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Os usos do patrimônio três fazendas cafeeiras paulistas do século XIX |
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Fontes documentais | Bibliografia |
Introdução, ou da museologia
e do
patrimônio
Este artigo tem como objeto de estudo três fazendas de
café paulistas tombadas como patrimônio estadual e
nacional. Ele foi
parte de
um trabalho realizado no âmbito de um curso de
Especialização em
museologia,
portanto, antes de mais nada devemos expor o que entendemos por
museologia,
qual o seu objeto de estudo e qual sua relação com os
estudos do
patrimônio.
![]() Alguns dos mais antigos e importantes museus do mundo foram concebidos para que seus prédios (novos ou reutilizados) também fossem monumentos, como é o caso do Museu do Louvre (Paris)... |
Para o segundo grupo, a Museologia seria o estudo da
implementação e integração de um certo
conjunto de atividades, visando
à
preservação e o uso da herança cultural e natural
(dentro ou fora do
contexto
institucional). Um dos
principais representantes dessa corrente
é o
museólogo
indu V. S. Bedekar que definiu Museologia como “a
conceituação e
codificação
profissional de procedimentos recomendados e validados para se atingir
os
objetivos do serviço museal.”[1] Para o terceiro grupo, o que define a Museologia é o estudo dos objetos museológicos ou da musealidade. |
... do British Museum (Londres) ... |
Os
pesquisadores dessa
corrente encaram a Museologia
como
uma ciência da documentação que visaria dar acesso,
colecionar e
conservar os
objetos como fontes primárias, reconhecendo neles a musealidade. O quarto grupo tem como “pai” o museólogo Z. Z. Stransky, que definiu a Museologia como “uma abordagem específica do homem frente à realidade cuja expressão é o fato de que ele seleciona alguns objetos originais da realidade, insere-os numa nova realidade para que sejam preservados, a despeito do caráter mutável inerente a todo o objeto e da sua inevitável decadência, e faz uso deles de uma nova maneira, de acordo com suas próprias necessidades”[2]. |
![]() ... e do Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro). |
Mensch
ainda cita outros difusores desse conceito de Museologia como o
estudo
de uma relação específica entre homem e realidade,
entre eles as
autoras Anna
Gregorova, Waldisa Russio Guarnieri e Maria Cristina Bruno. Podemos observar que existem duas vertentes distintas dentro desses quatro grupos. Os três primeiros se prendem a questões de procedimentos e definições pragmático-institucionais. |
|
Já o quarto grupo aponta para como a
Museologia não deve ser entendida como a ciência que
estuda os museus
como
instituições, assim como a Pedagogia não é
a ciência que estuda as
escolas e a
Medicina não é a ciência que estuda os hospitais. As propostas desse
grupo
tiram o centro da discussão do museu-instituição e
o desloca para a
compreensão
das relações entre o homem e o objeto. Aqui não
falamos de qualquer
relação, já
que assim o universo museológico seria infinito, mas de um
aspecto
dessas
relações nas quais “o homem elege facetas (materiais e
imateriais) do
seu
universo de vida e preserva-as para perpetuá-las.”[3] |
![]() A idéia dos
prédios-monumento para os museus
continua. Por exemplo, há os casos emblemáticos do MAC de Niterói ... |
|
Uma das grandes contribuições de Waldisa
Rússio Guarnieri
está na formulação do conceito de fato museal.
Além de reforçar as
relação
homem-objeto, o conceito de fato museal acrescenta um dado importante a
essa
relação: o museu, ou seja, uma instituição.
Assim a Museologia seria a
ciência
que tem como objeto o “fato museal ou museológico,
relação profunda
entre o
homem, sujeito que conhece, e o objeto, parte de uma realidade da qual
o homem
também participa, num cenário institucionalizado, o
museu.”[4] |
![]() ... do Guggenhein do Soho (Nova York) ... |
|
Deste
modo a Museologia ainda tinha o museu como base institucional
necessária. Em
alguns escrito achamos que a autora se centra mais nessa base
institucional do
que na relação entre o homem e o objeto, que ao nosso ver
é o mais
importante
do fato museal. Podemos citar como exemplo de fixação na
base
institucional o
panorama dos principais momentos na evolução dos museus
traçado nos
textos
“Museologia e Museu” de 1979 e “Museu, Museologia, Museológos e
Formação” de
1989. |
![]() ... e também do Guggenhein de Bilbao. |
Esses
textos têm como cerne a questão da Museologia
ser encarada
apenas
como uma técnica, ou seja, como um conjunto de práticas
relativas ao
trabalho
dentro de museus-instituições.
