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Os usos do patrimônio
três fazendas cafeeiras paulistas do século XIX


Maria Cecilia Winter
Bacharel em História - USP
mcwinter@gmail.com


Introdução Os usos do patrimônio Os estudos sobre as fazendas de café
Fazenda Pau D'Alho Fazenda do Resgate Fazenda do Pinhal
Considerações finais
Fontes documentais Bibliografia

 

Introdução, ou da museologia e do patrimônio


           
Este artigo tem como objeto de estudo três fazendas de café paulistas tombadas como patrimônio estadual e nacional. Ele foi parte de um trabalho realizado no âmbito de um curso de Especialização em museologia, portanto, antes de mais nada devemos expor o que entendemos por museologia, qual o seu objeto de estudo e qual sua relação com os estudos do patrimônio.

            Segundo Peter van Mensch, as primeiras discussões sobre qual seria o objeto de estudos da Museologia datam da década de 1950, com o estudo de J. Neustupny . Desde então a diversidade de visões sobre o assunto teria proliferado enormemente. Mensch agrupa essa diversidade em quatro grandes grupos.


            O primeiro deles conceberia a Museologia como o estudo da finalidade e organização dos museus, com estudos sobre a história e trajetória dos museus, o seu papel na sociedade, os métodos específicos de pesquisa, conservação, educação e organização, seu relacionamento com o ambiente físico e o estabelecimento de uma tipologia de museus.

Alguns dos mais antigos e importantes museus do mundo foram
concebidos para que seus prédios (novos ou reutilizados) também fossem monumentos, como é o caso do Museu do Louvre (Paris)...
            Para o segundo grupo, a Museologia seria o estudo da implementação e integração de um certo conjunto de atividades, visando à preservação e o uso da herança cultural e natural (dentro ou fora do contexto institucional). Um dos principais representantes dessa corrente é o museólogo indu V. S. Bedekar que definiu Museologia como “a conceituação e codificação profissional de procedimentos recomendados e validados para se atingir os objetivos do serviço museal.”[1]

           Para o terceiro grupo, o que define a Museologia é o estudo dos objetos museológicos ou da musealidade.

... do British Museum (Londres) ...

           Os pesquisadores dessa corrente encaram a Museologia como uma ciência da documentação que visaria dar acesso, colecionar e conservar os objetos como fontes primárias, reconhecendo neles a musealidade.

           O quarto grupo tem como “pai” o museólogo Z. Z. Stransky, que definiu a Museologia como “uma abordagem específica do homem frente à realidade cuja expressão é o fato de que ele seleciona alguns objetos originais da realidade, insere-os numa nova realidade para que sejam preservados, a despeito do caráter mutável inerente a todo o objeto e da sua inevitável decadência, e faz uso deles de uma nova maneira, de acordo com suas próprias necessidades”[2].

... e do Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro).
            Mensch ainda cita outros difusores desse conceito de Museologia como o estudo de uma relação específica entre homem e realidade, entre eles as autoras Anna Gregorova, Waldisa Russio Guarnieri e Maria Cristina Bruno.

             Podemos observar que existem duas vertentes distintas dentro desses quatro grupos. Os três primeiros se prendem a questões de procedimentos e definições pragmático-institucionais.

              Já o quarto grupo aponta para como a Museologia não deve ser entendida como a ciência que estuda os museus como instituições, assim como a Pedagogia não é a ciência que estuda as escolas e a Medicina não é a ciência que estuda os hospitais. As propostas desse grupo tiram o centro da discussão do museu-instituição e o desloca para a compreensão das relações entre o homem e o objeto. Aqui não falamos de qualquer relação, já que assim o universo museológico seria infinito, mas de um aspecto dessas relações nas quais “o homem elege facetas (materiais e imateriais) do seu universo de vida e preserva-as para perpetuá-las.”[3]

A idéia dos prédios-monumento para os museus
continua. Por exemplo, há os casos emblemáticos
do MAC de Niterói ...
            Uma das grandes contribuições de Waldisa Rússio Guarnieri está na formulação do conceito de fato museal. Além de reforçar as relação homem-objeto, o conceito de fato museal acrescenta um dado importante a essa relação: o museu, ou seja, uma instituição. Assim a Museologia seria a ciência que tem como objeto o “fato museal ou museológico, relação profunda entre o homem, sujeito que conhece, e o objeto, parte de uma realidade da qual o homem também participa, num cenário institucionalizado, o museu.”[4]

