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A
migração dos trabalhadores gaúchos para a Amazônia Legal (1970-1985) I - A questão agrária no Rio Grande do Sul |
Este é a primeira parte de um texto que procura abarcar a
colonização de gaúchos no norte do Mato Grosso à partir da década de
1970. O enfoque desta primeira parte é a ocupação fundiária do Rio
Grande do Sul no século XIX e as especificidades que contribuíram para
a crescente leva de migrantes rumo ao Centro-Oeste brasileiro na
segunda metade do século XX.
A
segunda parte desta série abarca o contexto sócio-econômico que levou
ao estimulo à migração destes grupos populacionais ao Centro-Oeste, ou
seja, as transformações posteriores à instalação do regime ditatorial
militar em 1964. A terceira e última parte aborda, a partir da
discussão sobre os diferentes tipos de colonização e seus resultados, a
instalação dos
migrantes no norte do Mato Grosso e a conseqüente expressiva expansão
da agricultura sobre a Amazônia Legal a partir de então.
INTRODUÇÃO:
O presente trabalho pretende discutir a
migração de trabalhadores gaúchos do noroeste do Rio
Grande do Sul para o sul da Amazônia Legal, principalmente norte do
Mato
Grosso, à partir da década de 1970, durante o Governo Militar.
Para tanto é importante que se faça uma
contextualização da origem destes grupos migrantes no Rio Grande
do Sul, no século XIX, que eram na maioria, italianos e alemães.
Em seguida, se fará um panorama
das políticas governamentais para a colonização de terras,
mais especificamente nas fronteiras agrícolas estratégicas da
Amazônia Legal, e a passagem da concessão de
colonização para cooperativas.
Através de depoimentos de
migrantes, familiares e profissionais que trabalham nesta área, e da
bibliografia especializada, se discutirão as condições de
vida dos trabalhadores na região de origem, o noroeste do Rio Grande do
Sul, os motivos de seu deslocamento, bem como a descrição do
caminho que percorreram, e em último momento, as condições
de vida na região a que se destinaram. Não se pode prescindir da
discussão à respeito da ocupação do espaço,
e o encontro com a população local preexistente.
A pesquisa de campo na Amazônia
Legal foi feita em cidades do estado do Mato Grosso. É importante
comparar a instalação dos gaúchos em uma cidade que
está ao sul da Amazônia Legal, que é Primavera do Leste,
com o caso das cidades ao norte: Sinop, Lucas do Rio Verde e Sorriso.
Há
diferenças políticas e geográficas nas
ocupações destas regiões. O estudo da
colonização da
Amazônia Legal por sulistas foi dividido em três categorias, tais
como esta ocorreu: a colonização oficial do INCRA, a
colonização por parte de cooperativas e a
colonização independente. Os três tipos apresentam realidades
diferentes quando ao nível de renda dos migrantes, e as
condições de instalação. Para avaliar as
singularidades, foi necessária uma ampla coleta de depoimentos, e o
estudo da bibliografia sobre cada município visitado.
HIPÓTESES:
Tanto o discurso modernizador
eurocêntrico, quanto a colonização excludente da
população local dos fins do século XIX no Rio Grande do
Sul, repetem-se durante a Ditadura Militar no século XX com a
colonização da Amazônia Legal.
Os gaúchos que migraram eram de
origem estrangeira, sendo, na maioria filhos de pequenos proprietários,
que tinham a cultura de alguma atividade econômica exercida pela
família.
A maior parte dos nacionais que
não tinham terras, entrou para o Movimento Sem-Terra no Rio Grande do
Sul, pois o controle do Ministério da Agricultura e das cooperativas
gaúchas com relação à seleção dos
migrantes que iriam para a Amazônia Legal era muito rígido, e
não se interessavam pelos ditos “peões” que
não tinham o conhecimento das culturas agrícolas: assim
justificou-se a exclusão deste grupo do processo colonizador.
A principal causa da
migração foi a falta de terras no noroeste do Rio Grande do Sul,
pois os
As condições de vida na
Amazônia Legal durante a década de 1970 eram mínimas. Os
parceleiros ao chegarem, na maioria das vezes tiveram que organizar
toda a
comunidade, abrir clareiras e construir suas próprias casas e estradas.
