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vida militar romana a partir de alguns documentos epigráficos |
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História se faz com documentos e a tradução e o estudo dos
documentos constitui tarefa importante na pesquisa histórica. Mas, como
traduzir?
Isso dependerá da postura epistemológica do tradutor, dos
objetivos a serem atingidos pelo estudo da linguagem. No interior da
Lingüística, tem havido crescente preocupação com
questões relativas à identidade, interação,
narrativa e ideologia da linguagem, de forma a relacionar os estudos
lingüísticos às outras disciplinas. O interesse em capturar
os liames, às vezes tênues, entre processos e estruturas
institucionais mais amplas e os detalhes textuais dos contatos diários
produziu uma gama de projetos que começam por preocupar-se com a
definição teórica da própria abordagem. A pergunta
que se faz é “como o estudo da linguagem pode contribuir para a
compreensão deste fenômeno sócio-cultural específico
(e.g. formação de identidade, nacionalismo, globalização)?”.
Este tipo de questões considera a língua como um instrumento para
ter acesso a processos sociais complexos. O lingüista estuda temas
também perscrutados por antropólogos ou historiadores, como os
processos de construção e transformação de identidades.
As características dessa postura são as seguintes:
Objetivos:
o uso das práticas lingüísticas para documentar e analisar a
reprodução e transformação das pessoas,
instituições e comunidades, no tempo e no espaço;
A
língua como objeto: uma expressão recheada com valores
ideológicos e outros;
Unidades
de análise preferidas: prática da língua, contextos de
participação, identidades;
Questões
teóricas: liames micro-macro (encontros corriqueiros), heteroglossia,
integração de diferentes fontes semióticas,
intertexualidade, formação e negociação de
identidades, narratividades e ideologias da linguagem;
Métodos
preferidos de coleta de dados: análise sócio-histórica,
documentação audiovisual de encontros específicos, com
particular atenção para a momentânea
negociação de identidades, instituições e
comunidades.
A
partir destes pressupostos[2],
pode estudar-se a elaboração de discursos como o castrense e
propor uma tradução que tente dar conta da
construção e negociação de identidade
própria e específica. Para isso, apresento dois documentos
epigráficos provenientes de Vindolanda, na Bretanha romana, acampamento
militar ao norte da província romana. Representam bem a expressão
latina militar de início do segundo século d.C. O latim vulgar,
já há algumas décadas, como atestado pelas
inscrições parietais pompeianas, apresentava
características muito particulares, em clara direção
às línguas românicas, tanto no vocabulário, como na
sua sintaxe. O latim, contudo, além de manter-se como língua
erudita, encontrou no exército romano a instituição mais
propícia à propagação de uma língua de
comunicação. O latim militar não se preocupava com o
conhecimento literário, como era o caso do latim erudito, nem tampouco
era uma língua materna. Devia servir como elemento comum, uma koiné,
para a mais importante instituição para a
manutenção do domínio romano, o exército. Tal
língua aparece bem nas tabuinhas recolhidas aqui.
A
primeira é uma littera commendaticia, ou carta de
recomendação que retrata bem com a administração romana,
de caráter militar, fundava-se em relações pessoais e,
portanto, na recomendação, na concessão de um favor (subscribere,
como aparece, tardiamente, em Tertuliano, Idol.13). A cidade de
Luguualium (atual Carlisle) estava sob o
comando de
um militar (centurio regionarius), Ânio Eqüestre e, na carta,
Cláudio Caro indica o amigo Brigônio, sem que, no entanto,
mencione qualquer mérito do protegido. Como argumento, afirma que
ficarão devedores, tanto o recomendante como o recomendado e deverão
- está implícito - retribuir o favor concedido.
A
segunda é uma carta de dois comandantes, Niger e Broco, ao colega
estacionado em Vindolanda, Cereal. Niger parece ter sido praefectus
em
Bremetennacum e Broco em Briga, acampamentos distantes um do outro.
