Resgate e construção da memória e da

história da colonização do

 sudeste de Mato Grosso do Sul 


Prof. Luiz Carlos Batista - UFMS*
luiz.carlos.batista@globo.com
                     Prof. Carlos Martins Júnior – UFMS*

ziliani@ceul.ufms.br

Prof. José Carlos Ziliani – UFMS*


Introdução

           

        Este artigo tem como finalidade relatar observações preliminares sobre uma pesquisa, que se constituiu na organização e disponibilização de documentação histórica (seleção e catalogação de arquivo histórico) sobre a colonização particular na região sudeste de Mato Grosso do Sul, na cidade de Batayporã, onde funciona a Oficina Cultural Tcheca e Eslovaca do Brasil. O projeto contou com o financiamento do Fundect/MS, órgão estadual de fomento à pesquisa, à cultura e ao ensino.
 

        O objeto de estudo, a colonização, guarda similitudes com outras experiências colonizadoras, e com o momento histórico da década de 1940/50, quando se materializou a Marcha para o Oeste. Porém, guarda, ao mesmo tempo singularidade, pois se tratou de um evento planejado e executado por iniciativa de um empresário, colaboradores e empregados de origem tcheca emigrados para o Brasil em decorrência de problemas políticos oriundos do período entre-guerras, quando Jan Antonin Bata, empresário do setor de calçados dentre outros setores sofre os efeitos da perseguição que se iniciou quando da ocupação nazista nos sudetos da Tchecoslováquia.


        Não obstante sua complexidade sociocultural, resultante da mescla de componentes étnicos, da presença de migrantes, e suas especificidades de caráter econômico e histórico, a região não tem sido foco do interesse científico por parte dos pesquisadores nacionais ou mesmo do próprio Estado de Mato Grosso do Sul, não raro em razão da falta de documentação, quase sempre em mau estado de conservação ou dispersa.


        Este trabalho teve por objetivo; resgatar o acervo de documentos e fotos alusivos à colonização de parte da porção do território a sudeste de Mato Grosso do Sul existentes nas cidades de Batayporã (MS), Presidente Prudente e São Paulo, no Estado de São Paulo; organizar e sistematizar estes documentos e fotos que sirvam de base empírica para uma pesquisa de caráter histórico e iconográfico, implementando, assim a recuperação de parte da memória e cultura do MS; disseminar as informações obtidas por intermédio de material impresso e/ou multimídia e utilizando redes virtuais interativas, articulando parcerias entre órgãos ligados à educação, como secretarias municipais e estaduais e outras instituições culturais a fim de completar a ação educativa que tal iniciativa deva necessariamente ter.


        A criação e organização do arquivo histórico, iniciou-se em 2002 e terminou em 2004, dentro de um projeto de pesquisa interdisciplinar do Departamento de Geociências e de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, denominado: “Resgate e construção da memória e da história da Colonização do Sudeste de Mato Grosso do Sul” coordenado pelo Prof. Luiz Carlos Batista geógrafo, com a participação do Prof. José Carlos Ziliani, historiador do Campus de Três Lagoas da UFMS e do Prof. Carlos Martins Junior historiador do Departamento de História do Campus de Aquidauana.


        A metodologia adotada foi a seguinte; Agrupamento de três blocos de documentos e fotos representativas do processo de colonização, que estão dispersos nas cidades de Batayporã (MS), de Presidente Prudente e São Paulo, no Estado de São Paulo; montagem de um arquivo histórico referente à Companhia Viação São Paulo-Mato Grosso, sediado no município de Batayporã, que funcionará como banco de dados para pesquisadores interessados no tema da colonização sul-mato-grossense; seleção e analise dos documentos e fotos que sirvam de base empírica para elaboração de material didático multimídia.

 


ORGANIZAÇAO DO ARQUIVO SOBRE A COLONIZAÇÃO DO SUDESTE DE MATO GROSSO DO SUL

 

Por isto é necessário à tomada de medidas urgentes no sentido de resgate e divulgação deste acervo. Nesse sentido, a imensa gama de recursos que podem ser disponibilizados hoje como suporte educacional, tais como CD-Roms interativos, redes virtuais de informações e outros mecanismos de educação à distância para divulgação de informações, não só pela facilidade de acesso que esses recursos permitem, como pela necessidade imposta pela sociedade de hoje, que exige a obtenção do maior número de informações possíveis em todas as áreas do conhecimento.


