![]() www.klepsidra.net |
Usando o Black-Tie: Despindo a obra de Gianfrancesco Guarnieri – O Cinema, o Marxismo e
a Escola
dos Annales[i] Jaqueline Lourenço Rafael de Abreu e Souza Simone Tiago Domingos[ii] Graduandos em História - Unicamp
elagabalus2003@yahoo.com.br |
Tião não pode ficar. Maria
não quer ir.
Otávio, no entanto, conserva a esperança: “Enxergando melhor a vida,
ele
volta”. (cena
do
filme Eles não usam Black Tie)
...
Opressores e oprimidos sempre estiveram em constante oposição uns aos
outros,
envolvidos numa luta ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que
terminou
sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade, ou
com o
declínio comum das classes em luta. (...) Proletários de todos os
povos,
uni-vos! (Karl
Marx
e Friedrich Engels)
... este
objeto não consiste apenas em trazer à luz só as crises políticas do
passado,
as aventuras guerreiras e diplomáticas de outrora, em estudar
perpetuamente o
Estado e os Estados, mas, sim, o Homem, desde o início o homem, homem
que age,
aflito, sofrendo e trabalhando, criando estes magníficos encantamentos
de arte
e literatura, construindo, á medida de suas necessidades, as grandes
religiões
e as grandes filosofias, dotando-se, mental e sentimentalmente, de um
futuro
humano que possa projetar para além de si mesmo e que o leva a
libertar-se de
seus humildes princípios de bruto, de pobre, mal dotado pela natureza,
inferior
a tantos brutos, poderosos, ferozes e bem armados. (Lucien
Febvre)
O presente artigo tem como objetivo
analisar o filme Eles
não usam black tie
– obra produzida em 1981, por Leon Hirszman,
baseada na peça de mesmo nome, escrita em 1955 por Gianfrancesco
Guarnieri e encenada no final da mesma década pelo grupo paulista
Teatro de
Arena – a partir das vertentes historiográficas do Marxismo e da Escola
dos Annales.

Gianfrancesco Guarnieri
e Fernanda
Montenegro em cena do filme
O filme, adaptado a um período de
greves e movimentos de lideranças sindicais, passa-se em São Paulo, em
1979, e
narra o confronto político-ideológico entre Otávio (interpretado por Gianfrancesco Guarnieri), um homem ligado às
lideranças do
movimento sindical e seu filho, Tião, o
qual coloca-se como um “protagonista
anti-herói”[iii],
à medida que fura a greve “menos por covardia e mais por convicção”, já
que a
greve era a defesa de um direito[iv]
que não quer usar, temendo perder o emprego, o que dificultaria seu
casamento
com Maria (Bete Mendes), que estava grávida.
Segundo Leon Hirszman, o
filme se chamaria Segunda-feira: Greve Geral.
O maior desafio em atualizar a peça teria
consistido em “saltar do espaço familiar do texto
original
para um espaço social mais amplo, das fábricas e das ruas. No filme, a
fábrica
existe, assim como a repressão social. A realidade da violência urbana,
diferente de 1956, a realidade da violência dos setores do regime
autoritário,
a violência interfamiliar, a violência do
cotidiano
foram os elementos que surgiram ou se desdobraram e com o passar dos
anos
vieram à tona no filme”[v].
Dessa maneira, a obra, com seus conflitos e contradições, é a
“recuperação do
espaço de participação política, o aumento do desemprego, o achatamento
salarial, o autoritarismo dentro das fábricas, a revolta dos jovens, de
todos.
É a experiência de gente que viveu também os anos 70, a repressão, a
tortura,
que adquiriu a consciência de que, apara mudar, é preciso se organizar”[vi].
Cabe salientar a influência da trajetória política do autor e ator Gianfrancesco Guarnieri, que escreveu a peça com
apenas 21
anos, sendo militante do movimento estudantil em São Paulo.
Embora
discorra sobre a
peça e não o filme, é relevante a colocação
do crítico
literário Décio de Almeida Prado ao afirmar que:
Eles não usam Black Tie põe
diretamente o
dedo na ferida. A greve é o seu tema ostensivo, uma greve operária, de
reivindicação por melhores salários, que acaba por separar pai e filho.
O pai,
revolucionário consciente de seus fins, forte da força de sua classe, é
um dos cabeças do movimento. O filho,
criado por circunstâncias
várias [no caso do filme, o período da ditadura no Brasil,
compreendendo de
1964 a 1979], em um ambiente diverso, pensa em primeiro lugar no
próprio futuro.
Corajoso quando se trata de enfrentar os homens – e o fato mesmo de
furar
deliberadamente a greve põe isso em evidência – e o seu medo é o de
outra
natureza: o grande medo de nossa sociedade moderna. O medo de ser
pobre. Jovem,
nas vésperas de se casar, com mulher e filho em perspectiva, só tem um
cuidado:
fugir de sua condição operária, melhorar de vida, subir – e quem ousaria, de consciência tranqüila, lançar-lhe a
primeira
pedra? (PRADO, 1964, p. 132)
Assim, de acordo com Hirszman,
o filme não teria o ideal de politizar. O propósito de seus produtores
era o de
abrir horizontes e mostrar que a política está integrada ao cotidiano,
não se
vinculando à política partidária.
Nos voltando ao eixo analítico ao qual procuraremos
nos debruçar,
colocamos a seguinte questão: por que o cinema como objeto de análise,
como
documento histórico? É importante lembrar que, a partir dos fundadores
dos Annales[vii],
a noção de documento amplia-se. Marc Bloch
e Lucien Febvre,
ao conclamarem os
historiadores para estudarem o homem e todos os seus vestígios, e não
somente
as grandes personalidades, passaram a considerar toda a produção
material e
espiritual humana como possibilidade de contato com esse homem do
passado, em
oposição ao positivismo do século XIX, onde se consideravam apenas
textos
escritos como fontes de “verdade”, numa história factual[viii].
Com a produção dos historiadores dos Annales, em suas três gerações, a
história
individual deixou de ser sintetizada, em detrimento das especificidades
de
épocas históricas, compreendidas a partir de seu caráter transindividual
(CARDOSO e MAUAD, 1997, p.403). Dessa maneira, cinema, fotografia,
etc.,
passaram a ser incluídos como fontes de leitura pelos historiadores.
No caso específico de Eles não usam black tie,
verificamos ser
possível revelar uma realidade externa da qual o filme seria leitura.
Assim, o
filme integra-se ao mundo social que o circunscreve: o período final da
ditadura no Brasil, a repressão e o movimento sindical paulista
despontando
como força do operariado. Destacam-se as posições antagônicas entre pai
e
filho, a força individual x a força coletiva (conflito sobre o qual
trataremos
nos apoiando numa visão marxista, trazendo à tona questões como a
consciência
política), a (des)organização
do proletariado, etc.
