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O Terço
de Antônio Filipe Camarão: sua cooptação e evolução militar durante a
invasão holandesa José
Augusto Moreira Jr.
Mestrando em História Social - USP jaugusto72@yahoo.com.br |
Resumo
Durante os séculos XVI e XVII, a Europa
experimentou um período de revolução militar que deu origem a um modelo
moderno
de guerra baseado na Infantaria armada de piquetes. Na Espanha, surgiu
o Terço,
organização militar que misturava soldados armados de piques com
soldados
armados de arcabuzes e mosquetes, e em pouco tempo alcançou a
superioridade
militar na Europa.
![]() Arcabuz |
A revolução militar no Brasil se realizou com
o aumento do controle burocrático da metrópole sobre a população e o
modo de se
travar a guerra. Após o fim da invasão holandesa, ocorre o abandono
gradual da
guerra brasílica e sua substituição por técnicas européias.
|
A guerra brasílica
ainda subsiste por algum tempo nas campanhas no interior da colônia
contra as
tribos indígenas inimigas, mas no litoral ocorre uma rápida
substituição e
abandono das técnicas locais por técnicas européias.
Para Evaldo Cabral de Mello, “a guerra
volante arcaizou-se..e no ultimo quartel do século XVII já estava
reduzido a
‘guerra do mato’, vale dizer, técnicas apenas de áreas atrasadas,
afastadas da
marinha e das praças fortes, boas apenas para sertanistas de São Paulo,
bugres
e negros aquilombados. Em Pernambuco e na Bahia, o conhecimento da
guerra
volante não sobreviveu a geração que a empregou contra o invasor”
holandês.[1]
No começo do século XVIII, a diferenciação
ou
especialização de funções conseguiu impor-se. A Guerra Brasílica ou
volante era
utilizada para conter os índios ou negros rebelados. Para repelir o
invasor
estrangeiro adotavam-se as “regras militares cientificas”.[2]
Em suas
lutas, tanto os holandeses como luso-brasileiros cooptaram e utilizaram
nações
indígenas aliadas contra seus adversários[3].
Lideres potiguares podem ser encontrados lutando em ambos os lados do
conflito
levantando importantes questões sobre a divisão da sociedade potiguar.
Este artigo
pretende analisar o Terço indígena que lutou ao lado das tropas
luso-brasileiras e que foi liderado por Antônio Filipe Camarão
(capitão-mor dos
índios) e definir de forma cronológica seu papel na guerra tendo por
base a
análise de uma série de textos produzidos por ambos os lados
descrevendo o
conflito entre holandeses e luso-brasileiros. Assim identificando as
modificações sofridas no modo de se fazer a guerra praticada pelo terço
de
Filipe Camarão, que teria passado de uma forma inicial Brasílica de se
fazer à
guerra para uma forma européia de guerrear.
Além disso, o presente artigo visa analisar
o
modo de cooptação utilizado pelo colonizador português com o intuito de
atrair
a população indígena para a sua causa e que no contexto deste estudo
tentará
identificar as razões da adesão de Filipe Camarão e seus guerreiros ao
grupo
luso-brasileiro.
A
revolução Militar
Na
Idade Média, os exércitos se
caracterizaram por serem predominantemente baseados na cavalaria pesada
e na
capacidade de carga sobre as unidades de infantaria devido à
superioridade de
peso, altura, velocidade e a impunidade da cavalaria a golpes
desfechados pelos
infantes. A infantaria desse período, apesar de ser numericamente
importante,
apresentava papel secundário e era praticamente irrelevante nas batalhas[4].
Durante
o séc. XIII uma série de inovações técnicas atingiram os campos de
batalha,
levando à melhora da capacidade de combate das unidades de infantaria,
o que
Guilmartin denomina de”Revolução da Infantaria[5]”.
