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A migração dos trabalhadores gaúchos
para a Amazônia Legal (1970-1985)
III - Os projetos de colonização da Amazônia e suas oposições

Larissa Kashina Rebello da Silva
Bacharel e Licenciada em História pela USP
larissa@klepsidra.net

APRESENTAÇÃO:


              Este é a terceira e última parte de um texto que procura abarcar a colonização de gaúchos no norte do Mato Grosso à partir da década de 1970.  São abordadas, nesta parte, os projetos de colonização da Amazônia no período entre 1970 e 1985, suas vinculações com as populações gaúchas migrantes e com as políticas governamentais,  além das oposições ao projeto executado.

INTRODUÇÃO:

 

O presente trabalho pretende discutir a migração de trabalhadores gaúchos do noroeste do Rio Grande do Sul para o sul da Amazônia Legal, principalmente norte do Mato Grosso, à partir da década de 1970, durante o Governo Militar. Para tanto é importante que se faça uma contextualização da origem destes grupos migrantes no Rio Grande do Sul, no século XIX, que eram na maioria, italianos e alemães.
 

Em seguida, se fará um panorama das políticas governamentais para a colonização de terras, mais especificamente nas fronteiras agrícolas estratégicas da Amazônia Legal, e a passagem da concessão de colonização para cooperativas.


Através de depoimentos de migrantes, familiares e profissionais que trabalham nesta área, e da bibliografia especializada, se discutirão as condições de vida dos trabalhadores na região de origem, o noroeste do Rio Grande do Sul, os motivos de seu deslocamento, bem como a descrição do caminho que percorreram, e em último momento, as condições de vida na região a que se destinaram. Não se pode prescindir da discussão à respeito da ocupação do espaço, e o encontro com a população local preexistente.



A pesquisa de campo na Amazônia Legal foi feita em cidades do estado do Mato Grosso. É importante comparar a instalação dos gaúchos em uma cidade que está ao sul da Amazônia Legal, que é Primavera do Leste, com o caso das cidades ao norte: Sinop, Lucas do Rio Verde e Sorriso. Há diferenças políticas e geográficas nas ocupações destas regiões.  O estudo da colonização da Amazônia Legal por sulistas foi dividido em três categorias, tais como esta ocorreu: a colonização oficial do INCRA, a colonização por parte de cooperativas e a colonização independente. Os três tipos apresentam realidades diferentes quando ao nível de renda dos migrantes, e as condições de instalação. Para avaliar as singularidades, foi necessária uma ampla coleta de depoimentos, e o estudo da bibliografia sobre cada município visitado.


Parte I: A questão agrária no Rio Grande do Sul
(publicado na edição nº 23 de Klepsidra - clique aqui para acessá-la)


Parte II: A Política de Ocupação das Fronteiras Amazônicas

(publicado na edição nº 24 de Klepsidra - clique aqui para acessá-la)



5. Os Projetos de Colonização na Amazônia

 

5.1 O Plano de Integração Nacional

 

O principal foco do governo para o Plano de Integração Nacional (PIN) era integrar a região amazônica ao restante do país. A distância física entre os programas de colonização era grande, pois pretendia-se que o povoamento posteriormente desenvolvesse o espaço, gradualmente, principalmente através da construção de rodovias, que estava ligada ao capital especulativo.


O PIN foi criado no dia 16 de junho de 1970, com recursos previstos de incentivos fiscais, doações,  e contribuições de empresas privadas ou públicas, cujo imposto de renda era deduzido em 30%, destinados somente para o Projeto.[18]


O sul do Maranhão, o centro de Goiás e o centro-sul do Mato Grosso, áreas de transição da caatinga para o cerrado, eram a região que mais interessava economicamente ao Governo. O Governo anunciava que a Amazônia tinha o maior rebanho bovino do mundo, quando na verdade não passava de 5 milhões de cabeças.[19]


Os pecuaristas uniam-se aos madeireiros, apoiando-os, pois estes faziam a limpeza do terreno para aqueles.Até 1950, não havia títulos de propriedade de terra nem preços de mercado na Amazônia.




“De 1970 a 1975, nas várias regiões da Amazônia, empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais da SUDAM, compraram mais de seis milhões de hectares de terras, espalhando centenas de jagunços pela área. A ocupação se fazia de forma predatória, provocando profunda alteração no meio ambiente e na vida da população local.”[20]

 

Projeto Jarí

Daniel Keith Ludwig comprou na entrada da bacia amazônica um território de 1.200.000 hectares*. “Com uma fortuna constituída à sombra de governos. Seu objetivo era reflorestar para extração de madeira e metais. Ludwig promoveu um grande processo de devastação ambiental na Amazônia.” “Nenhum imposto estava sendo pago e o valor das isenções superava em quatro vezes o montante a ser pago.”[21] A empresa obteve isenção de impostos e taxas sobre importação de máquinas.

Os antigos proprietários foram obrigados, por contrato a deixarem as terras e não mais exercerem atividades nos estados do Amapá e Pará.

Fonte: www.jari.com.br
Em 1978 o projeto Jarí trouxe uma fábrica de celulose e uma usina termo- elétrica montadas, de balsa, do Japão até a Amazônia.
Isto aumentou o uso dito ilegal da terra, ou grilagem, e a emigração para outros estados. Os trabalhadores foram substituídos: saíram os que ali viviam, e entraram nordestinos e sulistas.


O
Jarí mantinha outras empresas de processamento: Caolim da Amazônia S.ª, no município de Mazagão, para branqueamento de celulose; Projeto Rizicultura, em S. Raimundo, próximo do rio Amazonas, em área de 15.000 hectares, além do cultivo de cana para álcool.[22]


Houve muitas denúncias de maus tratos no Jarí: não havia casas suficientes, os trabalhadores eram obrigados a assinar recibos de pagamentos não recebidos sob ameaça de morte, e chegavam até a ficar presos.


Outros grandes projetos foram: Trombetas, para extração de bauxita no Médio Amazonas de 1966 (a exploração começa em 1971); o Projeto Carajás: o maior projeto da Amazônia, para exploração de quase todos os tipos de minério, descoberta em 1967 pela Companhia Meridional de Mineração, subsidiada da United States Steel Co.; houve muitos conflitos de terras pela instalação deste projeto, pois eram áreas ocupadas por grupos indígenas, de extrativistas, e além do mais, a exploradora era estrangeira. O Projeto Calha Norte levou a inúmeros conflitos por terras após a militarização das fronteiras.


Esta modificação rápida do ambiente alterou o modo de vida dos que habitavam a floresta.


“ A chegada do estranho aproximou índios e seringueiros, que até aquele momento eram inimigos e rivais na floresta.Os seringueiros criaram a estratégia dos empates de derrubadas, organizando mulheres e crianças para abraçar a área de seringa que seria atingida pela moto-serra.”[23]
 

 

“Entre 1973 e 1985, mais de 110.000 famílias de migrantes eram candidatas a parceleiras nos projetos de colonização do INCRA; apenas 30.000 conseguiram chegar ao lote de terra através do INCRA.”[24]


O Governo lançou o Projeto Integrado de Colonização – PIC, uma subdivisão do PIN na faixa de 10 Km ao longo da rodovia Transamazônica. Os projetos eram:


PIC Altamira, iniciado em 1970, às margens da rodovia Transamazônica, com área de 2.795.250 hectares; foi o primeiro projeto do PIN; o INCRA quis estabelecer que 75% dos colonos fossem do Nordeste, e 25% do Sul, seguindo o estereótipo de que os nordestinos eram iletrados, preguiçosos, e voltados à caça em vez da agricultura, mas com grande capacidade de superar dificuldades; os sulistas teriam o papel de servir de exemplo aos outros colonos, e de introduzir tecnologia de produção.[25]


Como já foi dito, a mídia era bastante otimista com relação a este projeto. O programa  atingiu um pico de assentamentos em 1972 e foi abandonado. O PIC do Guamá, foi iniciado em 1957 e continuado nas décadas de 70 e 80. Com área de 33.105 hectares, ficava nos municípios de S. Isabel do Pará e Castanhal. Foram assentadas pouco mais de 500 famílias entre 1970 e 1973. PIC Itaituba, iniciado em 1971, tinha área de 356.500 hectares, e ficava no município de Marabá; recebeu 3.500 colonos, dos quais 19% eram do Sul. Estes eram os PIC’s do Pará.


Em Rondônia, também foram instalados diversos Projetos Integrados de Colonização: o PIC Guajará-Mirim, ficava na fronteira com a Bolívia. Não atingiu o objetivo esperado, por causa do pequeno tamanho das terras (25 ha), a baixa fertilidade do solo, a deficiência do crédito. O PIC Ouro Preto, estabeleceu-se em Ouro Preto d’Oeste, em área de 512.585 hectares, e teve mais de 5000 famílias assentadas, das quais menos de 10% vinham do Sul. O PIC Sidney Girão, iniciado em 1972 no município de Guajará Mirim, tinha uma área de 60.000 hectares; teve pouco mais de 600 famílias assentadas ao longo da Rodovia BR 425. O PIC Ji-Paraná, estendia-se por regiões de vários municípios, entre eles: Presidente Médici, Cacoal, Rolim de Moura, Pimenta Bueno; tinha área de 486.137 hectares, e assentou mais de 5000 famílias. O PIC Paulo Assis Ribeiro foi iniciado em 1974, no município de Colorado D’Oeste, em área de 293.580 hectares, entre Rondônia, Mato Grosso e Bolívia; teve 3500 assentados. Os três últimos projetos estavam próximos de reservas indígenas.


No Projeto Agroindustrial Canavieiro - PACAL, iniciado em 1973 no município de Prainha (PA), com área de 15.300 hectares, plantava-se cana-de-açúcar para abastecer outros PIC’s.


No Amazonas, a Colônia Agrícola de Bela Vista, também parte do PIN, teve assentamentos entre 1974 e 1977.


No Mato Grosso, executaram-se os “Projetos de Ação Conjunta-PAC”:


O PAC Peixoto de Azevedo, em área de 120.000 hectares, no município de Guarantã do Norte, ao longo da Rodovia Cuiabá Santarém, com apoio da Cooperativa Tritícola de Erechim Ltda., assentou-se 700 famílias. O Projeto de Assentamento Braço-Sul, também ao longo da Rodovia Cuiabá Santarém, com 115.000 hectares destinou-se ao assentamento de mais de 1000 famílias de “brasiguaios” retornados. Ambos projetos expropriaram índios Kréen Akaroré em 1972 para a construção da rodovia. Estes foram reduzidos de 800, para 80, quando da transformação de suas terras no Parque Nacional do Xingu.


 

5.2. Os Projetos particulares do Rio Grande do Sul:


As cooperativas sulistas responsáveis pelos projetos amazônicos particulares tinham como critério de seleção dos colonos: ser pequeno proprietário, com renda para se sustentar por um ano. Os critérios de seleção para os projetos oficiais eram para homens  entre 21 a 60 anos, casados, com filhos, com boa conduta; possuir tradição agrícola, e não ter propriedade rural. Entre os escolhidos haviam: pequenos proprietários, ou seus filhos, pequenos arrendatários, meeiros, posseiros, assalariados rurais e urbanos; portanto, o critério dos programas oficiais eram menos rígidos que os particulares. Conclui-se que não havia um modelo fixo de migrante, pois o critério era bastante abrangente.

As cooperativas controlavam as atividades dos colonos, como o garimpo (o que foi o caso extremo de Alta Floresta (MT), onde “colonos-garimpeiros” foram espancados até a morte. Também eram dissolvidas, reuniões de grupos que discutissem a situação social dos colonos. Além disso, as cooperativas proibiam de vender a produção sem o intermédio das mesmas, o que mostra mais claramente o seu caráter empreendedor, ávido por abrir novos projetos. Há uma relação de paternalismo por parte dos dirigentes dos Programas, com relação aos colonos.

As colonizadoras ignoraram a presença de outros ocupantes nas terras loteadas, e admitiram apenas o seu projeto como modelo de ocupação da região.

Nos programas privados, os parceleiros que chegaram entre 1970 e 1979, receberam crédito fundiário com prazo de 15 a 20 anos, com  2 a 4 anos de carência a juros entre 6 e 12% ao ano. Com a falta de créditos dados pelo Pró-Terra, os colonos teriam que pagar 20% do valor da terra adiantados, e os juros seriam mais elevados.


Não raro, as colonizadoras estavam ligadas a grupos econômicos em diversas atividades, como extração de madeira, e a agro-indústria, garantindo várias fontes de lucro.

Quase todos os programas tinham uma proteção do governo de preço mínimo: se a colheita não fosse comprada, o governo o fazia.


Como na Amazônia o solo é muito irregular e os lotes eram distribuídos aleatoriamente, um colono poderia receber uma terra mais fértil, ou com fonte de água, ou ouro, enquanto o seu vizinho, não.


Os colonos buscavam produzir e comprar fora do sistema da cooperativa, que em todos os casos queria lucrar sobre a venda dos e para os cooperados.

 

O Programa de Colonização Canarana, da Cooperativa 31 de Março -COOPERCOL, de Tenente Portela, foi inaugurado em 1972, em Barra do Garças, no leste do Mato Grosso, “no Km 335 da rodovia (não asfaltada) BR-158.”[26] Estabeleceu-se em território dos índios Xavantes e Bororo. Barra do Garças é sede do município desde 1948, quando vieram os exploradores de ouro e se instalaram. Até então não havia brancos no local. Já desde 1950, a região foi ocupada por grandes fazendas de gado extensivo, que receberam concessões de terras públicas do Governo do Estado do Mato Grosso. Também chegaram muitos posseiros nordestinos e nortistas, no começo da década de 60. O conflito entre fazendeiros e índios se intensificou tanto que o Exército interveio, deslocando os Xavantes para a reserva indígena Pimenta Bueno no Araguaia mato-grossense.


O Programa de Colonização Canarana ocupava uma área de 39.851 hectares, com 81 parcelas de 470 hectares, destinadas à propriedade familiar.[27] Entre 1973 e 1979, outros 23 projetos de colonização instalaram 1206 famílias no município, sob organização da CONAGRO, empresa do grupo COOPERCOL.


Por falta de espaço agriculturável em Tenente Portela (RS), os camponeses avançaram progressivamente numa reserva indígena Kaingang, por 10 anos sob auxílio do Serviço de Proteção aos Índios, de onde foram expulsos após 20 anos de permanência. A expulsão destes trabalhadores que não tinham nenhuma propriedade, levou a um movimento por reivindicação de terras, que foi fortemente reprimido pelo Governo Militar.


Também em Tenente Portela, um grupo urbano, liderado por um pastor luterano, Norberto Schwantes, conseguiu verba européia para montar uma rádio que dava assistência agrícola. Concluiu-se que o problema da falta de terras estava no minifúndio de trabalho manual, e não pela crise de esgotamento do arroz, como a mídia sempre enunciava. Então, propôs-se que metade dos camponeses fosse transferida para a Amazônia, para aliviar a tensão social causada pela impossibilidade de se adquirir mais terras no Rio Grande do Sul. O projeto foi muito bem aceito pelo INCRA, que sugeriu que Schwantes montasse uma colonizadora, e enviou dois funcionários para orientar o trabalho. O nome 31 de março, era em homenagem ao dia e mês da Revolução de 1964. Schwantes foi uma figura muito polêmica, pois estreitou laços com a ditadura, ao mesmo tempo que dava abrigo a refugiados políticos em Tenente Portela.


Com dificuldades em adquirir terras, a colonizadora tornou a pedir a ajuda do INCRA, que orientou para que recrutassem camponeses para os projetos ao longo da Transamazônica, Altamira e Marabá, que faziam parte do Projeto de Integração Nacional. Os gaúchos dariam o exemplo aos nordestinos. Dos primeiros 76 camponeses que foram, sem a família, para passar 6 meses, a metade voltou[28], horrorizada com as péssimas condições dos projetos. Mas as famílias continuavam a ser transferidas: estima-se que foram 200 famílias através deste convênio.


Formaram-se então dois projetos: em Barra do Garças, para agricultores com mais capital (terrenos de 500 a 1000 hectares), e o projeto da Transamazônica para os camponeses sem recursos. Aderiram 360 pessoas. Apenas 60 permaneceram. Destes interessados, apenas 81 famílias partiram para Barra do Garças. Havia inicialmente 118 camponeses interessados em ir para Barra do Garças, e apenas 22 para a Transamazônica.[29] 


Um forte trabalho de propaganda foi feito no Sul, o que efetivamente rendeu muitos deslocamentos de famílias com pouca terra, a maioria delas arrendadas da reserva Kaingang. Era exigido um certo capital pelo próprio Projeto Canarana. Schwantes diz: “(...) mesmo famílias que estavam muito bem aqui, partiram.”[30]


No Sul, houve uma concentração de terras nas mãos de quem comprou dos camponeses que migraram.

O Pró-Terra financiava 80% do preço da terra. Portanto, pode-se dizer que este projeto teve muito incentivo dos governos, estadual e federal.


As condições eram péssimas: os colonos viveram por 1 ano em barracas, muitos foram atingidos pela malária. Barra do Garças, a cidade mais próxima, ficava à 335 Km de Canarana, por estrada de terra, e o preço das mercadorias lá era muito alto. Os colonos sobreviviam do que traziam do Sul, basicamente. Com dois tratores, fizeram a primeira lavoura coletiva, monocultora, de arroz (exigência do INCRA) e instalaram uma serraria para fazer as casas.


Foi projetada uma agrovila, mas logo, os colonos foram viver no centro urbano, por causa da distância da escola, e a falta de encanamento de água e eletricidade, o que fez com que o centro se desenvolvesse rapidamente, à ponto de já em 1982, haver “bairros de ricos e de pobres”, isolados.


Entre 1979 e 1981, o conflito com os índios Xavante se intensificou, sendo no mínimo 210 famílias ameaçadas de expulsão.


Em 1º de maio de 1975, foi fundada a Vila de Canarana, mesmo ano da fundação da COOPERCANA, Cooperativa de Produtores, com 1500 associados em 1980. O principal motivo do sucesso, foram os créditos públicos abundantes, e a tradição agrícola de pequenos produtores do Sul.


A vila tornou-se município ao final de 1979, início do período da crise de esgotamento do solo pelo plantio de arroz. Aproximadamente metade dos colonos se endividou e o Banco do Brasil confiscou as suas máquinas agrícolas. A maioria dos colonos passou a arrendar terras nos arredores, ou partiu para outros estados. Apenas 40% permaneceu em Canarana. Logo no início do Projeto, 8 famílias retornaram porque não conseguiram se sustentar. As levas de retornados, tiveram que passar pela humilhação de serem vistos como vadios por sulistas no Sul e em Canarana. Geralmente os que conheciam menos a agricultura mecanizada, foram menos bem sucedidos. Este grupo foi estimulado pelo INCRA a substituir colonos também retornados, desta vez em Rondônia, Terranova e Lucas do Rio Verde.