![]() Kombi da política, tombada na Praça da Sé, em São Paulo, após manifestação estudantil em 1968. |
Ou seja, questionamentos surgidos no século XIX, período
no qual desponta mais claramente uma burguesia revolucionária,
paralelamente a
um proletariado, classe social contrária à esta burguesia, igualmente
revolucionária, a qual deveria superar, através da revolução e da
força, o
poder, suprimindo, num segundo estágio, o Estado e todas as formas
burguesas de
organização, vivendo um pleno comunismo (MARX e ENGELS, 2002). Mas a obra de Gianfranceso Guarnieri também traz outras possibilidades analíticas. À luz da Escola dos Annales, é possível penetrar no mundo das personagens, construir uma micro-história, envolver-se no universo da mulher, da família, do casamento, do amor e de diversas outras relações estabelecidas pelo homem comum, a quem estes historiadores tanto deram atenção na constituição de uma história menos objetiva e mais “apaixonada”. |
Eles não usam Black Tie na
perspectiva dos Annales
Como a Escola dos Annales
nos apresenta uma imensidade de temas, especialmente a
chamada Nova História ou Terceira Geração, o filme nos fornece, como
fonte ou
documento, uma gama de assuntos. Porém, num primeiro momento, vemos
ninguém
menos do que os “excluídos da história”. Já Febvre
em
O homem do século XVI nos dizia,
numa crítica à
história dita pelos Annales como
tradicional,
que “é certo que a História estuda as obras do homem, mas nem sempre as
suas
boas obras. Estuda de bom grado e preferivelmente as obras más, digo:
as
guerras, os conflitos, as oposições de nações e raças, tudo que divide,
separa
e destrói o ideal humano. Mas, que são as obras sem os obreiros, de que
nós
nada sabemos?” (FEBVRE, 1960, pp. 4-5). Isto é o que trará os Annales: o fazer da História uma
“história humana da
humanidade” (FEBVRE, 1960, p. 16), que restaura ao homem a sua
fisionomia
verdadeira.
Deste modo, Febvre
propõe
uma história dos obreiros, dos homens que nunca aparecem nos grandes
acontecimentos: que se sabia na época da família camponesa do século
XVI? Estes
não ditos fazem parte de um silêncio que principalmente a Nova História
utilizará como fonte. É o que Le Goff chamou de
“silêncios da
história”: “silêncios que falam muitas vezes mais que a própria
palavra
escrita e o documento-monumento” (LE GOFF, 1990, p. 10).
Interpretando-os,
teremos uma diversidade de temas a tratar.
Estes excluídos da história vão emergir nos Annales,
especialmente com Febvre
e com a Terceira Geração. Coincidentemente, um livro de Perrot
que quase vai de encontro aos indivíduos que aparecem no filme é Os Excluídos da História:
mulheres,
operários, prisioneiros; com exceção dos prisioneiros, mulheres e
operários
aparecem no filme. Eles não usam Black-Tie nos apresenta uma
família com
seus homens, sendo alguns operários em uma fábrica, e suas mulheres,
algumas
delas também operárias, como a mulher de Tião
e sua
amiga. Assim, o filme serve como fonte para uma História da Família
operária no
século XX em São Paulo. Marquemos que a História da Família, embora Febvre tenha abordado-a n’O homem do século XVI, mesmo não
sendo este
seu objetivo no artigo, desenrolou-se mais a partir de Ariès
com História da Criança e da Família.

Os excluídos da
História, de Michelle
Perrot
Além da História da Família, o filme nos
possibilita
chegar a uma História da Morte ou das práticas que a envolvem. As
considerações
de Ariès em O homem diante da morte
podem ser
aplicadas ao filme, já que ocorre a morte de duas personagens, o pai de
Maria e
Bráulio: são dois enterros diferentes (um mais simples e o outro mais “glamuroso”), encarados de forma diferente, dado
que o
alcoólatra, o pai de Maria, não sendo autor de nenhum grande feito,
será
engolido pela História e esquecido (ou nem lembrado), enquanto o herói,
Bráulio, será relembrado e estudado, nas
palavras de
Otávio... Segundo Ariès, a morte não é um
ato
individual, mas algo celebrado por uma cerimônia mais ou menos solene,
com
finalidade de marcar a solidariedade do indivíduo e os laços entre a
comunidade
(ARIÈS, 1990, p. 658), e isto é o que vemos nas mortes de Eles não
usam
Black-tie – as famílias se aproximam, Bráulio é usado como bandeira
para
unir os grevistas, o pai de Maria é velado na
própria casa,
com poucos amigos, vizinhos e conhecidos, enquanto Bráulio está
cercado
de uma multidão de desconhecidos, etc.
Partindo disto chegamos também a uma
História do
Cotidiano, porque vemos ali a dinâmica das pessoas na casa, quando
comiam, como
se relacionavam, o que se fazia durante o
dia, etc.
Por exemplo, vemos que devido ao trabalho de Tião
e
Otávio, a família não tomava café junta, ou seja, é o social e o
econômico, a
necessidade de trabalhar tantas horas por dia para o sustento da
família numa
época de economia difícil, que faz com que o café da manhã seja
quebrado e não
tomado em família: o sócio-econômico interferindo nas práticas do
cotidiano. Le Goff
aborda uma História do
Cotidiano em O maravilhoso e o cotidiano no ocidente medieval
onde faz
um apanhado sobre a evolução e a decadência da história política. A
política
enraíza-se na história oficialmente, mas devido à influência do Antigo
Regime.
Ela é o reino da elite, e foi aí que a História Política empenhou-se em
buscar
a sua nobreza: fazendo parte do estilo aristocrático.
| Em suas pesquisas como medievalista, Le Goff introduziu novos métodos analíticos como a antropologia, a etnologia e a sociologia do conhecimento. Na obra mencionada anteriormente, tentando fugir do anacronismo, discorre sobre as diversas interpretações e concepções do maravilhoso, não só hoje, como também no contexto da Idade Média, usando da etnologia para explicar, por exemplo, a origem do termo miraculosus. Logo, a novidade na História atual é justamente a busca de como viviam os homens em seu dia-a-dia, não os grandes nomes, mas aqueles desconhecidos, dos quais nunca se fala, os não célebres (WOLFROMM, s/d, p. 65): um Tião, um Otávio, uma Maria, uma Romana. Para Wolfromm, gostamos de olhar para trás para ver como era feito o passado: como se dormia na Idade Média? Como se escolhia feijão no ABC paulista no século XX na classe operária? Como vivia o operário paulista no mesmo século? “Perguntas pontuais, banais, em suma, mas tão mais reveladoras de uma época do que as guerras, os tratados e os atos e delitos dos homens ilustres” (WOLFROMM, s/d, p. 66). | ![]() O maravilhoso e o quotidiano no ocidente medieval, de Jaques Le Goff |
Entrando neste mundo da família, da casa,
da morte,
do cotidiano, podemos fazer as Histórias das Vidas Privadas, não do
individualismo ou da intimidade, mas do quarto, do leito, etc. “No
privado,
encontra-se o que possuímos de mais precioso, que pertence somente a
nós
mesmos, que não diz respeito a mais ninguém, que não deve ser
divulgado,
exposto, pois é muito diferente das aparências que a honra exige
guardar em
público” (DUBY, 2002, p. 10): vemos como na casa de Otávio se dormia, se comia e se comportava.