O panorama traçado com o objetivo
de
estabelecer
os instantes decisivos na evolução dos museus e dos
conceitos fixa
cinco
momentos: a antiguidade, tendo como modelo representativo o museu de
Alexandria, instituto de estudos mantido pelo estado, mas produtor de
um saber
restrito e acessível apenas à nobreza; o renascimento,
quando se dá a
separação
de ciência e arte, o fazer museal é baseado na coleta
abundante, que
refletia o
poder dos príncipes; o romantismo, caracterizado pela abertura
dos
museus, que
passam a ser considerados da Nação; a
urbanização/industrialização, no
primeiro
texto esse é o momento considerado atual, a autora aponta como o
museu
estava
sofrendo o impacto das especializações e da racionalidade
operacional.
No artigo de 1989, Waldisa Rússio Guarnieri repete o
mesmo panorama que havia feito dez anos antes, apenas acrescentando um
período
“mais atual”. Desse modo, a construção da história
é encarada como um
simples
acumular de fatos, como se as mudanças nas perspectivas
teóricas da
Museologia
nesses dez anos não nos fizessem olhar diferente para o passado.
Consideramos
que o estabelecimento de uma discussão teórica sobre qual
é o objeto de
estudo
da Museologia, nos leva a buscar outras raízes para o fazer
museológico.
Se
a Museologia não é o estudo dos museus como
instituição, mas de uma
relação
entre o homem e o objeto, temos que buscar entender como surge essa
relação e
não buscar, desde a antiguidade, traços em algumas
instituições que nos
possibilitem compará-las com os museus. O que caracteriza a
Museologia
é o fato
do homem encarar os objetos como portadores de
informações e produzirem
conhecimentos partindo delas.
A
própria Waldisa Rússio Guarnieri nos lembra, em outro
texto, que
devemos nos
preocupar com a “informação trazida pelos objetos em
termos de
fidelidade,
documentalidade e testemunhalidade” Para ela, “documentalidade
pressupõe
‘documento’, cuja raiz é a mesma de docere:
ensinar. Daí que o ‘documento’ não apenas diz, mas ensina
algo de
alguém ou
alguma coisa; e quem ensina, ensina alguma coisa a alguém.
Testemunhalidade
pressupõe ‘testemunho’, cuja origem é testimonium,
ou seja, testificar, atestar algo de alguém, fato, coisa. Da
mesma
maneira que
o documento, o testemunho testifica algo de alguém a outrem.
Quem
testemunha
afirma o que sabe, o que presenciou: isto é, o testemunho tem o
sentido
de presença,
de ‘estar ali’ por ocasião do ato, ou fato, a ser testemunhado.
Fidelidade, em
Museologia, não pressupõe necessariamente autenticidade
no sentido
tradicional
e restrito, mas a veracidade, a fidedignidade do documento ou
testemunho.”[5].
Mesmo
que o museu de Alexandria, as coleções dos
príncipes ou as coleções
iluministas
tivessem objetos e pudessem até ser local de estudo, isso
não significa
que a
fonte desses estudos fosse a cultura material colecionada. Como K.
Pomian
apontou em verbete da Enciclopédia Einaudi,
coleções de objetos sempre
existiram, mas tinham diferentes funções e lugares em
cada sociedade e
em cada
contexto[6].
Depois
dos escritos de Waldisa Rússio Guarnieri, a Museologia
avançou
conceitualmente
nesse sentido. Para constatarmos isso “basta citar as
considerações
sobre
Patrimônio Comunitário e Patrimônio Integral que
têm apontado para a
responsabilidade extra-muros dos museus, ou ainda a noção
de Referência
Patrimonial assumindo o lugar das exauridas Coleções e,
desta forma,
possibilitando
um futuro objetivo para a preservação da cultura material
e espécimes
da
natureza.”[7]
Dessa
forma acreditamos que para entender o conceito de Museologia não
mais
centrado
no museu, não precisamos de novas expressões como a
Patrimoniologia
proposta por
Tomislav Sola, mas entender a Muselogia como uma disciplina
comprometida com os
estudos da construção e sistemas de memória. Uma
autora que tem
caminhado nesse
sentido é Maria Cristina Bruno, que para definir a Museologia
parte do
fato
museal definido por Waldisa Rússio Guarnieri e incorpora
elementos não
pensados
por essa autora. Assim, os objetos podem ser as referências
patrimoniais e
indicadores da memória e não só os acervos e
coleções. O cenário também
não
fica restrito ao museu, passando a comportar espaços abertos,
múltiplos
espaços
e territórios de intervenção.