O soldado a pé passava a ter uma chance melhor de luta contra o
cavaleiro e o
advento de armas de baixo custo ajudou a “democratizar” a capacidade de
se
defender.[6]
Soldados
europeus, artífices e engenheiros militares desenvolveram métodos de
guerra
superiores àqueles praticados em outros lugares. Estes novos métodos
aliados à
capacidade européia em navegação transoceânica e guerra marítima
remodelaram a
face política e econômica do mundo.[7]
A
combinação suíça de armas e táticas permitiram a infantaria realizar
ações de
choque com um impacto devastante e manobrar à frente de unidades de
cavalaria
inimiga. Os métodos suíços refinados pelos espanhóis são as fundações
do
exercito moderno.
Christopher
Almmand trabalhando principalmente com a Europa Ocidental, mas
extendendo suas
conclusões às áreas anexas no período de 1300-1500, observa que essas
inovações
aliadas ao uso de artilharia e a necessidade de se construir
fortificações
aumentaram consideravelmente o custo da guerra. O declínio das
obrigações
feudais em servir na guerra e o prolongamento dos conflitos levaram as
tropas a
receber soldos a partir do final do séc. XIII[8].
Para o Estado tornava-se impossível servir-se da massa da população
rural
somente entre os períodos de entressafra e aceitar seu retorno para o
plantio
ou colheita de novas safras, abandonando assim as campanhas ou cercos
militares
que estas estivessem realizando. Além disso, segundo Parker[9],
as novas técnicas militares desenvolvidas passavam a exigir o
treinamento
constante dos soldados já que os novos procedimentos de batalha exigiam
tropas
altamente treinadas. Estas
deviam “learn how to march in step and how to perform their
movements in
perfect unison”[10]. Além disso, como as
tropas haviam adquirido seu
treinamento às custas do governo, não era mais economicamente
viável os exércitos serem desmobilizados quando a campanha
findava.
O
desenvolvimento da artilharia de cerco obrigou que uma nova forma de
defesa
viesse a ser arquitetada: primeiramente canhões foram adicionados às
antigas
fortificações, mas por volta de
As
novas fortificações, a necessidade de se remunerar o exército e
mantê-lo
abastecido por longos períodos, já que agora os cercos poderiam durar
meses,
levaram muitos Estados a comprometer uma quantia sem precedentes de
seus
recursos na manutenção de seus exércitos.[11]
O aumento dos custos da
guerra obrigou os Estados europeus a uma reforma das suas instituições
administrativas, objetivando maximizar a capacidade de gerar recursos
para
manter as forças militares. Essas necessidades foram um dos elementos
que
impulsionou a formação dos Estados Modernos, cada vez mais
centralizados e com
maior controle sobre os recursos e populações.
A
infantaria armada de piques se tornou comum no século XVI e, devido às
táticas
utilizadas, o exército que conseguisse colocar maior número de homens
em campo
possuía uma grande vantagem. Uma nova modificação era necessária e a
solução
foi encontrada na Espanha, onde se introduziram homens armados de armas
de fogo
(arcabuzes ou Mosquetes), que deveriam desorganizar as falanges
inimigas, dessa
mistura resultou o Terço espanhol.
Os Países
Baixos, que haviam se revoltado contra a Espanha em 1568, desenvolveram
uma
formação militar mais ligeira, que se baseava em regimentos com 1200
homens.
Proporcionalmente aos espanhóis eles possuíam o dobro de oficiais, o
que
aumentava o controle da tropa durante as batalhas e tornava o exército
mais
flexível.
Formação tática dos
Países Baixos:
arcabuzeiros adiante, oficiais e bandeiras
no centro e piqueteiros atrás.
A
descoberta do Brasil acabou gerando problemas para as elites
portuguesas que
não estavam em condições de organizar as defesas desse novo território,
já que
todos os seus recursos estavam voltados para áreas economicamente mais
lucrativas localizadas no Oriente.[12]
Apesar
de iniciar o processo de formação do Estado Absolutista, Portugal não
se
manteve atualizado na arte da guerra européia em razão de não se
envolver em
conflitos entre os sécs. XIV e XVII[13],
o que levou a organização da sociedade para a defesa, baseando-se no
cooptação
dos habitantes da colônia, liberando a metrópole de cometer largas
forças na
defesa das novas terras.
