![]() www.klepsidra.net |
Tempo e cultura
clerical na Idade Média Central - Um balanço
historiográfico
Leandro
Duarte Rust Mestrando em História UFRJ Colabor. do Prog. de Est.
Medievais UFRJ Prof. Subst. do Depto. de
História UFJF |
O texto que se segue é um apanhado de
algumas
reflexões gerais que norteiam nossa pesquisa - ainda em curso -
dedicada à
representação do tempo pelos clérigos que constituíam a Santa Sé entre
1179 e
1215.
Nas breves páginas que se seguem
realizaremos uma
revisão bibliográfica acerca deste rico campo de investigação da
pesquisa
histórica medievalista: as temporalidades que perpassaram a existência
dos
clérigos seculares da Idade Média Central.
A representação do tempo por um agente
histórico –
seja ele individual ou coletivo – é, para o estudioso de uma sociedade,
um tema
da maior relevância. Pois, conceber o tempo não é um fenômeno cultural
de
limites precisos, de alcance facilmente mensurável, tampouco um bem
simbólico
puro ou monolítico: revestido com a tinta invisível dos aspectos
culturais que
animam a vida cotidiana, o tempo se esconde numa série de domínios da
existência humana onde não se manifesta explicitamente.[1]
Afinal, desde que o homem almejou manter-se no compasso das estações e
dos corpos
celestiais ele lança continuamente vastas redes de significados sobre o
tempo:
assim, a duração das estrelas no firmamento torna-se poética, a marcha
dos dias
é dramática, o fluxo cronológico pode ser irônico... A imagem do tempo
não é
algo natural aos homens, mas uma elaboração multifacetada, polissêmica,
densa e
variável ao longo da história.[2]
Ela não se encontra apenas nos relógios e calendários, mas infiltra-se
nas leis
e organizações políticas, nos códigos éticos e morais, nas formas de
sociabilidade, nos sistemas filosóficos e religiosos, nos tratamentos
dispensados ao corpo e ao espaço e até nos empregos da violência.[3]
“São
estas maneiras de ‘fazer a história’ que ‘marcam’ ou ‘selam’ o tempo”.[4] Uma temporalidade é um dispositivo essencial
da relação do homem com o mundo que o rodeia, permitindo-lhe dotar-se
de uma
identidade e orientar suas ações.[5]
Uma representação do tempo é a janela que oferece uma das visões mais
abrangentes sobre um universo cultural.
Portanto, não é ao sabor do acaso ou por
modismos
historiográficos que as concepções, experiências ou práticas do tempo
pelo
medievo têm atraído cada vez mais a atenção da historiografia
medievalista,
ainda que esta atenção na maioria das vezes se contenha às poucas
páginas de um
artigo ou de um capítulo de um estudo maior. Este campo de investigação
que
teve na nouvelle histoire os esforços mais sistemáticos para
sua
implantação e ampliação aparece em diversas obras, desde aquelas que aí
têm o
problema integral de sua pesquisa[6]
ou
por estudos que o freqüentam levados por outras temáticas, como as
“maneiras de
sentir e pensar”,[7]
a antropologia medieval,[8]
o
milenarismo,[9]
o Além e o sobrenatural,[10]
o
cotidiano,[11]
o calendário[12],
a morte e o medo...[13]
Contudo,
muitas abordagens lançadas nos anos 50 e 60 permaneceram incólumes a
revisões e
novos aprofundamentos, enraizando-se na historiografia como uma espécie
de
“lugares comuns”. A breve revisão historiográfica que segue tem o
objetivo de
problematizar alguns destes pressupostos solenizados pela
historiografia. Para
isso selecionamos algumas obras através de dois critérios: (1)
tratam-se de
abordagens pioneiras e fundadoras da pesquisa histórica sobre as
atitudes
clericais diante do tempo – abordagens que ainda hoje exercem forte
influência
sobre os historiadores -, e/ou (2) estudos que, ao surgirem,
sintetizaram o
conhecimento produzido pelos historiadores sobre este tema até sua data
de
publicação.
Segundo o autor, a percepção do
devir temporal por
parte dos clérigos medievais consistia em revesti-lo de qualificações
espirituais, tornando-o a sucessão linear desencadeada no ato da
Criação que, tendo
a eternidade por pano de fundo, transcorre irreversivelmente para o
Apocalipse,
o fim dos tempos: o “tempo da igreja” é sinônimo de tempo histórico.[15]
Já o mercador via o tempo como um artefato profano, isto é, um quadro
essencial
e rotineiro de medidas e orientações em meio à trama de acontecimentos
que o
envolviam. O mercador o conquista, impõe-lhe um preço, trata-o como um
objeto
de cálculo, de projeção de riscos e de realização de lucros: um tempo
mensurável, mecanizável, e sobre o qual “agem a inteligência, a
habilidade,
a experiência e a manha do mercador”.[16]
Um tempo sagrado versus um tempo profano, daí o conflito. Em
seguida o
artigo chega ao momento mais rico de suas análises: os possíveis
encontros
destes dois tempos, cabendo à própria igreja, por meio dos
escolásticos,
permitir ao mercador unificar seu tempo de trabalho ao da vida
religiosa
cristã.[17]
Todavia, alguns pontos deste artigo de
quase meio
século devem ser reavaliados.
