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O Terço de Antônio Filipe Camarão: sua cooptação e evolução militar durante a invasão holandesa

José Augusto Moreira Jr.
Mestrando em História Social - USP
jaugusto72@yahoo.com.br
 

 

Resumo

 

Durante os séculos XVI e XVII, a Europa experimentou um período de revolução militar que deu origem a um modelo moderno de guerra baseado na Infantaria armada de piquetes. Na Espanha, surgiu o Terço, organização militar que misturava soldados armados de piques com soldados armados de arcabuzes e mosquetes, e em pouco tempo alcançou a superioridade militar na Europa.

 


Arcabuz
        A revolução militar no Brasil se realizou com o aumento do controle burocrático da metrópole sobre a população e o modo de se travar a guerra. Após o fim da invasão holandesa, ocorre o abandono gradual da guerra brasílica e sua substituição por técnicas européias.


A guerra brasílica ainda subsiste por algum tempo nas campanhas no interior da colônia contra as tribos indígenas inimigas, mas no litoral ocorre uma rápida substituição e abandono das técnicas locais por técnicas européias.  Para Evaldo Cabral de Mello, “a guerra volante arcaizou-se..e no ultimo quartel do século XVII já estava reduzido a ‘guerra do mato’, vale dizer, técnicas apenas de áreas atrasadas, afastadas da marinha e das praças fortes, boas apenas para sertanistas de São Paulo, bugres e negros aquilombados. Em Pernambuco e na Bahia, o conhecimento da guerra volante não sobreviveu a geração que a empregou contra o invasor” holandês.[1]


No começo do século XVIII, a diferenciação ou especialização de funções conseguiu impor-se. A Guerra Brasílica ou volante era utilizada para conter os índios ou negros rebelados. Para repelir o invasor estrangeiro adotavam-se as “regras militares cientificas”.[2]


Em suas lutas, tanto os holandeses como luso-brasileiros cooptaram e utilizaram nações indígenas aliadas contra seus adversários[3]. Lideres potiguares podem ser encontrados lutando em ambos os lados do conflito levantando importantes questões sobre a divisão da sociedade potiguar. Este artigo pretende analisar o Terço indígena que lutou ao lado das tropas luso-brasileiras e que foi liderado por Antônio Filipe Camarão (capitão-mor dos índios) e definir de forma cronológica seu papel na guerra tendo por base a análise de uma série de textos produzidos por ambos os lados descrevendo o conflito entre holandeses e luso-brasileiros. Assim identificando as modificações sofridas no modo de se fazer a guerra praticada pelo terço de Filipe Camarão, que teria passado de uma forma inicial Brasílica de se fazer à guerra para uma forma européia de guerrear.


Além disso, o presente artigo visa analisar o modo de cooptação utilizado pelo colonizador português com o intuito de atrair a população indígena para a sua causa e que no contexto deste estudo tentará identificar as razões da adesão de Filipe Camarão e seus guerreiros ao grupo luso-brasileiro.



A revolução Militar

Situação Européia

 

            Na Idade Média, os exércitos se caracterizaram por serem predominantemente baseados na cavalaria pesada e na capacidade de carga sobre as unidades de infantaria devido à superioridade de peso, altura, velocidade e a impunidade da cavalaria a golpes desfechados pelos infantes. A infantaria desse período, apesar de ser numericamente importante, apresentava papel secundário e era praticamente irrelevante nas batalhas[4].


           
Durante o séc. XIII uma série de inovações técnicas atingiram os campos de batalha, levando à melhora da capacidade de combate das unidades de infantaria, o que Guilmartin denomina de”Revolução da Infantaria[5]”. O soldado a pé passava a ter uma chance melhor de luta contra o cavaleiro e o advento de armas de baixo custo ajudou a “democratizar” a capacidade de se defender.[6]


           
Soldados europeus, artífices e engenheiros militares desenvolveram métodos de guerra superiores àqueles praticados em outros lugares. Estes novos métodos aliados à capacidade européia em navegação transoceânica e guerra marítima remodelaram a face política e econômica do mundo.[7]


           
A combinação suíça de armas e táticas permitiram a infantaria realizar ações de choque com um impacto devastante e manobrar à frente de unidades de cavalaria inimiga. Os métodos suíços refinados pelos espanhóis são as fundações do exercito moderno.