Não havia escolas nem postos de saúde. A maioria retornou. Mas os
que permaneceram organizaram minimamente a vida na região. Na
década de 1980, muitos projetos de colonização do Plano de
Integração Nacional foram instalados, e municípios foram
fundados, atraindo cada vez mais colonizadoras particulares. A maior
parte dos
trabalhadores que foi nesta década não voltou, pois
começou a enxergar possibilidades de desenvolvimento econômico
para si.
“Migrar temporariamente é mais do que ir
e vir - é viver, em espaços geográficos diferentes,
temporalidades dilaceradas pelas contradições sociais. Ser
migrante temporário é viver tais contradições com
duplicidade; é ser duas pessoas ao mesmo tempo (...) é viver como
o presente, e sonhar como o ausente. É ser e não ser ao mesmo
tempo; sair quando está chegando, voltar quando está indo (...)
É estar em dois lugares ao mesmo tempo, e não estar em nenhum.
É, até mesmo, partir sempre e não chegar nunca.”
"O desenho do programa (Terranova) já
indica a penetração na natureza: às linhas curvas e
sinuosas dos longos rios se opõe a forma geométrica das zonas de
colonização, como a cor ocre dos terrenos contrasta com o verde
escuro e pontilhado das grandes árvores.”
José
Vicente Tavares dos Santos[2]
Até julho de
O segundo ciclo econômico, ou
período não escravista conservava o domínio do Governo
sobre todas as atividades destinadas ao uso da terra. A Lei de Terras
de 1850,
que mercantilizou o solo brasileiro, tornando obrigatória a sua compra,
coincidiu, não aleatoriamente com o fim do tráfico de escravos,
no mesmo ano. O objetivo da lei era afastar os escravos libertos e
posseiros do
acesso à terra.
A Lei de Terras baseou-se no pensamento
wakefieldiano de “Colonização Sistemática”:
“Terras virgens não deviam ser postas ao alcance das
populações pobres por preços baixos, a elas
acessíveis, porque se assim acontecesse, os homens e mulheres mais
capazes
se transformariam em produtores independentes em vez de se engajarem
como
trabalhadores nas propriedades dos latifundiários.”[3]
Esta tese demonstra o desinteresse absoluto pela existência de
propriedade familiar, e pela mudança de sistema agrário colonial.
Os latifundiários do segundo ciclo
coagiam os pequenos proprietários vizinhos para anexar esta terra
à sua, e praticavam “violência no sentido de desalojar das
melhores terras os ocupantes sem títulos, os posseiros ou
intrusos.”[4]
Os nativos também eram considerados posseiros; não havia nenhuma
lei que os defendesse.
Os posseiros tinham que viver cada vez
mais afastados de sua terra original, pois os senhores da terra
mandavam
animais para quebrar suas cercas. A luta dos posseiros para sobreviver
ao
sistema latifundiário tem muito pouca visibilidade na historiografia.
![]() Imigrantes alemães indo à missa. Fonte: Acervo IBGE. |
Mas se a lei restringia o acesso aos posseiros, apoiava os imigrantes: “As vantagens oferecidas pela lei provincial nº 229, de 4 de dezembro de 1851, incluíam a concessão gratuita de terras, despesa de transporte desde o porto de Rio Grande até as colônias, ferramentas e sementes, liberdade religiosa e pagamento de uma gratificação de três patacões, para cada imigrante entre 7 e 35 anos, ao agente encarregado na Alemanha.”[5] |
Após 1850, as regiões de
matas também foram privatizadas, impedindo totalmente que as terras
devolutas fossem apropriadas por lavradores brasileiros sem terras.
Esta
privatização deu-se sob alegação de que não
restava mais lugar algum para plantar lavouras. A posse e a pequena
propriedade
só podiam se desenvolver à partir da apropriação de
terras devolutas.
