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A expansão econômica na região platina
nos séculos XVIII e XIX

Gabriel Passetti
Mestrando em História Social/USP
Bolsista Fapesp
passetti@klepsidra.net

INTRODUÇÃO

 

            Este texto decorre de reflexões, discussões e leituras desenvolvidas no curso “História Econômica da América Colonial: problemas e debates”, ministrado pelo Prof. Dr. Horácio Gutierrez, no Programa de Pós-Graduação em História Econômica da USP, e procura refletir sobre as historiografias econômicas das últimas duas décadas sobre a região platina nas últimas décadas do período colonial.

 

            O objetivo é observar as semelhanças e diferenças nas análises de diferentes linhas historiográficas, seus principais enfoques e contribuições para o avanço da compreensão da história desta região do Império Colonial Espanhol.

 


Divisão administrativa e principais núcleos populacionais no século XVII.
Fonte:  BETHELL. Leslie (org). História da América Latina, vol. 1. São Paulo: Edusp, 1999, p. 284.

 

            Para isso, foram selecionados textos com abordagens seguindo o modelo liberal, o marxista, e também outro da nova história econômica, dos anos 1990. Este último procurou o afastamento dos modelos pré-estabelecidos, considerando as especificidades dos mercados coloniais como incompatíveis com modelos pensados para o sistema capitalista.

 

            A análise destas diferentes formas de observar e entender a história platina procura ser um estudo pontual de comparação entre diferentes formas de se entender e se pesquisar em História Econômica.


HISTORIOGRAFIAS E ABORDAGENS

 

Os artigos presentes na coleção “História da América Latina”, organizada por Leslie Bethell, basearam-se na teoria liberal para entender a economia platina colonial, dedicando especial atenção à produção voltada ao mercado exterior, desconsiderando a crescente participação do mercado interno no consumo dos produtos agropecuários. A produção é estudada em larga escala, como monocultura pecuária, sem se ater à pequena e média produção que escapava ao modelo exportador.

 

O objeto de estudo dos articulistas da coleção repousa nas áreas que mais se destacaram na colonização espanhola. As análises dirigiram-se para a Nova Espanha e a região andina, em contraponto às regiões descritas como periféricas, caso da bacia do Rio da Prata.

 


Eixos comerciais no cone sul, século XVIII.
Fonte: PINTO RODRIGUEZ, J., p. 30.


Heloisa J. Reichel, por sua vez, em sua tese “Contribuição para o estudo da formação social capitalista na América Latina: o caso da Campanha de Buenos Aires – 1830-1840”, baseou-se no materialismo histórico para entender a dinâmica econômica da região.

 

Ao analisar o período colonial como base para a formação capitalista na província de Buenos Aires, a autora também focou a pesquisa na importância do mercado externo na definição da economia platina, e desconsiderou o papel desempenhado por pequenos e médios produtores agrícolas para o abastecimento do mercado interno, para a formação da estrutura fundiária capitalista na região e para a definição dos grupos sociais nos pampas.

 

Em “Estancia y sociedad en la pampa – 1740-1820”, entretanto, Carlos Mayo inverteu o enfoque econômico empregado nas pesquisas históricas sobre a região platina. Seu trabalho, em conjunto com as pesquisas de Juan Carlos Garavaglia [1] , e de Jorge Gelman [2] , evidenciou o dinamismo econômico da região, a forte presença da agricultura e o vital papel desempenhado pelos pequenos e médios produtores para o abastecimento do mercado interno.

 

A renovação historiográfica na década de 1990 – Mayo escreveu em 1995 e Gelman em 1998 – expandiu os horizontes das pesquisas sobre a região platina colonial, desmistificando o papel dos estancieros no período, e acompanhando novos estudos que evidenciam a independência econômica da colônia frente à metrópole, maior que o esperado e o considerado pelas historiografias liberal, marxista e depedentista.