        Este projeto  recuperou, catalogou e disseminou as informações contidas no acervo fotográfico e documental deixado pela companhia Viação São Paulo-Mato Grosso, ora disponibilizados pelos descendentes dos antigos donos da referida empresa, facilitando o acesso a essas informações por intermédio da educação à distância, disponibilizando o acervo documental e fotográfico para a divulgação de informações sobre o processo de colonização na região sudeste do Estado do Mato Grosso do Sul, utilizando-se dos meios mais modernos de comunicação como a produção de material multimídia a ser disponibilizado via Internet.


Jardineira Fargo, ano 1945/1946, que fazia a rota
Porto Primavera - Batayporã
        O interesse nesse tipo de estudo, em levantar, organizar, disponibilizar e analisar a documentação necessária ao entendimento do processo histórico vivenciado pela região está em servir de referencial empírico para pesquisas históricas geográficas e de outras áreas afins.


        Na fase inicial da execução do projeto, nos deparamos com um grande volume de documentos condicionados em caixas compostas de maneira desordenada, mas integrante de um contexto histórico referente à colonização, entendido como um todo orgânico. Esse contexto orgânico sofreu transformações específicas, segundo a organização sistemática norteada por regras fixas. Passamos além do contato organizador para construção de relatos históricos ligados a Jan Antonin Bata, que foi um imigrante tcheco responsável pela colonização através da Companhia Viação São Paulo-Mato Grosso.


        A apresentação pública de imagens fotográficas, mapas, objetos e documentos históricos possibilitará o contato com o passado recente experimentado pelas últimas gerações, reconstruindo e sedimentando a relação orgânica passado e presente. Sendo assim apresentamos nas considerações finais um breve histórico das duas cidades fundadas por Jan Antonin Bata no sudeste de Mato Grosso do Sul.

 

REFLEXÃO HISTÓRICA E GEOGRÁFICA SOBRE A COLONIZAÇÃO DO
SUDESTE DE MATO GROSSO DO SUL

 

        A região Sudeste do Estado de Mato Grosso do Sul constituí hoje, de acordo com o que sugerem os dados recentemente fornecidos pelo Censo Demográfico do IBGE, importante corredor de entrada de migrantes vindos de estados vizinhos da Federação, em busca de terras para a sua fixação.


        Composta, entre outros, pelos municípios de Bataguassú, Batayporã, Nova Andradina e Anaurilândia, essa região foi tradicionalmente ocupada pôr diversos grupos indígenas, a exemplo dos Xavante, Kaiowá e Ofaié, ao longo do tempo passou a sofrer um processo de ocupação pôr parte da população branca européia, em especial espanhóis, já no século XVIII, marcando o início dos conflitos com as populações nativas. Entretanto, a partir da primeira metade do século XX intensificou-se o processo de ocupação caracterizado pelas frentes de colonização, destacando-se, sobretudo no decorrer da década de 1950, uma nova fase do governo de Getúlio Vargas, quando as iniciativas de colonização são retomadas no sul de Mato Grosso e em 1953, a Companhia Vera Cruz abriu perspectiva para colonizar terras localizadas entre os rios Amambaí e Curupai, no atual município de Amambaí, atraindo cafeicultores paulistas. Em 1957 abre-se a colonização do futuro município de Carapó, através da colônia Curupai, com colonos de São Paulo e Minas Gerais.
 


Derrubada da mata e extração de madeira na região de Taquarussu, c. 1960.


        Ameaçado pela noção do "espaço vital", uma das razões teóricas para a Segunda Guerra Mundial, o governo de Getúlio Vargas decide ocupar os vazios do Brasil Central. Em pleno século vinte, uma enorme parte do território nacional ainda era desconhecida, hostil e mitológica para a maior parte dos brasileiros.


O projeto "Marcha para o Oeste", visava  de ocupar o Oeste do Brasil assentando colonos que viriam para Mato Grosso do Sul produzir alimentos e dessa forma ocupar os imensos, "espaços vazios" dessa região  brasileira, constituindo-se na expansão do Brasil dentro de suas próprias fronteiras, através do cultivo do solo, a civilização penetrava o sertão e o homem dominava a natureza, integrando o brasileiro na sua própria terra, o Governo Federal passa então a planejar a migração para Mato Grosso Sul incentivando a fixação de colonizadoras particulares e montando projetos de colonização comandada pelo estado, o colono selecionado era o sulista que na visão de Getulio Vargas esse trabalhador tinha o sentimento de prosperidade e após 3 anos de ocupação receberia a posse definitiva da terra, também  fazia  parte desse projeto  as colônias agrícolas federais. Em 1943 surge a Colônia de Dourados, localizada no atual Estado de Mato Grosso do Sul.


