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Ficção
Radioativa É possível contar histórias potencializadas pelos efeitos excepcionais do áudio eletrônico Rudyard C. Leão
rudyardl@uol.com.br |
| O fantasma de um jovem,
morto na guerra, deixa o limbo em busca de sua
amada. O temível cólera está destruindo
a população do feudo em que vive Berenice, na Escócia do século XVIII. No interior do castelo, no qual, contra sua
base rochosa, arrebentam-se ondas do mar bravio, fontes de som virtual
refletem
composições de Arnold Schoenberg pelas paredes.
É noite, mórbida e úmida... Este é o cenário de uma das pouquíssimas peças de ficção produzidas pelo rádio nos últimos anos. |
De
autoria de Ricardo Milan, a iniciativa, com a produção de Heloísa
Bauab, foi
veiculada pela Rádio FM Brasil 2000, na noite da sexta feira 13 de
Outubro de
1989; um evento seguramente mais raro
que a ocorrência de sextas feiras 13.
A Peça Radiofônica é um gênero de dramaturgia abandonado pelo
público e
pelos produtores de rádio. Atualmente,
no Brasil, todas as possibilidades artísticas do meio estão reduzidas à
execução de músicas, ou pouco mais que isso.
A Peça Radiofônica é uma
síntese, feita de sons, entre a literatura, a
música e o teatro. É produzida na
Europa, todos os anos, uma expressiva quantidade de peças para o rádio,
com
grande audiência. O
trabalho é
realizado em equipe e muita gente vive disso por lá.
Uma Peça Radiofônica é formada de roteiro, elenco de atores,
direção, trilha sonora, engenharia de som, edição e estúdio.
É realizado na Alemanha o
concurso anual mais cobiçado pelos autores e
atores de rádio da Europa, uma espécie de “Oscar” da dramaturgia
radiofônica. O Prêmio dos Cegos de
Guerra foi criado após a
Segunda
Guerra Mundial, numa homenagem a quem perdeu a visão no conflito, e em
estímulo à
produção das peças.
Existe muita tradição no
rádio alemão.
Na década de 30, um jovem autor realizou diversos trabalhos para
o
rádio: Cantatas e Peças, obras das mais importantes da dramaturgia
universal,
completadas com a música do compositor Kurt Weill.
Pretendia transformar o rádio, de mero veículo de distribuição
unilateral, com receptores passivos, a um efetivo canal de comunicação,
instrumento
revolucionário ao qual tivessem
acesso
e fossem atuantes todos os indivíduos ou grupos, em favor de
transformações
sociais. Seu nome: Bertolt
Brecht.
| Algumas das principais
obras de Brecht para o áudio: Ascensão e
Queda da Cidade de Mahagonny, O
Julgamento de Lucullus, um ataque frontal ao crescente militarismo
nazi, O Vôo sobre o Oceano um
épico sobre a primeira travessia aérea do
Atlântico realizada por Charles Lindbergh em 1927 e
A Ópera dos Três Vinténs que viria se tornar o
grande
sucesso musical dos anos 20. Outro grande mestre da literatura alemã, Alfred Döblin, um médico de periferia de origem judaica, viu, através do rádio, sua obra A História de Franz Biberkopf - Berlim Alexanderplatz, alcançar extraordinário sucesso, tornando-se um marco para a nascente radiofonia alemã de 1930. |
![]() O ateliê de Brecht em Buckow |
O livro, um clássico,
narra as desventuras de um
operário marginalizado vivendo os bas-fonds
criminosos da cidade de Berlim. Também
baseou a superprodução em 14 capítulos para a TV, dirigida por Rainer
Werner
Fassbinder em 1979.
Friedrich Dürrenmatt,
considerado o maior escritor suíço de língua
alemã do século XX, também era um dedicado autor de rádio.
Sua produção radiofônica é pouco conhecida
no Brasil, apesar de ser um
dos
dramaturgos estrangeiros mais encenados: A
Pane (1956), Noite de Outono
Avançada (1957), O Processo Pela
Sombra de um Burro (1959) e O
Empreendimento de Vega (1955).