 

 

Primeira análise: região periférica, desconhecimento histórico

 

A monumental compilação “História da América Latina”, organizada por Leslie Bethell, e publicada originalmente pela Cambridge University Press em 1984, encara a região platina, no segundo volume do tomo “América Latina Colonial”, como periférica e irrelevante ao Império Colonial Espanhol.

 

            Quatro artigos analisam a região e o período. Entretanto, em mais de cento e cinqüenta páginas, raras são as referências à região platina. Magnus Mörner, em “A economia e a sociedade rural da América do Sul Espanhola no período colonial”, é quem mais se debruça sobre o Prata, em decorrência de sua análise regionalizada sobre o Império; dedica àquela região de dois a quatro parágrafos em cada item de seu texto – “Posse da terra, capital e trabalho”, “Produção”, “Comércio” – , incluindo as  Missões Jesuíticas, evidenciando restrito interesse pela região, senão certo desconhecimento.

 

      Para Mörner, a produção agropecuária que caracterizava a região platina era voltada fundamentalmente para o mercado externo em virtude da carência de mercados internos: “acima de tudo, a ausência de mercados domésticos impunha limites muito estreitos à produção da maioria dos produtos agrícolas. Os setores que se desenvolveram estavam atrelados à demanda externa (...). Depois de 1750, quando a produção passou a basear-se na estancia, as exportações logo alcançaram um nível bem mais alto (...). Ademais, até certo ponto, agora, além da gordura e do sebo, a carne era também exportada” [3] .
A igreja jesuíta situada na
cidade de Córdoba era o
principal edifício da capital
jesuítica na América do Sul.


            Mörner, por não localizar um mercado interno dinamizador da economia, filiou-se à interpretação baseada na dinâmica dos latifúndios pecuaristas monocultores de bovinos e exportadores, fundada na tese da inexistência de um mercado interno efetivo – em oposição à situação existente nas áreas da mineração – em que a sobrevivência econômica dos produtores estava vinculada à exportação.

 

O autor se manteve fiel à análise tradicional do sistema colonial espanhol, em que eram consideradas como zonas dinâmicas da economia as que mantinham maior vinculação com a metrópole, como as zonas de mineração. As demais áreas, certamente menos importantes para os interesses imperiais, são vistas sob a caracterização de incapacidade econômica e de paralisia social. A produção voltada ao mercado interno e o crescimento populacional, por conseguinte, são desconsiderados na medida em que a análise sustenta o foco na tradicional divisão entre “colônia de povoamento” e “colônia de exploração”, dentro da qual a colonização espanhola teria sido do segundo tipo.

 

        Ao entender a colonização espanhola restrita à exploração mineradora, quando não monocultora, voltada ao mercado metropolitano, Mörner procurou por este mesmo sistema na bacia do Prata. Todavia, a tarefa mostrou-se inviável em decorrência da configuração econômica distinta existente naquela região. O desinteresse metropolitano pelos dos produtos lá produzidos, derivados da pecuária e com baixo valor agregado, e, a dificuldade financeira imposta pela equação distância x valor final do produto, fizeram com que o sistema econômico existente apresentasse especificidades que fugiram do padrão colonizador espanhol e por isso mesmo acabaram não sendo captadas pela análise de Mörner.

 

            Desta forma, ele apenas constatou que havia grande capacidade ociosa nas unidades produtivas platinas em decorrência do despovoamento da região, pois “as empresas de agricultura e de criação de gado na América do Sul espanhola durante o período colonial raramente podiam produzir com sua capacidade plena: o tamanho do mercado não o permitia[4] . O problema reduz-se ao que havia de potencial produtivo lucrativo não explorado, evitando enfrentar as complementaridades à economia exportadora realizadas pelo mercado interno, ainda que incipiente, sem o qual não há capitalismo.

 

            O trabalho de Mörner é um interessante exemplo da historiografia liberal, focada nos grandes centros mineradores e em suas relações com a metrópole, deixa de observar a dinâmica interna das zonas periféricas e suas especificidades quanto à produção, mão-de-obra e acesso à terra.