![]() Os Reis Taumaturgos, de Marc Bloch |
O recinto domiciliar abriga um grupo, uma formação social, complexa, na qual as desigualdades chegam ao ápice (Otávio x Tião) e o poder dos homens se choca mais intensamente com o poder das mulheres (Tião x Maria; Otávio x Romana – esta mais claramente, pois não há quase cenas com participação extra-domicílio). Este cotidiano e este privado da Nova História foram caminhos abertos pela História das Mentalidades, cujo grande nome é Bloch, um dos fundadores dos Annales, e seu Os Reis Taumaturgos, no qual buscou mostrar a mentalidade religiosa por trás do poder político dos reis.Com base na crença do povo na cura das escrófulas, ele nos mostra que a mentalidade é a história do cotidiano e do automático, o que escapa aos sujeitos particulares da história porque é reveladora do conteúdo impessoal de seu pensamento (LE GOFF, 1988, p. 71): são os fenômenos que parecem sem raízes, gestos maquinais (hábito mental, gestual, expressões: de onde vêem?) imersos na lentidão da História. |
Deste modo, o filme
abre as portas para uma história das mentalidades se buscássemos, por
exemplo,
saber de onde vem o gesto e o costume de, como é mostrado na última
cena,
Romana e Otávio catarem café, cada um a seu modo, silenciosa e
maquinalmente, à
noite, e qual o significado de cada maneira.
Dentro desta trama de temas, o filme nos
fornece
fontes igualmente para uma História das Mulheres. Lembremos que ao
longo dos
séculos, a mulher foi vista como o outro,
o
incompreendido e o diferente. Entre a devassa e a virgem, entre
Eva e
Maria, elas passaram mudas pela história. Para Duby
e
Perrot, a dificuldade em fazer uma História
das
Mulheres está no que concerne às fontes serem masculinas: uma História
das
Mulheres feita por homens seria possível? (DUBY e PERROT, 1990, p.
7-19)
Contudo, mesmo que eles contassem sobre elas, suas visões seriam muito
mais
imparciais (visto que é praticamente impossível uma imparcialidade num
relato
histórico), posto que suas narrativas passar-nos-iam informações
provindas de
um homem que nos conta acerca de uma mulher, ou seja, suas opiniões e
tendências.
E quanto a elas, que diriam delas mesmas?
Não temos
relatos, ou temos muito poucos, no âmbito do Mundo Romano até, talvez,
a Idade
Moderna, e, mesmo hoje, nas classes mais baixas como a operária, há
poucas
mulheres falando de si mesmas. Então, que sabemos delas? Os tênues
vestígios
que nos deixaram provêm, como dissemos, não
tanto
delas próprias, mas do olhar dos homens que governavam a cidade,
construindo
sua memória e gerando seus arquivos. Para Duby
e Perrot, em geral, “o registro primário
do que elas fazem e
dizem é mediatizado pelos critérios de
seleção dos
escribas do poder. Indiferentes à vida privada, eles dedicam-se à vida
pública,
em que elas não participam” (DUBY e PERROT, 1990, p. 7). Vários
recenseamentos,
por exemplo, ao longo das épocas omitiam as mulheres. Mas antes de
serem
contadas, escritas ou narradas, as mulheres foram representadas, mesmo
levando
em conta que as imagens literárias têm maior profundidade de campo, já
que a
fluidez das palavras permite maior liberdade – apesar de escrita com as
palavras dos “homens” – do que a iconografia, regida por códigos
relativamente rígidos.
Ainda segundo os dois estudiosos,
“escrever a
história das mulheres supõe que estas sejam tomadas a sério, que se
reconheça à
relação dos sexos um peso nos acontecimentos ou na evolução das
sociedades”
(DUBY e PERROT, 1990, p. 12). Segundo os Annales,
nos fins do século XIX, quando a história positivista se constituiu
como
disciplina universitária, as mulheres acabaram sendo duplamente
excluídas:
primeiro, da sua área, visto que se consagra a vida pública e política,
e
segundo, da sua escrita, uma profissão vedada a elas. É só a partir da
redescoberta, no mesmo século XIX, da família como célula fundamental e
evolutiva das sociedades, o que se tornou o cerne de uma antropologia
histórica
que põe em primeiro plano as estruturas de parentesco e da sexualidade,
e,
conseqüentemente do feminino, que a História das Mulheres começou a
tomar seu
curso atual (DUBY e PERROT, 1990, p. 13).
Com os Annales,
como
mencionamos, há o alargamento progressivo do campo histórico às
práticas
cotidianas, aos comportamentos vulgares e às mentalidades comuns, muito
embora
a questão das mulheres só vá ser diretamente abordada com a Terceira
Geração.
Estudar sobre as mulheres de famílias operárias do século XX, como nos
mostra o
filme, ou sobre quaisquer outras mulheres, é fazer mais que uma
História das
Mulheres, é fazer a história das relações entre sexos, que acaba por
definir a
alteridade e a identidade feminina. Qual foi, através dos séculos, a
natureza
desta relação? Como funcionam e evoluem todos os níveis de
representação, dos
saberes, dos poderes e das práticas cotidianas? No trabalho? Na cidade?
Na
família? Na vida pública ou na privada? “Esta História está cheia de
mulheres e
por toda ela ecoam os seus murmúrios...” (DUBY e PERROT, 1990, p. 17).
Deste modo, temos como fontes
Romana e Maria, mães e mulheres. Maria é a mulher que participa
da
política, diferente de algumas interpretações que deixam as mulheres
fora desta
escala de poder. Ela luta na greve e tem seus próprios ideais,
nunca submissa ao homem. Romana, a dona de casa,
parece-nos a mulher que dá a última palavra no recinto do lar –
ali,
quase que literalmente, ela é uma mulher romana, uma matrona,
rainha
absoluta da casa; além do que, podemos ver a força dela quando Otávio é
preso e
ela simplesmente vai ao DOPS e o liberta. Se elas não têm o
poder, tem
poderes –
Segundo Perrot,
no Ocidente
Contemporâneo, elas investem no privado, no familiar e mesmo no social.
Os Annales aparecem com o desejo de
inverter as
perspectivas historiográficas tradicionais, de mostrar a presença real
das
mulheres na história mais cotidiana, como objetos de poder. Perrot
em Histoire sans
qualité, falando sobre a dona-de-casa,
uma Romana,
buscou “substituir a representação dominante de uma dona-de-casa
insignificante, negligenciada e negligenciável,
oprimida e humilhada, pela de uma mulher popular rebelde, ativa e
resistente,
guardiã das subsistências, administradora do orçamento familiar, no
centro do
espaço urbano” (PERROT, 1992, p. 172). Embora Romana pareça em parte
submissa a
Otávio, devemos refletir, no que concerne
ao filme
como fonte (questionemos o documento, como pregou tanto os Annales[ix])
escrita por um homem (Guarnieri), sobre como é tênue a linha entre
submissão e
manipulação, algo como a Catarina de A Megera Domada de
Shakespeare: até
que ponto ela controlava o marido fingindo ser submissa e conseguindo o
que
queira?