Desse projeto resultou uma intensa especulação de terras; dos primeiros colonos fixados, uma grande parte não obteve progresso e acabou por vender suas terras a outros bem sucedidos, restando a eles a proletarização da sua mão-de-obra. Os novos proprietários das terras formavam latifúndios improdutivos que eram vendidos a preços elevados nos grandes centros do país com Rio de Janeiro e São Paulo. Sendo que na década de 50, a venda das terras de Mato Grosso do Sul chegaram a ponto de serem vendidas várias vezes a pessoas diferentes, representando um bom investimento de capital para os empresários e, para os pobres descapitalizados restavam ocupar as terras improdutivas na categoria de posseiro.

 
           Essa foi uma proposta geopolítica dos governantes de ocupar os espaços vazios povoados pelo homem branco, resultando na ocupação de vários territórios indígenas e extermínio de seu povo, pois os índios eram vistos como um empecilho aos interesses capitalistas que eram voltados ao "desenvolvimento e ao progresso" e, por oferecer resistência, acabaram por enfrentarem a violência dos brancos. Na década de 50, tais operações para limpar a área ganharam proporções alarmantes, resultando no extermínio de quase todas as aldeias.

       
No momento em que o projeto nacional de expansão conhecido como “Marcha para o Oeste” consolida-se,  materializam-se outros empreendimentos iniciados dentro desta modalidalidade de projetos de colonização, como aqueles engendrados pelo empresário Jan Antonin Bata no Oeste de São Paulo e Sul de Mato Grosso do Sul, destacando a proeminência do capital internacional com forte atuação nos setores extrativista, agropecuário e de transportes, este último dinamizando a navegação pelo complexo fluvial Paraná-Prata. Nesse contexto integrou-se a Companhia Colonizadora Viação São Paulo Mato Grosso, empresa pertencente ao imigrante de origem theca Jan Antonin Bata, que adquiriu 6.000 km2 de terras situadas no sudeste de Mato Grosso do Sul e fundou as cidades de Bataguassú e Batayporã.


R. Valdir Sãovesso. Construção das
primeiras casas da Viação SP-MT

 

COLONIZAÇÃO PARTICULAR NO SUDESTE DE MATO GROSSO DO SUL

 

        Evidenciaremos que a partir da metade do século XX, a intensificação do processo de ocupação caracterizada pelas frentes de colonização, destacando-se, sobretudo no decorrer das décadas de 1940 a 1950. Inspirados nos processos de colonização desenvolvidos no Estado de São Paulo e Paraná, as empresas colonizadoras compraram terras do antigo Estado Mato Grosso, e também de particulares desenvolvendo colônias de 20 a 30 hectares servidas de algumas redes de estradas que interligavam alguns centros comerciais. Os negócios eram efetuados a base de uma entrada na faixa de 30 a 40% do valor do imóvel e o restante era dividido em três anuidades. Além desses aspectos, a riqueza empírica possibilita vislumbres para outras abordagens.
 

        Empreendimentos dessa natureza foram verificados como no exemplo da Companhia Viação São Paulo/Mato Grosso de propriedade do tcheco Jan Antonin Bata que adquiriu 6.000 km2 de terras situadas nos atuais municípios de Batayporã, Anaurilândia e Bataguassú. A intenção desse colonizador era o de produzir no espaço geográfico colonizado, uma cidade, porque entendia ele que os homens precisavam um do outro, os dois de um terceiro, e os três de um quarto, constituindo uma unidade comunal a partir de uma unidade rural. Para ele essa unidade comunal é representada pela cidade que poderia ser de vários tamanhos, mas a sua experiência como industrial em planejar uma cidade sem limites, como quando formou a primeira cidade industrial na Alemanha, significou prejuízos inimagináveis.



