| Mestre
dos Mares... ou do Mundo? Danilo José Figueiredo
Mestrando em História Social - USP danilo@klepsidra.net |
Introdução:
Na edição
anterior de Klepsidra, por motivos de excesso de trabalho (a vida
de formado,
ao contrário do que pensam alguns estudantes, é muito mais difícil do
que a de
estudante... bons tempos aqueles), fui obrigado a me ausentar desta que
é uma
de minhas tarefas prediletas: escrever para a revista. Devido às
férias,
contudo, pude colocar minhas coisas em uma certa ordem e, sendo assim,
cá estou
eu a lhes escrever outro de meus textos, caros leitores.
Como podem
ver, este não será um de meus tradicionais textos da sessão “Grandes
Impérios e Civilizações Antigas e Medievais”, mas sim, à exemplo de
meus
textos “A Revolução, os Lobos e
o Besteirol” e “Darth
Vader: Fé e
Realidade em Star Wars”, outro texto sobre Cinema, desta vez,
enfocando o
filme “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo” (Master and
Commander – the Far Side of the World, EUA, 2003).
Escrever sobre
Cinema numa revista especializada em História não é uma tarefa tão
simples
quanto parece, trata-se de algo muito diferente, por exemplo, do que
escrever
sobre o mesmo tema numa revista convencional de variedades. Digo isso
porque
numa revista de História, como Klepsidra, os escritores devem sempre
ter em
suas mentes que a abordagem histórica é fundamental, caso contrário,
cairemos
no âmbito da análise das técnicas cinematográficas, tarefa para a qual
não
fomos formalmente preparados numa faculdade e que, portanto, foge de
nossa
alçada.
Acredito que
após quase quatro anos de revista não seja mais necessário dizer o que
vou
dizer, porém, como sempre leitores novos têm visitado Klepsidra, é
interessante
que se reitere o que, para muitos já não é novidade, ou seja, o fato de
que
este é um texto introdutório, escrito por um Historiador não
especializado em
Cinema, mas curioso a respeito; ele não se pretende definitivo sobre o
tema,
nem sobre o filme do qual trata, mas, tão somente, pretende ser uma
forma de
incitar a discussão e a pesquisa a respeito dos assuntos abordados (no
caso de
um público mais especializado e que busque textos sobre os temas
tratados), ou
mesmo esclarecer dúvidas do público leigo.
Espero que,
tendo em mente todas as afirmações já consideradas e, sobretudo, já
tendo
assistido ao filme, uma vez que este texto não constitui uma mera
resenha (pelo
menos não na acepção de resumo ligeiramente crítico do filme, como
fazem os
diversos jornais quando intentam promover uma obra cinematográfica),
mas uma
análise, o leitor possa apreciar a leitura de minha obra.
Por fim, gostaria apenas
de explicar
que, como este texto não tem o intuito de promover o filme (uma vez
que, ao
contrário das revistas tradicionais que recebem dinheiro dos estúdios
para
fomentarem a ida de espectadores às salas de cinema, Klepsidra não
recebe um
tostão de ninguém e, por isso, seus escritores são livres para falarem
o que
pensam), o final não será omitido, nem mesmo as partes mais
interessantes, ao
contrário, serão analisados. Por isso, se você não assistiu ao filme,
depois
não diga que eu não avisei, que agora você não vai assistir porque
perdeu a
graça. Pelo contrário, até gostaria que você já o tivesse assistido
para que
assim você fosse apto a tecer sua própria crítica (favorável ou
contrária) à
obra, crítica esta que pode concordar, discordar ou concordar em partes
com as
minhas. Sem mais delongas: boa leitura!
1 – O Filme:
Mestre dos Mares é um
filme muito
extenso para um enredo não tão rico. Talvez a comparação entre Patrick
O’Brian,
autor dos livros que deram origem ao filme, e Homero, pelo caráter
épico de
suas obras tenha gerado no diretor Peter Weir a idéia de que a
adaptação para o
cinema do primeiro livro da série só poderia ser feita de forma épica,
ou seja,
num filme com orçamento milionário e um comprimento épico, leia-se, bem
mais do
que os 120 minutos convencionais aos longa-metragens.
![]() O H.M.S. Surprise do filme |
O filme se passa em 1808
e cerca de
90% de suas cenas se dão à bordo do navio H.M.S. Surprise, um
velho
navio da Marinha Inglesa comandado pelo renomado capitão Jack Aubrey,
também
conhecido como Jack Sortudo, um herói menor de batalhas navais no
Mediterrâneo.