Os principais motivos da migração deste grupo, segundo Santos[31], eram  a busca de mais terras para os filhos, e o cansaço relativo ao trabalho manual: queriam mecanizar sua lavoura.


O tamanho das terras em Canarana era muito maior que em Tenente Portela: de 14 ha no Sul, para 475 ha no Mato Grosso, aproximadamente, em 1972, e 570 ha em 1984.[32] Mas o tamanho das terras é bastante desigual no projeto, como acontece com a divisão agrária em todo o Brasil.


A produção em Canarana era familiar, e nas épocas de plantio e colheita, meeiros eram contratados, e ficavam com 5% da colheita.


Entre 1983 e 84, deslanchou a produção de soja em Canarana, devido a exploração de uma mina de calcário que possibilitou a correção do solo. No entanto, muitos produtores continuaram a plantar suas culturas de subsistência, pois não queriam mais obter empréstimos do Banco do Brasil. A pecuária também se fortaleceu neste momento.


Os colonos lamentavam a dependência da cooperativa, e a falta de assistência técnica da EMATER: empresa do órgão oficial de extensão rural. A tecnologia do trabalho no cerrado foi desenvolvida pelos próprios agricultores.


Os posseiros que vivam na terra antes do Programa Canarana, nas décadas de 60 e 70 estão em conflito com os fazendeiros até hoje, nos arredores do Programa: Canabrava, Milagrosa, Rio Tanguru e Cascalheira. Foram ressarcidos de suas produções e casas, mas não pelas terras. Os sulistas já chegaram à uma região de conflito, portanto, não foram seus causadores, mas a cidade é dividida entre os nordestinos e sulistas, que vivem ao norte, e os sulistas que vivem ao sul do município.


Santos[33] observa que a relação entre os colonos é de individualismo, e que quase nada resta da cultura camponesa gaúcha em Canarana: 12 anos depois de suas chegada, não havia ainda nenhum sindicato.

Um anônimo de Tenente Portela (RS), conta que seus próprios irmãos mudaram-se para Canarana há 16 anos. Ele nunca mais os viu. Diz que é provável que um deles esteja morto. Seu pai, Nemo ainda vive lá. Os filhos disseram ao pai que iam tentar a vida; foram com um pequeno crédito do governo, mas por iniciativa própria. Com a parte da herança da terra que o pai vendera (eram mais de dez filhos), venderam 26 hectares e hoje eles têm mais de 1000 hectares, conta com ar de esperança o homem.


Em Tenente Portela
, plantavam milho e feijão; em Canarana plantam soja e têm centenas de cabeças de gado. “A foto é um escândalo”, diz o homem, cujo sonho é ir com a mulher e os cinco filhos para lá: “já que eles estão ricos e eu pobre...tenho 27 anos e cara de mais de 30 não é?’’


Sr. Ênio vive em Tenente Portela, onde é proprietário de uma padaria e um bar. Conta que sempre foi padeiro. Em 1989, mudou-se para Canarana para trabalhar na Coopercana, como empregado. Diz que voltou com a família porque a esposa não gostava da vida de lá.


Foram sem dinheiro algum, e não tinham terras. Os aparelhos da sua padaria estavam penhorados.


Retornou com dinheiro suficiente para os readquirir e voltar a trabalhar no que sempre gostou de fazer, diz Sr. Ênio.


Os colonos sabiam das fraudes na Coopercana. Um exemplo é de caminhões que vinham com mantimentos, pesavam, e depois passam de novo com a balança em tara, como se o caminhão tivesse descarregado, quando na verdade o motorista levava a carga para si e dividia com os mancomunados. Estas fraudes foram o principal motivo pelo qual o projeto não se sustentou. A Coopercana passou a se chamar Caramuru.

Há três anos, o grupo Maggi, do qual o governador do estado é proprietário, comprou uma área de 40.000 hectares em Canarana; era a antiga fazenda Paraíso. Um grupo de funcionários do supermercado Coopercana se apropriou do terreno; viraram donos e ninguém os desapropriou.


Existe muito tráfico lá, e conseqüentemente, muitos crimes. Teve uma época em que os próprios seguranças da cooperativa estavam envolvidos.


Sobre a instalação no Mato Grosso, Sr. Ênio diz: “Quem mora em favela é nordestino. Gaúcho não. Gaúcho vai e aluga nem que seja um quarto, como eu, que fui sem nada.”


Segundo sua esposa, eles voltaram porque sr. Ênio perdeu o emprego da padaria onde trabalhava. A esposa era escriturária na prefeitura. No dia seguinte às eleições municipais o candidato que perdeu mandou queimar a sede municipal. Todos os arquivos foram perdidos.


O Programa de Colonização Terranova, atual município de Colíder, situa-se às margens da BR 163, no Km 700, no norte do Mato Grosso, que fica em região de floresta tropical. É banhada pelos rios Teles Pires e Peixoto de Azevedo. A terra é seca e dura, e o terreno é plano. A região era território dos índios Kreen-Aka-Rore. O primeiro encontro com os brancos em 1967 resultou num conflito violento. Com a construção da rodovia Cuiabá-Santarém, o governo, através dos irmãos Vilas-Boas, transferiu os índios para uma reserva às margens da rodovia, criada justamente para este fim. Em um ano, a sua população passou de 300 para 150, por causa das doenças dos brancos. Então, em 1974, foram re-transferidos para o Parque Nacional do Xingú.


O Projeto começou a ser implantado em 1978, pela COOPERCANA, a mesma cooperativa responsável pelo Projeto Canarana; à pedido do governo, para assentar gaúchos expulsos das reservas: Nonoaí, Cacique Double e Guarita, territórios Kaingang,  próximos de Tenente Portela. Seriam 1000 colonos, no total. Mais 32 famílias foram re-alocadas, porque viviam em Canarana, mas estavam em território Xavante. 


Os gaúchos expulsos dos territórios Kaingang no Sul, estavam alojados no Parque de Exposições do Esteio, próximo de Porto Alegre. A COOPERCANA lhes ofereceu propriedades de 200 hectares, com financiamento de 15 anos, crédito sazonal, casas de madeira, estradas vicinais, escolas e hospitais, onde diziam ser terras férteis e sem doenças. Mas os camponeses hesitaram muito. Havia quatro opções: assalariamento em municípios próximos; assentamento na Colônia Nova Esperança em Bagé, que assentou apenas 128 famílias em lotes de 15 a 20 hectares; colonização em Terranova; ou permanecer no Sul sem terra. A maioria, portanto escolheu migrar. Inicialmente, 550 famílias e depois 80 famílias mudaram-se para o Projeto Terranova. As 300 famílias que ficaram no Alto Uruguai (RS), invadiram, um ano depois, a Fazenda Sarandí, que levaria a organização do primeiro acampamento do MST.


O Programa Terranova tinha superfície total de 435.000 hectares, divididos em 1060 lotes rurais. Até julho de 1979, 637 famílias foram assentadas em parcelas de 200 hectares. À partir de outubro, mais 423 terrenos (desta vez de 100 ha) foram distribuídos aos expulsos de Nonoaí, no norte do Rio Grande do Sul, e oeste de Santa Catarina. Os colonos recebiam crédito do Banco do Brasil, através do Pró-Terra.


Os créditos foram liberados com muito atraso. Entre 1979 e 80, a COOPERCANA passou por uma grande crise.


Em 1980, Colíder foi decretada pelo INCRA, zona prioritária de assentamento, por causa de conflitos entre posseiros e fazendeiros com títulos falsos de propriedade. A solução encontrada pelo Governo, portanto, foi incluir mais um grupo no território.


Os colonos vieram, principalmente por causa da mecanização da lavoura na década de 60, que os deixou pressionados pelos “grandes” agro-pecuaristas no Sul, e por não terem capital para mecanizar-se. A consequência da mecanização foi o aumento do preço da terra, que os impediu de expandir sua produção. Além disso, o aumento da família tornava o tamanho das suas parcelas insuficientes.[34]


Muitos colonos são filhos de pequenos proprietários. Por tradição a terra fica para o filho mais novo. Os mais velhos não podem permanecer porque não há espaço.


Outro grupo que foi para Terranova, é o dos “afogados” da barragem de Passo Real (RS), em 1970.


A COOPERCANA também fez uma propaganda forte sobre Terranova, com audiovisuais, e pelo rádio. As promessas eram de que iriam à uma “terra prometida”.


José Vicente Tavares dos Santos avalia que “os colonos chegavam em Terranova desprovidos de recursos financeiros importantes, exceto uma minoria que vendeu seus instrumentos agrícolas antes de partir.”[35]

Tudo o que fora prometido não era como tal na realidade: as casas eram barracos de madeira, não havia água encanada nem instalação elétrica; as terras não haviam sido medidas, nem o terreno fora limpo. Para chegar da agrovila ao lote, tinham que caminhar de 5 a 9 Km, o que fez muitos optarem por vender o lote residencial e viver no terreno da lavoura. Tinham que pescar e caçar, pois seus recursos não eram suficientes para comprar comida. Realmente passavam fome nos primeiros três anos, quando não havia o supermercado da COBAL, pois na época das chuvas, a estrada fica intrafegável.


Não havia assistência médica nas agrovilas. Muitos morreram de malária. Não se sabe quantos. Só construíram uma escola muitos anos depois, e era apenas o ensino primário (4 anos). Foram feitas muitas denúncias, como a de que o alimento enviado pelo Governo Federal era desviado[36], de que o contrato não foi honrado, e de que a Cooperativa vendeu concessões em áreas de reserva florestal.


No cemitério da cidade está escrito em muitas cruzes: “DESCONHECIDO”. Eram pioneiros que abriram a mata e morreram de malária, ou em conflito. Muitos tornaram-se garimpeiros, madeireiros e caçadores.

A medida média das propriedades era de 198 hectares.Na primeira fase da colonização, a atividade era a extração de madeira. No começo da década de 80, começou-se a explorar mais ouro e a diversificar culturas, após o esgotamento das lavouras de arroz.  Os colonos gaúchos partiram para o garimpo[37] para que pudessem continuar na agricultura sem depender de empréstimos bancários. Foi uma atividade sazonal para este grupo.


Uma nova leva de migrantes, chamados de “compradores”, vindos principalmente de Santa Catarina e Paraná, adquiriram os terrenos dos colonos “pioneiros” que retornaram. A condição econômica e social deste segundo grupo era um pouco melhor que a do primeiro, pois já havia mais estrutura em Terranova. Havia também um grande número de posseiros vindos de todas as regiões. Muitos eram garimpeiros. Ocupavam faixas de terra devolutas atrás das parcelas dos colonos, à 5 Km da estrada. Não tinham acesso à nenhuma benfeitoria de Terranova. Produziram todo o seu espaço independentemente.


Houve conflito entre os colonos e os posseiros. Também é nítida em Terranova, como em qualquer outro município originado por colonização uma diferenciação social entre os colonos pioneiros, os que chegaram posteriormente, os posseiros, os dirigentes da colonizadora, e os grandes fazendeiros que já eram proprietários das terras antes da colonização.


Em 1979 foi fundado um centro comunitário de lazer. A bocha, jogo muito apreciado por gaúchos era uma forte atração, o que mostra que o grupo manteve-se coeso, dentro do seu status: colonos parceleiros e colonos compradores não se misturavam. As diferentes religiões, das quais a católica era a mais forte, também cingiam os gaúchos.


A justiça sempre esteve ausente, o que fez com que a violência policial e dos matadores contratados por proprietários para eliminar os posseiros ficasse impune.


Houve muita desistência por parte dos colonos, que retornaram: 80% da primeira leva, entre 1979 e 81, abandonou o Programa. Alguns trocaram uma parcela em Terranova por um lote no Sul, outros trocaram a parcela apenas pela passagem de volta. Estes foram vistos como “pessoas que não querem trabalhar” e “especuladores”[38]


O agricultor Carlos Mouro, migrou de Nonoaí para Terranova do Norte na década de 1980, ao receber uma parcela de 250 hectares. Pegou malária mais de 60 vezes. Todas as manhãs, ele e a mulher, ambos com mais de 40 anos, caminham cerca de 10 Km em mata fechada para chegar à roça; Leva sempre um facão e um rifle, porque há muitos animais selvagens. Sem ter com quem negociar a produção, ele alterna a agricultura com o garimpo. A Colonizadora Cotrel, do município de Erexim (RS), lançou em acordo com o INCRA, em 1980, um programa de colonização no Km 750 da rodovia Cuiabá-Santarém, para assentar os “afogados” das barragens do Rio Uruguai. As barragens estavam sob responsabilidade da empresa estatal Eletrosul, na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Na comissão de apoio à construção das barragens, estava o vice-presidente da cooperativa, o que indica o interesse na barragem para assentar os sem-terra no projeto amazônico.

Porto dos Gaúchos, nas décadas de 50 e 60, era uma colônia da Conomali, em reserva indígena Beiço de Pau. Lá a principal atividade por muitos anos foi a extração de borracha, que se iniciou com os “soldados da borracha”, nordestinos trazidos durante a Segunda Guerra Mundial, pelo governo federal para coletar látex. A borracha era usada em pneus para as tropas aliadas.


Ultimamente, com a decadência da borracha, estão substituindo a economia pela pecuária e até o plantio de soja.

 

Sorriso, fundada pela colonizadora de mesmo nome, também foi construída ao longo da rodovia Cuiabá-Santarém, foi um desmembramento de Nobres.


“Pacificado” em 1924 e 1942, um grupo de cerca de 40 índios Kayabi foi encontrado pelos irmãos Vilas-Boas às margens do Rio Peixoto de Azevedo. Neste período, os Kayabi consideravam sua, a área compreendida entre o rio Teles-Pires e a margem direita do rio Arinos. A área onde hoje localiza-se o município de Sorriso, fazia parte do seu território. Tiveram um contato violento com seringueiros, alguns até passando a exercer esta atividade. Em 1950, foram “convencidos” a emigrar para o Parque do Xingú.


“A primeira visita com interesse em comprar terra nesta região foi a do Sr. Benjamin Raiser, juntamente com seu filho, Ivo Raiser e seu genro Nelson Frâncio, em 1972. (...) Em final de 1973, estiveram aqui novamente, quando fizeram negócio. Benjamin ofereceu a terra a seu filho e seu genro.”[39] Depois de voltar várias vezes para o Sul, foram morar no município de Sinop, que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.


Em março de 1975, três pessoas: Claudino Frâncio, de Videiras (SC), seu primo Demétrio Frâncio, residente em Ampére (PR), e Dorival Brandão, residente em Marmeleiro (PR), à convite de Claudino, vieram visitar Nelson e Ivo. O objetivo da compra era formar uma agropecuária.


Como a área que Claudino comprou era muito grande, e seus recursos não eram suficientes, ele voltou para o Sul oferecendo terras aos amigos e parentes. “Claudino tinha uma propriedade de 4000 hectares, e vendeu 1000 para este grupo. Em seguida, vendeu toda a terra e comprou mais 4000 hectares. A notícia chegou rápido pela região Sul e começou-se a organizar caravanas quinzenais para virem conhecer o Mato Grosso.”[40]


O grupo resolveu montar uma imobiliária, para comprar e vender terras. Ricieri ficou no Sul administrando os negócios da família, caso a imobiliária não desse certo no norte. Nelson administrava o escritório in loco. Dna. Idali, esposa de Claudino, com uma fusca, ia e vinha para Videiras (PR) para fazer propaganda das terras que tinham à venda.


“Pensaram em dar à gleba, o nome de Curitiba, e alguém sugeriu que pusessem o nome fantasia de Curitiba, que é Sorriso.”


A primeira área derrubada foi de 50x50m[41], com machado e moto-serra, local onde construíram o primeiro abrigo, de 3x5m: uma espécie de acampamento. Em seguida, construíram uma casa maior que foi chamada de restaurante; de lá começaram a oferecer refeições aos funcionários do 9º BEC: batalhão de engenharia civil, que era o responsável pela construção das estradas na época.


Os pioneiros não conheciam o solo e as possibilidades do Cerrado; então derrubaram com a mesma técnica do Sul. Depois descobriram a técnica local que era muito mais rápida, pois a extensão de terra era muito maior que no Sul: uma corrente puxada por dois tratores. Os sulistas se emocionavam com a queda de tantas árvores ao mesmo tempo, segundo os relatos.


Fizeram a primeira lavoura de arroz coletiva, em 50 hectares, próximo ao rio Lira. Foi o cartão de visita para os colonizadores do Sul.


Assim relata Nelson sobre a expulsão da população que vivia na área que ele comprou: “(...) residiam ribeirinhos (...) quando nós compramos esta área de Sorriso, eram 8000 alqueires. Tinham mais ou menos 200 pessoas aqui em cima, de grileiros. Nós compramos de uma firma do Rio de Janeiro, do Euclides Aranha, que era Ministro de Guerra do Governo Castelo Branco. E nós compramos isso só que limpo, sem ninguém em cima. Eles deram conta. Vieram alí com a justiça e tiraram todo mundo pra fora. Até fiquei arrepiado! Tinha tanta criança! (...) com dois ônibus de policiais levavam na beira de estrada e mandavam embora.”[42]
 


“Naquela época tinha muito banditismo. Tinham umas fazendas que iam buscar funcionários, prometiam emprego e salário e quando ficavam doentes, ou se exigia alguma coisa, eram mortos. Certa vez, chegou um caminhão cheio de peonada (pau-de-arara), um deles queria comida de qualquer jeito. Estavam alí no posto Sorrisão, o motorista simplesmente puxou o revólver e matou o cara; foram embora e jogaram no rio Lira. Um vizinho do que foi morto, pulou do caminhão e se escondeu no mato; saíram caçando-o, mas não encontraram. Depois ele apareceu e pediu socorro para Dna. Elfrida, para ir de volta para casa no Paraná. Isso acontecia nas fazendas que tinham capatazes e grileiros”, conta Tereza Rubloski.[43]


Auti de Bona, também conta que muitas vezes era obrigado a ceder seus quartos de hotel que serviam de cadeia.


Catarina e Nelson Frâncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto.


“Se dependessem de comprar madeira em Sinop, tinham que ficar com o caminhão na fila, pois tinha apenas duas fitas (pistas) e os caminhões faziam fila como o INPS!”


Para tanto, usavam a madeira da serraria que abriram.


Os mantimentos, também eram comprados em Sinop, Vera ou Cuiabá. Helmuth Seidel abriu um pequeno mercado que poupou os moradores de viajar para comprar comida.


No início, cozinhavam com galhos de árvore. Catarina pediu ao marido para cavar um cupinzeiro, e usaram-no como forno, o que é muito inusitado.


