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Na
Senzala, uma flor |
“Na Senzala Uma Flor
– Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava. Brasil Sudeste,
Século XIX” livro publicado em 1999 pela editora Nova Fronteira, (Rio de
Janeiro, 288 pg.) pode ser considerado como o resultado de um longo processo de
pesquisa histórica que acompanha o
autor, Robert Slenes, professor de História da Unicamp, desde a sua tese
de doutorado. Dividido em quatro
capítulos, apêndices e bibliografia, o livro revela algumas das principais
trajetórias de pesquisa do autor, que tem uma importância relevante na
historiografia brasileira desde os seus primeiros trabalhos com demografia
escrava. Desses estudos, podemos observar alguns de seus resultados e reflexões
no segundo capítulo do livro, cujo o título é : “Companheiros de Escravidão: a
demografia da família escrava em Campinas e no Sudeste”.
Entre os importantes elementos que constituem a pesquisa
do livro destaca-se não apenas o texto
escrito, que possui em si uma clareza e organização destacáveis, mas também a
inclusão de mapa e de imagens iconográficas fundamentais para o entendimento e
análise da temática escolhida. Fica registrado, inclusive, o pedido para que na
próxima edição as iconografias ganhem um tratamento especial de modo que a
identificação de seus elementos pictóricos se tornem mais claros. Destaca-se o
pedido para que as imagens sejam reproduzidas a partir do seu original
colorido.
Entre os quatro capítulos que compõem o livro, o primeiro
deles merece um comentário especial. Desligando-se um pouco, mas sem perder de
vista a proposta de análise do livro, no
Capítulo 1 “Histórias da Família Escrava” o autor refaz, em 27 páginas
divididas em dois subtítulos, os principais caminhos traçados pela
historiografia brasileira desde os primeiros escritos abolicionistas. Temos uma
revisão sobre a produção brasileira, em
comparação e análise com os
estudos que estavam sendo realizados pela historiografia norte-americana. Um importante auxilio para os estudantes que
estão iniciando seus estudos sobre História do Brasil e ao público leitor em
geral, que assim, têm a oportunidade de se situarem melhor no universo de
discussões teóricas em que o livro encontra-se incluso.
De uma forma geral, propõe-se em “Na Senzala Uma Flor”
uma análise que alinha-se a tendências de estudos da
História do Brasil, datadas principalmente a partir de 1988. Considerado um
marco nos estudos sob escravidão, o centenário da Abolição marcou para os
historiadores, um momento em que novas propostas e paradigmas passaram a ser
estruturalmente reformuladas e postas em
prática.
Nas próprias palavras de Slenes, Gilberto Freyre e a
historiografia dos anos 60 e 70 deixaram
o escravizado sem ao menos a capacidade de almejar a formação de famílias
estáveis. Em 1933, com Casa Grande e Senzala, temos Gilberto Freyre a analisar
que “negro foi patogênico, mas a serviço
do branco”[1].
Revendo uma série de
conceitos construídos pela historiografia brasileira, Slenes desenvolve a temática a respeito da família
escrava, alinhando-se a novas discussões teóricas e pontos de vista
interpretativos. Em debate com autores contemporâneos como Hebe Maria Matos ,
em especial com o livro “Das cores do Silêncio. Os Significados da Liberdade no
Sudeste Escravista”[2],
Manolo Florentino e José Roberto Góes com o livro “A Paz das Senzalas –
Famílias escravas e tráfico atlântico, Rio de Janeiro, c. 1790 – c.1850”[3]
o autor defende que a família cativa “(...) não se reduzia a estratégias e
projetos centrados em laços de parentesco. (...) expressava um mundo mais amplo
que os escravos criaram a partir de suas “esperanças e recordações” (...) ela
[a família escrava] era apenas uma das instâncias culturais importantes que
contribuíram, nas regiões de plantation do Sudeste, para a formação de uma
identidade nas senzalas, conscientemente antagônicas à dos senhores e
compartilhadas por uma grande parte dos cativos. ”[4]
Para Slenes, o que há
em comum entre a sua proposta e a dos três autores citados acima, é a busca por
um entendimento da constituição do sistema escravista a partir da luta de
classe, “vendo os escravos como agentes históricos que frustam a tentativa dos
senhores – indiscutivelmente a parte mais poderosa na contenda - de impor um cativeiro “perfeito”.” [5]
Vale dizer, que parte dessa discussão já havia sido iniciada
com Góes em seu livro “O Cativeiro Imperfeito – um estudo sobre a escravidão no
Rio de Janeiro na primeira metade do séc. XIX” publicado em 1993. Neste, o autor discute a recusa do postulado de que
o escravo foi sempre um obstáculo à recriação no tempo das formas fundamentais
do cativeiro, incluindo-se na proposta de um novo postulado “(...) o cativeiro
era uma sociedade que , da mesma forma que as demais, produzia suas partes
fundamentais – senhores e escravos- como elementos à sua recriação no tempo, e
não como obstáculos. De outra forma, aliás, não se compreende a duração e a
estabilidade da escravidão brasileira”. O autor propõem a debruçar-se na busca pelo processo mediante o
qual se produziu o escravo no Brasil – A produção social do escravo.