Apesar da tradição da Hörspiel alemã, vem dos Estados Unidos a Peça
Radiofônica mais famosa
de todos os tempos: A
Guerra dos Mundos, uma Ficção Científica dirigida por Orson Welles
(adaptada da obra de H.G. Wells) onde os marcianos desembarcam numa
fazenda em
Nova Jersey e
submetem ao seu jugo
toda a população terráquea.
![]() Orson Welles durante a transmissão de "A Guerra dos Mundos" |
Elementos da dramaturgia radiofônica elaborados de forma genial como: efeitos sonoros apavorantes entrecortados por silêncio, a voz atroadora de Welles, no papel do astrônomo/narrador, a emissão alternada do estúdio e direta do local onde ocorria a ação, a sobreposição de vozes com a emocionalidade das testemunhas do descontrole da situação e o roteiro adaptado por Howard Koch (a história original passa-se em Londres) fizeram com que a emissão desse programa, pela Columbia Broadcasting, numa noite de domingo de 1938, gerasse pânico coletivo na cidade de Nova York e em todo os Estados Unidos. |
Calcula-se que nesta
noite terrível 6 milhões de pessoas ouviam a CBS,
que aparentemente interrompera toda a
sua programação para ficar informando sobre o acontecimento. Segundo
levantamento posterior pelo menos um milhão delas ou choraram ou
rezaram ou
correram para as ruas, mobilizando-se em busca de informações, algumas
despediram-se de seus entes queridos, todas possuídas pela imagem
mental de
seres humanos sendo dilacerados pelos “raios de calor” dos invasores
extraterrestres. Foram vários desmentidos durante meses e demandas
contra a
emissora e o programa
(que se
chamava Mercury Theatre On The Air e
que não tinha nenhuma intenção de
causar transtornos). Anos mais tarde
Welles descreveria o
ocorrido assim:
“... Seis minutos depois
de
entrarmos no ar, os painéis telefônicos das estações de rádio do país
inteiro
piscavam como árvores de Natal ... Fomos percebendo, enquanto
prosseguíamos com
a destruição de Nova Jersey, que o número de lunáticos existente no
país tinha
sido subestimado ...(...) Em qualquer outro lugar do mundo teria sido
preso,
mas, por estar nos EUA, fui contratado por Hollywood.”
Ali dirigiu grandes
filmes como Cidadão
Kane (1941) e A Marca da Maldade
(1958). Mas não abandonou o trabalho
nos “radiodramas”, como as participações em Suspense! entre
1942 e 1962, um programa da CBS de adaptações de
clássicos da literatura.
Mais do que um fato
curioso, o incidente provocado por Guerra dos
Mundos demonstrou a capacidade de mobilização de um país e se
tornou
referência do poder exercido pelos meios eletrônicos de comunicação de
massa,
em jornalismo e psicologia. É uma
matéria rica para a reflexão.
Foi nos Estados Unidos
que o rádio comercial pela primeira vez produziu
histórias seriadas organizadas em “próximos capítulos”, as denominadas soap-operas (assim chamadas por causa
dos patrocinadores). Sem uma história principal, que funcione como fio
condutor, a soap-opera norte
americana se constitui de um núcleo que se desenrola indefinidamente,
sem ter
realmente um fim. Uma comunidade de
personagens, fixados em determinado lugar, vivem diferentes dramas e
ações
diversificadas. Por isso as soap-operas
são bastante longas, chegando a permanecer no ar por mais de 20 anos.
| Na França, um fato
persistente em todos os países do mundo: O rádio
censurou um dos seus maiores poetas:
Antonin Artaud. A direção da Radio France não conseguiu suportar o
contundente Pra Dar um Fim no Juízo de
Deus e impediu a execução da peça radiofônica, já gravada, horas
antes de
estrear, no dia 2 de fevereiro de 1948 - um mês antes da morte de
Artaud. Dois momentos importantes na história da radioficção: |
![]() Antonin Artaud
|
1924, a primeira obra de
ficção é
levada ao ar na Rádio BBC de Londres (British
Broadcasting Corporation) fundada em 1922: A Comedy of
Danger, de Richard Hughes, que se passava numa mina de
carvão sob o efeito de corte de luz.