A instalação de
propriedades não latifundiárias no Sul abriu espaço para a
formação de uma classe camponesa no primeiro cartel do
século XIX. O Governo distribuía pequenas propriedades com o objetivo
de formar uma mão-de-obra de reserva. Esta mão de obra era
formada de imigrantes e miseráveis agregados dos engenhos. A
justificativa do Governo para esta distribuição de pequenas
propriedades no Sul é, o interesse dos senhores em conversar com os
“desprovidos”, acabando-se com a memória de luta dos
camponeses pela terra. Era interessante para o Governo distribuir
pequenas
propriedades no Rio Grande do Sul, que era uma província que até
então tivera pouca importância econômica, para salvaguardar
sua imagem paternalista; alguns autores (por exemplo, Truda, 1930[6])
sugerem, ainda, que a colonização européia teria como
objetivo introduzir povos brancos para contrabalançar com negros e
mestiços, considerados de raças inferiores. Era,
também, interessante para a Coroa a produção cerealista,
que era repelida pelos latifúndios.
Outra justificativa para a
colonização era a suposta qualidade do trabalho:“Antonio
José Gonçalves Chaves, sugeriu a imigração para a
melhora da qualidade técnica da produção.”[7]
A primeira leva de imigrantes no Rio
Grande do Sul foi bastante problemática. Em 1824 chegaram os primeiros
alemães
Depois de 1848, houve um surto de
prosperidade das colônias. Foi proibido o trabalho escravo nestas
regiões. As colônias mais prósperas foram: São
Leopoldo, Rio dos Sinos, as margens dos rios Caí e Taquari, Santa Cruz,
Santo Ângelo, Três Forquilhas, São Lourenço, Conde
d’Eu, Dona Isabel, Caxias e
Silveira Martins.
Em 1889 declinou a
imigração alemã para o sul e aumentou a italiana para
São Paulo. À partir de 1859, partiram apelos em defesa dos
pequenos proprietários, que estavam cada vez mais em
posição conflitante com o Governo e os
latifundiários. O
discurso oficial era modernizante, mas o arcaismo resistiu por todo o
século XIX.
A
cultura tradicional do Rio
Grande do Sul é a pecuária latifundiária. A agricultura,
que foi, em grande parte inserida pelos imigrantes, (mas muito por
caboclos e
escravos), mudou muito a economia. “No entanto, a
colonização das terras florestais e o desenvolvimento da pequena
propriedade agrícola estão profundamente relacionados à
estratégia estabelecida pelos interesses dos latifundiários para
o processo de transição.”[8]
As
terras pastoris, dos pecuaristas tradicionais
gaúchos manteriam-se intactas, enquanto promovia-se “um processo
de distribuição de terras florestais – privadas ou
devolutas não utilizadas pela pecuária, para imigrantes europeus,
sob um sistema de pequenas propriedades familiares.”[9] O objetivo era mercantil: vender terras
para colonos era muito lucrativo neste momento. As técnicas que os
imigrantes
traziam consigo eram vistas pela elite agrária do Rio Grande, como
modernas em relação às brasileiras.

A
Lei de Terras de 1850 permitiu
que as elites do Sul distribuíssem as terras florestais aos colonos de
acordo com seu “interesse”, inclusive excluindo lavradores
nacionais pobres do acesso à propriedade.
Os
caboclos expulsos das terras acabaram sendo os
principais braços do desmatamento das colônias, quando se valoriza
a presença dos estrangeiros, como responsáveis para o
desenvolvimento local.
Índios
e caboclos foram expulsos das terras ocupadas originalmente por força
das guerras, da concentração fundiária ou por
contágio de doenças trazidas pelos imigrantes.
2.Colonização do Rio Grande por
Estratégia Militar:
Os
militares tinham muito peso político na província do Rio Grande,
que vivia sob guerras quase permanentemente, por ocupar uma
posição geopolítica importante no Brasil. O
latifúndio não era estrategicamente interessante, por se tratar
de muita terra ocupada por poucos habitantes. Como as áreas ocupadas
serviam mais para abastecimento e pastagens, as ocupações de
terra só preocupavam quando os interesses de Maragatos
e Pica-Paus,
federalistas e republicanos respectivamente, geravam conflitos armados.
As terras, antes da Lei de Terras de 1850,
já eram vendidas pelos administradores locais. Este expediente, de
compra, era mais fácil do que requerer as terras sob a forma de
sesmarias, que demandava um lento processo burocrático até a
concessão real. Os chefes militares vendiam terras por preço
baixo, burlando o controle legal . “Em torno de 1850, as áreas de
campo nativo estavam praticamente todas apropriadas (...)” Segundo o
representante da Câmara de Cruz Alta, região de
ocupação tardia, “(...) Informava-se que não havia
mais campos nativos disponíveis.”[12]
Os proprietários procuravam difundir a idéia de que todas as
terras do Rio Grande do Sul que não fossem as florestas do Alto
Uruguai,
estavam já ocupadas.