Em primeiro lugar, questionamos a forma
como o
historiador distancia estes tempos, isto é, de um lado um tempo
concebido e
conceituado – tempo sagrado -, do outro um tempo praticado e vivido –
tempo
profano. Há aqui um roteiro bem organizado, uma ordenação que pesa
sobre os
significados temporais, fazendo com que haja entre “o tempo
profissional [e]
o tempo sobrenatural (...) separação essencial e encontros
contingenciais”.[19]
No que concerne ao “tempo da igreja” - que nos interessa em especial -
o artigo
de Le Goff resume seus significados àqueles expressados de maneira
direta e
consciente pelos clérigos: não há representação do tempo para além das
reflexões eclesiásticas sobre este, a história ou o Além. As fontes
históricas
de tal representação seriam tratados morais, relatos de viagens
espirituais,
narrativas eclesiásticas ou comentários sobre a Bíblia, mas não, por
exemplo,
uma legislação conciliar ou documentos eclesiásticos administrativos.[20]
Este tempo conceituado é, em grande
medida, um tempo estilizado,
isto é, um desdobramento quase automático da condição de clérigo.
Como se o
recebimento das ordens implicasse a adesão a este tempo pouco afeito à
materialidade e à praticidade, mais familiar aos anjos do que ao homem
comum.
Além disso, esta representação do tempo reclama o direito à
exclusividade, pois
é tomada como a totalidade dos significados temporais que
permeiam as
atividades clericais: as qualificações deste tempo conceituado encobrem
a
possibilidade de que outros valores temporais possam ser encontrados
junto aos
clérigos medievais. O “tempo da igreja” surge, então, em seu ímpeto
globalizante, homogeneizado, incompatível com ambigüidades ou
duplicações de
sentido, e sua autonomia o torna não apenas impermeável a outros
valores
temporais, mas incisivo ao rejeitá-los.[21]
A
rigidez e o arcaísmo desta temporalidade seriam amenizados somente com
a
entrada em cena de dois novos segmentos clericais: os franciscanos,
estes
eclesiásticos “progressistas”,[22]
e
os “intelectuais” medievais, clérigos universitários que, urbanos como
o
mercador, a ele seriam solidários:[23]
“sob
sua ação (...) o tempo se quebra e o tempo dos mercadores se liberta do
tempo
bíblico que a igreja não sabe manter na sua ambivalência fundamental”.[24]
Posteriormente, já na década de 1980, o
célebre
medievalista francês afirmava que, se em um flanco do campo de batalha
em que
era travada a luta pelo controle do tempo a igreja sofria uma derrota
irreversível para o mercador, em outro ela aperfeiçoava uma poderosa
arma. Uma
nova representação do tempo recebia seus últimos retoques, mais
humanizada,
afeita à lógica aritmética e significativamente maleável: o tempo do
purgatório.[25]
Desta forma, este recuo do poder da igreja sobre o tempo terreno foi “em
parte compensado pela aquisição de um poder sobre o tempo dos homens
para lá da
sua morte”.[26]
Todavia, esta nova representa não foi
capaz de
desfazer a clivagem essencial que Le Goff, na aurora da década de 60,
reconhecia
como definidora da temporalidade clerical dos tempos medievais: um
tempo
seduzido pelo transcendental, com uma incontida empatia pelo sagrado,
mais
inclinado aos espíritos desencarnados do que à trama dos assuntos deste
mundo.
Afinal, será que este tempo metafísico e
“extra-ordinário” que pesava sobre os eclesiásticos medievais era capaz
de
sustentar todas as atividades da igreja romana? Será que, composta de
homens,
instalada no espaço, manipulando bens terrenos e exercendo atividades
administrativas e fiscais, a igreja não compartilharia, em momento
algum, os
traços temporais identificados pelo autor como pertencentes ao mercador?[27]
Por
fim, Le Goff trabalha com representações mentais, postulado que projeta
significados temporais constantes e comuns sobre um imenso e
heterogêneo
universo clerical: que “tempo da igreja” é este que coloca ombro a
ombro a
prudente visão de história de Hugo de Saint-Victor e a carga
escatológica de
Joaquim de Fiore?