Vemos que as relações entre homem e
mulher, patrão e
empregado, pai e filho, sempre envolvem as ditas relações de
alteridade, e aqui
o filme mostra-se proveitoso como outra fonte de estudos já explorados
pela
nova história: o eu e o outro. Uma Teoria da Alteridade
caracteriza-se em como eu vejo o outro ou se relaciona
com ele. O
eu sempre foi uma obsessão; o outro é quase que uma
desculpa para
o eu falar de si mesmo. Não há como entrar na vida do outro,
não
há como resgatar o outro, visto que o eu teria de se
colocar no
lugar do outro; mas deste modo ocorrendo, seria o ponto de
vista dele e
não o do eu, pois eu seria ele (o outro). Eu nunca será objeto. Há também que se ter
em mente
que existem pressupostos fora do eu, que este tenta por no outro:
se não encontra estes pressupostos, penso que este outro é
melhor ou
pior do que eu – isto é o que basicamente trabalha De
Certeau (A Escrita da História) e Hartog (O Espelho de Heródoto). No filme,
o pai,
Otávio, nunca entende a posição do filho, o outro: para o pai,
o eu,
ele está certo, é detentor de uma verdade, e se o que o pai crê é que é
a
verdade, tudo o mais é o falso, o erro: portanto, Tião
está errado. O eu nunca consegue ver a perspectiva do outro:
Otávio não compreende Tião, Maria não
aceita suas
escolhas e o aponta como covarde, os grevistas não aceitam os
não-grevistas (e
alguns querem imputar pela força uma verdade); nunca enxergarão através
da
perspectiva de Tião, assim com ele nunca
enxergará
pela de Maria e assim sucessivamente.
O ponto no qual Maria acusa Tião
de covarde é relativamente um campo fértil para trabalhar, não só a
alteridade
como vimos, mas também a questão do indivíduo e do objeto da história.
Os Annales tentarão, como foi dito
acima, resgatar
aquele homem que não foi herói ou mártir, não teve a cara de uma
revolução ou
foi o rei de uma dinastia, questionando a historiografia marcada sob um
pano de
fundo cristão que ressalta o mártir, aquele que morreu por uma causa ou
lutou e
sofreu por ela: Otávio, por exemplo, enfrentou a violência e correu o
risco de
desestruturar sua família indo à greve; Bráulio,
enfrentou
a violência e morreu pela causa; Maria foi à greve mesmo arriscando sua
vida e
a de seu filho pela causa maior.
Poucos são os que pensam que a passividade
também é
uma forma de resistência política, também é uma forma de luta, uma
posição e
uma consciência[x].
E os heróis da resistência pacífica, como Tião,
aqueles que na história fugiram para não morrerem, para salvar um bem
maior, a
família, ou simplesmente ele mesmo? Um exemplo disto está no livro de Bruit, Las
Casas e a
Simulação dos Vencidos[xi],
sobre os astecas e suas formas pacíficas de resistência (bebedeiras,
trapaças,
etc.). O objeto da história continua sendo o homem, mas agora não mais
o
político e o de destaque, e, sim, o obreiro. O filme, logo,
documenta-nos a
família, as mulheres, cada um dos trabalhadores como obreiros da
história, dos
grandes feitos, e que, ou não aparecem ou aparecem sem rosto: um
coletivo
marxista.
Entretanto, a tendência clara à
historiografia
perpassada por uma tradição de valorização do ídolo individual[xii],
positivista, aparece em Eles não usam Black-Tie, na figura e na
representação dada a Bráulio, o amigo de Otávio, que morre na greve.
Otávio nos
diz, narrando o enterro, que daqui a algum tempo, ele será estudado
pela
História, como um grande nome: além de pressupor certa teleologia,
submerge-se
temporalmente a uma curta-duração, com destaque aos mártires, num tempo
rápido
e curto demais (já que a greve acabou de acontecer). Os Annales
trabalham com a questão do indivíduo (à exceção de Braudel,
no qual o indivíduo sucumbe meio às grandes estruturas na longa
duração), e não
só com os considerados célebres ou ligados à política.
Quanto à temporalidade, o filme nos mostra
duas
posições: longa e curta duração, Tião e
Otávio. Para
o segundo, a greve, ação imediata, mudaria o curso dos acontecimentos,
numa
curta duração, tempo curto “à medida dos indivíduos, da vida cotidiana,
de
nossas ilusões, de nossas rápidas tomadas de consciência” (BRAUDEL,
1978, p.
45); o tempo da historiografia tradicional, atenta ao tempo breve, ao
indivíduo, ao evento, habituando-se a uma narrativa precipitada,
dramática, de
fôlego curto. Por outro lado, para Tião, e
segundo o
mesmo, em uma de suas falas, por mais greve que se faça, nada muda ou
mudará.
Enquanto o pai tem perspectiva do presente, o filho olha para um
futuro. Para Tião, os acontecimentos assim
rápidos e explosivos não
alteram a História, e aparecem quase que insignificantes numa
perspectiva
maior: é uma visão quase braudeliana. Braudel, segunda geração dos Annales,
“mergulhava a História numa grande ampulheta, onde o tempo –
matéria-prima de
toda a teoria da História – flui com desesperadora lentidão, alheia e
imune aos
projetos e sonhos de todas as matemáticas sociais” (MICELI, 1998, p.
261), uma
história organizada sobre o tempo longo e quase imóvel, onde pouca
coisa muda.
Obviamente, Tião
não leva a
longa-duração ao extremo, se não nem ele mesmo existiria, tendo em
vista que Braudel não abre espaço ao
indivíduo, dado que este é muito
pequeno frente ao tempo, clima, cultura, etc. Entretanto, parece que Tião sabe que frente às grandes estruturas, ele,
um ponto
no oceano, não significaria nada e sua posição também não afetaria o
curso das
coisas.
Em uma perspectiva geral, o que o filme
faz é a
partir da família operária mostrar a greve, ou, em outras palavras,
partir da
parte para o todo. Tal movimento é similar ao que faz Febvre
n’O problema
da descrença
no século XVI: a religião de Rabelais, partindo de um ponto,
Rabelais, e
tentando chegar ao homem do século XVI – mas, será que é possível tal
generalização? Essa homogeneidade de um exemplo poder ser aplicado a
todos?
Será que uma greve específica reflete todas as greves do país, será que
os
pensamentos e problemas de uma família refletem a de todas as famílias
da classe
operária brasileira? Aliás, Febvre não diz
trabalhar
com o conceito de mentalidades, como Marc
Bloch, mas
com o de psicologia coletiva (presença de um inconsciente coletivo do
qual é
difícil fugir) e a indagação aqui deveria ser: até que ponto é valido
ou
podemos trabalhar com uma psicologia coletiva? Talvez o filme nos
mostre também
que a crença na greve não é unânime, havendo dissidências, como o
próprio Tião, que não recebe influências
externas, como afirma Febvre ao dizer que
o indivíduo, para fugir deste
inconsciente coletivo, deve receber influências externas.
Voltemos, antes de concluir esta
interpretação do
filme com base nos Annales, à
questão citada
anteriormente: o filme nos apresenta diversos temas, pois os Annales abriram o campo de pesquisa do
historiador.
Contudo, há críticas a esta postura, advinda
especialmente de
François Dosse. Para ele, a nova
história
teria se fragmentado tanto que a história esmigalhou-se, perdeu seu
objeto, não
sendo esta geração nem mesmo herdeira da de Bloch e Febvre,
dado que, segundo o autor, abandonaram a
história
totalizante, perdendo a história sua peculiaridade dentro das ciências
sociais
(DOSSE, 1994, p. 181). Temos de lembrar que Dosse
não
critica a Escola dos Annales, mas
alguns
historiadores dentro dela, mais especificamente os da chamada Nova
História, já
que devido à enormidade de temas a história se fragmentou, tornando-se
descritiva, isto é, neopositivista,
justamente a
corrente a qual os Annales se
propuseram a
combater em seus inícios; deste modo, Duby
e Le Goff
ficam fora dos “ataques”,
porque conseguem dialogar entre os diferentes campos da história, o
político, o
econômico, o cultural, etc., coisa que, segundo Dosse,
alguns, como Ladurie, não fazem.
