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O Corpuscularismo Mecanicista e acontestação da autoridade da tradição:Galileu, Descartes e a
base de uma nova verdade *
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Dressed as
one, a wolf will betray a lamb.b
O objetivo deste ensaio é apresentar, de
forma superficial, alguns aspectos que dizem respeito à filosofia
corpuscular mecanicista, expondo alguns elementos formulados ou
retomados
por Galileu Galilei e René Descartes que tiveram importância para a
formulação
desta nova filosofia, a qual se constituiria em uma base para o
paradigma
científico que se instalaria no ambiente intelectual europeu pouco mais
de um
século depois – o paradigma ilustrado. A intenção principal é
identificar
superficialmente o impacto – no campo científico – da substituição da
autoridade
da tradição pela autoridade da experimentação e demonstração, que será
uma das
bases para formulações posteriores acerca do progresso, ou
seja, das
idéias segundo as quais a sociedade se move inexoravelmente para uma
situação
“superior” aquela na qual outrora estivera. A intenção secundária é
relacionar
algumas trajetórias pessoais, peripécias, com o movimento geral
conhecido como Revolução Científica, chamando atenção para a
possibilidade de ler a História também como resultado de
movimentos
imprevistos dos seus agentes.
A propósito da Revolução mencionada,
faz-se necessário alertar para a concepção desta à qual este trabalho
firma
alguma identidade. Não defenderei aqui a proposição de que a ‘ciência
moderna’
se constitui enquanto entidade unitária, monolítica.[1]
Ao contrário, como procurarei situar ao longo deste breve texto,
acredito que a
Revolução Científica se fez em dois níveis principais: o das
‘grandes’
correntes intelectuais (do âmbito das mentalidades) e o da
inventividade
individual ou coletiva (coletiva em um âmbito menor do que o das mentalidades).
O primeiro nível diz respeito à mudança no clima de opinião que
ocorre
nos círculos eruditos europeus na Época Moderna, no qual o
aristotelismo
escolástico perde espaço para explicações acerca da natureza que são
baseados
não mais na autoridade da religião (ao contrário, a religião passa a
ser objeto
de reelaboração e readaptação ao novo conhecimento do mundo).
O segundo
nível – que está ligado ao primeiro mas não pode ser reduzido a mera
conseqüência do mesmo – pode ser notado na mudança da escala de
observação. Ao
aproximarmos o olhar aos indivíduos protagonistas deste movimento geral
de
mudança no clima de opinião, percebemos que as saídas
individuais
encontradas pelos mesmos para os problemas de filosofia que a eles se
colocavam
– saídas que estavam, obviamente, de acordo com a cultura dos
mesmos –
foram de fundamental importância para a construção de um ‘pensamento
científico’. Este segundo nível não permite que consideremos “a”
ciência
moderna. Ao contrário, determina por si só a existência de correntes
diversas
e, às vezes, antagônicas. É o caso, por exemplo, do indutivismo e
do dedutivismo.
A diferença entre ambos enquanto métodos científicos revela
claramente
uma dissensão na comunidade de eruditos. No âmbito individual,
argumentamos,
por exemplo, que Galileu atuou exatamente como o lobo ao qual a
epígrafe do
presente texto se refere. Utilizou-se da própria estrutura da cultura
erudita
com o fim de modifica-la. Deixemos, porém, de pseudofilosofar. Passemos
à
História.
Cabe, primeiramente,
mencionar algumas heranças. Não por acaso. Estou cada vez mais
convencido de
que a compreensão das mudanças intelectuais ocorridas durante a Época
Moderna
está relacionada com o estudo da apropriação que alguns indivíduos
fazem das
próprias tradições a partir das quais formulam suas teorias (sejam elas
no
campo político, econômico, teológico ou cosmogônico). Desta forma,
acredito
que, mais do que uma ruptura deliberada, as ‘revoluções’ do pensamento
acontecem como reformas, ou mesmo como revoluções, se
considerarmos estas no sentido astronômico da Idade Moderna, como
retorno ao
local de origem.