Publicada pela primeira vez em 1957, a
obra Os
Dois Corpos do Rei, de Ernest Kantorowicz, traz em seu interior um
capítulo
intitulado “Sobre continuidades e corporações”, cujas reflexões somaram
importantes contribuições ao nosso campo de investigação.[28]
Nesta seção de sua obra, Kantorowicz analisa os impactos históricos de
uma
alteração na avaliação filosófica do tempo pelos medievais, a passagem
da
abordagem agostiniana para as averroísta e tomista – o que faz seu
interesse
recair sobre os eclesiásticos do século XIII. Para o autor, a passagem
da
percepção temporal agostiniana, de teor depreciativo e angustiante,
para as
visões averroísta e tomista, que tornavam o tempo um elemento de
contínua
vitalização e edificação, implicou em desdobramentos decisivos para o
mundo
medieval como, por exemplo, para a progressiva constituição do “Estado”
e do
pensamento corporativo.
Este trabalho de Kantorowicz tem o mérito
pioneiro de
vislumbrar as transformações dos significados temporais em uma
sociedade como “um
fator histórico de grandes proporções”.[29]
Já nos anos 50 do século passado, o autor inovava ao rejeitar a
restrição desta
problemática aos domínios filosóficos, atribuindo-lhe um estatuto
histórico
então concedido apenas a “estruturas” como a economia ou o mito. Em
nossa
opinião, este estudo de Kantorowicz (ao lado do já mencionado artigo de
Jacques
Le Goff), foi decisivo para a implementação das representações
medievais do
tempo como um campo de investigação histórica.
Este historiador apóia suas análises sobre
os aspectos conscientes e
conceituais de uma representação temporal; em outras palavras: são os
aspectos
filosóficos da transformação na apreciação do tempo que merecem
atenção.
Entretanto, não podemos perder de vista o fato de que a obra de
Kantorowicz é
“um estudo sobre a teologia política medieval”, o que torna sua
limitação à
latitude filosófica desta transformação uma opção absolutamente
coerente. Além
disso, o próprio autor demonstrou estar ciente desta escolha ao afirmar
que
estes aspectos não esgotavam as possibilidades de alterações nas
abordagens do
tempo:
Como sempre, a prática precedia a teoria,
mas a
prática existente tornava as mentalidades ainda mais receptivas a uma
nova
teoria. A simultaneidade, contudo, não implica causalidade e tudo que
se pode
dizer é que a filosofia que defendia o continuum infinito do
Tempo fez
sua aparição como concomitante a tendências correlatas em outras áreas.[30]
Ao contrário de Le Goff, que considerou as
especulações temporais
eclesiásticas o espelho de todo o “tempo da igreja”, Kantorowicz
enfatiza a
complexidade de seu problema.
Entretanto, um pressuposto de análise
deste autor
polonês implicou numa restrição de seu estudo, um esgotamento de
possibilidades
decorrente exatamente da palavra-chave de seu estudo: “transformação”.
O estudo
de Kantorowicz concentra-se nos domínios filosóficos, que têm na
coerência e na
lógica duas de suas exigências essenciais; o que faz com que, nestes
domínios,
a representação do tempo tenda a ser quase sempre coesa, coerente e,
conseqüentemente, singular, raramente múltipla. Assim, a constatação de
disparidades e contradições no interior de uma abordagem do tempo tem
duas
explicações possíveis: ou são brechas na consistência das reflexões do
agente
em questão ou são indícios de que este agente inova, modifica sua
caracterização do tempo, passando de uma abordagem a outra. O estudioso
apreende as incompatibilidades na significação do tempo como uma
incoerência ou
uma substituição, mas não uma coexistência de
significados.
Resumindo: a primazia do universo especulativo sobre suas análises fez
com que
Kantorowicz não admitisse que atributos temporais distintos (ou
“contraditórios”) pudessem coexistir em uma mesma representação do
tempo.
Portanto, ainda que o autor tenha revelado o mundo das práticas como um
terreno
em que os clérigos pudessem revelar traços peculiares de sua
temporalidade,
estes seriam já os indícios de “uma nova abordagem do Tempo”, [31]
e
não outros traços da representação empreendida por eles.
No nosso julgamento, os trabalhos de Le
Goff e
Kantorowicz são - além de brilhantes - marcos fundadores da
legitimidade
historiográfica da investigação sobre as relações entre os homens e o
tempo. E
é exatamente a este pioneirismo que creditamos o maior de seus méritos:
assumir
os riscos de destruir a inocência do tempo. Ou seja, como
realidade
humana o tempo não é algo natural aos homens, como um elemento objetivo
e
invariável ao longo das sociedades; mas um produto de
interações
sociais, de heranças e dinâmicas culturais, de intervenções
ideológicas... Uma
representação do tempo é uma modalidade de interação humana.