 

            Três outros artigos completam a análise do livro sobre a América Espanhola Colonial. Murdo J. Macleod, em “Aspectos da economia interna da América Espanhola Colonial: mão-de-obra; tributação; distribuição e troca”, Nicolás Sánchez-Albornoz, em “A população da América Espanhola Colonial”, e Richard Morse, em “O desenvolvimento urbano da América Espanhola Colonial” pouco se dedicam à região platina em seus artigos, refletindo certo desconhecimento ou desinteresse pelas zonas periféricas neste grande manual de História Latino-Americana.

 

 

Segunda análise: latifundiários no presente, estancieros no passado

 

            Heloisa Jochims Reichel, em sua tese “Contribuição para o estudo da formação social capitalista na América Latina: o caso da Campanha de Buenos Aires – 1830-1840”, de 1989, parte de uma constatação presente – a predominância do latifúndio na Argentina – para compreender o passado.

 

A autora se interessa, especialmente, em entender a formação do sistema capitalista na região, dedicando especial atenção à concentração de terras entre os estancieros durante as primeiras décadas seguidas à independência política argentina.

 

         As décadas de 1830 e 1840, são apreendidas segundo o estudo de longa duração da acumulação de terras na região do Prata, exigindo constantes referências à época colonial, e com isso possibilitando uma comparação crítica com as outras historiografias.



A linha de fronteira entre brancos e índios na Argentina e no Chile, em 1840.
Fonte: 
SALOMON, Frank & SCHWARTZ, Suart B. (orgs). The Cambridge History of the Native
Peoples of the Americas. Volume III: South America, Part
2. Cambridge:
Cambridge University Press, 1999, p. 170.



            Localizando as grandes estruturas que permitiram a organização do capitalismo nos pampas, Reichel fundamenta sua pesquisa em documentação governamental e em relatos de viajantes. Mesmo restritas aos produtores com acesso à burocracia estatal e às observações e interpretações de estrangeiros, suas fontes mostram que a documentação oficial analisada explicita os interesses dos grandes produtores com relação ao aumento da capacidade de exportação e de exploração da mão-de-obra. Contudo, não oferece bases para a compreensão das estratificações no acesso à terra. Indicam somente a presença de latifúndios pecuaristas voltados ao mercado externo, legitimando o surgimento da concentração de terras evidenciada no presente e embasando a teoria do desenvolvimento atrelado à proximidade com a metrópole.

 

            Segundo Reichel, “a criação do Vice-Reinado do Prata e a derrocada das leis que proibiam o comércio inter-provincial (...) estimularam uma melhor exploração da potencialidade comercial do porto de Buenos Aires. Pela primeira vez, a região platina esteve em condições de aproveitar ampla e abertamente os vastos recursos pecuários que haviam se acumulado durante os séculos anteriores nos seus campos, fazendo com que crescesse a importância dos couros e dos sebos na pauta das suas exportações[5] .

 

            Apesar de lançar mão de metodologia e objetivos diferentes, Reichel constata uma estrutura econômica semelhante a Mörner. Para ela, a produção na região platina colonial esteve sufocada pela diminuta taxa de consumo do mercado interno, pelo impedimento do comércio pelo porto de Buenos Aires e pelas dificuldades econômicas em fornecer bens com preços competitivos à Europa. A produção voltada para a exportação estaria centralizada em grandes unidades produtivas, semelhantes àquelas encontradas no século XIX: “a estância estava consagrada ao gado. Assim como a mão-de-obra e os instrumentos de trabalho, suas terras eram utilizadas, substancialmente, na busca da preservação e crescimento dos rebanhos”  [6] .

 

            A autora localizou o início do processo de concentração de terras na Argentina, delimitou as ações judiciais, militares e políticas que levaram à concentração de terras, mas ao focar o período colonial, desconsiderou o crescente – apesar de ainda pequeno – mercado interno, e o papel desempenhado pelos peões e capatazes em uma região com excesso de terras e falta de mão-de-obra.