Quanto à questão da matematização da
natureza, ou seja, o rompimento com uma perspectiva qualitativa
aristotélica do mundo, é importante salientar que esta concepção já
fora
formulada, antes de fazer parte do sistema criado por Galileu e elevado
à
categoria de filosofia natural por Descartes, por Johannes Kepler.[2]
É importante, entretanto, que notemos uma tendência geral que se
observou no
campo do conhecimento (que ainda não se designava como “científico) ao
longo
dos séculos XVI e XVII, que foi a própria mudança no status da
Matemática enquanto suporte para o conhecimento do mundo natural.
De forma geral, podemos afirmar que a
utilização do conhecimento matemático ‘evoluiu’ de uma perspectiva
puramente
instrumentalista para uma perspectiva realista. Ou seja, no seio de uma
‘comunidade científica’ impregnada por uma visão de mundo qualitativa,
tributária das “verdades evidentes” do aristotelismo escolástico, a
Matemática
só era admitida como um instrumento para a exemplificação daquilo que
já era
conhecido (por exemplo, a água ser molhada, o fogo ser quente, os
corpos caírem
para baixo etc); em contraposição a esta corrente, a perspectiva
realista na
utilização da Matemática advogava à esta a capacidade de conhecer realmente
como
se dão as coisas. Se algo era matematicamente provável, então era
verdade, e
não possibilidade. O primeiro grande teórico realista da Época Moderna
foi Nicolau
Copérnico, que adotou em parte o sistema ptolomaico de forma não mais
hipotética (forma pela qual este se encaixava ao aristotelismo
dominante e que
foi fruto de uma longa ‘deturpação’ durante a Idade Média), mas de
forma
realista (aliás, muito mais próxima à forma defendida pelo próprio
Cláudio
Ptolomeu na Grécia do século II).
![]() Nicolau Copérnico
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Este ponto, Copérnico e a Astronomia, é
extremamente revelador para o que nos propomos a entender aqui, a
mudança no status da Matemática. Em sua obra mestra, De revolutionibus orbium coelestium (Sobre a revolução das esferas celestes), publicada em 1543, Mikolaj Kopernik (original polonês da latinização Nicolaus Copernicus) repudia veementemente a abordagem instrumentalista da Matemática. |
| Andreas Osiander, pastor luterano que acompanhou de perto a impressão do De revolutionibus, acrescentou ao mesmo um prefácio – não autorizado – no qual o sistema heliostático do cônego polonês era apresentado como inconclusivo, sendo apenas uma possibilidade de explicação. Porém, em seu próprio prefácio, como no resto do trabalho, Copérnico reivindicava a verdade física do seu sistema, tão legítimo quanto o de Ptolomeu, o que aliás o colocava em flagrante desalinho com a tradição aristotélica, as Escrituras e o senso comum (motivo talvez da demora na publicação do livro, quase trinta anos após de concluído) .[3] | ![]() Representação do sistema heliocêntrico copernicano do De revolutionibus orbium coelestium. |
Copérnico é um meio termo entre os
‘antigos’ e os ‘modernos’, e o De revolutionibus é prova desta
ambigüidade. A demora na publicação do mesmo é um forte indício da
indecisão do
cônego-astrônomo em assumir publicamente uma posição de enfrentamento
com o status
quo do conhecimento escolástico. Copérnico fez poucas observações
astronômicas (não era um empirista como alguns ingleses, que
confluiriam
na criação da Royal Society of London), titubeou na questão das
esferas
celestes (hesitou entre vê-las como sólidos cristalinos ou puras
elucubrações
geométricas descritivas dos movimentos dos astros), além de ter
considerado
absurda a idéia de que os corpos celestes podiam se mover de forma a
não
descreverem círculos perfeitos, o quê violava o princípio da unidade e
da
perfeição da Criação.[4]
Todavia, o cosmólogo polonês, conforme vimos acima, contribuiu de forma
decisiva para o desenvolvimento posterior de um pensamento científico
que
podemos chamar de moderno, uma vez que elevou a Matemática
(fundamental
para a explicação do seu sistema heliostático) ao status da
filosofia
natural. Este último aspecto da empreitada copernicana no interior do
movimento
maior que conhecemos como “Revolução Científica” merece um pouco de
atenção. Há
um aspecto social que não pode ser negligenciado. Copérnico, conforme
nos
revela Robert Westman, fazia parte de um grupo maior de praticantes da
Matemática (praticantes mesmo, não apenas teóricos), grupo de
humanistas que se
empenhou grandemente no sentido de recuperar os textos dos principais
matemáticos gregos antigos, o que obviamente contribuiu para uma
tentativa
deste grupo – dentro do qual o próprio Nicolau Copérnico – de elevar o status
social da disciplina matemática, o que é visível na negação que o
autor do De
revolutionibus faz ao caráter instrumentalista da Matemática
atribuído por
Osiander no prefácio de sua obra.[5]
Porém, um autor cujo nome foi mencionado há alguns parágrafos acima é
de
fundamental importância para a compreensão deste processo de mudança na
categoria explicativa que sofre o conhecimento matemático na explicação
do
mundo natural.