Outra obra de conhecimento obrigatório
para o estudo
da representação do tempo na Idade Média é Categorias da Cultura
Medieval
(1972) de Aaron Gurevitch. No encalço da personalidade do homem
medieval, o
autor explora as categorias culturais que julga decisivas para a
estruturação
do “modelo do mundo” dos medievais: o espaço, o tempo, o direito, a
riqueza, o
trabalho e a propriedade.[32]
A
análise de concepções de tempo é aqui uma etapa de um estudo de
dimensões
incomparavelmente maiores. Arrebatado por esta visão totalizante,
Gurevitch
elabora a síntese mais completa por nós encontrada sobre representações
medievais do tempo, abarcando as principais contribuições da
historiografia até
princípios da década de 70. O autor, especialista em cultura medieval
nórdica,
explora a genealogia cultural e as relações travadas entre
temporalidades então
existentes; como o tempo bárbaro, o tempo campesino, o tempo literário
dos
romances de cavalaria, o tempo filosófico, o tempo urbano, etc.[33]
Destacam-se também suas preocupações em abordar uma temporalidade como
um
mecanismo de sistemas de dominação e território das relações de poder.
Por
outro lado, no entanto, é esta mesma visão totalizante que sustenta
pressupostos e formulações controversas.
Elaborado sob o modelo historiográfico annaliste,
Categorias da Cultura Medieval é um típico estudo da “história
das
mentalidades”, indicativo da ampla aceitação, por parte do medievalista
russo,
das formulações acima mencionadas de Jacques Le Goff.[34]
Tal como o historiador francês, Gurevitch engloba e nivela os
significados
atribuídos ao tempo pelos clérigos medievais numa única e imensa
categoria: não
mais a de “tempo da igreja”, mas a de “tempo cristão”. Todo este estudo
do
conhecido professor da Universidade de Moscou almeja uma totalidade
explicativa
que enfatize as especificidades da Idade Média como um todo, o que
explica a
sincronia com que suas análises caracterizam o passado medieval,
levando o
autor a um incontido desinteresse por contextualizações precisas e
marcos
cronológicos. Esta ênfase numa identidade coletiva e global cria
condições
propícias para generalizações, para negligenciar a heterogeneidade e os
conflitos culturais decisivos existentes no interior deste disperso
“tempo
cristão” (tais como Cluny versus Cister, espirituais
franciscanos versus
conventuais...). Gurevitch, seguindo o caminho até então percorrido
pelos
medievalistas, não dá atenção a desacertos e incongruências decorrentes
das
variações cruciais em que incorriam os eclesiásticos medievais ao
significar o
tempo. Podemos então entender porque a obra reedita a formulação de Le
Goff que
emparelhava, como elos de uma mesma temporalidade, clérigos tão
diferentes como
monge calabrês Joaquim de Fiore e o pensador escolástico Tomás de
Aquino.

Outro pressuposto annaliste é
acolhido pelo
medievalista russo: representar o tempo é acima de tudo um processo
cultural
baseado em abstrações, em reflexões deliberadas, em formulações
diretas, enfim,
em conceituações explícitas. Para o autor, qualificar o tempo é,
sobretudo, um
ato intelectual; daí seu apelo àqueles que considera os alicerces deste
tempo
cristão: místicos, filósofos e pensadores.[35]
Concluindo: a
obra de Gurevitch revigora a estilização do tempo lançada por Jacques
Le Goff :
as representações do tempo são aí estratificadas, dispostas numa
hierarquia
sobre a qual a igreja exerceu sua hegemonia no decorrer de séculos.[36]
A
temporalidade clerical era capaz de projetar filtros, de distinguir-se
das
demais concepções de tempo para condicioná-las, controlá-las do seu
exterior.
Distanciando-se provisoriamente de pressupostos annalistes,
Gurevitch
deixa transparecer sua filiação marxista ao afirmar que as
qualificações
atribuídas ao tempo correspondem à práxis das “classes sociais”, “de
grupos
separados: estes percebem-no e vivem-no cada um à sua maneira”.[37]
Estas palavras são emblemáticas do fechamento e do enrijecimento com
que o
autor caracteriza a temporalidade clerical nos tempos medievais.
A imagem historiográfica é então
reeditada: inerente
à condição de eclesiástico (quer regular ou secular), a representação
do tempo
pelos clérigos medievais era incorrigivelmente sagrada, doando-se
integralmente
ao transcendente, logo, pouco suscetível à racionalização,
irremediavelmente
desinteressada pelo terreno, pelo secular, pela praticidade...
O domínio do tempo pela igreja podia durar
tanto
quanto correspondia ao ritmo lento, medido da vida da sociedade feudal.
