|
APPIAH, Kwame Anthony. Na casa de meu pai. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. Carlos
Ignácio Pinto, Danilo José Figueiredo,
Gabriel Passetti e Marco Antunes de Lima equipe@klepsidra.net Bacharéis em História/USP download |
|
Capítulo
1 - A Invenção da África
Os principais idealizadores do pan-africanismo eram afro-americanos, ou seja, negros dos EUA que com sua bagagem cultural e social passaram a pensar em um movimento único para os negros. Estes, tinham muito receio dos brancos como reflexo dos movimentos segregacionistas do Sul dos EUA, e com isso reafirmavam ainda mais sua ideologia em torno do conceito de raça. |
|
Segundo Crummell, toda a
raça
negra estaria unida dentro de um destino comum. Os negros estariam
então
se unindo em torno de seu lar racial. A questão de raça estava sempre
presente
nas discussões, e as diferentes visões acerca deste tema serão
analisados
mais para a frente neste capítulo assim como no seguinte.
Os pensadores afro-americanos,
encabeçados por Crummell, tinham
um pensamento viciado nas idéias ocidentais, por isso afirmavam que a
África
precisaria ser domada do paganismo e do barbarismo para depois ser
unida
em torno da raça negra. Um dos pontos principais deste plano seria a
união
em torno de um idioma ocidental, visto que havia inúmeros idiomas
autóctones
e também o idioma inglês seria “propício para os ensinamentos do
cristianismo
(protestantismo)”. Assim, a língua do colonizador acabou sendo a
centralizadora
das diferentes etnias “bárbaras e pagãs”. Este ensinamento foi tentado
por
várias décadas pelas escolas coloniais, que falharam na sua pretensão -
principalmente
nas colônias francesas - de alienar os africanos de suas tradições e
raízes
culturais.
Para Appiah, o conceito de “raça”
sempre foi um princípio organizador
geral de qualquer pensamento em torno de um pan-africanismo. Segundo
ele,
tal conceito variou muito com o tempo e com as diferentes ideologias.
Durante
a Grécia Clássica, por exemplo, os fatores biológicos estavam aliados
aos
fatores culturais quando se pensava nas diferentes raças.
Segundo o autor, há diferenças entre
racialismo, racismo extrínseco
e racismo intrínseco. O racialismo seria baseado em
“características
hereditárias, possuídas por membros de nossa espécie, que nos permitem
dividi-los
num pequeno conjunto de raças, de tal modo que todos os membros dessas
raças
compartilham entre si certos traços e tendências que eles não têm em
comum
com membros de nenhuma outra raça”.
Já o racismo extrínseco
seria fundamentado em
“distinções morais entre os membros das diferentes raças”. Tais
racistas acreditam
“que a essência racial implica certas qualidades moralmente
relevantes”.
Quaquer prova de que tais diferenças não existam deveriam impedir o
racismo
extrínseco, se este fosse puramente extrínseco. Porém,
nenhum
racismo é unicamente extrínseco. Uma forma deste racismo seria a
opressão.
Neste ponto entra a
questão
do racismo intrínseco, onde as “pessoas que
estabelecem diferenças
morais entre os membros das diferentes raças” acreditam “que cada raça
tem
um status moral diferente, independentemente das
características
partilhadas por seus membros”. Podemos pensar como exemplos deste tipo
de
racismo as solidariedades racial e nacional.
Ambos
os racismos são ideológicos, mas há algumas diferenças entre eles. O
“intrínseco
declara que certo grupo é objetável, sejam quais forem seus traços”. Já
o
“extrínseco fundamenta suas aversões em alegações sobre características
objetáveis”.
Para Appiah, ambos os racismo deveriam ser esquecidos. O racismo
intrínseco
pode ser considerado como um erro moral enquanto o racismo extrínseco é
baseado
em falsas crenças.
Continuando sua contextualização
histórica acerca do pan-africanismo,
o autor afirma que após a Segunda Guerra Mundial, onde diversos negros
lutaram
dentro dos Exércitos metropolitanos, o movimento partiu para novas
tendências.
O novo pensamento passou a ser baseado no aproveitamento também das
tradições
africanas em conjunto com o avanço tecnológico ocidental.
Concluindo o capítulo, Kwame Anthony
Appiah pensa que tais fundamentações
para o pan-africanismo tem bases errôneas por se basearem no racismo
(intrínseco)
e por suporem que os africanos tem um passado comum. Este seria menor
do
que se supõe, visto que os passados pré-colonialismo são tão diferentes
quanto
as experiências coloniais.