1962, Samuel Beckett, Prêmio
Nobel de literatura em 1969, inaugura a moderna Ficção Radiofônica com Words and Music, construída numa
concepção original de sonoplastia, onde interagem o som das palavras e
a
música.
| O forte emocionalismo que
sempre caracterizava as radionovelas cubanas,
argentinas, mexicanas... e o
paralelo
que se pode fazer com a dramaticidade dos discursos políticos pelo
rádio, que
despertam as multidões para a união ou para as revoltas sangrentas,
revelam que
importância tem a peça radiofônica para a história da América Latina. Evita Perón, a personagem central
inspiradora das lutas sociais e heroína dos argentinos, era também
atriz da
Rádio Belgrano de Buenos Aires. |
![]() Evita e Juan Perón, 1950 |
![]() Monochord de 1948 |
Artistas de grande
talento fizeram a história do rádio em nosso
país. É o caso do radialista carioca
Almirante, sobre quem foi lançado um livro de autoria do crítico e
pesquisador
Sérgio Cabral. Almirante, cujo nome
verdadeiro era Henrique Foreis Domingues, foi o pioneiro em 1931 das
grandes
produções como o Rádio-Teatro e programas de auditório, tendo
contribuído também
para a história de nossa Música Popular. |
O programa radiofônico Incrível!
Fantástico! Extraordinário! empolgou milhões de ouvintes entre 1947
e 1958
com histórias inexplicáveis e estranhas, casos de terror e assombração,
enviados pelos
ouvintes de todo o Brasil, com a narração vibrante de Almirante e que
depois
foram reunidas em livro.
O passado glorioso das Radionovelas brasileiras está esquecido.
Perdemos o registro das várias famosas novelas da Rádio São Paulo, da
Rádio
Tupi ou da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Deixaram de ser produzidas as Grandes
Novelas Gessy Lever ou o Rádio-Teatro
Colgate-Palmolive, idealizados por escritores como Walter George
Durst,
Benedito Rui Barbosa, Dias Gomes, Janete Clair
e Ivani Ribeiro, entre outros.
Numa boa iniciativa, a Empresa Collectors reeditou a primeira
Novela
Radiofônica brasileira que ficou dois anos no ar a partir de julho de
1941: Em Busca da Felicidade do cubano
Leandro Blanco. Tinha todos os
ingredientes do dramalhão: Casos de adultério, mãe solteira, tentativa
de suicídio, amores não
correspondidos, etc. Reações curiosas
aconteceram: Entre os personagens
figurava um médico, o Dr. Mendonça, que recebia dos ouvintes pedidos de receitas e diagnósticos. A
grávida e desprotegida Carlota os ouvintes chegaram a enviar enxovais
de bebê,
alimentos e dinheiro! As atrizes que faziam o papel de vilãs se não se
cuidassem apanhavam na rua. Dado o volume da correspondência, o correio
teve
que adquirir veículos especiais para transportar as cartas endereçadas
aos atores
e autores. Uma herança foi doada por uma fã ao galã de voz aveludada e
um grupo
de senhoras mandou rezar missa pela morte de uma personagem...