Quando
nos propomos a fazer um trabalho sobre a historicidade do
fenômeno
museológico
tendo como objeto de análise bens imóveis tombados
é porque constatamos
aí a
existência de um fato museal e pretendemos entender a sua
perspectiva
de
elaboração, análise e
reinterpretação. Nesse sentido achamos que os
bens
imóveis tombados podem ser considerados ao mesmo tempo objeto e
espaço
dessa
relação, já que são lugares de
memória, como definiu Pierre Nora.
![]() Ouro Preto, em Minas, é a principal cidade do núcleo atualmente denominado Cidades Históricas |
Em seu texto “Entre memória e história: a problemática dos lugares”, Pierre Nora distingue dois tipos de memória: uma memória tradicional (imediata) e uma memória transformada por sua passagem em história. "À medida que desaparece a memória tradicional, nós nos sentimos obrigados a acumular religiosamente vestígios, testemunhos, documentos, imagens, discursos, sinais visíveis do que foi".[8] |
É através desta memória
transformada em história, desta memória oficial, as
políticas de
preservação do
patrimônio acabam por estabelecer os “lugares de memória”.
A certos
objetos é
atribuído um valor enquanto símbolo da
nação, a fim de reforçar, ou
mesmo
inventar, uma identidade coletiva e preservar sua memória.
Segundo Nora, esses lugares de
memória existem no sentido material, funcional e
simbólico, ou seja,
têm
materialidade e tangibilidade, têm uma função de
soldar o coletivo e
também
operam no âmbito do simbólico. Eles são entendidos
como “museus,
arquivos,
cemitérios e coleções, festas,
aniversários, tratados, processos
verbais,
monumentos, santuários, associações [...]. os
lugares de memória nascem
e vivem
do sentimento que não há memória espontânea,
que é preciso criar
arquivos, que
é preciso manter aniversários, organizar
celebrações, pronunciar
elogios
fúnebres, notariar atas, porque essas operações
não são naturais”.[9]
![]() Os monumentos tem papel destacado na construção de imaginários, como o do paulista bandeirante retratado no "Monumento às Bandeiras" em São Paulo. |
Acreditamos que a musealização e os
processo de tombamento sejam dois dos meios de se criar esses
espaços
de
memória. Apesar de próximos, as diferenças
existem. O tombamento é
puramente um
procedimento técnico, enquanto a musealização
é um processo que
depende, em
parte, de um procedimento técnico.
Assim, o tombamento não implica necessariamente na
passagem do
útil
(consumido e manipulado) ao semióforo (sem utilidade
prática, apenas
com significado). No caso da
musealização existe uma
instituição que organiza, perpetua e
consagra essa passagem, que é o museu. |
Para Cristina Bruno “os
processos de
musealização, vistos como o eixo central da
construção desta área de
conhecimento contribui para a seleção, triagem,
organização e
conservação da
documentalidade, testemunhalidade e autenticidade impressa nos objetos
musealizados. Constroem, também, novos valores e significados
para
esses
objetos, por meio da elaboração de
exposições e ação
educativo-cultural. Nesse
momento, transparece não só a cumplicidade da Museologia
com as áreas
de
conhecimento ligadas ao estudo dos bens patrimoniais, mas, sobretudo, a
sua
inerente submissão a questões ideológicas”.[10]
![]() Logotipo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional |
O processo de tombamento também é
legitimado por uma instituição - o caso do nosso estudo
estaremos
levando em
consideração duas delas, o Instituto Nacional do
Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN) e o Conselho de Defesa do
Patrimônio
Histórico,
Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) -
que também constrói
significados e atribuem valor. |
Essas instituições dão proteção
legal ao
bem,
garantem a integridade e cerceiam o direito do proprietário de
destruição e
descaracterização de seu imóvel, mas não
podem intervir no caráter de
propriedade
privada ou no uso que fazem deles os seus donos. Assim, consideramos
que o bem
tombado acumula as qualidades úteis e semióforas.
O
conceito de conservação de patrimônio nos parece
''natural'', universal
e
imutável, por isso sempre é bom lembrar sua
particularidade ocidental.