Em "Que mojadura!", Florencio Molina Campos procurou representar o binômio dos pampas: homem e cavalo.
Acervo Fundação
Florencio Molina Campos.
Sua análise sobre a peculiar figura do gaucho, revela certo desconforto diante das regulamentações do mercado de trabalho: “acostumados a uma vida semi-nômade e a cruzar a campanha em busca da carne e do couro que lhes garantia a sobrevivência, os gaúchos necessitavam mais do que nunca de mecanismos de controle e de coerção, a fim de se transformarem em força de trabalho disponível e eficaz às atividades da estância” [7] .


Ela, enfim, deixa de analisar o papel desempenhado por estes indivíduos na ocupação do território e na produção de bens voltados para o crescente mercado urbano do porto de Buenos Aires, e se restringiu às bases da lógica capitalista no campo no final do período colonial: “as terras da estância estavam consagradas ao gado. Em vista disso, era proibido aos trabalhadores construir edificações que não fossem autorizadas pelo proprietário, caçar ou criar aves e animais, semear a terra ou praticar qualquer outra atividade que pudesse prejudicar a tranqüilidade dos rebanhos ou o espaço destinado ao pastoreio. Também era vedado aos peões criar o seu próprio gado dentro da estância de seus patrões, mesmo que fosse para sua sobrevivência apenas” [8] .

 

            Foi a lógica do aumento da mais-valia obtida da terra e da força de trabalho, que, enfim, cerceou a produção independente dos gauchos e, com isso, impediu a ascensão social desta classe, fadada a manter-se como assalariado.


      Contrariando sua conclusão, autores da nova historiografia econômica da década de 1990 explicitam o inverso: houve um processo de concentração de terras nas mãos de poucos estancieros, e isso se deu após a independência política argentina, em decorrência da falência dos pequenos e médios produtores, após a crise de mercados resultante das guerras de independência e de crises econômicas internacionais.
Em "Consejos del Viejo",
Florencio Molina Campos procurou representar a solidão e o caráter do gaucho argentino. Acervo Fundação Florencio Molina Campos.
 

Terceira análise: a descoberta dos pequenos e médios produtores

 

            Carlos Mayo, em “Estancia y sociedad en la pampa, 1740-1820”, de 1995, proporciona uma mudança na compreensão da história econômica da região platina no final do período colonial.

 

            Em sua pesquisa, “o estudo dos dízimos produziu uma reviravolta na imagem de uma Campanha de Buenos Aires que parecia dominada pela pecuária, na qual a agricultura definhava, encurralada às terras mais próximas à cidade de Buenos Aires”  [9] .

 

            A reviravolta na compreensão da economia platina colonial ocorreu porque Mayo procurou deter-se na lógica da produção, incluindo os pequenos e médios produtores, incorporando os ignorados pelos demais pesquisadores como os arrendatários e os agregados.

 


O eixo de colonização na Argentina seguiu a rota que ligava o
Atlântico ao Pacífico e às minas peruanas.
Fonte:  SARASOLA, Carlos Martínez, p. 100.


            A documentação obtida e analisada mostrou que, “na Campanha de Buenos Aires, apesar de haver algumas estâncias realmente grandes, estas não predominavam. A pequena e a média propriedades rurais eram o padrão”  [10] . Sua constatação foi seguida de inúmeras outras, que explicitaram uma heterogeneidade até então impensada para a região: as estâncias não produziam apenas para o mercado externo, não eram monocultoras e nem vendiam apenas couros.

 

A maioria das unidades produtivas agrárias era de caráter pecuário e as maiores alcançavam níveis de lucratividade mais expressivos do que as agricultoras, que costumavam ser proporcionalmente mais caras, em função das benfeitorias, mas menos lucrativas. Para os grandes proprietários, a pecuária era um excelente negócio lucrativo, mas para os pequenos e médios, sem capital suficiente para investir em muito gado, surgia a possibilidade de conciliar pequenos rebanhos com a produção de alimentos, principalmente o trigo.

 

Não havendo uma rígida divisão na produção e aqueles voltados à pecuária também produziam alimentos, tanto quanto os agricultores também mantinham pequenos rebanhos. A produção de couro ocupava apenas 30% da pauta de exportações, e por conseguinte, grande parte da renda dos pecuaristas provinha do fornecimento de carne para o mercado urbano de Buenos Aires.