Em 1976, trouxeram para o restaurante, um gerador, (que substituiu o lampião de gás), geladeira, fogão à gás, fogão à lenha, caixas d’água e outros equipamentos. Até 1976, o abastecimento de água da região era por roda d’água, que bombeava-a do rio Lira. “Em 27 de agosto de 1988, foi inaugurada pelo governador Carlos Gomes Bezerra, a Estação de Captação e Tratamento de Água(...), com capacidade de abastecimento para 1350 famílias(...)”[44] Mesmo assim, o serviço era insuficiente. Apenas em 14 de julho, a “Águas de Sorriso” iniciou a operação do sistema de água.


O primeiro gerador foi instalado em 1978. Até então, a iluminação era feita por velas e lampião.


Este grupo de sulistas da Cooperativa Sorriso, para oficializar a colonização, contratou a PLATEC, empresa prestadora de serviços na área de Topografia, Planejamento e Assistência Técnica, para elaborar o projeto e protocolar junto aos órgãos competentes, que aprovaram-no em setembro de 1979. Foi considerado um “mega-projeto” para a época, pois a área urbana foi projetada para ter 600 hectares, divididos em 4.500 terrenos.[45] Deixaram uma reserva de mata, mesmo que não houvesse legislação para tal.


Em 1982, a colonizadora se dividiu: a Sorriso aumentou seu espectro de atuação e transferiu a sede para Cuiabá. Quem ficou, criou a colonizadora Feliz. João Baptista Frâncio e Anarolino Ceola, saíram para cuidar de atividades particulares. Permaneceram, Claudino e Ricieri. Eles contam que “no início da década de 70, a estrada era muito boa: fazíamos de Sorriso à Cuiabá em 4,5 horas. Já em 81, demorava em torno de 12 a 13 horas, pela intensificação do tráfico.”[46] Maringá tinha uma linha direta para Cuiabá; na maioria das vezes eram os próprios passageiros quem empurravam os ônibus.


“O asfaltamento da BR 163, no trecho que compreende o Posto Gil, até Sinop, 330 Km de rodovia, foi concluído em dezembro de 1984. (...) Segundo um Resumo Histórico do 9º BEC, a implantação de uma extensão de 1.114 Km da BR 163, foi realizada por este órgão entre os anos de 1971 e 1976, ou seja, a sua abertura do trecho que compreende do Trevo do Lagarto até Santarém (...) a pavimentação ocorreu entre 1983 e 1986, sendo que cada trecho ficou à cargo de uma empreiteira, que aproveitando os projetos amazônicos, também receberam incentivos fiscais para construir. A empreiteira Andrade e Gutierrez pavimentou os trechos de Cuiabá até Jangada – 9º BEC, de Jangada até Posto Gil e daí até Rio dos Patos , A Constram, de Olacir de Morais pavimentou, de Rio dos Patos até Rio Verde, Odebrecht pavimentou, de Rio Verde a Rio Celeste, e de Sinop à Itaúba, A Camargo Correa ficou com o trecho de Rio Celeste à Sinop,. O trecho da rodovia que passa por Sorriso, foi asfaltado pela Odebrecht. A BR 163 foi construída através de um convênio celebrado entre o governo Frederico Campos[47], do Mato Grosso, (1979-1982) e o Presidente da República, Ernesto Geisel, porém, a liberação da verba ocorreu apenas no governo Júlio Campos (1982-1985).”[48] A justificativa para o convênio foi a necessidade de abrir estradas para escoar a produção e colaborar com o desenvolvimento do Mato Grosso, após a separação do Mato Grosso do Sul, pois a parte norte, posterior estado do Mato Grosso era menos desenvolvida: tinha menos produção, menos estradas e mais dívidas que a parte sul do estado. Porém, os projetos de abertura da Amazônia já tinham sido implantados. O Mato Grosso recorreu ao BIRD: Banco Interamericano de Reconstrução e Desenvolvimento, buscando empréstimo para a pavimentação da BR 163 e outras “BR’s” que passariam pelo território mato-grossense.


A BR 163 exerceu muita influência na fundação das cidades construídas ao longo de suas margens. Os pioneiros de Sorriso contam que quando chegaram, já havia a promessa de conclusão desta rodovia em três anos. Faz 28 anos e o projeto não foi concluído. A rodovia traria a possibilidade de boa distribuição, e de fácil acesso. Todos os entrevistados consideram a sua renovação um sonho.


Para a Associação Pró-BR, formada pela Associação Comercial e Industrial de Sorriso, que discutia dívidas agrícolas, o problema principal da rodovia não asfaltada, era a chegada dos insumos agrícolas. Então, montaram um grupo, em 29 de agosto de 1995, para asfaltar a BR e utilizar o porto de Santarém. Era uma entidade legalmente constituída, com sede em Sorriso. Isto mostra que os produtores tinham verba para fazê-lo, a ponto de preferir investir na pavimentação, em vez da produção.  Os objetivos da Associação eram: “a- a aglutinação da iniciativa privada dos municípios norte mato-grossenses em prol do desenvolvimento regional e especificamente, para a conclusão da BR 163; b- o estímulo ao desenvolvimento de atividades produtivas e defesa dos interesses econômicos de caráter comum; c- a defesa dos interesses, sócio-político e sócio-econômico junto aos órgãos de fomento, na esfera governamental e dentro da estrutura privada, visando o aprimoramento das condições de vida da população norte mato-grossense. (...) o produtor passará a ganhar por saca de soja exportada, R$ 3,00 a mais se nós compararmos com a saída do porto de Paranaguá, considerando a estimativa de produtividade da safra de 2001/2002 que é de 25 milhões de sacas (...)”[49]


Em Vera, havia irmãs religiosas alemãs que atendiam os doentes de toda a região. A Irmã Adelis foi lembrada como a enfermeira que salvou muita gente e aliviou muitos sofrimentos do povo da região diagnosticando pela sua experiência, e tratando a malária, que era frequente. Dna. Catarina e seus três filhos, por exemplo, contraíram malária, e foram curados pelas freiras.


A Sra. Elfrida Acco, também salvou muitas vidas: trazia alguns remédios, e quando a pessoa estava em estado grave, estendia a rede e ligava no soro, na oficina mecânica do marido. Em 4 de junho de 1980, foi aberto o primeiro hospital e maternidade. Não se fazia cirurgia, apenas atendiam-se casos não muito graves.

Num episódio em que um homem foi picado por uma cobra, seus acompanhantes foram pedir reforço à pé, à 30 Km de distância do local do acidente.


A Igreja Evangélica de Confissão Luterana, foi inaugurada em 1978 por iniciativa de paranaenses e gaúchos, filiada à Sinop. Tornou-se paróquia em 1987.


Ivo e Nelson, pioneiros fundadores da Cooperativa Sorriso, contam que em 1974, vieram abrir divisas na área adquirida. Ivo relata: “Eu fiquei acampado quase um ano, eu e o Nelson, na balsa do Teles-Pires, em baixo de um barraco de plástico. Para ver as divisas e para sobreviver, nós colocamos uma borrachariazinha.” A carne que caçavam, dividiam com os funcionários do 9º BEC, que os ajudou muito.


Em pouco tempo, voltaram para o Sul. Já em 10 de janeiro de 1975, retornaram, alugaram uma madeireira “pica-pau” desativada para serrar madeira para as casas. Voltaram mais uma vez para o sul, e depois novamente para o norte. Foram morar em Sinop que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.


Catarina e Nelson Frâncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto. Mas continuava  o problema da distância da escola. Na tentativa de resolver o problema, a Colonizadora alugou uma van para levar e buscar, mas as crianças tinham que acordar às 4:30 da manhã; então mudaram de volta para Sinop.


Dna. Catarina e seus três filhos, contraíram malária, e foram curados pelas freiras de Vera.


Antônio Capellari, chegou em Sorriso há quase trinta anos. Conta que o que hoje é a cidade, era uma planície à beira da rodovia Cuiabá-Santarém, com algumas barracas de lona. Hoje há prédios, casas e pessoas para todos os lados. Hoje têm uma vida confortável, mas passaram por dificuldades: a agência bancária mais próxima ficava à 280 Km de distância, e só se chegava quando a estrada estava trafegável. As máquinas agrícolas eram compradas no Sul, à mais de 2000 Km de distância de Sorriso. Para trazer a carga, tinham que convencer um caminhoneiro a fazê-lo; raramente aceitavam porque ficavam atolados na estrada.*


Atilano Albino da Silva, o Tânio, nos anos 70 foi para Sorriso com mais um peão buscar serviço temporário. Hoje é sócio de uma imobiliária, tem um avião, várias fazendas, planta soja na Bolívia e possui 2,5 milhões de hectares de terra para negociar. Seus pais, pequenos agricultores de Cruz Alta, mudaram-se para o sudoeste catarinense na década de 40. Conta que o negócio da terra já foi muito perigoso: uma só fazenda chegava a ter 12 escrituras falsas e pistoleiros para defendê-las. Hoje os assuntos são resolvidos por advogados. Com a implantação da lavoura da soja, o preço da terra só sobe, conta Tânio.
*


Sorriso foi sede, no final de agosto de 2004, do FEMART, festival estadual dos CTG, que durou 3 dias. Sua estrutura é a melhor do estado, e seus grupos (danças, declamação, laço, bocha, etc.) são os mais “temidos” do estado.

 

Sinop: Sociedade Imobiliária Norte do Paraná, é um projeto de colonização que formou os municípios de Vera, Cláudia, Carmen e Sinop. Seus fundadores foram: Ênio Pipino e João Pedro Moreira de Carvalho, entre outros. O grupo já existia desde 1970, quando adquiriu uma área na pré-amazônia mato-grossense, no município de Chapada dos Guimarães, que na época era o maior município em extensão do estado. “A empresa colonizadora deveria ser registrada no INCRA, possuír título de domínio da área a ser colonizada, apresentar plano de viabilidade econômica. Esta também se responsabilizava pela implantação da infra-estrutura básica (demarcação do perímetro da área a ser colonizada, das parcelas individuais); construir escolas, postos de saúde, delimitar o perímetro urbano, dar assistência técnica e creditícia. Caso a colonizadora não implantasse o mínimo de infra-estrutura básica exigida pelo INCRA, podia ter seu registro cassado”[50] O primeiro loteamento, feito em 1972, chamava-se Gleba Celeste. Localizava-se à margem direita do rio Teles Pires, formador do rio Tapajós, na Bacia Amazônica, e à esquerda do rio Tartaruga, pertencente à Bacia do Rio Xingú. Os índios Kaiabys que ocupavam a margem direita do rio Teles Pires, haviam sido levados pelos irmãos Vilas-Boas, em 1967, para o Parque Nacional do Xingú, sob orientação da FUNAI, por pressão de fazendeiros. Portanto, quando a colonizadora se instalou, não houve conflito com este grupo que já não vivia mais na região.


Depois de novas aquisições, a Gleba Celeste chegou a 645.000 hectares.[51] A Gleba era formada por 4 núcleos coloniais: Vera (27/07/72), Sinop (14/09/74), Carmen (15/09/74), Cláudia (1978); Alta Floresta também foi fundada pela colonizadora Sinop, mas é distante da Gleba Celeste; esta cidade também recebeu muitos gaúchos.


Inicialmente, Vera deveria ser o pólo principal, mas a construção da rodovia BR 163, a Cuiabá-Santarém, desviou o projeto da colonizadora, que construiu Sinop como centro principal da Gleba Celeste, ao longo da rodovia.    


A colonizadora Sinop foi fundada em 14 de setembro de 1974, durante o governo Geisel. Sinop tornou-se sede do município em 1979. Hoje, Sinop é a mais desenvolvida das cidades, e única, da Gleba Celeste onde há bancos públicos.




A Gleba Celeste foi loteada geometricamente (para aproveitar ao máximo o território) em vários tamanhos. Quando foi fundada a colônia Sinop, cada chácara tinha em torno de 10 hectares, reunidos em núcleo colonial. Havia também um projeto de pequenas propriedades com 60 hectares em média. “O total de terras do projeto de colonização, atingiu o montante de 600.000 hectares, divididos em lotes rurais cujas dimensões variam entre 12 e 100 hectares.”[52]


Os compradores eram financiados pelo Banco do Brasil à vista, ou à prazo de 6 meses à dois anos; mas isto só ocorria dois anos após a instalação, mediante apresentação do título de propriedade, e apenas se a produção fosse para exportação, ou da matéria prima para a indústria. A SUDAM deu um estímulo de 75% sobre o capital aplicado porque a Gleba Celeste estava na zona de prioridade A do PND. Por este motivo, o governo fez muitas benfeitorias em Sinop, se comparadas à outros municípios: abriu e asfaltou a BR 163, implantou o Programa do Ministério da Agricultura para corrigir a acidez do solo com calcário; implantou a COBAL: Companhia Brasileira de Alimentação, do Ministério da Agricultura; instalou agências bancárias, telecomunicação e energia. 


A propaganda no sul era muito entusiasmada. Não mostravam os pontos negativos, como por exemplo: a chuva que dura 6 meses e torna a BR 163 intransitável, a seca forte que dura outros 6 meses, e a malária. Assim, mesmo quem tinha terra no sul migrou, confiando na propaganda. Enfatizava-se que o lavrador da região Sul era um forte, e que não se deixaria abater pelas condições físicas adversas do lugar.


Por já ter experiência imobiliária no Sul, o Grupo Sinop vendeu apenas alguns lotes, e deixou outros valorizando. Os lotes foram vendidos a sulistas atingidos pela crise de café, ou expropriados. Estes grupos tentavam reproduzir a vida do Sul, na Amazônia. Foram apoiados pelo governo militar, para levar adiante o projeto de colonização privada, “irradiando progresso para a região.”[53] Mas, afirma Miranda[54], cerca de 50% dos compradores passou adiante seus lotes, e mudou para outros lugares, como Rondônia, onde a terra era mais barata, ou trocou de atividade, indo para os núcleos urbanos. Os bem sucedidos compravam os lotes dos falidos, aumentando sempre suas propriedades. Além disso, os pioneiros, muitas vezes vendiam as áreas de floresta, que não podiam desmatar, para os próximos migrantes, pois a lei federal determinava que 50% das áreas de floresta deveriam permanecer intocadas.



 

A cidade de Sinop começou com um posto de gasolina, o São Paulo, em 1972. Naquele ano, a colonizadora Sinop, que já tinha um escritório em Maringá, começou a fazer a abertura da área urbana. A colonizadora também possuía uma agro-industria e uma cooperativa de produtores, para produção e circulação de produtos, e orientação técnica de plantio.


Lá se instalaram muitas madeireiras, a principal atividade da cidade, a ponto de ficar conhecida nacionalmente pelo excessivo número destas, por mais de 30 anos, até mais ou menos dois anos atrás, quando a atividade declinou muito. Atualmente, as madeireiras ficam à 300 Km de Sinop, quase na fronteira com o Parque do Xingú.


Na década de 80, ampliou-se o cultivo da mandioca para a usina do álcool.


Como a vegetação da região é de floresta tropical, a borracha era explorada. A primeira borracharia foi instalada por sulistas era da família Pissinati Guerra.
 

Fotos da autora


A Irmã Adelis foi lembrada como a enfermeira que salvou muita gente e aliviou muitos sofrimentos do povo de todo o norte do Mato Grosso, diagnosticando pela sua experiência, e tratando a malária. Dna. Catarina, que viva em Sorriso e seus três filhos, por exemplo, contraíram malária, e foram curados pelas freiras.

 

Sr. Divino Locatelli vive em Tenente Portela: planejou mudar-se para o norte, mas nunca realizou este projeto. Sua filha vive em Sinop há vários anos. Dava aula em três turnos; passou muitas noites em claro; é assim a rotina dos habitantes das cidades construídas por gaúchos no norte. Ninguém lá se importa com a aparência, como devem ir vestidos à missa, pois há muito trabalho para ser realizado.

Locatelli conta sobre a colonização: “Garapú, que sediava a Copercana, foi uma colônia feita por Norberto Schwantes, através de um projeto do INCRA. Compravam-se lotes de 200 hectares, e quem comprasse lotes no campo, ganharia um terreno na cidade. Quem mudou para as colônias lá se fixou.

No entanto houve um grande escândalo pelo desvio de dinheiro por parte dos chefes dos associados, que acabou falindo a cooperativa.”


Muitos foram para as colônias do norte e centro-oeste apenas com a roupa do corpo.


O primeiro projeto, que chamava-se Areões, não vingou. Locatelli já havia se inscrito para ir com a família, mas desistiu em cima da hora, por receio das más condições, e de que alguém da família morresse, e não pudesse ter nem um sepultamento digno.


Serra Dourada também não vingou. Os projetos sucedidos foram, Querência e Água Boa.


Atualmente, pretende mudar-se com a esposa para Sinop, pois as condições de vida lá estão melhor estabelecidas.


A maioria dos seus conhecidos que vivem lá não querem voltar à Tenente Portela nem à passeio, conta com ar sério.


Sr. Divino tinha um ônibus, e transportava os migrantes e familiares para as colônias do Mato Grosso. Até hoje ele organiza viagens, e vai junto, mas não dirige mais. Toda semana saem ônibus sob sua organização para o Mato Grosso.


Marcelino Marquem, de Frederico Westfalen, no final da década de 60, vendeu 20 hectares no Sul, e comprou 300 hectares em Cláudia, cidade madeireira da Gleba Celeste. Com a ajuda da mulher, Sirlei, derrubou 30 hectares de mata com o machado, e fez uma roça de mandioca. Ficaram isolados na mata por um ano. Sirlei morreu de tétano, por falta de assistência médica. Continuou e casou-se com Anilda, de Soledade (RS). Viveram isolados na selva por seis anos; só plantavam para comer, porque não havia compradores. Anilda morreu de hepatite. Merquem se deu conta de que era impossível plantar na selva. Vendeu tudo e foi trabalhar como peão nas fazendas da região; também foi garimpeiro, e conseguiu juntar um pouco de dinheiro. Tornou-se madeireiro e hoje é um pequeno empresário. Comprou vários apartamentos em Sorriso, à 80 Km de Claúdia, o que sustenta seus 14 filhos.
*


Sr. Dirceu, nascido em Erechim (RS) e sua esposa, de Santa Rosa (RS), vieram para Sinop em 12 de julho de 1973. No Sul, trabalhava na roça. Naquela época, Sinop tinha sete casas. Antes de mudar-se, morava no Paraná, onde era marceneiro, havia 13 anos, após ter passado também dois anos em Santa Catarina, para onde foi com 16 anos. Ficou sabendo de Sinop pela propaganda no rádio. Os corretores da colonizadora iam de cidade em cidade para vender lotes, conta. Sr. Dirceu veio através do Grupo Sinop. Os primeiros que chegavam ganhavam terreno, porque precisavam de gente para cortar madeira e limpar o terreno. Mas quando o Sr. Dirceu chegou, já teve que pagar. O governo dava incentivo à colonizadora, não aos migrantes.