           
Christopher Almmand trabalhando principalmente com a Europa Ocidental, mas extendendo suas conclusões às áreas anexas no período de 1300-1500, observa que essas inovações aliadas ao uso de artilharia e a necessidade de se construir fortificações aumentaram consideravelmente o custo da guerra. O declínio das obrigações feudais em servir na guerra e o prolongamento dos conflitos levaram as tropas a receber soldos a partir do final do séc. XIII[8]. Para o Estado tornava-se impossível servir-se da massa da população rural somente entre os períodos de entressafra e aceitar seu retorno para o plantio ou colheita de novas safras, abandonando assim as campanhas ou cercos militares que estas estivessem realizando. Além disso, segundo Parker[9], as novas técnicas militares desenvolvidas passavam a exigir o treinamento constante dos soldados já que os novos procedimentos de batalha exigiam tropas altamente treinadas.
Estas deviam “learn how to march in step and how to perform their movements in perfect unison[10]. Além disso, como as tropas haviam adquirido seu treinamento às custas do governo, não era mais economicamente viável os exércitos serem desmobilizados quando a campanha findava.         


O desenvolvimento da artilharia de cerco obrigou que uma nova forma de defesa viesse a ser arquitetada: primeiramente canhões foram adicionados às antigas fortificações, mas por volta de 1440, a Trace italienne passou a dominar o estilo de se construir fortalezas na Europa.

        

      As novas fortificações, a necessidade de se remunerar o exército e mantê-lo abastecido por longos períodos, já que agora os cercos poderiam durar meses, levaram muitos Estados a comprometer uma quantia sem precedentes de seus recursos na manutenção de seus exércitos.[11]


           
O aumento dos custos da guerra obrigou os Estados europeus a uma reforma das suas instituições administrativas, objetivando maximizar a capacidade de gerar recursos para manter as forças militares. Essas necessidades foram um dos elementos que impulsionou a formação dos Estados Modernos, cada vez mais centralizados e com maior controle sobre os recursos e populações.


A infantaria armada de piques se tornou comum no século XVI e, devido às táticas utilizadas, o exército que conseguisse colocar maior número de homens em campo possuía uma grande vantagem. Uma nova modificação era necessária e a solução foi encontrada na Espanha, onde se introduziram homens armados de armas de fogo (arcabuzes ou Mosquetes), que deveriam desorganizar as falanges inimigas, dessa mistura resultou o Terço espanhol.


           
Os Países Baixos, que haviam se revoltado contra a Espanha em 1568, desenvolveram uma formação militar mais ligeira, que se baseava em regimentos com 1200 homens. Proporcionalmente aos espanhóis eles possuíam o dobro de oficiais, o que aumentava o controle da tropa durante as batalhas e tornava o exército mais flexível.
Fonte da imagem: http://www.exercito.gov.br/NE/2002/04/9971/davi971.htm
Formação tática dos Países Baixos:
arcabuzeiros adiante, oficiais e bandeiras
no centro e piqueteiros atrás.

 

Situação no Brasil

 

            A descoberta do Brasil acabou gerando problemas para as elites portuguesas que não estavam em condições de organizar as defesas desse novo território, já que todos os seus recursos estavam voltados para áreas economicamente mais lucrativas localizadas no Oriente.[12]


           
Apesar de iniciar o processo de formação do Estado Absolutista, Portugal não se manteve atualizado na arte da guerra européia em razão de não se envolver em conflitos entre os sécs. XIV e XVII[13], o que levou a organização da sociedade para a defesa, baseando-se no cooptação dos habitantes da colônia, liberando a metrópole de cometer largas forças na defesa das novas terras.


           
Para garantir a defesa, era necessário ocupar, mas para isto devia-se organizar a produção de algo que gerasse lucros na Europa e pudesse ser produzido em larga escala. Apoiado na sua experiência anterior nas ilhas do Atlântico, o produto escolhido por Portugal foi o açúcar.


           
No Brasil, a revolução militar se inicia com o aumento do controle dos colonos pela Metrópole através de uma série de leis, começando com o Regimento de Tomé de Souza, que regularizava a nomeação de burocratas, a construção de fortalezas e instalação de tropas reais.[14]


           
Os colonizadores que se transferem para o Brasil tem delegados para si, amplos poderes, tendo que suportar o custo da defesa da nova terra. O mesmo regimento inicia a organização das forças militares na América Portuguesa onde o donatário da capitania recebia poder militar e sob suas ordens eram colocados todos os povoadores da referida capitanias.[15] Esse regimento atribuía uma série de funções a serem desempenhadas pelo Governador, entre elas a de defender a colônia[16] contra as ameaças internas e externas.