Para
garantir a defesa, era necessário ocupar, mas para isto devia-se
organizar a
produção de algo que gerasse lucros na Europa e pudesse ser produzido
em larga
escala. Apoiado na sua experiência anterior nas ilhas do Atlântico, o
produto
escolhido por Portugal foi o açúcar.
No
Brasil, a revolução militar se inicia com o aumento do controle dos
colonos
pela Metrópole através de uma série de leis, começando com o Regimento
de Tomé
de Souza, que regularizava a nomeação de burocratas, a construção de
fortalezas
e instalação de tropas reais.[14]
Os
colonizadores que se transferem para o Brasil tem delegados para si,
amplos
poderes, tendo que suportar o custo da defesa da nova terra. O mesmo
regimento
inicia a organização das forças militares na América Portuguesa onde o
donatário da capitania recebia poder militar e sob suas ordens eram
colocados
todos os povoadores da referida capitanias.[15]
Esse regimento atribuía uma série de funções a serem desempenhadas pelo
Governador, entre elas a de defender a colônia[16]
contra as ameaças internas e externas.
Seguindo
a expansão das fortalezas ocorridas na Europa, o Governador deveria
construir
fortificações nas áreas de acesso aos locais de comércio[17].
No mesmo regimento já citado, era regulada a forma de se obter
guerreiros junto
às tribos aliadas.
Em
1569, o “Alvará de Armas” dispunha regulamentos para que os homens
livres na
colônia ficassem obrigados a manter em seu poder armas brancas e armas
de fogo.
[18]
Esta
série de medidas ajudavam a manter no país um grupo de forças
auxiliares para
ajudar na defesa do território.
Em 1570, o “Regimento Geral das
Ordenanças” instituía o corpo de
ordenanças, formado por todos os homens livres com idade entre 18 e 60
anos,
com exceção dos eclesiásticos e fidalgos,
e estabelecia a formação de companhias de 250 homens, divididos
em dez
esquadrões. O comando seria entregue aos senhores da terra onde ocorria
o
recrutamento, sendo que o capitão-mor tinha a responsabilidade de
dividir os
homens da localidade em esquadrões de 25 soldados sob
o comando de um cabo. Essa estrutura das tropas
de ordenança e a relação entre o número de soldados e oficiais
apresenta
grandes semelhanças com a estrutura do terço espanhol.
Segundo Castro[19], a provisão das ordenanças de 1574 implicou em uma tentativa de melhor fiscalizar as ordenanças por parte da coroa.
O
primeiro terço instituído em Portugal, surge em 1618 e na América
Portuguesa o
primeiro terço de infantaria paga surge em 1626.
Em
1631, devido à guerra com a Holanda, à organização do terço foi
modificada,
surgindo o “terço novo” que possuí 800 soldados. Essa mudança
possivelmente tem
como função diminuir a razão entre oficiais e soldados e tentar se
aproximar da
razão existente nas tropas holandesas.
Após
o conflito com os holandeses, o governo busca reafirmar seu mecanismo
de
controle da sociedade, retirando aos poucos a capacidade das populações
locais
de fazer a guerra, sendo que as forças auxiliares que lutaram na guerra
foram
incorporadas ao aparelho repressor do Estado[20].
Índios e a guerra no Brasil
Com
a descoberta do Brasil, Portugal se viu na necessidade de proteger as
novas
terras frente às ameaças externas e com este objetivo aplicou na nova
colônia
uma política de alianças com grupos locais, se aproveitando das
disputas
internas entre os indígenas, esta política já havia tido sucesso na
África e
dava à Metrópole uma base de sustentação a sua política colonizadora[21]
no novo território.

Fonte: WRIGHT, Robin M. SALOMON, Frank & SCHWARTZ, Stuart B.
(org.)
The Cambridge History of the Native
Peoples of the Americas. Volume III,
Part 2. Cambridge: Cambridge University Press, 1999, p. 288.
