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Resenha PASSETTI, Edson. Éticas dos Amigos - invenções libertárias da vida. São Paulo: Imaginário, 2003. |
| Poucos
duvidam de que ter amigos é um dos bens mais preciosos em nossos
tempos,
marcados por muita descrença e insegurança. Ao mesmo tempo, quase todos
entendem que os amigos são poucos, defendendo-se para com os demais uma
relação
de distância e desconfiança. Mal nos damos conta do modelo de
amizade que praticamos, modelo cristão pautado na
família e confinado ao privado, mesmo quando bradamos contra a
destruição da
esfera pública, a privatização da vida social, ou a atomização do
indivíduo. Ainda recentes, as discussões sobre a difusão do modelo privatizado da amizade, que associa o amigo ao irmão vêm, contudo, relevando que outros modos de relação consigo e com os outros, fundados na solidariedade e no respeito à diferença são possíveis e, mais do que isso, necessários, para a tão desejada reinvenção das formas da sociabilidade e da subjetividade. |
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É na
direção dessas problematizações que o presente livro de Edson Passetti
aponta,
aprofundando uma importante discussão ética de nossa atualidade: as
possibilidades da amizade entendida como vida em expansão, ou como
afirmação de
existências livres.
Professor
livre-docente em Ciências Políticas da PUC-SP,
Passetti tem-se destacado pela crítica ousada e pelo corajoso
enfrentamento de
temas políticos da mais alta pertinência, destacando-se a busca de um
fundamento ético para a reinvenção das relações intersubjetivas e
associativas,
assim como uma reatualização do anarquismo, de modo a escapar da herança humanista do passado.
Coordenador do
Núcleo da Sociabilidade Libertária,
do
Programa de Estudos pós-Graduados em Ciências Sociais dessa
Universidade,
Passetti publica atualmente a revista VERVE, dedicada a temas
libertários e é
autor de vários livros e artigos referentes à violência contra as
crianças e ao
abolicionismo penal.
ÉTICAS
DOS AMIGOS pergunta pelas “invenções libertárias da vida”, como diz seu
subtítulo, propondo uma genealogia da amizade no pensamento ocidental,
especialmente quando formulada em relação às práticas da liberdade.
Embora
realize uma ampla e erudita historicização dos múltiplos sentidos
atribuídos à
amizade desde a Antigüidade clássica, seu principal alvo de
investimento dirige-se
à busca comprometida das experiências outras
das práticas da amizade, para além dos conhecidos parâmetros que nos
têm
orientado no presente. A amizade que Passetti elege não se refere,
portanto, à
relação confortante, especular e íntima estabelecida entre iguais,
através da
qual reforçam a própria identidade e excluem os diferentes. Nem
tampouco à
aliança garantidora da paz perpétua promovida pelos Estados contra o
inimigo
comum. Antes, trata-se da busca inquieta pelos vínculos intensos que
viabilizam
associações libertárias, no presente, geradoras de estilos de vida
não-hierárquicos, como querem os amigos La Boétie, Nietzsche, Stirner,
Foucault
e Deleuze. É Passetti quem afirma, ao questionar a canônica de
Aristóteles, “ah, amigos, não há amigos”:
A mim tocou a frase de Nietzsche ‘ah,
inimigos, não há inimigos’, pelo desassossego que traz e pela bravura
em
reconhecer no amigo o melhor inimigo, o guerreiro que desestabiliza mas
não
destrói, em oposição à amizade como bem
superior, pacificação do conflito interno e exterior à cidade.”
(p.33)
Acompanhado por esses
filósofos, Passetti visita epicuristas e estoicos, diferencia La Boétie
de
Montaigne, chega a Nietzsche e aos anarquistas clássicos, em especial a
Max
Stirner, evidenciando os elos que os aproximam, ou diferenciam na
reflexão
sobre a amizade. Com Foucault, encontra nos modos de subjetivação dos
gregos e
dos romanos, experiências históricas de
constituição de si radicalmente diferentes da sujeição contemporânea,
pois aí
longe de se visar a produção dos “corpos dóceis” submetidos a um código
moral
autoritário, cultivam-se livremente os usos
dos prazeres e os cuidados de si,
ainda não substituídos pelo ideal cristão de negação de si. Relações de
amizade
se constituem, portanto, em experiências éticas que almejam a
estetização da
existência, em práticas da liberdade que permitem fazer do indivíduo um
ser
livre e temperante, capaz de se auto-governar, antes mesmo de poder
governar os
outros e a polis.
Vários
capítulos compõem este ensaio lúcido e
apaixonado, que discute historicamente modos de
“Coexistências”, “Estilos” de vida,
formas da amizade, convergindo para as possibilidades da criação
de
inúmeras “Associações” libertárias, no presente. É neste momento, a meu
ver,
que o livro atinge seu ponto alto, ao fazer vibrar, ao lado dos
anarquistas
clássicos, o pensamento de Stirner, incompreendido em função de sua
defesa
radical do individualismo. Novamente, a leitura irreverente de Passetti
subverte as imagens cristalizadas: ao contrário do egoísmo narcisista
que lhe é
freqüentemente atribuído, a defesa stirneana do Um aparece como
condição de
possibilidade da afirmação libertária da amizade entre iguais, mas
diferentes.
Passetti
não visa
propor uma ética da amizade, mas “éticas dos amigos”, entendendo que “amigos libertários inventam existências,
abalam o indivíduo, a sociedade e o Estado.” Em suas palavras, “A
ética dos amigos não é a ética da amizade, um procedimento privado da
moral.
Ela é presente, é agora. Não é a ética da vida boa, hedonista e feliz.
Ela se
instrui na convivência amistosa com os outros que partilham deste
estilo de
vida como arte de viver. Não busca o universal, o idêntico ou
afinidades. Mas
vitalidades, vontades de potência, combates e embriaguez possíveis para
fazer
emergir subjetividades constituintes. Trata-se segundo Foucault de um
trabalho
diário, uma prática com estilo, um ponto de vista próximo de
Nietzsche.” (p.109)
A esse trabalho se entrega
também o autor, convidando-nos a estabelecer laços libertários e
horizontalizados
de amizade, como inimigos e guerreiros desestabilizadores, desejosos de criar e de se reapossar do mundo, aqui e
agora.
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