(...)
Ligar-se às gerações, aos reinados (...) tinha mais importância para os
homens
desta época do que medir com precisão fatias curtas de tempo, mas sem
conexão
com os acontecimentos religiosos e políticos.[38]
Vinte e dois anos depois do célebre artigo
de Jacques
Le Goff o conflito entre “tempo da igreja” e “tempo do mercador” ainda
não
havia arrefecido: o surgimento deste anunciava que o controle do tempo
escapava
de forma irreversível aos eclesiásticos. Entre o sagrado e o profano
não haviam
intercâmbios relevantes, mas um combate mortal em que a vitória de um
implicava
no recuo do outro. Na obra de Aaron Gurevitch a representação do tempo
pelos
clérigos medievais é uma categoria definida por sua coesão,
homogeneidade e unicidade.

Algo semelhante persiste na obra de Hervé
Martin, Mentalités
Médiévales, publicada em 1995. A primeira parte desta obra é
dedicada a um
balanço do “état de nos connaissances” acerca dos “cadres
fondamentaux qui structuraient les mentalités médievales”;[39]
entre os quais figuram a analogia, o símbolo, as festas, o espaço e o
tempo.
No capítulo dedicado a este último, o
autor realiza
um apanhado das características da noção de tempo ao longo de toda a
Idade
Média, incluindo os clérigos dos séculos XII e XIII. O estudo de Martin
segue
de perto o trabalho empreendido por Le Goff, partindo da mesma premissa
de que
a idéia de tempo é uma construção mental complexa, sobre a qual
interferem as
atividades cotidianas, a práxis criadora, a linguagem, as
bagagens
culturais, os ciclos de trabalho, etc...[40]
Entretanto, o autor traz uma inovação em relação àquele artigo de quase
meio
século: além de explorar as maneiras pelas quais os homens conceituam o
tempo,
Martin não só se dedicará aos esquemas de representação temporal (como
as
imagens cíclicas, lineares...), à evolução lingüística para expressar
atributos
temporais e às alterações na visão de história; como também às
diferentes
formas de calendário, aos mecanismos cotidianos de indicação temporal e
ao
progressivo avanço da precisão cronológica, incluindo aí os meios
clericais.[41]
Entretanto, ao conceder tamanha primazia à
mensuração
do tempo, sua perspectiva de análise mostra-se acentuadamente linear,
apostando
na passagem progressiva e ordenada de uma imprecisão quantitativa a um
domínio
cada vez mais esmerado dos instrumentos indicativos de intervalos de
tempo. O que pode
ser
constatado através dos sub-títulos utilizados pelo autor: (1) Le
temps
immobile du haut moyen age (jusqu´em 1100 environ), (2) L´affinement
dês
catégories temporelles aux XIIe et XIIIe siècles
e
(3) Vers la mesure exacte du temps (XIIIe-XVe
siècles).
Surge, assim, a impressão de
uma análise
teleológica, em que as representações medievais do tempo caminharam
irremediavelmente para a precisão moderna do relógio mecânico. Esta
teleologia
se revelaria ainda através do juízo de valor que decreta a
inferioridade das
avaliações qualitativas do tempo diante das estimativas quantitativas.
Mais do que isso, a obra de Hervé Martin
não só não
questiona a estilização dos significados temporais clericais
que
apontamos no trabalho de Le Goff, como vem enraíza-la ainda mais.
Expliquemos
melhor. Apesar de enriquecer o estudo do “tempo da igreja” ao elucidar
a
disposição dos referenciais temporais na atividade clerical diária –
tornando o
tempo mais “prático”, “vivencial” -, o autor faz o seguinte
emparelhamento: a
abordagem clerical do tempo consistia numa imprecisão quantitativa
correlata a um
predomínio da avaliação qualitativa, isto é, espiritual, religiosa (o
que
caracterizou a alta Idade Média, período em que a igreja, segundo o
autor,
exercia uma verdadeira soberania sobre o tempo); ao passo que os
seguimentos
seculares, em especial os mercadores, avaliavam o tempo com uma
crescente
precisão quantitativa, forçando o recuo dos referenciais qualitativos
para
tornar-se cada vez mais profano, secular (aspecto marcante da Baixa
Idade
Média). Assim,
o aparecimento do relógio mecânico solapava a hegemonia eclesiástica
sobre o
tempo: “toujours au XIVe siècle, les laïques, patriciens,
seigneurs et princês, ont commencé à participer à la gestion du temps
collectif, aux cotes dês ecclésiastiques, qui semblent avoir été leurs
éducateurs em la matière”.[42] Desta
forma, Martin - quase meio séculos após o artigo de Le Goff –
enraíza a representação temporal dos clérigos baixo-medievos numa
moldura não
só já conhecida, mas tida como a única possível: um tempo demasiado
contemplativo e minimamente prático; tão embevecido pela magnitude do
transcendente quanto desinteressado pela solidez da sociedade.