Embora não
exclusivo da colonização portuguesa, essa busca de alianças locais
acaba
facilitada pela pouca ortodoxia da colonização realizada por Portugal e
na
capacidade do colonizador se adaptar e adotar com facilidade as
técnicas locais
melhor adaptadas ao meio a ser ocupado. Alencastro nos dá mostras desta
política nas alianças realizadas entre portugueses e diversas nações
africanas
e americanas (jagas, temiminos, potiguares, etc) e como esses grupos se
tornaram importantes elementos da supremacia militar portuguesa[22].
No caso específico do Brasil, o regimento do Governador Tomé de Souza é
o
primeiro documento a fixar, já em 1548, normas para a o recrutamento de
guerreiros junto às tribos amigas[23].
A
importância do indígena no processo de colonização do território
brasileiro e
na defesa deste contra as ameaças externas e internas pode ser
apreciada quando
observamos em um documento dos jesuítas de
Esta
maneira de se ver o indígena como um importante instrumento no sucesso
da
colonização e da manutenção da colônia, explica a luta da metrópole no
sentindo
de garantir a liberdade destes ou pelo menos tentar restringir a
escravização
deles[27].
A
forte presença do elemento indígena dentro do mecanismo militar
colonial acaba
por marcar a sua forma característica, com os colonos amalgamando
elementos
europeus a indígenas, o que dará origem a um tipo de guerra melhor
adaptado à
realidade do meio colonial brasileiro, a “Guerra Brasílica”. Segundo
Holanda,
este teria sido “um processo de continua adaptação as condições físicas
do meio
americano”[28].
| A invasão holandesa apenas acabaria por fortalecer a importância do elemento indígena para a manutenção da colônia. Para o frei Manuel Calado, a culpa da perda de Pernambuco recaía sobre os índios potiguares e tapuias que haviam se aliado aos holandeses[29] , opinião partilhada por Bagnuolo que considerava que se não fossem os indígenas aliados dos holandeses, estes não se atreveriam a trilhar os caminhos e veredas da região[30]. Já para Nassau, “da amizade dos índios depende em parte o sossego e conservação da colônia do Brasil”[31]. Dentro desta idéia, ambos os lados buscaram cooptar o elemento indígena para a sua causa, prova disso pode ser encontrada nas inúmeras honrarias atribuídas ao capitão-mor dos índios Antônio Filipe Camarão que recebeu o hábito da Ordem de Cristo, o título de Dom e o direito a várias rendas[32]. Os holandeses por sua vez levaram vários indígenas a serem educados na Europa, que depois retornaram ao Brasil, além de buscar arregimentar as tribos descontentes com os Portugueses. | ![]() Mauricio de Nassau, governador do Brasil Holandês |
|
Durante
a guerra com os holandeses, os jesuítas trouxeram para a luta os
indígenas
aldeados, como o Padre Manuel de Morais, que veio com seus índios da
aldeia de
São Miguel, incluindo-se entre estes Antônio Filipe Camarão[33].
Este grupo dará origem ao terço indígena futuramente liderado por
Camarão
possivelmente após 1633 em virtude do afastamento do Padre Manuel de
Morais.