A fundamentação teórica
de
Appiah em seu segundo capítulo está baseada no pensamento do autor W.
E.
B. Du Bois, aquele que segundo o autor foi quem fez a fundamentação
teórica,
intelectual e prática do pan-africanismo. Seguindo esta linha de
pensamento,
o problema do negro estaria fundamentado na busca por uma expressão
para
a sua raça, com uma nova e positiva mensagem à humanidade.
Na maior parte do capítulo, a
discussão está centralizada na
definição de raça. Como se daria esta definição? Appiah busca esta
explicação
em diversas áreas, tais como a localização territorial, as origens dos
idiomas,
a biologia, a ancestralidade, a identificação grupal e a concepção
científica.
É nesta última que ele
mais
se aprofunda, discutindo as bases científicas que poderiam ser
utilizadas
pelos racistas como base teórica para os seus preconceitos. Porém, ele
finaliza
a discussão mostrando como mesmo dentro desta área a questão da raça é
errônea,
pois entre e mesmo dentro daquelas chamadas “raças”, há muita pouca
variabilidade
gênica se formos pensar no conjunto. Isto acontece porque, segundo esta
teoria,
as “raças” não estão fechadas devido aos grandes movimentos migratórios
presentes
em todos os movimentos históricos.
Por isso mesmo, o
pensamento
do racismo extrínseco foi refutado já que a fundamentação vai toda
abaixo
depois que a ciência provou que todas aquelas chamadas “raças” são
iguais,
não há porque se afirmar que características biológicas determinam que
uma
“raça” é menos ou mais apta ao trabalho, por exemplo. Seguindo este
pensamento,
Appiah compara os preconceitos sofridos pelos negros aos sofridos pelos
judeus.
Sendo a base cultural e
ideológica
dos mentores do pensamento pan-africanismo a cultura e a ideologia
norte-americana presente tanto em Crummell quanto em Du Bois, estes não
percebem que a origem comum africana se resume somente à sua origem
“racial”, ou como afirmou Appiah, "que importa que uma grande parcela
de seus ancestrais tenha vivido nesse vasto continente, se não há
nenhum laço mais sutil com eles, a não ser a ascendência
biológica bruta - ou seja, sem mediação cultural - e a 'insígnia' que
ela
implica, dos cabelos e da cor?". Finalizando, o racismo de Du Bois
seria
intrínseco e não e extrínseco devido às origens.
Capítulo 6
–
Velhos Deuses, Novos Mundos.
Kwane Anthony Appiah nos
começa
falando sobre modernidade, mas ao mesmo tempo fala que para pensar em
modernidade
é necessário que se pense em sua palavra antagônica, que seria
"tradicional",
e para isso ele irá pegar a suposta cultura tradicional africana,
pegando
um exemplo de uma tribo Achanti, mas especificamente de um ritual dos
Achanti,
no qual um indivíduo da tribo convoca(ou pede um favor) a um espírito
oferecendo
a ele ouro em pó e outras coisas, depois se faz sacrifícios de animais.
Após
a descrição do ato o autor colocará várias questões a serem estudadas e
analisadas
sobre este caso e também sobre a África em geral, perguntando coisas
como
"Por que aquele ritual estava sendo feito" sendo que a resposta era
porque
os ancestrais assim o faziam, como "para que o ouro em pó" respondendo
que
é uma questão de respeito ao espírito, como se estivesse dando algo
valioso
em troca de um favor, ou seja, o ouro é um símbolo de respeito ao
espírito, "trata-se o espírito como se trataria um ser humano a quem se
respeitasse" (p. 160).
A partir daí Appiah
começa
a nos mostrar a questão do simbolismo, dizendo que este é
característico
das cerimonias de todas as culturas, dizendo que "o ritual implica o
simbolismo"
(p. 163). Depois, o autor ira discutir a questão das crenças, sendo
elas
falsas ou não, e fala que as crenças são aprendidas pelos homens quando
estes
crescem, de onde quer que este homem seja. A partir dessa questão das
crenças
o autor nos mostra que as culturas tradicionais, como o exemplo dos
Achanti
não são irracionais pois nelas é possível que se faça uma defesa
razoável
de suas crenças, sendo elas verdadeiras ou não, pois, de certa forma,
os
espíritos "interferem" na vida dessas pessoas, causando melhoras de
saúde
por exemplo.