O escravo, seria um homem escravizado e não um “cadáver
moral” como havia afirmado Joaquim Nabuco , ou um boi como muitas vezes foi
comparado por viajantes estrangeiros que estiveram no Brasil durante o século
XIX. Contesta-se assim as propostas
formuladas por historiadores como Jacob Gorender[6]
em que se supunha que a sociedade senhorial escravista buscava apropriar-se da
subjetividade do escravo , “onde quaisquer atos impregnados da humanidade
escrava ( todos , evidente) possuam um significado de resistência ao cativeiro.”[7]
Como
dava-se a produção social do escravo? A partir dos estudos a respeito dos
processos que alimentaram a existência da escravidão no Brasil[8] o escravo, até a extinção do tráfico em 1850,
era predominantemente um estrangeiro vindo muitas vezes já adulto para o
Brasil. Sua produção social não seria
dada diretamente pela linhagem ou por formas diretas de parentesco estruturadas
no Brasil.
Da onde e
como submergiam as relações entre escravos e senhores que constituíam o cativeiro e portanto a existência efetiva
de escravos e senhores? O estudo proposto por Slenes busca formular algumas respostas e novas perguntas
para a questão. A partir dos seus estudos sobre demografia, endossado por
outros autores[9],
Slenes confirma a existência de famílias cativas no Brasil, assim como suas
relações de compadrio, associadas principalmente ao batizado das crianças
nascidas no cativeiro.
Para Slenes criava-se, nas relações estabelecidas pelos
escravos, uma consciência cativa que essa “família escrava ambígua” engendrava
e transmitia a partir de experiências e memórias compartilhadas. Fato esse que , segundo o historiador,
era no fundo parte desestabilizadora do
sistema escravista.
Na visão de Slenes, Manolo Florentino e José Góes no livro
“A Paz das Senzalas” afirmam que a família escrava deveria ser considerada como
um pilar do próprio escravismo. A família escrava refletia um pacto de paz
entre escravos e senhores e reiterava as tensões étnicas introduzidas pelo
tráfico. Já em relação ao trabalho de Mattos em “Das Cores do Silêncio”,
Slenes comenta, com todas as ressalvas a
respeito do recorte cronológico adotado por Hebe, que para a autora, a família escrava
incentivava a competição por recursos e estratégias de aproximação ao mundo dos
livres, enfraquecendo os laços de comunidade dentro da senzala e a resistência
coordenada ao sistema.
Independente da posição que se adote, a partir desses
estudos não apenas as questões a
respeito das famílias escravas ganham uma importante fonte para debates e
pesquisas futuras, como também vemos surgir
novas propostas de debates para temas como moradia escrava, cultura
africana no período da escravidão nas Américas ( principalmente séculos XVII,
XVIII, XIX) e as discussões a respeito das
permanências e miscigenações das raízes africanas no cotidiano escravo.
Vale a pena ler os dois últimos capítulos em que o autor
discute , após análise e discussão de
todas as fontes que ele consegue agregar, os significados simbólicos que os
escravos atribuíam ao fogo existente em
suas moradias e sua importância no contexto cotidiano da família escrava. Não
só a existência da família escrava é comprovada a partir dos dados demográficos
e de uma análise comparativa com a
leitura nas “entrelinhas” dos relatos dos observadores brancos , como também
chega-se a compreender melhor as heranças e os significados simbólicos que o
ato de casar e ter filhos poderia representar para os escravos. Eram o escravos
casados que, em geral, tinham direito a um fogo separado dos outros
escravos da fazenda.