Estes indígenas, segundo Mello[34],
teriam sofrido um processo desaculturador e substituído suas armas
tradicionais
pelas de fogo, o que de acordo com Holanda[35],
tornaria-os capazes de enfrentar os europeus em pé de igualdade e com a
superioridade de conhecerem melhor o terreno. Nos primeiros anos da
Guerra com
a Holanda, essa relativa igualdade não aparece, em todas a batalhas
entre
índios e holandeses em campo aberto, os holandeses sempre saem
vencedores (Rio
Doce, Porto Calvo), o que levou Bagnuolo em 1638 a emitir ordem
as
tropas de Camarão para evitar o embate em campo aberto contra o
inimigo, mas
assaltá-lo de surpresa[36]. O ataque de emboscada marca a atuação militar do terço indígena durante a primeira fase da Guerra com a Holanda, a “Guerra de Resistência”, tendo como ordens defender a estância de Santo Amaro e interditar o movimento dos holandeses entre Recife e Olinda[37], neste sentido os índios de Camarão participam de um grande número de pequenas batalhas. |
![]() Trajes e armas de sargento holandês ![]() Arcabuzeiro holandês |
![]() O forte D'Orange, na Ilha de Itamaracá, foi palco de inúmeras batalhas. |
Com a queda das fortificações que davam sustentação à Guerra de resistência e à necessidade de retirada do exército luso brasileiro, é derrotada a tese que buscava lutar a guerra no Brasil como se fosse “Guerra de Flandres” e a Guerra Brasílica ganha força. Os índios de Camarão passam a agir como tropas volantes, atuando dentro da área controlada pelos holandeses e destruindo os engenhos e aldeias aliadas aos holandeses. |
Exemplo disso é a expedição de 1636, quando à
frente de 300 guerreiros, a maioria armada de mosquetes e arcabuzes,
Camarão e
suas tropas avançaram até o reduto de Goiana onde mataram moradores que
colaboravam com os holandeses e com a chegada de reforços holandeses
enfrentaram estes em igualdade de condições[38].

Negros e índios foram
cooptados para a defesa
Na
tentativa de cooptar mais indígenas ou impedir o apoio destes aos
holandeses, o
terço indígena era enviado em busca de aliados à causa luso brasileira.
Este é
o caso da expedição de 1638 em busca do apoio do chefe tapuia Rodela ou
quando
em 1645, as tropas de Camarão acrescidas de tapuias enviados por Rodela
se
dirigiram ao Rio Grande e lá queimaram várias aldeias aliadas aos
holandeses[39].
Em
1648, durante a primeira batalha de Guararapes, os índios de Camarão
eram parte
importante do dispositivo militar luso brasileiro, ocupando o flanco direito[40],
o que indica uma evolução do “Modus Faciendi” destas tropas.

Claramente
as modificações ocorridas na ações atribuídas ao terço indígena durante
o
desenvolvimento da guerra contra a Holanda, indicam que este havia se
tornado
hábil na luta ao estilo europeu. Isto é demonstrado quando em 1646 as
forças do
terço realizam “fogo por fileira” e “marcha e contra marcha”[41],
manobra que havia sido introduzida por Mauricio de Nassau no séc. XVI.
Com
o final da guerra com a Holanda, a Coroa tomou uma série de medidas
visando
incorporar as forças auxiliares da colônia, incluindo a de índios e
negros, ao
exército lusitano[42]
e assim, as forças coloniais passaram a ser, pelo menos legalmente,
integrada a
burocracia estatal.[43]
No
inicio
da luta, as tropas de resistência luso-brasileiras eram incapazes de
resistir
às tropas holandesas em campo de batalha, portanto utilizavam táticas
de
guerrilha para destruir os postos e comunicações do inimigo[44],
além de buscar interditar a economia com a destruição dos engenhos de
açúcar na
área sobre o controle holandês.
A
organização das tropas em Terços auxiliares e a forte presença do
elemento
indígena dentro da organização militar acabaram conferindo às tropas em
ação na
América Portuguesa muitas características da Guerra Indígena que
mescladas a
elementos Europeus deram origem a denominada “Guerra Brasílica”.
Joannes
de Laet descreve assim o
ataque de emboscada realizado em 14 de maio de 1630 contra as tropas
holandesas
que escoltavam o almirante Pieter Adriensz e o conselheiro Servatius
Carpentier.
"No dia
14, o Almirante, com o conselheiro... partiu do Recife para a cidade a
fim de
se despedir dos conselheiros e dos chefes militares..., sucedeu, já
fora do
alcance do fortim situado abaixo da cidade, cair um grande aguaceiro
que molhou
completamente mechas e mosquetes. O Inimigo que se postara de emboscada
no
outro lado do rio, percebendo isso, atacou de surpresa a nossa gente...