![]() Johannes Kepler
|
Johannes Kepler publicou a Astronomia Nova em 1609. Nesta obra, o astrônomo alemão (nascido em Weil, no Sacro Império, atual Alemanha) defende com veemência a consideração do matemático como filósofo natural, oferecendo inclusive suporte matemático para alguns princípios astronômicos defendidos por Galileu. Retomando os escritos de Copérnico, Kepler os sistematizou e construiu a primeira grande explicação heliocêntrica do universo. Refinando o sistema delineado pelo cosmólogo polonês, Johannes Kepler definiu baseado em princípios matemáticos as trajetórias elípticas dos planetas em torno do Sol. |
A Matemática alcançou definitivamente, a partir das exposições cosmológicas de Kepler, lugar de destaque nas explicações da natureza (cabe lembrar que a Matemática estava, neste período, indelevelmente ligada à tradição astrológica, da qual os grandes pensadores do período faziam parte).
Outro elemento que confluiu decisivamente
para a nascente tradição científica moderna foi o próprio
experimentalismo, que
obteve sucesso diferenciado nas comunidades eruditas européias entre o
final do
século XVI e o início do XVIII. Este, o experimentalismo, esteve por
sua vez
indelevelmente ligado à aceitação da Matemática como modo de explicação
plausível da realidade, à medida em que os matemáticos foram alçados à
condição
de filósofos naturais.
| O grande empecilho para a aceitação da Matemática como livro da natureza foi sua artificialidade. Este campo de conhecimento era composto basicamente por vários sistemas (às vezes desconexos) criados pelo homem, e por isso eram apenas tentativas de compreensão de uma verdade evidente, da qual apenas o sistema aristotélico poderia dar conta, afinal de contas, este baseava-se em um experimentalismo largamente aceito pelas autoridades intelectuais escolásticas. A natureza era sensivelmente conhecida. Seco, molhado, quente, frio. | ![]() Horóscopo manuscrito feito por Johannes Kepler para Hans Hannibal Hütter von Hütterhofen |
Os matemáticos do final do século
XVI e
início do XVII passaram então a estabelecer novos princípios para a
própria
noção de experiência. A noção sensível desta última,
base da
filosofia natural escolástica, deveria ser substituída por uma outra,
baseada
em um “conhecimento demonstrado por experimentos especificamente
concebidos
para este propósito”[6],
o de relacionar demonstrações matemáticas com a realidade das coisas.
A relação entre o novo experimentalismo e
o processo de matematização da natureza pode ser notado na própria
utilização
de instrumentos científicos. Se antes do final do século XVI apenas
alguns
instrumentos faziam a relação entre conhecimento matemático e o mundo
físico,
como o astrolábio, o quadrante e a esfera armilar, a partir do início
do século
XVII novos instrumentos foram inventados, desenvolvidos e utilizados
sistematicamente no próprio âmbito da filosofia natural, como o
microscópio, o
barômetro, o termômetro e, talvez o mais significativo, o telescópio.
Este
último instrumento, ‘curiosamente’, ficou famoso na história da Revolução
Científica como de especial estima de Galileu, praticante da
Matemática com
grande ambição em ser reconhecido como filósofo natural. Conforme
afirmou John
Henry, “foi a tradição matemática que forneceu o primeiro estímulo para
o uso
de instrumentos na pesquisa científica”.[7]
Esta nova tendência experimentalista
ocorreu paralelamente em diversas áreas do conhecimento, e um grande
indício
desta é a formação em diversas partes da Europa de academias
científicas,
dentre as quais a mais significativa – dentro de um novo
experimentalismo – é a
Royal Society of London, formada em meados do século XVII.