Os relatos dos viajantes, usados na análise de maneira
crítica e contextualizada, constituem
mais um dos elementos que ajudaram o autor na busca pela reconstituição da cosmologia africana existente entre os
grupos escravos que viviam no sudeste brasileiro no século XIX. Baseado em posições historiográficas
combativas e renovadoras em relação às bases argumentativas de Gilberto Freyre,
Florestan Fernandes, Rogê Bastide, entre outros, Slenes busca retratar a
cosmologia escrava constituída nas senzalas a partir do embate e negociação
realizado entre o senhor e o escravo, resgatando a cosmologia africana
existentes entre os grupos etno-lingüísticos formados pelos Bakongo ( mpangu, nsund) Ovimbundo, Mbundu, e
também os Herero e Ovambo. Grupos estes, segundo Miller[10]
, “não teriam apenas exportado escravos vindo do interior do continente mas
teriam nessas próprias regiões ( Benguela, Luanda e Antigo Congo)
negociado populações nela mesma
originária,”[11]
o que facilita a identificação da origem cultural desses homens escravizados.
Essa discussão se
amplia, porque provavelmente, os
principais grupos escravizados ou das áreas de venda de escravos, já haviam
tomado contato com o catolicismo, como
discute Marina de Mello em Souza num artigo recente, publicado em 2001,
intitulado “História, mito e identidade nas festas de reis negros no Brasil –
séculos XVIII e XIX”[12].
É a partir da afirmação feita por um viajante europeu ,
Charles Ribeyrolles, em 1859, que diz:
“A fome macilenta não entra na habitação do escravo (...) Mas nela não
há famílias, apenas ninhadas. (...) O trabalho,
para ele, é aflição e suor, é a
servidão. Por que manteria a mãe seu cubículo e filhos limpos? Os filhos podem
lhe ser tomados a qualquer momento, como os pintos ou os cabritos da fazenda, e
ela mesma não passa de um semovente. (...) Nos cubículos dos negros, jamais vi
uma flor: é que lá não existem esperanças nem recordações. ”[13]
que Slenes afirma ter buscado inspiração não só para o título de sua obra, como
também para grande parte de sua contestação a respeito do conceito implícito na
frase.
Cabe a nós e aos próximos estudos advindos dessas
discussões, reorganizarmos parte dessas idéias e propostas, em busca de
confirmações e refutações a respeito desse debate, que engloba tantos pontos de
vista. Reflexões que nos levam a redimencionar
tanto nossas opiniões em relação
a um passado compartilhado,
quanto em relação ao presente vivido.
[1] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma
Flor – Esperanças e recordações na Formação da Família Escrava” Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 pg 29.
[2] Matos, Hebe
Maria de , “Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no Sudeste
escravista, Brasil Século XIX”, Rio de Janeiro: Nova Fronteira , 1998
[3] Florentino e Góes, Manolo e José Roberto. “A Paz das Senzalas: famílias escravas e
trafico atlântico, Rio de Janeiro, c.1790 - c.1850 ” , Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira 1997.
[4] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e
recordações na Formação da Família Escrava” Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999
[5] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e
recordações na Formação da Família Escrava”
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 pg 17
[6] Gorender, Jackob. “A Escravidão Reabilitada ”,
São Paulo , Ática , 1991.
[7] Goes, José Roberto. “O Cativeiro Imperfeito: um estudo sobre a escravidão no Rio de Janeiro
da primeira metade do século XIX ” , Vitória – ES : Lineart, 1993.
[8] Vide Manolo Florentino . “Em Costa Negras”
[9] vide Goes, José Roberto. “O
Cativeiro Imperfeito: um estudo sobre a escravidão no Rio de Janeiro da
primeira metade do século XIX ” , Vitória – ES : Lineart, 1993. ;
Faria, Sheila de Castro. “A Colônia em Movimento – Fortuna e Família
no Cotidiano Colonial” , Rio de Janeiro: Nova Fronteira , 1997.
[10] Citação feita por Slenes em relação à obra de Miller
[11] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e
recordações na Formação da Família Escrava”
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999
[12] in “Festa : Cultura & Sociabilidade na América
Portuguesa, Volume I/ István Jancsó,
Iris Kantor (orgs.). – São Paulo : Hucitec : Editora da Universidade de São
Paulo: Fapesp: Imprensa Oficial, 2001.” Pg 249.
[13] Slenes, Robert. “ Na Senzala Uma Flor – Esperanças e
recordações na Formação da Família Escrava”
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999 -
Epígrafe- Contraponto