O
almirante e o capitão fizeram o possível para a conter (a tropa em
pânico),
porém, os índios inimigos atiraram suas flechas e os nossos, que não
podiam
usar o mosquete... fugiram sem olhar para trás”.[45]
| Vale a pena ressaltar no texto acima, que o ataque só ocorre devido à impossibilidade dos holandeses utilizarem seus mosquetes e demonstra a capacidade das forças luso-brasileiras de se aproveitarem das condições locais para obter vantagem sobre as forças invasoras. Com o desenvolvimento da Guerra com a Holanda, houve uma evolução das tropas auxiliares, igualando-se estas às tropas regulares[46] nas técnicas militares européias. | ![]() Bandeira da Cia. Holandesa das Índias Ocidentais |
No trecho
abaixo da obra de Diogo Lopes de Santiago
“História da Guerra de Pernambuco...”, encontra-se a descrição
de uma
batalha envolvendo os índios de Camarão demonstrando claramente o uso
da marcha
e contra-marcha:
“A
Primeira fileira de nossos arcabuzeiros os recebeu galhardamente com
uma carga
cerrada, com a qual lhes mataram alguns soldados, e feriram outros, e
logo,
retirando-se para as costas das demais fileiras, para tornarem a
carregar os
arcabuzes, foram chegando às fileiras de mosqueteiros e foram fazendo a
sua
obrigação, com tanta ordem, entrando uns e retirando-se outros, que
nunca
tornaram pé atrás do lugar aonde os havia posto[47].”
A descrição acima demonstra o quanto as tropas auxiliares luso-brasileiras se encontravam adestradas para a arte da guerra no estilo europeu, realizando uma difícil manobra.
Um importante problema a
ser estudado é a questão da formalização de uma parcela das tropas
indígenas
sob o comando de Antônio Filipe Camarão dentro da estrutura militar e
burocrática do Império Português, sob a forma de um Terço especial.
Tropas
indígenas integraram desde o início da colonização as expedições
militares
portuguesas dentro da América Portuguesa, atuando principalmente como
tropas
auxiliares ad hoc nas campanhas realizadas contra as tribos
inimigas ou
contra os invasores estrangeiros. Durante o período das invasões
holandesas, enquanto do lado batavo, as tropas indígenas continuaram a
ser
utilizadas como elemento auxiliar, do lado português procedeu-se a
criação de
um terço especial indígena, sob o comando de Antônio Filipe Camarão, o
que
demonstra uma modificação da política portuguesa com relação ao
funcionamento
das tropas indígenas.

Oficial português
carregando a bandeira
com a Cruz de Sto. André
A
constituição deste terço não eliminou a utilização do
indígena como elemento auxiliar junto as tropas luso-brasileiras, da
maneira
tradicionalmente utilizada na América Portuguesa.
Outra questão colocada é a seguinte: Como as
tropas auxiliares, especialmente o terço indígena de Camarão, se
tornaram de
uma força de Guerrilha incapaz de lutar com as tropas holandesas em
campo aberto,
mas eficientes como tropas de emboscada, em tropas perfeitamente
adaptadas à
guerra travada na Europa e demonstrando grande perícia na utilização
dessas
técnicas.
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[4] Cyro de Rezende Filho. Guerras e guerreiros na Idade Media. São Paulo, Ed. Contexto, 1996.pág
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[7] John F. Guilmartin Jr. Op.Cit. pp.
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[11] Geoffrey Parker.The triumph of the
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[12] Nelson W. Sodré. A Historia Militar do Brasil. Rio de janeiro,Ed. Civilização Brasileira, 1979. pp 15-16
[13] Pedro Puntoni. A Guerra dos Bárbaros, pp189
[14] Adler Homero Fonseca de Castro. Op.Cit. p 19
[15] Nelson W. Sodré op.Cit. pp.
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[16] Pedro Puntoni. A arte da Guerra no Brasil.IN: Novos Estudos. CEBRAP. no.53. p 189
[17] Pedro Puntoni. Op.Cit. p 189
[18]
Pedro
Puntoni,. Op.Cit. p 189
[19] Adler Homero Fonseca de Castro. Op.Cit pp.