Depois, o autor coloca
teorias diversas, como de Horton que nos diz que as religiões
tradicionais são como
as teorias nas ciências naturais, ao qual Appiah contesta, pois "a
organização
social da investigação(...) é totalmente diferente nas culturas
tradicionais
e modernas" (p. 174). Após isso, o autor discutirá ciência e sociedades
tradicionais,
crenças, etc, a partir de várias teorias.
O autor irá nos mostrar
que
a grande diferença da cultura tradicional da África e a cultura do
mundo
industrializado é que a cultura tradicional é predominantemente
iletrada,
fazendo com que não seja possível comparar as teorias dos ancestrais,
diferente
do que acontece na cultura ocidental, e "a transmissão oral dificulta o
reconhecimento
de discrepâncias" (p. 185). Na transmissão oral, tudo o que é
transmitido
é de memória e é necessário partilhar com aquele que fal um
conhecimento
dos pressupostos que lhe servem de base. Para Appiah é necessário que
haja
uma alfabetização, pois esta foi crucial para o desenvolvimento da
modernidade.
No final do capítulo o
autor
nos diz que é necessário que os africanos se compreendam uns aos
outros,
e que se compreendam como racionais, e que para resolverem os seus
problemas
é necessário que os encarem como problemas humanos, e não como
problemas africanos.
Appiah nos começa falando
sobre
uma exposição de arte africana onde foram convidadas dez pessoas para
selecionar
as obras, e entre elas estava um homem da tribo balue, e para este só
lhe
foram dadas obras balues pois ele iria rejeitar as outras obras de
outras
tribos africanas, pois iria julgar com os seus conceitos. O autor
contesta, primeiramente provando que um balue conhece outras culturas
africanas e que aqueles não africanos também julgaram as imagens com os
seus próprios conceitos.
O autor começa a tratar
da
questão da arte africana como mercadoria, fazendo parte de um processo
de mercadologização, em que a arte é produzida em um contexto
pós-moderno que
é voltado para a sociedade de consumo. A partir daí, o autor começa a
discutir
o pós-modernismo de várias maneiras, como na filosofia, na arquitetura,
mas principalmente na arte e na literatura, principalmente a africana.
Appiah também ira discutir a racionalização de Webber, e diz que o
pós-modernismo rejeita essa razão, mas que faz parte do processo de
mercadologização.
Ele nos mostra que uma parte da sociedade africana se tornou uma sociedade consumista com os moldes ocidentais e que fazem parte desse processo de mercadologização, isso na era pós-colonialismo, e essa parte é a burguesia africana, ou seja, a elite que comanda as nações. Para o autor a África está sendo muito influenciada pela cultura ocidental dentro de sua cultura tradicional, principalmente a partir do momento em que a arte vira mercadoria. Appiah também irá nos mostrar vários exemplos de romances literários africanos no pós-colonialismo e como esses rejeitam a idéia anterior, assim como o pós- modernismo. Ele irá finalizar o 7º capítulo nos mostrando que nas culturas africanas existem aqueles que se recusam a ver-se como o Outro, e que as literaturas populares, a poesia, a música, a dança, e outras coisas todas vicejam na África. Para ele as sociedades africanas estão tendo uma modernização mas mantendo os seus aspectos culturais.
Capítulo 8
-
Estados Alterados
O
que o autor aqui propõe é a análise da formação dos Estados Africanos
contemporâneos baseado na compreensão do
passado pré-colonial, do colonialismo
e da transição de poder da metrópole para os recém formados Estados
independentes.
O autor começa em um retroceder pelo
tempo, diagnosticando a
formação de novas identidades na junção da colonização com os costumes
tradicionais
de seu povo, a luta pela independência (fato este que não é amplamente
abordado)
dos Estados Africanos e a conseqüência destes processos. Em sua análise
trabalha,
com conceitos de Estado e de sua
permanência junto
as tradições de vários povos. As tradições são legitimadas pelas
sociedades
e portanto mais próximas as mesmas, permitem que (no caso específico
ele
se refere da etnia de seu pai, Achanti) estas sociedades possam exercer
algum
tipo de autonomia com relação ao Estado, sociedades estas unidas por
convicções
éticas, laços de afeição e mundos compartilhados de significações. Já o
Estado,
como herança colonial, é legitimado através da coerção
(citando exemplos como o os impostos e o alistamento obrigatório
e o direito criminal que não é optativo) estigmatizado na repressão no
aspecto amplo de exploração.
