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A
migração dos trabalhadores gaúchos
para a Amazônia Legal (1970-1985) II - A política de ocupação das fronteiras amazônicas |
Este é a segunda parte de um texto que procura abarcar a
colonização de gaúchos no norte do Mato Grosso à partir da década de
1970. O enfoque desta parte é o contexto sócio-econômico que levou
ao estimulo à migração destes grupos populacionais ao Centro-Oeste, ou
seja, as transformações posteriores à instalação do regime ditatorial
militar em 1964. A terceira e última parte aborda, a partir da
discussão sobre os diferentes tipos de colonização e seus resultados, a
instalação dos
migrantes no norte do Mato Grosso e a conseqüente expressiva expansão
da agricultura sobre a Amazônia Legal a partir de então.
INTRODUÇÃO:
O presente trabalho pretende discutir a
migração de trabalhadores gaúchos do noroeste do Rio
Grande do Sul para o sul da Amazônia Legal, principalmente norte do
Mato
Grosso, à partir da década de 1970, durante o Governo Militar.
Para tanto é importante que se faça uma
contextualização da origem destes grupos migrantes no Rio Grande
do Sul, no século XIX, que eram na maioria, italianos e alemães.
Em seguida, se fará um panorama
das políticas governamentais para a colonização de terras,
mais especificamente nas fronteiras agrícolas estratégicas da
Amazônia Legal, e a passagem da concessão de
colonização para cooperativas.
Através de depoimentos de
migrantes, familiares e profissionais que trabalham nesta área, e da
bibliografia especializada, se discutirão as condições de
vida dos trabalhadores na região de origem, o noroeste do Rio Grande do
Sul, os motivos de seu deslocamento, bem como a descrição do
caminho que percorreram, e em último momento, as condições
de vida na região a que se destinaram. Não se pode prescindir da
discussão à respeito da ocupação do espaço,
e o encontro com a população local preexistente.
A pesquisa de campo na Amazônia
Legal foi feita em cidades do estado do Mato Grosso. É importante
comparar a instalação dos gaúchos em uma cidade que
está ao sul da Amazônia Legal, que é Primavera do Leste,
com o caso das cidades ao norte: Sinop, Lucas do Rio Verde e Sorriso.
Há
diferenças políticas e geográficas nas
ocupações destas regiões. O estudo da
colonização da
Amazônia Legal por sulistas foi dividido em três categorias, tais
como esta ocorreu: a colonização oficial do INCRA, a
colonização por parte de cooperativas e a
colonização independente. Os três tipos apresentam realidades
diferentes quando ao nível de renda dos migrantes, e as
condições de instalação. Para avaliar as
singularidades, foi necessária uma ampla coleta de depoimentos, e o
estudo da bibliografia sobre cada município visitado.
1. O Projeto de Ocupação do Oeste antes do Governo Militar
Na década de
1930, como parte do programa de colonização, e ocupação dos vazios
demográficos
do país, estabeleceu-se a chamada “Marcha para o Oeste”: foi fundada
Goiânia
(1933), capital de Goiás, e diversos órgãos governamentais foram
criados por
Getúlio Vargas, para a colonização, como o “Departamento Nacional de
Povoamento” [1] que orientava as correntes migratórias e
redistribuía terras públicas.