Ainda quanto às heranças, cabe também
mencionar que os fundadores da ciência moderna foram buscar algumas
formulações
na antiguidade, sobretudo aquilo que seria uma das principais
características
da nova filosofia sobre a qual nos propusemos no início do presente
esboço de
ensaio a ponderar sobre, o corpuscularismo, ou seja, a
concepção segundo
a qual a matéria era constituída por partes pequenas, os corpúsculos,
concepção esta extraída do Atomismo.[8]
Tal princípio não foi originalmente proposto por Galileu, assim como
por nenhum
outro pensador moderno. Longe disto, estes últimos a retomaram,
conforme
indicamos no início do presente parágrafo, dos filósofos antigos.
Demócrito e
Epicuro. Estes formularam – ao menos de acordo com a tradição escrita
que até
nós chegou – na Grécia clássica o princípio das partes pequenas, dos corpúsculos.
Não nos deteremos, todavia, na análise destes princípios na
Antigüidade.
Voltemos à Europa da Idade Moderna.
Falemos dos nossos protagonistas, Galileu
e Descartes, pois, como sabemos, a História se faz com documentos.
Porém, estes últimos são feitos por
mulheres e homens.
Primeiramente, Galileu.
![]() Ottavio Leoni. Galileu Galilei. |
Nascido em Pisa no dia 15 de fevereiro de 1564, Galileu começou a estudar medicina na Escola de Artes de sua cidade, onde matriculou-se em 1581. Quatro anos depois, em 1585, Galileu muda o rumo de seus estudos, tornando-se, em 1589, catedrático de Matemática na Universidade de Pisa, cargo que ocupa até 1592, quando vai para a Universidade de Pádua, ainda como professor de Matemática. Nesta região também ministrará aulas particulares de Astronomia e Mecânica Prática, sobretudo para aristocratas ou membros de famílias ricas. Em 1596, publica um tratado intitulado Da Mecânica, obra na qual se dedica aos instrumentos e máquinas que desenvolveu. |
Em 1604, numa carta a Paolo Sarpi,
Galileu elabora a lei da queda livre dos corpos, desenvolvida a partir
de
experiências repetidas.
|
Cinco anos depois, em 1609, uma mudança
importante na Astronomia: Galileu, a partir de informações que recebera
acerca
de um instrumento de aproximação de visão utilizado nos Países Baixos,
o
reproduz e o aperfeiçoa. Nesta ocasião, Galileu é homenageado pelo
Senado da
República de Veneza e começa a entrar em conflito com os aristotélicos
da
Universidade de Pádua. Porém, a maior inovação de Galileu quanto a este
aspecto
seria o fato dele apontar o perspicilium para o céu, observando
os
corpos celestes, que até então eram observados a olho nu. A partir
deste
momento, a Astronomia deixava de ser uma ciência especulativa e passava
a ser
uma ciência instrumental, surgindo uma Astrofísica teórica e
empiricamente
fundamentada, já que a partir daquele momento a quantidade de dados
qualitativamente novos acumulados com as observações telescópicas de
Galileu
possibilitava tal fato. Em 1610 Galileu publica em Veneza o seu trabalho intitulado Sidereus Nuntius (O Mensageiro das Estrelas), no qual demonstra os resultados das suas observações astronômicas. Galileu, que há algum tempo já era um copernicano, acreditando ser o Sol o centro de nosso sistema, descobrira, entre outras coisas, alterações na superfície solar, além da rotação do Sol em torno do seu eixo, destruindo a crença dos próprios copernicanos segundo a qual o centro do seu sistema era imóvel. |
![]() Galileu
Galilei. Rascunho de uma carta a Leonardo Donato, |
![]() O perspicilium de Galileu |
Ainda assim, as
observações de Galileu contribuíram para o fortalecimento do sistema
heliocêntrico copernicano, o que, com a publicação do Sidereus
Nuntius, contribuiu
para que sua relação com os peripatéticos de Pádua ficasse ainda mais
desgastada, culminando com o retorno de Galileu para a Universidade de
Pisa.
