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Resenha: MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada - guerra e açúcar no nordeste, 1630-1654. Rio de Janeiro: Topbooks, 2ª edição, 1998.

Camila Rodrigues
Mestranda em História Social - USP
tutameia@terra.com.br



Em 1975 o historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello publicou seu primeiro livro : “Olinda Restaurada – Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630 - 1654”, o qual viria tornar-se um dos clássicos da historiografia brasileira. Desde então, a obra tem sido comentada por historiadores reconhecidos  como Charles R. Boxer e Fernand Braudel, que reforçam a importância do livro. Em 1998 a editora Topbooks publicou uma segunda edição da obra, revista e ampliada pelo autor. Nesta edição, Cabral de Mello conserva as bases do texto, o estilo refinado e o título barroco, apenas acrescentando novas pesquisas e apresentando uma edição luxuosa.


Se é verdade, como escreveu Lucien Goldmann[1], que as características sociais ou biográficas do autor ajudam, ainda que parcialmente, na compreensão da obra, a respeito de Evaldo Cabral de Mello convém ter alguma informação sobre sua procedência. Evaldo foi diplomata e é este o motivo que aponta como determinante para que resolvesse dedicar-se ao estudo do Nordeste dos séculos XVII e XVIII, não só pelo fato da profissão ter-lhe proporcionado acesso aos documentos no exterior, mas também pela  necessidade de encontrar uma forma de manter-se ligado às suas origens, mesmo com as inúmeras viagens. Outra informação relevante sobre Cabral de Mello é  o fato dele não estar ligado à academia, o que acaba conferindo-lhe uma liberdade incomum nas produções contemporâneas. E Evaldo ainda inova de outras maneiras, considerando-se um historiador regional, cria uma possibilidade de contextualização da história do Nordeste na história mundial que não é corrente nos historiadores do Brasil.

 

“Olinda Restaurada” inaugura o estilo de Cabral de Mello: produzir uma história total, ou seja, econômica, política, social e militar  – que acaba resultando numa leitura para especialistas. Almejando ressaltar a guerra como fator determinante do período de ocupação holandesa, e a importância do açúcar, como objeto de manutenção do período, e não só como objetivo financeiro, Mello apresenta sua fantástica pesquisa documental em capítulos de abordagens inusitadas, sempre centrados na questão das  guerras holandesas em Pernambuco, que ele dividiu em dois períodos: a Guerra da Resistência (1630-1637), e a Guerra da Restauração (1645-1654).  Essa abordagem é absolutamente inovadora para a época da publicação do livro, pois vem derrubar a ênfase no nativismo no estudo das guerras holandesas, dada pelos historiadores do século XIX, e nas questões sociais, dada pelos historiadores mais recentes. Evaldo foi o primeiro a levantar como prioritária a questão econômica - militar. 

 

Foto: Folha de S. PauloJá no primeiro capítulo, Cabral de Mello coloca a ocupação holandesa em Pernambuco no contexto da Guerra dos Oitenta Anos, salientando sua importância secundaria no conflito, para explicar, desta maneira, a baixa mobilização de recursos da Coroa para a defesa do Brasil. Evaldo lembra que a defesa, exceto a marítima, era uma das características da auto sustentabilidade colonial. A partir de então traça um quadro das estratégias de guerra dos luso- brasileiros -  que adotaram a guerra lenta como prática defensiva na resistência mas foram os  grandes responsáveis pela restauração -  e dos holandeses -  que optaram pela guerra naval e pelo bloqueio comercial do litoral pernambucano na resistência mas não estavam em condições financeiras de ataque na restauração – trata-se de um capítulo estritamente militar.

 

Nos dois próximos capítulos, o autor traça um paralelo entre o comércio do açúcar e o financiamento das guerras holandesas, primeiro através de uma análise do comércio livre -  período de dificuldades econômicas anteriores à ocupação batava que acabaram agravando-se a partir de então – e, depois,  do regime de monopólios - o Assento de Pernambuco e a posterior Companhia Geral de Comércio do Brasil –  que abrange o período da crise do açúcar, a qual é detalhadamente explicada por Evaldo Cabral. Esses dois capítulos tem grande importância na obra por deixarem claro o quão profunda era a participação dos lucros sobre o açúcar no financiamento da guerra, comprovando brilhantemente tratarem-se, as guerras holandesas,  das guerras do açúcar.