... do Guggenhein do Soho (Nova York) ...
           Deste modo a Museologia ainda tinha o museu como base institucional necessária. Em alguns escrito achamos que a autora se centra mais nessa base institucional do que na relação entre o homem e o objeto, que ao nosso ver é o mais importante do fato museal. Podemos citar como exemplo de fixação na base institucional o panorama dos principais momentos na evolução dos museus traçado nos textos “Museologia e Museu” de 1979 e “Museu, Museologia, Museológos e Formação” de 1989.

... e também do Guggenhein de Bilbao.

             Esses textos têm como cerne a questão da Museologia ser encarada apenas como uma técnica, ou seja, como um conjunto de práticas relativas ao trabalho dentro de museus-instituições.

O panorama traçado com o objetivo de estabelecer os instantes decisivos na evolução dos museus e dos conceitos fixa cinco momentos: a antiguidade, tendo como modelo representativo o museu de Alexandria, instituto de estudos mantido pelo estado, mas produtor de um saber restrito e acessível apenas à nobreza; o renascimento, quando se dá a separação de ciência e arte, o fazer museal é baseado na coleta abundante, que refletia o poder dos príncipes; o romantismo, caracterizado pela abertura dos museus, que passam a ser considerados da Nação; a urbanização/industrialização, no primeiro texto esse é o momento considerado atual, a autora aponta como o museu estava sofrendo o impacto das especializações e da racionalidade operacional.

            No artigo de 1989, Waldisa Rússio Guarnieri repete o mesmo panorama que havia feito dez anos antes, apenas acrescentando um período “mais atual”. Desse modo, a construção da história é encarada como um simples acumular de fatos, como se as mudanças nas perspectivas teóricas da Museologia nesses dez anos não nos fizessem olhar diferente para o passado. Consideramos que o estabelecimento de uma discussão teórica sobre qual é o objeto de estudo da Museologia, nos leva a buscar outras raízes para o fazer museológico.

Se a Museologia não é o estudo dos museus como instituição, mas de uma relação entre o homem e o objeto, temos que buscar entender como surge essa relação e não buscar, desde a antiguidade, traços em algumas instituições que nos possibilitem compará-las com os museus. O que caracteriza a Museologia é o fato do homem encarar os objetos como portadores de informações e produzirem conhecimentos partindo delas.

A própria Waldisa Rússio Guarnieri nos lembra, em outro texto, que devemos nos preocupar com a “informação trazida pelos objetos em termos de fidelidade, documentalidade e testemunhalidade” Para ela, “documentalidade pressupõe ‘documento’, cuja raiz é a mesma de docere: ensinar. Daí que o ‘documento’ não apenas diz, mas ensina algo de alguém ou alguma coisa; e quem ensina, ensina alguma coisa a alguém. Testemunhalidade pressupõe ‘testemunho’, cuja origem é testimonium, ou seja, testificar, atestar algo de alguém, fato, coisa. Da mesma maneira que o documento, o testemunho testifica algo de alguém a outrem. Quem testemunha afirma o que sabe, o que presenciou: isto é, o testemunho tem o sentido de presença, de ‘estar ali’ por ocasião do ato, ou fato, a ser testemunhado. Fidelidade, em Museologia, não pressupõe necessariamente autenticidade no sentido tradicional e restrito, mas a veracidade, a fidedignidade do documento ou testemunho.”[5].

Mesmo que o museu de Alexandria, as coleções dos príncipes ou as coleções iluministas tivessem objetos e pudessem até ser local de estudo, isso não significa que a fonte desses estudos fosse a cultura material colecionada. Como K. Pomian apontou em verbete da Enciclopédia Einaudi, coleções de objetos sempre existiram, mas tinham diferentes funções e lugares em cada sociedade e em cada contexto[6].