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Em 1943, foram estabelecidos os Territórios
Federais do Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta-Porã e Iguaçú. A
Constituição de
1946 estabeleceu as regras de execução do Plano de Valorização
Econômica da
Amazônia. A lei dava direito aos posseiros que já viviam ali, de
permanecer em
terras de até |
![]() Divisão territorial brasileira em 1943. Fonte: frigoletto.com.br |
O Governo de
Juscelino Kubitschek também incentivou muito a colonização pela forte
pressão
por terras no campo, sobretudo no Nordeste. A criação de Brasília seria
um
importante pólo atrativo de migrantes. João Goulart, presidente à
partir de
1961, incentivou o debate acerca das “reformas de base”[3],
para uma revisão e modernização do regime de propriedade agrária. Era
um
momento em que a luta social no campo tomava um caráter político, em
torno da
Reforma Agrária, que por sua vez coincidia com a intensa
industrialização nas
décadas de 1950 e
2. Estratégias
Geopolíticas Brasileiras
“Estejamos certos de que
defender a Liberdade é também
(graças aos céus) alicerçar em sólidas bases a Segurança Nacional.”[4]
O autor desta frase, o
general Golbery do Couto e Silva foi
um estrategista militar brasileiro que escreveu o livro Geopolítica do
Brasil,
em 1955. Neste, são estabelecidas tipologias geográficas de pólos
estratégicos
brasileiros, e discutidas, com base em preceitos geopolíticos
internacionais,
as maneiras pelas quais o país devia se defender de possíveis invasões
de
estrangeiros, comunistas e “homens sem lei”.
![]() Golbery do Couto e Silva com o então presidente Emilio Médici. Fonte: Gaspari, E. A ditadura encurralada. |
O tratado de Golbery serviria posteriormente como paradigma da organização geopolítica do Governo Emílio Médici, à partir de 1970, para a colonização da Amazônia: “No arco a noroeste distendido, de Corumbá – ou mesmo mais ao sul – até a comarca distante do Amapá, pelos territórios do Guaporé (Rondônia) e do Acre, todo o ocidente amazônico do Juruá, do Javari, do Japurá e do Uaupés, Rio Branco e a província guianense, sucedem-se as “marcas” semi-desertas, instáveis ainda, quase de todo abandonadas, abertas a penetrações de grupos sem bandeira definida e a correrias de nômades sem lei e onde, em torno de um arremedo de organização política pouco adequado, e um rudimentar sistema de guarnições militares tão esparsas como débeis, se cristalizam nódulos de população ativa, desprevenidos inteiramente do grande, do enorme, do vital papel que de fato lhes incumbe, e incumbirá por longo tempo, de colônias de povoamento pioneiro mas, igualmente, de postos dinâmicos e agrestes de defesa.”[5] |
"(...) garantir a presença
física brasileira numa região despovoada, e com isso
consolidar a integridade do território nacional. Era este o pensamento
da
época, afirma o general Danilo Venturini que na década de 70 pertencia
ao
Conselho de Segurança Nacional, e foi um dos idealizadores das
colonizações das
terras do norte brasileiro.”[6]
Golbery convenceu Médici,
como parte da estrtégia
político-econômica, a afastar-se dos Estados Unidos, seguindo a idéia
daquele,
de que o Brasil tinha autonomia suficiente para caminhar sozinho
economicamente.
O “mestre” propunha a
dinamização de postos militares na
Amazônia. Cuiabá, Guaporé, Paraguai e Bolívia fariam a “soldadura”
entre o
Brasil amazônico e o Brasil platino. O centro geopolítico amazônico era
o
triangulo Belém-Amapá-Santarém. Faziam parte do mesmo eixo: a
Grã-Colombia
enquadrada por Peru e Guianas. As regiões de “soldadura” explicavam o
porque
das grandes empresas se instalarem na região centro-oeste do país, pois
teoricamente,
era onde a logística e as comunicações estariam mais centralizadas.
Golbery
alertava para que esta região nunca fosse menosprezada.