Dentro deste aspecto, o filme remonta, é claro, e em nós Brasileiros esse fato histórico é mais facilmente reconhecível do que a qualquer outro povo do mundo, salvo, talvez, aos Portugueses, à vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil. |
Como se sabe,
após a aliança da Espanha ao regime de Napoleão, em 1801, o General
Junot,
comandante das tropas Francesas na Península Ibérica, começou a
pressionar
Portugal para que também se rendesse, ou aliasse à França, abandonando
seus
negócios com a Inglaterra. Por seis anos o Regente do trono Português,
Dom
João, resistiu às pressões Francesas não através da força das armas,
mas
através de tratados para evitar derrotas como a da invasão do Alentejo,
que
resultou na perda de Olivença, por Portugal, no Tratado de Badajoz.
Em 27 de novembro de
1807, contudo,
a situação chegara a um extremo, as tropas do General Junot entravam em
Lisboa
e, para evitar a captura e possível execução da Realeza, Dom João achou
por bem
seguir o conselho Inglês e, sob escolta da Marinha Britânica, abandonar
seu
Reino em direção à América Portuguesa, ou seja, ao Brasil.
A derrota Portuguesa que
parecia
certa frente ao maior e melhor exército Francês, acabou não acontecendo
devido
a uma intervenção Inglesa. Um destacamento do Exército Britânico sob o
comando
do General Wellesley desembarcou em Lisboa e, engrossando os
contingentes da
resistência Portuguesa, conseguiu derrotar os invasores comandados por
Junot,
em meados de 1808. Wellesley foi sagrado Lord Wellington e se tornou o
principal responsável pelas sucessivas derrotas impostas aos Franceses
em solo
Português entre 1809 e 1814, ano da abdicação de Napoleão.
Todo este panorama
histórico não é contado
no filme e, portanto é presumivelmente conhecido pelo espectador que
está em
frente à tela. Por quê? Porque caso o espectador não o conheça o filme
não
perderá o sentido, afinal, ao menos aparentemente, não há nenhum
sentido a ser
perdido mesmo, mas passará a ser apenas uma enorme e sem sentido “briga
de gato
e rato” onde, à exemplo dos famosos “Tom e Jerry”, o rato sempre
acaba
por vencer no final, mesmo sendo inferior em todos os aspectos.
Pois bem, é nesse
contexto que o H.M.S.
Surprise é enviado para a costa Brasileira, mais precisamente para
o
litoral de Pernambuco, próximo a Fernando de Noronha e Abrólios. É bom
que
fique claro que o filme é baseado num Romance Histórico e não se
pretende
verdadeiro, portanto, não houve tal navio nem mesmo tal preocupação da
Marinha
Britânica em proteger a costa Brasileira contra uma invasão
Napoleônica,
afinal, o próprio Napoleão não teria condições de alçar um vôo tão alto
(a
conquista do Brasil), pois tinha antes que vencer suas guerras na
Europa e, se
o fizesse, fatalmente as colônias da América cairiam ante ele assim
como suas
metrópoles haviam feito.
Não na tentativa de
conquistar ou
invadir o Brasil, mas, muito mais, com o intuito predatório de afundar
embarcações inimigas do regime Revolucionário Francês, do qual Napoleão
Bonaparte era o atual representante, o navio Acheron é enviado
para a
costa Brasileira.
O Acheron é um
desses navios
modernos que supera em muito o velho navio do Capitão Jack Aubrey.
Maior, mais
veloz e dotado de canhões de longo alcance, logo no começo do filme, em
meio a
um nevoeiro e durante o turno de vigia do Imediato do H.M.S.
Surprise, o
navio Francês aproveita-se de seus canhões de longo alcance e da
cobertura do
nevoeiro para bombardear os Britânicos até quase afundar seu navio.
Mesmo conseguindo salvar
seu navio,
o Capitão Aubrey é obrigado a se dirigir para a costa Brasileira onde,
através
de escambos com os nativos (sim, os Brasileiros do filme são
praticamente todos
índios, cafuzos ou mamelucos). Depois de perder vários dias consertando
seu
navio, Jack Aubrey ordena que sua tripulação se ponha no encalço do Acheron,
o “Fantasma”, como passou a ser conhecido pela tripulação depois de ter
atacado
de surpresa no meio do nevoeiro.