A esta altura, o trabalho de
Galileu já é
notório em toda a Europa, quando em 1611 este se desloca até Roma para
demonstrar
suas descobertas aos jesuítas do Colégio Romano, conseguindo inclusive
agradar
a muitos religiosos. Na Academia dei Lincei, que congregava a
elite
intelectual italiana (vale dizer, excluídos os membros de ordens
religiosas),
recebeu grande apreço por partes dos membros. Nesta ocasião, Galileu
foi
aprovado como um Lince.
|
| No ano seguinte, em 1612, Galileu publica dois trabalhos que irão congregar, de forma mais elaborada, o Copernicanismo e a Filosofia corpuscular. O primeiro é intitulado Discorso Intorno alle Cose Che Stano in Sull`Acqua (Discurso Sobre as Coisas que Estão Sobre a Água), no qual Galileu, segundo Pietro Redondi, “confirma sua inclinação por uma filosofia natural em polêmica contra a tradição aristotélica”[9], combatendo a Física qualitativa dos aristotélicos, chamados também de “peripatéticos”. O segundo é intitulado Istoria e Dimostrazioni Intorno alle Macchie Solari (História e Demonstrações Sobre as Manchas Solares), trabalho no qual Galileu entra diretamente em conflito com o padre Cristopher Scheiner, um respeitável cientista da Companhia de Jesus. Neste trabalho, Galileu ataca frontalmente a Física aristotélica. “As hostilidades para com a filosofia oficial jesuítica tiveram assim início”[10]. | ![]() Registro autógrafo de Galileu na Academia dei Lincei. Roma, 25 de Abril de 1611 |
| Ainda em
1612, o Copernicanismo é
denunciado como doutrina herética, o que acarreta problemas para
Galileu, que é
denunciado ao Santo Ofício em 1615, pelo dominicano Niccolo Lorini.
Porém, para
os jesuítas, um dos piores problemas nos escritos de Galileu seria o
seu
parentesco com algumas idéias protestantes, como, por exemplo, o
chamamento que
Galileu faz à leitura direta do “livro da natureza”, que, segundo
Redondi,
soaria como “uma bofetada na tradição católica escolástica e uma mão
estendida
aos hereges que haviam feito da leitura daquele livro, assim como da
Bíblia, um
de seus preceitos”[11].
Em 1616 Galileu vai até Roma para defender-se, onde o Cardeal Roberto
Bellarmino, o famoso inquisidor e teórico político, aconselha-o a
abandonar as
idéias copernicanas, encerrando-se assim o processo judiciário contra
Galileu. Porém, este “abandono” das idéias copernicanas por parte de Galileu não durou muito. A Companhia de Jesus publica, em 1619, um estudo acerca dos cometas surgidos no inverno daquele ano, baseado nas idéias de Tycho Brahe e de autoria do padre Orazio Grassi. |
![]() Registro autógrafo de observação astronômica de Galileu, datado de 3 de Maio de 1612 |
![]() Prospecto do Colégio Romano, da Companhia de Jesus, no século XVII |
Galileu não se manteve passivo diante de tal fato, instruindo um de seus discípulos a rebater, na Academia de Florença, o estudo de Grassi. Este discurso, orientado por Galileu, é imediatamente publicado sob o título de Discorso delle comete. Não demora muito e, em dezembro daquele mesmo ano, o padre Orazio Grassi, sob pseudônimo de Lotario Sarsi, publica uma resposta intitulada Libra astronomica ac philosophica, onde invoca a autoridade da tradição, passando os ataques a serem frontais. |
Galileu não se dá por satisfeito e, em
maio de
1623, motivado pela Academia dos Linces, publica uma carta destinada ao
seu
amigo, Cardeal Virginio Cesarini, carta esta intitulada Il
Saggiatore (O
Experimentador). Neste trabalho Galileu irá, além de reafirmar a idéia
de
matematização da natureza, articular a Astronomia copernicana com a
Filosofia
corpuscular.
A
recusa de submissão dogmática ao princípio de autoridade no campo
filosófico, a
reivindicação de uma linguagem nova, os direitos de pesquisa e de livre
discussão intelectual contra a prevaricação da cultura institucional:
eis os
elementos que faziam do Saggiatore o manifesto de uma nova
filosofia em
Roma. O livro foi um acontecimento literário porque, mais ainda do que
os
jesuítas, mais ainda do que o pensamento escolástico, ele parecia
contestar
toda uma tradição intelectual.[12]
Pouco tempo depois desta publicação um
amigo florentino de Galileu, o Cardeal Maffeo Barberini, foi eleito
papa, o que
favoreceu também a criação de um ambiente mais “liberal” para a Igreja
Católica, não havendo, por conta disto, nenhum problema para Galileu
quanto à
censura do Experimentador.