No caso de Gana, e note-se que o autor
usa Gana para auxiliar na compreensão do
que ocorreu em grande
parte da África, o Estado que surge após a independência, possui os
mesmos
vícios e conjunturas do Estado colonial, em suma, perpetuando muitos
aspectos
do sistema econômico colonial, alem de serem suplantadas e ignoradas as
diferenças
étnicas, muitas vezes encobertas pelos discursos nacionalistas no que
diz
respeito a junção dos povos no processo de independência. Quais as
conseqüências
da perpetuação de aspectos deste Estado colonial e
a crença em uma igualdade étnica que de certa forma não existia?
O Estado colonial visava a manutenção
do poder, através da coerção
e, ainda mais, o “retorno” de capitais investidos na colônia,
principalmente
sob a forma de impostos. Restringia o acesso a educação por parte dos
nativos
e tratava-se de um estado de exclusão social não participativo (neste
ponto
há que se abrir um precedente para as distinções entre as colonizações
francesas
e inglesas que ele mesmo diferencia) . Um
estado independente
que nascia para a gerar condições para o desenvolvimento
e
criação de infra estrutura não poderia jamais apoiar-se nas bases de um
estado
que visava ganhos para a metrópole e a manutenção da ordem vigente. Ao herdarem o aparelho de Estado colonial, os governantes
pós-coloniais
herdaram as rédeas do poder, poucos repararam, no princípio, que elas
não
estavam ligadas a um bocal de freio (p. 230).
Em muitos casos, o que se observa
depois da independência, são
mecanismos que favorecem determinadas elites dentro do Estado, e a
formação
destes Estados sob bases frágeis, o que explica os vários golpes de
estado
sucessivos em muitos países recém independentes, que acabavam por
comprometer
a formação de estruturas que viabilizassem
o desenvolvimento
dos mesmos.
Quanto as etnias, como próprio
Appiah cita: “ Uma vez passado o momento de coesão contra os
britânicos,
o registro simbólico da união nacional confrontou-se com a realidade de
nossas
diferenças” (p. 227) e mais, no caso de Gana “o entusiasmo real que um
dia
existira, ainda que limitado, tinha-se evaporado; as complicações
começaram
a reter nossas atenções” (p. 225). O que o autor aqui demonstra, é a
fragilidade
com que se da a formação destas “unidades nacionais” que logo depois da
euforia,
frente as complicações geradas pela administração do Estado, o que
tende
a se romper é exatamente o precário elo entre estes povos. Há que se
levar
em conta ainda que os Estados geográficos europeus na África ignoraram
qualquer
diferença entre povos, adequando os territórios conforme sua vontade e
lógica
de exploração;”...Mas na independência a mesma Europa deixou a África
com
Estados a procura de nações...” (p. 227).
Mas a visão de Appiah que em uma primeira
impressão possa parecer pessimista, traz a compreensão de
possibilidades que possam proporcionar a alguns Estados africanos o
crescimento e a criação de estruturas e mecanismos que possam alavancar
o desenvolvimento e principalmente, gerir
um estado de participação dos povos na gestão do Estado como um todo.
Mas
como ?
O autor cita o exemplo das organizações e
associações não governamentais que gradualmente passaram a exercer
papéis anteriormente
de função do Estado, como administração de creches, instituições de
ensino
e na área de saúde. O funcionamento destas organizações, auxiliado em
sua
maioria por naturais da região, de certa forma, torna-se um aprendizado
no
exercício da organização e no que diz respeito a mobilização das
pessoas
“ eles dão às pessoas a oportunidade de exercer modos participativos de
organização
da vida comunitária, proporcionam uma experiência de autonomia” (p.
239).
Desperta a consciência dos envolvidos para compreensão do que é uma
gestão
participativa. Isto pode, futuramente (e acredito que pela época em que
este
livro foi escrito, esta idéia já tenha dado seus frutos) levar a uma
reivindicação
de participação maciça dos povos na administração dos Estados. Um Estado menos restrito a participação de sua
população, baseado
em direitos preteridos pela mesma.
Para Appiah, a democracia não deve ser
baseada apenas
em questão de parlamentos e eleições, mas no desenvolvimento de mecanismos pelos
quais os governantes
possam ser cerceados pelos governados.