Depois dos escritos de Waldisa Rússio Guarnieri, a Museologia avançou conceitualmente nesse sentido. Para constatarmos isso “basta citar as considerações sobre Patrimônio Comunitário e Patrimônio Integral que têm apontado para a responsabilidade extra-muros dos museus, ou ainda a noção de Referência Patrimonial assumindo o lugar das exauridas Coleções e, desta forma, possibilitando um futuro objetivo para a preservação da cultura material e espécimes da natureza.”[7]

Dessa forma acreditamos que para entender o conceito de Museologia não mais centrado no museu, não precisamos de novas expressões como a Patrimoniologia proposta por Tomislav Sola, mas entender a Muselogia como uma disciplina comprometida com os estudos da construção e sistemas de memória. Uma autora que tem caminhado nesse sentido é Maria Cristina Bruno, que para definir a Museologia parte do fato museal definido por Waldisa Rússio Guarnieri e incorpora elementos não pensados por essa autora. Assim, os objetos podem ser as referências patrimoniais e indicadores da memória e não só os acervos e coleções. O cenário também não fica restrito ao museu, passando a comportar espaços abertos, múltiplos espaços e territórios de intervenção.



A cidade de Parati, no litoral fluminense é um marco nos tombamentos de referências patrimoniais.

Quando nos propomos a fazer um trabalho sobre a historicidade do fenômeno museológico tendo como objeto de análise bens imóveis tombados é porque constatamos aí a existência de um fato museal e pretendemos entender a sua perspectiva de elaboração, análise e reinterpretação. Nesse sentido achamos que os bens imóveis tombados podem ser considerados ao mesmo tempo objeto e espaço dessa relação, já que são lugares de memória, como definiu Pierre Nora.
       


Ouro Preto, em Minas, é a principal cidade do
núcleo atualmente denominado Cidades Históricas
            Em seu texto “Entre memória e história: a problemática dos lugares”, Pierre Nora distingue dois tipos de memória: uma memória tradicional (imediata) e uma memória transformada por sua passagem em história. "À medida que desaparece a memória tradicional, nós nos sentimos obrigados a acumular religiosamente vestígios, testemunhos, documentos, imagens, discursos, sinais visíveis do que foi".[8]

            É através desta memória transformada em história, desta memória oficial, as políticas de preservação do patrimônio acabam por estabelecer os “lugares de memória”. A certos objetos é atribuído um valor enquanto símbolo da nação, a fim de reforçar, ou mesmo inventar, uma identidade coletiva e preservar sua memória.


           
Segundo Nora, esses lugares de memória existem no sentido material, funcional e simbólico, ou seja, têm materialidade e tangibilidade, têm uma função de soldar o coletivo e também operam no âmbito do simbólico. Eles são entendidos como “museus, arquivos, cemitérios e coleções, festas, aniversários, tratados, processos verbais, monumentos, santuários, associações [...]. os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais”.
[9]



Os monumentos tem papel destacado na
construção de imaginários, como o do paulista
bandeirante retratado no "Monumento às
Bandeiras" em São Paulo.
           Acreditamos que a musealização e os processo de tombamento sejam dois dos meios de se criar esses espaços de memória. Apesar de próximos, as diferenças existem. O tombamento é puramente um procedimento técnico, enquanto a musealização é um processo que depende, em parte, de um procedimento técnico.  Assim, o tombamento não implica necessariamente na passagem do útil (consumido e manipulado) ao semióforo (sem utilidade prática, apenas com significado). No caso da musealização existe uma instituição que organiza, perpetua e consagra essa passagem, que é o museu.


               Para Cristina Bruno “os processos de musealização, vistos como o eixo central da construção desta área de conhecimento contribui para a seleção, triagem, organização e conservação da documentalidade, testemunhalidade e autenticidade impressa nos objetos musealizados. Constroem, também, novos valores e significados para esses objetos, por meio da elaboração de exposições e ação educativo-cultural. Nesse momento, transparece não só a cumplicidade da Museologia com as áreas de conhecimento ligadas ao estudo dos bens patrimoniais, mas, sobretudo, a sua inerente submissão a questões ideológicas”.
[10]



Logotipo do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional


            O processo de tombamento também é legitimado por uma instituição - o caso do nosso estudo estaremos levando em consideração duas delas, o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT) - que também constrói significados e atribuem valor.


        Essas instituições dão proteção legal ao bem, garantem a integridade e cerceiam o direito do proprietário de destruição e descaracterização de seu imóvel, mas não podem intervir no caráter de propriedade privada ou no uso que fazem deles os seus donos. Assim, consideramos que o bem tombado acumula as qualidades úteis e semióforas.  