Eles não usam black
tie: uma
abordagem Marxista
Utilizando o filme Eles não usam
black-tie, torna-se possível igualmente compor uma análise a
partir da
teoria marxista, enfatizando algumas cenas e personagens.[xiii]
Primeiramente, temos um filme que ressalta o cotidiano das pessoas da
classe
mais baixa, destacando um momento de tensão referente ao trabalho numa
indústria da cidade, isto é, a insatisfação dos operários com relação
às
condições a que estavam submetidos. Sabemos que o motor da história
para Karl
Marx é a contradição, que culmina na destruição de uma estrutura e no
aparecimento de outra.[xiv]
O filme justamente trata de um momento de conflito entre os operários e
os
patrões (burgueses), em que o proletariado busca seus direitos através
de
greves, protestos e organização sindical.
Marx nos coloca que, na época da
burguesia, o
antagonismo de classe se simplificava, dividindo-se em dois vastos
campos
opostos - o campo da burguesia e o campo do proletariado. No filme,
como
ressaltamos, temos esta oposição, mas que privilegia a posição e
movimento dos
proletários, isto é, um olhar predominante sobre os operários, enquanto
a burguesia
é representada pela indústria (MARX e ENGELS, 1983, p. 366).
No Manifesto do Partido Comunista
temos uma
obra que sintetiza a organização e os ideais do movimento comunista.
Anteriormente destacamos que o filme trata do cotidiano dos operários
entre os
familiares e na própria indústria. Sabemos que o projeto de Marx é de
caráter
mundial, isto é, não se restringe a uma cidade ou país. Consideramos
importante
destacar que apesar deste aspecto internacional do movimento
proletário, Karl
Marx não rejeita esta característica de uma movimentação mais
localizada que o
filme nos apresenta. No Manifesto do Partido Comunista nos diz:
O proletariado passa por
diferentes
fases de desenvolvimento. Logo que nasce começa sua luta contra a
burguesia.
(...) A princípio, empenham-se na luta operários isolados, mais
tarde
operários de mesma fábrica, finalmente operários do mesmo ramo de
indústria
de uma mesma localidade, contra o burguês que o explora diretamente (MARX e ENGELS, 1983, p. 372). (Grifo
nosso)
Segundo Sader,
na obra Marxismo
e Teoria da Revolução Proletária, Marx oferece elementos que
permitem
pensar na historicidade das condições do movimento proletário. Esta
historicidade significaria a compreensão da realidade cotidiana que se
torna
algo mais: um elemento constitutivo da História. A experiência
de
opressão capitalista e a resistência vivida no cotidiano podem ser
pensadas
como um fenômeno coletivo e podendo fundar um movimento coletivo
(SADER, 1986, p. 20).
Dentro desta perspectiva, podemos fazer
uso de outras
considerações, como, por exemplo, a do coletivo. No filme vemos
acontecimentos em torno da organização de um movimento, que possui os
seus
líderes, como Otávio e Santini, mas a sua
atuação
está condicionada a uma questão social coletiva - dos proletariados.
Marx, em
sua obra O Dezoito Brumário de Luis
Bonaparte,
nos indica que não se deve haver uma valorização do indivíduo na ação,
mas,
sim, do coletivo. Nesta obra, temos uma crítica feita pelo autor,
presente no
"Prefácio", ao trabalho de Victor Hugo, Napoleão, o Pequeno.
Considera a obra importante dentro da temática do Golpe de Luís
Bonaparte, mas
que o autor:
... limita-se à invectiva mordaz e
sutil
contra o responsável pelo golpe de Estado. O acontecimento propriamente
dito
aparece em sua obra como um raio caído do céu. Vê nele apenas o ato de
um
indivíduo. Não percebe que engrandece, ao invés de diminuir, esse
indivíduo,
atribuindo-lhe um poder pessoal de iniciativa sem paralelo na história
do mundo. (MARX,
1974, p. 331)
Este trecho nos permite dizer que o papel
do
indivíduo na concepção de história de Marx deve ser diminuído. Marx,
como
sabemos, trabalha com um movimento dialético, isto é, de conflito de
classes. O
personagem desta história é sem rosto, é a massa dos homens. Todos eles
possuem
responsabilidade. Esta análise é estendida aos grandes grupos,
procurando
identificar quem detinha o poder. Cabe a todos os homens a sua parcela
de
participação nos fatos. Mas ressaltemos que, dentro do movimento, podem
existir
líderes, embora estes ajam em favor da massa da população. Sader
destaca que Marx anuncia um modo de pensar que é inseparável do fazer
coletivo,
algo que permitiu ao marxismo tornar-se significativo na contestação à
ordem
capitalista (SADER, 1986, p. 30).
O ponto central do filme compreende a
organização dos
operários para um movimento de contestação e em prol de melhorias nas
condições
do trabalho. Diante desta situação podemos destacar algumas personagens
de uma
obra de ficção que nos remete à teoria marxista.
No filme temos uma organização sindical
que está em
discussão dentro de uma fábrica. A discussão se refere à preparação de
uma
greve que reivindicava melhorias no salário e nas condições de vida. No
Manifesto,
Marx nos chama atenção para a formação destas organizações:
Em virtude da
concorrência crescente
dos burgueses entre si e devido às crises comerciais, os salários se
tornam
cada vez mais instáveis... os choques
individuais
entre o operário e o burguês tomam cada vez mais o caráter de choques
entre as
duas classes. Os operários começam a formar uniões contra os burgueses
a atuam
em comum na defesa de seus salários; chegam a fundar associações
permanentes a
fim de se prepararem, na previsão daqueles choques eventuais. Aqui e
ali a luta
se transforma em motim. (MARX e ENGELS, 1983, p.
372)
Portanto, temos a organização do
proletariado que se
revolta e o resultado desta revolta é efêmero, mas o maior resultado é
uma
união cada vez mais ampla dos trabalhadores[xv].
Porém, no filme, encontramos os operários divididos
dentro da
própria organização, caracterizada por dois personagens - Otávio
e Santini. O primeiro deles busca uma
organização e
unificação do movimento, enquanto Santini
defende a
realização da greve naquele momento, com o uso da violência. Isto nos
evidencia
uma heterogeneidade dentro da classe dos proletariados[xvi].
Ainda destacamos que Santini é um
estrangeiro
apelidado de "Italiano" e possui a característica de agitador. Isto
nos faz pensar que talvez seja uma alusão aos movimentos ocorridos no
século XX
na Europa. Sader destaca em seu livro o
caso dos obreiristas italianos,
que se apoiaram em
Marx ao buscar uma alternativa para burocratização sindical e
partidária.
Contra o que chamavam de fetichismo das organizações, buscaram
o
conteúdo das mesmas a partir do conteúdo das lutas. Na década de 60,
vão
procurar o lugar original dos conflitos de classes, que haviam sido
anulados
pela política institucional, nas fábricas (SADER, 1986, p. 47). Esta
atitude é
encontrada, portanto, em Santini, que
busca agitação
na fábrica e efetiva ação grevista.