Morava no centro, com a família, “mas era só mato: morava em baixo de um barraco com lona plástica”. O chuveiro era um balde d’água na árvore. A água era de poço. A enregia elétrica só veio há aproximadamente 10 anos atrás: era o “Linhão” de Cuiabá.


Em 1974, trabalhou na construção de hotéis, que foi sua atividade por 10 anos. Ao todo, construiu 59 casas. Posteriormente, abriu uma loja para serraria e uma oficina, mas o negócio faliu, e o Sr. Dirceu passou a ser funcionário público, há 10 anos.


A BR 163, em 1973, de Cuiabá a Sinop estava em boas condições, conta Sr. Dirceu, mas à partir de 1976, piorou muito porque chovia muito, o cascalho saía, e não havia reposição.


Sua família levou 8 dias para chegar do Paraná à Sinop. Quando vieram, diz, eram 2 famílias. No mesmo ônibus, voltaram 8 de Sinop para o Sul. Em outra leva de transporte, voltaram mais 7 famílias para o Sul, pois não crescia nada na terra.


Sua família voltava para o Paraná quase todo ano, mas para o Rio Grande do Sul, não voltavam havia 23 anos. Sr. Dirceu conta que no Herval Grande (RS), tinha de tudo, quando saíram, “e agora não tem nada”. Explica que grandes fazendeiros estão comprando as pequenas propriedades para plantar pasto. Seu irmão ainda tem um aviário, mas o resto de sua terra está arrendado.


Sr. Dirceu tem orgulho de seu filho fazer faculdade. “De noite no barracão via a onça passar, morria de medo, mas não podia voltar. Hoje de jeito nenhum a gente anda pra trás”.


A irmã mais velha de Sr. Dirceu vive no Pará: comprou um lote de floresta em Progresso, há menos de um ano.


O Sr. Machado, que chegou em 1975, trazia frutas e verduras do estado de São Paulo, e o faz até hoje. Vendia, de início em mercearias, depois abriu um pequeno supermercado, e hoje tem 4 supermercados em Sinop e um em Colíder, um município próximo, também loteado pela colonizadora de mesmo nome.


Dna. Clara, saiu de Cerro Alto no Rio Grande do Sul com 11 anos e foi para Medianeira, no Paraná. Quando casou-se, foi para Sinop. Chegou em 1976 de “mala e cuia”. Ela e o marido trabalharam num “pica-pauzinho”, pequena madeireira. Viviam no meio de um mato, que hoje é o centro, conta. Depois tiveram açougue, fazenda, e por fim, investiram em fábrica de ração, até hoje, além de uma loja de produtos agro-pecuários, a Campo e Lavoura.


Dna Clara e o marido, nunca tiveram terras, vieram sem nada. No sítio da família, criavam porco e plantavam um pouco.


No caminho para o Mato Grosso, fizeram várias travessias de barco, porque os rios alagavam os caminhos. As viagens costumavam durar 5 dias em época de chuva.


O casal fundou o Centro de Tradição Gaúcha-Querência da Amizade, de Sinop, junto com outros dois casais. Conta que no Sul não eram muito participativos no Movimento Tradicionalista Gaúcho, mas em Sinop, sentiam falta de um espaço que unisse os gaúchos.


O Sr. Nilson e e a Sra. Ilma Kempf, chegaram de Tenente Portela em 1985, com toda a família. No Sul, plantava soja, trigo e milho em 58 hectares de propriedade. Em Sinop, começou a plantar soja, arroz e milho, em 968 hectares, que comprou com a venda do terreno no Sul. Contam que a cidade era só barro e poeira: “de dia faltava água, de noite faltava luz”. Em 1986, já tinha asfalto de Cuiabá até Itaúba, ao norte de Sinop. Quando os Kempf chegaram, já havia 800 madeireiras em Sinop.  Havia também 2 ou 3 escolas até o ginásio, e dois hospitais. A eletricidade era gerada a motor. O esgoto, até hoje é fossa, mesmo em um dos melhores bairros da cidade, onde vivem.


Contam que em Tenente Portela, a vida era boa, mas que a terra era pouca, e a família não tinha espaço para expandir.


No começo, os Kempf não receberam financiamento, porque os órgãos públicos não acreditavam na agricultura em Sinop. As principais atividades eram madeira e pecuária. Pensaram em mudar para Canarana, mas tiveram receio, pois lá vivia gente que não tinha terra e vivia numa área indígena, o Toldo do Guarita.

As primeiras notícias sobre Sinop que tiveram, foram através de jovens que foram fazer um retiro em Santa Catarina. Um jovem disse ao seu sobrinho e seu filho, que a terra era barata e boa. A família foi à Sinop, que lhe agradou. A propriedade do sobrinho foi posta à venda, e o filho também foi. Sr. Nilson pensou: “se é bom para vocês, é bom para nós também”.


Entre 1988 e 89, houve uma forte crise; o filho quis vender a terra em Sinop e voltar para o Sul; seu pai disse: “alemão é teimoso, vamos ver no que vai dar!”


Entre 1986 e 89, o preço da terra no Mato Grosso caiu pela metade, e no sul continuava aumentando. Atualmente, os terrenos do norte valem mais que os do sul.


Os Kempf consideram que o relacionamento com os não sulistas é bom, que não existe bairrismo. De fato, como Sinop cresceu muito, e é uma cidade mais antiga que as outras de colonização sulista, portanto, as tradições estão mais diluídas, pelo grande aporte de migrantes de todas as regiões.


A saída do Rio Grande do Sul não afetou a economia do estado, até melhorou, segundo Sr. Kempf, pois aliviou a tensão no campo, já que muitos migraram. Muitos não aguentaram e voltaram. Havia a malária, que matou muitos gaúchos, mesmo que houvesse uma central do meio ambiente que tratava com medicamento.


O sonho do Mato Grosso é terminar de asfaltar a Cuiabá-Santarém. Entre 1983 e 84, o governo asfaltou 600 Km, e até hoje a obra não foi terminada. Kempf observa: “A distância até o porto de Paranaguá, no Paraná (atual escoadouro de safra) é de aproximadamente 1800 Km, até Santarém, são aproximadamente 1000 Km. A Cargil está construindo e presta serviço lá.” A estrada até Santarém não está asfaltada, e os moradores que vivem de agricultura no centro-oeste e norte, reivindicam o asfaltamento, para que o escoamento seja feito em Santarém, de forma mais rápida e barata.


Os Kempf não pensam em voltar para o Sul, mas dizem que os jovens portelenses estão todos saíndo, ou para Porto Alegre, ou para o Paraná, Santa Catarina; ou para colher fruta fora da cidade, onde estão permanecendo só os idosos.


Lucas do Rio Verde era um projeto de colonização do INCRA.


O Rio Verde é o divisor de águas entre a Bacia Amazônica e o sul; é a divisa da Amazônia Legal. A ocupação às margens do Rio Verde começou na década de 1970 por 2 ou 3 famílias de posseiros que exploravam seringueiras nativas, e mais tarde comercializavam as terras locais. A cidade foi nomeada segundo o primeiro seringalista (Francisco Lucas), de que se tem registro, que vivia às margens do Rio Verde. No entanto, este fato não é comprovado por ninguém: é voz corrente. O Sr. Klaus Huber, diz que membros de sua família vivem ainda em Lucas do Rio Verde e Cuiabá.


O município foi o primeiro a colher soja no Brasil. A área territorial do município é de 3.654.237 Km² (0,43% da área estadual). 80% dos terrenos é plano, 20% é suavemente ondulada. O município fica a 2281 Km do porto de Paranaguá, e à 1398 Km de Santarém pela rodovia BR 163 ou 695 Km, até Cachoeira Rasteira em Alta Floresta, e 1043 Km pela rodovia Teles-Pires – Tapajós.


Os primeiros desbravadores que vieram do Sul, começaram a plantar arroz, com a chegada do 9º BEC, em 1976. O INCRA-MT, no mesmo ano, começou a discriminação judicial da Gleba Lucas do Rio Verde, com área de 270.000 hectares. Houve conflitos entre posseiros e o INCRA, no governo Figueiredo, porque o órgão queria reaver todas as terras da União. Os posseiros, além de passarem dificuldades pela falta de infra-estrutura (estradas, comunicação, educação e saúde), sofreram todo tipo de ameaças e humilhações.

A maior parte das famílias negociou com o INCRA e teve suas áreas reduzidas, outras perderam a área total, como a família Dall’Alba. De 1976 a 1981, só existiam 85 famílias de posseiros. Pouco menos de 10 ainda vivem em suas propriedades; outras venderam para colonos sulistas.


A ocupação das terras pelos posseiros, foi reconhecida em 1982, quando o presidente Figueiredo assinou o Decreto-Lei nº 86.307, declarando parte da área como prioridade para fins de reforma agrária. Através do PAC: Projeto de Ação Integrada, o INCRA assentou 203 famílias de Ronda Alta (RS), 12 colonos da própria região e mais 50 famílias cooperativas do interior de São Paulo.”[55]

Foto da autora
O governo não se identificava com a reforma agrária e não incentivava a organização de produtores.


Das famílias de posseiros que não venderam suas posses para os colonos assentados pelo INCRA, ou outros agricultores independentes, a maioria atualmente é bem sucedida, com produções agrícolas grandes.

 

Os primeiros colonos foram: Antonio Fraga Lira, David José Mignoni, Antonio Ori Toqueto, Antonio Gemeli, Domingos Munaretto, Evânio Valcanaia, Norivaldo Alves Peixoto, Valter Boscolli, Dall’Alba.[56]

Foto da autora
Em 1982, o INCRA através do PAC: Projeto de Ação Concentrada, assentou os primeiros agricultores da região sul, dividindo a gleba de 197.991 hectares, em lotes de 200 hectares.


Em 1986, outro projeto de colonização foi implantado no município, através do Programa de Desenvolvimento do Cerrado (PRODECER II), resultado de um convênio entre Brasil e Japão, que tem projetos de desenvolvimento em todo o mundo, (no Brasil: Mato Grosso, Bahia, Goiás e Tocantins, na América Latina, também no Chile, Perú e Bolívia) para garantir sua segurança alimentar, por ser um país muito pequeno, com pouca capacidade de armazenamento. No Mato Grosso havia dois projetos: em Tapurá, onde se estabeleceu o PRODECER I,  e Lucas do Rio Verde, local escolhido para a implantação do PRODECER II. Através deste programa, chegaram 400 produtores do sul do país, distribuídos em 180.000 hectares. O PRODECER dotou a Cooperlucas de estrutura de armazenagem, impulsionando definitivamente a implantação das lavouras de soja. A cooperativa obteve apoio e financiamentos do Banco do Brasil, conseguindo montar uma boa infra-estrutura. Pouco tempo depois da fundação da Cooperlucas,  esta já passou a dar crédito ao produtor em época. Montaram-se núcleos cooperativos.


A fundação da Agrovila ocorreu em 5 de agosto de 1982. Em 17 de março de 1986, tornou-se distrito, e em 4 de julho de 1988, emancipou-se politicamente de Diamantino.


Quanto às igrejas, a Assembléia de Deus começou suas atividades em 1980. A igrejas de Confissão Luterana, Batista e Presbiteriana são mais recentes. 


O Sr. Antonio Fraga Lira, de Lagoa Vermelha (RS),  foi um dos grandes defensores da criação do distrito de Lucas do Rio Verde.


Foi para a região de Lucas do Rio Verde em 1976, quando era município de Diamantino. Quando chegou, com seus dois irmãos, tinha 18 anos e era solteiro. Seus pais ficaram no Sul. Queriam comprar terras no Mato Grosso, inicialmente em Jaciara, mas o corretor trouxe seu pai para Lucas, e ele se entusiasmou.

No Sul, eram pequenos agricultores, tinham uma lavoura de subsistência, de milho e soja, em 120 hectares a serem divididos entre 6 irmãos; a tração não era mecânica. Plantaram arroz (monocultura mecanizada) no início, até 1981, quando iniciaram com a soja. Fraga Lira conta que não havia ninguém morando alí: eram os primeiros. 


A vida era difícil, porque Diamantino ficava à 220 Km de distancia de Lucas do Rio Verde. O posto de gasolina mais próximo ficava em Mutum, que na época era a fazenda Mutum.


Em 1981, quando começou o assentamento do INCRA, sua terra foi desapropriada, e Lira e sua família receberam o status de posseiros; mesmo que reconhecidos pelo INCRA como proprietários, perderam uma parte da fazenda. Isto só ocorreu porque já haviam aberto a mata, o que lhes dava direito à uma parte da terra, que perderiam caso contrário: inicialmente tinha 3600 hectares, depois ficou com 2200. “Afetou um bocado” avalia Fraga Lira.


Sua terra  não era uma posse, diz. Foi paga ao proprietário, Cláudio Leonardi, de Cuiabá, que nunca havia entrado na terra. Mesmo com escritura, o INCRA desapropriou e não ressarciu, conta.  Sua fazenda estava próxima de uma grande área devoluta da União, então, outras fazendas foram “engolidas” pelo projeto de assentamento.


A primeira missa católica de Lucas do Rio Verde foi celebrada na fazenda dos Fraga Lira, a 35 Km de Lucas, em 1983.


Foi o primeiro vereador do município, emancipado em 4 de julho de 1988.


O Sr. Fraga Lira não se queixa de nenhum conflito por terra. Hoje continua plantando soja, comprou outras propriedades, como no Pará, em Castelo de Sonho, cidade muito colonizada por gaúchos, onde cria gado bovino.


Sua família manteve a tradição gaúcha, mas não com muita assiduidade. Eles não pensam em voltar para o Sul.

 

O Sr. Ildo Romancini, criado na roça, morando com os pais, plantava trigo, cevada, milho e feijão. Eram 9 irmãos para dividir 40 hectares. Fez parte do primeiro acampamento do Movimento Sem-Terra do Brasil, em 1981, na Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta, onde viviam 650 famílias de desapropriados de Passo Fundo, Sarandí e Ronda Alta, e também os “afogados” da hidrelétrica de Passo Real.


O Major Curió montou barracas do exército na Encruzilhada e abriu o projeto em Lucas do Rio Verde.


Vieram em família entre 1981 e 82, juntamente com outras 21 famílias, assentadas em lotes de 200 hectares.


A viagem durou 2 dias e foi integralmente paga pelo INCRA. Inclusive seus pertences foram trazidos em caminhões, também pagos, que no entanto demoraram 6 dias para chegar.


Os assentamentos iniciaram-se em 1980, e os últimos parceleiros foram para Lucas do Rio Verde em 31 de maio de 1982. A maioria dos sem-terra da Encruzilhada Natalino ficou no Rio Grande do Sul, onde nasceu Nova Ronda Alta, que recebeu 34 famílias.


Das 213 famílias de sem-terra que foram, hoje só restam 12. Muitas voltaram pelo abandono: não houve assistência, conta Sr. Ildo. Seis de seus irmãos vieram; ele foi o primeiro, considerado louco.


O desenvolvimento de Lucas do Rio Verde se deu em grande parte por causa de onde estava instalado o 9º BEC, segundo diversos entrevistados.


O Banco do Brasil deu crédito para plantar arroz em 25 hectares, em 1982, mas aquela safra foi muito ruim e muitos não puderam pagar. Assim, o Banco abandonou os financiamentos. Hoje, o preço da saca de soja é em média US$ 9,00. O que em 1985 valia US$ 2000 em sacos de soja, hoje vale US$ 2.400.000.


O INCRA tinha um escritório em Lucas do Rio Verde. É voz corrente que o executor, o comandante Ferreira, mandou matar muitos caboclos posseiros. Uma parte dos terrenos, que estava em área do Estado, foi dada aos posseiros. Romancini afirma que não houve confronto com os índios.


Cada família recebia uma casa de 4 por 5 metros, no sítio. “Lote rural, ninguém ganhou.” Assistência para produção, não tinha. Não dava para trabalhar manualmente, só catar raíz. Catei raíz, fiz poço”, conta Romancini. No primeiro ano de assentamento, não se falava em soja. Colheram a primeira safra de soja da região em 1985.


O próprio Sr. Ildo comprou dois lotes dos parceleiros, porque estavam baratos, na época do arroz. Diz que havia gente que vendia lotes pelo preço da passagem de volta para o Rio Grande do Sul, e mais um pouco. Ele considera que a venda dos lotes deu mais estrutura. Que “se freia em torno de uma classe de pouco poder aquisitivo, freia o progresso.”


Vendia-se a terra à 2000 ou 3000 reais. Mas o próprio Romancini, nunca vendeu, sempre agregou propriedades.


A Cooperlucas, uma cooperativa, formada por um grupo de paulistas, loteou Itambiquara, região muito próxima à que viria a se chamar Lucas do Rio Verde, em 1982. Para este programa, vinham colonizadores com mais recursos. Os parceleiros recebiam 50 hectares de financiamento, enquanto os do INCRA recebiam 25 hectares. Mesmo assim, das 50 famílias que foram para lá, apenas 4 permaneceram. Em época de crise, no fim dos anos 80, muitos voltaram: a terra ficou 5 anos parada, observa Romancini.


Sr. Ildo conta que o INCRA, nos primeiros quatro meses, dava cesta básica, até o começo do financiamento. Participou por um ano e meio da estruturação do município. Segundo Romancini: “fez o trabalho dele”.


“No primeiro ano, não havia nada. Depois, o município de Diamantino fez escola. Telefone, só havia em Diamantino, e levava-se um dia apenas para voltar”, lembra Sr. Ildo.


A BR 163 foi asfaltada em 1985. Os buracos que se abriram pela carga pesada e excesso de chuvas eram chamados de “Cabeça do Figueiredo”.

 

Dna. Jessi e Sr. Bromildo Lawisch, de Santo Ângelo (RS), vieram pela primeira vez à Lucas do Rio Verde em junho de 1984. Tomaram conhecimento da cidade através do filho, que estudava agronomia e os convidou a conhecer o Centro-Oeste. Ele se mudaria de qualquer jeito, então os pais resolveram acompanhar.


Em 1984, compraram a terra e contrataram alguém para ficar o ano todo. Sr. Bromildo vinha apenas na época do plantio e da colheita. Quando o filho se formou, se mudaram definitivamente para Lucas em 1988. “Partimos da estaca zero”, diz Dna. Jessi; a mudança foi aos poucos, não trouxeram tudo. Também ficaram com muitas coisas dos parceleiros de quem compraram a terra, como móveis, animais e a casinha. Ampliaram a casa. Trouxeram maquinário. Conta que era muito sofrido porque não tinha nada.


Os Lawisch viram a cidade crescer do nada. Apenas havia a estrutura do INCRA: casas, posto de saúde, telefone –“só havia um, e tinha que se inscrever para falar; às vezes se inscrevia de manhã, e só era atendido à noite. Mas a estrutura do INCRA funcionava, era preciso, pois era a única estrutura que havia. Tinham que trazer alimento e pessoal de lá “porque o pessoal daqui não queria trabalhar”. Dna. Jessi considera o sulista muito distinto do nativo.


