ANO V

  Abril - Junho 2004
ISSN 1677-8944
Nº 20

Editorial

            Hoje fui anexar um novo endereço à minha pasta de endereços de E-Mail e, como não a abria há algum tempo (sei a maior parte de meus endereços de cor), acabei vendo um E-Mail de um amigo com quem não me correspondia já há alguns meses. Seu nome era Carlos Ignácio Pinto, seu nick Carlão.

         Comecei a me lembrar dos tempos em que conversava com o Carlão quase todas os dias, dos tempos de Faculdade, dos trabalhos que fizemos juntos, das vezes que jogamos RPG, de quando viajamos para o Rio de Janeiro... de nossa amizade.

         Conheci o Carlão logo que entrei para a USP, em 1999. Lembro-me de que desde o princípio do curso ele sempre foi muito empenhado em conseguir uma orientação para fazer Iniciação Científica. Aliás, de toda a nossa turma (ou seja, dentre aqueles que, em tendo entrado na faculdade em 1999, eram mais próximos de nós), ele foi o primeiro a conseguir. Passou, acho que por volta de maio, a ser orientado por ninguém menos do que a Drª Vera Lúcia Amaral Ferlini, uma renomada pesquisadora de História Ibérica e de Brasil Colônia.

         Tanto por conta de seu sucesso prematuro, quanto por causa de seu gênio (o Carlão era uma das pessoas mais diretas que já conheci) ele fez muitos desafetos. Sempre ativo, Carlão trabalhava para se sustentar desde o primeiro ano, estudava como todos nós, fazia pesquisa, escrevia para o Klepsidra e ainda arrumou tempo, no terceiro ano de faculdade, para se envolver na política estudantil.

         No CAHIS, Centro Acadêmico de História, de onde foi diretor ao longo do ano de 2001, Carlão exercitou um tipo único de luta: mesmo num período de crise de autonomia, conseguiu fazer com que os direitos daqueles que haviam votado em sua chapa fossem, senão respeitados, ao menos ouvidos. Na mesma época, durante a crise de Klepsidra, Carlão foi um dos únicos que conseguiu se manter amigo tanto daqueles que ficaram quanto daqueles que se foram, mesmo que, dentre estes, alguns nutrissem por ele grande inveja devido às suas conquistas.

         Em 2002, quando descobriu que sua namorada estava grávida, ao contrário do que tantos em seu lugar fariam, Carlos que estava concluindo seus estudos e fazendo pesquisa, arrumou mais dois empregos além daquele que já tinha e decidiu, mesmo sem condições financeiras para tal, casar-se.

         Carlos e Eddilene casaram-se em dezembro de 2002 e eu tive a felicidade de ser convidado para ser seu padrinho. Como presente, Carlão me pediu que o ajudasse a comprar um carro, porque sabia o quanto seria difícil trabalhar tanto quanto estava trabalhando, estudar, fazer pesquisa (estava se preparando para entrar no Mestrado) e ainda cuidar da esposa e do filho que ficariam, pelo menos por um certo tempo ainda, no CRUSP (Conjunto Residencial da USP), um lugar longe do ideal para se constituir uma família. Queria ter um carro para poder leva-los ao médico, passear, fazer compras e todas as demais coisas de que necessita uma família.

            Ajudei-o e hoje me arrependo amargamente, não pelo dinheiro gasto, mas pelos resultados...

         Em outubro de 2003, no domingo dia 19, quando voltava de um passeio no shopping, Carlão, por conta do cansaço provocado por todas as atividades que era obrigado a desenvolver para poder se dar ao luxo de ter uma família, cochilou no volante em plena Marginal Tietê. Em suas próprias palavras, ele desviou “só um pouquinho”, mas já foi o suficiente para bater o carro na base da Ponte Anghangüera, o que provocou traumatismo craniano e em diversas outras partes do corpo dele próprio e de um amigo, traumatismo nasal em sua esposa, escoriações leves em outro amigo e a morte de seu filho, Juan Carlos.

         O próprio Carlos ficou vários dias em coma na Santa Casa e, depois de acordar, foi transferido para o HU (Hospital Universitário da USP), onde iniciou uma verdadeira epopéia de erros médicos entre novembro de 2003 e março de 2004. Inicialmente, depois de fazer várias cirurgias de reconstituição de braços e pernas, Carlos já estava há muito tempo na cama sem se levantar. Foi quando uma enfermeira disse-lhe que era hora de fazer algum exercício. Insistiu para que ele se levantasse e, quando este, mesmo estando com pinos na perna, obedeceu, o inevitável aconteceu: Carlos caiu, fraturou novamente diversos ossos que haviam sido reconstituídos e, por isso, teve que passar por outras tantas cirurgias sem, contudo, ter a certeza de poder voltar a mover a mão.