 

Segundo Mayo, havia agricultura em determinadas áreas da unidade pecuarista, além de diferenças no rebanho, fatos desconsiderados até então pela historiografia tradicional. O gado vacum era praticamente onipresente, sendo ¼ leiteiro, voltado exclusivamente ao mercado interno, assim como os eqüinos que apareciam em grande número – em 93,92% das propriedades – e, surpreendentemente, os ovinos, em 63% do total. Enfim, “a produção pecuária era rentável e sua exploração muito mais racional do que se acreditava”  [11] , levando os criadores a diversificarem a produção, os produtos e seu destino. Diferentemente do que se costumava afirmar, a produção pecuária da região platina colonial também passava a ser caracterizada estando fortemente atrelada ao mercado interno – com a venda de carne e derivados do leite – , diversificando produtos, criando também eqüinos para meio de transporte e ovinos para as tecelagens.



O avanço da fronteira entre índios e brancos na segunda metade do século XVIII esteve focada
na conquista dos rios Salado e Saladillo, considerados fronteiras naturais.
Fonte: SARASOLA, Carlos Martínez, p. 134.


            Carlos Mayo, com outros historiadores, como Garavaglia e Gelman, proporciona importante mudança nos rumos dos estudos sobre o final do período colonial nas periferias do Império Espanhol. Ao ater-se, além da documentação oficial e a viajantes, à contabilidade rural e eclesiástica, descobriu os pequenos e médios produtores e o inevitável mercado interno, fazendo aparecer outras diferentes estruturas de acesso aos meios de produção, aos bens de consumo, à política e ao poder. Serão necessários muitos outros trabalhos para que os levantamentos de Mayo sejam apurados e desdobrados,  mas, incisivamente, o autor fugiu dos modelos e identificou estruturas econômicas escondidas na, até então, rígida estrutura imperial espanhola.

 


HISTORIOGRAFIAS E MERCADO INTERNO COLONIAL PLATINO

 

            Acompanhar diferentes historiadores, municiados de diferentes teorias, metodologias e documentações, analisando a mesma região no mesmo período, leva a evidentes semelhanças e diferenças entre eles, compondo um mapa específico para o caso pesquisado.

 

            No âmbito circunscrito deste estudo, os autores destinaram especial atenção às relações com o mercado exterior; entretanto, quanto ao acesso à terra, aos mercados de trabalho, de produção e internos, o mesmo não pode ser dito.

 

            Priorizar o estudo do mercado externo em detrimento das relações locais, e considerar que a sociedade estava voltada para a exportação apenas explicita uma compreensão da história latino-americana tendo caminhado acompanhando a história européia, um efeito da colonização segundo as repercussões do modelo colonizador. Neste sentido, os estudos da Nova História Econômica são decisivos ao atenuar a intensidade atribuída à influência do mercado europeu na formação das zonas produtoras latino-americanas. Enquanto tradicionalmente a pesquisa sobre a produção reitera o teórico vínculo umbilical com a metrópole super-exploradora das colônias, as novas pesquisas demonstram as limitações da influência do mercado metropolitano na definição de produtos e preços nas colônias latino-americanas.

 

A imagem de uma região platina no final do período colonial dominada por enormes propriedades de terra “consagradas ao gado”, com o monopólio no acesso à terra por parte dos estancieros exportadores compactuados com os comerciantes portuários e povoada por errantes e inconfiáveis gauhos acabou sendo abalada por estas novas pesquisas, problematizando a hegemonia da tese fundada na monocultura para o mercado externo.

 

A região platina que emergiu a partir deste estudo da documentação agrária e eclesiástica foi consideravelmente heterogênea diante da homogeneidade pecuarista antes entendida. Os pampas ao serem mostrados pontilhados por pequenas e médias propriedades pecuaristas e agrícolas, voltadas ao mercado interno, questionam a ênfase determinista da documentação tradicional na produção das grandes estacias, geralmente eclesiásticas, para mostrar uma situação nova, descrita com base na diversidade.