Temendo
a fragilidade da região perante os outros países da fronteira, as
autoridades portuguesas incentivaram a vinda dos primeiros colonos
imigrantes
ao Rio Grande do Sul: os açorianos. Estes vieram plantar trigo, para
abastecimento interno, assim como no século XIX o fariam os imigrantes
alemães e italianos. Claramente havia uma política de
imigração, para a ocupação produtiva do
território.
A instalação da agricultura
enfrentou alguns problemas tais como os interesses dos latifundiários,
que concordavam com a colonização desde que esta não
passasse pelas estâncias pastoris, seus domínios. Além
disso, o transporte era muito dificultado pela falta de estradas e o
impedimento de se passar por propriedades privadas, e também por terem ocorrido muitas pragas que
afetaram as lavouras.
Para Zarth, a Câmara de Cruz
Alta insistiu constantemente para
que o governo enviasse colonos para as matas do município, fato que
aconteceu somente em 1890, com aplausos dos cruz-altenses.[13]
Os lavradores nacionais acabaram vendendo suas terras aos colonos, e
disputaram
as regiões de matas com os índios; plantavam lavoura de
subsistência e erva-mate. Desde 1835, os ervais eram públicos[14]
e
lá trabalhavam milhares de pequenos agricultores. Após a Lei de
Terras, a privatização dos ervais por parte de uma elite
intensificou os conflitos.
“No final do século XIX
(...) os especuladores passaram a se apropriar das terras florestais
virgens
para loteá-las aos colonos imigrantes, tal qual já ocorrera nas
regiões de colonização mais antiga. Em 1900, o Engenheiro
Augusto Pestana, chefe da comissão de verificação de
posses da colônia de Ijuhy, informava que uma empresa pretendia se
apropriar de uma área de terras públicas utilizando-se de
pretensos posseiros, que habitavam as matas reivindicadas.”[15]
O
expediente consistia em
“comprar” a posse de lavradores que diziam morar no local desde
antes da Lei de Terras, mas que não possuíam registro da
área. Desta forma, era muito fácil expulsar os moradores locais
das terras, pois a lei garantia os direitos aos que
as comprassem.
A colonização das terras
pelos imigrantes foi predominantemente particular. As terras eram
vendidas por
especuladores, que, no entanto, tinham subsídio do Governo. As terras
custavam muito pouco e muitas delas foram apossadas antes da Lei de
Terras
pelos comerciantes. “Cada colônia oficial era uma espécie de
pólo, ao redor do qual eram instalados os empreendimentos privados
utilizando-se da infra-estrutura criada e do mercado gerado pela
colônia
estatal.(...) A colonização particular era um bom negócio
para empresários de terras(...) era uma forma de valorizar as terras
dos
grandes proprietários(...)”[16].
Se os governantes também eram grandes proprietários, a
colonização interessava no âmbito individual aos
políticos. As terras aumentaram de preço com a
imigração. Portanto, o incentivo à imigração
também era uma estratégia de valorização das
mesmas. Para Zarth, os imigrantes europeus não migraram para substituir
escravos, e sim para ocupar terras como camponeses absolutamente
independentes,
com uma estrutura produtiva e de circulação organizada e
planejada pelas companhias de colonização ou pelo Estado.[17]
O objetivo da colonização
do Rio Grande do Sul desde o século XVII foi predominantemente
geopolítico. A única riqueza que se encontrava entre a floresta
do noroeste era a erva-mate, que não propiciava o adensamento
populacional desejável, em termos militares; os indígenas
não representavam quase nada em termos de densidade demográfica,
e não atendiam aos interesses militares, para as autoridades.
Os índios
Kaingang que habitavam
as matas do noroeste apavoravam os brancos. A literatura
regional conta que
“seqüestravam, matavam e incendiavam”[18].