Exceto pela rápida cena
do escambo
com os nativos do Brasil, nenhuma mulher é vista no filme e nem mesmo
nenhuma
outra pessoa que não sejam os tripulantes do H.M.S. Surprise ou
do Acheron,
depois da batalha final (ah, sim, há também alguns prisioneiros que são
resgatados de dentro do Acheron).
Do conserto do navio em
diante, todo
o filme pode ser resumido como uma grande perseguição de navios onde o
perseguido (Acheron) nem toma conhecimento do perseguidor (H.M.S.
Surprise) e, vez por outra, quando este menos espera, apronta-lhe
uma
emboscada. O misticismo cresce entre a tripulação do navio Britânico.
Para
eles, o Acheron não é um navio comum, mas sim um navio
fantasma, talvez
até enviado pelo Diabo e, portanto, impossível de ser derrotado. Os
homens
também começam a associar os ataques surpresa à figura do Imediato de
seu
navio, visto que todos eles ocorreram exatamente no seu turno de
vigília.
O clima de tensão entre
tripulação e
Imediato passa a ser tal que um motim se torna iminente e o Imediato
passa a
temer por sua vida, mesmo depois de um tripulante que o desacatou
abertamente
ter sido condenado a chibatadas pelo Capitão Aubrey. Com medo de que
outro
ataque ocorresse em seu turno e que, devido a isso ele perdesse também
o apoio
do Capitão, o Imediato Britânico se atira na água segurando uma bala de
canhão.
Morre afogado. É o fim do único personagem com profundidade psicológica
dentro
do filme!
Os personagens do filme,
aliás, são
um show à parte. Podem ser analisados de duas formas e ambas, diga-se
de
passagem, muito subjetivas: ou são meros peões num contexto da história
grandiosa de um capitão e, por isso não aparecem muito, ou são uma
alegoria ao
povo Norte-Americano que segue o que seu governante propõe sem esboçar
muita
crítica e com um misticismo exacerbado.
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Primeiramente, deve-se dizer que salvo por Russell Crowe, que interpreta o Capitão Aubrey, os demais personagens são atores pertencentes aos times B (como nos casos de Paul Bettany, que interpreta a co-estrela da saga literária, mas que, no cinema, ficou relegado a coadjuvante de luxo, o Naturalista e Cirurgião de Bordo Stephen Maturin; ou do Condutor do Navio, o ator Bill Boyd, o Pippin de “O Senhor dos Anéis”) e C (como David Threlfall, o Cozinheiro do Navio e Max Pirkis, de 13 anos, que interpreta Blakeney, o Oficial Mirim que sofre a amputação de um braço logo após a primeira batalha do filme). |
Definitivamente o
orçamento do filme não se destinou à contratação de
grandes astros, mas ao investimento em Efeitos Visuais.
Paul Bettany é, a exemplo
de Bill Boyd,
um bom ator, tão bom que poderia ter sido mais bem aproveitado no
filme. Tem um
talento humorístico tão grande que conseguiu salvar um filme fadado ao
fracasso
como “Coração de Cavaleiro”, onde interpreta um Arauto Medieval com
características de apresentador de lutas de boxe ou de jogadores da
NBA. Já
Bill Boyd, um ator que antes de interpretar Pippin era quase que
totalmente
desconhecido, provou ser capaz de segurar um papel de relativa
importância
(especialmente em “O Retorno do Rei”, quando Pippin se torna
Conselheiro de
Denethor, o Regente louco de Gondor) com grande desenvoltura, não foi
nem um
pouco aproveitado. Aliás, só percebe que ele participou do filme o
espectador
mais atento e que, obrigatoriamente, assistiu a “O Senhor dos Anéis”,
pois Boyd
não tem nenhuma fala maior do que grunhidos como “Sim Comandante!”, ou
“Veja!”.
Um exemplo de dinheiro jogado fora com um ator caro num papel onde
qualquer um
serviria.