| A primeira Radionovela de
autor brasileiro foi Fatalidade de Oduvaldo Vianna, um
escritor notável que produziu
cerca de 100 novelas. O
Direito de Nascer do também cubano
Felix Caignet, que tinha no elenco Paulo Gracindo, Isis de Oliveira,
Dulce
Martins e Yara Salles, é considerada a maior de todas essas histórias
de amor e
sofrimento. O drama focaliza um homem,
Alberto Limonta, criado por uma escrava negra, em busca de sua
verdadeira mãe
que descobre enclausurada num
convento. As Radionovelas eram produções ambiciosas, apresentadas em até 100 ou 120 capítulos diários enquanto o que se chamava Rádio-Teatro era uma história que se consumava em um programa ou em alguns poucos capítulos semanais. Muito se produziu também nesse formato. Havia versões do Cinema, da Literatura e do Teatro para o rádio. |
![]() Oduvaldo Vianna |
Múltiplos
gêneros como o Rádio-Teatro
Histórico, Religioso, Policial, etc. já apareciam em finais da década
de 30,
como Sinhá Moça na Rádio Clube
de Pernambuco e Predestinada na Rádio São Paulo. Foram
levados ao ar muitos
clássicos como Alexandre Dumas, Emily Brontë, José de Alencar e
Monteiro
Lobato. A Rádio Nacional também produziu inúmeras peças como O Retrato de Jenny (1957), O Processo de
Mary Dugan (1956)
e A Morte Civil (1956).
As Radionovelas
conquistaram enorme audiência, principalmente cativavam
o público feminino,
que eram as
consumidoras das patrocinadoras, as multinacionais do sabão. Os pequenos anunciantes faziam fila em busca
de horários. As pessoas reuniam-se para
comentar e ouvir os programas, compravam avidamente as revistas
especializadas. Os elencos eram
numerosos (chegavam a 120 elementos) e a Rádio Nacional do Rio de
Janeiro
transmitiu 116 novelas entre 1943 e 1945. Segundo levantamentos do
pesquisador
Luiz Carlos Saroldi o total alcançou entre esses anos 2.985 capítulos. A Rádio São Paulo, que se especializou no
gênero, as tinha nos três períodos, chegando a levar ao ar,
diariamente, quinze
novelas. Surgiu a profissão de “contra-regra”, os mágicos criadores de
efeitos
sonoros.
Alguns autores
importantes de Radionovela e Rádio-Teatro foram: Otávio
Augusto Vampré, Amaral Gurgel, Lourival Marques, Manoel Durães,
Gilberto
Martins e Mário Lago. Foi dito que elas eram retrógradas, acentuando o
que
havia de mais conservador no pensamento moral burguês a respeito dos
relacionamentos humanos. Cita-se como
exemplo que palavras como “amante” eram abolidas dos textos. Mas o que se viu a seguir não concorda com
essa visão. Na liberação e
transformação radical dos costumes a partir dos anos 60, as
Radionovelas
tiveram o seu papel. Elas expunham, com
muita paixão e romantismo, uma temática de repressão sexual jamais
vista pelo
grande público.
Mas não eram só as
lacrimosas novelas para mocinhas que faziam sucesso
nesse tempo. Saídos do mundo da pulp fiction, os Seriados de Aventura
vieram dar no rádio e, nesse meio, homens poderosos e destemidos
enfrentaram e
venceram tudo de errado que havia.
O Sombra foi um desses heróis. Do
escritor Walter Brow Gibson, era dotado de poderes sobrenaturais
adquiridos no
Oriente. Ele conseguia simular
invisibilidade e essa era uma característica muito radiofônica,
infiltrando-se
nos esconderijos dos bandidos. Nos
Estados Unidos o Sombra recebeu a voz de Orson Welles
(ele de novo) e em São Paulo,
o radialista Octávio Gabus Mendes, com sua risada satânica. O programa começava advertindo em tom
sombrio: “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos ? O Sombra sabe ...”
Em 1948 Álvaro Aguiar
criou O
Anjo, um milionário que desvendava crimes em episódios de 10
minutos. Interpretado pelo próprio autor,
este
Seriado Policial esteve no ar por 19 anos. O filme de Ivan Cardoso O Escorpião Escarlate de 1994 é uma
história com o herói lutando contra o arquiinimigo e seus sinistros
comparsas: Madame
Ming, Caveira e Sapo Coxo.
