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Banquetes e o Poder: uma análise oblíquia da prática política

Igor Vitorino da Silva
Mestrando em Planejamento - UFRJ
ivhsilva@hotmail.com


Quando um governante decide oferecer um jantar/almoço a convidados por causa de uma situação política ou para festejar vitórias partidárias ou datas comemorativas, esse banquete deve ser percebido para além de um simplório (ou informal) encontro, como discurso do poder pretende que ele pareça, mas como parte essencial na negociação política.

 

Na realidade, esse discurso, muitas vezes, quer dissimular as questões políticas que são degustadas nas mesas dos cerimoniais sobre o rigor do protocolo. Ou, tornar invisível que esse evento também é público, não só no sentido de termos cônscio dele, através das várias mídias.   Mas também, porque nele, quase sempre, se tratam de assuntos de interesse de geral, de discussões e decisões que interferem na vida da sociedade civil e política.

 

Apesar dessas questões, ele é privado quanto ao seu acesso, restrito àqueles que estão sobre as sombras do poder, nessa perspectiva, ele ganha um glamour que impressiona os observadores como seus aspectos de ostentação ou pelas particularidades do menu. O que retira atenção dos espectadores para fato de que o momento não é somente um instante corriqueiro, mas ser uma temporalidade de discussão fechada sobre assuntos públicos, de fortalecimentos dos vínculos políticos.

 

Fonte: www.museuimperial.gov.brDaí a construção de algumas questões em torno dos banquetes organizados pelo Poder, essas não são perguntas vazias ou pura divagação teórica, são a possibilidade de avanço na articulação entre história política e historia da alimentação: Os banquetes e jantares oferecidos pelo poder são públicos? Se são públicos, em que sentido seriam?  No do acesso? Ou, no de conhecimento da comunidade cívica? Talvez, no de financiamento dos recursos? Em que momento os Governos, além das de obrigações protocolares, realizam mais Banquetes? Quem é convidado? Por quê? Qual olhar da oposição e da imprensa em relação a esse evento? Essas perguntas nos inquietam, principalmente quando analisamos os gastos dos governos em todos os níveis da esfera de poder como esses eventos, são valores nada desprezível e que tornam essa prática sóciopolítica numa variável importante para analítica das negociação política, principalmente no Brasil. Quanto o Império e as Repúblicas direcionaram dos orçamentos para esses eventos? Essa é uma pesquisa em aberto.

 

Embora, o Poder na modernidade se configure pela estratégia da invisibilidade de suas prática ou pelo não se deixar visualizar, os banquetes e jantares são momentos concretos da proximidade dos representantes do poder político com sua base de apoio, o que faz sentido se pensarmos na disputa por um lugar a mesa do presidente pelos deputados e senadores, esses lugares representam vantagens políticas concretas.

 

Na realidade, no interior dos salões de banquetes do poder são feitos pedidos, implorações benevolências e realizadas as conversas mais íntimas sobre as questões centrais da pauta da política do momento. Entretanto, houve momento na história como na França do Antigo Regime que os Reis comiam com sua corte e comiam para o público, não havendo a privacidade no ato de comer, sendo esse ato central na reprodução da ordem social e na consolidação do poder.

 

Na modernidade, os representantes do poder se enclausuraram no interior dos palácios de governo, tornando os banquetes um espetáculo para uma corte reduzida aos partidários e aos revestidos de acessibilidade, onde se incluem: os políticos, amigos e representantes diplomáticos. Mas isso, acreditamos, não diminuiu a importância dos banquetes e jantares para o poder, embora eles sejam realizados fora dos olhares de grande parte da sociedade. Ele é ainda espaço de consolidação da solidariedade política e de fortalecimento de vínculos de pertencimento, de laços afetivos, essenciais para aqueles que estão revestidos do poder e, quase sempre, são realizados com fundos públicos para uma base eleitoral, como acontece muito no Brasil, com vista a consolidar o poder.

 

Como diz Balandier (1982:17): ...o poder se inscreve em signos e motivos" e não há lugar melhor para a encenação desses signos e motivos  do que os banquetes e  jantares. Neles aparecem as liturgias cívicas, são encenadas  hierarquias, que buscam (re)produzir reverência, deferência e reconhecimento do poder( do portador desse poder), expondo com suntuosidade e dignidade a sua força e expressão, tudo buscando consolidar a sua legitimação entre as elites, figuras centrais nesses momentos (geralmente as que têm acesso a eles, ). Como afirma Poulain (2004:198) "é pela alimentação que se tecem e se mantém os vínculos sociais". Não podemos esquecer último baile do Império paradigmático para perspectiva que abordamos.