É relevante destacar que o proletariado em
si é uma
classe revolucionária. O próprio filme[xvii]
se questiona, através do personagem de Tião:
por que
mesmo depois de tantas lutas, greves e revoltas, o proletariado não
alcançou a
vitória ou a tomada do poder? Dentro desta questão podemos marcar um
fator
importante dentro da teoria marxista - a consciência de classe.
Em sua
obra O 18 Brumário de Luis Bonaparte,
Marx,
como mencionamos acima, faz uma análise o
golpe de
Estado de Luis Bonaparte. No segundo período (de 4
de
maio de 1848 até fins de maio de 1849) ocorre a fundação de uma
República
Burguesa. Foi um embate entre o proletariado e a burguesia (que depois
de uma
monarquia burguesa liderada por Luís Felipe, tentava fazer "toda a
burguesia governar em nome do povo"). Esta última triunfou e o
proletariado se viu passar "para o fundo da cena revolucionária".
Marx ressalta que:
Sempre que uma das
camadas
superiores entra em efervescência revolucionária o proletariado alia-se
a ela
e, conseqüentemente, participa de todas as derrotas sofridas pelos
diversos
partidos. (MARX e ENGELS,
1983, p.
341)
Diante destas palavras, podemos dizer que
assim como
a burguesia[xviii]
busca aliados, o proletariado age da mesma
forma, mas
a classe que na sua essência é revolucionária não alcançou a vitória,
pois não
estava preparada, não tinha consciência de classe - quando o sistema de
aliança
se manifestava, na realidade, o proletariado estava "debaixo" de uma
ideologia que não era sua e não lhe permitia ser dominante no decorrer
de toda
a movimentação. Este momento histórico do qual Marx faz menção, nos
traz uma
amostra de que o proletariado estava com armas nas mãos para
desempenhar uma
revolução, mas não estava preparado para tal, pois não tinha
desenvolvido
consciência do papel que a classe deveria exercer. Verificamos que o
estudo da
história adquire, para Marx, a função de auxiliar para que o agente
histórico
não seja “enganado”, assim como não há rejeição com relação ao
conhecimento,
que viabilizaria a tomada de consciência por parte do proletariado -
que
deveria ser o responsável pela revolução social do século XIX.[xix]
Sobre a questão da aliança com a burguesia
também a
presenciamos no filme através do personagem Jesuíno que faz acordos com
a
burguesia relatando para esta informações
que lhe eram
úteis. Já Tião, não aderindo à greve é
visto como um
traidor e está em oposição à atitude de seu pai, Otávio. Este, por sua
vez, é
aquele que possui consciência e sabe da necessidade de organização do
movimento. Nesta situação presenciamos a existência de consciência
assim como a
sua falta. Sobre a consciência, Marx nos diz:
O modo de produção da
vida material
condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a
consciência que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social
que
determina a sua consciência. Em certa etapa de seu desenvolvimento, as
forças
produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações
de
produção em existentes (...) De formas evolutivas das forças produtivas
que eram, essas relações convertem-se em
entraves. Abre-se,
então, uma época de revolução social. Quando se consideram tais
transformações,
convém distinguir sempre a transformação material das condições
econômicas de
produção (...) e (...) as formas ideológicas sob as quais os homens
adquirem consciência
deste conflito e o levam até o fim. É preciso, ao contrário, explicar
esta
consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que
existe entre
as forças produtivas que possa conter, e as relações de produção. Uma
sociedade
jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças
produtivas
que possa conter, e as relações de produção
novas e
superiores não tomam jamais o seu lugar antes que as condições
materiais de
existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da
velha
sociedade.(...) As relações de produção burguesas são a última forma
antagônica
do processo de produção social, antagônica não no sentido de
antagonismo
individual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência
sociais
dos indivíduos... (MARX e ENGELS, 1983, p. 233-234).
A consciência é adquirida em um momento de
conflito e
está condicionada ao seu ser social. Desta forma, o
proletariado ao
desempenhar sua "missão" não cria nada, mas se utiliza daquilo que já
está determinado pelo seu ser. Marx aponta que os homens ainda
vivem com
a linguagem do passado mesmo em situações inéditas e que estes devem se
despir
deste passado - encontrando uma nova linguagem - e de um projeto que é
constantemente refeito segundo experiências históricas (SADER, 1986,
pp.
20-21). Neste sentido, o proletariado inconsciente de seu papel
enquanto classe
revolucionária acaba por não atuar no movimento como tal. Vemos isto no
personagem de Tião que não aderiu à greve
e ainda se
aliou à burguesia. Esta mesma aliança foi feita pelo amigo de Tião, Jesuíno, que possui uma mentalidade
pequeno-burguesa.
Ele é burguês e povo ao mesmo tempo, tendo um sinal de contradição no
seu
próprio ser, pois não alcança o primeiro, mas também não age dentro de
uma
consciência proletária.
Outra personagem que desejamos destacar é
Maria,
consciente do que estava ocorrendo e de seu papel quanto atuante no
movimento[xx].
Quanto ao seu noivo, Tião, vemos
o contrário, não estava consciente e se mostra alienado. Marx destaca
que:
O trabalhador se torna
tão mais
pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em
poder e
extensão.(...) O trabalho não produz só
mercadorias,
produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria (...)
quanto mais o trabalhador se
gasta trabalhando, tão mais poderoso se torna o mundo objetivo alheio
que ele
cria frente a si, tão mais pobre se torna ele mesmo, o seu mundo
interior (...)
O trabalhador se torna, portanto, servo do seu objeto (...) para que
possa
existir primeiro como trabalhador e, segundo, como sujeito
físico.(...)
O salário é uma conseqüência imediata do trabalho alienado, é o
trabalho
alienado é a causa imediata da propriedade privada. Por
conseguinte, com um dos aspectos também tem que cair o outro..." (MARX e ENGELS, 1983, pp. 146-162)
Temos, portanto, uma análise da
propriedade privada
através do trabalho alienado - se uma cair o outro também cai. Quando Tião não aceita participar da greve e deseja
melhores
condições para criar seu filho que está a caminho, faz isto com o
intuito de
melhorar, trabalhar e ter mais dinheiro. Segundo Marx, o que faz é se
tornar
mais escravo ainda, pois apesar de produzir mais, o lucro não
virá para
ele (há uma desvalorização do mundo dos homens). Lembramos também que o
salário
é a primeira conseqüência do trabalho alienado.
Desta maneira, destacamos através do filme
Eles
não usam black-tie a teoria marxista em alguns de seus conceitos.
Desejamos
mostrar o movimento proletário e o conflito de classes enfatizando a
questão da
consciência e alienação. Para finalizarmos, apresentamos um argumento
feito
pelo personagem Tião. Em um momento do
filme, ele diz
que a greve é um direito e que não aderiu não por covardia, mas por
convicção.
Dentro de uma perspectiva marxista, Tião,
como já
dissemos, é um pequeno-burguês que não age para povo ou com
povo.
Seria um homem que não tem consciência de classe e permanece preso ao
trabalho
alienado. Através desta posição do personagem, aproveitamos para
levantar uma
questão quanto à teoria marxista. A não adesão à greve não pode ser
também uma
posição política, uma escolha?