A cidade partiu de um assentamento feito pelo INCRA para parceleiros. Hoje, ainda há entre 9 e 11 famílias deste grupo. Eles não queriam ficar porque a cidade nem existia. Quem vendeu seus lotes, entrou na fila para receber outros lotes, e alguns foram para Terranova, conta Dna. Jessi. Todos os lotes tinham 200 hectares, e custavam 20.000 cruzeiros. Cada lote rural comprado dava direito a um lote urbano. Sua família comprou 6 lotes. Quando chegaram, exerceram a mesma atividade que no Sul, a agricultura de pequeno porte: plantavam trigo, soja, criavam gado leiteiro, e suínos, em duas propriedades de 113 e 61 hectares, das quais a maior ainda possuem. Tiveram que vender apenas algumas áreas para vir para o norte. No sul, sua situação econômica era regular; a lavoura era mecanizada. Vieram com o interesse de aumentar o patrimônio.


O acesso era muito difícil, conta: Apenas de Cuiabá até Lucas, eram dois dias de viagem, porque não tinha asfalto. Tinham que pernoitar em Nobres. No total, de Santo Angelo até Lucas, levavam  uma semana para chegar, em meados da década de 80.


Em Lucas, cultivaram soja e arroz, dos quais o último não plantam mais. O governo orientava a plantar arroz em seguida da derrubada do cerrado.


No primeiro ano, “quebraram” porque plantaram soja diretamente após a derrubada, e a colheita foi muito fraca. Tiveram que vender quase metade da propriedade para saldar dívidas e continuar plantando.


Introduziram, juntamente com o atual prefeito, a suinocultura e o gado leiteiro.


Atualmente, vivem na fazenda, cuja lavoura arrendaram, e que fica à 2,5 Km da cidade. Possuem um escritório da fazenda grande, que fica à 70 Km da cidade, onde plantam soja, milho e algodão.


Uma ex-aluna de Dna. Jessi (professora e diretora na rede pública), trabalhava no INCRA, e lhe contou que os parceleiros que haviam recebido terras, estavam vendendo-as, além de falar muito bem da cidade. Dna. Jessi afirma que a maioria dos que compraram parcelas em Lucas do Rio Verde era do Sul. As terras, no início, eram vendidas muitas vezes, em troca de um carro. Já quando Dna. Jessi chegou, diz que pagou caro, e parcelado.


Em 1979, os terrenos não estavam loteados ainda.


Segundo Dna. Jessi, o INCRA ajudava os parceleiros: dava financiamento, calcário, instalação sanitária (casinha) com poço, banheiro pré-moldado, posto de saúde, mercado da COBAL, e talvez até uma quantia em dinheiro, porque o objetivo do governo era povoar a região. Já para os que compraram dos parceleiros, o governo não deu ajuda.


Inicialmente, participaram do Centro de Tradição Gaúcha: foram até padrinhos da pista de dança. (quando a participação é frequente, e fazem-se doações, elegem-se os padrinhos das estruturas e das comemorações até com direito a inscrição do nome).


Não pensam em viver no Sul, mas ainda mantêm as propriedades, para passar férias.


Atualmente, em Lucas do Rio Verde, há dois projetos de habitação: da Caixa Econômica Federal e da Prefeitura, para o qual, alguns compradores pagam R$50,00. As casas são padronizadas, e os lotes têm espaço para expandir a casa. Casas de madeira são proibidas. A prefeitura sugere um kit casa, um molde padrão, construído pelos próprios moradores.


O PRODECER: Projeto de Desenvolvimento do Cerrado, é um projeto de loteamento em parceria com o Japão, que tem 49% das ações. O projeto existe desde 1984. O primeiro, foi instalado em Minas Gerais, o segundo no Mato Grosso, quando a região ainda era município de Diamantino. Muitos parceleiros que venderam suas terras indevidamente, entraram no programa do PRODECER II. Os lotes eram de 400 hectares, “tudo dado com muita estrutura”, afirma Ildo Romancini. Para os japoneses e produtores é interessante pois aqueles compram a soja diretamente do produtor, e estes não se preocupam com a logística.


Francisco Daghatti “entrou rezando baixinho no ônibus”, em 1981. Ele era um dos acampados da Encruzilhada Natalino, estava acampado em barraca de lona havia 3 anos. Depois de viajar uma semana no ônibus, foi deixado em um acampamento do Exército, à beira da Cuiabá-Santarém, onde havia recebido 250 hectares. A maioria dos colonos deixados ali, desistiram, ou morreram de malária. Ele permaneceu, e hoje é proprietário de 1000 hectares de terra. Trabalhou como peão nas fazendas. Também trabalhou no garimpo de Troca-Tiro, na divisa do Mato Grosso com o Pará. Juntou dinheiro e contratou peões para garimpar em seu lugar. Com o lucro do garimpo, modernizou sua propriedade agrícola.*


Dna. Neiva e Sr. Luis Carlos Tessele são de Santo Angelo (RS). Foram para Lucas em setembro de 1981, porque tinham pouca terra, e por curiosidade. A primeira leva dos parceleiros chegou no final de novembro, e a segunda em janeiro. Vieram 203 famílias. Conheceram Lucas do Rio Verde através de um tio que mora em Cuiabá há 30 anos. Quando foram visitá-lo, em 1978, foram apresentados à muita gente. Luis Carlos foi conhecer e gostou.


Os proprietários das terras de Lucas viviam em Cuiabá. A família comprou terras de um posseiro.


Em 19 de agosto de 1981, foi aprovado o projeto oficial do INCRA para o assentamento. “Montaram escritório, topografia, e três casas de madeira em três meses, antes que chegassem os parceleiros.”


A COBAL era, no início, um caminhão. Em 1982, foi construído um prédio para instalá-la.


Também foi construída uma vila de funcionários do INCRA, com 11 casas. Instalaram o correio e polícia militar.

Dna. Neiva começou a trabalhar no INCRA em 1982. O executor decidia quem seria contratado com base em escolaridade e um teste em Cuiabá. Seu trabalho era direto: inscrição, distribuição de vales, encaminhamento (para agrônomos, topógrafos, etc.); ela apresentava o mapa com os lotes, que cada um podia escolher. Uma parte deles, já era plantada com soja, por posseiros do Paraná, e a família Dall’Alba.


Plantava-se primeiro arroz, após a limpeza do terreno, e depois soja, tudo com maquinário, por causa do tamanho da terra. Foram introduzidas as culturas do Rio Grande do Sul.


O INCRA fornecia eternit, madeira, prego, enxada, foice, semente de hortaliça, adubo, que muitos parceleiros vendiam. Limpava 25 hectares de cada lote (200 hectares). O INCRA  também dava uma quantia em dinheiro para se manterem. Dna. Neiva não sabe se os parceleiros ressarciram o INCRA, mas sabe que em 1983, já começaram a vender as parcelas, para voltar para o Rio Grande do Sul, porque tinham que pagar para obter o título de posse, que posteriormente seria a escritura. Muitos venderam mesmo sem ter o título, afirma Dna. Neiva, o que trouxe muitos desentendimentos. Havia muitos posseiros antes dos parceleiros, mas que praticamente não se encontravam por causa das longas distâncias entre os terrenos. Mas encontravam-se toda semana em festas. Houve muito conflito na distribuição das chácaras da Cidade Nova, porque os posseiros diziam-se donos dos terrenos, e o INCRA tinha que assentar os parceleiros.


Os lotes eram divididos em setores, e o são até hoje. “O INCRA trazia o pessoal de cada lote...matavam-se entre si, tomavam pinga (...) trocavam em bares o açúcar e o café que o INCRA deixava comprar com o dinheiro que dava.” Duas famílias, uma de Cuiabá e outra do Espírito Santo, queriam a mesma terra. Os Tessele conheceram seus pistoleiros.


Dizem que o INCRA respeitava os posseiros e que dava uma porcentagem de terra a mais para quem desmatasse. Os terrenos dos fundos invadiam uma reserva ambiental; realmente os gaúchos não respeitavam a delimitação da reserva. Mesmo que o SNI (Serviço Nacional de Informação) viesse vistoriar.


Era estabelecido um prazo de três meses para começarem a construír, e o mínimo de área construída deveria ser de 48 m².


“Quando o INCRA entrou, veio escola, veio tudo”, diz Dna. Neiva. Cada setor tinha sua escola seu posto de saúde, médico. “Foi tudo muito bem estruturado”. Serviços médicos e educacionais eram por conta da União. No entanto não havia banco, apenas em Sorriso, o Banco Nacional. Operava-se com luz de vela. Os partos eram feitos numa casinha, onde só podia-se internar uma pessoa. Todos estes serviços ficaram ativos até 1989, à partir de quando ficaram parados por dois anos, inclusive o escritório. Todo o material tombado foi recolhido


A maioria dos funcionários do INCRA daquela época, hoje vive em Cuiabá. Quando o projeto acabou em Lucas, os funcionários foram mandados para outros municípios. Dna. Neiva não dependia deste emprego porque tinham uma lavoura. Ela pediu dois anos de afastamento, e conseguiu. O governo Collor deixou 22 funcionários do INCRA de Lucas do Rio Verde em regime de “disponibilidade”, ou seja, ociosos. Ela então pediu o cargo de volta depois, pois não queria mudar-se para Diamantino.


Hoje, os Tessele não querem voltar de maneira nenhuma para o Rio Grande do Sul. Não se arrependem do sofrimento. Dizem: “hoje, lá uma pessoa da nossa idade tem no máximo uma bicicleta”. E conta que moraram por três meses em um barracão de lona. Lavava roupa no Rio Verde. Depois compraram um motorzinho que gerava luz. Iam muito mais para Cuiabá para comprar mantimentos do que atualmente. Durante a mudança, também compraram muito na capital. Dna. Neiva considera que a mudança foi tranquila, porque tinham muita esperança no novo lugar. Antes do INCRA chegar, tinham que ficar na beira da estrada para parar os caminhões que levavam alimento e outros artigos para Sinop. Os caminhoneiros já sabiam que os moradores faziam sinal na estrada para comprar.


Havia carne uma vez por semana. Os parceleiros caçavam muito.


Os mato-grossenses tratavam os gaúchos muito bem. A tradição gaúcha foi mantida, na opinião de Dna. Neiva, orgulhosa de sua filha, nascida em Lucas, que foi “prenda nacional” (há um concurso em diversas instâncias, para eleger a menina que mais participa e mais sabe da tradição gaúcha, no Brasil inteiro.)


Sr. Werner Kothrade é de Santa Catarina, de Caçador. Foi para o Mato Grosso à passeio em 1975, porque seus tios viviam em Sinop desde 1972. Seu pai tinha uma terra, onde hoje localiza-se Sorriso; seu tio foi ajudar a abrir o terreno. Esta era uma das únicas propriedades com documento legal, conta Sr. Werner. Em 1977, seu tio convidou-o a plantar na terra dele em Sorriso. Assim, em 1978, Kothrade comprou uma terra em Sorriso, também, do outro lado do Rio Verde, em sociedade com o irmão, que foi abrir a mata.


Em 1982, Sr. Werner foi com a família à Sorriso. No final de 1983, mudaram-se para a fazenda. Em 1984, foram para Lucas do Rio Verde, porque a estrada não era asfaltada, e a propriedade ficava à 96 Km de Sorriso. Lucas tinha apenas dois mercados, e mais ou menos 20 casas, conta.


Sr. Werner foi ao INCRA e pediu um lote para construír casa. Ele queria perto da igreja, e queria dois lotes, porque iria construir uma casa grande. Diz: “Eles eram muito estúpidos”: falavam: “se quiser, é lá”, no meio do mato”. Então Sr. Werner aceitou. Era para ser comércio. Ele considera um erro do governo, dar terras mas não dar assistência. “Era só um campo aberto e tínhamos que corrigir a terra, mas não tínhamos dinheiro. Não davam escritura, e sem ela, o banco não financia”. Além disso, Sr. Werner conta que há pessoas que ganharam 5 lotes mas ainda continuam acampadas.


Kothrade acompanhou e ajudou no desenvolvimento da cidade.


Sr. Werner foi ao Mato Grosso, por receio de ser expulso do Paraguai, para onde se mudaria sob influência de um amigo que incentivou muito; e realmente a expulsão aconteceu, com os “brasiguaios”.


A propaganda feita pelos militares era intensa, conta, para não perderem a fronteira para os Estados Unidos; era “integrar para não entregar”.


Sua família era de agricultores. Sr. Werner plantava desde criança. A terra era plana, mas pequena. Eram 260 hectares, a serem divididos por três irmãos. Vieram por causa da terra plana, e porque não conseguiam vender a terra em Santa Catarina, pois de um lado era uma terra herdada, que não seria vendida, do outro, uma empresa inglesa.Em Santa Catarina, plantavam cevada para vender à cervejaria Antarctica, trigo, milho, soja e feijão. No Mato Grosso, plantaram arroz. Kothrade queixa-se que não havia variedades de soja naquela região, que não crescia mais que 10 centímetros. Possuíam maquinário que já haviam trazido do Sul.


A viagem durava 4 dias durante a seca. Durante a época de chuva, era imprevisível o tempo.


A vida era muito difícil: não havia energia. Tinham que usar um motor. A água era de poço, e qualquer movimento brusco sujava o balde. Tinham que lavar roupa no rio, onde as crianças tomavam banho.


Não havia incentivo, mas havia financiamento. Sr. Werner comprou uma posse. O INCRA obrigava a derrubar 80% da terra, caso contrário, não recebia-se a escritura. Não havia política de preservação. Na época em que Sr. Werner comprou a terra, poucos parceleiros saíram; antes eles voltavam muito para o Rio Grande do Sul, em troca da passagem de ônibus. Outros foram para Terranova, ou para trabalhar com garimpo.


Kothrade conta que não houve conflito com os locais. Os posseiros eram bem de vida, pois podiam vender as posses para os gaúchos, comenta.


Sr. Werner comprou uma terra em parceria com o irmão, de 3000 hectares. Pagaram o equivalente a uma garrafa de cerveja por hectare. Um conhecido seu, Matsubara, pagou uma carteira de cigarro por hectare.

Entre 1985 e 86, Sr. Werner participou das atividades da igreja católica. Foi presidente, e construiu um salão paroquial muito grande, conta.


Lucas do Rio Verde fica à 240 Km de Diamantino, município antigo, que não ajudou a desmembrar, porque não interessava. Em 1989, 5 municípios foram emancipados; ele foi convidado para ser prefeito, mas não queria, porque não entendia de política. Aceitou, para apaziguar os desentendimentos que estavam ocorrendo entre amigos por causa da política. Foi avalista de muitas propriedades, pela confiança.


Construiu 18 escolas no interior: havia mais comunidades no interior do que atualmente, quando muitas se desmancharam nos municípios.


Fizeram a primeira exposição de produtos agropecuários sob um barraco de lona.


Entre 1991 e 1992, a situação econômica melhorou, e puderam asfaltar e sanear, depois de haverem passado por todos os planos inflacionários com muita dificuldade. Seu mandato durou de 1989 a 1992. Durante este período, o estado passou por 5 governadores.


Houve grandes crises na lavoura nesta época, tiveram que fazer muitos testes com adubo por conta própria. Tudo era muito longe para a pesquisa, conta Sr. Werner, os próprios plantadores criavam tecnologia. Se na época, colhiam-se 22 sacas por hectare, hoje, são 60 sacas. Na época da colheita, o padre rezava a missa mais cedo e mais rápido.


O banco mais próximo ficava em Rosário d’Oeste, comarca de Sorriso, à 260 Km de Lucas do Rio Verde. No caminho de Lucas para Diamantino, tinham que parar no Posto Gil, único estabelecimento por muitos anos, e referência local, e pegar um ônibus para Cuiabá. Muitas vezes os passageiros tinham que empurrar o ônibus.

Sr. Werner acha que a tradição gaúcha é mais forte no norte do que no próprio Rio Grande.


O Sr. Klaus Huber é presidente do Instituto Padre João Peter, fundado em maio de 1988, que dá apoio ao desenvolvimento da região. Suíço de origem, e paulista por adoção, era diretor da escola da Holambra em Paranapanema: implantou o Ensino Médio propedeutico e o curso de Economia Doméstica, com uma proposta similar a que se seguiu no Mato Grosso, para desenvolvimento da região. Mais tarde, querendo mudar de área, formou um grupo cooperativo, junto com sua família para trabalhar com agropecuária. Cada família, individualmente não tinha condição de comprar terras. O grupo, então, se juntou com uma série de trabalhadores rurais e proprietários que venderam suas propriedades para sanar dívidas. Formaram a Cooperlucas, para começarem as atividades em Lucas do Rio Verde. Seu irmão foi o primeiro presidente da cooperativa, que assumiu muitas atividades sociais da cidade.


Sr. Klaus chegou em maio de 1982, após ter recebido um lote, como os outros; seus irmãos administraram, e posteriormente, ele arrendou, pois não sabia lidar com agricultura. Ele fundou, com a esposa, todas as escolas do município, e fez acompanhamento pedagógico. Sr. Klaus alivia-se disto, por não ter “caído na tentação de desmatar”, e do fato de sua terra ser uma das poucas reservas que restam. Conta que quando chegaram, não havia mais índios, porque foram expulsos muito antes por mineradores e posseiros. A reserva do Xingú fica à aproximadamente 200 Km de Lucas do Rio Verde.


O Governo Federal teria desapropriado pretensos proprietários anteriores aos assentamentos, mas não há comprovação.


Dois de seus irmãos eram agricultores, e conseguiram empréstimos e vendas vinculados ao dólar. Os implementos e máquinas não eram vinculados.


A idealização do projeto do grupo dos “Interessados”, como se auto-denominam os fundadores da Cooperlucas, é anterior ao projeto do INCRA, diz Sr. Klaus. Este grupo de 200 pessoas, pagava uma mensalidade para que a diretoria procurasse locais para assentar o grupo. Foram para todas as regiões, e Lucas do Rio Verde era onde havia menos problemas com grileiros. Ao final, dos 200 “Interessados”, apenas 60 foram assentados; 40 em um primeiro momento, e 20 em segundo.


O governo dava autorização apalavrada, mas não havia documento escrito. O processo durou 3 anos. Os cooperados pediam ao INCRA que impedisse a chegada de grileiros: o órgão não tinha funcionários suficientes, mas contratou.


A vantagem, realmente foi o afastamento de intrusos, mas por outro lado, o governo percebeu que aquela área estava protegida, e garantida para projetos públicos, assentando os sem-terra da Encruzilhada Natalino em primeiro plano, e os cooperados em segundo, argumenta Huber. Os parceleiros vieram dois meses antes, e no local havia 15 famílias de posseiros anteriormente à chegada dos novos grupos.