 


A fronteira indígena do sul, no século XVIII, era a meta das invasões de diversas etnias.
Fonte:  JONES, Kristine L., p. 158.


Além da facilidade no acesso à terra, que proporcionava constantes faltas de mão-de-obra e permitia a ascensão econômica de peões gauchos maduros, os novos pampas que emergiram destas pesquisas explicitaram, também, a complexidade nas relações sociais e econômicas entre as diferentes instâncias e classes sociais que dividiam a região, evidenciando uma racionalidade na produção antes incompreendida.

 

O que fora descrito por liberais, marxistas e depedentistas como sendo uma região na qual pouca mão-de-obra cuidava de muito gado em estancias de tamanhos incomensuráveis, apareceu agora como uma região na qual a falta de mão-de-obra e o excesso de terras assombrava os grandes proprietários. As relações de trabalho, antes vistas como uma luta entre o grande produtor e uma mão-de-obra errante, passou a ser entendida como uma relação mais equilibrada. Os produtores geralmente eram tão simples quanto seus empregados, e sem poder recorrer à desejada mão-de-obra escrava, e receosos de depender dos errantes gauchos, estes produtores optaram por trocar terras por trabalho com agregados, arrendatários e até escravos.

 

Liberais, marxistas e os historiadores contemporâneos concordam em afirmar que a região platina sofria com a baixa densidade populacional. Entretanto, para Mörner isto significou o engessamento da estrutura econômica e social por impedir o crescimento da produção e do consumo. Reichel, por sua vez, observou a super-exploração sobre a pouca mão-de-obra disponível. Porém, Mayo entendeu que os baixos níveis populacionais, adicionados à grande oferta de terras acabaram gerando uma situação confortável aos gauchos, que podiam se tornar agregados ou arrendatários, trocar de emprego após uma proposta melhor, ou abandonar a pecuária quando as colheitas de trigo se tornavam mais rentáveis.


            Um mesmo acontecimento, observado por diferentes pesquisadores, pôde ser interpretado de formas diversas. De acordo com os objetivos das pesquisas e com as documentações utilizadas, as conclusões variaram da super-exploração ao relativo conforto dos gauchos.

O isolamento gaucho e a vastidão na oferta de terras
foram vistas por
Florencio Molina Campos em A visitar
la hija
. Acervo Fundação
Florencio Molina Campos.

 

Reichel e Mayo também divergem na questão escravista. Para a primeira, “os escravos realizavam as tarefas que podemos denominar de ‘sedentárias’ na estância colonial, ou seja, aquelas que não exigiam o uso do cavalo. Trabalhavam na produção dos couros e do sebo principalmente, deixando aquelas relativas ao cuidado do gado nos rodeios, à sua marcação, doma ou preparação para o abate aos peões da campanha”  [12]  , e “ao final do período colonial, mais precisamente no ano de 1810, ele [número de negros] era de 11.837, sendo que todos ainda eram escravos. Esse total correspondia a menos de 50% da população branca, que era de 28.116 pessoas, dado que pode ser relacionado com o incipiente desenvolvimento de uma atividade produtiva que ainda se caracterizava por absorver pequena mão-de-obra e com a utilização de escravos principalmente no setor de serviços. Assim tanto a pecuária quanto a mão-de-obra negra não se constituíam em alicerces da economia da região” [13]. Já para Mayo, a mesma questão fora entendida de maneira oposta: “era habitual, por exemplo, ver aos negros montando e realizando outras atividades em torno do gado vacum (...). Quase todas as atividades supunham que o escravo andasse a cavalo e passasse longas horas do dia em campo aberto, fora do controle do capataz (...). O trabalho escravo era perfeitamente funcional às atividades da estância colonial de Buenos Aires” [14] , e “o escravo negro não apenas teve papel decisivo na estância colonial, como também sua quantidade, aparentemente tão reduzida quando comparada às cifras globais de população, foi relevante se compararmos com o total da mão de obra (...) do campo” [15] .