Considerações
finais
Assim, o presente artigo procurou fazer
uma análise
do filme Eles não usam black tie,
utilizando-o como documento histórico, e à luz das teorias Marxistas e
referentes aos historiadores da Escola dos Annales.
Gostaríamos de enfatizar, todavia, que ao trabalhar, sobretudo com o
Marxismo,
devemos ter um certo cuidado, visto que a
teoria marxiana fora constituída num
momento específico e para uma
sociedade específica: século XIX e sociedade européia, durante a
Revolução
Industrial. O cuidado ao aplicar tais conceitos na análise de um filme,
deve
ser pensando para não acabarmos cometendo anacronismos, já que a
situação é
completamente adversa àquela para qual Marx e Engels
construíam seu pensamento.
Com relação aos Annales,
também é necessário pensar a crítica atribuída a esta Escola por
François Dosse, já que, com tanta
fragmentação, o sentido da
história poderia acabar por perder-se. Embora a crítica tenha a sua
lógica
própria, acreditamos ser, pelos motivos apresentados, possível se fazer
diversas interpretações tomando o filme como documento. Acreditamos,
finalmente, que a obra Eles não usam black
tie constitui um meio de se produzir
uma rica
diversidade de trabalhos, sejam eles pautados no Marxismo ou em
diferentes
dimensões dos Annales e da Nova
História, como
o artigo em questão procurou trazer.
ARIÈS,
P. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 1981.
________.
O Homem diante da Morte, v. II. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1990.
BLOCH,
M. Os Reis Taumaturgos. São
Paulo: Cia das Letras, 1993.
BOURDÉ,
G & MARTIN, H. As Escolas Históricas. Lisboa:
Europa-América, s/d.
BRAUDEL,
F. Escritos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1978.
BRUIT,
H. Bartolomé de las
Casas e a simulação dos vencidos. Campinas: UNICAMP, 1993.
BURKE,
P. A Escola dos Annales. São
Paulo: UNESP,
1997.
CARDOSO,
C. F. & MAUAD, A. M. História e Imagem: os exemplos da fotografia e
do
cinema. In: CARDOSO, C. F. e VAINFAS, R. (org.) Domínios da
História.
Ensaios de Teoria e Metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
DE
CERTEAU, M. A Escrita da História. Rio de Janeiro:
Forense-Universitária, 1982.
DOSSE,
F. A História em Migalhas: dos Annales
à Nova
História. São Paulo: Ensaio, 1994.
DUBY,
G. Prefácio à História da Vida Privada. In: DUBY, G. & ARIÈS, P.
(org.). História da Vida
privada: do
Império Romano ao Ano Mil,
v. 1. São
Paulo: Cia das Letras, 2002, pp. 9-11.
DUBY,
G. & PERROT, M. Escrever a história das mulheres. In: DUBY, G. & PERROT, M. (org.) História
das mulheres no Ocidente,
v. 1,
Porto: Afrontamento, 1990, pp. 7-19.
FEBVRE,
L. Combates pela História. Lisboa: Presença, s/d.
__________.
O homem do século XVI. In: Revista de História, n.º 1,
1960, pp. 3-17.
__________.
O problema da descrença no século XVI. Lisboa: Início, 1970.
HARTOG,
F. O Espelho de Heródoto. Belo Horizonte: UFMG, 1999.
HIRSZMAN, L. “Eu também
não uso Black
Tie”. É bom
falar. Montagem de entrevistas por
Arnaldo Lourenço e Carlos Augusto Calil, Mostra
Leon de Ouro, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1995.
HOBSBAWN,
E. J. Pessoas Extraordinárias. São Paulo: Paz e Terra, 1998.
LE
GOFF, J. O maravilhoso e o cotidiano no ocidente medieval. Rio
de
Janeiro: 70, 1990.
__________.
Reflexões sobre a História. Lisboa: Edições 70, 1986.
__________.
As mentalidades: uma história ambígua. In: LE GOFF, J. & NORA,
P. (org.). Nova História:
novos objetos
– parte 3. Rio de Janeiro:
Francisco
Alves, 1988, pp. 68-84.
MARX,
K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In:
MARX, K.
Manuscritos Econômicos- filosóficos e
outros textos
escolhidos. Seleção de textos de José Arthur Gianotti.
Coleção "Os Pensadores". São Paulo: Abril Cultural, 1974.
MARX,
K & ENGELS, F. O Manifesto do Partido Comunista. São Paulo:
Martin Claret, 2002
______________________. História.
FERNANDES, F.
(org.) São Paulo: Ática, 1983, pp. 230-380
MICELI,
P. A Escola dos Annales: questões de
método.
Campinas: CEMODECON, 1999.
_________.
Sobre a Escola dos Annales - Braudel e os vaga-lumes. In: FREITAS, M. (org.).
Historiografia
brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998, pp. 259-270.
PERROT,
M. Os Excluídos da História. São Paulo: Paz e Terra, 1992.
PRADO,
D. A. A Evolução da Literatura Dramática. In: COUTINHO, A. A
Literatura no
Brasil, v. 6. Rio de Janeiro: Sul Americana, 1971, pp. 7-37.
REIS,
J. C. Annales - A Revolução da
História.
Ouro Preto: UFOP, 1996.
SADER, E. Marxismo e
Teoria da Revolução
Proletária. São Paulo: Ática, 1986.
WOLFROMM,
J.-D. Quarenta Anos de Vida Cotidiana. In: LE GOFF, J; DE
CERTEAU, M; LADURIE, E. (org.). A
Nova História, Lisboa:
Edições 70,
s/d.
[i] Trabalho realizado à
disciplina HH 481 A – Teoria da História II no Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas (IFCH) da UNICAMP sob orientação do Prof. Dr. José
Alves
Freitas Neto
[ii] Alunos do 3° ano de
graduação em História no IFCH da UNICAMP. Rafael Souza faz parte do
grupo de
pesquisa de Arqueologia Histórica NEE/UNICAMP, sob orientação do Prof.
Dr.
Pedro Paulo Funari. Jaqueline Lourenço e
Simone
Domingos fazem parte do projeto Política e Memória no Império: a
Revista do
IHGB e a política partidária do Segundo Reinado, sob orientação da
Prof.
Dr. Izabel Marson.
[iii] Tal classificação foi dada
pelo produtor da obra, Leon Hirszman, no
texto “Eu
também não uso Black Tie”,
em É bom falar, montagem de entrevistas por Arnaldo Lourenço e
Carlos
Augusto Calil (LOURENÇO e CALIL, 1995).
[iv] Traído nada! Greve é defesa
de um direito, nóis não qué
usá esse direito e ta acabado. Cada um
resolve seus
galhos como pode. Palavras
atribuídas à própria personagem Tião,
interpretada por Carlos Alberto Riccelli,
em Eles
não usam black tie.
[v] Idem.
[vi] Idem.
[vii] No que se refere à fundação dos Annales, cabe lembrar que a chamada Escola dos Annales nasce mais exatamente em 1929 com a publicação dos Annales d’histoire économique et sociale, cuja direção pertencia a Marc Bloch e Lucien Febvre, que concretizaram a idéia da nouvelle histoire, entendida por François Furet como sendo “a história sob a influência das ciências sociais”, que começou a ser elaborada a partir de debates entre sociólogos, filósofos e historiadores, no início do século XX (REIS, 2000, p. 65). A Escola dos Annales, de acordo com Miceli, teria nascido num contexto conturbado: época do pós-1ª Guerra, da crise de 1929 com a quebra da bolsa de Nova York, estendendo-se até o segundo pós-guerra, a ascensão dos regimes totalitários e o aviltamento do preço da vida humana; período este, no qual a historiografia dita tradicional tinha como matéria-prima fundamental obras mal elaboradas por ela mesma. (MICELI, 1999, p. 15).