Ao término desta apreciação dos estudos de
Jacques Le
Goff, Ernest Kantorowicz, Aaron Gurevitch e Hervé Martin devemos
atentar o
leitor para um esclarecimento de suma importância: não rejeitamos suas
análises, pelo contrário, algumas de suas afirmações são
imprescindíveis para
caracterizarmos a representação do tempo que perdurava em meio aos
eclesiásticos
medievais. Um exemplo disso é o tratado ascético-moral redigido por
Lotário di
Segni (futuro Inocêncio III), que “correspondaient au gôut et aux
vues de l´époque”.[43]
Esta obra pode ser enquadra nos postulados historiográficas propostos
por tais
autores: nela o tempo surge como artífice da lamúria que é o existir
humano;
portador da instabilidade e da precariedade, ele só adquire sentido ao
ser
conduzido para eternidade e integrado à economia cristã da salvação.[44]
Mas estes significados atribuídos ao tempo por Inocêncio III são apenas
alguns
que constituam a temporalidade professada pelos clérigos que integravam
a Cúria
romana.
A objeção fundamental que fazemos aos
trabalhos inventariados nesta
revisão diz respeito ao risco de estilização aí presente, ou seja,
generalizar
para todo o mundo eclesiástico dos séculos XI-XIII qualificações
temporais que
pertencem a círculos clericais específicos. Os significados temporais
apontados
nestas análises não esgotam a representação clerical do tempo durante a
Idade
Média Central; ao lado destes valores temporais destacados pela
historiografia
como constituintes de uma temporalidade clerical medieval figuravam
diversos
outros, inclusive muitos daqueles considerados como antagônicos ao
mundo clerical
de então. Discordamos da perspectiva comum destes autores que descreve
os
ambientes clericais deste período como produtores de uma temporalidade
que
floresce como um bloco conceitual e coerente; uma representação
exclusivamente
sagrada, de contornos tangíveis e facilmente isoláveis que, -
especialmente em
Jacques Le Goff, Aaron Gurevitch e Hervé Martin – não apenas não
interage com
outras temporalidades a ela contemporâneas, mas por vezes as repelem,
como
ocorria diante do tempo profano do mercador.
Ora, o estudo do passado faz desmoronar
esta
organização, esta sistematização de fronteiras. Os sujeitos históricos
são
plurais em suas interações, múltiplos em suas experiências e bagagens
culturais, e suas significações do tempo não escapam a esta
constatação. A
capacidade humana de representar o tempo não é monolítica, pelo
contrário, pode
incorrer em variações, duplicações, elaborações destoantes, expressões
subliminares. Assim, se tomarmos como fonte um registro em que um ou
mais
clérigos tratavam de temas aparentemente distantes de uma especulação
sobre o
tempo – como documentos administrativos ou registros fiscais – podemos
encontrar a ocorrência simultânea de significados temporais
heterogêneos ou até
mesmo opostos no interior de uma mesma representação do tempo.
Diferentes
qualificações temporais podem habitar uma temporalidade, coexistirem
num mesmo
agente histórico, ainda que somente algumas dentre elas adquiram relevo
em suas
reflexões e especulações.[45]
Desta forma, revisar como a temporalidade
clerical da
Idade Média Central tem sido caracterizada pela historiografia é também
repensar uma série de pressupostos que demarcam os limites e a natureza
dos
horizontes culturais destes agentes históricos: a sistematização, a
estipulação
de fronteiras, a instauração de roteiro bem organizado de tarefas entre
os
agentes históricos. Cabe ao historiador redobrar sua atenção e aguçar
sua
apreciação crítica do passado, pois...
A dissecação - a que chamamos de análise -
não tem
apenas o inconveniente de fazer a realidade explodir; no mais das
vezes, ela
projeta filtros, critérios e obsessões que só existem em nossas visões
ocidentais. (...) Ora, basta examinar a história de qualquer grupo
humano para perceber
que esse arranjo de práticas e crenças (...), mais se aparenta a uma
nebulosa
em perpétuo movimento do que a um sistema bem definido.[46]
[1] GINZBURG, Carlo. Relações de Força.
São
Paulo: Cia das Letras, 2002, p. 53.
[2] DOCTORS, Márcio (Org.). Tempo dos
Tempos. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 16.
[3] ELIAS, Norbert. Sobre o Tempo.
Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000; HALL, Edward. A Dança da Vida:
a
outra dimensão do tempo. Lisboa: Relógio d´Água, 1996; NOWOTNY, Helga. Le Temps à Soi. Paris: Éditions de la
Maison de Sciense de l´homme, 1992.