![]() Frontispício do Diálogo Sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo, de 1632 |
Galileu, aproveitando-se da liberalidade trazida pelo novo papa e em função do funeral do Cardeal Virginio Cesarini, dirige-se novamente a Roma em 1624, quando pede autorização ao papa Urbano VIII para a elaboração e publicação de um livro sobre Cosmologia. Com a autorização concedida, Galileu publica em 1632 um trabalho intitulado Dialogo Sopra i Due Massimi Sistemi Del Mondo (Diálogo Sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo), que se constitui basicamente em um diálogo entre três personagens, um representando um homem moderno, de ciência, outro representando um homem de espírito aberto, receptivo às novas idéias, e um que representava o velho Aristotelismo dogmático. |
![]() Cardeal Richelieu |
Porém, o cenário político no momento da
publicação deste livro é extremamente desfavorável a Galileu. Neste
momento, a
Guerra dos Trinta anos entrava em uma fase crítica, quando as forças
protestantes da Suécia avançavam sobre a Europa ocidental. Justamente
na época
da publicação do Diálogo a França estabeleceu uma aliança com
o Rei
Gustavo Adolfo da Suécia, o que causou problemas para o Papa Urbano
VIII,
acusado de compactuar com os hereges, já que este havia desenvolvido
uma política
favorável à França de Richelieu. |
Dentro deste contexto, nota-se um fortalecimento dos partidários de um endurecimento da Igreja em relação aos hereges e protestantes, o que forçou a uma reorientação política por parte de Urbano VIII, que cedeu às pressões daquele grupo – mais conservador.
| Com isto, os inimigos de Galileu encontram respaldo para denunciá-lo ao Santo Ofício, girando as acusações, sobretudo, em torno do Experimentador e do Diálogo. Porém, Urbano VIII e seu sobrinho, o Cardeal Francisco Barberini, ambos amigos de Galileu, conseguiram desviar a acusação da Filosofia Corpuscular de Galileu para o heliocentrismo copernicano, o que resultou apenas na “farsa da abjuração da doutrina copernicana”[13] por parte de Galileu. | ![]() Galileu Galilei. Discorsi e dimostrazioni matematiche, intorno à due nuove scienze Attenenti alla Mecanica & i Movimenti Locali. Leiden: Appresso gli Elsevirii, 1638 |
Após este episódio, Galileu volta para Florença, proibido de falar sobre aqueles assuntos filosóficos que lhe renderam algumas agitações. Porém, na prática isto não ocorre, já que Galileu continua estudando e discutindo estes mesmos assuntos com os amigos, até que publica um livro sobre os princípios da dinâmica em 1638, clandestinamente, em Leyden, intitulado Discorsi Intorno a Due Nuove Scienze (Discurso Sobre Duas Ciências Novas).
Seu último trabalho é concluído em 1640,
quando ele já estava com a cegueira bem avançada. É um estudo que trata
da luz
secundária da Lua que é causada pela reflexão terrestre, estudo este
intitulado
Sul Candore Lunare.
No inverno de 1642, com 78 anos de idade
e com a saúde consideravelmente debilitada, morre Galileu em Florença.
Cabe ressaltar agora alguns
pontos importantes quanto à pertinência do pensamento galileano para
consolidação da ciência moderna, falando justamente da consolidação do
pensamento de Galileu.
Primeiramente, pode-se falar da
importância de Galileu na própria complementação do sistema
copernicano, visto
que o mecanicismo fornecia uma base para a explicação do
heliocentrismo, já que
as leis englobavam tanto os fenômenos ocorridos na terra quanto os
fenômenos
ocorridos com os corpos celestes.
Segundo Rupert Hall, o “grande princípio”
em que Galileu se apoiou para desenvolver a sua idéia de ciência foi,
além da
idéia de matematização da natureza, o princípio segundo o qual o
universo é
fisicamente homogêneo, estando a natureza submetida às leis desde que
foi
criada por Deus[14].