Appiah encerra o capítulo de uma forma que
deixe
o leitor a imaginar que nada está pronto e que tudo se assemelha a uma
fase
de transição á qual nem ele mesmo consegue prever o que de certo irá ocorrer, mas nos deixa sub entendido de
que, se alguns
aspectos forem mantidos e não houver um pensamento racional comum que
possibilite
a superação das estruturas coloniais e as diferenças étnicas que impeça
a
orientação de vários povos como um todo e não fragmentado, aquilo que
se
pode esperar como um Estado participativo de uma nação unificada
torna-se
inviável sob muitos aspectos e principalmente, a África se tornando um
fragmentado
território de muitas “identidades” e pouco conjunto, coesão, comum.
Capítulo 9 – Identidades Africanas.
Toda identidade humana é construída e histórica.
Appiah.
Este capítulo é o que se pode chamar de o
“Clímax” do livro, pois nele o autor reúne seus pensamentos expostos na
obra para
dar sentido a sua principal afirmativa de que existe um perigo real e
latente
ao se formar as identidades baseadas na questão raça, pois a mesma
“pressupõem falsidades demais para que as ignoremos” (p. 243) e adverte
do perigo de
que tais concepções podem proporcionar muito
mais
desajustes do que soluções ou alternativas.
Appiah traça um histórico cultural do
continente africano ressaltando a idéia de que a influência européia no
continente anteriormente
ao século XIX que proporcionasse uma mudança nos padrões culturais dos
povos
foi quase ínfima. Esta somente se dá por volta do final do século XIX e
principalmente
no período pós Primeira Guerra. Afirma que não há como traçar
generalizações
culturais para o continente devido a diversidade, mas que haveria
alguns
aspectos comuns como o campesinato sem senhor, porem sem formar uma
identidade
ao continente.
Para o autor, a raça não apenas forma
conjuntos,
mas exclui no sentido de que parte do
pressuposto
do que é diferente, daquilo que não é, e certamente não poderá ser
igual.
Ainda mais, para Appiah, muitas destas construções de identidades são
recentes
e surgem como meios de se criar alianças
ou de sustentar
objetivos que visem o favorecimento de alguns grupos em detrimentos de
outros.
Raça pode ser distorcida, pode ocultar sob
uma máscara
de igualdade as reais tensões existentes dentro de um mesmo grupo ou
uma
mesma raça; não corresponde ao que é verossímil, mas aquilo que,
baseado
em alguns argumentos que para ele, em sua grande maioria, são
refutáveis,
se tornam reflexos de anseios presentes e que recorrem ao passado ou ao
biológico
para a busca de uma identidade que talvez nem sequer realmente tivesse
ocorrido.
Contra as tradições ?
Não, porem reconhece que estas devem estar
fundamentadas
em um conceito de conjunto e que não se pode atribuir valores ou
argumentar
a favor ou contra “identidades”, porem, por se tratar de algo relativo,
deve
se considerar uma a uma, caso a caso.
A questão cerne evidente é a “raça” em sua
mais cruel face; no aspecto que podemos presenciar através dos
conflitos etno-regionais
que assolam a África, que dizimam povos e que a tiram do rumo do
desenvolvimento,
ou seja, Racismo.
Conclusão
Todas as identidades com
que
meu pai se importara achavam-se encarnadas a nosso redor:
advogado, homem de Achanti, ganês, africano, internacionalista;
estadista
e homem da igreja: homem de família pai e chefe de sua abusua; amigo;
marido.
Somente algo tão particular quanto uma vida única- como a vida de meu
pai,
encapsulada no complexo padrão de relacionamentos sociais e pessoais
que
cercavam seu ataúde- seria capaz de captar a multiplicidade de nossas
vidas
num mundo pós-colonial.
Appiah.
Na casa de meu pai é a síntese da gênese
Africana. É a metáfora construtora dos ideais do autor. Uma África que
apoiada sob alguns falsos valores, detêm seu real desenvolvimento,
sendo a heterogeneidade distorcida
sob valores que tentem em uma grande parte, apenas responder a
objetivos particulares.
Leonardo Boff, em um de seus livros, traz a metáfora da águia
que criada
entre galinhas, agia como tal, não despertando em si todo o real
potencial
que lhe cabia. Não há metáfora que melhor possa traduzir, em nossa
opinião,
o que realmente ocorre com o continente africano e seus povos. A
ruptura
na evolução natural dos povos; a aculturação forçada e a herança de
estados
que suplantaram qualquer fronteira geográfica anteriormente existente,
legaram
a estes povos sua realidade em “desconstrução”. Desconstrução da
soberania,
do presente.