Depois de abandonar a
costa
Brasileira no encalço de sua nova obsessão, o Capitão Aubrey leva seu
navio a
diversos lugares dos mares do sul, como, por exemplo, ao perigoso
Estreito de
Magalhães, no extremo sul da América do Sul e ao arquipélago de
Galápagos,
onde, para agradar seu amigo Stephen Maturin, que todos acreditavam
estar à beira
da morte depois de levar um tiro acidental na barriga, desembarca mais
de
cinqüenta anos antes de Charles Darwin. Maturin realiza em Galápagos
uma
pesquisa digna de um Naturalista. Mesmo ferido ele, em companhia dos
dois
Oficiais Mirins do navio percorre a ilha onde haviam aportado
(Galápagos possui
13 ilhas e mais de 90 ilhotas vulcânicas) recolhendo espécimes animais
e
vegetais para análise. Porém, para que sua existência no filme não
contrarie
toda a História da Biologia, Maturin é obrigado a liberar toda a sua
carga para
poder se locomover mais rapidamente, a fim de avisar a Aubrey acerca
dos
movimentos do Acheron que, como ele havia avistado, estava
ancorado na
costa oposta da mesma ilha em que os Ingleses se encontravam.
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No final, graças a um estratagema bolado por seu Capitão (que faz com que o H.M.S. Surprise se pareça com um navio baleeiro, as principais vítimas dos saques Franceses no filme, visto que não eram dotados de armas e possuíam uma carga muito valiosa: óleo de baleia), os Ingleses conseguem superar sua inferioridade tecnológica e tomar o Acheron, capturando ou matando a todos, exceto ao Capitão do navio Francês que, não se sabe como, mas possivelmente se fazendo passar pelo Cirurgião de seu navio, consegue escapar. |
2 – Onde termina a
Ficção e
começa a Realidade?
Tudo bem, é certo que o
pano de
fundo histórico é verdadeiro, afinal, havia no princípio do século XIX
um
acirramento da rivalidade histórica entre Inglaterra e França,
acirramento este
que se devia não só às invasões Napoleônicas, mas que já vinha de cerca
de 45
anos antes, com a vitória Inglesa na Guerra dos Sete Anos e a
conseqüente perda
Francesa de boa parte de seu Mundo Colonial.
Porém, qual é a
relevância de os EUA
fazerem um filme onde os próprios Norte-Americanos não são nem sequer
citados e
onde além de os Ingleses serem os heróis, o próprio enredo se baseia
num best
seller Inglês?
Bem, devemos perceber que
o cinema,
em especial o cinema de Hollywood, não dá ponto sem nó. Já são muitas
décadas
de experiência e análise do mercado e do mundo para que qualquer
estúdio se
proponha a fazer um filme sem propósito, algo que além de não ter uma
história
convincente (sejamos realistas, a idéia de um navio Inglês protegendo
às costas
Brasileiras contra uma possível invasão Napoleônica não é das mais
atraentes
para a maior parte do público mundial, ainda mais quando o ator
principal é
Russell Crowe que, por não ter um estilo muito expressivo de
interpretação (ao
contrário, o brilho de Crowe está em sua apatia aparente) torna-se um
ator
digno de amores ou ódios, mas nunca de aceitação), não tem um objetivo
bem
definido.
Por objetivo, ao menos em
termos de
meios de comunicação de massa, podemos definir a informação (como nos
telejornais e periódicos escritos), a diversão (como em revistas de
entretenimento, comédias, filmes românticos comuns, dramas sem crítica
social,
esportes em geral, programas televisivos de baixo teor de erudição,
como
novelas e etc) ou, em especial pelo fato deste fator estar também
presente nos
demais, a manipulação político-ideológica.
É claro que o objetivo de
“Mestre
dos Mares” não é meramente o de promover a obra literária de Patrick
O’Brian,
Inglês de ascendência Alemã (seu nome de batismo é Richard Patrick
Russ) que se
fazia passar por Irlandês e traduzia obras de Simone de Beauvoir (a
filósofa
Francesa mais conhecida internacionalmente como tendo sido a amante e
confidente de Jean-Paul Sartre) do Francês para o Inglês no início de
sua
carreira. Mas se não é este o objetivo do filme e se o seu objetivo
também não
é histórico, então, qual é?
3 – O Caminho das
Pedras:
Bem, é certo que em
praticamente
todos os países onde a obra de Patrick O’Brian ainda não estava
traduzida (como
é o caso do Brasil), após o filme “Mestre dos Mares”, esta será lançada
e, se a
estratégia de vendas/propaganda da editora que a for publicar (no caso
do
Brasil será a Record) for boa, será um sucesso de vendas.