Para Galileu, as leis da natureza eram
exteriores ao homem, não dependendo dele para que existissem, cabendo
pois ao
homem desenvolver os métodos para que este conseguisse compreender as
essências
da natureza. As essências seriam as leis matemáticas.
Ainda quanto à importância do pensamento
galileano, é preciso dizer algo sobre o método. Galileu, ainda segundo
Rupert
Hall, não se propôs a oferecer uma teoria explicativa geral para todos
os
segredos da natureza, ele não era um “sistematizador”. A maior
importância de Galileu
para o estabelecimento daquela nova ciência teria sido, na realidade, o
desenvolvimento de uma metodologia baseada na experimentação, onde as
explicações acerca da natureza só poderiam ser feitas mediante a
comprovação
através das experiências.[15]
Cabe agora uma menção à importância do
pensamento de René Descartes na concepção desta nova filosofia.
![]() René Descartes |
Descartes, nascido em La Haye, França, em 1596, foi quem elaborou “o primeiro grande sistema geral (universal) de interpretação da Natureza (...).”[16] Foi enviado para o colégio jesuíta de La Flèche por seu pai em 1606, onde se alimentou da concepção aristotélica do mundo até 1614, indo posteriormente para Poitiers onde estudou Direito entre 1614 e 1616. Porém, Descartes não ficou satisfeito com esta visão de mundo concebida na autoridade da tradição, e rompeu com este aristotelismo. Descartes ingressou no serviço militar em 1618, na Holanda, sob o comando de Maurício de Nassau. Nesta época, teve contato com Isaac Beeckman, o que provavelmente influenciou o seu gosto pela Física e pela Matemática. Em 1620 Descartes abandona a carreira militar em benefício das suas atividades filosóficas e científicas. |
Em 1623 viaja para a Itália onde mantém
contato coma a Academia dei Lincei. Em 1628, em Paris,
Descartes escreve
Règles pour la Direction de l’Espirit (Regras para a Direção do
Espírito), que seria publicado em 1701. Entre 1632 e 1633, Descartes escreve
alguns trabalhos onde revela sua adoção da teoria corpuscular e
copernicana. Um
destes trabalhos, Le Monde, terá a sua publicação adiada, visto
que
Galileu havia sido condenado pelo Santo Ofício devido ao conteúdo de
sua obra,
notadamente o heliocentrismo copernicano.
| Em 1637 Descartes publica pela primeira vez um trabalho seu, o Discours de la Méthode pour Bien Conduire sa Raison et Chercher la Verité dans les Sciences. Plus la Dioptrique, les Météores et la Géometrie (Discurso do Método para Bem Conduzir a Própria Razão e Procurar a Verdade nas Ciências. Mais a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria). Posteriormente, em 1641, Descartes publica, sob a supervisão de Martin Marsenne, Meditationes de Prima Philosophia (Meditações sobre a Filosofia Primeira), tentando, segundo o próprio Descartes, demonstrar “a existência de Deus e a imortalidade da alma”.[17] | ![]() Discurso sobre o método, obra na qual Descartes deixa clara sua concepção dedutivista do método científico |
![]() Primeira Lei de Descartes: Lei do reflexo |
Em 1644,
Descartes publica Principia Philosophiae (Princípios de
Filosofia), onde irá defender concisamente o sistema heliocêntrico
copernicano.