Com o patrocínio do café
Jardim, começa em 1937 a transmissão em
episódios semanais das Aventuras de Dick
Peter, primeiramente pela Rádio Difusora e depois, Rádio Tupi,
ligada aos
Diários Associados em São Paulo. O
programa atingiu enorme popularidade projetando a ficção científica do
escritor
e jornalista paulista Jerônymo
Monteiro, criador do seriado, considerado um dos maiores autores do
gênero no
país. As histórias envolviam o detetive
Dick Peter em confrontos com bandidos assassinos caçadores de tesouro,
civilizações perdidas no tempo, renascidas através de aparatos
tecnológicos
preservados em subterrâneos ou contra homens invisíveis, criados por
cientistas
malucos. A narrativa transparente e
dinâmica despertava o interesse pelas aventuras, criando um padrão de
linguagem
para o rádio.
Jerônymo Monteiro a
partir de 1930, publicou diversos livros,
participou de várias antologias e trabalhou ativamente para o rádio,
sendo um pioneiro da Ficção
Científica no Brasil. Filho de uma família pobre conquistou uma posição
que lhe
permitiu viver exclusivamente de escrever e, morava na praia, enviando
artigos
e textos aos editores e jornais de São Paulo pelo correio.
Moisés Weltman criou
outro Seriado clássico: Jerônimo,
O Herói do
Sertão, um personagem bem brasileiro que percorria os sertões com
seu
companheiro de briga, Moleque Saci, se envolvendo em aventuras
perigosas na
luta contra os Coronéis. Esteve
no ar a partir de 1952 por 14 anos (em 1964 e 1968 teve problemas com o
regime
militar e foi suspenso) e, deixou como produto, 126 roteiros escritos,
história
em quadrinhos, filme e novela de TV. Um Seriado de Aventura pioneiro
produzido
pelo rádio brasileiro foi O Vingador
que seguia o modelo norte-americano, um
cowboy de máscara junto com o
companheiro índio, o Calunga. Durante
uma gravação desse programa pela Agência Standard, cujo estúdio ficava
na rua
Senador Feijó, no centro de São Paulo, a cidade viveu uma madrugada de
grande
tensão e confusão.
O sonoplasta José
Scatena, envolvido no incidente, narrou em depoimento
que a equipe gravava também de noite, sempre atrasados com o grande
volume de
trabalho e fazia calor, deixaram a janela aberta. A
cena que estava sendo interpretada era a mocinha, amarrada num
tronco de árvore e que ia sendo serrada ao meio, porque tinha sido
presa pelo
vilão. Completamente apavorada e
horrorizada, a atriz berrava por
socorro com toda a força dos pulmões. O
vilão dava gargalhadas diabólicas e um cachorro (imitação perfeita de
um dos
locutores) uivava desesperadamente (toda essa barulheira às três horas
da
madrugada, numa cidade silenciosa como era a São Paulo dessa época,
1941). Todos empolgados com a gravação,
não se dão
conta que lá embaixo uma multidão de gente tenta arrombar as portas do
prédio. Nas janelas dos outros prédios,
toda a vizinhança já saiu aturdida, tentando entender o que está
acontecendo. A polícia é chamada as
pressas e age rápido, forte contingente surge de todos os lados,
afinal,
parecia que estavam matando realmente alguém de maneira atroz. Com a ameaça de tiros os atores quedam-se
perplexos. O tumulto só aos poucos vai
se esclarecendo, há solução ao amanhecer, com muita explicação e a
promessa
solene ao delegado de não se fazer mais ruído, nunca mais.
E os homens de pijama e mulheres de bobi na
cabeça entenderem que aquilo era Rádio-Teatro, que ninguém corria
perigo, etc.
Em 1988, influenciado
pelas Histórias em Quadrinhos, os Seriados de
Aventura voltaram ao rádio, sem a
mesma força, num programa da Rádio USP-FM: Cáspite
criado e dirigido por Silvio Pinheiro, junto com estudantes da Escola
de
Comunicações e Artes. Eram aventuras
radiofonizadas de Batman, Flash Gordon e vários outros heróis das HQs.