 

Na realidade, "a fina flor da sociedade" é levada a fazer culto si própria, nesses momentos, pois as regras que regem esses eventos, são as valorizadas por ela.  Já pensou o que diria o mais simples cidadão de um presidente que não comesse de garfo e faca, só comesse de colher, além disso, por descuido tivesse bebido a lavanda da mesa por engano. Que sacrilégio, não seria?   Isso consolida as indicações de Balandier sobre do poder como produtor do portador do poder (fabricação), formador daquele que está a sua frente. Enfim, os representantes do poder estão presos aos protocolos do próprio poder.

 

Fonte: http://nuzhdin-v.euro.ru/zg017.htmSe os banquetes e jantares são de acessos restritos, quais seriam os critérios para neles se aconchegarem os atores sociais? Quem é convidado? Ou melhor, quem são os convidados?  Nessas questões residem as táticas políticas e a importância do jantares e banquetes oferecidos e as pretensões de quem os realizam. Se um presidente ou um imperador é convidado percebe-se a busca de reconhecimento e aliança, não só de um cumprimento de formalidades institucionais e sociais. Como diz Roy Strong, caracterizando os jantares da elite britânica do século XIX, mas que é universal para esse tipo de evento aqui estudado (2004:231), eles antes de: "tudo era preparado para impor aos convidados o esplendor, a magnificência e o status anfitriões", ainda relata, nessa perspectiva, "receber um convite para jantar era uma barreira tão grande quanto dar jantar. E ainda é" (idem: 250).

 

Essa denuncia de Strong para o mundo inglês do século XIX poderia ter validade para mundo aristocrático brasileiro?  Acreditamos que sim, basta olhar para o escândalo que se cria quando não somos convidados para um jantar de um amigo ou para a suspeita que temos quando somos convidados para um almoço festivo por estranhos. Enfim, a comida pressupõe intimidade e afetividade.

 

Assim, os jantares e banquete ganham dimensão política colossal, pois podemos imaginar um jantar oferecido à (ou pela) Presidência da República, que tenha se esquecido de convidar membros proeminentes da sociedade política e civil. Quanto em desgastes político isso poder incorrer, em espaço nas páginas dos jornais de oposição.  É essa dimensão que historiadores e cidadãos não podem se esquecer ao ler os comentários sobre os banquetes e jantares oferecidos por Governadores e Presidentes.

 

Foto: www.ipdindex.co.ukNão receber o convite para estar próximo fisicamente do portador do poder pode produzir no sujeito não convidado um sentimento de rancor e ressentimento capaz de proporcionar distúrbios políticos descomunais, pois ser convidado representa afirmar: você é reconhecido e está na rede de poder e de influência, o que é importante para aqueles que participam da comunidade política, nesse sentido, jantares e banquetes, são espaço de sociabilidade política, principalmente num jantar que envolve alguém portador do poder reconhecido. Não é um evento descapitalizado politicamente. Ele significa benefícios, encontros e soluções, é um capital simbólico precioso.  Essa constatação se torna mais lúcida quando pensamos na política brasileira que é marcada, ainda, pelo clientelismo, pela política do favor e pelo personalismo.

 

Um exemplo que pode ajudar a compreender o exposto até aqui foi a primeira visita de Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente, a Vitória, em que foi organizado um  almoço em homenagem ao Presidente, oferecido pelo Governador Paulo Hartung, mas nem todos os deputados foram convidados, nem  mesmos alguns dirigentes do PT regional. Ainda, para completar o quadro, a multidão dos movimentos sociais, com fome, nas proximidades do palácio clamava um adeus do presidente, enquanto ele se deliciava com frango caipira.   Cabe salientar, que o Governador solicitava ao Presidente uma série de investimentos no Espírito Santo. Os jantares entre Lula e FHC na época de transição de seus governos também devem ser acrescentados, como exemplo, dos jantares enquanto espaço de negociação política.

 

Enfim, os banquetes e jantares estão longe serem práticas somente preocupadas com que vai ser consumido. Neles a preocupação está também vinculada com quem vai se convidado, nesse sentido, com interesses políticos e com os projetos de poder. Eles são práticas sociais que devem ser bem estudadas e observadas. A degustação da boa comida se faz tecendo a negociação política.





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Banquete - uma história ilustrada da culinária, de Roy Strong
El poder en escenas, de Georges Balandier
Modernidad y Poder, de Georges Balandier História da vida privada, org. Philippe Ariès e Georges Duby




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