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Usando o Black-Tie: Despindo a obra de Gianfrancesco Guarnieri – O Cinema, o Marxismo e a Escola dos Annales[i]

Jaqueline Lourenço

Rafael de Abreu e Souza

Simone Tiago Domingos[ii]

Graduandos em História - Unicamp
elagabalus2003@yahoo.com.br

 

 

Tião não pode ficar. Maria não quer ir. Otávio, no entanto, conserva a esperança: “Enxergando melhor a vida, ele volta”. (cena do filme Eles não usam Black Tie)

 

            ... Opressores e oprimidos sempre estiveram em constante oposição uns aos outros, envolvidos numa luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou com o declínio comum das classes em luta. (...) Proletários de todos os povos, uni-vos! (Karl Marx e Friedrich Engels)

 

             ... este objeto não consiste apenas em trazer à luz só as crises políticas do passado, as aventuras guerreiras e diplomáticas de outrora, em estudar perpetuamente o Estado e os Estados, mas, sim, o Homem, desde o início o homem, homem que age, aflito, sofrendo e trabalhando, criando estes magníficos encantamentos de arte e literatura, construindo, á medida de suas necessidades, as grandes religiões e as grandes filosofias, dotando-se, mental e sentimentalmente, de um futuro humano que possa projetar para além de si mesmo e que o leva a libertar-se de seus humildes princípios de bruto, de pobre, mal dotado pela natureza, inferior a tantos brutos, poderosos, ferozes e bem armados. (Lucien Febvre)

 

 

O presente artigo tem como objetivo analisar o filme Eles não usam black tie ­– obra produzida em 1981, por Leon Hirszman, baseada na peça de mesmo nome, escrita em 1955 por Gianfrancesco Guarnieri e encenada no final da mesma década pelo grupo paulista Teatro de Arena – a partir das vertentes historiográficas do Marxismo e da Escola dos Annales. 

 


Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda
Montenegro em cena do filme
              O filme, adaptado a um período de greves e movimentos de lideranças sindicais, passa-se em São Paulo, em 1979, e narra o confronto político-ideológico entre Otávio (interpretado por Gianfrancesco Guarnieri), um homem ligado às lideranças do movimento sindical e seu filho, Tião, o qual coloca-se como um “protagonista anti-herói”[iii], à medida que fura a greve “menos por covardia e mais por convicção”, já que a greve era a defesa de um direito[iv] que não quer usar, temendo perder o emprego, o que dificultaria seu casamento com Maria (Bete Mendes), que estava grávida.

Segundo Leon Hirszman, o filme se chamaria Segunda-feira: Greve Geral.


O maior desafio em atualizar a peça teria consistido em “saltar do espaço familiar do texto original para um espaço social mais amplo, das fábricas e das ruas. No filme, a fábrica existe, assim como a repressão social. A realidade da violência urbana, diferente de 1956, a realidade da violência dos setores do regime autoritário, a violência interfamiliar, a violência do cotidiano foram os elementos que surgiram ou se desdobraram e com o passar dos anos vieram à tona no filme”[v]. Dessa maneira, a obra, com seus conflitos e contradições, é a “recuperação do espaço de participação política, o aumento do desemprego, o achatamento salarial, o autoritarismo dentro das fábricas, a revolta dos jovens, de todos. É a experiência de gente que viveu também os anos 70, a repressão, a tortura, que adquiriu a consciência de que, apara mudar, é preciso se organizar[vi]. Cabe salientar a influência da trajetória política do autor e ator Gianfrancesco Guarnieri, que escreveu a peça com apenas 21 anos, sendo militante do movimento estudantil em São Paulo.

 

Embora discorra sobre a peça e não o filme, é relevante a colocação do crítico literário Décio de Almeida Prado ao afirmar que:

 

Eles não usam Black Tie põe diretamente o dedo na ferida. A greve é o seu tema ostensivo, uma greve operária, de reivindicação por melhores salários, que acaba por separar pai e filho. O pai, revolucionário consciente de seus fins, forte da força de sua classe, é um dos cabeças do movimento. O filho, criado por circunstâncias várias [no caso do filme, o período da ditadura no Brasil, compreendendo de 1964 a 1979], em um ambiente diverso, pensa em primeiro lugar no próprio futuro. Corajoso quando se trata de enfrentar os homens – e o fato mesmo de furar deliberadamente a greve põe isso em evidência – e o seu medo é o de outra natureza: o grande medo de nossa sociedade moderna. O medo de ser pobre. Jovem, nas vésperas de se casar, com mulher e filho em perspectiva, só tem um cuidado: fugir de sua condição operária, melhorar de vida, subir – e quem ousaria, de consciência tranqüila, lançar-lhe a primeira pedra? (PRADO, 1964, p. 132)

 

Assim, de acordo com Hirszman, o filme não teria o ideal de politizar. O propósito de seus produtores era o de abrir horizontes e mostrar que a política está integrada ao cotidiano, não se vinculando à política partidária.

 

Nos voltando ao eixo analítico ao qual procuraremos nos debruçar, colocamos a seguinte questão: por que o cinema como objeto de análise, como documento histórico? É importante lembrar que, a partir dos fundadores dos Annales[vii], a noção de documento amplia-se. Marc Bloch e Lucien Febvre, ao conclamarem os historiadores para estudarem o homem e todos os seus vestígios, e não somente as grandes personalidades, passaram a considerar toda a produção material e espiritual humana como possibilidade de contato com esse homem do passado, em oposição ao positivismo do século XIX, onde se consideravam apenas textos escritos como fontes de “verdade”, numa história factual[viii].

 

Com a produção dos historiadores dos Annales, em suas três gerações, a história individual deixou de ser sintetizada, em detrimento das especificidades de épocas históricas, compreendidas a partir de seu caráter transindividual (CARDOSO e MAUAD, 1997, p.403). Dessa maneira, cinema, fotografia, etc., passaram a ser incluídos como fontes de leitura pelos historiadores.

 

No caso específico de Eles não usam black tie, verificamos ser possível revelar uma realidade externa da qual o filme seria leitura. Assim, o filme integra-se ao mundo social que o circunscreve: o período final da ditadura no Brasil, a repressão e o movimento sindical paulista despontando como força do operariado. Destacam-se as posições antagônicas entre pai e filho, a força individual x a força coletiva (conflito sobre o qual trataremos nos apoiando numa visão marxista, trazendo à tona questões como a consciência política), a (des)organização do proletariado, etc.