Jan Antonin Bata
        Esta experiência demonstrou que existe um limite mínimo de população para uma unidade comunal oferecer melhores resultados, que estariam em torno da quantidade de no mínimo 10.000 pessoas. Essa conclusão fez Jan Bata verificar que o planejamento de uma cidade tem que partir desse número mínimo de habitantes, isso tendo em vista atender na época parte dos 30 milhões de europeus deslocados e desempregados que consumiam 12 bilhões de dólares anuais dos governos, incluídos nesse valor a ajuda dos Estados Unidos de 6 bilhões de dólares mais outros 6 bilhões dos governos de países como Grã Bretanha, França, Itália, Alemanha, Suíça, Suécia, Holanda, Noruega, Bélgica, Espanha, Portugal, Áustria, Dinamarca e Irlanda. Conclui Jan Bata:


        "Com os 12 bilhões de dólares dispendidos anualmente em subvenções da miséria e desemprego, poderíamos migrar anualmente, 12 milhões de deslocados e desempregados para os países vazios, tornando-os capitalistas firmes e entusiasmados. No entanto, perdendo na Europa os 12 bilhões de dólares que os capitalistas americanos e europeus, finalmente os capitalistas de todo o mundo livre, têm de pagar em impostos, só estamos trabalhando para a finalidade dos comunistas, que resultam dessa nossa falha em encontrarmos o caminho para o futuro do nosso sistema Cristão-Capitalista...” Segundo Bata: “Cada nação tem um contingente de 2% que necessitam de misericórdia, mas 98% se revoltam por estarem sujeitos as esmolas, que degradam aqueles como se fossem aleijados, incapazes de providenciar o necessário para si e suas famílias”.


        Jan Antonin Bata, inspirado nas idéias de Henry Ford, que sugeriu a realização de experiências com sitiantes-operários-industriais, desenvolvendo um operariado mixto industrial-agrário, despertou-lhe a possibilidade de desenvolver este projeto tanto em Indiana como em Batatuba. Ao regressar para o Brasil Jan Bata desenvolveu um modo de colonizar que envolvia os operários industriais propiciando-lhes conhecer também o trabalho agrícola, essa experiência ele desenvolveu nas suas indústrias de sapatos instaladas em Batatuba e Indiana no Estado de São Paulo, algumas dificuldades foram encontradas, tais como: os terrenos ao redor de Batatuba e Indiana pertencerem a grandes e pequenos fazendeiros, que exigiam preços elevados para vende-los. Nesse tipo de empreendimento, uma família com sete pessoas seria assim distribuída, uma pessoa poderia cuidar de um hectare de terra, trabalhando toda semana nessa tarefa, para 4 hectares seriam necessários 4 pessoas para cuidar da plantação e da pecuária, enquanto pelos menos os 3 restantes trabalhariam na fábrica. No caso de uma família com 8 pessoas, 4 ou 5 trabalhariam na fábrica e aproveitariam a parte da tarde para se dedicar ao cuidado adicional da plantação e criação.


        A colonização do tipo mixta agro-industrial proposta por Jan Bata, exigiria investimento em infra-estrutura na parte de transportes, escolas, mercados e industrias e terras agricultáveis. A vantagem da colonização mixta, baseada na indústria, é a de que os colonos neste caso já têm o emprego, que nas zonas novas seria necessário organizar e construir. Isso favorece ao colono agro-industrial começar a organizar sua vida empregado, sem a necessidade de esperar até a colheita para o seu sustento, outra vantagem é que o mercado para seus produtos agrícolas já esta assegurado na praça da fábrica ou nos mercados da vizinhança, no caso de Batatuba a proximidade com São Paulo e no caso de Indiana a proximidade com Presidente Prudente.


        Esses são apenas alguns apontamentos extraídos de um texto Estudos sobre a Migração do Dr. Jan Bata publicado em 1951 em Batatuba Estado de São Paulo.


        Para o Estado do Mato Grosso do Sul, antes de 1977 sul de Mato Grosso, tais empreendimentos colonizadores foram responsáveis pela ocupação sistemática do território no sentido de sua integração às regiões mais dinâmicas da economia nacional.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


        Por iniciativa da Família Trachta, foi inaugurado em setembro de 2001 o “Centro de Memória Jindrich Trachta”, contendo o acervo histórico-cultural deixado pelo pioneiro Jindrich Trachta, um dos colaboradores do fundador de Batayporã, Dr. Jan Antonin Bata. O Centro de Memória está instalado em parte da antiga casa gerencial da Companhia de Viação São Paulo Mato Grosso, que desde a sua construção foi residência do Sr. Jindrich Trachta.