 

O confronto entre as historiografias evidencia diferenças na documentação e em sua utilização, para além dos objetivos das próprias pesquisas. Preocupada em entender a formação do sistema capitalista em Buenos Aires, Reichel ignorou – talvez seguindo uma imagem criada pela historiografia tradicional – a importância econômica e moral do uso do escravo nas estancias. Por outro lado, Mayo, procurando entender a formação dos pequenos e médios produtores, em contraposição às grandes estancias, entendeu a questão escravista como fundamental em ambos os sentidos.

 

Disto resulta que na historiografia que se manteve fixa a modelos pré-determinados, que não se encaixavam à realidade pampeana colonial, esta foi entendida a partir de moldes capitalistas ainda não totalmente delineados.

 

A análise liberal do final do período colonial na região platina focou a produção das grandes estancias  e o destino final externo de seus produtos. Suas pesquisas estiveram especialmente interessadas no funcionamento das grandes unidades produtivas de pecuária que objetivavam o comércio de couros.

 


A divisão administrativa do Vice-Reino do Rio da Prata.
Fonte:  SARASOLA, Carlos Martínez, p. 136.


A análise marxista, por sua vez, preocupou-se com a ocupação das terras e a formação do sistema de dominação social e econômico, enfocando a questão do controle do território, as formas de produção e de coerção da elite estanciera sobre os peões gauchos.

 

Por fim, a nova historiografia econômica estendeu as informações do acesso aos meios de produção e de venda por parte dos pequenos e médios produtores, geralmente antigos peões. Com isso, suas pesquisas estão desvendando a teia de relações entre produtores e intermediários no acesso aos mercados externo e regional; procuraram compreender quais foram as estratégias de sobrevivência destes produtores, que eram maioria em número e em quantidade de produtos, mas que tinham pouca margem para enfrentar as crises econômicas.

 

O enfoque direcionado para as grandes propriedades gerou análises nas quais os pampas pareciam estar controlados por uma pequena e poderosa elite, enquanto os novos estudos evidenciaram a luta pelo poder e pelo reconhecimento por parte destes indivíduos frente a um sem número de pequenos e médios produtores, que também se diziam estancieros e cuja produção não estava voltada apenas à metrópole, mas também ao mercado regional.

 

Foram os grandes proprietários, que conquistaram o poder de Estado após a independência política, que escreveram as Histórias Argentina e Uruguaia, e que sobreviveram economicamente por sua maior capacidade de manobra diante das crises, com diversificação da produção e acúmulo de capitais.

 

Já os pequenos e médios produtores, dependentes de intermediários para alcançarem os comerciantes exportadores de Buenos Aires, e vinculados diretamente à renda imediata de sua produção, foram submetidos gradualmente pelas crises econômicas decorrentes da independência e das guerras européias. Suas propriedades foram capturadas pelos estancieros, e suas histórias ficaram, até recentemente, escondidas sob documentações incomuns.

 

A História Econômica dos pampas no final do período colonial não pode desconsiderar o vital papel desempenhado pelos mercados europeu e andino, foco da produção dos grandes estancieros, mas também deve – e este processo já começou – mostrar as histórias dos pequenos e médios produtores que se dedicaram a produções que pouco diferiam da subsistência e do escambo, mas que foram vitais para a definição da estrutura fundiária e social na bacia do Prata. É por este deslocamento que poderão ser compreendidas com maior precisão as formações de classes e estratos sociais que repercutem até hoje na história da América Latina.

 


Principais núcleos populacionais do Império Espanhol no século XVIII
Fonte: vol 1 p 401


            O mercado regional platino, que não se encaixou em nenhum modelo pré-determinado, tinha especificidades decorrentes da relação entre excesso de terras e carência de mão-de-obra, gerando uma situação que facilitava o acesso aos meios de produção, estimulava o mercado interno de trocas e a produção voltada ao consumo urbano. Desvendar como tal situação ocorria e como foi combatida pelos estancieros é um trabalho ainda a ser detalhado e que certamente encontrará semelhanças em outras regiões periféricas dos impérios coloniais europeus.