 


Kombi da política, tombada na Praça
da Sé, em São Paulo, após
manifestação estudantil
em 1968.
               Ou seja, questionamentos surgidos no século XIX, período no qual desponta mais claramente uma burguesia revolucionária, paralelamente a um proletariado, classe social contrária à esta burguesia, igualmente revolucionária, a qual deveria superar, através da revolução e da força, o poder, suprimindo, num segundo estágio, o Estado e todas as formas burguesas de organização, vivendo um pleno comunismo (MARX e ENGELS, 2002).

                Mas a obra de Gianfranceso Guarnieri também traz outras possibilidades analíticas. À luz da Escola dos Annales, é possível penetrar no mundo das personagens, construir uma micro-história, envolver-se no universo da mulher, da família, do casamento, do amor e de diversas outras relações estabelecidas pelo homem comum, a quem estes historiadores tanto deram atenção na constituição de uma história menos objetiva e mais “apaixonada”. 


 
Eles não usam Black Tie na perspectiva dos Annales

 

Como a Escola dos Annales nos apresenta uma imensidade de temas, especialmente a chamada Nova História ou Terceira Geração, o filme nos fornece, como fonte ou documento, uma gama de assuntos. Porém, num primeiro momento, vemos ninguém menos do que os “excluídos da história”. Já Febvre em O homem do século XVI nos dizia, numa crítica à história dita pelos Annales como tradicional, que “é certo que a História estuda as obras do homem, mas nem sempre as suas boas obras. Estuda de bom grado e preferivelmente as obras más, digo: as guerras, os conflitos, as oposições de nações e raças, tudo que divide, separa e destrói o ideal humano. Mas, que são as obras sem os obreiros, de que nós nada sabemos?” (FEBVRE, 1960, pp. 4-5). Isto é o que trará os Annales: o fazer da História uma “história humana da humanidade” (FEBVRE, 1960, p. 16), que restaura ao homem a sua fisionomia verdadeira.

 

Deste modo, Febvre propõe uma história dos obreiros, dos homens que nunca aparecem nos grandes acontecimentos: que se sabia na época da família camponesa do século XVI? Estes não ditos fazem parte de um silêncio que principalmente a Nova História utilizará como fonte.  É o que Le Goff chamou de “silêncios da história”: “silêncios que falam muitas vezes mais que a própria palavra escrita e o documento-monumento” (LE GOFF, 1990, p. 10). Interpretando-os, teremos uma diversidade de temas a tratar.

 

                 Estes excluídos da história vão emergir nos Annales, especialmente com Febvre e com a Terceira Geração. Coincidentemente, um livro de Perrot que quase vai de encontro aos indivíduos que aparecem no filme é Os Excluídos da História: mulheres, operários, prisioneiros; com exceção dos prisioneiros, mulheres e operários aparecem no filme. Eles não usam Black-Tie nos apresenta uma família com seus homens, sendo alguns operários em uma fábrica, e suas mulheres, algumas delas também operárias, como a mulher de Tião e sua amiga. Assim, o filme serve como fonte para uma História da Família operária no século XX em São Paulo. Marquemos que a História da Família, embora Febvre tenha abordado-a n’O homem do século XVI, mesmo não sendo este seu objetivo no artigo, desenrolou-se mais a partir de Ariès com História da Criança e da Família.
Os excluídos da
História
, de Michelle
Perrot


Além da História da Família, o filme nos possibilita chegar a uma História da Morte ou das práticas que a envolvem. As considerações de Ariès em O homem diante da morte podem ser aplicadas ao filme, já que ocorre a morte de duas personagens, o pai de Maria e Bráulio: são dois enterros diferentes (um mais simples e o outro mais “glamuroso”), encarados de forma diferente, dado que o alcoólatra, o pai de Maria, não sendo autor de nenhum grande feito, será engolido pela História e esquecido (ou nem lembrado), enquanto o herói, Bráulio, será relembrado e estudado, nas palavras de Otávio... Segundo Ariès, a morte não é um ato individual, mas algo celebrado por uma cerimônia mais ou menos solene, com finalidade de marcar a solidariedade do indivíduo e os laços entre a comunidade (ARIÈS, 1990, p. 658), e isto é o que vemos nas mortes de Eles não usam Black-tie – as famílias se aproximam, Bráulio é usado como bandeira para unir os grevistas, o pai de Maria é velado na própria casa, com poucos amigos, vizinhos e conhecidos, enquanto Bráulio está cercado de uma multidão de desconhecidos, etc.

 

Partindo disto chegamos também a uma História do Cotidiano, porque vemos ali a dinâmica das pessoas na casa, quando comiam, como se relacionavam, o que se fazia durante o dia, etc. Por exemplo, vemos que devido ao trabalho de Tião e Otávio, a família não tomava café junta, ou seja, é o social e o econômico, a necessidade de trabalhar tantas horas por dia para o sustento da família numa época de economia difícil, que faz com que o café da manhã seja quebrado e não tomado em família: o sócio-econômico interferindo nas práticas do cotidiano. Le Goff aborda uma História do Cotidiano em O maravilhoso e o cotidiano no ocidente medieval onde faz um apanhado sobre a evolução e a decadência da história política. A política enraíza-se na história oficialmente, mas devido à influência do Antigo Regime. Ela é o reino da elite, e foi aí que a História Política empenhou-se em buscar a sua nobreza: fazendo parte do estilo aristocrático.


              Em suas pesquisas como medievalista, Le Goff introduziu novos métodos analíticos como a antropologia, a etnologia e a sociologia do conhecimento. Na obra mencionada anteriormente, tentando fugir do anacronismo, discorre sobre as diversas interpretações e concepções do maravilhoso, não só hoje, como também no contexto da Idade Média, usando da etnologia para explicar, por exemplo, a origem do termo miraculosus. Logo, a novidade na História atual é justamente a busca de como viviam os homens em seu dia-a-dia, não os grandes nomes, mas aqueles desconhecidos, dos quais nunca se fala, os não célebres (WOLFROMM, s/d, p. 65): um Tião, um Otávio, uma Maria, uma Romana. Para Wolfromm, gostamos de olhar para trás para ver como era feito o passado: como se dormia na Idade Média? Como se escolhia feijão no ABC paulista no século XX na classe operária? Como vivia o operário paulista no mesmo século? “Perguntas pontuais, banais, em suma, mas tão mais reveladoras de uma época do que as guerras, os tratados e os atos e delitos dos homens ilustres” (WOLFROMM, s/d, p. 66).
O maravilhoso e o
quotidiano no
ocidente medieval
,
de Jaques Le Goff

 

Entrando neste mundo da família, da casa, da morte, do cotidiano, podemos fazer as Histórias das Vidas Privadas, não do individualismo ou da intimidade, mas do quarto, do leito, etc. “No privado, encontra-se o que possuímos de mais precioso, que pertence somente a nós mesmos, que não diz respeito a mais ninguém, que não deve ser divulgado, exposto, pois é muito diferente das aparências que a honra exige guardar em público” (DUBY, 2002, p. 10): vemos como na casa de Otávio se dormia, se comia e se comportava.