Enquanto na
carta anterior o oficial superior era chamado de ‘senhor’ (domine),
nesta, como são todos comandantes, usam ‘irmão’ (frater),
para indicar o companheirismo dos militares e, ao final da carta,
adicionam
‘senhor’ para indicar que, apesar de colegas, Cereal era o
comandante de sua unidade (dominus). O tema a ser tratado no
encontro de
Cereal com o governador (consularis) não está explicitado,
o que pode ser explicado pelo caráter sigiloso das conversas entre os
militares, de modo a evitar que informações confidenciais
pudessem chegar às mãos de outras pessoas, inclusive de
potenciais inimigos. Qual o objetivo da carta, então? Trata-se do apoio
político dos dois colegas à sua conversa com o governador,
expresso nos votos conjuntos de rezarem pelo colega.
Flávio
Cereal era prefeito da oitava coorte dos batavos, enquanto Cláudio Caro
pode ser desconhecido ou ser identificado como Júlio (não
Cláudio) Caro, mencionado em inscrição em Cirene como ex
prouincia narbonensi, praefectus cohortis ii Asturum.
Brigônio é um nome celta (provavelmente, derivado da raiz brig,
‘colina’, ‘aldeia’, como em Conimbriga e, neste caso, o
nome seria algo como ‘aldeão’). Ânio Eqüestre era
centurio legionarius (esta é a mais antiga
atestação deste cargo militar romano), originalmente na legio
IX Hispana, que servia em Eburacum (York), tendo sido antes, com
probabilidade, centurião auxiliar da cohors uiii Batauorum. Níger parece ter sido praefectus
em Brementennacum, talvez no comando da ala ii Asturum. Broco,
nome de
possível origem itálica, deve ser C. Aelius Brocchus que dedicou
um altar a Diana em Arrabona, na Panônia, quando era prefeito da
cavalaria (CIL III 4360). Os comandantes são, portanto, homens que
atuaram em diversas partes do império e, como era usual, no comando de
tropas de variadas origens étnicas. Brigônio, por sua parte,
parece ser um habitante local bem integrado ao exército romano. O latim
utilizado, portanto, era a língua de comunicação militar,
com o uso de jargão profissional (como a referência aos oficiais
da mesma patente com o termo frater, ‘irmão’), de
fórmulas de comunicação oficial militar esteriotipadas
(como opto + inf. , que se usa de praxe).
Como
manter esse registro castrense e esse caráter de língua de
comunicação do latim das cartas aqui apresentadas? Parece-me que
convém manter uma linguagem portuguesa distanciada do quotidiano
falado,
com frases um tanto tortas ou empoladas (como ‘serei colocado como
devedor’).
Carta
de recomendação (Vin.Tab. 22, c. 100 d.C.)

Claudius
Karus Ceriali suo salutem.
Brigonius
petit a me, domine, ut eum tibi commendaret. Rogo ergo, domine, si quot
a te
petierit ut uelis ei subscribere. Annio Equestri centurioni regionario
Luguualio rogo ut eum commendare digneris eius meoque nomine debetorem
me tibi
obligaturus. Opto te felicissimum bene ualere. Vale, frater.
Cláudio
Caro para seu Cereal, saudações.
Brigônio
pediu-me, senhor, que o recomendasse para ti. Peço, assim, senhor, que,
se te pedir algo, dê a ele sua aprovação. Peço que o
considere digno de recomendação a Ânio Eqüestre,
centurião encarregado da região de Luguválio e, desse
modo, serei colocado como devedor em meu nome e em nome dele. Espero
que
estejas muito bem e em boa saúde. Saudações,
irmão”.
Saudação
de um colega (Vin.Tab. 21, 103 d.C.)

Niger
et Brocchus Ceriali suo salutem.
Optamus,
frater, it quot acturus es felicissimum sit. Erit autem, quom et uotis
nostris
conueniat hoc pro te precari et tu sis dignissimus. Consulari nostro
utique
maturius ocurres.
Optamus,
frater domine, te bene ualere in honore esse.
“Níger
e Broco para seu Cereal, saudações.
Esperamos,
irmão, que o que estás por fazer tenha o melhor êxito.
Será, na verdade, pois está de acordo com nossos votos de rezar
por ti e tu es o mais digno. Encontrarás nosso governador o quanto
antes.
Esperamos,
irmão e senhor, que estejas em boa saúde e bem quisto ”.
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