            Seguindo a expansão das fortalezas ocorridas na Europa, o Governador deveria construir fortificações nas áreas de acesso aos locais de comércio[17]. No mesmo regimento já citado, era regulada a forma de se obter guerreiros junto às tribos aliadas.


           
Em 1569, o “Alvará de Armas” dispunha regulamentos para que os homens livres na colônia ficassem obrigados a manter em seu poder armas brancas e armas de fogo. [18]


           
Esta série de medidas ajudavam a manter no país um grupo de forças auxiliares para ajudar na defesa do território.


Em 1570, o “Regimento Geral das Ordenanças” instituía o corpo de ordenanças, formado por todos os homens livres com idade entre 18 e 60 anos, com exceção dos eclesiásticos e fidalgos,  e estabelecia a formação de companhias de 250 homens, divididos em dez esquadrões. O comando seria entregue aos senhores da terra onde ocorria o recrutamento, sendo que o capitão-mor tinha a responsabilidade de dividir os homens da localidade em esquadrões de 25 soldados sob  o comando de um cabo. Essa estrutura das tropas de ordenança e a relação entre o número de soldados e oficiais apresenta grandes semelhanças com a estrutura do terço espanhol.


Segundo Castro[19], a provisão das ordenanças de 1574 implicou em uma tentativa de melhor fiscalizar as ordenanças por parte da coroa.


           
O primeiro terço instituído em Portugal, surge em 1618 e na América Portuguesa o primeiro terço de infantaria paga surge em 1626.


           
Em 1631, devido à guerra com a Holanda, à organização do terço foi modificada, surgindo o “terço novo” que possuí 800 soldados. Essa mudança possivelmente tem como função diminuir a razão entre oficiais e soldados e tentar se aproximar da razão existente nas tropas holandesas.


           
Após o conflito com os holandeses, o governo busca reafirmar seu mecanismo de controle da sociedade, retirando aos poucos a capacidade das populações locais de fazer a guerra, sendo que as forças auxiliares que lutaram na guerra foram incorporadas ao aparelho repressor do Estado[20].

 


Índios e a guerra no Brasil

 

            Com a descoberta do Brasil, Portugal se viu na necessidade de proteger as novas terras frente às ameaças externas e com este objetivo aplicou na nova colônia uma política de alianças com grupos locais, se aproveitando das disputas internas entre os indígenas, esta política já havia tido sucesso na África e dava à Metrópole uma base de sustentação a sua política colonizadora[21] no novo território.



 Principais grupos étnicos no Brasil, séc XVI - XIX
Fonte:  WRIGHT, Robin M. SALOMON, Frank & SCHWARTZ, Stuart B. (org.)
The Cambridge History of the Native Peoples of the Americas. Volume III,
Part 2. Cambridge: Cambridge University Press, 1999, p. 288.

 

Embora não exclusivo da colonização portuguesa, essa busca de alianças locais acaba facilitada pela pouca ortodoxia da colonização realizada por Portugal e na capacidade do colonizador se adaptar e adotar com facilidade as técnicas locais melhor adaptadas ao meio a ser ocupado. Alencastro nos dá mostras desta política nas alianças realizadas entre portugueses e diversas nações africanas e americanas (jagas, temiminos, potiguares, etc) e como esses grupos se tornaram importantes elementos da supremacia militar portuguesa[22]. No caso específico do Brasil, o regimento do Governador Tomé de Souza é o primeiro documento a fixar, já em 1548, normas para a o recrutamento de guerreiros junto às tribos amigas[23].


           
A importância do indígena no processo de colonização do território brasileiro e na defesa deste contra as ameaças externas e internas pode ser apreciada quando observamos em um documento dos jesuítas de 1592, a seguinte afirmação: “o único remédio deste estado e haver muito gentio de paz posto em aldeias ao redor dos engenhos e fazendas, porque com isso haverá quem sirva e quem resista aos inimigos[24], além disso, dentro de uma sociedade baseada no trabalho compulsório de indígenas e negros, os índios aliados e aldeados são um forte elemento de controle social e indispensáveis para a captura de escravos indígenas para os colonos portugueses. No mesmo documento mencionado acima, os jesuítas comentam a utilidade do índio na manutenção da ordem entre os escravos negros: “que ponham freio aos negros da Guine que são muitos e de que só (aos índios) temer[25], ou como colocou certo jesuíta anônimo: “se sem negros não haveria o Brasil, sem índios não haveria negros, já que não poderia haver segurança[26].