Aliás, a obra de Patrick O’Brian é muito extensa, a
dupla que a protagoniza, ou seja, o Capitão Aubrey e o Naturalista
Maturin, está
presente em nada menos do que vinte livros. Em ordem, são eles (as
traduções
dos nomes são livres, exceto a do primeiro, pois respeita a tradução do
nome do
filme em Português):
01 – Master and Commander (Mestre dos Mares)
02 – Post Captain (Pós-Capitão)
03 – H.M.S. Surprise (H.M.S. Surprise)
04 – The Mauritius Command (O Comando das Ilhas Maurício)
05 – Desolation Island (A Ilha da Desolação)
06 – The Fortune of War (O Destino da Guerra)
07 – The Surgeon’s Mate (O Companheiro do Cirurgião)
08 – The Ionian Mission (A Missão Jônica)
09 – Treason’s Harbour (Porto da Traição)
10 – The Far Side of the World (O Lado Mais Distante do Mundo)
11 – The Reverse of the Medal (O Reverso da Medalha)
12 – The Letter of Marque (A Carta do Marquês)
13 – The Thirteen Gun Salute (A Saudação de Treze Armas)
14 – The Nutmeg of Consolation (O Nutmeg da Consolação)
15 – The Truelove (O Amor Verdadeiro)
16 – The Wine-Dark Sea (O Mar Vinho Escuro)
17 – The Commodore (O Comodoro)
18
– The Yellow Admiral (O Almirante Amarelo)
19
– The Hundred Days (Os Cem Dias)
20
– Blue at the Mizzen (Azul no Mizzen)
Quando O’Brian morreu, em 2000, estava escrevendo seu vigésimo primeiro livro dentro da saga de Aubrey e Maturin, aliás, esta saga só começou a ser publicada na Inglaterra dez anos antes da morte do autor, ou seja, em 1990.
Os livros, segundo se diz, são muito mais
movimentados do ponto de vista de acontecimentos do que o filme que, em
certos
momentos, se torna monótono. Porém, o que diferencia o filme dos livros
não é
isso, não é a atuação de Russell Crowe, não é o fato de o filme
incorporar em
si elementos de três livros (o número 01, o número 03 e o número 10),
não é
nada disso, mas sim, o momento histórico em que ambos foram escritos.
O’Brian julgava-se a si mesmo como um homem fora de
seu tempo, incapaz, segundo ele próprio, de escrever sobre assuntos
cotidianos
e um total ignorante acerca das tecnologias contemporâneas ou mesmo das
idéias
posteriores a Pablo Picasso, sobre o qual, aliás, ele escreveu uma
brilhante Biografia.
É impossível viver no passado, mas não é impossível
alienar-se do presente. Muitos cidadãos comuns, inclusive, fazem isso
diariamente para evitar o sofrimento, ou mesmo por falta de informação.
Porém,
quando nos alienamos, ficamos mais susceptíveis às armadilhas do
dia-a-dia,
como aquela que está presente no próprio filme do diretor Peter Weir.
Se pensarmos bem, o Acheron é quase um
fantasma no filme inteiro, mal aparece e, quando o faz é, em geral,
para atacar
de surpresa tomando vidas de pessoas desprevenidas que, em geral, estão
dormindo.
Ao Acheron, podemos relacionar os ataques
terroristas, inclusive, o primeiro ataque do navio Francês ao H.M.S.
Surprise pode ser correlacionado com o ataque e conseqüente
destruição do World
Trade Center, em 11 de setembro de 2002, por terroristas
Muçulmanos, o que
legitimou toda a Guerra contra o Terror de Bush. Da mesma forma, no
filme, o
ataque surpresa também motiva e legitima a ira do Capitão Aubrey contra
o
poderoso navio Francês.
O fato de o Acheron estar sempre um passo à
frente do H.M.S. Surprise também não é por acaso, mas deve-se
ao fato de
os terroristas serem difíceis de serem identificados e, por isso, quase
impossíveis de serem pegos.
Os ataques desleais são, óbvias analogias aos
atentados terroristas contemporâneos e, por isso, causam tanta revolta
na
tripulação e no comandante.
Aubrey é Bush, um homem guiado por seus princípios e
que, por deter o poder em suas mãos, faz uso dele de modo a perseguir
seus
ideais, ideais estes que, francamente acredita serem os melhores para
sua
tripulação, mas que, em nenhuma hipótese passam por um referendo desta,
nem
mesmo na medida em que homens e mais homens começam a morrer em
decorrência da
perseguição que Aubrey decide encampar sozinho contra o Acheron.
