www.klepsidra.net

Democracia

Carlos Ignacio Pinto

carlos@klepsidra.net
3º Senestre - Histórua/USP
democracia.doc - 59KB

            Recentemente, em conversa com amigos, em uma discussão sobre a democracia, seu papel em nossa sociedade, sua força de representação e a manipulação da mesma através dos órgãos que a dizem representantes concluímos que aquilo que deveria consistir em “força” e representação legítima das aspirações da maioria, acabava por se transformar no discurso de uma classe minoritária, que através de engenhosos mecanismos e a subestimação de ação e consciência da população, o discurso democrático, era senão, a maior força de manipulação da mesma. Como isto é possível? Que meios permitem tamanha distorção e inversão de propósitos?

            Ao que nos parecia, todas as idéias eram muito claras, porém, ao tentarmos expô-las e esclarecê-las é que percebemos que acabávamos, de certa forma, engendrados nos mesmos mecanismos. Como poderíamos caracterizar uma democracia representativa onde o voto é obrigatório? No meu ponto de vista este parece ser o maior ponto contraditório de nossa “representação”.


Caio Guatelli/FI
             Como trabalhadores do estado, seja da educação, da saúde ou de qualquer outro setor, ao efetuarem um movimento de passeata, ao exercerem o maior direito democrático de nosso país, a “liberdade” de expressão e manifestação, vêem seus propósitos serem rebatidos por um discurso do Estado feito de balas de borracha, cacetetes e gás lacrimogêneo, no qual, por parte do Estado, não foram articuladas palavras, idéias e muito menos propósitos, apenas a repressão ao direito da manifestação?

            O que assistimos na Avenida Paulista, no dia 18 de maio (dia que deverá ficar marcado para o resto da vida de qualquer um que aspire ao uso da democracia plena em nosso país), em São Paulo foi senão a maior inversão do discurso democrático da máquina Estatal! 

Infelizmente ainda tive o desprazer de ouvir o discurso de alguns policiais que faziam a representação da polícia na TV e em algumas rádios, no qual afirmavam que manifestações deste tipo traziam à tona as aspirações da “época de ouro” da repressão, durante a Ditadura. Esta foi demais para o meu mínimo de intelecto e era subestimar ainda mais a consciência da maioria de explorados deste país!


Caio Guatelli/F

O que faz emergir estas aspirações é senão o próprio ato de repressão da polícia e nunca a manifestação dos populares. O Estado cura a doença, matando o doente?

Ao efetuar seu voto, escolhendo um representante legítimo de seu país, você está exercendo a democracia, mas o que, de certa forma, não levamos em conta é que escolhemos “um” entre “alguns” que já foram escolhidos previamente e que representam uma classe minoritária sempre! Esta aí nossa História, maior comprovadora dos fatos de nossa realidade que vem apenas confirmá-la. O que você escolhe é o que já foi anteriormente escolhido, restando a você a escolha daquele que julga “menos mal” entre todos. Representação popular? Que nada. O povo existe para a sustentação da máquina, sem que possa nela interferir, a manutenção é do Estado que, por sua vez, nada mais é do que o instrumento usado pela minoria responsável pelas desigualdades tão gritantes.

            O que vem contestar o status quo da nossa sociedade de marginalizados, como o exemplo do Movimento dos Sem-Terra, fica sendo, através de manobra dos meios de comunicação, inimigo da mesma, que, ao invés de buscar compreender e justificar sua opinião de uma forma esclarecedora, adota o discurso da minoria, pois é o que dizem os “tablóides governamentais”, a exemplo da matéria publicada pela revista “VEJA” com o título de “Tática da Baderna”  a respeito do mesmo MST. A prática da adoção do discurso da minoria é um dos grandes comprovadores da inversão do discurso democrático em nosso país, afinal você pensa como uma minoria pertencendo a uma maioria, mas da qual você quer se ver distante o mais rápido possível! Estou falando a verdade ou não? Gostaria de que se tratasse de um equívoco, mas ao percebermos a realidade intelectual à nossa volta é que se percebe a veracidade da afirmação que escrevo. Quantos exemplares de revistas semanais com fotos e artigos sobre a alta sociedade em algumas “ilhas” por aí, são vendidos? E se compararmos com o número de vendas de revistas sobre discussões político-democráticas sérias e realmente aliadas à análise séria da sociedade como um todo (e não me venha com VEJA!)? Percebemos que consomem-se muito mais fotos de pessoas “ilustres” e matérias sobre estilos de vida “banais” do que artigos comprometidos com  a seriedade política de nossa nação.  A realidade do intelecto da maioria em nosso país, pertence ao futuro dos personagens da novela das oito, ou sobre a vida de determinado pagodeiro ou sertanejo, que espalham por aí sua “caridade”, palavra de ordem no meio artístico ultimamente.

            No país das “bundas” e dos “cacetetes” a democracia é o discurso da desigualdade onde todos são iguais até o momento que não se conteste a ordem. Uma nação onde a população embebida de “futebol e cachaça governamental” não percebe seu papel dentro da força transformadora e ainda pensa e age como uma minoria. País este que certa vez foi chamado por um dos embaixadores presentes na ONU de “prostíbulo do primeiro mundo”, que ao menos deveria aumentar o preço de cada serviço deste prestado, não restando ao seu povo pagar o final da conta.




Saiba mais sobre a violência policial, democracia e os anos FHC.
Compre livros a partir destes links e ajude Klepsidra a permanecer no ar de graça.





Rota 66, de
Caco Barcellos
A Democracia, de
Renato Janine Ribeiro
A era FHC, de
Bolivar Lamounier
O mapa da corrupção
no governo FHC
, de
Larissa Bortoni e
Ronaldo de Moura



Este texto é de total responsabilidade de seus autores e destina-se à divulgação científica.
Utilize-o apenas como fonte de consulta.
Copyright Klepsidra - Revista Virtual de História