É urgente, no entanto,
fazer uma distinção, que é obvia, entre as peças
que marcaram época nos anos 40 e 50 e a Peça Radiofônica contemporânea. Na proposta atual, os Seriados de Aventura
e a Radionovela são
revistos em profundidade, sob uma ótica de complexa engenharia psíquica.
“Som é matéria”, diz o
autor Bosco Brasil, “portanto, a sensação que se tem ao ouvir uma peça
é, antes
de tudo, física, é uma vibração epidérmica, é uma sensação real que vai
além
dos simulacros de uma mera representação fictícia”.
Audição e imaginação:
Existem, para o coletivo de artistas, amplas
possibilidades de realização entre temas, formas e linguagens. Hoje a Peça Radiofônica aponta para amplos
domínios, em função do próprio público ter incorporado a comunicação de
maneira
radicalmente distinta do que foi no passado. Os caminhos são cada vez
mais
complexos também, devido à evolução tecnológica dos equipamentos e dos
bancos
de efeitos sonoros (veja o Box).
O autor do texto
radiofônico pode ousar mais com a linguagem literária.
Há o desafio permanente ao contar uma história que é fazer o som
transmiti-la,
dentro dos limites da atuação das vozes, dos diálogos, do conteúdo de
efeitos
sonoros, da composição da trilha musical, de forma engenhosa,
desencadeando ao
máximo aquela emoção peculiar, tridimensional, de que só o meio sonoro
é capaz.
O filósofo Rudolf Arnheim observou essa capacidade do rádio quando
escreveu
que:
“A obra radiofônica,
apesar
de seu caráter abstrato e oculto, é capaz de criar um mundo próprio com
o
material sensível de que dispõe, atuando de maneira que não se
necessite nenhum
tipo de complemento visual...”
O rádio é um meio
extraordinariamente acessível, faz a imaginação
trabalhar (o som atinge diretamente as camadas mais profundas da mente)
e a
produção de programas é relativamente barata.
Ouvir uma peça literária no rádio não exige prostração integral
como a
televisão e o livro. As
pessoas
podem continuar seus afazeres sem interrupção.
Lembremos que passamos grande parte do nosso tempo trabalhando
com a
visão.
A produção de Peças
Radiofônicas em nosso país é uma fundamental exigência
na conquista de espaço dentro da furiosa concorrência da arte
multimídia
internacional, já que a língua portuguesa impõe uma barreira à
importação de
programas estrangeiros. Este é um
desafio para os jovens produtores de rádio: Conquistar plenamente o
próprio
território cultural. A Radioficção
certamente renascerá desse movimento com força e poder de audiência, e
os
ouvintes sentir-se-ão recompensados ao conhecer esse instigante parque
de
diversões.
BOX
O avanço em termos de
qualidade sonora, desde o lançamento em 1987 no
Japão do primeiro gravador de fita digital tem possibilitado muitas
transformações. Músicos, atores e
escritores têm agora acesso a recursos muito superiores da tecnologia
de áudio,
intensificados pelo desenvolvimento da informática, da internet e dos
demais
produtos eletrônicos de consumo. Um DAT
Digital Áudio Tape-recorder grava e edita em múltiplos canais,
com a
mesma qualidade do disco laser. Sua
fita tem capacidade para duas horas de gravação, ou mais.
Podemos supor a proliferação de estúdios
mais simples e eficientes, para a produção.
Com o DAT pode-se não só produzir, como industrializar em escala
quase
unitária peças radiofônicas longas, gravadas numa única fita (a
comercialização
de peças gravadas é comum na Europa).