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Os Reis Taumaturgos
,
de Marc Bloch
          O recinto domiciliar abriga um grupo, uma formação social, complexa, na qual as desigualdades chegam ao ápice (Otávio x Tião) e o poder dos homens se choca mais intensamente com o poder das mulheres (Tião x Maria; Otávio x Romana – esta mais claramente, pois não há quase cenas com participação extra-domicílio). Este cotidiano e este privado da Nova História foram caminhos abertos pela História das Mentalidades, cujo grande nome é Bloch, um dos fundadores dos Annales, e seu Os Reis Taumaturgos, no qual buscou mostrar a mentalidade religiosa por trás do poder político dos reis.Com base na crença do povo na cura das escrófulas, ele nos mostra que a mentalidade é a história do cotidiano e do automático, o que escapa aos sujeitos particulares da história porque é reveladora do conteúdo impessoal de seu pensamento (LE GOFF, 1988, p. 71): são os fenômenos que parecem sem raízes, gestos maquinais (hábito mental, gestual, expressões: de onde vêem?) imersos na lentidão da História.

Deste modo, o filme abre as portas para uma história das mentalidades se buscássemos, por exemplo, saber de onde vem o gesto e o costume de, como é mostrado na última cena, Romana e Otávio catarem café, cada um a seu modo, silenciosa e maquinalmente, à noite, e qual o significado de cada maneira.


Dentro desta trama de temas, o filme nos fornece fontes igualmente para uma História das Mulheres. Lembremos que ao longo dos séculos, a mulher foi vista como o outro, o incompreendido e o diferente. Entre a devassa e a virgem, entre Eva e Maria, elas passaram mudas pela história. Para Duby e Perrot, a dificuldade em fazer uma História das Mulheres está no que concerne às fontes serem masculinas: uma História das Mulheres feita por homens seria possível? (DUBY e PERROT, 1990, p. 7-19) Contudo, mesmo que eles contassem sobre elas, suas visões seriam muito mais imparciais (visto que é praticamente impossível uma imparcialidade num relato histórico), posto que suas narrativas passar-nos-iam informações provindas de um homem que nos conta acerca de uma mulher, ou seja, suas opiniões e tendências.

 

E quanto a elas, que diriam delas mesmas? Não temos relatos, ou temos muito poucos, no âmbito do Mundo Romano até, talvez, a Idade Moderna, e, mesmo hoje, nas classes mais baixas como a operária, há poucas mulheres falando de si mesmas. Então, que sabemos delas? Os tênues vestígios que nos deixaram provêm, como dissemos, não tanto delas próprias, mas do olhar dos homens que governavam a cidade, construindo sua memória e gerando seus arquivos. Para Duby e Perrot, em geral, “o registro primário do que elas fazem e dizem é mediatizado pelos critérios de seleção dos escribas do poder. Indiferentes à vida privada, eles dedicam-se à vida pública, em que elas não participam” (DUBY e PERROT, 1990, p. 7). Vários recenseamentos, por exemplo, ao longo das épocas omitiam as mulheres. Mas antes de serem contadas, escritas ou narradas, as mulheres foram representadas, mesmo levando em conta que as imagens literárias têm maior profundidade de campo, já que a fluidez das palavras permite maior liberdade – apesar de escrita com as palavras dos “homens” – do que a iconografia, regida por códigos relativamente rígidos.      

 

Ainda segundo os dois estudiosos, “escrever a história das mulheres supõe que estas sejam tomadas a sério, que se reconheça à relação dos sexos um peso nos acontecimentos ou na evolução das sociedades” (DUBY e PERROT, 1990, p. 12). Segundo os Annales, nos fins do século XIX, quando a história positivista se constituiu como disciplina universitária, as mulheres acabaram sendo duplamente excluídas: primeiro, da sua área, visto que se consagra a vida pública e política, e segundo, da sua escrita, uma profissão vedada a elas. É só a partir da redescoberta, no mesmo século XIX, da família como célula fundamental e evolutiva das sociedades, o que se tornou o cerne de uma antropologia histórica que põe em primeiro plano as estruturas de parentesco e da sexualidade, e, conseqüentemente do feminino, que a História das Mulheres começou a tomar seu curso atual (DUBY e PERROT, 1990, p. 13).

 

Com os Annales, como mencionamos, há o alargamento progressivo do campo histórico às práticas cotidianas, aos comportamentos vulgares e às mentalidades comuns, muito embora a questão das mulheres só vá ser diretamente abordada com a Terceira Geração. Estudar sobre as mulheres de famílias operárias do século XX, como nos mostra o filme, ou sobre quaisquer outras mulheres, é fazer mais que uma História das Mulheres, é fazer a história das relações entre sexos, que acaba por definir a alteridade e a identidade feminina. Qual foi, através dos séculos, a natureza desta relação? Como funcionam e evoluem todos os níveis de representação, dos saberes, dos poderes e das práticas cotidianas? No trabalho? Na cidade? Na família? Na vida pública ou na privada? “Esta História está cheia de mulheres e por toda ela ecoam os seus murmúrios...” (DUBY e PERROT, 1990, p. 17).