O livro Geopolítica do
Brasil estabelecia diretrizes:
“1ª Fase - articular firmemente a base ecumênica da nossa projeção
continental,
ligando o Nordeste e o Sul ao núcleo central do país, ao mesmo passo
que
garantir a inviolabilidade da vasta extensão do interior pelo
tamponamento
eficaz das possíveis vias de penetração. 2ª Fase- impulsionar o avanço
para
noroeste da onda colonizadora, à partir da plataforma central, de modo
a
integrar a península centro-oeste no todo ecumênico brasileiro. 3ª
fase-
inundar de civilização a Hiléia amazônica, a coberto de nódulos
fronteiriços,
partindo de uma base avançada constituída no Centro-Oeste, em ação
coordenada
com a progressão E-O, seguindo o eixo do grande rio.”[7] Note-se que Golbery dizia,
“inundar de civilização”, o que
significava que não era qualquer
pessoa que podia ser mandada para lá, sendo importante que os colonos
viessem
de áreas economicamente desenvolvidas do Brasil. Além disso, Golbery
pretendia
ligar o Nordeste e o Sul ao núcleo central do país: pretendendo
literalmente
deslocar nordestinos e sulistas para o centro-oeste.
Observando a geopolítica
brasileira, o cientista político
mexicano, Pedro Fernando Castro Martínez, sustenta uma tese muitas
vezes
fugidia aos olhos dos brasileiros, de que o Brasil tinha um projeto
hegemônico
na América Latina. “As políticas latino-americanas de “desenvolvimento
e
segurança” nos
anos 1960 vêm do Pentágono
e escolas norte-americanas de guerra.”[8] Este modelo, por sua vez, foi imitado pelos
outros países latino-americanos, que passaram a viver em tensão de
forças.
Depois de 1960 os americanos começaram a armar o Exército brasileiro para “proteger” o Governo brasileiro do poder dos comunistas. O Golpe Militar de 1964, foi bem visto pelo Estado norte-americano. No começo da década de 1970, no entanto, Nixon deparou-se com um panorama sombrio para o governo americano: a emergência de governos populistas interessados em aumentar a autonomia nacional. Isto afastou os dois países politicamente.
3. O Estatuto da Terra e seus Desdobramentos
Sob pretexto de fazer Reforma Agrária, o Governo Castelo-Branco, aprovou o Estatuto da Terra, ao mesmo tempo em que apoiava as grandes empresas rurais como legítimas na exploração da terra.
O Estatuto[9]
enfatizava a necessidade de Reforma Agrária, pela precariedade do meio
rural, e
pela tendência mundial: todos os países desenvolvidos já haviam feito-a.
As soluções propostas eram: o equilíbrio das migrações campo cidade,
através de criação de mais empregos na cidade, e ampliação das
fronteiras
agrícolas. Donde se conclui que, se as migrações fossem inter-meios
rurais,
elas seriam consideradas positivas pelo governo; não existia projeto de
manutenção dos trabalhadores em suas terras. Discutia-se a
mercantilização da
terra, e os latifúndios improdutivos que eram apenas mantidos para fins
especulativos.
O Governo comprometeu-se com o incentivo à formação de cooperativas e
políticas agrárias. Necessariamente, as terras devolutas
tinham que ser distribuídas sob
forma de propriedade familiar, o que significava que os filhos dos
pequenos
proprietários que tiveram que deixar sua família para trabalhar sós,
não
estavam incluídos no programa de reforma agrária, e tinham que fazer o
investimento inicial por conta própria.
Os órgãos regionais, como a SUDENE, deveriam dotar 20% de sua verba para os projetos de colonização. O Governo se responsabilizaria pela seleção dos trabalhadores que iriam para as fronteiras agrícolas, podendo encarregar-se de seu transporte, recepção, hospedagem e encaminhamento, até a sua colocação e integração nos respectivos núcleos.
As áreas colonizadas seriam próximas de centros urbanos, para facilitar a comunicação e transporte; próximas de estradas, para ampliar as fronteiras econômicas; em regiões ocupadas por estrangeiros, sob a alegação de gerar interculturalidade; veladamente, o objetivo era afastar esses estrangeiros.
Os objetivos
institucionais do Estatuto da Terra eram: integração e
progresso do parceleiro, manutenção dos recursos naturais, e aumento da
produtividade. Mais uma vez é propagandizada uma forma ideal de vida,
quando é
claro que os objetivos do governo eram a extração, e não a manutenção
dos
recursos naturais, e o uso de mão de obra barata para o Projeto de
Integração
Nacional, sobre o qual se discutirá mais adiante.
Pretendia-se a
organização de colônias militares, nas fronteiras.
O Ministério da Agricultura incentivava os projetos particulares, desde
que abrissem estradas, fizessem a limpeza da mata, dessem condições
médicas
para os colonos, fomentassem a agricultura de produtos já tradicionais
da área,
e que estivessem com documentação
É inegável que o documento é ambíguo, pois serve tanto aos camponeses
em
luta pela terra, quando às grandes empresas, inclusive estrangeiras. O
que
indica que o Estatuto não teve valor de fato nos critérios da política
de
propriedade agrícola do Governo Militar.
Em
1º de janeiro
O Pró-Terra: Programa de Redistribuição de Terras e de Estímulo à Agroindústria do norte e nordeste (1971-78), tinha como principais objetivos: criar condições de emprego no campo, fomentar as agro-indústrias nas regiões de atuação da SUDAM e da SUDENE, dando crédito agrícola, financiar o plantio de forrageiras (pasto), alimento, fibras, e criação de animais. Os órgãos atendiam a projetos de colonização particulares, faziam empréstimos fundiários, financiavam a agroindústria e davam assistência técnica à modernização das propriedades rurais através do BASA e do Banco do Brasil. Estabeleceu-se a regra de indenização prévia das terras desapropriadas.
Pode-se observar uma mudança de política agrária, com relação ao
Estatuto
da Terra, que tinha um plano mais teórico e até utópico, visto que não
foi
implantado; o Pró-Terra voltava-se para a empresa particular, em
concordância
com o projeto desenvolvimentista do governo.
O Programa de Integração Nacional, tinha um projeto de desenvolvimento
agro-industrial no Nordeste, e de “criação de alternativas para os
contingentes
populacionais inabsorvíveis pela economia rural da região, através da
realização de programas de colonização e irrigação, a serem implantados
nos
espaços vazios do Planalto Central e no Norte-Nordeste, ou nos vales
úmidos do
próprio Nordeste.”[11]
Planejava-se deslocar sua rota do centro-sul, para a região da
Transamazônica
(BR-320).
O documento do INCRA: A Colonização no Brasil - Situação Atual,
Projeção
e Tendências em Rondônia[12],
aponta a preocupação do Governo de regularizar as ocupações do antigo
Território Federal de Guaporé, então Território Federal de Rondônia,
constituído de áreas desmembradas do Mato Grosso e Amazonas.
Identificam-se seus 240.000 Km² como terra muito fértil e rica em
minerais, que levou à uma corrida desorganizada de grupos interessados
do
centro-sul, principalmente depois da abertura de estradas federais no
território. Seus objetivos eram: a extração de borracha, castanha, a
agro-pecuária e especulação, em função dos incentivos fiscais para a
Amazônia
Legal, o fluxo migratório foi muito rápido, e portanto, predatório,
gerando
conflitos com a população local, pois a ocupação das terras era
desordenada.
O Governo então, começou a discriminar as terras devolutas, para
acelerar
a implantação dos projetos. O garimpo de cassiterita, que ocorria até 3
anos
antes do projeto de forma predatória, foi freado pelo Governo.
4. O Governo Militar Olha para o Norte
“A
colonização como política do Estado representa uma técnica social
que utiliza meios de seleção social e de controle social, tanto dos
homens como
dos espaços, para reproduzir a dominação de classe sobre as populações
rurais
brasileiras.”[13]
As
principais preocupações do governo Médici centraram-se no Nordeste,
fonte de problemas crônicos, e na Amazônia, região até pouco tempo
ignorada.
Indústrias que se estabelecessem no Nordeste, seriam isentas de
impostos, fato
bastante criticado por não haver trazido beneficio à mão-de-obra. Um
projeto da
SUDAM no Maranhão falhou. A outra alternativa, era a construção da
estrada
Transamazônica e Cuiabá-Santarém, que abririam aquela região despovoada
de
terras férteis e baratas, sob promoção do Programa de Integração
Nacional
(PIN), que deveria colocar 70.000 famílias, irrigar
O projeto propunha uma ocupação gradual de espaços vazios e da descoberta de novos recursos (não havia plano para redistribuição de renda). A população nordestina seria desviada da rota do Centro-Sul para o Norte resolvendo o problema de super-população no Sudeste. Vinte anos após a proposta de Golbery de incentivar a migração dos nordestinos para o Centro-Sul, o Governo resolveu mudar de tática, pois esta região estava super-povoada. Os recursos financeiros foram desviados de programas de incentivo para o próprio Nordeste.
Para trazer recursos para o Nordeste, era preciso que a população do
Centro-Sul abrisse mão de benefícios econômicos; e poucos estavam
interessados
em investir para obter pouco retorno. O I PND: Plano Nacional de
Desenvolvimento (1972-74) estimulou a colonização de áreas longínquas
da região
amazônica. A abertura de frentes pioneiras no Norte e Centro-Oeste
significava
o investimento em terras por proprietários do Sul e Sudeste.
Outro
motivo do deslocamento para a Amazônia, era o medo dos militares de
perder o território por falta de colonização. Temiam as incursões de
peruanos e
venezuelanos, tanto dos movimentos de esquerda como daqueles
interessados nas
jazidas de ferro, agora conhecidas.
| Houve muitas controvérsias sobre o controle internacional da Amazônia como o projeto Jarí, do bilionário americano Daniel Ludwig[15], que será abordado adiante. | ![]() Em 1978 o projeto Jarí trouxe uma fábrica de celulose e uma usina termo- elétrica montadas, de balsa, do Japão até a Amazônia. (www.jari.com.br) |
Já que as terras do cerrado eram as que mais interessavam para a agricultura, a SUDAM circunscreveu o que seria a Amazônia Legal, além dos limites da região Norte[16].
Os estados e
territórios que compõem a Amazônia Legal são: Acre, Amapá,
Amazonas, Goiás (acima do paralelo 13º), Maranhão (oeste do meridiano
de
44º), Mato Grosso (acima do paralelo 16º), Pará, Rondônia e Roraima. A
aplicação econômica regional do território, como escrito no próprio
mapa é:
“projetos agropecuários, industriais e de serviços básicos.” O limite
do
incentivo (porcentagem sobre o imposto devido) é de 50% tanto para
aplicação
regional como para aplicação setorial na Amazônia.
Segundo a SUDAM, a área da Amazônia Legal é de 4.981.950 Km², o que
representa 58,59% da área total brasileira.
![]() Delfim Netto, então Ministro da Fazenda. Fonte: Gaspari, E. A ditadura escancarada. |
A construção da Transamazônica tinha grande valor simbólico, como Brasília tivera[17] (que foi o exemplo de desenvolvimentismo para Médici); além da sedução que era desbravar a mata para os militares, e a perspectiva de lucro que trazia às construtoras. Delfim Neto, ministro da Fazenda dizia com veemência que o solo amazônico era de terra-roxa, tão fértil quanto os do Centro-Sul; mas na verdade era exatamente o contrario: o solo é composto de laterita, contra-indicado para plantar[18]. |
Animadamente, Médici anunciava a uma população
também entusiasmada com relação a isto, que na Amazônia cabia toda a
população
brasileira. A questão amazônica foi um exemplo de atuação ditatorial:
ignoraram-se opiniões de agrônomos, geólogos e antropólogos, bem como o
Congresso, que estava, em 1969 paralisado.
A
situação de conflito no campo
apenas piorava, pois o Governo Militar era extremamente repressivo, e
aliava-se
politicamente à burguesia para dominar a população rural.
Ernesto Geisel, natural do Rio Grande do Sul, presidente do Brasil entre 1975-1978, assumira a presidência da Petrobrás em 1969. Naquele momento, ele opunha-se ao programa do monopólio da produção de petróleo da petroquímica, “seguindo o ponto de vista castelista de que o papel econômico do Estado devia ser reduzido em favor da iniciativa privada.”[19] Este é um fator importante para entender-se o re-direcionamento da política colonizadora, do âmbito público para o privado.
Geisel
aprovou o POLAMAZÔNIA: Programa de Pólos Agropecuários e
Agrominerais da Amazônia, em setembro de 1974. Este era um programa de
conjugação entre colonos, pequenos proprietários, empresas agrícolas
pequenas,
médias e grandes, e empresas colonizadoras. Tavares dos Santos avalia:
“Numa
perspectiva diferente, a orientação da política de colonização estava
claramente enunciada: fazer projetos para pequenos e médios produtores,
para
empresas de colonização. Mas os projetos de pequenos agricultores
deviam
circunscrever-se ao Nordeste e a certas áreas do Centro-Oeste e da
Amazônia.
Também neste caso aparecem as exigências dos grandes empresários que
(...) se
propunham a assumir a colonização.”[20]
Médici e Geisel,
além de seus ministros do Trabalho e Previdência Social:
Arnaldo da Costa Prieto, e dos Transportes e Obras Públicas: o general
Dirceu
Nogueira, eram gaúchos; isto nos permite pensar que a prioridade aos
gaúchos na
expansão de fronteiras, não foi apenas por falta de terras ou por ser
este um
povo mais trabalhador e “competente” que o nordestino, mas porque seus
olhares
estavam realmente mais voltados para este estado.
Em 1975, o presidente enfatizou a
“Distensão Lenta e Gradual”, com
atitudes nada liberalizadoras, como defendia até então. “ A Igreja e a
Ordem
dos Advogados estavam entre os poucos que podiam efetivamente contestar
os
contínuos desmentidos do governo sobre a continuação da tortura e das
arbitrariedades das forças de segurança. Em meados de setembro, as duas
instituições voltavam à ofensiva, citando maus-tratos do governo aos
índios e
tortura de presos políticos.”[21]
“O governo Geisel começou com
grandes esperanças na economia. O II Plano
Nacional de Desenvolvimento (1975-1979), que optou por
financiar grandes
empreendimentos privados, nacionais e estrangeiros, fixava uma taxa de
crescimento de 10% ano a ser alcançada mediante a mudança de ênfase
sobre os
bens de consumo duráveis para a de produtos industriais intermediários
e bens
de capital.”[22].
É
importante lembrar que o projeto de colonização da fronteira amazônica
foi
apoiado pelos PND’s, mesmo que não se encaixasse economicamente no
projeto, já
que as atividades lá exercidas, eram principalmente a pecuária e a
agricultura,
até hoje. O INCRA aprovou a concessão de terras públicas com mais de
O incentivo às cooperativas,
mudou o tipo de migrante. A maior parte
deles agora passou a ser do Sul e com condições um pouco melhores de
vida, já
que eram rigorosamente selecionados pelas cooperativas.
Em pouco tempo, o aumento do
preço do petróleo em três vezes pela OPEP,
tornou a situação econômica delicada. O projeto de Juscelino Kubitschek
de
construir estradas de chão pequenas, que até então era bem sucedido,
começou a
cair por terra devido ao preço do combustível. As possíveis soluções
encontradas, foram a energia nuclear, e à álcool. De fato, foram
abertas no
Mato Grosso, usinas de destilação de mandioca para a produção de
combustível,
mas não foi uma produção muito significativa, de acordo com os relatos.
O governo do general Figueiredo também trazia esperanças com o III Plano Nacional de Desenvolvimento (1980-1986), que era um documento qualitativo, com poucos números. Referindo-se ao III PND (1980-85), o presidente Figueiredo: “quanto à região Centro-Oeste, declara que é prioritário o fortalecimento do estado do Mato Grosso pela situação de localização próxima à capital federal, e porque representa potencialidades de ocupação do solo para desenvolvimento agropecuário”[23]
A ênfase ainda
era dada à colonização por cooperativas do Sul, que continuariam seus
projetos
na Amazônia, pois assim, o Governo, cujas contas eram muito
deficitárias nesta
época, não precisaria investir diretamente, repassando os gastos às
cooperativas colonizadoras particulares.
Os principais
problemas do Governo eram: crise de energia, balanço de pagamentos
deficitário,
o crescimento da dívida externa, e a inflação. A conclusão era de que o
Brasil
poderia continuar seu processo de crescimento, contendo a inflação.
Baseava-se
nos planos anteriores, de
Em 1982, o III
PND viu-se colapsado. O Brasil não podia escolher ou recusar a
recessão, como
afirmara Delfim Neto. A crise estava atrelada às crises do petróleo de
1974 e
1979, e à ascensão dos juros do eurodólar, de 8,7% em 1978, para 17% em
1981.
As metas anunciadas pelo governo passaram a ser vistas com desprezo
pela
população.
O governo
Figueiredo assinou uma carta de intenções com o FMI em janeiro de 1983,
devendo: “reduzir a taxa de expansão da base monetária, apertar o
crédito,
diminuir o déficit do setor público, fazer desvalorizações mais
frequentes,
eliminar subsídios e restringir aumentos salariais.”[25]
Isto explica a supressão do crédito rural e subsídios durante a década
de 1980,
que fez com que os migrantes que se instalaram na Amazônia Legal neste
segundo
momento tivessem muito mais dificuldade, do que os que o fizeram na
década de
1970, como os relatos mostrarão mais adiante.
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[3] SANTOS, J.V.T., pp. 39.
[4]
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[5] SILVA, G.C. pps. 108-109.
[6] WAGNER, C. pp. 20.
[7] SILVA, G.C., pps. 131-132.
[8] MARTÍNEZ,
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[9] INCRA, Estatuto da Terra- Lei nº 4.504, 30 de novembro de 1964, extraído da publicação “COLETÂNIA”- MEAF/1983.
[10] SANTOS, J.V.T., pp. 46.
[11] ARRUDA, H. P. (org.), INCRA, A Colonização no Brasil: Situação Atual, Projeção e Tendências em Rondônia –Folheto Informativo Apresentado ao Curso Superior de Guerra Naval da Escola de Guerra Naval, em Rondônia – julho de 1972.
[12] Idem, pps. 31 e 32.
[13] SANTOS, pp. 194.
[14] MÉDICI, E. G., A verdadeira paz, n.p., Imprensa Nacional, 1970, pp. 149, Idem, Metas e Bases e Banco Mundial, Brasi:an ínterim assessment of Rural Developement Programs for the Northeast, Washington, World Bank, 1983, pp.35. apud: SKIDMORE, pp. 289.
[15] ARRUDA, M., The
MultinationalCorporations and
[16] Fonte: Veja/Exame, 1972. Biblioteca Municipal Mário de Andrade, São Paulo.
[17] MORAIS, F., A Transamazônica, São Paulo,
Brasiliense, 1970. Apud: SKIDMORE.
Pp. 291.
[18] VALVERDE, O., Ecologia e Desenvolvimento da Amazonia, Revista
Brasileira de Tecnologia, XII, n. 4 (out./dez. De 1981) Apud: SKIDMORE. Pp. 193.
[19] SKIDMORE, T. pp. 317.
[20] SANTOS, J.V.T., pp. 55.
[21] SKIDMORE, T., pp. 344.
[22] Idem, pp. 249.
[23] LISBOA, M. G. C.,
O Cerrado
[24] SKIDMORE, T. pp. 421.
[25] SKIDMORE, pp. 460.