A evolução da tecnologia
digital nos deixa ansiosos pelo futuro. Os
fabricantes mundiais de equipamentos
eletrônicos estão pesquisando novas formas de aplicação do Compact
Disc,
aumentando sua capacidade de armazenamento e unificando num só formato
todos os
avanços e desenvolvimentos técnicos alcançados. O
CD ou DVD agora pode ser regravável, armazena dados de som e
imagem com capacidade muitas vezes maior do que o atual e possibilita
interatividade e o Surround, ou seja, o som em terceira dimensão.
| Quem assistiu ao filme Terremoto (1976) ou aos filmes de Indiana Jones, pôde avaliar o impacto indescritível do Dolby Surround, percebendo, então, o quanto o som pode envolver o espectador profundamente (muitas pessoas cegas vão ao cinema especialmente para ouvir os filmes). Os grandes cinemas são dotados de complexos sistemas com caixas acústicas localizadas atrás da tela e ao longo das laterais, criando aquele efeito que faz com que o espectador abaixe-se quando um avião cruza o espaço. Cada um dos vários elementos que fazem parte da trilha sonora é gravado separadamente. O volume e a localização dos sons são estabelecidos de acordo com os efeitos que o diretor queira dar ao ambiente e à intensidade de cada cena. | ![]() |
O primeiro filme a utilizar o Surround foi Fantasia de Walt Disney
em 1941. Embora o sistema tenha
funcionado, foi trabalhoso e caro, o que inviabilizou sua utilização
plena até
1976, quando o Dolby Laboratories
desenvolveu um sistema que foi usado no filme Guerra nas
Estrelas. Em
1981 foi desenvolvido um circuito decodificador da informação Surround
Sound
para uso doméstico. Apesar de ser usado
mais comumente para o cinema e vídeo, deixo por conta da imaginação do
leitor a
utilização de um recurso como esse na radioficção.
É interessante falar
também da técnica de produção e armazenamento de
“barulhos” ou efeitos sonoros. Colhidos
na natureza ou fabricados artesanalmente, criados e transformados por
máquinas,
sintetizadores, samplers, filtros, câmaras de eco, osciladores e
distorcedores,
processados pela voz, como os sistemas Vocoder e Sonovox, este setor
essencial
da produção mereceria, só para ele, um longo artigo.
O microfone também passou
por uma profunda revolução. Este é, sem
dúvida, o instrumento mais
notório no processo de transmissão de um evento acústico.
O microfone transforma a energia sonora em
energia elétrica, e existem diferentes princípios de transformação
eletroacústica. Diferem também quanto a
características direcionais (forma como recebem o som).
Assim como a câmera, lhe dão opção de se
colocar aqui ou ali. Foi criada uma
enorme quantidade de microfones especiais, cada um com seu próprio
campo de
aplicação. Como a peça radiofônica está
aberta fundamentalmente para todos os níveis de realidade, ela pode
fazer uso
de todas espécies de microfones.
E existem experimentações
das mais ousadas. Um microfone especial
foi inventado para uso nos estúdios da
Rádio WDR de Colônia, emissora campeã na produção de peças radiofônicas. O projeto, ao mesmo tempo interessante e
curioso, é um microfone estereofônico de tamanho e forma perfeitamente
iguais a
cabeça humana (existe uma imitação da orelha e do canal auditivo até o
tímpano). A intenção do desenvolvimento
da “cabeça artificial” é aproximar o máximo possível este instrumento
às
características acústicas do organismo humano.
Os alemães garantem que o robô oferece a possibilidade de
“transmitir um
universo acústico totalmente envolvente”.
Março de 2003
Dedicado à
Maria
Não deixe de conhecer as histórias de
ficção científica produzidas pelo autor para o rádio:
Hurray Mister
S3 ! é um seriado de aventura cuja temática é
a ficção científica (a história acontece no futuro remoto) produzida em
6 capítulos de 30 minutos.
Em Operação de Curso
Anormal
é a continuação do seriado com a participação do
mesmo personagem principal, o Agente S3, em novas complicações
com os governos da periferia colonial galáctica.
AMKEA é uma
radionovela de ficção científica com temática ecológica.
BIBLIOGRAFIA
Sérgio
AUGUSTO - “Collectors Reedita
Primeira Novela Radiofônica Brasileira” - Artigo publicado na Folha de São Paulo, 06.08.1991.