 

Deste modo, temos como fontes Romana e Maria, mães e mulheres. Maria é a mulher que participa da política, diferente de algumas interpretações que deixam as mulheres fora desta escala de poder. Ela luta na greve e tem seus próprios ideais, nunca submissa ao homem. Romana, a dona de casa, parece-nos a mulher que dá a última palavra no recinto do lar – ali, quase que literalmente, ela é uma mulher romana, uma matrona, rainha absoluta da casa; além do que, podemos ver a força dela quando Otávio é preso e ela simplesmente vai ao DOPS e o liberta. Se elas não têm o poder, tem poderes

 

Segundo Perrot, no Ocidente Contemporâneo, elas investem no privado, no familiar e mesmo no social. Os Annales aparecem com o desejo de inverter as perspectivas historiográficas tradicionais, de mostrar a presença real das mulheres na história mais cotidiana, como objetos de poder. Perrot em Histoire sans qualité, falando sobre a dona-de-casa, uma Romana, buscou “substituir a representação dominante de uma dona-de-casa insignificante, negligenciada e negligenciável, oprimida e humilhada, pela de uma mulher popular rebelde, ativa e resistente, guardiã das subsistências, administradora do orçamento familiar, no centro do espaço urbano” (PERROT, 1992, p. 172). Embora Romana pareça em parte submissa a Otávio, devemos refletir, no que concerne ao filme como fonte (questionemos o documento, como pregou tanto os Annales[ix]) escrita por um homem (Guarnieri), sobre como é tênue a linha entre submissão e manipulação, algo como a Catarina de A Megera Domada de Shakespeare: até que ponto ela controlava o marido fingindo ser submissa e conseguindo o que queira?

 

Vemos que as relações entre homem e mulher, patrão e empregado, pai e filho, sempre envolvem as ditas relações de alteridade, e aqui o filme mostra-se proveitoso como outra fonte de estudos já explorados pela nova história: o eu e o outro. Uma Teoria da Alteridade caracteriza-se em como eu vejo o outro ou se relaciona com ele. O eu sempre foi uma obsessão; o outro é quase que uma desculpa para o eu falar de si mesmo. Não há como entrar na vida do outro, não há como resgatar o outro, visto que o eu teria de se colocar no lugar do outro; mas deste modo ocorrendo, seria o ponto de vista dele e não o do eu, pois eu seria ele (o outro). Eu nunca será objeto. Há também que se ter em mente que existem pressupostos fora do eu, que este tenta por no outro: se não encontra estes pressupostos, penso que este outro é melhor ou pior do que eu – isto é o que basicamente trabalha De Certeau (A Escrita da História) e Hartog (O Espelho de Heródoto). No filme, o pai, Otávio, nunca entende a posição do filho, o outro: para o pai, o eu, ele está certo, é detentor de uma verdade, e se o que o pai crê é que é a verdade, tudo o mais é o falso, o erro: portanto, Tião está errado. O eu nunca consegue ver a perspectiva do outro: Otávio não compreende Tião, Maria não aceita suas escolhas e o aponta como covarde, os grevistas não aceitam os não-grevistas (e alguns querem imputar pela força uma verdade); nunca enxergarão através da perspectiva de Tião, assim com ele nunca enxergará pela de Maria e assim sucessivamente.

 

O ponto no qual Maria acusa Tião de covarde é relativamente um campo fértil para trabalhar, não só a alteridade como vimos, mas também a questão do indivíduo e do objeto da história. Os Annales tentarão, como foi dito acima, resgatar aquele homem que não foi herói ou mártir, não teve a cara de uma revolução ou foi o rei de uma dinastia, questionando a historiografia marcada sob um pano de fundo cristão que ressalta o mártir, aquele que morreu por uma causa ou lutou e sofreu por ela: Otávio, por exemplo, enfrentou a violência e correu o risco de desestruturar sua família indo à greve; Bráulio, enfrentou a violência e morreu pela causa; Maria foi à greve mesmo arriscando sua vida e a de seu filho pela causa maior.

 

Poucos são os que pensam que a passividade também é uma forma de resistência política, também é uma forma de luta, uma posição e uma consciência[x]. E os heróis da resistência pacífica, como Tião, aqueles que na história fugiram para não morrerem, para salvar um bem maior, a família, ou simplesmente ele mesmo? Um exemplo disto está no livro de Bruit, Las Casas e a Simulação dos Vencidos[xi], sobre os astecas e suas formas pacíficas de resistência (bebedeiras, trapaças, etc.). O objeto da história continua sendo o homem, mas agora não mais o político e o de destaque, e, sim, o obreiro. O filme, logo, documenta-nos a família, as mulheres, cada um dos trabalhadores como obreiros da história, dos grandes feitos, e que, ou não aparecem ou aparecem sem rosto: um coletivo marxista.

 

Entretanto, a tendência clara à historiografia perpassada por uma tradição de valorização do ídolo individual[xii], positivista, aparece em Eles não usam Black-Tie, na figura e na representação dada a Bráulio, o amigo de Otávio, que morre na greve. Otávio nos diz, narrando o enterro, que daqui a algum tempo, ele será estudado pela História, como um grande nome: além de pressupor certa teleologia, submerge-se temporalmente a uma curta-duração, com destaque aos mártires, num tempo rápido e curto demais (já que a greve acabou de acontecer). Os Annales trabalham com a questão do indivíduo (à exceção de Braudel, no qual o indivíduo sucumbe meio às grandes estruturas na longa duração), e não com os considerados célebres ou ligados à política.

 

Quanto à temporalidade, o filme nos mostra duas posições: longa e curta duração, Tião e Otávio. Para o segundo, a greve, ação imediata, mudaria o curso dos acontecimentos, numa curta duração, tempo curto “à medida dos indivíduos, da vida cotidiana, de nossas ilusões, de nossas rápidas tomadas de consciência” (BRAUDEL, 1978, p. 45); o tempo da historiografia tradicional, atenta ao tempo breve, ao indivíduo, ao evento, habituando-se a uma narrativa precipitada, dramática, de fôlego curto. Por outro lado, para Tião, e segundo o mesmo, em uma de suas falas, por mais greve que se faça, nada muda ou mudará. Enquanto o pai tem perspectiva do presente, o filho olha para um futuro. Para Tião, os acontecimentos assim rápidos e explosivos não alteram a História, e aparecem quase que insignificantes numa perspectiva maior: é uma visão quase braudeliana. Braudel, segunda geração dos Annales, “mergulhava a História numa grande ampulheta, onde o tempo – matéria-prima de toda a teoria da História – flui com desesperadora lentidão, alheia e imune aos projetos e sonhos de todas as matemáticas sociais” (MICELI, 1998, p. 261), uma história organizada sobre o tempo longo e quase imóvel, onde pouca coisa muda.