 

BIBLIOGRAFIA

 

GARAVAGLIA, Juan Carlos. “El mercado interno colonial a fines del siglo XVIII: México y el Perú” in BONILLA, Heraclio (ed.). El sistema colonial en la América Española. Barcelona: Editorial Crítica, s/ data.

 

GELMAN, Jorge. Campesinos y estancieros: una región del Rio de la Plata a fines de la epoca colonial. Buenos Aires: Editorial los libros del Riel, 1998.

 

MACLEOD. Murdo J. “Aspectos da economia interna da América Espanhola Colonial: mão de obra; tributação; distribuição e troca” in BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina: América Latina Colonial, Volume 2. São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 1999.

 

MAYO, Carlos A. Estancia y sociedad en la pampa, 1740-1820. Buenos Aires: Biblos, 1995.

 

MÖRNER, Magnus. “A economia e a sociedade rural da América do Sul Espanhola no período colonial” in BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina: América Latina Colonial, Volume 2. São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 1999.

 

MORSE, Richard M. “O desenvolvimento urbano da América Espanhola Colonial” in BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina: América Latina Colonial, Volume 2. São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 1999.


REICHEL, Heloisa Jochims. Contribuição para o estudo da formação social capitalista na América Latina: o caso da Campanha de Buenos Aires – 1830-1840. São Paulo: Departamento de História/FFLCH-USP, 1989. Tese de doutoramento.

 

SÁNCHEZ-ALBORNOZ, Nicolás. “A população da América Espanhola Colonial” in BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina: América Latina Colonial, Volume 2. São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 1999.

 



[1] Garavaglia questionou a tese da produção colonial ser fundamentalmente voltada para a exportação. Para ele, esta costumava ser o destino de 1/5 da produção nas colônias (Cf. GARAVAGLIA, Juan Carlos. “El mercado interno colonial a fines del siglo XVIII: México y el Perú” in BONILLA, Heraclio (ed.). El sistema colonial en la América Española. Barcelona: Editorial Crítica, sem data).

[2] GELMAN, Jorge. Campesinos y estancieros: una región del Rio de la Plata a fines de la epoca colonial. Buenos Aires: Editorial los libros del Riel, 1998.

[3] MÖRNER, Magnus. “A economia e a sociedade rural da América do Sul Espanhola no período colonial” in BETHELL, Leslie (org.) História da América Latina: América Latina Colonial, Volume 2. São Paulo: Edusp; Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 1999, pp. 209-210.

[4] Idem, p. 217.

[5] REICHEL, Heloisa Jochims. Contribuição para o estudo da formação social capitalista na América Latina: o caso da Campanha de Buenos Aires – 1830-1840. São Paulo: Departamento de História/FFLCH-USP, 1989. Tese de doutoramento, p. 20.

[6] Idem, p. 157.

[7] Idem, p. 207.

[8] Idem, pp. 199-200.

[9] MAYO, Carlos A. Estancia y sociedad en la pampa, 1740-1820. Buenos Aires: Biblos, 1995, p. 29.

[10] Idem, p. 37.

[11] Idem, p. 46.

[12] REICHEL, Heloisa Jochims. Contribuição para o estudo da formação social capitalista na América Latina: o caso da Campanha de Buenos Aires – 1830-1840. São Paulo: Departamento de História/FFLCH-USP, 1989. Tese de doutoramento, pp. 191.

[13] Idem, pp. 189.

[14] MAYO, Carlos A. Estancia y sociedad en la pampa, 1740-1820. Buenos Aires: Biblos, 1995, pp. 140-141

[15] Idem, p. 135.






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As raízes históricas do Mercosul, de Heloisa Reichel
História da América Latina, vol. 1, org. Leslie Bethell História da América Latina, vol. 2, org. Leslie Bethell Fronteiras: paisagens, personagens, identidades, org. Horacio Gutierrez




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