         Depois disso, veio o que seria previsível para alguém internado há tanto tempo num hospital com as condições de higiene do HU: a infecção hospitalar. Em seu pé direito havia uma ferida que não se fechava por conta das cirurgias sucessivas e justamente através dela, uma bactéria se instalou no osso de seu pé e, devido à demora em se perceber isso, quando os médicos decidiram agir, a única alternativa possível foi a amputação de sua perna na altura do joelho.

         Após a amputação, o estado depressivo de Carlos (que era natural, afinal, perdeu o filho, se arrebentou num acidente e ainda perdeu a perna) se agravou, mas os médicos acharam que ele estava apto para ter alta, então, mandaram-no para casa onde, com o apoio da família, ele deveria se recuperar melhor. Porém, aí veio a cartada final!

         Desde o acidente o Carlos estava com uma leve gastrite que foi se agravando lentamente com o passar do tempo. Como ele estava cheio de problemas, os médicos acharam que este era o menor deles e, por isso, não fizeram mais do que incluir doses de Dramin em sua medicação. Em casa, porém, sua gastrite foi piorando e, entre o final da fevereiro e o começo de março, Carlos entrou num estado muito grave, ao ponto de, no dia 29 de fevereiro, ter ido para o hospital às pressas, onde, à noite, fez uma cirurgia de emergência e, no dia 1 de março, entrou em coma novamente, desta vez induzido. No dia 2 de março de 2003, finalmente, depois de vários meses de sofrimento e de ter tido a imagem de seu acidente explorada no programa Cidade Alerta como mais um dos elementos que visam saciar a sede de sangue da população, Carlão veio a falecer.

         Quando grandes personalidades morrem, os noticiários se mobilizam, as pessoas fazem fila para ver o cadáver pela última vez, dez anos depois, shows são feitos em comemoração e homenagem ao herói morto, mesmo que o grande feito deste herói tenha sido ter nascido rico e ter conseguido, ao seguir se hobby, se tornar tricampeão mundial de Fórmula 1, sem nunca ter tido que trabalhar para viver ou mesmo conhecido as durezas da vida cotidiana.

         Porém, quando pessoas como Carlão, verdadeiros heróis, morrem, são, no máximo, mais um Carlos acidentado que não resistiu às complicações do acidente e, exceto pela imagem que restará a seus amigos e familiares, suas figuras serão sempre esquecidas quase que de imediato. Por isso, nesta edição de Klepsidra, decidimos homenagear a um herói da vida real. Não a alguém que realizou feitos esportivos que de nada servem, não a alguém que, mesmo tendo obtido conquistas políticas relevantes, certamente teve em vida o reconhecimento de que era merecedor, senão ainda a chance de ganhos pessoais muito superiores a seus méritos (além de possivelmente escusos), mas a um cidadão comum, que antes dos trinta anos de idade, constituiu uma família, trabalhou muito, lutou muito e, àqueles que o conheceram, deixou um grande exemplo de vida. Fiquem com uma parte de sua produção intelectual: aquela publicada em Klepsidra entre 2000 e 2003.


                                                                 
Danilo José Figueiredo

 
 
História do Tempo Presente

 Certamente "11 de Setembro de 2001: um marco para a História do Tempo Presente" foi um dos textos que mais interessarou a Carlos. Os atentados terroristas chamaram tanto sua atenção que no mesmo dia, quando entrava no ar uma nova edição, ele preparou um texto comentando o assunto (leia abaixo). Na edição seguinte, reuniu-se com dois colegas para elaborar um grande texto que fosse da construção histórica do islamismo até as possibilidades de mudanças que eram vistas naquele momento, passando pelo papel da imprensa e pela repercussão na internet, discutindo a História que se vive, tema que ele adorava, assim como as discussões sobre o futuro, o presente e o passado e suas lutas sociais.


  
História do Tempo Presente

 No ardor dos acontecimentos, no choque do momento, Carlos escreveu e enviou durante a publicação da mais recente edição, um texto, escrito poucas horas depois dos atentados terroristas. Naquele momento, já estava claro que o "11 de Setembro: World Trade Center e Pentágono já são História". Discutindo o porquê destes eventos terem ocorrido quando e ondo ocorreram, antecipava o peso que os atentados teriam para a História, e os desdobramentos políticos e militares daqueles eventos tão marcantes.