            O conceito de conservação de patrimônio nos parece ''natural'', universal e imutável, por isso sempre é bom lembrar sua particularidade ocidental. A idéia de um patrimônio comum a um grupo social, definidor de sua identidade e enquanto tal merecedor de proteção, nasce no final do século XVIII, com a visão moderna de história e de nação. Assim, a noção de patrimônio como conhecemos hoje tem uma relação direta com a formação de Estado-Nação após Revolução Francesa.

            Apesar da prática de atribuir valor artístico e histórico a objetos existir desde o Renascimento e dos antiquários, é apenas com o fim do Antigo Regime que se formam as ciências e os profissionais especializados a guardar, proteger e justificar uma política pública de defesa do patrimônio histórico nacional. Segundo Françoise Choay, a expressão monumento histórico só entrou nos dicionários franceses na segunda metade do século XIX e o uso do termo só  foi consagrado por Guizot, quando, recém-nomeado Ministro do Interior em 1880, criou o cargo de inspetor dos Monumentos Históricos.
O "Arco do Triunfo", em Paris, é um dos
mais marcantes exemplos da construção
de marcos históricos.

            No entanto, a expressão já aparecia em 1790, muito provavelmente pela primeira vez, nos escritos de L. A. Millin, no momento em que, no contexto da Revolução Francesa, elaboram-se o conceito de monumento histórico e os instrumentos de preservação (museus, inventários, tombamento, reutilização) a ele associados.[11] Com o fim da monarquia, os revolucionários se viram diante do problema de ter que gerenciar os bens da Coroa que passaram ao Estado, assim como os bens expropriados da Igreja. Num primeiro momento, muito desses bens foram identificados como representantes exatamente daquilo que a Revolução queria negar, sendo alvo de destruições, como, por exemplo, as cabeças dos reis de Judá da fachada da Notre Dame, que foram destruídas a marretadas.

            Como observa Françoise Choay, foi preciso que surgissem ameaças concretas de perda dos monumentos e ao culto a nação para que a preservação dos monumentos se tornasse um tema de “interesse público”[12]. Os atos de vandalismo contrariavam diretamente os ideais iluministas de acumulação e difusão do saber, logo surgiram as primeiras medidas para impedir as destruições e foi forjado o termo “patrimônio nacional”. Os monumentos passaram a ser encarados como a materialização da identidade nacional, devendo ser  preservados por seu valor pedagógico e artístico. Assim, os comitês revolucionários transformaram os monumentos históricos em propriedades do povo dando-lhes um valor nacional, provando que “romper com o passado não significa abolir sua memória nem destruir seus monumentos, mas conservar tanto uma quanto outros, num movimento dialético que, de forma simultânea, assume e ultrapassa seu sentido histórico original, integrando-o num novo estrato semântico.”[13]    



Continuação: Os usos do patrimônio

 



[1] MENSCH, P. von. O objeto de estudo da museologia. Rio de Janeiro: UNI-RIO/UGF, 1994, p. 06.

[2] STRANSY. apud: MENSCH, P. von. op. cit. p. 12.

[3] BRUNO, M. C. O. Museologia: princípios teórico-metodológicos e a historicidade de fenônemo museal. São Paulo: mimeo, 2001, p. 08.

[4] GUARNIERI, W. R.  Museu, Museologia, Museólogos e Formação. Revista Museologia, 2º sem. 1989, p. 10.

[5] idem, Conceito de cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Cadernos Museológicos, IBPC, Rio de Janeiro, n. 3, 1990, p. 08.

[6]
 POMIAN, K. Coleções. Enciclopédia Einaudi, vol. 1: Memória e História. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da moeda, 1984.

[7] BRUNO, M. C. O. Museologia e Museus: princípios, problemas e métodos. Cadernos de SocioMuseologia, ULHT, 1997, p. 33.

[8] NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História, São Paulo, n. 10, dez. 1993, p.15.

[9] ibidem, p.13.

[10] BRUNO, M. C. O. Museologia: princípios teórico-metodológicos e a historicidade de fenônemo museal, p. 15.

[11] CHOAY, F. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Liberdade/Unesp, 2001, p. 28.

[12] ibidem, p. 56.

[13] ibidem, p. 113.





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