As mortes,
amputações e seqüelas que passam a acompanhar os inicialmente saudáveis
personagens do filme são uma demonstração de que as baixas
Norte-Americanas em
sua busca pela “pax americanae” são, nada mais do que perdas
aceitáveis.
O Acheron, que ataca de surpresa, representa
as organizações terroristas e o próprio Napoleão representa os Estados
que
financiam e apóiam o Terrorismo Internacional, um dos males mais
abomináveis
pelos Norte-Americanos.
O fato de o Capitão do Acheron não ter sido
pego apesar do navio ter sido capturado indica não apenas que o filme
poderá
ter continuações, mas também e, especialmente, que apesar de as células
terroristas serem, por vezes, aniquiladas, suas lideranças sempre
permanecem
vivas para incitar mais destruições.
A figura de Napoleão como
sendo o monstro causador e
financiador de tudo o que acontece no filme não é também uma novidade,
afinal
ele é considerado pelo imaginário popular de diversos países, um
precursor de
Hitler e, portanto, alguém a ser lembrado como um traidor e, sobretudo,
um
homem perigoso. Porém, se analisarmos friamente, o que Napoleão tentou
realizar
de forma infeliz foi o que Russos fizeram por todo o norte da Ásia
durante
quase três séculos, foi o que os EUA fizeram em seu atual território
durante
todo o século XIX e final do XVIII, foi o que os Argentinos fizeram ao
exterminar suas populações indígenas no final do século XIX e foi o que
o
Brasil fez em diversas oportunidades (e de certa forma faz ainda até
hoje ao
enviar forças expedicionárias e de treinamentos do exército e da
aeronáutica
para as regiões longínquas do norte do país) na Amazônia e Pantanal, ou
seja,
tentar colocar regiões que não estão totalmente submetidas ao poder
central sob
sua autoridade. Em termos mais gerais, Napoleão ao iniciar sua campanha
de
conquista da Europa estava tão cheio de razão quanto os
Norte-Americanos ao
tomarem o Texas e o Novo México de seus vizinhos meridionais por meio
da força
das armas.
O que torna
Napoleão um monstro perante o olhar
internacional são dois meros detalhes em sua campanha: o fato dela ter
sido
direcionada contra os “civilizadores” da humanidade, ou seja, os
grandes
ancestrais Europeus de todas as nações do ocidente e também, é claro, o
fato de
não ter obtido sucesso em sua empreitada o que, dentro de um contexto
de uma
História escrita por vencedores como a nossa, é imperdoável e, sendo
assim,
relega o indivíduo ao hall dos vilões, afinal, como em toda a história,
também na História o mal sempre perde.
Tomando esta
linha de raciocínio como ponto de partida,
podemos nos lembrar de que recentemente, antes dos EUA atacarem o
Iraque no
início de 2003, a França foi a principal opositora a esta ação, afinal,
era a
única voz Européia dentro do Conselho de Segurança da ONU a se
posicionar
contra a invasão (também a Alemanha pertencia na época ao Conselho de
Segurança, mas como não é um dos cinco países com poder de veto na
entidade,
sua oposição não surtia tanto efeito moral). Nesta época, foram
mostradas em
cadeia de televisão internacional as manifestações anti-Francesas de
alguns
Norte-Americanos abastados que despejaram suas reservas de vinho
Francês na
calçada da Embaixada da França nos EUA e que juraram boicotar as
importações de
produtos daquele país. Também nessa época, muitos colunistas dos mais
importantes
jornais dos EUA escreveram textos comparando a complacência Francesa
para com
Saddam Hussein com as previsões frustradas de Jean-Paul Sartre durante
a
Segunda Guerra Mundial no sentido de afirmar que Hitler jamais seria
capaz de
transpor as linhas de trincheiras que protegiam a fronteira entre
França e
Alemanha. Tais jornalistas afirmavam que daquela vez a França só havia
sido
salva por intervenção dos EUA e que hoje, se os protestos contra a
invasão ao
Iraque estavam sendo feitos em Francês e não em Alemão, isso devia-se
aos
Norte-Americanos que tombaram na Normandia.