[4] RICOEUR, Paul. Introdução. In: UNESCO
(Org.). As
Culturas e o Tempo. Petrópolis: Vozes; São Paulo: Edusp, 1975, p.
30.
[5] BACZKO, Bronislaw. Imaginação Social. In:
Enciclopédia
Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, vol. 5, p.
296-332.
[6] Humphrey, C., Ormond, W. M. (ed.). Time
in the
Medieval World. York:
York
Medieval Press, 2001; WHITROW, George. O Tempo na História. Rio
de Janeiro:
Zahar, 1993.
[7] BLOCH, Marc. A
Sociedade Feudal.
Lisboa: Edições 70, 1983.
[8] SCHMITT, Jean-Claude. Le
Corps, les Rites, les Rêves, le Temps. Paris: Gallimard, 2001.
[9] COHN, Norman. Na
Senda do
Milênio. Lisboa: Presença, 1981. DUBY, Georges; O ano Mil.
Lisboa:
Edições 70, 1967; FRANCO JR., Hilário. As Utopias Medievais.
São Paulo:
Brasiliense, 1992; _____. O ano 1000. São Paulo: Cia das
Letras, 2000.
[10] SCHMITT, Jean-Claude. Os
vivos e
os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Cia
das Letras, 1999;
HULIN, Michel. La Face Cachée du Temps. Paris: Fayard, 1985; LE
GOFF, Jacques. O Imaginário
Medieval. Lisboa: Estampa, 1994; _____. O Nascimento do
Purgatório.
Lisboa: Estampa, 1995; MORÁS, Antônio. Os Entes Sobrenaturais na
Idade Média.
São
Paulo: Annablume, 2001.
[11]
DAVRIL, Anselm & PALAZZO, Eric. La vie des moines au temps des
grandes
abbayes Xe-XIIIe siécles. Paris: Hachette,
2000;
SENNET, Richard. Carne e Pedra. São Paulo: Record, 2002;
PASTOUREAU.
Michel. No
Tempo dos
Cavaleiros da Távola Redonda. São Paulo: Cia das
Letras, 2001; LACEY, R., DANZIGER, D. O
Ano 1000: a vida no final do primeiro milênio. 3. ed. Rio de
Janeiro:
Campus, 1999; LADURIE, Emanuel Le Roy. Montaillou. Lisboa:
Edições 70, s/d.
[12]
AVENI, Antony. Empires of Times: Calendars, Clocks and Cultures.
New
York: Basic Books, 1989; DUNCAN, David. Calendário.Rio de
Janeiro:
Ediouro, 1999.
[13] ARIÈS, Philipe. L’homme
devant la mort. Paris:
Seuil, 1979;
BRAET, Herman & VERBEKE, Werner (Ed.). A Morte na Idade Média.
São
Paulo: Edusp, 1996; DELUMEAU, Jean. História do Medo no Ocidente.
São
Paulo: Cia das Letras, 1989; _____. O Pecado e o Medo.
São Paulo:
UNESP, 2003, vol. 1.
[14] LE GOFF, Jacques. Na
Idade Média:
tempo da Igreja e o tempo do mercador. In: ______. Por um novo
conceito de
Idade Média. Lisboa: Editorial Estampa, 1995, p. 43-73.
[15] Idem, p. 45-51.
[16] Idem, p. 54.
[17] Idem, p. 53-59.
[18] BURGUIÈRE, André. A antropologia
histórica. In: LE
GOFF, Jacques. A História Nova. São Paulo: Martins Fontes,
1998, p.
148-150.
[19] Idem, p. 55.
[20] Esta restrição documental é curiosa em se
tratando
da “história das mentalidades”, vertente historiográfica que defendia a
adoção
de um campo documental o mais abrangente possível, afinal “todo e
qualquer
documento se pode prestar a uma pesquisa das mentalidades”.
CARDOSO, Ciro
Flamarion & VAINFAS, Ronaldo (Org.). Domínios da História.
Rio de
Janeiro: Campus, 1997, p. 138.
[21] Mesmo tratando uma temporalidade como uma
elaboração
sócio-cultural, Le Goff faz com que conflitos sociais e políticos
refluíssem
para o cultural e assim, a cultura erudita drenou o conjunto social
para trás
de si, alcançando uma autonomia em relação às outras instâncias do
real, a tal
ponto que é considerada como tendo uma dinâmica própria,
independentemente do
resto da formação social. Ver: DOSSE, François. A História em
Migalhas.
Bauru: Edusc, 2003, p.247-267; ______ . A História à prova do Tempo.
São
Paulo: Unesp, 2001.
[22] LE GOFF, Jacques. São Francisco de
Assis. Rio
de Janeiro: Record, 2001, p. 193-198.