O PRODECER II foi solicitado pela Cooperlucas, que foi escolhida para ser beneficiada pelo acordo nipo-brasileiro. O contato se deu através de um vizinho de Sr. Klaus, Matsubara, co-fundador do Instituto Padre João Peter, hoje, e que foi à falência, por fazer testes técnicos mal-remunerados, para o poder público. Atualmente Matsubara vive em Sinop.


O PRODECER II pesquisou a cooperativa antes dos associados saberem deste projeto. À partir daí, a Cooperlucas cresceu muito. Um dos motivos do desmanche da cooperativa foram novas diretorias que entraram durante a associação com o PRODECER II: pessoas gananciosas, que achavam a administração muito lenta. Os novos diretores tinham mais dinheiro, e vinham de regiões diversificadas, com formações melhores. Entravam na cooperativa, na verdade para aumentar a produção. Logo o idealismo do grupo original se dissolveu, despontou uma corrupção muito sutil, sobre a qual correm processos até hoje: foi colocada na cabeça da chapa, alguém que todos confiavam, de família de posseiros; o vice, não era de nenhum dos grupos associados, não o conheciam bem. Sr. Klaus achava que o presidente não aguentaria, e realmente aconteceu. O vice-presidente, que havia tido conflitos com a cooperativa ainda no Sul, assumiu, e formou uma bolha de poder, que custou a ser percebida, ao avaliar o potencial da Cooperlucas. O novo presidente aproveitou para se desenvolver pessoalmente. Deu terras em troca da construção de grandes obras, sem que os cooperados assinassem. O Banco do Brasil foi responsável, porque não controlou estas movimentações, e também está sendo processado, aponta Sr. Klaus. Além disso, o novo presidente, que Huber não nomeia, por já haver recebido ameaças de morte, comprou uma parte de uma usina de mandioca em Sinop, enquanto os outros cooperados estavam endividados.


À respeito das ameaças, “a Polícia Federal veio três vezes desarmar quem achava que devia.” Comenta Sr. Klaus, que era visto como um empecilho para o assentamento dos chegantes da Encruzilhada, ao querer mostrar a quem recebeu terras e não era agricultor, que o Banco do Brasil lhes tiraria o direito.


Para os sem-terra, a Cooperalucas dava apoio técnico. O 9º BEC cedeu barracas, enquanto aguardavam o processo sempre à beira da rodovia, durante 3 ou 4 semanas.


Nos primeiros meses, o bairro de Itambiquara, nome que os índios davam ao Rio Verde, que fica à 35 Km do centro do município, tinha mais estrutura que Lucas. 


Dos antigos posseiros, alguns se filiaram à cooperativa, que teve que se abrir para todos, e teve sua sede deslocada posteriormente para a beira da rodovia BR 163 para facilitar o acesso, diz o Sr. Antonio Carlos, mineiro, atual presidente da cooperativa, fundada em 22 de dezembro de 1982.


O presidente da cooperativa acredita que alguns parceleiros associaram-se à Cooperlucas para buscar poder de barganha e parceria de planta (para construir).


Com o PRODECER II, em 1986, vieram 39 pessoas, algumas da região, entre mineiros, catarinenses, gaúchos e sul-mato-grossenses, para produzir nos lotes de 400 hectares. Iniciaram logo a plantar em 200 hectares, ou seja, fizeram abertura de área de 50% durante a safra de 1986/87. A cooperativa adquiriu os lotes e repassou para esses colonos. No primeiro ano, plantaram arroz; a cultura principal era a soja, mas o arroz crescia muito rapidamente após a derrubada da mata, o que não ocorria com a soja. Também reservavam 20% do espaço para cultura perene (seringueiras). O financiamento era direcionado à soja. Nas áreas de pastagem, já se poderia plantá-la, mesmo com a necessidade de se trabalhar mais o solo.


O Sr. Antonio Carlos conta que o PRODECER II foi para Lucas do Rio Verde graças a Anton Huber, irmão do Sr. Klaus, caso contrário seria em Mutum, e a Cooperlucas faria parte da Coopervale. O Japão mandou incentivo para construírem barracão e armazém. Diz que lutaram muito para existir como cooperativa. O PRODECER, no Mato Grosso, nasceu como loteamento da Cooperlucas, financiado pelo Banco do Estado do Mato Grosso. As funções principais da Cooperlucas, conta o presidente, eram fornecer insumos e padronizar para venda, além de auxiliar na comercialização. Não era uma colonizadora; deu suporte à reforma agrária.

Em 1994, a cooperativa teve problemas financeiros e ainda está se recuperando: não há mais capital para fornecer insumos.


O Sr. Luiz Carlos Nava é gaúcho de Espumoso, no planalto médio. Foi diretamente para Lucas do Rio Verde em 1984. Tinha uma franquia de um escritório de planejamento agrícola com sede em Passo Fundo. Seu pai tinha uma pequena lavoura arrendada para os cunhados. De 42 hectares, plantavam-se 35 ou 36. Um colega trabalhava para um grupo familiar de curtume, chamado Basso, de Santo Ângelo, que era associado ao estaleiro Verolme, do Rio de Janeiro. O grupo passou a ver no centro-oeste uma boa oportunidade de produção. Abriu uma sede em Ponta-Porã, entre 1977 e 78. Um colega de Nava que trabalhava nesta empresa, foi transferido para este município, e no ano seguinte, trabalhou em Rondonópolis. A Basso abriu uma divisão em Lucas do Rio Verde, e precisava de um engenheiro agrônomo. Nava foi contratado, e foi viver diretamente na fazenda, onde achava mais confortável que no centro. Conta que aproximadamente 150 pessoas moravam na fazenda. Lá havia, por exemplo, energia para a oficina mecânica, e água de poço, conta Lira, o que era inexistente na cidade. Um caminhão ia para Cuiabá toda semana, e podia trazer o que os empregados, que tinham uma conta aberta, pedissem.


A fazenda plantava soja e arroz e criava gado. Quando chegaram, diz Nava, só havia pecuária. Eram 28.980 hectares no município próximo de Tapurá.


Em 1987, o grupo se dissolveu, e Nava foi para Cuiabá, assumir a função do amigo, de gerente de produção, onde ficou até 1992, quando voltou para morar na cidade, devido à crise do governo Collor, para administrar mais de perto a produção. Neste momento, conta Nava, já havia energia na cidade.


De 1992 em diante, deu suporte gerencial a uma fazenda vizinha. Começou uma lavoura pequena, próxima da cidade, junto com o vizinho, com incentivo da Cooperlucas do BNDES e do Banco do Brasil.


Em 1995, abriu uma loja de insumos agrícolas, a Plantar.


A principal atividade da cidade é realmente a agricultura, diz Nava. “Não há indústria, apenas soja e milho.” Apenas beneficia-se o algodão. Tece-se muito na Bahia e em Santa Catarina.


Nava diz que não participa muito do Movimento Tradicionalista Gaúcho, mas diz que ficou mais participativo quando mudou para o Centro-Oeste.


O Sr. Egídio Raul Vuaden é o atual presidente da Expolucas, feira de exposições agropecuária. Foi de Sobradinho (RS) para Lucas do Rio Verde, em junho de 1986. Tinha um minifúndio e plantava fumo no sul. Conta que tinha uma condição de trabalho muito sofrida, pois a terra tinha 15 hectares. Após ter concluído a faculdade de agronomia, com uma poupança e a venda do imóvel, pagaram, com o pai e a mãe, 20% de entrada no PRODECER II em Piúva. Com eles foram outros 38 produtores selecionados do Brasil todo, com cadastro na Campo, a empresa colonizadora, que existe até hoje. O critério de seleção era a tradição em produção agrícola, ser arrendatário ou ter uma pequena posse de terra, sem condição de ampliar na origem.


Compraram 409 hectares aqui. Moravam na propriedade, em um galpão que construíram que servia de garagem para máquinas: não havia serviço de saúde, água, nem energia e a estrada era ruim, não havia serviço público; para fazer chamadas telefônicas, tinham que esperar em fila por 24 horas; só havia bancos em Diamantino, que fica à 200 Km de Lucas, conta Sr. Egídio. O “Linhão”, fornecimento de energia, de Furnas, só existe há 6 anos.


Plantaram arroz e soja, pagando financiamento que incluía: a terra, a escritura pública; os 20% de entrada do financiamento que cobriam a casa, o barracão, a correção do solo, maquinário, abertura de área, juro normal de crédito rural.


Os Vuaden faliram duas vezes, em 1989, e de 1994 para 95, por causa dos planos econômicos: mesmo que tivessem capital, não havia máquinas à venda. Ficaram inadimplentes, porque não foram enquadrados no plano de securização de crédito rural. Apenas em 2001 conseguiram repactuar a dívida que terminarão de pagar em 2019.


Pensaram em voltar, mas não tinham para quem vender a terra.


Sr. Egídio é presidente do PPS- Partido Popular Socialista, o partido do atual prefeito. Atualmente, produz soja, milho, arroz, algodão e suínos, em 1400 hectares de área própria.


Airton Callai é de Giruá (RS). Lá, trabalhava com faturamanto de uma cerealista que atendia toda a região do Alto Uruguai. Vivia na cidade, e toda a sua família também trabalhava no terceiro setor. Morava na cidade. Callai chegou em Lucas do Rio Verde em 1986. Antes, um irmão seu havia ido em busca de oportunidades, porque não tinham posses, e voltou desiludido. Callai tinha apenas 15 anos, ficou 4 anos, não se adaptou e voltou, para servir na aeronáutica. João Callai, outro irmão, que vivia no Mato Grosso desde 1982 foi quem o incentivou a vir de volta, em 1990.


Airton Callai foi contratado para fazer assistência técnica para a Cooperlucas, e recebeu uma proposta de emprego. Ficou amigo dos presidentes.


Em 21 de agosto de 1991, mudou-se para Lucas definitivamente. A caixa da televisão era a mesa, o colchão ficava no chão. A mudança durou 4 dias.


Depois de um ano, os pais de Tânia, sua esposa, mudaram-se também para Lucas.


Passou à gerência de CPD e Tania trabalhava no faturamento, ambos na Cooperlucas.


Sua família não pretende voltar para o Sul, pois considera o Mato Grosso uma terra de oportunidades, que ele soube aproveitar, mesmo o país tendo passado por grandes crises, justamente naquele momento. Exemplifica: “a Cooperlucas, que era a terceira cooperativa em faturamento no Brasil, em 1995 quebrou.” Neste momento, Callai saiu da cooperativa e montou um negócio próprio de informática.


Em 1997, tornou-se patrão do CTG: Centro de Tradição Gaúcha de Lucas, renovou, e um ano depois foi escolhido como presidente do MTG do Estado. Ficou por dois anos, período em que fez um levantamento de onde estavam os gaúchos do Estado. Havia 43 CTG’s, em quase 30% das cidades do Mato Grosso, que têm identificação forte com o tradicionalismo gaúcho;  assim pesquisou Callai. As regiões do estado, de acordo com o critério dos grupos tradicionalistas, foram divididas pelo presidente anterior. Callai fez um cadastro dos gaúchos para manter contato, e assim conseguiram organizar encontros regionais maiores através dos contatos. Fizeram regulamentos. Callai foi eleito por dois anos consecutivos, faz parte da confederação dos CTG’s como um todo. Organiza rodeios com 400 pessoas.


É interessante notar que Callai não participava do CTG no Sul. Conta que ia, mas não se sentia à vontade para competir nas provas; porque na sua família não havia estímulo. Diz que o envolvimento só começou no norte, por identificação com os sulistas. Este relato, assim como muitos outros, nos mostram que o MTG: Movimento Tradicionalista Gaúcho, foi a forma que os migrantes encontraram de se relacionar, de se encontrar, e de ter lazer.


O Sr. Jaime Ferrari, dono de um hotel de mesmo nome que comprou em 2001, chegou muito recentemente, em 19 de agosto 1999, o que é interessante para estabelecerem-se parâmetros comparativos das experiências dos gaúchos que chegaram na Amazônia Legal  em diversas épocas.


Em Getúlio Vargas
, região norte do Alto Uruguai, era agricultor (tinha um lote de 80 hectares) e comerciante: era proprietário de um posto de gasolina e um mercado geral. Foi para o Mato Grosso, sem precisar vender nada, porque queria achar mais espaço, tentar melhorar de vida. Foi “tocar” um posto de gasolina, mas “não deu certo”, conta Ferrari. Um amigo também era dono de um posto de gasolina em Sorriso, o qual administraram por aproximadamente 3 anos.


Sr. Ferrari conta que só não veio antes porque a mãe não podia ficar sozinha, já que o pai morrera quando ele era uma criança. A mãe ainda vive no Sul. Seus filhos estão na faculdade, também em Lucas do Rio Verde. Um deles já está no Pará, e tem uma propriedade de terra. Ele vendeu uma terra no Sul e depois de dois anos comprou uma terra no Mato Grosso, de 600 hectares, que está sendo preparada para a pecuária. A propriedade no Pará, em Guarantã, é de 1000 hectares. Sr. Ferrari conta que muitos gaúchos “se deram bem lá”, sendo que há quem seja proprietário de 9000 hectares.

 

A COTRIJUÍ, Cooperativa Tritícola Serrana, de Ijuí (RS), foi fundada em julho de 1957, por plantadores de trigo.

 Walmir Beck da Rosa, é relações públicas da Cooperativa, e conta sobre a  sua atuação  no estado, e no norte:


Em novembro de 1973, sua área de atuação já abrangia 16 municípios, 8443 Km², e uma população de 292.022 habitantes. Havia 8.112 associados.


A cooperativa construiu um Terminal Marítimo Graneleiro, na quarta seção da Barra (RS), (era maior terminal graneleiro da América Latina), considerado a solução para o problema de escoamento de safras. Já naquele ano, havia obrigatoriedade de plantio de 3 a 3,5% de milho na lavoura de soja pelo Banco do Brasil, para tentar conter o avanço desenfreado da monocultura da soja. A COTRIJUÍ defendia a necessidade do corporativismo para que a produção familiar pudesse sobreviver às novas formas de capitalismo, em um momento em que o governo cada vez mais, deixava de participar das cooperativas tritícolas após a crise do preço deste comóditi.[57]


O projeto de colonização da COTRIJUÍ visou a ocupação de 400 mil hectares de terras às margens do rio Irirí, em Altamira, no Pará. A idéia era transferir famílias - jovens de preferência - que não tinham perspectivas de produzir no Sul, por falta de área. Antes mesmo de receber a aprovação do INCRA e Ministérios competentes, houve denúncias da presença de índios nas glebas. Isto levou a COTRIJUÍ a mudar o foco e, em parte, muitos se transferiram para o Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, por iniciativa própria. Com essa leva de gaúchos para a região, a COTRIJUI e a COTRISA (cooperativa com sede em Santo Ângelo) se estabeleceram no Mato Grosso do Sul. No caso da COTRIJUÍ, houve a incorporação de duas cooperativas, em Maracajú e Dourados. O crescimento horizontal foi rápido, e a ação se estendeu em toda a parte sul do estado, com 16 unidades de recebimento. Essa ação durou de 1977 a 1989, quando se deu o chamado desmembramento. As Unidades da COTRIJUÍ- MS passaram a constituir uma nova cooperativa. Isso, no entanto não interrompeu a migração de famílias, atraídas pelo custo da terra e a boa adaptação de culturas tradicionais do Rio Grande, como trigo, soja e mesmo arroz.


Hoje, aos 46 anos, conta com mais de 13 mil cooperados, em sua maioria mini e pequenos produtores, atua nas regiões noroeste, fronteira oeste e Campanha. A Cooperativa tem capacidade de armazenagem de 700 mil toneladas. Recebe toda a produção agrícola dos cooperados, com destaque para soja, milho, trigo, arroz, aveia; na pecuária, granjas próprias distribuem leitões para associados que os terminam e entregam no frigorífico da cooperativa. A COTRIJUÍ fomenta a pecuária leiteira, recebendo 65 milhões de litros de leite/ano, que são repassados para a indústria.

 

Outros projetos particulares que não se deve deixar de mencionar são:

Água Boa e Nova Xavantina, colonizadas pela CONAGRO, em meados da década de 1970,  em reserva indígena Xavante, os quais foram deslocados para Areões.

Vila Rica, no Vale do Araguaia, no nordeste do Mato Grosso.

Nova Mutum, pela Mutum agropecuária S.A., nos municípios de Diamantino e Nobres, também ao longo da Rodovia Cuiabá-Santarém. Segundo Carlos Wagner, o INCRA registrou 283 projetos de colonização nas últimas duas décadas, no norte do país, dos quais 60% têm presença de gaúchos. Além disso, ainda hoje, transitam  semanalmente cerca de 5000 pessoas em 17 companhias de ônibus entre o Rio Grande do Sul e as colônias.[58]
 

Fotos da autora

A cultura gaúcha, foi mantida pela coesão do grupo que vivia em espaços muito próximos, pela arquitetura das casas em estilo europeu, muitas vezes de madeira e com varanda, pela alimentação (o churrasco) e a bebida (o mate), pela mídia, e pelos Centros de Tradição Gaúcha, espaços de convivência onde se praticam: dança, bocha e laço à cavalo . Pode-se dizer que a tradição, nas cidades visitadas, foi tão fortemente mantida, por alguns gaúchos, que os elementos dessa cultura são mais presentes em suas vidas no norte, que no próprio Rio Grande do Sul, porque com a ausência do lugar de origem, cria-se a necessidade de manter um elo identitário. 


Fotos da autora
 

Fotos da autora

 

5.3. Colonização Independente

 

Primavera do Leste, à 230 km de Cuiabá, é um município habitado predominantemente por gaúchos, que migraram por iniciativa própria: não eram nem assentados pelo INCRA, nem associados à uma cooperativa. Este é o caso de uma corrente de comunicação em que um gaúcho convenceu o outro a vir, dando origem a um município com alta produtividade agrícola, como veremos à seguir. Primavera do Leste estava fora do Plano de Integração Nacional, mas seus produtores receberam incentivos fiscais do Banco do Brasil na década de 1970, porque havia projetos ligados ao Governo Militar para o desenvolvimento do Cerrado. 

A região era colônia de Poxoréu, um município que fora muito rico até a década de 1980, pela exploração de diamantes. O Rio das Mortes era passagem obrigatória para Minas dos Martírios, à margem do Rio Araguaia, para onde foram várias bandeiras em busca de ouro no século XVIII. Desde esta época, a região já era bem conhecida, e aberta por alguns caminhos.

“A cidade nasceu do entroncamento da rodovia federal BR 070 e a estadual MT130”[59], que eram picadas intransitáveis, lamacentas. A rodovia BR 070, liga Cuiabá à Rondônia, Acre e Amazonas. A MT 130 liga o centro ao sul do estado. O entroncamento cresceu com o posto Barril, de Darnes Cerutti que também foi o primeiro prefeito quando da emancipação da cidade, e Divino Castelli; ambos são gaúchos, proprietários de diversos empreendimentos até hoje, que vieram do sucesso da distribuição de combustível, inclusive nas fazendas.