 

Obviamente, Tião não leva a longa-duração ao extremo, se não nem ele mesmo existiria, tendo em vista que Braudel não abre espaço ao indivíduo, dado que este é muito pequeno frente ao tempo, clima, cultura, etc. Entretanto, parece que Tião sabe que frente às grandes estruturas, ele, um ponto no oceano, não significaria nada e sua posição também não afetaria o curso das coisas.

 

Em uma perspectiva geral, o que o filme faz é a partir da família operária mostrar a greve, ou, em outras palavras, partir da parte para o todo. Tal movimento é similar ao que faz Febvre n’O problema da descrença no século XVI: a religião de Rabelais, partindo de um ponto, Rabelais, e tentando chegar ao homem do século XVI – mas, será que é possível tal generalização? Essa homogeneidade de um exemplo poder ser aplicado a todos? Será que uma greve específica reflete todas as greves do país, será que os pensamentos e problemas de uma família refletem a de todas as famílias da classe operária brasileira? Aliás, Febvre não diz trabalhar com o conceito de mentalidades, como Marc Bloch, mas com o de psicologia coletiva (presença de um inconsciente coletivo do qual é difícil fugir) e a indagação aqui deveria ser: até que ponto é valido ou podemos trabalhar com uma psicologia coletiva? Talvez o filme nos mostre também que a crença na greve não é unânime, havendo dissidências, como o próprio Tião, que não recebe influências externas, como afirma Febvre ao dizer que o indivíduo, para fugir deste inconsciente coletivo, deve receber influências externas.

 

Voltemos, antes de concluir esta interpretação do filme com base nos Annales, à questão citada anteriormente: o filme nos apresenta diversos temas, pois os Annales abriram o campo de pesquisa do historiador. Contudo, há críticas a esta postura, advinda especialmente de François Dosse. Para ele, a nova história teria se fragmentado tanto que a história esmigalhou-se, perdeu seu objeto, não sendo esta geração nem mesmo herdeira da de Bloch e Febvre, dado que, segundo o autor, abandonaram a história totalizante, perdendo a história sua peculiaridade dentro das ciências sociais (DOSSE, 1994, p. 181). Temos de lembrar que Dosse não critica a Escola dos Annales, mas alguns historiadores dentro dela, mais especificamente os da chamada Nova História, já que devido à enormidade de temas a história se fragmentou, tornando-se descritiva, isto é, neopositivista, justamente a corrente a qual os Annales se propuseram a combater em seus inícios; deste modo, Duby e Le Goff ficam fora dos “ataques”, porque conseguem dialogar entre os diferentes campos da história, o político, o econômico, o cultural, etc., coisa que, segundo Dosse, alguns, como Ladurie, não fazem.

 

Eles não usam black tie: uma abordagem Marxista

 

            Utilizando o filme Eles não usam black-tie, torna-se possível igualmente compor uma análise a partir da teoria marxista, enfatizando algumas cenas e personagens.[xiii] Primeiramente, temos um filme que ressalta o cotidiano das pessoas da classe mais baixa, destacando um momento de tensão referente ao trabalho numa indústria da cidade, isto é, a insatisfação dos operários com relação às condições a que estavam submetidos. Sabemos que o motor da história para Karl Marx é a contradição, que culmina na destruição de uma estrutura e no aparecimento de outra.[xiv] O filme justamente trata de um momento de conflito entre os operários e os patrões (burgueses), em que o proletariado busca seus direitos através de greves, protestos e organização sindical.

           

Marx nos coloca que, na época da burguesia, o antagonismo de classe se simplificava, dividindo-se em dois vastos campos opostos - o campo da burguesia e o campo do proletariado. No filme, como ressaltamos, temos esta oposição, mas que privilegia a posição e movimento dos proletários, isto é, um olhar predominante sobre os operários, enquanto a burguesia é representada pela indústria (MARX e ENGELS, 1983, p. 366).    

           

No Manifesto do Partido Comunista temos uma obra que sintetiza a organização e os ideais do movimento comunista. Anteriormente destacamos que o filme trata do cotidiano dos operários entre os familiares e na própria indústria. Sabemos que o projeto de Marx é de caráter mundial, isto é, não se restringe a uma cidade ou país. Consideramos importante destacar que apesar deste aspecto internacional do movimento proletário, Karl Marx não rejeita esta característica de uma movimentação mais localizada que o filme nos apresenta. No Manifesto do Partido Comunista nos diz:

           

O proletariado passa por diferentes fases de desenvolvimento. Logo que nasce começa sua luta contra a burguesia. (...) A princípio, empenham-se na luta operários isolados, mais tarde operários de mesma fábrica, finalmente operários do mesmo ramo de indústria de uma mesma localidade, contra o burguês que o explora diretamente (MARX e ENGELS, 1983, p. 372). (Grifo nosso)

 

Segundo Sader, na obra Marxismo e Teoria da Revolução Proletária, Marx oferece elementos que permitem pensar na historicidade das condições do movimento proletário. Esta historicidade significaria a compreensão da realidade cotidiana que se torna algo mais: um elemento constitutivo da História. A experiência de opressão capitalista e a resistência vivida no cotidiano podem ser pensadas como um fenômeno coletivo e podendo fundar um movimento coletivo (SADER, 1986, p. 20).

 

Dentro desta perspectiva, podemos fazer uso de outras considerações, como, por exemplo, a do coletivo. No filme vemos acontecimentos em torno da organização de um movimento, que possui os seus líderes, como Otávio e Santini, mas a sua atuação está condicionada a uma questão social coletiva - dos proletariados. Marx, em sua obra O Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, nos indica que não se deve haver uma valorização do indivíduo na ação, mas, sim, do coletivo. Nesta obra, temos uma crítica feita pelo autor, presente no "Prefácio", ao trabalho de Victor Hugo, Napoleão, o Pequeno. Considera a obra importante dentro da temática do Golpe de Luís Bonaparte, mas que o autor:

 

 ... limita-se à invectiva mordaz e sutil contra o responsável pelo golpe de Estado. O acontecimento propriamente dito aparece em sua obra como um raio caído do céu. Vê nele apenas o ato de um indivíduo. Não percebe que engrandece, ao invés de diminuir, esse indivíduo, atribuindo-lhe um poder pessoal de iniciativa sem paralelo na história do mundo. (MARX, 1974, p. 331)

 

Este trecho nos permite dizer que o papel do indivíduo na concepção de história de Marx deve ser diminuído. Marx, como sabemos, trabalha com um movimento dialético, isto é, de conflito de classes. O personagem desta história é sem rosto, é a massa dos homens. Todos eles possuem responsabilidade. Esta análise é estendida aos grandes grupos, procurando identificar quem detinha o poder. Cabe a todos os homens a sua parcela de participação nos fatos. Mas ressaltemos que, dentro do movimento, podem existir líderes, embora estes ajam em favor da massa da população. Sader destaca que Marx anuncia um modo de pensar que é inseparável do fazer coletivo, algo que permitiu ao marxismo tornar-se significativo na contestação à ordem capitalista (SADER, 1986, p. 30).