Heloísa
BAUAB - “Evolução da
Ficção Radiofônica” - Artigo publicado na Folha de São Paulo,
10.06.1989.
Zenilda Poci Banks Leite
BELLI - “Radionovela: Análise Comparativa na
Radiodifusão na Década de 40” - Dissertação de Mestrado - ECA USP.
Bertolt
BRECHT - “Teatro
Completo” vol. 3 e vol. 7
-
Editora Paz e Terra.
Sérgio
CABRAL - “No Tempo de
Almirante - Uma História do Rádio e da MPB” - Francisco Alves Editora,
1990.
Henrique Foreis DOMINGUES
(Almirante) - “Incrível ! Fantástico ! Extraordinário !” - Coletânea de
textos
com introdução de Sérgio Cabral - Francisco Alves Editora, 1989.
Leandro
DEL MANTO - “O Sombra”
- Artigo publicado na Revista da Multicanal, Jun.1996.
Alfred
DÖBLIN - “Berlim
Alexanderplatz” - Editora Rocco, 1995.
Eduardo
DUÓ - “Terror Gótico é
Tema de Peça na Brasil 2000 FM” - Artigo publicado na Folha de São
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13.10.1989.
Friedrich DÜRRENMATT – “A Pane” – Editora Globo RJ, 1986
Rubens Ewald FILHO -
“Dicionário de Cineastas” - Editora LPM, RS.
Míriam
GOLDFEDER - “Por Trás
das Ondas da Rádio Nacional” - Editora Paz e Terra
RJ, 1980.
Johann M. KAMPS - “A
América Latina na Peça Radiofônica” - Artigo e
entrevista com o Diretor Heinz Von Cramer da Rádio WDR, publicados na
Revista
Humboldt, ano 30, n.º 59, RFA, 1989.
Arlindo MACHADO, Caio
MAGRI e Marcelo MASAGÃO - “Rádios Livres: A
Reforma Agrária no Ar” - Editora Brasiliense.
Eduardo MEDITSCH (org.) -
“Rádio e Pânico: A Guerra dos Mundos, 60 Anos
Depois” - Editora Insular e IPEJ - SC, 1998.
Inclui CD com a versão brasileira e roteiro radiofônico.
Edith Gabus MENDES -
“Octávio Gabus Mendes: Do Rádio à Televisão”
Editora Lua Nova SP, 1988.
Jerônymo
MONTEIRO (Ronnie
Wells) - “Aventuras de Dick Peter” vols. 9 e 10 (material gentilmente
cedido
por Rosa Maria Falzoni) - Martins
Editora S.A. SP, 1949.
Thereza
MONTEIRO - “Jerônymo Monteiro: Comentários Biográficos” - Artigo
publicado no fanzine “Papêra Uirandê” editado por Roberto de Sousa
Causo - SP.
Renato
MURCE - “Bastidores do
Rádio” - Imago Editora Ltda. RJ, 1976.
-
“ O Rádio no Brasil”- Fita
produzida pelo Serviço Brasileiro da BBC - RJ.
-
Revista Propaganda n.º 321
(Edição especial sobre a história do Rádio) Editora Referência Ltda. -
jan.1983.
Renato
ORTIZ - “Telenovela -
História e Produção” - Editora Brasiliense, 1989.
Luiz Carlos
SAROLDI e Sonia Virgínia MOREIRA -
“Rádio Nacional -
O Brasil em Sintonia” - FUNARTE/Martins Fontes - RJ, 1988.
George
Bernard SPERBER (org.) - “Introdução à Peça
Radiofônica” - Editora Pedagógica e Universitária Ltda. SP, 1980.
Herbert George WELLS - “A
Guerra dos Mundos”- Editora Ulisseia. RJ,
1983.
Orson
WELLES - “A Guerra dos
Mundos” - CBS, fita da coleção “Assim Era o Rádio” vol. 157, gravada
pela
Collectors Editora Ltda. - RJ.