Em 1649 publica o seu último livro, Les Passions de l’Âme (As
Paixões da
Alma), morrendo em 1650, aos 54 anos, após contrair pneumonia em
Estocolmo. De forma geral, a importância da obra de Descartes para a consolidação da filosofia corpuscular mecanicista é resumida por Luís Carlos Soares da seguinte forma: |
o
princípio fundamental do sistema cartesiano afirmava que a ciência,
como um
todo, era uma Matemática maior, cunhando a consagrada fórmula
‘reductione
scientiae ad mathematicam’. Isso quer dizer que as diversas ciências
teriam uma
unidade orgânica e deveriam ser estudadas conjuntamente através
de um
método geral de natureza matemática, que requeria a existência de duas
etapas do processo real de conhecimento: a intuição e a dedução. Entretanto,
esta concepção cartesiana de ciência apoiava-se numa perspectiva
dualista
que separava o mundo da extensão (Res Extensa), que era o mundo
material
exterior (objetivo) considerado como uma enorme máquina matemática, do
mundo
dos espíritos pensantes ou racionais (Res Cogitans), que era o
mundo
interior (subjetivo) e não possuía nenhuma característica material ou
da
extensão. Esta separação estabelecia, na realidade, uma total
independência
do mundo objetivo da extensão em relação ao mundo subjetivo do ser
humano, que
se tornaria, de acordo com Edwin Burtt, num outro elemento
importante na
constituição da ciência positivista.[18]
| Com isto, têm-se as bases para uma nova filosofia, agregando e combinando elementos da matematização e do corpuscularismo desenvolvidos ou retomados por Galileu Galilei e René Descartes. Segundo Soares, alguns problemas existentes no método cartesiano só seriam solucionados posteriormente, com a Física de Isaac Newton, porém, “bem antes de Newton, com Galileu e Descartes, a Natureza e o Universo já tinham sido dessacralizados e transformados numa fria máquina matemática”.[19] A dessacralização e a matematização da natureza, juntas, se constituiriam nos principais pilares da hegemônica noção de “verdade” que propulsionaria os mais diversos campos de atuação humana, “iluminando-os”, no século XVIII no ocidente. Mas isto é uma outra história... | ![]() Frontispício do livro Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, de Isaac Newton, publicado em 1687 com o apoio da Royal Society, obra na qual o físico britânico estabelece o sistema físico-matemático que só seria questionado séculos depois, por Albert Einstein, que transforma o sistema newtoniano em um caso particular de um sistema universal. |
BIBLIOGRAFIA
DESCARTES,
René. Coleção “Os Pensadores”. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
GALILEI, Galileu. Coleção “Os
Pensadores”. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
HENRY,
John. A revolução científica
e as origens da ciência moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 1998
.
REDONDI,
Pietro. Galileu herético. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ROSSI,
Paolo. A ciência e a
filosofia dos modernos. São Paulo: Editora Unesp, 1992. 
SOARES, Luiz Carlos. Do novo mundo
ao universo heliocêntrico: os Descobrimentos e a revolução copernicana.
São
Paulo: HUCITEC, 1998. 
TARTON, René. História Geral das
Ciências. T. 3, v. 6. São Paulo: Difel, s.d.
a Mestrando em História Moderna na
Universidade Federal
Fluminense.
b Tuomas Holopainen.
“She is my sin”, faixa 1 in
Nightwish. Wishmaster. Finlândia, Spinefarm, 2000.
[1]
Um excelente esclarecimento sobre
este ponto pode ser
encontrado no eruditíssimo trabalho de Paolo Rossi. A ciência e a
filosofia
dos modernos. São Paulo, Editora Unesp, 1992, em especial o
capítulo 5, “Os
aristotélicos e os modernos: as hipóteses e a natureza”.
[2] Cf. Luiz Carlos Soares. Do novo mundo
ao universo
heliocêntrico: os Descobrimentos e a revolução copernicana. São
Paulo,
HUCITEC, 1998, pp. 168-184.
[3] Cf. John Henry. A revolução científica e as origens da
ciência
moderna. Rio de Janeiro,
Jorge
Zahar, 1998, p. 23.
[4] Cf. Idem, p. 22.
[5] Apud idem, ibidem.
[6] Cf. Idem, p. 36.
[7] Cf. Idem, p. 37.
[8]
Segundo Soares, “Galileu Galilei e René
Descartes
não foram os únicos defensores do Atomismo na primeira metade do século
XVII
(pode-se incluir entre eles Pierre Gassendi, Martin Marsenne, Isaac
Beeckman,
etc.), mas tornaram-se, pela repercussão de suas obras, os nomes mais
notáveis
e que serviram de referência para o desenvolvimento posterior da
ciência moderna.”
Idem, p. 185.
[9] Cf. Pietro Redondi. Galileu herético.
São
Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 44.
[10] Cf. Idem, p. 45.
[11] Cf. Idem, ibidem.
[12] Cf. Idem. Op. Cit., p.
59.
[13] Cf. Luiz Carlos Soares. Op. Cit., p. 193.
[14] Apud Luiz Carlos Soares. Op. Cit., p. 196.
[15] Apud idem, p. 197.
[16] Cf. Idem, ibidem.
[17] Apud idem, p. 199.
[18] Cf. idem, p. 201.
[19] Cf. idem, p. 204.