 

Série Projetos de Pesquisa

 Carlos passou na prova de seleção para o Mestrado em História Econômica na USP poucos dias antes do acidente que levou seu filho e que, indiretamente, também o levou. Seu tema de pesquisa, aquele que se dedicou por anos em suas idas e vindas ao Arquivo do Estado, ao Instituto de Estudos Brasileiros e a tantas outras instituições, foi resumido em seu projeto "O Caminho das Minas de Goiás", publicado praticamente um ano antes de seu falecimento.

  


História do Brasil

  Carlos sempre foi muito interessado na questão agrária brasileira e em seus dilemas do presente e do passado, tema que o levou ao seu projeto de Mestrado (citado acima) e também à elaboração de um texto acerca daquela que foi uma das leis mais importantes para a definição do excludente sistema agrário brasileiro, "A Lei de Terras de 1850".

 


História Ibérica

  Segundo texto de Carlos a ser publicado em Klepsidra, ainda em 2000, "A Civilização Ibérica" pode ser considerado como o primeiro passo que ele deu para o que chegou a ser sua entrada no Mestrado. Começou analisando a formação da sociedade na colônia portuguesa na América a partir de suas raízes Ibéricas, e chegou finalmente à delimitação de seu objeto, quatro anos depois, com a definição do tema já citado acima, envolvendo o caminho das minas de Goiás.




Teoria da História

  Sem considerar-se um historiador marxista propriamente falando, Carlos considerou que fora de vital importância a compreensão do pensamento de Marx, tanto para entender grande parte da historiografia, quanto para poder analisar a economia colonial que tanto lhe agradava. Tendo isto em vista, focou-se em "O Trabalho em Marx" em texto produzido quando estava no 3° ano da Graduação.



Projeto de Pesquisa

  O tenebroso arquivo do DEOPS-SP, localizado no Arquivo do Estado, impressionou muito a Carlos quando ele cursou "História do Brasil Independente 2", que pressupunha estágio com contato direto com o fundo documental da polícia secreta. A partir desta experiência, ele elaborou "A imprensa subversiva no Brasil da década de 1930: o papel dos boletins", onde procurou indicar algumas observações que fez no Arquivo e estimular o leitor a conhecer esta vasta documentação.



História da Educação

  Sem conseguir afastar seu espírito crítico, Carlos optou por confrontar-se com "Os conceitos de Educação no Brasil: uma análise de Arnaldo Niskier". Assim, abria uma nova fase em sua vida, quando esteve mais voltado para a discussão de problemas da Educação e do Ensino de História.



História do Tempo Presente

  Dentro desta fase de profunda polemização e discussão em torno da História da Educação, do Ensino de História e do papel da Educação na História do Brasil, Carlos optou por escrever sobre "A política de cotas nas Universidades Públicas Brasileiras", texto no qual expunha suas idéias, muitas das quais são as que estão sendo discutidas hoje em dia dentro desta grande polêmica envolvendo a adoção ou não das cotas no Ensino Superior Brasileiro.



História do Tempo Presente

  Carlos considerava a seção História do Tempo Presente uma das mais importantes de Klepsidra, e era um de seus principais colaboradores, desde o começo. Em nossa edição de número 2, a primeira de que ele fez parte, já destacou-se nesta seção, quando ainda nem tinha este nome, discutindo o que via, o que vivia e o que discutia. Assim, escreveu "Democracia", onde discutiu a importância e as manipulações que o sistema democrático pode sofrer.



História do Tempo Presente

  Dentro da mesma idéia do texto "Democracia" (vide acima), seu "A violência institucional", de 2002, procurou discutir a violência não explicita escondida dentro do manto do Estado Democrático, a violência da exclusão social e da exploração econômica, tão ou mais sangrenta do que aquela com as verdadeiras armas na mão.



História do Tempo Presente

  Partindo da comoção e da polêmica em torno das mortes de Lady Di e do Governador de São Paulo, Mario Covas,  Carlos procurou em "História e Contemporaneidade" discutir a construção, a desconstrução e a reconstrução de mitos históricos pelos diferentes setores da sociedade ocidental.



Resenha

  Quando estudava nos arquivos do DEOPS-SP (vide acima), Carlos confrontou-se principalmente com o período da ditadura de Getúlio Vargas. Para compreender como foi possível a instauração de tal regime, que estudou a partir do ponto de vista dos perseguidos políticos, não poderia deixar de ler a "Boris Fausto e A Revolução de 1930".



Resenha

  Com outros três colegas, Carlos lutou para elaborar a resenha de um livro importantíssimo para a compreensão desta tão mal compreendida História Africana. Trata-se de "Na casa de meu pai", de Kwame Anthony Appiah, livro que procura discutir o colonialismo, as independências e as inúmeras construções históricas que cercaram estes momentos, com a construção de uma idéia de África, de raça, de Estado e suas implicações na construção histórica daquele continente.


 
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