 

        O acervo contém objetos, documentos, narrativas e fotografias da época da colonização de Batayporã, e está permanentemente ali exposto, iniciando, assim, os primeiros passos para o resgate da verdadeira história do município.


       
Para abrigar o Centro de Memória foi idealizada pela família do Sr. Jindrich Trachta, a criação de uma Fundação, visando garantir a manutenção e a conservação dessa vasta documentação a respeito da história de Batayporã e, também, de algumas outras cidades do Estado de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, além de uma extensa biblioteca com obras abrangendo assuntos dos mais variados, detendo o sonho de um dia estar esse material, criteriosamente organizados, à disposição de toda comunidade e pesquisadores, que o Sr. Jindrich Trachta amealhou durante sua vida.
 

Jindrich Trachta

        Após o seu falecimento, ocorrido no dia 27 de novembro de 2000, a família, em caráter informal, inaugurou no dia 12 de outubro de 2001, o Centro de Memória, localizado na Rua José Antonio Morão, nº 1756, na cidade de Batayporã-MS, com a exposição fixa de fotografias retratando, paralelamente à vida do Sr. Jindrich, a trajetória histórica de Batayporã, desde o início da colonização (década de 50) até a década de 90, além de diversos objetos de importância a isto relativa.


        Alem de fotos objetos e documentos sobre a história de Batayporã,MS no centro de memória o visitante poderá ter contato com livros fotos vídeos e informações culturais e turísticas sobre a República Tcheca e República Eslovaca ( antiga Tchecoslováquia) pais de origem de Jan Antonin Bata ( Fundador de Batayporã) e de vários de seus colaboradores como o Sr Jindrich Trachta.


        Para atender às finalidades almejadas pelo empreendimento, bem como aos projetos culturais, garantindo a continuidade do trabalho para, na forma mediata, atingir todos os níveis sociais, necessário se faz a criação de um espaço físico para abrigar os documentos, fotos e outros materiais catalogados.


        Isto posto, a pretendida fundação encontra-se delineada em um projeto, conforme adiante se transcreve: A principio foi formalizado, junto ao Departamento de Geociências e de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, um Projeto de Pesquisa denominado: “Resgate e construção da memória e da história da Colonização do Sudeste de Mato Grosso do Sul” coordenado pelo Prof. Luiz Carlos Batista com a participação do Prof. José Carlos Ziliani, historiador do Campus de Três Lagoas da UFMS e do Prof. Carlos Martins Junior historiador do Departamento de História do Campus de Aquidauana que constituem a  equipe (Projeto: Levantamento Histórico da Região Sudeste de Mato Grosso do Sul). Referido projeto já viabilizou recursos através da FUNDECT – Fundação de Apoio à Pesquisa de Mato Grosso do Sul, dotando o Centro de Memória com um micro-computador.visando a  criação e organização do arquivo histórico, concluído em outubro de 2004


        A Republica Theca se responsabilizou pela: Construção um prédio para abrigar a biblioteca e o arquivo histórico cultural aberto ao público. Construção de espaço cultural, com palco para apresentações afins, já em andamento com recursos angariados entre pessoas físicas. Dentre as atividades a serem desenvolvidas nesse espaço, já se tem acertado aulas de danças folclóricas com seus trajes típicos.


        Para realização destes projetos necessitamos de apoio de pessoas físicas e/ou jurídicas que estão efetuando doações. As doações já efetivadas foram as seguintes:


1- Para a fundação foi doado pela família Trachta os seguintes imóveis:- cinco (05) terrenos urbanos com área total de 2520m2,

2- todo acervo pertencente ao Sr. Jindrich Trachta

3- Coleção de trajes nacionais tchecos, com idade de 100 a 150 anos,Aproximadamente 23 trajes que pertencem à coleção da Sra. Ludmila Batova Arambasic (filha do Dr. Jan Antonin Bata – fundador de Batayporã), de valor aproximado de US$5.000 a US$8.000 cada; ( doação efetuada pela família da Sra. Ludmila)

 4- Parte do acervo da família do fundador, contendo mapas, fotografias e documentos referentes ao projeto de colonização, além de obras de sua biblioteca, de valor histórico e econômico inestimáveis; ( Doador: Família Bata)

            5- Livros para a biblioteca. (Diversos doadores)

 


Batayporã

 

        Sobre o município de Batayporã, podemos dizer que teve seu nome escolhido pelo fundador, BATA = sobrenome do Idealizador e fundador da cidade industrial o checo Dr. Jan Antonin Bata em uma de suas visitas ao imorão samambaia Y = (do Guarany ) AGUA e  PORA = (do Guarany ) Bonita, Boa,  que literalmente signfica:  Água Boa do Bata”.