 

O ponto central do filme compreende a organização dos operários para um movimento de contestação e em prol de melhorias nas condições do trabalho. Diante desta situação podemos destacar algumas personagens de uma obra de ficção que nos remete à teoria marxista.

 

No filme temos uma organização sindical que está em discussão dentro de uma fábrica. A discussão se refere à preparação de uma greve que reivindicava melhorias no salário e nas condições de vida. No Manifesto, Marx nos chama atenção para a formação destas organizações:

 

Em virtude da concorrência crescente dos burgueses entre si e devido às crises comerciais, os salários se tornam cada vez mais instáveis... os choques individuais entre o operário e o burguês tomam cada vez mais o caráter de choques entre as duas classes. Os operários começam a formar uniões contra os burgueses a atuam em comum na defesa de seus salários; chegam a fundar associações permanentes a fim de se prepararem, na previsão daqueles choques eventuais. Aqui e ali a luta se transforma em motim. (MARX e ENGELS, 1983, p. 372)

 

Portanto, temos a organização do proletariado que se revolta e o resultado desta revolta é efêmero, mas o maior resultado é uma união cada vez mais ampla dos trabalhadores[xv]. Porém, no filme, encontramos os operários divididos dentro da própria organização, caracterizada por dois personagens - Otávio e Santini. O primeiro deles busca uma organização e unificação do movimento, enquanto Santini defende a realização da greve naquele momento, com o uso da violência. Isto nos evidencia uma heterogeneidade dentro da classe dos proletariados[xvi]. Ainda destacamos que Santini é um estrangeiro apelidado de "Italiano" e possui a característica de agitador. Isto nos faz pensar que talvez seja uma alusão aos movimentos ocorridos no século XX na Europa. Sader destaca em seu livro o caso dos obreiristas italianos, que se apoiaram em Marx ao buscar uma alternativa para burocratização sindical e partidária. Contra o que chamavam de fetichismo das organizações, buscaram o conteúdo das mesmas a partir do conteúdo das lutas. Na década de 60, vão procurar o lugar original dos conflitos de classes, que haviam sido anulados pela política institucional, nas fábricas (SADER, 1986, p. 47). Esta atitude é encontrada, portanto, em Santini, que busca agitação na fábrica e efetiva ação grevista.   

 

É relevante destacar que o proletariado em si é uma classe revolucionária. O próprio filme[xvii] se questiona, através do personagem de Tião: por que mesmo depois de tantas lutas, greves e revoltas, o proletariado não alcançou a vitória ou a tomada do poder? Dentro desta questão podemos marcar um fator importante dentro da teoria marxista - a consciência de classe. Em sua obra O 18 Brumário de Luis Bonaparte, Marx, como mencionamos acima, faz uma análise o golpe de Estado de Luis Bonaparte. No segundo período (de 4 de maio de 1848 até fins de maio de 1849) ocorre a fundação de uma República Burguesa. Foi um embate entre o proletariado e a burguesia (que depois de uma monarquia burguesa liderada por Luís Felipe, tentava fazer "toda a burguesia governar em nome do povo"). Esta última triunfou e o proletariado se viu passar "para o fundo da cena revolucionária". Marx ressalta que:

 

Sempre que uma das camadas superiores entra em efervescência revolucionária o proletariado alia-se a ela e, conseqüentemente, participa de todas as derrotas sofridas pelos diversos partidos. (MARX e ENGELS, 1983, p. 341)

 

Diante destas palavras, podemos dizer que assim como a burguesia[xviii] busca aliados, o proletariado age da mesma forma, mas a classe que na sua essência é revolucionária não alcançou a vitória, pois não estava preparada, não tinha consciência de classe - quando o sistema de aliança se manifestava, na realidade, o proletariado estava "debaixo" de uma ideologia que não era sua e não lhe permitia ser dominante no decorrer de toda a movimentação. Este momento histórico do qual Marx faz menção, nos traz uma amostra de que o proletariado estava com armas nas mãos para desempenhar uma revolução, mas não estava preparado para tal, pois não tinha desenvolvido consciência do papel que a classe deveria exercer. Verificamos que o estudo da história adquire, para Marx, a função de auxiliar para que o agente histórico não seja “enganado”, assim como não há rejeição com relação ao conhecimento, que viabilizaria a tomada de consciência por parte do proletariado - que deveria ser o responsável pela revolução social do século XIX.[xix]

 

Sobre a questão da aliança com a burguesia também a presenciamos no filme através do personagem Jesuíno que faz acordos com a burguesia relatando para esta informações que lhe eram úteis. Já Tião, não aderindo à greve é visto como um traidor e está em oposição à atitude de seu pai, Otávio. Este, por sua vez, é aquele que possui consciência e sabe da necessidade de organização do movimento. Nesta situação presenciamos a existência de consciência assim como a sua falta. Sobre a consciência, Marx nos diz:

 

O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência. Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção em existentes (...) De formas evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se, então, uma época de revolução social. Quando se consideram tais transformações, convém distinguir sempre a transformação material das condições econômicas de produção (...) e (...) as formas ideológicas sob as quais os homens adquirem consciência deste conflito e o levam até o fim. É preciso, ao contrário, explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção. Uma sociedade jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e superiores não tomam jamais o seu lugar antes que as condições materiais de existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da velha sociedade.(...) As relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de produção social, antagônica não no sentido de antagonismo individual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência sociais dos indivíduos... (MARX e ENGELS, 1983, p. 233-234).