[20] Adler Homero Fonseca de Castro. Op. Cit. Pp. 172.
[21] J.K.Thornton. The art of war in
[22] Luis Felipe de Alencastro. O Trato dos Viventes, pp. 97.
[23] Regimento do Governador Tomé de Souza, 1548. IN: Mendonça, M.C. de(org). Raízes da formação Administrativa do Brasil, Rio de Janeiro, IHGB/CFC, vol 1, 1972, pp. 46-47.
[24] Luis Felipe de Alencastro. O trato dos viventes. pp. 123
[25] Luis Felipe de Alencastro. O Trato dos Viventes. pp. 123
[26] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada. pp. 238
[27] Para uma explanação sobre a política da Metrópole em relação aos índios, ver o livro de Pedro Puntoni, A Guerra dos Bárbaros, em que o autor analisa a serie de decretos que marcaram as reviravoltas destas políticas.
[28] Sergio Buarque de Holanda. Monções, São Paulo, Brasiliense, 1990, pp.16.
[29] Frei Manuel Calado. O valoroso lucideno e o triunfo da liberdade(1648), Belo Horizonte/São Paulo, 1987.
[30] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada, pp. 180.
[31] Luis Felipe de Alencastro. O Trato dos Viventes, pp.200.
[32] José Antonio Gonsalves de Mello. D. Antônio Filipe Camarão – Capitão-mor dos índios da costa nordeste do Brasil. Recife, Universidade de Recife, 1954.
[33] José Antonio Gonsalves de
Mello. Op.Cit. pp. 17.
[34] Evaldo Cabral de Mello. Olinda Restaurada. pp. 349.
[35] Sergio Buarque de Holanda. Caminhos e Fronteiras, pp. 65-66
[36] José Antonio Gonsalves de Mello
. OP.Cit. pp. 32.
[37] José Antonio Gonsalves de
Mello. Op.Cit. pp.17.
[38] José Antonio Gonsalves de
Mello. Op. Cit. Pp. 24-25.
[39] José Antonio Gonsalves de
Mello. Op. Cit. Pp. 44
[40] José Antonio Gonsalves de
Mello. Op. Cit. Pp. 47
[41] Diogo Lopes de Santiago. História da Guerra de Pernambuco(...), Recife, FUNDARPE, 1984, pp. 375.
[42]
Varnhagen, F, história das lutas com os holandeses no Brasil desde
[43] Adler H. F. de Castro. Guerra e Sociedade no Brasil Colonial. Pp.167.
[44] Pedro Puntoni. Op.Cit. p 192
[45] Joannes de Laet. História ou Annaes dos feitos da companhia privilegiada das Índias Occidentaes: desde o começo até o fim do anno de 1636. Rio de janeiro, Biblioteca Nacional, 1916.
[46] Aqui cabe uma definição ao que denomino tropas regulares e auxiliares ou Ordenanças: as tropas regulares seriam constituídas por soldados oriundos da Europa e que seriam experientes na denominada “Guerra de Flandres”, travada na Europa e que ao contrário das tropas de ordenança, recebiam soldo. As tropas de ordenança seriam constituídas por todos os moradores com idade entre 18 e 60 anos, reforçadas por fortes contingentes indígenas e regulamentadas pelo Regimento das ordenanças de 1570. Puntoni, Pedro. A arte da guerra no Brasil. IN: Novos Estudos CEBRAP, No. 53, março 1999, pp 190.
[47]
Diogo
Lopes de Santiago. historia da Guerra de Pernambuco e feitos
memoráveis do
mestre de campo João Fernandes Vieira, Herói digno de eterna memória,
primeiro
aclamador da guerra por (...). Recife, FUNDARPE, 1984. p.381.
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| Guerras do Brasil (1504-1604), de Pedro Puntoni |
A Guerra dos Holandeses, de Pedro Puntoni |
O trato dos viventes, de Luiz Felipe de Alencastro |
Monções, de Sérgio Buarque de Holanda |