Appiah procura revisar todos os conceitos em que
são construídas as identidades que hoje afloram no continente africano,
no objetivo de demonstrar
a real face e o eminente perigo que isto pode trazer
aos
povos da África. Em seu texto aborda o passado pré colonial e
principalmente
o colonialismo e sua transição para os atuais estados africanos, como
Gana,
país de sua naturalidade e que usa como principal exemplo para
exemplificar
a atual África.
Seu principal objetivo é relatar como a ascensão das identidades, a “criação” das mesmas e a busca pelo domínio político destes novos estados, pós independência geram conseqüências, tais como os conflitos étnicos-regionais (que hoje dizimam populações na África, condenando-a em muito de seu território a um caos que parece não ter fim, como os casos da Somália e Etiópia) e a negação de uma unidade que possa ser fundamentada em povos heterogêneos mas com objetivos comuns, objetivos estes que devem suplantar as diferenças e não o contrário. Demonstra que muitos destes conflitos hoje apoiados nas diferenças étnicas, vem apenas responder objetivos muito particulares.
Estado e tradição são duas faces de uma mesma
moeda na África.
Por um lado, o “Estado”, a herança colonial, que como Appiah cita, foi
perpetuada
em muitos dos seus aspectos, não conseguindo corresponder as reais
necessidades
de seus povos, e do outro, a tradição, que preserva um pouco da
autonomia
destas sociedades. O autor não se coloca contra as tradições ou as
identidades,
mas o perigo eminente que a construção das mesmas pode trazer.
Identidade
realmente ou construção de objetivos claros? Preservar as tradições é
uma
questão de respeito. Deixar que elas se tornem maiores do que as
pessoas
que as praticam é retirá-las de sua responsabilidade na busca de um
objetivo
comum.
Em seu prefácio, ao relatar sua
experiência pessoal em presenciar
a convivência de crianças de várias origens, identifica aquilo que
necessariamente
deveria ser o rumo de nosso planeta como um todo, demonstrando que
alimentar
as diferenças e “excluir" podem remeter a um futuro tão ou mais
excludente
que seu presente. “Ao vê-las brincando juntas e falando
umas
com as outras com seus sotaques variados, sinto, pelo menos, uma certa
esperança
no futuro humano”.
O funeral de seu pai no epílogo
representa claramente o rompimento
daquilo que para o autor nada mais é do que uma insensata valorização
de
uma tradição sobrepondo a realidade daquilo que a autor busca em toda a
obra.
A valorização do conjunto como um todo, não se importando se representa
esta
ou aquela raça, ou determinada tradição. O todo, mesmo que fracionado
tendo
a consciência de que a diferença não deve excluir, mas representar os
interesses
comuns quando assim o for necessário.
A adoção de um estado representativo
implica na união dos vários
povos que o compõem, ou seja, uma nação. Estas nações que na África não
conseguem
se ver como tal, não enxergam o conjunto, se fracionam e ainda “agem e pensam como uma galinha” privando a si mesmos de
suas
reais capacidades.
Talvez o que a Europa tenha levado da
África, não tenha sido pior, se comparado ao que
deixou aos africanos, mas não
se deve ficar adotando o passado como única fonte dos problemas
presentes;
é preciso identificar as reais possibilidades de mudança na conjuntura
e
formação destes novos povos e estados que possam contribuir para uma
mudança
significativa no continente. Sob este prisma, Appiah traz uma
maravilhosa
contribuição, identificando e revelando em sua obra o mito das raças,
das
identidades, da exclusão e da máscara oculta na concepção de “igualdade racial”.
Kwame Anthony Appiah
|
O
futuro da
África nem o autor pode prever, mas se forem perpetuadas concepções e
diferenças,
os tempos posteriores demonstrarão uma realidade não muito diferente da
atual,
na qual populações se dizimam e estados funcionam direcionados a uma
única
fração da sociedade, porque esta mesma ainda não tenha conseguido se
identificar
na função de modeladora e construtora da nação, do conjunto, na única
força
que pode colocar o estado em seu real objetivo: de construtor da ordem,
da
soberania, do respeito a seus cidadãos, do direito a representatividade
e
de principalmente, fomentador do desenvolvimento da nação. |