 

A consciência é adquirida em um momento de conflito e está condicionada ao seu ser social. Desta forma, o proletariado ao desempenhar sua "missão" não cria nada, mas se utiliza daquilo que já está determinado pelo seu ser. Marx aponta que os homens ainda vivem com a linguagem do passado mesmo em situações inéditas e que estes devem se despir deste passado - encontrando uma nova linguagem - e de um projeto que é constantemente refeito segundo experiências históricas (SADER, 1986, pp. 20-21). Neste sentido, o proletariado inconsciente de seu papel enquanto classe revolucionária acaba por não atuar no movimento como tal. Vemos isto no personagem de Tião que não aderiu à greve e ainda se aliou à burguesia. Esta mesma aliança foi feita pelo amigo de Tião, Jesuíno, que possui uma mentalidade pequeno-burguesa. Ele é burguês e povo ao mesmo tempo, tendo um sinal de contradição no seu próprio ser, pois não alcança o primeiro, mas também não age dentro de uma consciência proletária.

 

Outra personagem que desejamos destacar é Maria, consciente do que estava ocorrendo e de seu papel quanto atuante no movimento[xx]. Quanto ao seu noivo, Tião, vemos o contrário, não estava consciente e se mostra alienado. Marx destaca que:

 

O trabalhador se torna tão mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão.(...) O trabalho não produz só mercadorias, produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria (...) quanto mais o trabalhador se gasta trabalhando, tão mais poderoso se torna o mundo objetivo alheio que ele cria frente a si, tão mais pobre se torna ele mesmo, o seu mundo interior (...) O trabalhador se torna, portanto, servo do seu objeto (...) para que possa existir primeiro como trabalhador e, segundo, como sujeito físico.(...) O salário é uma conseqüência imediata do trabalho alienado, é o trabalho alienado é a causa imediata da propriedade privada. Por conseguinte, com um dos aspectos também tem que cair o outro..." (MARX e ENGELS, 1983, pp. 146-162)

 

Temos, portanto, uma análise da propriedade privada através do trabalho alienado - se uma cair o outro também cai. Quando Tião não aceita participar da greve e deseja melhores condições para criar seu filho que está a caminho, faz isto com o intuito de melhorar, trabalhar e ter mais dinheiro. Segundo Marx, o que faz é se tornar mais escravo ainda, pois apesar de produzir mais, o lucro não virá para ele (há uma desvalorização do mundo dos homens). Lembramos também que o salário é a primeira conseqüência do trabalho alienado.

 

Desta maneira, destacamos através do filme Eles não usam black-tie a teoria marxista em alguns de seus conceitos. Desejamos mostrar o movimento proletário e o conflito de classes enfatizando a questão da consciência e alienação. Para finalizarmos, apresentamos um argumento feito pelo personagem Tião. Em um momento do filme, ele diz que a greve é um direito e que não aderiu não por covardia, mas por convicção. Dentro de uma perspectiva marxista, Tião, como já dissemos, é um pequeno-burguês que não age para povo ou com povo. Seria um homem que não tem consciência de classe e permanece preso ao trabalho alienado. Através desta posição do personagem, aproveitamos para levantar uma questão quanto à teoria marxista. A não adesão à greve não pode ser também uma posição política, uma escolha?         

 

Considerações finais

 

Assim, o presente artigo procurou fazer uma análise do filme Eles não usam black tie, utilizando-o como documento histórico, e à luz das teorias Marxistas e referentes aos historiadores da Escola dos Annales. Gostaríamos de enfatizar, todavia, que ao trabalhar, sobretudo com o Marxismo, devemos ter um certo cuidado, visto que a teoria marxiana fora constituída num momento específico e para uma sociedade específica: século XIX e sociedade européia, durante a Revolução Industrial. O cuidado ao aplicar tais conceitos na análise de um filme, deve ser pensando para não acabarmos cometendo anacronismos, já que a situação é completamente adversa àquela para qual Marx e Engels construíam seu pensamento.

 

Com relação aos Annales, também é necessário pensar a crítica atribuída a esta Escola por François Dosse, já que, com tanta fragmentação, o sentido da história poderia acabar por perder-se. Embora a crítica tenha a sua lógica própria, acreditamos ser, pelos motivos apresentados, possível se fazer diversas interpretações tomando o filme como documento. Acreditamos, finalmente, que a obra Eles não usam black tie constitui um meio de se produzir uma rica diversidade de trabalhos, sejam eles pautados no Marxismo ou em diferentes dimensões dos Annales e da Nova História, como o artigo em questão procurou trazer.

 

 

Bibliografia

 

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[i] Trabalho realizado à disciplina HH 481 A – Teoria da História II no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UNICAMP sob orientação do Prof. Dr. José Alves Freitas Neto

[ii] Alunos do 3° ano de graduação em História no IFCH da UNICAMP. Rafael Souza faz parte do grupo de pesquisa de Arqueologia Histórica NEE/UNICAMP, sob orientação do Prof. Dr. Pedro Paulo Funari. Jaqueline Lourenço e Simone Domingos fazem parte do projeto Política e Memória no Império: a Revista do IHGB e a política partidária do Segundo Reinado, sob orientação da Prof. Dr. Izabel Marson.

[iii] Tal classificação foi dada pelo produtor da obra, Leon Hirszman, no texto “Eu também não uso Black Tie”, em É bom falar, montagem de entrevistas por Arnaldo Lourenço e Carlos Augusto Calil (LOURENÇO e CALIL, 1995).

[iv] Traído nada! Greve é defesa de um direito, nóis não qué usá esse direito e ta acabado. Cada um resolve seus galhos como pode. Palavras atribuídas à própria personagem Tião, interpretada por Carlos Alberto Riccelli, em Eles não usam black tie.

[v] Idem.

[vi] Idem.

[vii] No que se refere à fundação dos Annales, cabe lembrar que a chamada Escola dos Annales nasce mais exatamente em 1929 com a publicação dos Annales d’histoire économique et sociale, cuja direção pertencia a Marc Bloch e Lucien Febvre, que concretizaram a idéia da nouvelle histoire, entendida por François Furet como sendo “a história sob a influência das ciências sociais”, que começou a ser elaborada a partir de debates entre sociólogos, filósofos e historiadores, no início do século XX (REIS, 2000, p. 65). A Escola dos Annales, de acordo com Miceli, teria nascido num contexto conturbado: época do pós-1ª Guerra, da crise de 1929 com a quebra da bolsa de Nova York, estendendo-se até o segundo pós-guerra, a ascensão dos regimes totalitários e o aviltamento do preço da vida humana; período este, no qual a historiografia dita tradicional tinha como matéria-prima fundamental obras mal elaboradas por ela mesma. (MICELI, 1999, p. 15).