        Fruto de um projeto de colonização do industrial checo Dr.Jan Antonin Bata (fundador e idealizador de mais de 80 cidades por todo mundo) ; ocupa as terras que pertenciam a Cia. De Viação SP/MT adquiridas por Jan Bata em 1921. A implantação do projeto que culminou com a criação da cidade tem inicio no ano de 1953 na então fazenda samambaia que foi dividida num conjunto de lotes denominados de Iguassú, Cayuás, Machado e Recanto (hoje Batayporã), onde Jan Bata contou com grandes colaboradores tais como Vladimir Kubik (Gerente Geral da Cia. Viação SP/MT) encarregado de escolher o lugar do futuro núcleo de colonização e providenciar a venda dos lotes já esquadrinhados no mapa das grandes glebas.


        Jindrich Trachta (gerente do núcleo de colonização da Fazenda Samambaia, hoje Batayporã) conhece em 14 de maio de 1950 o colonizador Jan Bata que o convida para trabalhar em Bataguassú onde é apresentado ao Sr. Nelson Verlangieri D’Oliveira (braço direito e genro de Jan Antonin Bata), sendo contratado para trabalhar na Companhia Viação São Paulo Mato Grosso em serviços como extração de madeira, olaria, serraria e contabilidade. Em 1951 ocorre o seu casamento com Dona Marina Gonçalves do Amaral, continuam morando em Bataguassú até 1954, quando mudam para Batayporã, passando a gerenciar esse novo núcleo de colonização Os planos de Jan Bata eram fundar mais duas cidades, Batarama e Kennedy, próximas de onde hoje se localiza a cidade de Taquarussú.


       
Em 14/12/1953 foi a criação do distrito e no dia 12 de novembro de 1963 é comemorada sua emancipação política. Primeira família a se instalar na futura cidade. Sr. Mohamed Mustafá e D. Antonia Spinosa Mustafá. Primeiro comércio, Bar do Sr. Jonas Pedro Nunes. Segundo alguns levantamentos não houve criação de distrito e o município foi criado pela lei número 1.967, de 12.11.1963. No dia 12 de novembro é comemorada sua emancipação política.




1º comércio do Sr. Jonas, na Av. Antonia S. Mustafá



        As primeiras pessoas a se instalarem na região foram, Venancio Rodrigues de Abreu e sua esposa Luciana Rodrigues de Abreu (que eram capataz da fazenda samambaia da Cia de Viação SP/MT). O primeiro comercio foi do Sr.Jonas na Av. Antonia S. Mustafá.


 

Bataguassú

 

        Em 1932, Jan Antonio Bata, proprietário da cia. Viação São Paulo Mato Grosso, adquiriu, na região, grande gleba de terra, destinada a pecuária e colonização. Em 1941, fixou-se a companhia, na região e em 1943, o colonizador decide implantar o núcleo da colonização às margens do Rio Pardo. O primeiro nome da cidade seria Batápolis, mas sem uma base de sustentação política que desse condições para implantar o projeto, ele não prosperou. Jan Bata decide mudar o local para sediar o núcleo do Projeto e escolhe uma outra área na Gleba às margens dos rios Paraná e Pardo onde se ergue a cidade de Bataguassú e procedeu-se o loteamento de uma área, destinada a criar uma nova povoação, dando origem a atual sede do município. Foi elevado a distrito pela resolução número 611, de 10.07.1952 e o município foi criado pela lei 683, de 11.12.1953. Comemora-se sua emancipação política * dia 11 de dezembro.


        A seguir faremos a transcrição de alguns trechos de um relato escrito pelo Tenente Nelson V. De Oliveira, genro de Jan Antonin Bata, que narra a história de Bataguassú:


        “Em época não muito distante se ouvia falar de Mato Grosso como um espantalho, onde o homem dificilmente poderia chegar, dadas as presumíveis dificuldades criadas pela imaginação humana. (...) Era preciso (...)” curar “a imaginação já contaminada pelas más informações”.