Cerutti veio com apoio do governo para aproveitamento do cerrado, e com financiamento do Banco do Brasil, que contava com um estudo de japoneses, que concluía que o Centro-Oeste seria o “celeiro do mundo”. Os juros do Pró-Terra eram de 7% ao ano, e a carência era de 2 a 3 anos. Na opinião de Cerutti, isto incentivou muito, os gaúchos a migrarem. A SUDAM não tinha projeto para Primavera do Leste, até porque, estava fora da demarcação da Amazônia Legal. O Pró-Terra ajudou muito na década de 70, “deu pra desbravar bastante”, diz Cerutti, que vê muita diferença no desenvolvimento de produtores que vieram com auxílio do programa, e os que vieram independentes na década de 80, com bastante dificuldade. Em Primavera, não deixaram de encontrar os mato-grossesenses bastante desmotivados com a inviabilidade de produção no cerrado. Realmente, diz Sr. Darnes, lutaram muito para conseguir plantar, gaúchos, catarinenses, paranaenses, e baianos que inicialmente estavam atrás do garimpo. Foi muito difícil conseguirem financiamento, pois nem membros do governo, inclusive do Banco do Brasil, acreditavam na viabilidade de plantio no cerrado.


O Prodecer, Banco Nacional de Crédito Cooperativo, incentivava um programa de desenvolvimento do Cerrado na década de 80. Também, através do Polonoroeste, o governo federal pretendia concentrar pessoas ao longo das BR’s.


Os colonos eram gaúchos (50% da população em 1994), catarinenses, paranaenses, goianos e paulistas, na maioria, filhos de imigrantes, e os catarinenses, filhos de gaúchos, chamados de “gaúchos-cansados”. Os mato-grossenses, até meados da década de 80, tinham o garimpo como principal atividade; com a escassez dos diamantes, foram trabalhar como braçais na lavoura e construção civil, aqueles que um dia haviam possuído muito dinheiro.


Começaram plantando arroz em 1973. Fiorindo Gasparotto, catarinense, já o plantava um ano antes. O grupo de Cerutti veio de Frederico Westphalen; segundo ele, “um puxou o outro”. Não eram uma cooperativa: cada família veio independente. Também vinham muitos gaúchos de Cruz Alta e paranaenses, que chegam até hoje. Os proprietários trouxeram parentes para trabalhar nas lavouras, pois achavam o ritmo dos mato-grossenses muito lento.


Sr. Cerutti diz que os primeiros migrantes foram muito bem recebidos em Poxoréu, que era a 5ª região eleitoral do estado, o que significa que é um município bastante antigo. A sua população não se sentiu ameaçada pelos chegantes. Ao contrário, perceberam que os sulistas vinham para investir. Cerutti não concorda que os que vieram do sul não tinham estrutura. Diz que alguns arriscavam, e a maioria destes foi embora, porque não veio para “encarar o Mato Grosso de fato”; mas a maioria já tinha fazendas grandes no Sul. Os que não foram bem sucedidos foram para o Piauí e Tocantins. Cerutti encontrou gaúchos em todas as regiões do Amazonas, Pará e Rondônia. Diz que quem tem uma vida bem estabelecida no norte, não tem planos de voltar. No início, no período das festas, debandavam para o Sul. Atualmente, os parentes que ainda vivem no Sul vêm passar as festas no norte, pois a maior parte da família já se mudou para lá.


Cerutti também afirma que a maioria dos migrantes não mexia com agricultura no sul (o que é contestado pelos outros entrevistados), o que significa que a saída do sul não trouxe danos para a economia sulista. Segundo ele, a principal causa da migração, era o tamanho das famílias, que se dividiam.


Por medo, que seus familiares incutiam, Sr. Darnes conta que na primeira vez que foi ao norte, levou carabina, dois estepes, um galão de gasolina; mas a região revelou-se lhe uma maravilha: diz que nunca passou por aperto.


Quando chegou, Cerutti comprou uma fazenda de 2000 hectares na divisa de Primavera com Paranatinga. Em 1973, ocorreu uma enchente muito grande, e não se podia passar pelo Rio das Mortes. Então, Sr. Darnes mandou trazer muitas coisas para começar a construir uma sede. Fez um reconhecimento de dez dias, e gostou particularmente do lugar onde hoje vive, município de Primavera do Leste, e resolveu investir. Abandonou a fazenda. Encontrou parte dos proprietários desta região em Poxoréu; o outro, Abino Pandolfo, era do Sul; havia comprado a terra na planta, sem nunca a ter conhecido. Esta prática era corriqueira: o próprio governo federal vendia à partir de imagens aéreas. Sr. Darnes encontrou amigos de Frederico Westphalen em Cuiabá, e sugeriu que fossem conhecer aquele local, então chamado de “Esquina Boa Vista das Placas”. Estes amigos também gostaram e compraram terras. Um dos compradores era Antonio Russi, então deputado estadual do Paraná.


As primeiras casas eram de pau-a-pique, adobe e madeira. O primeiro loteamento: Cidade Primavera, foi feito por Edgar Cosentino, paulista de Piracicaba. Os sulistas cobravam as mesmas benfeitorias que tinham em suas terras natais, e ajudavam a construir, por esse motivo, os padrões das habitações ficaram muito próximos do sul: no início, casas de madeira, sempre com varanda para a hora do chimarrão.


Sr. Cerutti foi o primeiro prefeito do município de Primavera do Leste. No sul nunca havia exercido cargo político, só havia ajudado um candidato: tinha uma empresa grande de cargas, com filial em São Paulo. Ele lembra que naquela época ninguém queria ser funcionário público. Exemplifica: “o atual secretário executivo do prefeito tinha três funções na prefeitura”. A primeira ação do prefeito foi comprar uma indústria de manilhas para bueiros e um trator de esteira, uma carregadeira e caminhões de caçamba, para trabalhos no interior, pois até então o governo não tinha conseguido nem consertar uma ponte, apesar da agricultura andar muito bem. Cerutti comprou um caminhão de lixo, mas não havia lixeiro disponível: todos estavam pensando mais alto. Ninguém se mudara com tanto esforço para o norte para ser lixeiro, em vez de proprietário, conta.


Antes da emancipação da cidade, só havia uma escola em Poxoréu, e uma estadual em Primavera, que porém eram muito precárias. A primeira prefeitura construiu 12 escolas no interior e formou professoras. O município passou a ter biblioteca, polícia militar, telefone e poços artesianos funcionando.


Os loteamentos já estavam demarcados antes da emancipação. Não havia coleta de lixo, jogava-se na rua.


Sr. Cerutti considera que conseguiu muita ajuda do governo estadual porque apresentava projetos para o município, em vez de pedir destituição de cargos, como era de praxe nos outros muincípios.


Primavera do Leste foi emancipada em 13 de maio de 1986. O processo foi presidido por Darnes Cerutti, por aclamação de 200 pessoas; passaram por forte inspeção do IBGE (fiscalização de divisas, número de leitos em hospitais, população, produção), que em seguida emancipou várias cidades formadas só por uma rua, que não atendiam às exigências deste órgão. Isto ocorreu porque no dia seguinte à emancipação de Primavera, foi promulgada a lei de que as emancipações seriam feitas pela Assembléia Legislativa, então as pequenas vilas também foram emancipadas. Esse fato nos deixa claro, que a emancipação das cidades era feita em levas regionais.


Sr. Darnes diz que o governo não tinha intenção de emancipar estas cidades; Eram 22 vilas pedindo emancipação. Primavera do Leste e Sorriso “atropelaram o processo” diz o prefeito. Era requisito que houvesse pelo menos 7.600 habitantes; nenhuma das vilas tinha, e mesmo assim conseguiram.


Sr. Cerutti diz que o INCRA nunca teve atuação em Primavera, pois a cidade não fazia parte de projeto do governo de abertura de fronteiras agrícolas e reforma agrária.


Em 1996, era a 5ª economia, e a maior produtora de grãos do estado. Em 1997, a população era de 20.996 habitantes, em 2002, já havia saltado para 50.000 habitantes.[60]  A cidade cresce economicamente, 17% ao ano, e 100% em população. Hoje, 50% das ruas são asfaltadas. Há abastecimento de água em 43% das casas. Este dado é bem visto por uns e mal visto por outros, que não admitem que em uma cidade de qualidade de vida tão boa, não haja abastecimento à todos. Diz-se que só não se abastece a quem não interessa, o que indica que há um grupo proporcionalmente grande de excluídos do interesse dos agro-industriais e do governo.


Atualmente, o município tem uma cooperativa de crédito, 3 hospitais particulares, 5 postos de saúde na cidade, e dois no campo e um pronto socorro. Há 19 escolas e várias quadras esportivas. Há uma emissora de televisão.


Sua posição geográfica possibilita que seja um entreposto comercial e de abastecimento.


A terra do cerrado não era fértil. As comunicações oficiais sobre a cidade dizem que é fértil, até hoje, para continuar atraindo produtores e investidores. O secretário da agricultura de Primavera, Luiz Nery, no entanto é veemente ao dizer que a terra não é ideal para plantar, porque é plana e arenosa, mas que conseguiram-se muito bons resultados à partir de pesquisas, principalmente dos próprios agricultores, pois a Embrapa e a Empaer: Empresa Estadual de Pesquisa de Expansão Rural, não tinham recursos suficientes, o que levou à abertura de fundações especializadas em pesquisa. Justamente pelo fato da terra ser arenosa, era vendida a preços baixíssimos, muitas vezes em troca de um carro velho, diz Nery.


Os gaúchos introduziram a soja no norte do país porque as áreas no sul eram muito pequenas, em torno de 100 hectares. Nery diz que a maioria dos migrantes tinham tradição agro-pecuarista.


Através das pesquisas das fundações privadas, foi introduzido, em 1994, o algodão, que é forte agregador de mão-de-obra, mesmo que a colheita seja mecanizada. O algodão veio preencher o período de ociosidade da terra, de abril a setembro. Assim alternam-se as culturas da soja, que cresce no período da chuva, e do algodão, que cresce na seca. Dessa forma, os plantadores que voltavam para o sul e continuavam atividades de pouca lucratividade, ou mesmo sem lucratividade, mudaram com suas famílias para o norte.


As principais atividades agrícolas ali são: a soja, com colheita de 811.200 toneladas de grão em 2004; o milho, o arroz, e gado extensivo, com abate de 1 milhão e 700 mil cabeças no mesmo ano. Os novos projetos são de vinicultura e suinocultura. O primeiro objetivo da atual prefeitura é a industrialização total da agropecuária. A Câmara Municipal aprova incentivos fiscais a empresas agro-industriais e serviços que queiram se instalar.


É renitente a queixa com relação ao escoamento das safras, que concentra-se na mão de quatro empresas, das quais três são norte-americanas. Estas multi-nacionais também controlam a venda de insumos agrícolas, diz Luiz Nery. A frustração é ainda maior porque a área plantada no Mato Grosso é proporcionalmente maior que de qualquer estado norte-americano.


Atualmente, as principais atividades da cidade são: serviços automobilísticos, calçados e confecções, e venda de insumos agrícolas. A cidade é planejada, com ruas bastante largas. As construções, na maioria dos casos são feitas em lotes previamente demarcados.


A praça maior tem um grande espaço de lazer, e nela fica a primeira igreja construída, que é católica.


O Sr. Castelli, sócio de Cerutti do posto Barril, chegou em Primavera em 1975, também vindo de frederico Westphalen, onde era motorista de caminhão, quatro meses depois de Cerutti. Encontrou apenas o cerrado e uma pensão velha, onde morava um senhor de horizontina. Quem tinha fazenda vivia lá.


Assim como Cerutti, Castelli também recebeu financiamento do Banco do Brasil, com 7 anos para pagar, com juros de 7% e 2 anos de carência. Ele também afirma que foi difícil, pois nem o banco acreditava no projeto. Não havia nem critério de financiamento, pois só havia 4 ou 5 lavoureiros. Sua primeira atividade foi o plantio de arroz. Em 1977 passou a plantar soja.


Com o tempo, comprou “o lado direito da BR 070”: um terreno de 340 hectares.


O posto de gasolina foi aberto em 1976. No começo da década de 80, Sr. Castelli começou a investir em serviços: abriu dois hotéis, e um restaurante. Castelli diz que a vida era boa no sul, mas que o seu amigo (Cerutti), o incentivou muito a vir. De fato tiveram muito trabalho, pois estavam começando do zero.


Na década de 70, a rodovia era razoável, diz Castelli, mas com o transito pesado e as chuvas, o asfalto gastou e ondulou, deixando praticamente intrafegável em vários trechos, principalmente na época da chuva, na década de 80 e até hoje.


O Sr. Castelli acha que os gaúchos eram mais unidos no início, provavelmente para juntarem forças em caso de necessidade, e para manter a cultura, mas diz que hoje, permanecem mais em família, pois os moradores já vêm de todas as regiões, o que dificulta um pouco a manutenção da identidade gaúcha. Considera que o relacionamento dos gaúchos com os outros habitantes é bom.


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Nem Cerutti, nem Castelli participam do Centro de Tradições Gaúchas, mas lhe são simpáticos.


O Sr. Carlos Szadkoski, também de Frederico Westphalen, veio para Primavera do Leste em 16 de junho de 1980, com toda a família. No Sul, tinha uma pequena propriedade onde plantava feijão, fumo e milho. É cunhado de Divino Castelli, e veio à seu convite para trabalhar em sua fazenda. Diz que Castelli acolheu muitas outras pessoas. Sr. Carlos acha que o trabalho aqui era melhor porque já havia maquinário, enquanto no sul, só havia tração animal ou manual. Ele considera que não teve problemas na instalação, e não pensa em voltar a morar no Sul, principalmente por causa do clima no Rio Grande do Sul, que é difícil.


De 1982 a 1984, foi ao centro de Primavera para trabalhar com construção civil. Construiu a própria casa, o Hotel Barril, de Castelli e à partir de 1983, as instalações da igreja: casa paroquial, creche, sala de catequese, o que durou 6 anos. Nestes anos, só havia a igreja católica. A luterana foi trazida pelos gaúchos posteriormente.


Sr. Carlos comprou, em 1980, uma franquia da empresa de ônibus Fredtur, que vinha do Sul ao Mato Grosso uma vez por mês, e depois quinzenalmente. Naquela época, lotavam-se ônibus para trazer sulistas que vinham diretamente comprar terras no Mato Grosso. Dentro do ônibus, “era como uma família, todos se conheciam, diz Sr. Carlos. Hoje a empresa chama-se Merlo Bus, com sede em Cruz Alta. Vêm ônibus 3 vezes por semana para Primavera. No fim do ano, tradicionalmente, chegam 3 ônibus por dia, em Primavera, para as festas. São 32 horas de viagem.


Sr. Carlos também comprou uma chácara, e tem um loteamento, que comprou sem incentivo do governo.

 

O Sr. Aracy Damo é dono do restaurante da rodoviária. Descendente de italianos, era frentista em Frederico Westphalen, depois de ser agricultor. Em 1948, comprava açúcar e laranja. Seus tios eram ricos, então faziam negócios com São Paulo e Rio de Janeiro. Como não tinha técnica de plantio de frutas, foi trabalhar em um frigorífico. Foi para o norte pela primeira vez em 1971. Em 1975, Sr. Damo comprou uma fazenda em Gurupi, no atual Tocantis, ex-Goiás. Ele permaneceu por dois anos na fazenda, e sua família ficou no Sul. Foi expulso da terra porque sua escritura era falsa.


Já em 1980, comprou uma fazenda de 5000 hectares em Barreiras, na Bahia. Novamente, permaneceu por dois anos, e perdeu tudo, pois uma usina de açúcar da região se dizia dona da terra. Para comprar as fazendas, tinha vendido os caminhões, então quando voltou, teve que trabalhar como empregado.


Em 1984, foi para Primavera do Leste com a família. Tinham cem cruzeiros. Construiu um barracão com lixo de serraria, onde morou por quatro anos. Usava emprestado o banheiro onde os saqueiros (transportadores) tomavam banho. Não havia nada, nem lavoura, apenas o posto e a igreja.


Em abril de 1985, foi trabalhar no bar da rodoviária, construída nesta época. Começou a juntar dinheiro e arrendar um espaço. Com o fruto desse investimento, conseguiu abrir três churrascarias, e com a venda delas, comprou uma fazenda de soja, milho e pasto, com colheitadeira e oito tratores. Atualmente ele planeja construir uma hidrelétrica na fazenda, que renderá  R$500.000,00 por mês.


Hoje ele acha que restaurante não vale a pena, pois exige muito trabalho, e gasta-se muito. Esta atividade foi freada no governo Collor, que afetou muito a economia. As empresas faliam e os caminhões não vinham mais.


O governo nunca deu dinheiro, diz Sr. Damo. Acha que o MST é uma fantasia, que o povo precisa de outra instrução; que o governo não pode dar tudo, mas pode auxiliar.


Sr. Damo acredita que seu sucesso se deu pela vontade de ganhar, e pela crença em Deus. Não considera característica dos gaúchos querer vencer, mas que conseguem porque “nasceram trabalhando”. Ele não frequenta a instituição da Igreja, mas acredita fielmente em Deus, principalmente depois de ter sobrevivido à quatro enfartes.


Sr. Damo está convencido de que nordestinos não têm instrução por natureza, e que são bem diferentes dos sulistas. Que mesmo tendo chegado como proprietários, 30 ou 40 anos antes dos sulistas, permaneceram no ritmo dos goianos (mato-grossenses também são chamados de goianos, como generalização, apenas para distinguir dos sulistas) o que não os levou a construir nada.


De 40 a 60 km de Primavera, há duas aldeias Xavante e uma Bororo, considerada por Cerutti bastante grandes, de 800 a 1000 hectares respectivamente. A frequência de índios na cidade é muita. Vêm em 2 ou 3 caminhões e fazem compras com o dinheiro que ganham do governo, segundo Cerutti. Passam o dia todo e depois voltam para as aldeias. O relacionamento com os sulistas e goianos é amigável, mas cada grupo permanece em seus limites, de uma certa maneira. Sr. Damo diz que se não se impuser limites, os índios invadem. Houve um conflito de terras entre xavantes e o vice-prefeito, Ernesto Ruaro, em sua fazenda. Sr. Cerutti diz que, atualmente, os Xavantes estão pedindo uma demarcação de terras muito grande, terras estas que são produtivas, mas espera que o governo seja sensível e não dê, porque se o índio vive de caça, não encontrará mais nada, já que a terra está toda plantada.


Marcos Antonio Teixeira de Vargas, de Tupãciretã (RS), onde era  funcionário do Banrisul, veio em maio de 1982 procurando melhores  opções. Seu sogro era agricultor,  e convidou-o a ir. No inicio foi muito difícil, conta Marcos. Foram 3 dias de viagem, não tinha água, luz, nem telefone; havia 16 casas. Tudo o que precisavam, deviam procurar fora.


