbolo indicava uma determinada palavra, sendo assim, havia um número muito
grande de hieróglifos, o que dificultava sua escrita. Com o tempo, os Egípcios
passaram a escrever também em hieráticos, que eram uma espécie de hieróglifos
simplificados utilizados em documentos e por Escribas copistas, sendo assim,
o hierático foi muito utilizado em correspondências e anotações particulares,
bem como em alguns livros que não possuíssem caráter religioso. O demótico
foi o último tipo de escrita surgido no Egito, apareceu durante a XXVI Dinastia,
ou seja, num período em que o Egito já conhecia sua franca decadência, era
uma escrita completamente cursiva inspirada no hierático, que havia surgido
cerca de 850 anos antes, durante a XVIII Dinastia; por ser praticada mais
por comerciantes e por pessoas não pertencentes à elite e também por ter
surgido num período em que o esplendor maior da História Egípcia já havia
passado, o demótico não deixou tantas marcas como os hieróglifos e hieráticos,
sendo assim, ele é a única escrita Egípcia que ainda não está completamente
traduzida.
Certo, muito bom, mas você ainda
não explicou porque a existência desses três tipos de escrita para a língua
Egípcia torna difícil a grafia das palavras Egípcias hoje em dia.
Justamente, como o leitor deve
saber, o Egito de hoje não fala o idioma Egípcio, mas sim, o Árabe. Isso
aconteceu porque no final do século VII a expansão da Dinastia Omíada do
Império Islâmico dominou o Egito e, entre outras coisas, impôs sua língua
como forma de dominação cultural. É verdade que o Árabe não se estabeleceu
do dia para a noite, mas demorou até o século XVI para suprimir o idioma
falado então no Egito.
Ah, certo, dirá o leitor, então,
o Egípcio deixou de ser falado no século XVI, não é?
Não, direi eu. A língua que
o Egito falava quando sofreu a conquista Árabe não era mais o Egípcio, mas
sim, o Copta (Copta é uma forma diferente de se dizer Egípcio, mas, no caso
da língua, ela serve para designar um idioma diferente do Egípcio tradicional,
falado no Egito Antigo). O Copta surgiu durante o domínio do Egito pela XXXI
Dinastia, os Ptolomeus. Os Gregos haviam imposto que o Egípcio poderia continuar
a ser falado, mas que deveria passar a ser escrito, ao menos em documentos,
com os caracteres da Grécia. Aos poucos, foi havendo uma mistura entre o Grego
e o Egípcio e, como a escrita Grega era de disseminação mais fácil, ela foi
suprimindo, aos poucos, as escritas hieroglífica, hierática e demótica (esta
última, não chegou, portanto, a ter mais de 300 anos de vida, também por
isso não teve tempo de deixar sua marca na História de forma tão indelével).
Por volta do século III d.C. (IV d.C. para os mais otimistas), o Egípcio antigo
havia sido completamente suprimido pelo novo Copta. Também os vestígios de
escritas hieroglífica, hierática e demótica não são mais encontrados depois
dessa data, sendo assim, considera-se que o Egípcio se tornara uma língua
morta.
Hoje, portanto, ninguém sabe
realmente como se falava o Egípcio antigo, sendo assim, as sonorizações
das traduções de hieróglifos e hieráticos encontrados se dão à partir da
pronúncia Copta das palavras. O Copta, por sua vez, também se tornou uma
língua morta por volta do século XVI, porém, assim como o Latim, há ainda
hoje registros de como era sua gramática, especialmente porque a Igreja Católica
Copta (Igreja Católica do Egito), por toda a sua tradição ligada ao Cisma
do Oriente e à Igreja Católica Bizantina (que tem o Grego como língua mãe,
assim como a Igreja Católica Romana tinha o Latim como a sua), preservou
como seu idioma institucional o Copta.
As sonorizações do Copta, contudo,
não são perfeitas e nem sequer devem ser iguais às originais, visto que
esse idioma sofreu muita influência do Grego e alguma do Latim, sendo assim,
muitas das palavras (em especial os nomes próprios) sofrem modificações
que se devem às traduções regionais. A isso, deve-se somar as políticas
nacionalistas de alguns países (como o Brasil teve no passado e os países
de língua Hispânica ainda tem) em relação a suas próprias línguas, sendo
assim, indivíduos como Martin Luther se tornam Martinho Lutero, Karl Marx
se torna Carlos Marx e outras traduções que atrapalham uma universalização
dos nomes que deveriam ser mantidos em suas línguas originais (ou nas mais
próximas, como o Copta do Egípcio, em casos de necessidade) ocorrem.
Por
fim, acredito que devo mencionar que a expedição de Napoleão Bonaparte ao
Egito, entre 1798-9, foi decisiva para o início do estudo da Egiptologia.
Até então, devido a conhecimentos do final da Antiguidade propagados por toda
a Idade Média e Moderna (conhecimentos que veremos melhor no final do texto),
acreditava-se que os hieróglifos não possuíam qualquer significado lingüístico,
sendo tão somente, fórmulas mágicas e esotéricas. Essa expedição foi a primeira
a levar indivíduos interessados numa pesquisa científica (se bem que empirista)
da História Egípcia e, ao ir embora, havia instalado no Cairo (atual capital
do Egito, cidade fundada pelos Árabes no lugar onde existia um outro povoado
mais antigo, nas proximidades das Pirâmides de Gizé) um Instituto Francês.
A Pedra de Rosetta |
A expedição também desceu o
Nilo e redescobriu as ilhas de Filae e Elefantina (que não eram tocadas por
Europeus desde o Império Romano) e levou consigo, além de muitos tesouros
arqueológicos (que foram perdidos, assim como tantas outras coisas se perderam
nos primeiros anos da Egiptologia devido a roubos, falta de preparo de Arqueólogos
e acidentes), a famosa Pedra de Roseta. Esta pedra trazia em si uma inscrição
reproduzida em três escritas: grega, demótica e hieróglifica. Em 1822, depois
de mais de vinte anos de estudos, Jean-François Champollion conseguiu decifrar
a Pedra de Roseta e dar à Egiptologia um novo rumo: um rumo de ciência (se
bem que para o público leigo que se interessa pelas coisas que critiquei
nesta longa introdução, é como se a Pedra de Roseta nunca tivesse existido,
visto que continuam a ver o Egito com um olhar não científico e a acreditar
em teorias esotéricas a respeito de sua História, fazer o que?)! |
Apenas como observação final (e agora estou falando sério!),
gostaria de esclarecer que todas as datas mencionadas neste texto, caso estejam
escritas sem as desinências “a.C.” ou “d.C.”, se referirão ao período anterior
a Cristo, sendo que quando alguma data posterior a Cristo for mencionada
ela estará obrigatoriamente seguida de “d.C.”. Esta medida facilita as coisas
na medida em que a esmagadora maioria das datas deste texto se referirá ao
período anterior a Era Cristã.