           
Esta maneira de se ver o indígena como um importante instrumento no sucesso da colonização e da manutenção da colônia, explica a luta da metrópole no sentindo de garantir a liberdade destes ou pelo menos tentar restringir a escravização deles[27].


           
A forte presença do elemento indígena dentro do mecanismo militar colonial acaba por marcar a sua forma característica, com os colonos amalgamando elementos europeus a indígenas, o que dará origem a um tipo de guerra melhor adaptado à realidade do meio colonial brasileiro, a “Guerra Brasílica”. Segundo Holanda, este teria sido “um processo de continua adaptação as condições físicas do meio americano”[28].

 
            A invasão holandesa apenas acabaria por fortalecer a importância do elemento indígena para a manutenção da colônia. Para o frei Manuel Calado, a culpa da perda de Pernambuco recaía sobre os índios potiguares e tapuias que haviam se aliado aos holandeses[29] , opinião partilhada por Bagnuolo  que considerava que se não fossem os indígenas aliados dos holandeses, estes não se atreveriam a trilhar os caminhos e veredas da região[30]. Já para Nassau, “da amizade dos índios depende em parte o sossego e conservação da colônia do Brasil”[31]. Dentro desta idéia, ambos os lados buscaram cooptar o elemento indígena para a sua causa, prova disso pode ser encontrada nas inúmeras honrarias atribuídas ao capitão-mor dos índios Antônio Filipe Camarão que recebeu o hábito da Ordem de Cristo, o título de Dom e o direito a várias rendas[32]. Os holandeses por sua vez levaram vários indígenas a serem educados na Europa, que depois retornaram ao Brasil, além de buscar arregimentar as tribos descontentes com os Portugueses. Fonte da imagem:http://www.brazzil.com/forum/viewtopic.php?t=4586
Mauricio de Nassau, governador do Brasil Holandês


            Durante a guerra com os holandeses, os jesuítas trouxeram para a luta os indígenas aldeados, como o Padre Manuel de Morais, que veio com seus índios da aldeia de São Miguel, incluindo-se entre estes Antônio Filipe Camarão[33]. Este grupo dará origem ao terço indígena futuramente liderado por Camarão possivelmente após 1633 em virtude do afastamento do Padre Manuel de Morais. Estes indígenas, segundo Mello[34], teriam sofrido um processo desaculturador e substituído suas armas tradicionais pelas de fogo, o que de acordo com Holanda[35], tornaria-os capazes de enfrentar os europeus em pé de igualdade e com a superioridade de conhecerem melhor o terreno. Nos primeiros anos da Guerra com a Holanda, essa relativa igualdade não aparece, em todas a batalhas entre índios e holandeses em campo aberto, os holandeses sempre saem vencedores (Rio Doce, Porto Calvo), o que levou Bagnuolo em 1638 a emitir ordem as tropas de Camarão para evitar o embate em campo aberto contra o inimigo, mas assaltá-lo de surpresa[36].

            O ataque de emboscada marca a atuação militar do terço indígena durante a primeira fase da Guerra com a Holanda, a “Guerra de Resistência”, tendo como ordens defender a estância de Santo Amaro e interditar o movimento dos holandeses entre Recife e Olinda[37], neste sentido os índios de Camarão participam de um grande número de pequenas batalhas.
Fonte da imagem: http://www.exercito.gov.br/NE/2002/04/9971/davi971.htm
Trajes e armas de
sargento holandês

Fonte da imagem http://www.exercito.gov.br/NE/2002/04/9971/davi971.htm
Arcabuzeiro holandês

Foto: Gabriel Passetti em 1997
O forte D'Orange, na Ilha de Itamaracá, foi palco
de inúmeras batalhas.
            Com a queda das fortificações que davam sustentação à Guerra de resistência e à necessidade de retirada do exército luso brasileiro, é derrotada a tese que buscava lutar a guerra no Brasil como se fosse “Guerra de Flandres” e a Guerra Brasílica ganha força. Os índios de Camarão passam a agir como tropas volantes, atuando dentro da área controlada pelos holandeses e destruindo os engenhos e aldeias aliadas aos holandeses.

             Exemplo disso é a expedição de 1636, quando à frente de 300 guerreiros, a maioria armada de mosquetes e arcabuzes, Camarão e suas tropas avançaram até o reduto de Goiana onde mataram moradores que colaboravam com os holandeses e com a chegada de reforços holandeses enfrentaram estes em igualdade de condições[38].

 

Fonte da imagem: http://www.exercito.gov.br/NE/2002/04/9971/davi971.htm
Negros e índios foram
cooptados para a defesa
            Na tentativa de cooptar mais indígenas ou impedir o apoio destes aos holandeses, o terço indígena era enviado em busca de aliados à causa luso brasileira. Este é o caso da expedição de 1638 em busca do apoio do chefe tapuia Rodela ou quando em 1645, as tropas de Camarão acrescidas de tapuias enviados por Rodela se dirigiram ao Rio Grande e lá queimaram várias aldeias aliadas aos holandeses[39].

            Em 1648, durante a primeira batalha de Guararapes, os índios de Camarão eram parte importante do dispositivo militar luso brasileiro, ocupando o  flanco direito[40], o que indica uma evolução do “Modus Faciendi” destas tropas.

Fonte da imagem: http://www.brazzil.com/forum/viewtopic.php?t=4586

Representação romântica da Batalha de Guararapes


 

            Um mês após a primeira batalha de Guararapes, Antônio Filipe Camarão falece sendo substituído no comando do terço por Diogo Pinheiro Camarão.


          
Claramente as modificações ocorridas na ações atribuídas ao terço indígena durante o desenvolvimento da guerra contra a Holanda, indicam que este havia se tornado hábil na luta ao estilo europeu. Isto é demonstrado quando em 1646 as forças do terço realizam “fogo por fileira” e “marcha e contra marcha”[41], manobra que havia sido introduzida por Mauricio de Nassau no séc. XVI.


           
Com o final da guerra com a Holanda, a Coroa tomou uma série de medidas visando incorporar as forças auxiliares da colônia, incluindo a de índios e negros, ao exército lusitano[42] e assim, as forças coloniais passaram a ser, pelo menos legalmente, integrada a burocracia estatal.[43]

 


Problematização

 

            No inicio da luta, as tropas de resistência luso-brasileiras eram incapazes de resistir às tropas holandesas em campo de batalha, portanto utilizavam táticas de guerrilha para destruir os postos e comunicações do inimigo[44], além de buscar interditar a economia com a destruição dos engenhos de açúcar na área sobre o controle holandês.


A organização das tropas em Terços auxiliares e a forte presença do elemento indígena dentro da organização militar acabaram conferindo às tropas em ação na América Portuguesa muitas características da Guerra Indígena que mescladas a elementos Europeus deram origem a denominada “Guerra Brasílica”.


           
Joannes de Laet descreve assim o ataque de emboscada realizado em 14 de maio de 1630 contra as tropas holandesas que escoltavam o almirante Pieter Adriensz e o conselheiro Servatius Carpentier
.

 

                  "No dia 14, o Almirante, com o conselheiro... partiu do Recife para a cidade a fim de se despedir dos conselheiros e dos chefes militares..., sucedeu, já fora do alcance do fortim situado abaixo da cidade, cair um grande aguaceiro que molhou completamente mechas e mosquetes. O Inimigo que se postara de emboscada no outro lado do rio, percebendo isso, atacou de surpresa a nossa gente... O almirante e o capitão fizeram o possível para a conter (a tropa em pânico), porém, os índios inimigos atiraram suas flechas e os nossos, que não podiam usar o mosquete... fugiram sem olhar para trás”.[45]

 


            Vale a pena ressaltar no texto acima, que o ataque só ocorre devido à impossibilidade dos holandeses utilizarem seus mosquetes e demonstra a capacidade das forças luso-brasileiras de se aproveitarem das condições locais para obter vantagem sobre as forças invasoras. Com o desenvolvimento da Guerra com a Holanda, houve uma evolução das tropas auxiliares, igualando-se estas às tropas regulares[46] nas técnicas militares européias. Fonte da imagem: http://www.exercito.gov.br/NE/2002/04/9971/davi971.htm
Bandeira da Cia. Holandesa das
Índias Ocidentais

 

No trecho abaixo da obra de Diogo Lopes de Santiago  “História da Guerra de Pernambuco...”, encontra-se a descrição de uma batalha envolvendo os índios de Camarão demonstrando claramente o uso da marcha e contra-marcha:

 

“A Primeira fileira de nossos arcabuzeiros os recebeu galhardamente com uma carga cerrada, com a qual lhes mataram alguns soldados, e feriram outros, e logo, retirando-se para as costas das demais fileiras, para tornarem a carregar os arcabuzes, foram chegando às fileiras de mosqueteiros e foram fazendo a sua obrigação, com tanta ordem, entrando uns e retirando-se outros, que nunca tornaram pé atrás do lugar aonde os havia posto[47].”

 

A descrição acima demonstra o quanto as tropas auxiliares luso-brasileiras se encontravam adestradas para a arte da guerra no estilo europeu, realizando uma difícil manobra.

 

             Um importante problema a ser estudado é a questão da formalização de uma parcela das tropas indígenas sob o comando de Antônio Filipe Camarão dentro da estrutura militar e burocrática do Império Português, sob a forma de um Terço especial. Tropas indígenas integraram desde o início da colonização as expedições militares portuguesas dentro da América Portuguesa, atuando principalmente como tropas auxiliares ad hoc nas campanhas realizadas contra as tribos inimigas ou contra os invasores estrangeiros. Durante o período das invasões holandesas, enquanto do lado batavo, as tropas indígenas continuaram a ser utilizadas como elemento auxiliar, do lado português procedeu-se a criação de um terço especial indígena, sob o comando de Antônio Filipe Camarão, o que demonstra uma modificação da política portuguesa com relação ao funcionamento das tropas indígenas. Fonte da imagem: http://www.brazzil.com/forum/viewtopic.php?t=4586
Oficial português
carregando a bandeira
com a Cruz de Sto. André

A constituição deste terço não eliminou a utilização do indígena como elemento auxiliar junto as tropas luso-brasileiras, da maneira tradicionalmente utilizada na América Portuguesa.

 Outra questão colocada é a seguinte: Como as tropas auxiliares, especialmente o terço indígena de Camarão, se tornaram de uma força de Guerrilha incapaz de lutar com as tropas holandesas em campo aberto, mas eficientes como tropas de emboscada, em tropas perfeitamente adaptadas à guerra travada na Europa e demonstrando grande perícia na utilização dessas técnicas.

 

 

Fontes:

 

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[1] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada.2a. Edição. Rio de Janeiro. Topbooks, 1998. pp 337.

[2] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada.2a. Edição. Rio de Janeiro. Topbooks, 1998. pp 380.

[3] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada. 2a. Edição. Rio de Janeiro. Topbooks, 1998.

[4] Cyro de Rezende Filho. Guerras e guerreiros na Idade Media. São Paulo, Ed. Contexto, 1996.pág

[5] John F. Guilmartin Jr. The Military revolution: Origins and First Test Abroad. IN: Rogers, Clifford J.(ed). The Military Revolution Debate. pp 299.

[6] Christopher Almmand. New Weapons, New Tactics 1300-1500. IN: Parker, Geoffrey(org). The Cambridge Illustrated History of warfare. Cambridge University Press, 1995. p. 92-93

[7] John F. Guilmartin Jr. Op.Cit. pp. 300

[8] Christopher Almmand. Op.Cit.. pp 103-104

[9] Geoffrey Parker. The “Military Revolution,”1560-1660—a Myth?.The Journal of Military History, Vol.48, Issue 2(Jun. 1976). pp.196.

[10] Geoffrey Parker. Op. Cit. Pp. 196.

[11] Geoffrey Parker.The triumph of the west.In: Parker, Geoffrey (org) The Cambridge Illustrated history of Warfare. pp. 116

[12] Nelson W. Sodré. A Historia Militar do Brasil. Rio de janeiro,Ed. Civilização Brasileira, 1979. pp 15-16

[13] Pedro Puntoni. A Guerra dos Bárbaros, pp189

[14] Adler Homero Fonseca de Castro. Op.Cit. p 19

[15] Nelson W. Sodré op.Cit. pp. 18-19

[16] Pedro Puntoni. A arte da Guerra no Brasil.IN: Novos Estudos. CEBRAP. no.53. p 189

[17] Pedro Puntoni. Op.Cit. p 189

[18] Pedro Puntoni,. Op.Cit. p 189

[19] Adler Homero Fonseca de Castro. Op.Cit pp.

[20] Adler Homero Fonseca de Castro. Op. Cit. Pp. 172.

[21] J.K.Thornton. The art of war in Angola, 1575-1680.In: Comparative Studies in society and History, vol 36, no. 2, apr. 1988, pp. 360-378.

[22] Luis Felipe de Alencastro. O Trato dos Viventes, pp. 97.

[23] Regimento do Governador Tomé de Souza, 1548. IN: Mendonça, M.C. de(org). Raízes da  formação Administrativa do Brasil, Rio de Janeiro, IHGB/CFC, vol 1, 1972, pp. 46-47.

[24] Luis Felipe de Alencastro. O trato dos viventes. pp. 123

[25] Luis Felipe de Alencastro. O Trato dos Viventes. pp. 123

[26] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada. pp. 238

[27] Para uma explanação sobre a política da Metrópole em relação aos índios, ver o livro de Pedro Puntoni, A Guerra dos Bárbaros, em que o autor analisa a serie de decretos que marcaram as reviravoltas destas políticas.

[28] Sergio Buarque de Holanda. Monções, São Paulo, Brasiliense, 1990, pp.16.

[29] Frei Manuel Calado. O valoroso lucideno e o triunfo da liberdade(1648), Belo Horizonte/São Paulo, 1987.

[30] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada, pp. 180.

[31] Luis Felipe de Alencastro. O Trato dos Viventes, pp.200.

[32] José Antonio Gonsalves de Mello. D. Antônio Filipe Camarão – Capitão-mor dos índios da costa nordeste do Brasil. Recife, Universidade de Recife, 1954.

[33] José Antonio Gonsalves de Mello. Op.Cit. pp. 17.

[34] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada. pp. 349.

[35] Sergio Buarque de Holanda. Caminhos e Fronteiras, pp. 65-66

[36] José Antonio Gonsalves de Mello . OP.Cit. pp. 32.

[37] José Antonio Gonsalves de Mello. Op.Cit. pp.17.

[38] José Antonio Gonsalves de Mello. Op. Cit. Pp. 24-25.

[39] José Antonio Gonsalves de Mello. Op. Cit. Pp. 44

[40] José Antonio Gonsalves de Mello. Op. Cit. Pp. 47

[41] Diogo Lopes de Santiago. História da Guerra de Pernambuco(...), Recife, FUNDARPE, 1984, pp. 375.

[42] Varnhagen, F, história das lutas com os holandeses no Brasil desde 1624 a 1654, Salvador, progresso, 1955, pp. 398.

[43] Adler H. F. de Castro. Guerra e Sociedade no Brasil Colonial. Pp.167.

[44] Pedro Puntoni. Op.Cit. p 192

[45] Joannes de Laet. História ou Annaes dos feitos da companhia privilegiada das Índias Occidentaes: desde o começo até o fim do anno de 1636. Rio de janeiro, Biblioteca Nacional, 1916.

[46] Aqui cabe uma definição ao que denomino tropas regulares e auxiliares ou Ordenanças: as tropas regulares seriam constituídas por soldados oriundos da Europa e que seriam experientes na denominada “Guerra de Flandres”,  travada na Europa e que ao contrário das tropas de ordenança, recebiam soldo. As tropas de ordenança seriam constituídas por todos os moradores com idade entre 18 e 60 anos, reforçadas por fortes contingentes indígenas e  regulamentadas pelo Regimento das ordenanças de 1570. Puntoni, Pedro. A arte da guerra no Brasil. IN: Novos Estudos CEBRAP, No. 53, março 1999, pp 190.

[47] Diogo Lopes de Santiago. historia da Guerra de Pernambuco e feitos memoráveis do mestre de campo João Fernandes Vieira, Herói digno de eterna memória, primeiro aclamador da guerra por (...). Recife, FUNDARPE, 1984. p.381.





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A Guerra dos Holandeses,
de Pedro Puntoni
O trato dos viventes, de
Luiz Felipe de Alencastro
Monções, de Sérgio
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