As reações do governo foram de dois tipos:
catequização e presentes, ou morte. A primeira
opção mostrou-se mais eficaz, pois recebendo presentes, os
índios “voltavam para as matas, quando atacados, reapareciam mais
hostis em outros locais.”[19] Sem dúvida, os índios
foram os que mais sofreram com a colonização do Rio Grande do Sul
e, por que não dizer, de todo o Brasil. Foram confinados em reservas,
muitas vezes com grupos étnicos rivais. Destas, as principais foram
Guarita e Nonohay (ou Nonoai), ambas no noroeste do Rio Grande do Sul.
Para garantir a segurança do
território, antes da imigração, foi instalada uma
colônia militar no Alto Uruguai em 1879, que acabou fracassada pela
falta
de infra-estrutura. “Somente em 1890, quando uma ferrovia estava em
construção, aí foram fundadas as primeiras colônias
de imigrantes nas florestas do noroeste, nas proximidades da fronteira,
por
iniciativa do Governo Republicano.”[20]
O
governo preferiu povoar a região com grupos de diferentes origens, para
que não se formasse um núcleo homogêneo de estrangeiros, o
que colocava em risco a região da fronteira.
3.A
produção dos colonos
Os colonos estrangeiros foram os
principais produtores do noroeste do Rio Grande, durante o período que
Zarth chama de terceira fase da agricultura[21]:
tratava-se da expansão desta atividade econômica com a vinda,
principalmente de imigrantes alemães. Os colonos substituíram o
sistema de coivara (queima da mata e plantio até o esgotamento do
solo),
usado pelos nacionais, considerado impraticável pelo pequeno tamanho
dos
terrenos dos quais eram proprietários; o sistema adotado foi o de
rotação de terras. Passaram então a criar gado e plantar
uma maior variedade de produtos. No
novo sistema, a rotatividade do terreno era freqüente, o que dava a
impressão de que os estrangeiros trabalhavam mais que os nacionais, que
deixavam cada cultura plantada por mais tempo.
A colonização da zona de
floresta, no noroeste do estado, com culturas voltadas para o
abastecimento
alimentar interno, foi importante para aquela região e para o sudeste
do
Brasil, pois os colonos passaram a ser produtores destes gêneros no Rio
Grande do Sul, pelo sistema de policultura, enquanto nas outras
regiões,
a agricultura estava voltada na sua maior parte para a exportação
monocultora e pecuária.
Quanto ao escoamento dos produtos
agrícolas coloniais: “Os maiores beneficiados pelo sistema de
colonização foram os comerciantes, que acumulavam capital
primitivo via mecanismos de preços, dando origem a muitos grupos
industriais na capital da província. Os colonos reclamavam
constantemente
da exploração a que estavam submetidos pelos comerciantes,
principalmente em locais distantes das cidades.(...) Esta seria a
principal
dificuldade da colonização do interior, pois os agricultores se
viam obrigados a permutar seus produtos por gêneros alimentícios
de primeira necessidade, ficando na “impossibilidade material de
ajuntarem algum capital e progredirem”.”[22]
4.As
origens dos municípios de Ijuí,
Tenente Portela e Frederico Westfalen
Este estudo atém-se à
colonização estrangeira da região noroeste do Rio Grande
do Sul, porque era desta região que a maior parte dos migrantes para a
Amazônia Legal era proveniente. Para prosseguir com a história da
migração para as regiões Centro-Oeste e Norte do
país, é necessário observar como foi a
ocupação do território de origem dos migrantes, e os
motivos de ocupação daquela área.
Inicialmente, a Coroa não se
interessara pela colonização desta região porque temia que
se formassem comunidades liberais, em um momento em que explodiam
revoltas
dessa natureza em todo o Brasil. O interesse surgiu pela possibilidade
de
ocupar as regiões de floresta, que não ameaçaria o
latifúndio. Além disso, não deixava de ser uma
estratégia de defesa do oeste do País.
A ocupação da região
serrana começou por Ijuí em 1890. Muitos
dos imigrantes que foram para o
noroeste, ou estavam despreparados para a agricultura, ou eram atirados
dos
campos planos para matas agrestes. Vinham sem recursos materiais,
fugindo de
dificuldades dos seus países de origem.
Em 1891 chegaram as primeiras levas de
italianos. Em 1892, os letos (da Letônia). Em 1893, os austríacos.
Os alemães vieram depois da Primeira Guerra Mundial. Os últimos
foram os japoneses (sem data). Os imigrantes chegavam por conta própria.