[23] LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na
Idade Média.
Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
[24] LE GOFF, Jacques. Na Idade Média... op.
cit.,
p. 60.
[25] LE GOFF, Jacques. O Nascimento do
Purgatório.
Lisboa: Estampa, 1995, p. 271-272.
[26] LE GOFF, Jacques. O Imaginário
Medieval.
Lisboa: Estampa, 1994, p. 118.
[27] Esta estilização das
temporalidades
é retomada em outro artigo do autor, no qual aparecem o “tempo das
cidades”, o
“tempo do camponês”, o “tempo senhorial”... LE GOFF, Jacques. Tempo.
In: _____
& SCHMITT, Jean-Claude (Org.). Dicionário Temático do Ocidente
Medieval.
São Paulo: Imprensa Nacional, Bauru: EDUSC, 2002, p. 531-541. Todavia,
este
risco de estilização deve ser analisado caso a caso nos trabalhos do
medievalista, pois tal crítica não se aplica, por exemplo, ao mercador
medieval, que o próprio Le Goff considera “habituado a agir nos
tempos de
certo modo empilhados uns sobre os outros”. LE GOFF,
Jacques. Tempo da... op. cit., p. 56.
[28] KANTOROWICZ, Ernest. op.
cit., p. 170-192.
[29] Idem, p. 171.
[30] Idem, p. 170.
[31] Idem, p. 171.
[32] GUREVITCH, Aaron. As Categorias da
Cultura
Medieval. Lisboa: Caminho, 1990, p. 33.
[33] Idem, p. 115-179.
[34] “Em meados dos anos sessenta eu
trabalhava em um
texto dedicado à caracterização da cultura medieval européia ocidental.
(...) No auge do trabalho, quando as questões fundamentais já
pareciam
esboçadas, li o livro de Jacques Le Goff ‘A Civilização do Ocidente
Medieval’ (...).
O novo livro de Le Goff produziu uma imensa impressão em mim (...).”
GUREVITCH, Aaron. A Síntese Histórica e a Escola dos Anais. São
Paulo:
Perspectiva, 2003, p. 173-174.
[35] Eis os personagens em que Gurevitch vai
buscar o
registro do “tempo cristão”: Isidoro de Sevilha (p. 132), Agostinho de
Hipona
(p. 137-141), Orósio (p. 140), Beda (p. 142), Honório de Autun (p.
143-144),
Tomás de Aquino (p. 144), Pedro Lombard (p. 145), Oderic Vital (p.
148), Walter
Map (p. 149), Joaquim de Fiore (p. 152-153), Oto de Freising (p.
156-157),
Hildegard von Bingen (p. 158), Dante Alighieri (p. 164).
[36] Idem, p. 171.
[37] Idem, p. 171.
[38] Idem, p. 173. O peso da abordagem de Le
Goff sobre
as formulações de Gurevitch pode ser mais uma vez observado num
conhecido
artigo do medievalista soviético, no qual encontramos a seguinte
afirmação: “O
tempo eclesiástico podia permanecer preponderante enquanto
correspondesse ao
ritmo lento e medido da vida da sociedade feudal (...). Na Idade Média
não
havia necessidade de valorizar e economizar o tempo, de medi-lo e
conhecer-lhe
(...)”. GUREVITCH, Aaron. O tempo como problema de história
cultural. In:
UNESCO (Org.). As Culturas e o Tempo. Petrópolis: Vozes, Edusp,
1975. p.
279.
[39] MARITN, Hervé. op.cit., p. 1.
[40] Idem, p. 155-156.
[41] Idem, p. 160-174.
[42] Idem, p. 173.
[43] NAZ, Robert (Ed.). Dictionnaire de Droit Canonique. Paris: Librarie
Letouzey et Ané, 1957, col. 1770.
[44] INOCÊNCIO III. De
Contemptus Mundi sive De Miseria Conditionis Humanae. In: MIGNE,
Jean-Paul.
Patrologiae Latinae. Paris: Garnier Fraters Editores, 1889, v.
217, col.
0701-0746.
[45] Em um instigante
artigo, Rebecca Lester, psicóloga e antropóloga da Universidade de
Washington,
afirma: “this distinction between sacred and profane time not only
is not
helpful in some cases, but may, in fact, lead us to significantly
misunderstand
the beliefs, practices, and experiences of the people with whom we work”.
LESTER, Rebecca. The immediacy os eternity: time and transformation in
a Roman
Catholic convent. Religion, 33, p. 201-219, 2003. Disponível on-line
em http://www.elservier.com/locate/religion.
[46] GRUZINSKI, Serge. O Pensamento Mestiço.
São
Paulo: Cia das Letras, 2001, p. 26 e 51-52.