[viii] Embora o historiador Fustel de Coulanges já falasse, em pleno século XIX, em trabalhar com fontes não verbais, sua posição no período não teve muito impacto: “Onde o homem passou e deixou marca de sua vida e inteligência, aí está a História”. (CARDOSO e MAUAD, 1997, p.401).

[ix] Os Annales inovam os métodos de pesquisa em um aspecto interessante que é o aproveitamento dos documentos “falsos”. Por exemplo, Le Goff, em seu livro Reflexões sobre a história (1986), afirma que é preciso reconhecer que todo documento falso constitui também uma verdade histórica, ou seja, um texto que pretende remontar ao século IX, porém sendo escrito no século XII, é um documento falso do século IX, mas um autêntico documento do século XII, informando, por exemplo, o que pensavam os homens deste século sobre os do século IX. Não é certo simplesmente marginalizar o documento falso como fazia a crítica tradicional: uma série deles, que engloba um certo período de tempo, “diz-nos muito sobre este período” (LE GOFF, 1986, p. 85); cada tipo de fonte exige um tratamento diferente, no interior de uma problemática de conjunto: analisar um documento dito “falso”, não é contradizê-lo, mas interpretá-lo, desmontá-lo e lê-lo como um reduto complexo da realidade. Não importa, portanto, se Guarnieri descreve a situação das mulheres como ela é, mas o que importa é saber que ele faz uma interpretação numa determinada época. Estes novos métodos de pesquisa visavam ampliar e multiplicar os objetos da História. Os documentos, assim, não são mais “uma matéria inerte que reconstituíram o passado em si” (REIS, 1996, p. 92).

[x] É muito do Marxismo cercar alguém em uma possibilidade dual (tradição cristã): ou se é consciente e se participa da greve ou se é inconsciente e não se participa. Não existira a possibilidade de se ser consciente e não participar da greve? É fato que se uma vez consciente, indubitavelmente o indivíduo participaria da greve?

[xi] Embora saibamos que este livro não faz parte da Escola dos Annales, ele é devedor do campo de estudos e interpretações aberto por esta historiografia francesa.

[xii][xii] Como afirmou Simiand, a Escola dos Annales surge tendo em vista tombar três ídolos existentes: o “ídolo político, isto é, o estudo dominante, ou pelo menos perpétuo da história política, (...) o ídolo individual ou o hábito inveterado de conceber a história como história dos indivíduos (...) e o ídolo cronológico, ou seja, o hábito de se perder nos estudos das origens” (SIMIAN apud DOSSE, 1994, p. 92).  Na realidade, os Annales não abandonarão a história política, mas procurarão estudar não apenas ela; daí ser equívoco afirmar que eles abandonaram-na. Um dos próprios fundadores, Bloch, afirmará, n’Os reis Taumaturgos, que “quis dar... essencialmente uma contribuição à história política da Europa, no sentido amplo, no verdadeiro sentido da expressão ‘história política’” (BLOCH, 1993, p. 45), isto é, não mais a história política factual, diplomática, militar, mas pensar uma história problema numa “atmosfera mental”.

[xiii] Desta forma, estamos utilizando o filme como documento. Queremos ressaltar que os textos de Marx, principalmente O 18 Brumário de Luís Napoleão, são uma análise do processo ocorrido no século XIX e nosso documento, como já foi frisado é uma releitura da década de 80 do século XX.  

[xiv] Para mim, pelo contrário, o movimento do pensamento não passa do reflexo do movimento real, transposto para o cérebro do homem... O movimento contraditório da sociedade capitalista faz-se sentir no burguês da maneira mais chocante, pelas vicissitudes da indústria moderna através de seu ciclo periódico cujo ponto culminante é a crise. (BOURDÉ, G. & MARTIN, H. s/d, p. 158).

[xv] O próprio desenvolvimento das comunicações ajuda na manutenção de um contato entre lutas locais que têm o mesmo caráter em toda parte, concentrando em uma luta nacional, em uma luta de classe. (MARX e ENGELS, 1983, p. 372-373).

[xvi] Sobre esta questão, Sader nos chama a atenção para uma análise com relação a década de 80 do século XIX, quando se deu um encontro mais efetivo do movimento operário e das teorias marxistas. Os operários deste período eram bem diversificados, havendo uma massa de trabalhadores, mas também um grupo de artesãos e operários especializados, de onde brotará uma "aristocracia operária". Como sabemos, os sindicatos começaram a se organizar em prol das melhorias e eram comandados principalmente por este grupo de trabalhadores especializados. Do interior deles surge a "aristocracia operária", que procurou se separar da massa trabalhadora, tornando-se uma liderança sindical de caráter socialista, que procurava organizar esta massa. Este tipo de heterogeneidade no leva a refletir sobre a constituição do proletariado enquanto classe no marxismo. (SADER, 1986, pp. 22-24).

[xvii] Notamos que o personagem Tião possui uma descrença no movimento, pois argumenta que tudo aquilo que planejam ou pregam nunca chega a se efetivar, permanece sempre o mesmo.

[xviii] A burguesia também não podia ter consciência de classe e ainda ser bastante diversificada em seus interesses, mas algo a fazia diferir em relação ao proletariado: a burguesia tinha conhecimento de quem era o seu inimigo, de quem a ameaçava - o proletariado.  

[xix] Aqui notamos a importância da História que torna possível o conhecimento para que o agente histórico não venha mais ser "enganado" já que a para Marx a história não se repete. Neste sentido observamos um fato do filme referente a Otávio. Na trama, este personagem havia sido preso durante a Ditadura e permanecido durante este período nesta condição. Em alguns momentos Otávio sempre enfatiza que isto não voltaria a acontecer, pois sabia como agir e já tinha conhecimento suficiente para não permitir que algo lhe acontecesse. Apresenta-se como um exemplo do caráter da história que permite o conhecimento e que com ajuda deste conhecimento o proletário adquire consciência. 

[xx] Fazemos uma ressalva quanto à participação da mulher. No filme, vemos Maria e sua amiga na greve. Mas como nos chama a atenção Hobsbawn, historiador marxista, são poucos os estudos (incluindo os dele) que dão a atenção para a participação feminina na historiografia marxista, relegando a outra metade da raça humana. Mas ele também afirma que não deve haver um ramo que trata exclusivamente das mulheres, dado que os dois sexos são inseparáveis (HOBSBAWN, 1998, p. 143).  





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