[viii] Embora o historiador Fustel
de Coulanges já falasse,
em pleno século XIX, em trabalhar com fontes não verbais, sua posição
no
período não teve muito impacto: “Onde o homem passou e deixou marca de
sua vida
e inteligência, aí está a História”. (CARDOSO e MAUAD, 1997, p.401).
[ix] Os Annales inovam os métodos de pesquisa em um aspecto interessante que é o aproveitamento dos documentos “falsos”. Por exemplo, Le Goff, em seu livro Reflexões sobre a história (1986), afirma que é preciso reconhecer que todo documento falso constitui também uma verdade histórica, ou seja, um texto que pretende remontar ao século IX, porém sendo escrito no século XII, é um documento falso do século IX, mas um autêntico documento do século XII, informando, por exemplo, o que pensavam os homens deste século sobre os do século IX. Não é certo simplesmente marginalizar o documento falso como fazia a crítica tradicional: uma série deles, que engloba um certo período de tempo, “diz-nos muito sobre este período” (LE GOFF, 1986, p. 85); cada tipo de fonte exige um tratamento diferente, no interior de uma problemática de conjunto: analisar um documento dito “falso”, não é contradizê-lo, mas interpretá-lo, desmontá-lo e lê-lo como um reduto complexo da realidade. Não importa, portanto, se Guarnieri descreve a situação das mulheres como ela é, mas o que importa é saber que ele faz uma interpretação numa determinada época. Estes novos métodos de pesquisa visavam ampliar e multiplicar os objetos da História. Os documentos, assim, não são mais “uma matéria inerte que reconstituíram o passado em si” (REIS, 1996, p. 92).
[x] É muito do
Marxismo cercar alguém em uma possibilidade dual (tradição
cristã): ou
se é consciente e se participa da greve ou se é inconsciente e não se
participa.
Não existira a possibilidade de se ser consciente e não participar da
greve? É
fato que se uma vez consciente, indubitavelmente o indivíduo
participaria da
greve?
[xi] Embora saibamos que este
livro não faz parte da Escola dos Annales,
ele
é devedor do campo de estudos e interpretações aberto por esta
historiografia
francesa.
[xii][xii] Como afirmou Simiand,
a Escola dos Annales
surge tendo em vista tombar três ídolos existentes: o “ídolo político,
isto é,
o estudo dominante, ou pelo menos perpétuo da história política, (...)
o ídolo
individual ou o hábito inveterado de conceber a história como história
dos
indivíduos (...) e o ídolo cronológico, ou seja, o hábito de se perder
nos
estudos das origens” (SIMIAN apud DOSSE, 1994, p. 92). Na realidade, os Annales
não abandonarão a história política, mas procurarão estudar não apenas
ela; daí ser equívoco afirmar que eles abandonaram-na. Um dos próprios
fundadores, Bloch, afirmará, n’Os
reis Taumaturgos, que “quis dar... essencialmente uma contribuição
à
história política da Europa, no sentido amplo, no verdadeiro sentido da
expressão ‘história política’” (BLOCH, 1993, p. 45), isto é, não mais a
história política factual, diplomática, militar, mas pensar uma
história
problema numa “atmosfera mental”.
[xiii] Desta forma, estamos
utilizando o filme como documento. Queremos ressaltar que os textos de
Marx,
principalmente O 18 Brumário de Luís
Napoleão,
são uma análise do processo ocorrido no
século XIX e
nosso documento, como já foi frisado é uma releitura da década de 80 do
século
XX.
[xiv] Para mim, pelo contrário, o
movimento do pensamento não passa do reflexo do movimento real,
transposto para
o cérebro do homem... O movimento contraditório da sociedade
capitalista faz-se
sentir no burguês da maneira mais chocante, pelas vicissitudes da
indústria
moderna através de seu ciclo periódico cujo ponto culminante é a crise. (BOURDÉ, G. & MARTIN,
H. s/d, p. 158).
[xv] O próprio desenvolvimento
das comunicações ajuda na manutenção de um contato entre lutas locais
que têm o
mesmo caráter em toda parte, concentrando em uma luta nacional, em uma
luta de
classe. (MARX e ENGELS, 1983, p. 372-373).
[xvi] Sobre esta questão, Sader
nos chama a atenção para uma análise com relação a
década de 80 do século XIX, quando se deu um encontro mais
efetivo do movimento operário e das teorias marxistas. Os operários
deste
período eram bem diversificados, havendo uma massa de trabalhadores,
mas também
um grupo de artesãos e operários especializados, de onde brotará uma
"aristocracia operária". Como sabemos, os sindicatos começaram a se
organizar em prol das melhorias e eram comandados principalmente por
este grupo
de trabalhadores especializados. Do interior deles surge a
"aristocracia
operária", que procurou se separar da massa trabalhadora, tornando-se
uma
liderança sindical de caráter socialista, que procurava organizar esta
massa.
Este tipo de heterogeneidade no leva a refletir sobre a constituição do
proletariado enquanto classe no marxismo. (SADER, 1986, pp.
22-24).
[xvii] Notamos que o personagem Tião possui uma descrença no movimento, pois
argumenta que
tudo aquilo que planejam ou pregam nunca chega a se efetivar, permanece
sempre
o mesmo.
[xviii] A burguesia também não podia
ter consciência de classe e ainda ser bastante diversificada em seus
interesses, mas algo a fazia diferir em relação ao proletariado: a
burguesia
tinha conhecimento de quem era o seu inimigo, de quem a ameaçava - o
proletariado.
[xix] Aqui notamos a importância
da História que torna possível o conhecimento para que o agente
histórico não
venha mais ser "enganado" já que a para Marx a história não se
repete. Neste sentido observamos um fato do filme referente a Otávio.
Na trama,
este personagem havia sido preso durante a Ditadura e permanecido
durante este
período nesta condição. Em alguns momentos Otávio sempre enfatiza que
isto não
voltaria a acontecer, pois sabia como agir e já tinha conhecimento
suficiente
para não permitir que algo lhe acontecesse. Apresenta-se como um
exemplo do
caráter da história que permite o conhecimento e que com ajuda deste
conhecimento o proletário adquire consciência.
[xx] Fazemos uma ressalva
quanto à
participação da mulher. No filme, vemos Maria e sua amiga na greve. Mas
como
nos chama a atenção Hobsbawn, historiador
marxista, são poucos os estudos (incluindo
os dele) que dão a
atenção para a participação feminina na historiografia marxista,
relegando a
outra metade da raça humana. Mas ele também afirma que não deve haver
um ramo
que trata exclusivamente das mulheres, dado que os dois sexos são
inseparáveis
(HOBSBAWN, 1998, p. 143).
|
|
![]() |
![]() |
| Os excluídos da Histíória, de Michelle Perrot |
Os Reis Taumaturgos, de Marc Bloch |
A História em migalhas, de François Dosse |
O Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels |