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Michel de Certeau e a Pós-Modernidade:
ensaio sobre pós-modernidade, História e impacto acadêmico Leila
Maria Massarão
Mestre em História pela Unicamp Historiadora da Fundação Pró-Memória de São Carlos/SP l.massarao@terra.com.br |
Apresentação:
Este breve artigo foi
escrito
originalmente em 1999, durante o cumprimento dos créditos no curso de
Mestrado
em História na Universidade Estadual de Campinas. Naquele momento
estávamos
entrando em contato, de forma mais sistemática, com a desconcertante
corrente
pós-moderna – para estudantes recém-saídos da graduação, a
pós-modernidade em
sua perspectiva crítica da história, parecia absurda e indecifrável. As
provocações que fazia e as desconstruções que promovia causavam desde
perplexidade até uma irracional busca por respostas, tanto para
justificar as
máximas pós-modernas quanto para refutar suas posições.
E esse trabalho se
inseriu
exatamente na perspectiva de dialogar e tentar codificar as idéias da
pós-modernidade dentro do que havia sido apreendido em teoria da
História e
metodologia historiográfica. Uma forma de manter-se seguro na
sobreposição de
incertezas que a pós-modernidade impunha.
Cinco anos depois, o
texto ainda
mantém essas sutis paixões. Denuncia os efeitos do primeiro contato com
a
pós-modernidade, mas apresenta também os primeiros sinais de
compreensão e
busca de diálogo.
O texto aqui apresentado
sofreu
algumas alterações à luz das leituras posteriores, mas deliberadamente
foram
mantidos suas idéias e objetivos originais, tornando-o apenas mais
inteligível.
A pós-modernidade não
mais assusta,
parece agora um animal domado por sua própria origem “moderna” – há
quem diga
que a pós-modernidade até tenha morrido, refutada por não ter
conseguido a
legitimidade que precisava para sobreviver –, mas ainda deverá ser o
pesadelo
de mais alguns estudantes que montarão pela primeira vez em seu costado.
| Michel de Certeau e a
Pós-Modernidade[1] A historiografia tem passado, nas últimas décadas, por reformulações e questionamentos, em um processo de rupturas e adequações frente a si própria e as outras ciências, humanas e sociais. A falência dos modelos analíticos como o Marxismo e o Estruturalismo e a ascensão da Nouvelle Histoire estimularam o aparecimento de múltiplas abordagens, métodos e alianças interdisciplinares que pareceram, para alguns, o esfacelamento da História (Dosse, 1989) e até mesmo seu fim como uma forma de conhecimento específico. |
![]() Michel de Certeau |
As
alianças
feitas com a Antropologia e a Lingüística provocaram reações diversas,
desde a
sombra de um afastamento do sentido de História
(Chartier,1993), até a adoção
total da prática historiográfica como uma forma de literatura,
submetida
inclusiva aos métodos da Lingüística.
Essas transformações
afetaram de
forma geral as Ciências Humanas e Sociais e foram comumente
identificadas como Pós-modernidade,
um novo paradigma que tentava se impor questionando e desmontando os
modelos
oriundos da modernidade e que pareciam não mais satisfazer a sociedade
desiludida onde se inseria. Nascido nos anos 60 do século XX, a
pós-modernidade
possui traços de ceticismo e pessimismo: nada traria à luz o passado,
inatingível, e o futuro não existia, pois imponderável. A existência
seria,
assim, um constante presente.
Nos rastro
dos debates sobre a História e a historiografia, a pós-modernidade
aparece,
portanto, como um de seus críticos mais radicais, apoiada nos estudos
literários e culturais[2].
A
pós-modernidade trouxe para a História questionamentos sobre a validade
do
método histórico, sobre os limites entre a verdade e a ficção e
reconduziu para
o centro dos debates a questão da escrita da História.
A História, analisada a
partir dos
preceitos pós-moderno, seria uma construção discursiva que teria
relação apenas
com as metas do historiador, em última instância, um literato para quem
o
método e a empiria seriam elementos ritualísticos[3].
Tais interpretações da
História
acarretaram colocações como a inexistência de verdade na História, a
irrelevância dos métodos de pesquisa e a impossibilidade de apreensão
da
realidade; em suma, a História seria um texto ficcional como qualquer
outro,
chegando ao extremo da "invenção histórica"[4],
uma vez que o passado não pode ser alcançado.
Na onda pós-moderna que
assolou as
certezas da modernidade, as décadas de 1970 e 1980 deram origem ao que
muitos
chamaram de uma “história pós-moderna”, ligada muitas vezes a terceira
geração
dos Annales e a outros historiadores que nos ajustes e
desajustes às
críticas recebidas enfatizavam pesquisas multi e interdisciplinares e
preconizavam o retorno da narrativa em história.
A pluralidade de
influências
teóricas e a produção de trabalhos historiográficos por profissionais
de outras
disciplinas que não da História foram cada vez mais constantes. Josep
Fontana
em História Depois do Fim da História citou vários desses novos
historiadores, e, entre eles, o francês Michel De Certeau, historiador
cujos
trabalhos conjugavam História, Lingüística, Antropologia e Psicanálise.
Pela própria brevidade
deste artigo
e a complexidade de suas idéias, uma análise profunda dos trabalhos de
De
Certeau seria impossível, porém é possível explicitar algumas
preocupações e considerações
do autor em relação à História e a historiografia, buscando cruzar
esses dados
com as posições da pós-modernidade, observando as aproximações e os
afastamentos entre elas, buscando preservar as peculiaridades de ambas.
Michel De Certeau foi um historiador dedicado aos estudos de
religião e experiências místicas entre os séculos XVI e XVIII, sendo Possession
de Loudun (1970) uma de suas principais obras. De Certeau também
escreveu
sobre a epistemologia da História e multiplicidade cultural, sendo
considerado
uma autoridade não apenas no mundo acadêmico, mas também pelas
instituições
públicas francesas [5].
Entre as várias obras
publicadas por
Michel De Certeau, estão A Cultura no Plural (1974), A
Escrita da
História (1975) e A Invenção do Cotidiano (1980). Estas
obras trazem
as visões do autor sobre a História e o trabalho historiográfico, mesmo
que a
única obra que tenha esse objetivo específico seja A Escrita da
História.
Alguns argumentos de De
Certeau
devem ser salientados, principalmente aqueles que se relacionam com a
produção
historiográfica, e que se aproximam daquilo que foi dito sobre a
"História
pós-moderna".
Um primeiro aspecto a ser
abordado é
a importância que De Certeau dava a multi e interdisciplinaridade,
principalmente a aproximação com a Lingüística e a Antropologia – como
já foi
salientado anteriormente, os estudos de linguagem são centrais para as
teorias
pós-modernas. Para De Certeau, a multidisciplinaridade possibilitaria
captar o
momento histórico de um ponto de vista mais amplo (De Certeau, 1995,
p.8).
Essa aproximação, porém,
não deveria
ser vista exclusivamente como um transtorno ou uma deformação da
História,
afinal, os contributos da interdisciplinaridade já haviam sido citados
pelos
“criadores” da Escola dos Annales (Burke, 1992, p.38) e a preocupação
com os
aspectos culturais, estimulada pela Antropologia, possibilitou uma nova
apreensão da história, indo além das práticas sociais e dando-lhe novos
sentidos.
A relevância que este
historiador
depositava na escrita da História pode ser notada por suas preocupações
com a
Lingüística. Para De Certeau, a escrita da História seria o discurso da
separação, através do qual o historiador pretendia aprisionar o que da
realidade que estuda transparece em seus resquícios (De Certeau, 1982,
pp.
14-15). O discurso histórico seria produzido de uma maneira deslocada
em
relação à realidade passada, uma vez que, para o autor, o passado não
poderia
ser apreendido plenamente, não só pelas limitações dos métodos
historiográficos
(recortes, triagem, inteligibilidade do presente), mas, principalmente,
devido
ao lugar de onde fala o historiador.
Para De Certeau, a
produção do historiador,
portanto, deveria ser considerada “(...) como a relação entre um
lugar (um
recrutamente, um meio, um ofício, etc.), procedimentos de análise (uma
disciplina) e a construção de um texto (uma literatura). É admitir que
ela faz
parte da “realidade” de que trata, e essa realidade pode ser
compreendida “como
atividade humana”, “como prática”. Nessa perspectiva, (...) a operação
histórica se refere à combinação de um lugar social, de práticas
“científicas”
e de uma escrita.” (De Certeau, 1982).
Nesta perspectiva,
deve-se
concentrar a análise em dois pontos: primeiramente, os instrumentos
metodológicos dos quais o historiador se utiliza foram desconsiderados
pelos
autores pós-modernos. Hayden White afirmou que o trabalho
historiográfico faria
parte de uma encenação, um teatro acadêmico que visaria dar
objetividade e
caráter científico à produção histórica (White, 1995, p. 65)[6].
Contudo, De Certeau, mesmo alertando para as limitações do trabalho
historiográfico,
não o desabilitou. O trabalho do historiador seria compreender, e nessa
busca
pela compreensão os limites metodológicos seriam constantes, mas
trazendo em si
a continuidade da produção historiográfica, naquilo que estaria ausente
ou no
que foi observado apenas de uma maneira[7].
O segundo ponto refere-se
ao lugar
do historiador, os pressupostos que fazem parte da produção do
historiador. De
Certeau salientou que o historiador produz seu trabalho a partir do
presente,
das preocupações de sua realidade, fazendo de seu discurso um "discurso
particularizado", que tem um emissor, o historiador, e um destinatário,
seja ele qual for, a academia, a sociedade de forma geral ou um grupo
específico (De Certeau, 1995, p. 224). Essa discussão implicou numa
constatação
vital para De Certeau: não se pode falar de uma verdade, mas de
verdades (no
plural).
Josef Fontana salientou o
significado marcante que a pós-modernidade tem no fim das visões
globais da
História (Fontana, 1998, p.26). Os textos ditos científicos impuseram,
de
alguma forma, uma "realidade" absoluta que deveria ser aceita; na
pretensão científica do discurso histórico, existiria uma verdade a ser
alcançada. Para a pós-modernidade essa busca seria inútil, pois a
realidade
seria inapreensível, e a "Verdade" exposta pela historiografia, apenas
uma ficção.
Para De Certeau, essa
problemática
teria outro patamar e outro caminho. A idéia de uma verdade universal
foi
igualmente refutada, porém, para o autor, o que a História poderia
produzir eram
verdades, subjugadas aos limites das pesquisas históricas e
influenciadas pelo presente do historiador: "A historiografia mexe
constantemente com a história que estuda e com o lugar onde se elabora"
(De Certeau, 1982, p. 126). O que se apreende é a preocupação de De
Certeau em
não negar a possibilidade de alcançar alguma verdade.
A objetividade do
discurso do
historiador não estaria, portanto, mais relacionada com visões
acabadas,
definitivas ou fechadas; o trabalho do historiador residiria na busca
de
possibilidades, hipóteses de abordagem ligadas as suas preocupações
específicas, daí a existência de verdades. Essa mudança de
perspectiva
introduziria a utilização da imaginação (não-ficcional) frente ao
discurso
homogêneo e seu uso mais profundo na construção da linguagem histórica
(De
Certeau, 1995, pp.225-226).
A maior parte dos
aspectos aqui
citadas das teorias de De Certeau fazem parte dos questionamentos da
historiografia. As saídas apontadas pelo autor encontram eco, em maior
ou menor
grau, nos trabalhos de vários historiadores, principalmente aqueles
ligados à
História Cultural. A multiplicidade cultural e a consciência da
participação do
historiador na construção de verdades históricas são preceitos
já
presentes nos debates da disciplina.
Enfim, qual a
participação da
pós-modernidade na historiografia atual? O que das teorias pós-modernas
foi
considerado relevante para o trabalho histórico?
Parafraseando as
colocações de
Fontana, a pós-modernidade nos estimulou uma nova prática de leitura
dos
documentos e da historiografia, considerando níveis diversos de
compreensão,
sem que isso nos leve a exagerar na importância do texto, ignorando o
real
objeto de atenção do historiador: os problemas de homens e mulheres
(Fontana,
1998, p.31), além de propor o fim das generalizações.
Não parece, porém,
possível aceitar
idéias ligadas a pós-modernidade que são levadas a extremos, como o fim
da
História, da impossibilidade de conhecer o passado e a validade de se
utilizar
fatos fictícios na construção histórica.
A partir do breve quadro
exposto das
idéias de De Certeau em relação à História e sua construção, pode-se
apreender
uma exemplificação (mesmo que o termo tenha uma força muito grande para
o que
se deseja dizer) de como as teorias podem ser aplicadas sem que o
trabalho
histórico seja deformado até o limite. A pós-modernidade surge,
recorrendo
novamente a Fontana, como uma ferramenta crítica, auxiliando o
historiador
"(...) a corrigir erros de visão." (Fontana, 1998, p.33).
Num balanço mais geral do
papel da
pós-modernidade na História, suas discussões parecem já fazer parte do
cotidiano dos historiadores. E, arriscando desvalorizar demais sua
importância,
a historiografia já trouxe possibilidades de abordagem para os
problemas
levantados pela pós-modernidade (e Michel De Certeau deve ser incluído
como um
contribuinte nesse caso).
A leitura de autores
pós-modernos
parece ter alcançado grandes proporções nos centros de pesquisa,
gerando muitos
debates, porém é difícil dizer se seus principais pressupostos serão
aceitos e
seguidos. A crítica a pós-modernidade tem vindo de historiadores
renomados e
reconhecidos por suas capacidades. E mesmo quando a crítica, de alguma
forma,
apóia algumas visões pós-modernas, essas são redimensionadas, trazidas
à
prática historiográfica e então testadas [8].
Como qualquer nova proposta teórica, a
pós-modernidade trouxe, e talvez ainda traga, contribuições para a
prática
historiográfica. Os debates parecem estar se multiplicando, o que nos
deixa uma
margem de expectativa em relação as potencialidades, ou não, da
pós-modernidade
dentro das ciências humanas, mais especificamente, da História.
Referências
Bibliografias:
ABREU, A.A.
Historiografia: uma revisão, In: Estudos Históricos. Rio de
Janeiro,
vol.8, nº16, pp. 207-312.
BURKE, P. A Escola
dos Annales (1929 - 1989): a revolução francesa da Historiografia.
São
Paulo: Ed. Unesp, 1992.
__________. A
Escrita da História. São Paulo: Ed. Unesp, 1992.
CHARTIER,
R. "Le temp des doutes pour comprendre l'Histoire", In: Le Monde,
18/03/1993, pp. VI - VII.
__________.
"Quatre questions à hayden White", Storia della Storiografia,
(24), 1995.
DE
CERTEAU, M. A Escrita da História. Rio de Janeiro:
Forense-Universitária, 1982.
______________
A Cultura no Plural. Campinas: Papirus, 1995
______________
A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1996.
DOSSE, F. A
História em Migalhas. São Paulo: Ed. Unicamp, 1989.
FLAMARION,
C. & VAINFAS, R. (orgs.). Domínios da História. Rio de
Janeiro:
Campus, 1997.
FONTANA,
J. História Depois do Fim da História. Bauru: EDUSC, 1998.
HOBSBAWM,
E. Pós Modernismo na Floresta, In: HOBSBAWM, E. Sobre a História.
São Paulo:
Companhia das Letras, 1998.
WHITE, H.
A Rejoinder. A response to professor Chartier's four.questions. Storia
della
Storiografia, (27), 1995.
_________.
Prólogo a Ranciére, In: RANCIÉRE, J. Los
Nombres de la Historia. Una poética
del saber.
Nueva Visión, 1993
WINDSCHUTTLE,
K. The Killing of History: how
literary critics and social theorists are murdering our past. New York: The Free Press,
1997.
[1] Título mantido em seu original de 1999.
² Segundo Fontana, a proximidade entre a Nouvelle Histoire e a pós-modernidade (em relação aos estudos culturais) não deve ser levada a extremos, uma vez que a pós-modernidade defende uma mudança muito mais acentuada e ambiciosa. FONTANA, J. História Depois do Fim da História. Bauru: EDUSC, 1998.
[3] O debate entre Roger Chartier e Hayden White expõe claramente as opções do pós modernismo pela lingüística e a teoria literária, os embates sobre ficção e pesquisa em História. CHARTIER, R. Quatre questions à hayden White. Storia della Storiografia, (24), 1995, e WHITE, H. A Rejoinder. “A response to professor Chartier's four questions”, In: Storia della Storiografia, (27), 1995.
[4] A obra de Schama, Dead Certainties, citada por Windschuttle é um bom exemplo do alcance das colocações pós-modernas sobre a História, verdade e método. Cf. WINDSCHUTTLE, K. The Killing of History: how literary critics and social theorists are murdering our past. New York: The Free Press, 1997.
[5] Os textos de De Certeau sobre cultura, ação cultural e políticas culturais deram origem a vários convites para que o historiador fizesse pareceres e relatórios para Casas de Cultura e comissões de planejamento do Estado francês. Alguns desses textos estão compilados na obra A Cultura no Plural (Campinas: Papirus, 1995).
[6] É preciso completar que, para White, a produção historiográfica seria mais uma forma de literatura, não tendo nenhuma relação com trabalhos científicos.
[7] Referindo-se aos métodos dos historiadores, De Certeau disse: "Necessários à historiografia, estes recortes (de tipos diferentes) são constantemente erodidos no seu limite pelas próprias questões às quais permitem chegar.(...) Elas são frágeis em suas fronteiras avançadas. Um trabalho em suas 'bordas' provoca a modificação ou o deslocamento delas.(...)" (De Certeau, 1982 pp. 123-124).
[8] Algumas das críticas ao pós modernismo
estão na
falta de aplicação prática de suas teorias por parte de seus criadores.
E, por
vezes, a aplicação prática traz problemas sérios ao trabalho executado
(Cf.
HOBSBAWM, E. Pós Modernismo na Floresta, In: Sobre a História.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998 - pp. 207-215).
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