        Eis a difícil tarefa da Cia Viação São Paulo Mato Grosso, a mais antiga empresa colonizadora que, orientada por homens dinâmicos e empreendedores, espalhou a vida e o progresso pela Alta Sorocabana e em cujo programa de trabalho marcava o desenvolvimento da Colonização no Sul de Mato Grosso onde é possuidora de vasta extensão territorial. Foi assim que surgiram nos seus escritórios os primeiros estudos para o inicio desse trabalho e em pouco tempo chegou-se à conclusão de que um ponto de apoio, uma base deveria ser estabelecida para a concretização de tão vasto plano colonizador.

        Esse ponto de apoio ficou determinado seria um local de fácil acesso, numa zona saudável, rodeada de boas terras para cultura e com boa colocação para uma possível indústria.

        Ouvindo falar de inicio da colonização de Mato Grosso, acorreram aos escritórios da Cia dezenas de colonos que disputavam a aquisição de seus lotes. Desse modo, em um ano foram vendidos 4.500 hectares de terras a pequenos lavradores.

        Estradas foram rasgadas, casas construídas e uma igreja edificada; uma professora começou a ensinar a criançada da redondeza as primeiras letras; um armazém foi instalado; apareceu uma pensão; um campo de futebol e assim surgiu Bataguassú, a futura rainha do sul de Mato Grosso “(Ordem e Progresso: Indiano Maio/1950 nº26)”.


        A seguir apresentaremos a quantidade de habitantes colocados nas Glebas e Patrimônios da Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso, nos Estados de São Paulo e Mato Grosso: Prudentina, 2.500; Regente Feijó, 19.000; Indiana, 6.500, Sucuri, 800; Caiabú, 1.500; Ouro Branco, 1.200; Boa Esperança D´Oeste, 100; Boa Esperança, 300; Mariapolis, 10.000; Vila Alegrete, 3.500; Mandaguary, 800; Jacaré, 800; Carrapicho, 9.500; Anhumas, 5.000; Laranja doce, 1.000; Olaria Barrinha, 350; Olaria Bartira, 200; Formoso e Rancharia, 200; Celeste, 800 e Batatuba, 650, todas no Estado de São Paulo e no Estado de Mato Grosso em Bataguassú instalaram-se 3.000 habitantes.

 

 

Bibliografia

 

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QUEIRÓZ, Paulo Roberto imo. Condições Econômicas do Sul de Mato Grosso no Início do Século XX. In: Fronteira – Revista de História, vol.1 n. 2, Ed. Da UFMS, Dourados, 1997, p. 113-36;


RIBEIRO, Lélia R. E. De Figueiredo. O Homem e a Terra,, Campo Grande, sem referência de data e editora;


RICARDO, Cassiano. Marcha Para o Oeste, José Olympio, vol. I e II, Rio de Janeiro, 1970;


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VASCONCELOS, Cláudio Alves de. A Colonização Contemporânea no Brasil e suas Implicações Sobre a Sociedade Brasileira. In: Fronteira – Revista de História, vol. 1 n. 1, Ed. Da UFMS, Dourados, 1997, p. 13-25


VELHO, Otávio Guilherme, Capitalismo e Autoritarismo e Campesinato, Difel, São Paulo, 1976.


VIDAL E SOUZA, M.J. A Pátria Geográfica – Sertão e Litoral no Pensamento Social Brasileiro, Ed. UFG, Goiânia, 1997.


DUTRA, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié – morte e vida de um povo, I.H. e G. De MS. Campo Grande, 1996.





 

* Prof. Dr. Carlos Martins - Mestre e Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. Professor Titular em Teoria da História do Departamento de História do Campus Universitário de Aquidauana (DHI/CPAQ/UFMS), atualmente ocupando o cargo de chefe do referido Departamento.

*Prof. Dr. Luis Carlos Batista - Mestre e Doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Professor Adjunto do Departamento de Geociências do Campus Universitário de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (DGC/CPAQ/UFMS), atualmente ocupando o cargo de coordenador do curso de Turismo do referido departamento.

*Prof. Ms. José Carlos Ziliani - Mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Professor Assistente do Departamento de Ciências Humanas do Campus de Três Lagoas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (DCH/CPTL/UFMS), atualmente ocupando o cargo de coordenador do curso de História  do referido departamento.

 

 



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