A Comunidade
Evangélico-Alemã é a mais antiga congregação
religiosa de Ijuí. “O que levou uma comunidade religiosa a se
constituir não foi exatamente uma religiosidade acentuada, mas em
primeiro lugar o costume de uma vida religiosa, e de um senso de ordem
civil
constituída (...)”[23]
Em 1912 foi criado o município,
pelo Serviço de Terras e Colonização,e juntamente a estrada
de ferro, que ia rumo a Santa Maria, Cruz Alta, Passo Fundo, Santa
Catarina,
Ponta Grossa e São Paulo.
Os primeiros habitantes do atual
município de Tenente Portela são provenientes da
Revolução Federalista de 1893. Ali se instalaram nas matas como
fugitivos, não apenas portugueses, mas também, e principalmente
índios Kaingangues. “O
início da exploração das terras do município
aconteceu pelo ano de 1911. Na década de 1940, viviam aqui
aproximadamente 90 famílias vindas de diversos municípios(...) Os
primeiros moradores foram: Fibig, Malmann, Panassolo, Salamoni, Nino
Machado,
Chiodi, Furini e Vincenzi”[24]
Note-se que são na maioria italianos, o que possibilitou a
formação de uma identidade comunitária.
Em 1942, Miraguay, o segundo nome da
cidade, depois de Pari, passou a chamar-se Tenente Portela em homenagem
ao
primeiro tenente de engenharia, Mário Portela, morto em 1925 na Barra
do
Rio Pardo, como membro da Coluna Prestes. Com a emancipação do
então distrito de Três Passos, em 1944, Tenente Portela passou a
integrar-se a este município, na condição de Distrito
Administrativo. Através da Inspetoria de Terras e
Colonização, mediram-se as terras, estabelecendo-se uma estrutura
fundiária agrícola e uma rápida ocupação das
terras pelos agricultores vindos de diversas regiões do Estado.
“Já em 18 de agosto de 1955 (...) o distrito de Tenente Portela
passou a município.”[25]
A agricultura é difícil,
pois o relevo é ondulado e acidentado, sujeito a forte erosão; a
mecanização é impraticável exceto em algumas
áreas, o afloramento de rochas ocorre com freqüência.
Os Kaingang foram transferidos para
aquela região no século XIX, por causa da chegada dos europeus
às terras do noroeste do estado. Em 1908, uma superfície de
Quatrocentas famílias de pequenos
agricultores chegaram a ocupar a reserva indígena, na década de
1960. Em 1969, mais seiscentas famílias adentraram o território.
A maior parte foi expulsa pelo Governo, mas duzentas ficaram. Outra
invasão em 1974 resultou em 10 mortes. Em 1975, totalizavam novecentas
e
setenta e quatro famílias sobre
A
reserva
indígena dos Kaingang foi, em grande parte tomada pelas culturas de
soja, milho e trigo. Os índios eram contratados como diaristas. A
expansão foi descontrolada, para aumentar a lavoura mecanizada. Por
esse
motivo, alterou-se o solo e o clima. As águas passaram a não se
infiltrar devidamente provocando fortes enchentes, como as dos anos de
1965 e
1972, que foram um dos motivos de expulsão por deixar muitas
famílias desabrigadas.
Em
Em janeiro de 1978, os índios
expulsaram os brancos de sua reserva com base no Estatuto do Índio de
1973, que ordenava a expulsão dos brancos de todas as terras
indígenas. Os Kaingang
ficaram com a lavoura de soja que restara.
Os camponeses, sem destino, foram acampar
às margens da estrada no Alto Uruguai. O governo só interveio em
maio, levando quase oitocentas famílias ao Parque de
Exposição de Agropecuária em Esteio, próximo de
Porto Alegre. Permaneceram lá por dois meses sob rígido controle
da polícia. Mas duzentas famílias continuavam às margens
da estrada. O governo rapidamente estimulou o assentamento na Amazônia
Legal, pela COOPERCANA, o que será discutido na Parte III. O êxodo
de Tenente Portela foi o maior, do Rio Grande do Sul para a Amazônia
Legal.