Acontecimentos
Históricos à parte, o filme em questão
começou a ser rodado justamente durante o período de maior hostilidade
entre
EUA e França que já houve na história das duas nações que sempre foram
amigas
(devemos nos lembrar que mesmo na época do tão temido e condenado
Napoleão
Bonaparte, as relações entre o recém independente EUA e a expansionista
França
eram as melhores possíveis, afinal, foi graças ao dinheiro obtido pela
venda da
Louisiania ao novo país da América que Napoleão pôde financiar muitas
de suas
campanhas em território Europeu). Além disso, não foi por acaso que
Russel
Crowe foi escolhido para protagoniza-lo, afinal, ele é o maior campeão
do
conservadorismo Republicano no cinema Norte-Americano da atualidade.
Apesar de
não se posicionar oficialmente sobre as questões políticas do país, se
analisarmos um retrospecto de seus filmes de maior sucesso, veremos que
tanto Gladiador
quanto Uma Mente Brilhante não deixam de ser, em última
instância,
propagandas indiretas do regime “Bushista” Republicano.
No primeiro, um herói tipicamente Norte-Americano
(apesar de se situar nos tempos do Império Romano) consegue se reerguer
depois
de ter sido traído e alcança sua vingança punindo o Imperador malfeitor
e
obtendo a chance de alcançar a tão sonhada Liberdade para o povo,
liberdade
esta que, como todos sabem, não foi alcançada, afinal, o Império Romano
não
caiu após a morte de Cômodo. Sendo assim, os Senadores, órgão Romano
mais semelhante
ao ideal Democrata dos EUA não foram capazes, possivelmente por
corrupção e
ganância (males dos quais eram acusados durante o filme) de manter o
legado do
herói poor boy interpretado por Crowe.
No segundo filme, as apologias ao regime Republicano
são ainda mais gritantes, afinal, o filme se propõe a contar a história
da vida
de John Nash, o matemático Norte-Americano que revolucionou as leis de
Adam
Smith, num período de crise do Capitalismo internacional, a época do
Macartismo, período em que o Liberalismo econômico vigente há mais de
150 anos
(desde a Revolução Francesa) começava a perder terreno para o
Keynesianismo
(doutrina econômica que perdurou até a década de 1980). Neste filme,
John Nash,
ao se imaginar um agente secreto do governo, nos mostra o tempo inteiro
o
perigo do Comunismo e a grande proteção que o partido Republicano
permitiu aos
EUA.
Num contexto em que diversas figuras do cinema
Norte-Americano estavam sofrendo perseguições políticas indiretas (como
foi o
caso do ator e diretor Sean Pean e do diretor Michael Moore), era
natural que
qualquer crítica, ainda que mínima, à Era Bush fosse feita de forma
muito
velada e subjetiva. Sendo assim, creio que se Peter Weir desejou
criticar o caráter
religioso-místico e pouco crítico das ações Norte-Americanas no Iraque
e no
Afeganistão, por outro, não deixou de reiterar a todo o momento que
estas ações
estão corretas, afinal, são legítimas e, sobretudo, vitoriosas o que,
dentro de
uma ética protestante, constitui um sinal.
Acredito que dentro de tudo isso, o filme Mestre
dos Mares – O Lado mais distante do Mundo pode ser considerado não
apenas
como uma idéia de um épico naval, mas especialmente como uma idéia de
uma
legitimação à punição de um soberano, afinal, os EUA são nada mais do
que os
auto-intitulados eternos soberanos do mundo e, como tais, seus atos de
retaliação ou mesmo de ataques preventivos não podem ser vistos como
meras
vinganças, porque soberanos nunca se vingam, mas punem, pois estão em
posição
de educar.
4 – Bibliografia:
BOSCOV, Isabela. Todo Pano à Frente. Reportagem publicada na Revista Veja de 28 de janeiro de 2004.
FIGUEIREDO, Danilo J., PASSETTI, Gabriel e PINTO, Carlos I. 11 de Setembro: Um Marco para a História do Tempo Presente. Artigo publicado na Revista Klepsidra.
Grande Enciclopédia Delta Larousse vols. 2 e 4.
HOBSBAWN,
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dos Extremos.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe (com notas de Napoleão Bonaparte).
MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte.
MOOG, Clodomir Vianna. Bandeirantes e Pioneiros: Paralelo entre duas Culturas.
PATRICK
O’BRIAN Web Site.
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| Era dos Extremos, de Eric Hobsbawn |
O Príncipe, de Nicolau Maquiavel |
Cinema e História, de Marc Ferro |
A História vai ao cinema, organizado por Jorge Ferreira e Mariza de Carvalho Soares |