 

No quarto capítulo, Evaldo prossegue enfatizando as finanças do conflito, mais especificamente o sistema tributário. Nesta parte esclarece que a guerra da restauração, muito mais que a da resistência, foi uma guerra do açúcar, uma vez que o “donativo do açúcar” foi que a manteve todo o tempo. No conjunto da obra esse é um capítulo especial, nele Evaldo Cabral de Mello discorre, ainda que brevemente, sobre os seus métodos de análise dos documentos, explicando porque confia mais ou menos em determinadas fontes e em como procura consultar todas as fontes, embora revele, de saída, ser esse  um objetivo impossível de atingir. Essa descrição metodológica enriquece muito a obra aos olhos do leitor, uma vez que deixa transparecer, caso reste alguma dúvida,  a seriedade da pesquisa de Cabral de Mello.

 

O quinto capítulo trata  do recrutamento das tropas. As tropas da resistência receberam  uma participação de soldados europeus muito maior que as da restauração, embora os soldados locais, especialmente os índios,  tenham tido presença dominante em ambas. Evaldo aborda a dificuldade de adaptação dos europeus ao Nordeste e às condições de guerra ali utilizadas que faziam com que o soldado local se sobressaísse. O capítulo começa com uma análise populacional da época, especificamente dos negros e índios ,que terão sua participação na guerra ressaltada de forma crítica pelo autor, conforme aparecem nos relatos neerlandeses e luso-brasileiros. É um capítulo voltado para a perspectiva socio-militar , especialmente no final, quando insere o tema do próximo capítulo : o abastecimento das tropas.

 

Ao dedicar um capítulo todo ao abastecimento das tropas, Evaldo Cabral está abordando de maneira excepcional  a questão da forma como as guerras atingiram socialmente a população pernambucana. Considerando Pernambuco como uma região que vivia de uma agricultura monocultora, fica fácil entender como um conflito de tão longa duração conseguiu deteriorar, gradativamente, o abastecimento. Nesse capítulo, o autor começa a  desenvolver um tópico que será o tema da próxima parte da obra: as particularidades das guerras holandesas em relação à arte militar da Europa no século XVII, e aqui o faz apontando as diferenças entre o que era considerada alimentação básica de um soldado na época e o abastecimento que os soldados recebiam no Brasil, o qual estava muito aquém do desejável. Mesmo os soldados neerlandeses não conseguiam manter uma alimentação considerada favorável, e dados os seus problemas de adaptação à região, acabavam padecendo mais que os soldados luso-brasileiros.

 

Ainda ressaltando as particularidades desses conflitos pernambucanos, Cabral de Mello vem, novamente, colocar a história no Nordeste no contexto da história mundial : como as técnicas militares usadas no Brasil destoavam totalmente das correntes na Europa moderna. Esse fato é atribuído não só à posição também marginal de Portugal em relação à Europa - uma vez que vinha sendo poupado de grandes conflitos até a Guerra de Restauração contra a Espanha -  mas também à influência das técnicas de guerrilha indígenas, chamadas de “guerra volante”, que acabaram sendo responsáveis pelas vitórias locais, afinal constituíam-se na  melhor forma de adaptação militar ao cenário nordestino, embora tenham caducado logo após a restauração pernambucana.

 

No último capítulo, numa das mais brilhantes interpretações das implicações da restauração de Pernambuco, Evaldo Cabral de Mello trás à tona  o conflito de interesses entre os proprietários dos engenhos confiscados pelos holandeses e os novos proprietários luso-brasileiros, para com isso, não só encerrar brilhantemente sua obra ao explicar em que resultaram as lutas contra os holandeses em Pernambuco, mas também abrir para os temas que viria tratar em seus próximos livros: “Rubro Veio” e “A Fronda dos Mazombos”, confirmando que, pelo menos no que toca o Pernambuco colonial, a história do Brasil vem sendo estudada de forma extremamente séria e abrangente.

 

“Olinda Restaurada”, trazendo uma espécie de análise que corresponde à delimitação cuidadosa do tema proposto,  apresenta para a historiografia brasileira um historiador atento ao método histórico e livre das possíveis implicações ideológicas, ou seja, que vai ao documento e  não trás uma análise cheia de intenções condizentes com o contexto histórico da pesquisa -  como fez Varnhagen[2] que usou as lutas holandesas para incitar a participação na guerra no Paraguai, por exemplo – nem correspondendo às expectativas possivelmente limitantes da academia ou , sequer, presa à história nacional : faz uma história regional que, paradoxalmente, é mundial, dada a sua liberdade.

 



[1]  GOLDMANN, Lucien – Dialética e Cultura – Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967, pág. 10

[2] VARNHAGEN, Francisco Adolfo – História das lutas com os holandeses no Brasil, Cultura, 1943





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