Frederico
Westphalen foi criada em 22 de março de 1961 pela Bula “Haud
Parva” de João XXIII. Seus limites eram: a República
Argentina, as dioceses de Santo Ângelo, Cruz Alta, Passo Fundo e
Chapecó. É uma colônia recente formada de migrantes das
“colônias velhas”. É a diocese que tinha o maior
número de índios.
As terras são acidentadas e
prevaleciam o mini e micro-fúndio (até a atualidade). A
agricultura é mecanizada em alguns locais, principalmente próximo
de Palmeira das Missões, onde há latifúndios. A
produção agrícola era de trigo, milho, batata,
feijão, arroz, fumo e gado suíno.
“Após uma grande
emigração especialmente para o Mato Grosso, a diocese apresenta
aspectos diferenciados por regiões. Enquanto Palmeira das Missões
(cidade) é um pólo de atração, a região de
Três Passos e Tenente Portela têm um êxodo rural
médio; na região de Frederico Westfalen, há êxodo
rural baixo, mas há ainda uma emigração para a
região calçadista (Nordeste), e também de sem-terras em
procura de terra no estado: estes são presentes em quase todos os
acampamentos e assentamentos.
No começo do século XX, os
primeiros gaúchos a abrirem caminhos para o norte, não eram
sem-terras, mas bandoleiros fugidos das autoridades no sul. O mais
famoso foi
Artur Arão, que refugiou-se no oeste catarinense.[29]
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Para Plantar Neste Verão, Petrópolis, Vozes, 1986, pp. 45.
[2] SANTOS,
J.V.T., Matuchos: Exclusão e Luta -Do Sul para a Amazônia,
Petrópolis, Ed. Vozes, 1993, pp. 126. (sobre o Programa Terra Nova).
[3] GUIMARÃES, A. P., Quatro Séculos de Latifúndio, São Paulo, Fulgor, 1963, pp. 111.
[4] Idem. pp. 91
[5] Hormeyer, pp. 113-115, apud: GUIMARÃES, A.P., pp. 79.
[6] ZARTH, P.A., pp. 114 e 115.
[7] CHAVES, A. J. G., Memórias ecônomo-políticas de 1822-23, apud: ZARTH,P.A., pp. 48.
[8] ZARTH,P.A., pp. 28-29.
[9]Idem, pp. 33.
[10] Ibidem, pp. 173. “Caboclo(...), é uma palavra corrente na bibliografia recente para indicar o lavrador nacional pobre, o camponês brasileiro.(...)Colono (no Rio Grande do Sul) significa um imigrante europeu ou descendente, com nível de vida mais elevado e mais inserido no mercado(...).”
[11] Relatório dos Negócios e Obras Públicas. Por. J.J. Parobé. Porto Alegre, 31.07.1899 apud: ZARTH, pp. 170.
[12] ZARTH, P.A., pp. 62.
[13] Gazeta Serrana, 19\10\1890 apud ZARTH, P.A., pp. 72.
[14] Idem, pp. 88
[15] Relatório dos Negócios e Obras Públicas, 31.06.1900, Porto Alegre, pp. 69 apud ZARTH, P.A., pp. 92.
[16] ZARTH, P. A., pp. 94.
[17] Idem, pp. 177.
[18] Ganswidt,
1946, apud: ZARTH, P.A., pp. 81.
[19] Idem, pp. 82.
[20] ZARTH, P.A., pp. 186.
[21] Idem, pp. 199.
[22] ZARTH, P.A., pps. 272-273.
* russos de origem alemã.
[23] FISCHER, M. e
KUNERT, Pe. A.,
Comunidade Evangélica de Ijuí – 85
anos – 1890-1980, Ijuí, 1985.
[24] Tenente
Portela 1955-1980. Publicação em homenagem ao jubileu de prata da
emancipação político-administrativa do município.
Prefeitura municipal de Tenente Portela, 1983.
[26] SANTOS, J. V. T., MATUCHOS, Exclusão e Luta Do Sul Para a Amazônia, Petrópolis, Vozes, 1993, pp. 116.
[28] BORTOLAZZO, P., Desafio do Êxodo Rural e Urbanização, Centro de Estudos Migratórios Cristo Rei, 1985, pp. 41.
[29] WAGNER, C., O Brasil de Bombachas, Porto Alegre, Zero Hora,
1995, pp.
14.