A idéia
de um patrimônio comum a um grupo social, definidor de sua
identidade e
enquanto tal merecedor de proteção, nasce no final do
século XVIII, com
a visão
moderna de história e de nação. Assim, a
noção de patrimônio como
conhecemos
hoje tem uma relação direta com a formação
de Estado-Nação após
Revolução
Francesa.
| Apesar da prática de atribuir valor artístico e histórico a objetos existir desde o Renascimento e dos antiquários, é apenas com o fim do Antigo Regime que se formam as ciências e os profissionais especializados a guardar, proteger e justificar uma política pública de defesa do patrimônio histórico nacional. Segundo Françoise Choay, a expressão monumento histórico só entrou nos dicionários franceses na segunda metade do século XIX e o uso do termo só foi consagrado por Guizot, quando, recém-nomeado Ministro do Interior em 1880, criou o cargo de inspetor dos Monumentos Históricos. | ![]() O "Arco do Triunfo", em Paris, é um dos mais marcantes exemplos da construção de marcos históricos. |
No entanto, a expressão
já aparecia em 1790, muito provavelmente pela primeira vez, nos
escritos de L.
A. Millin, no momento em que, no contexto da Revolução
Francesa,
elaboram-se o
conceito de monumento histórico e os instrumentos de
preservação
(museus,
inventários, tombamento, reutilização) a ele
associados.[11]
Com o
fim da monarquia, os revolucionários se viram diante do problema
de ter
que
gerenciar os bens da Coroa que passaram ao Estado, assim como os bens
expropriados da Igreja. Num primeiro momento, muito desses bens foram
identificados como representantes exatamente daquilo que a
Revolução
queria
negar, sendo alvo de destruições, como, por exemplo, as
cabeças dos
reis de
Judá da fachada da Notre Dame, que foram destruídas a
marretadas.
Como observa Françoise
Choay, foi preciso que surgissem ameaças concretas de perda dos
monumentos e ao
culto a nação para que a preservação dos
monumentos se tornasse um tema
de
“interesse público”[12].
Os
atos de vandalismo contrariavam diretamente os ideais iluministas de
acumulação
e difusão do saber, logo surgiram as primeiras medidas para
impedir as
destruições e foi forjado o termo “patrimônio
nacional”. Os monumentos
passaram
a ser encarados como a materialização da identidade
nacional, devendo
ser preservados por seu valor
pedagógico e
artístico. Assim, os comitês revolucionários
transformaram os
monumentos
históricos em propriedades do povo dando-lhes um valor nacional,
provando que
“romper com o passado não significa abolir sua memória
nem destruir
seus
monumentos, mas conservar tanto uma quanto outros, num movimento
dialético que,
de forma simultânea, assume e ultrapassa seu sentido
histórico
original,
integrando-o num novo estrato semântico.”[13]
[1] MENSCH, P. von. O
objeto de estudo da museologia.
Rio
de Janeiro: UNI-RIO/UGF, 1994, p. 06.
[2] STRANSY. apud:
MENSCH, P.
von. op. cit. p. 12.
[3]
BRUNO, M. C. O. Museologia:
princípios
teórico-metodológicos e a historicidade de fenônemo
museal. São
Paulo: mimeo,
2001, p. 08.
[4]
GUARNIERI, W. R. Museu, Museologia,
Museólogos e Formação. Revista
Museologia, 2º
sem. 1989, p. 10.
[5] idem, Conceito
de cultura e sua inter-relação com o patrimônio
cultural e a
preservação. Cadernos
Museológicos, IBPC, Rio de
Janeiro, n. 3, 1990, p. 08.
[6]
POMIAN,
K. Coleções.
Enciclopédia
Einaudi, vol. 1: Memória e
História. Lisboa:
Imprensa Nacional/Casa da moeda, 1984.
[7] BRUNO, M. C. O. Museologia
e Museus: princípios, problemas
e métodos. Cadernos de
SocioMuseologia, ULHT, 1997,
p. 33.
[8]
NORA, Pierre. Entre memória e história: a
problemática dos lugares. Revista
do Programa de Estudos
Pós-Graduados em História e do Departamento de
História, São
Paulo,
n. 10,
dez. 1993, p.15.
[9]
ibidem, p.13.
[10]
BRUNO, M. C. O. Museologia:
princípios
teórico-metodológicos e a historicidade de fenônemo
museal, p. 15.
[11]
CHOAY, F. A alegoria do
patrimônio.
São Paulo: Liberdade/Unesp, 2001,
p.
28.
[12]
ibidem, p. 56.
[13]
ibidem, p. 113.