Marcos veio com toda a família. Os cunhados, o sogro e a sogra já haviam migrado. Um puxou o outro, diz. Todos acreditavam que ia dar certo, porque “gaúcho tem espírito aventureiro.” Mas não achavam que ia ficar como ficou hoje. Na sua região no Sul, a principal atividade era a pecuária. Sua família não tinha muitas perspectivas. São 8 irmãos; esta é outra razão pela qual optou tentar a vida em Primavera do Leste. Seu sogro, que também tem 6 irmãos, e dos quais, atualmente só um vive no Rio Grande do Sul, veio em 1982. Em meados da década de 1970, já tinha uma propriedade no Mato Grosso do Sul. Em 1979 comprou uma propriedade na região. Viu uma placa anunciando a futura cidade de Primavera, em 1980, e comprou a propriedade onde vive e trabalha a família toda no momento, que hoje está na cidade. Um irmão voltou por motivo particular. Marcos conta que algumas famílias vieram e voltaram porque não se adaptaram; ele conhece uma família que veio em 1985, e voltou para o Sul, e agora ele os reencontrou em Primavera.


Marcos acredita em duas causas de migração: “havia quem tinha dinheiro e não tinha onde investir, porque os espaços estavam ocupados e acharam que se saíssem, teriam condições. Outros fugiram de dívidas, de problemas, por não ter opção.”


Não tiveram apoio do governo. No mandato do governador gaúcho Blairo Maggi, está havendo uma política creditícia.


Há muita discriminação contra o gaúcho na opinião de Marcos. O modo de lidar é pejorativo, “porque nós tomamos o espaço deles. Teria o cerrado há 20 anos atrás, não teria pecuária, como regiões do Mato Grosso que estão engatinhando.” Há uma tensão entre matogrossenses e gaúchos, mas nada muito sério. A sua agricultura era de subsistência: “mandioca, arrozinho manual, gado, só o quanto o animal tinha resistência. O Mato Grosso começou mesmo há 20 anos.”


Existem problemas com os índios, que não aceitam a colonização, “mas não trabalham, não fazem nada.” Marcos diz que o Governo Federal dá muito apoio: semente, adubo, maquinário, que não usam, e vendem. É uma quantidade de terra inaproveitável, segundo Marcos. Usam tudo o que o homem branco usa, bebida alcoolica, etc. Não reivindicam terras, mas invadem propriedade, põem fogo, matam vaca.


Com relação ao MST não há esse problema, apenas próximo de Rondonópolis, porque a região é de pecuária, então aparentemente não se explora muito a terra. Marcos acredita que o MST seja um problema para o país, porque 99% não é de agricultores. “O Governo, dá cesta básica, e vão de acampamento em acampamento.”


“O tradicionalismo está no sangue. O Rio Grande do Sul tem uma historia, mais marcante, que é a Revolução Farroupilha, que todo mundo conhece, uns mais, outros menos: gaúcho é desbravador, sempre lutou pela terra, por melhores condições de trabalho no campo. Hoje continuamos cultuando as tradições, com fandangos e rodeios.” Como sua região era mais de pecuária, sentem necessidade de difundir esta cultura. Em 1983, fundou um CTG com outras pessoas.  Toda cidade começou a construir e fazer rodeio na mesma época. Então foi criado o MTG: Movimento Tradicionalista Gaúcho,  no Mato Grosso, que é o órgão que administra os CTG’s. Ninguém migrou em função disso, mas hoje chegam a trazer instrutores de dança. O MTG é dividido em 6 regiões. Primavera do Leste, Paranatira, Campo Verde, Jaciara, Rondonópolis, Itiquira, Alto Garças Tianguiratinga fazem parte da segunda região. Existem regulamentos, e cada estado tem um MTG. São filiados à CBTG: Confederação Brasileira de Tradição Gaúcha, que atualmente fica em Porto Alegre, porque o presidente hoje é de lá.O critério de escolha para a presidência é a eleição. Todo ano há convenções e congressos para eleger o presidente. Na parte de rodeio todos os anos há eventos de nível nacional.

 

Não se pode deixar de mencionar uma comunidade de paranaenses de origem russa, que fica à 30 km de Primavera. Eles trabalham na lavoura e são auto-suficientes. Mantém a tradição, inclusive no modo de vestir.

 

Alto Garças também é um município onde a presença gaúcha é muito forte, e que teve colonização independente.


O Sr. Eugênio e a Sra. Cleonice Maria Bertotti, chegaram em Alto Garças em 1974, de Frederico Westphalen. Seu pai era comerciante, dono de churrascaria. Chegaram a ter terra no Rio Grande do Sul, mas não nos últimos anos. Como sua situação econômica estava ruim, foram para o norte em busca de condições melhores de vida. Segundo eles, o futuro estava no Mato Grosso. Bertotti conseguiu um serviço em uma fazenda, e voltou em 1975 para levar a família. Esta época foi justamente quando começou o desenvolvimento da agricultura, com o arroz, logo após a abertura do Cerrado. A soja começou a ser plantada, em rotação de culturas, em 1981.  A família morava na cidade e o pai na lavoura. Ele não comprou terra.


Quando chegaram, já havia a estrutura da cidade, que era muito pobre. Havia prédios públicos, dois mercados, dois postos de gasolina. A população girava em torno de 4.000 habitantes. Na década de 80, colhia-se entre 30 e 35 sacas de arroz e soja por hectare. Hoje, com o aperfeiçoamento, chegam a colher de 55 até 65 sacas por hectare, conta Sr. Eugênio.


O algodão foi introduzido em 1988; hoje, há 80.000 hectares plantados.


A cidade, à beira do rio Garças, é mais antiga que as anteriores: foi emancipada em 1956, mas apenas em 1975, junto com a abertura de fronteiras estimulada pelo governo, começou-se a abrir a mata. Até então, a principal atividade era o garimpo de diamantes, que ainda existe em proporção muito menor atualmente.


O governo deu incentivo através do Banco do Brasil, e o faz até hoje.


Não houve atuação de nenhuma colonizadora em Alto Garças. 


Sr. Eugênio foi eleito vereador pelo PFL com 158 votos, em 1992. reelegeu-se em 1996 com 236 votos. Quando chegou, já havia estrutura política, conta.


Em 1981, foi fundado o CTG, que é bastante grande. Mais da metade dos moradores da cidade é gaúcha. Há poucos catarinenses e paranaenses. Sr. Eugênio conta que pouca gente voltou, mas que muitos foram adiante, ou com sucesso, ou por não terem conseguido desenvolver-se no Mato Grosso.

Atentemos para alguns dados estatísticos[61], para compreendermos a relação da quantidade de migrantes do Rio Grande do Sul para a Amazônia Legal na década de 1970, comparada com a década de 1980, e a mudança dos perfis (de idade e grupo):


Em 1970, para os estados do Amazonas, Pará e Goiás, predominavam habitantes gaúchos na faixa de 25 a 29 anos. Em Rondônia, e Amapá predominavam pessoas na faixa de 30 a 34 anos. Em Roraima e Acre, os gaúchos eram mais jovens, de 20 a 24 anos. No Mato Grosso, a maioria dos gaúchos tinha de 35 a 39 anos. Por fim, no Maranhão, a maioria tinha de 40 a 44 anos; para o Maranhão, o principal fluxo de migração gaúcha ocorreu nas décadas de 1950 e 60.


Em 1980, no Amazonas, Roraima e Goiás, os gaúchos tinham uma média de idade de 30 a 34 anos,; no Pará, Rondônia e Maranhão, de 25 a 29, no Amapá, de 15 a 19. No Mato Grosso, de 20 a 24 e no Acre, de 35 a 39 anos. Estes números significam que não são os mesmos grupos que haviam chegado dez anos antes, que permaneceram em maioria na década de 1980, pois as idades nas duas décadas não correspondem.


A média do aumento da população gaúcha, foi de 7 vezes, da década de 1970 para 1980. Roraima, Amapá e Acre, aumentaram em aproximadamente 3 vezes. Amazonas, Mato Grosso, Goiás e Maranhão,

tiveram aumento de aproximadamente 5 vezes. O Pará ficou com 11 vezes mais gaúchos e Rondônia com 20 vezes mais, na década de 1980.


Em geral, há mais mulheres que homens nas primeiras idades, de 0 a 9 anos, e na terceira idade, de 65 ou mais anos. Isto não se aplica ao Mato Grosso, onde os homens gaúchos sempre estiveram em maior quantidade. O que significa que houve maior migração temporária: na maioria dos casos, o chefe da família permanecia no norte por um ou dois anos, sem a família, para preparar o terreno e plantar a primeira safra.


Na década de 1980 as proporções de homens para mulheres eram: aproximadamente 1,1 vezes em Rondônia e Maranhão, 1,4 vezes no Amapá e Mato Grosso, 1,7 vezes no Pará e Goiânia, 2,5 vezes no Acre e no Amazonas, e 4 vezes em Roraima. Donde se conclui que para o Acre, Amazonas e principalmente Roraima, iam homens sozinhos, provavelmente contratados para serviços temporários. Nos outros estados, mesmo que haja diferença, supõe-se que na maioria dos casos os gaúchos tenham ido com suas famílias.


Em quase todos os estados, a maioria permaneceu apenas por um ano na década de 1970.


Em Rondônia e no Amapá, na mesma década, nenhum gaúcho permaneceu por mais de 5 anos, e no primeiro, 50 % dos gaúchos ficou por menos de um ano na década de 1970. A mesma quantidade de gaúchos permaneceu também por menos de um ano na década de 1980 em Roraima e Maranhão; o que indica que as condições de vida ali eram muito difíceis, obrigando-os ou a voltar, ou a migrar para outros estados. Na década de 1980 houve grande aumento de gaúchos nestes estados, pois foi quando os projetos particulares se instalaram.


No entanto, em geral, mais gaúchos permaneceram nos estados do norte na década de 70, do que na de 80. Pará, Mato Grosso, Goiás, Amazonas foram os estados em que mais gaúchos permaneceram por mais de 5 anos. Em Roraima na década de 80, apenas 5% ficou por mais de 5 anos.


O fluxo populacional no Pará, Mato Grosso e Maranhão manteve-se estável quanto à permanência por menos de um ano nas duas décadas.


Roraima e Acre tiveram o fluxo mais instável quanto à permanência por menos de um ano, comparando-se as duas décadas: em ambas, permaneceram por menos de um ano.


No Mato Grosso, as micro-regiões mais habitadas eram, a Baixada Cuiabana, Campos de Vacaria e a região pastoril de Campo Grande na década de 70. Os municípios Campo Grande, Dourados, Ponta-Porã e Amambaí, que atualmente fazem parte do Mato Grosso do Sul, destacavam-se pelas grandes quantidades de gaúchos. Já na década de 1980, milhares de gaúchos destinaram-se para municípios do atual estado do Mato Grosso, fundados neste período pelos projetos de colonização. Estes dados mostram que a migração em massa dos gaúchos para o Mato Grosso, deu-se na década de 1980.


A migração foi muito pouco significativa na década de 1970 para o Pará, Amapá, Rondônia e Acre. Roraima recebeu pouco mais de 100 gaúchos, na capital. Goiás também teve presença pouco significativa, tendo sido Taguatinga, a cidade que mais recebeu gaúchos. Para o Maranhão foram algumas centenas de gaúchos, sobretudo para São Luis e Pindaré. O Médio Amazonas e Manaus, exclusivamente, receberam mais de 200 gaúchos.

 


6. A Oposição às Consequências Sociais do Projeto de Desenvolvimento da Amazônia

 

6.1.A Importância da Igreja Na Luta Pela Terra

 

A Igreja foi a única oposição institucional ao Regime Militar, pela sua ligação com grupos de esquerda a partir dos anos 50 e 60. Foi muito radical com a questão do aprofundamento da desigualdade econômica principalmente na região amazônica, onde se dava a construção da Rodovia Transamazônica, a criação de gado em larga escala, promovida pelo Governo, e as promessas oficiais de distribuição de terras. “O Clero, em geral missionários e em boa parte estrangeiros, quase sempre tomava o partido dos posseiros e dos pequenos agricultores que vinham sendo pressionados, muitas vezes com violência.”[1]. O Clero brasileiro estava dividido em três partes, quanto às suas posições políticas: os progressistas, de esquerda, que aconselhavam os perseguidos e torturados, os de direita que apoiavam a ditadura, e os moderados que apoiavam os de esquerda quando membros da Igreja eram atacados. Entre 1969 e 70, os choques militares contra a Igreja aumentaram, o que a transformou na mais forte opositora ao estado autoritário. Consequentemente, sua política foi de estreitar a cúpula, a Congregação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e ampliar a base, com a criação das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), que tinha participação de leigos, inicialmente apenas para estudar a Bíblia, e mais adiante, para apoiar os movimentos sociais, para uma igreja proletária, o que desagradou muito ao Governo Militar, e que resultou em perseguições. Para esta política, a Igreja contou com o apoio internacional do Papa.

Em 1964, já se publicava no Jornal Zero Hora (que não sofria censura), uma manifestação dos bispos do Rio Grande do Sul pela reforma agrária com a percepção dos problemas que a concentração da monocultura, e a falta de recursos dos pequenos proprietários poderiam trazer.[2]


Foi o conflito de posseiros contra a empresa de colonização CODEARA, em Santa Teresinha, no Araguaia, um dos processos que originou a Igreja da Libertação: o Padre Francisco Jentel ajudou os trabalhadores que estavam reivindicando a posse de seus terrenos pela empresa a se organizarem formalmente frente ao INCRA, e estruturarem uma comunidade forte na cidade. “D. Pedro Casaldáliga foi até o acampamento levar a solidariedade dos posseiros da prelazia de São Félix do Araguaia do qual era representante, e que sofrera a Guerrilha do Araguaia.”[3]  Casaldáliga conta que os colonos vindos do Sul, de outras igrejas, não entendiam a sua pastoral, e sua opção pelos pobres no norte e nordeste: “estremecia como uma expolsão para eles, em cima deles”[4]


A CPT -Comissão Pastoral da Terra foi criada em 1975, ligada à CNBB -Congregação Nacional dos Bispos do Brasil, com sede em Goiânia; era formada por funcionários  religiosos ou leigos, e mantida por religiosos, por órgãos nacionais e internacionais. Esta comissão se articulou durante a Guerrilha do Araguaia e o conflito com a empresa Codeara no Pará em defesa de uma igreja de posseiros, peões e índios.

“(...) a trajetória da ação pastoral no sul do país permitiu o fortalecimento das lutas locais, articulando-as ao movimento migratório do Sul para o Centro-Oeste e para o Norte; este movimento já foi imposto àquela população, quando nos anos 70 o boom da soja alterou a estrutura de ocupação daquele espaço. Da mesma forma que o modo de produção capitalista constitui-se por uma geopolítica de concentração, as lutas sociais no período cresceram pelo desvendamento dessa geopolítica que espalhou a população gaúcha (...) pelas regiões de Mato Grosso, Goiás e Acre.”[5]


A Igreja foi importante ao dar aconselhamento jurídico, subsídios, e por indicar aos camponeses, que exigissem os títulos de propriedade de quem os tentasse expulsar da terra.

A CPT e o CEM: Centro de Estudos Migratórios, organizavam encontros sobre colonização. O II Encontro Sobre Colonização, organizado em janeiro de 1978, visava aprofundar os estudos de migração orientada por empresas particulares e pelo INCRA, do Rio Grande do Sul para a Amazônia.[6]

A divergência entre alguns membros da Igreja e do Estado se fortaleceu no Rio Grande do Sul, quando camponeses expropriados, trabalhadores rurais e grupos indígenas foram incentivados pela diocese de Ronda Alta e Passo Fundo, a ocupar terras.


Foi a questão da reforma agrária que cindiu a Igreja em favor do Governo, ou dos trabalhadores.


“O presidente do INCRA (...) insistia na inexistência de terras no Rio Grande do Sul e os camponeses(...)apresentavam a lista das terras existentes na região resultando de um levantamento realizado pela Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil.(...)Foram apontados: Cachoeira do Sul, Palmeira das Missões, Ronda Alta, Nonoaí e Passo Fundo, como regiões com terras disponíveis, por meio de anúncios em imobiliárias”. [7]


Muitos cultos ecumênicos no Rio Grande do Sul foram feitos para ajudar os posseiros.


Em 25 de julho, os acampados fizeram uma concentração para pressionar o Estado: “O governo enviou no dia 30 de julho o Tenente-Coronel Sebastião Rodrigues Moura conhecido como Major Curió, com sua tropa, e transformou o acampamento num “campo de concentração”.[8] Os grupos que os estavam apoiando foram expulsos.


“Como nada foi resolvido, a CNBB assumiu o pagamento de uma área de aproximadamente cem hectares para onde rumaram 207 famílias remanescentes do Natalino. A área foi nomeada pelos colonos como Nova Ronda Alta, mas era claramente insuficiente para o sustento dessas famílias. (...) fez uma estrutura de gestão estruturada muito bem organizada com a ajuda  do CNBB, CPT e Caritas”.[9]


O caso dos “afogados” também teve grande ajuda de religiosos: em 1970, centenas de famílias foram desalojadas para a construção da Barragem de Passo Real, em Cruz Alta (RS). Depois de dois anos, o INCRA os assentou na fazenda Annoni. Seus proprietários entraram com processo e os desapropriados ficaram dez anos sem moradia e tornaram-se mendigos. Os militares responsabilizavam os religiosos pelos conflitos de terra. “Afirmava que a recusa dos sem-terra em a aceitar a transferência para o Mato Grosso devia-se à Igreja. De certa forma estava correto(...).”[10] Alguns assentados na fazenda, Annoni começaram a plantar, e muitos venderam seus lotes; em comum acordo, proibiram a venda dos lotes por três anos.


Em 1940, nas regiões de Trombas e Formoso, havia uma comunidade autônoma de camponeses que ocupavam terras devolutas; depois de alguns acordos, as áreas tornaram-se municípios. Quando, no início da década de 1970, com o asfaltamento da rodovia Belém-Brasilia, chegaram do Sul vários grupos econômicos que, com o apoio oficial garantido pelos subsídios da SUDAM, tinham interesses na exploração da área. A ocupação da área foi concomitante à militar, pois o governo queria proteger as empresas dos comunistas. Desde 1953, os camponeses de Trombas e Formoso, auxiliados pelos gaúchos do PTB, viram-se ameaçados por outros grupos de gaúchos que agora queriam suas terras.


No Pará, a ocupação foi muito difícil, pois na região do Araguaia por exemplo, havia muito minério, e as empresas exploradoras forçavam os posseiros a deslocarem-se para mais longe, em regiões inóspitas.

“De 1970 a 1975, nas várias regiões da Amazônia, empresas beneficiadas pelos incentivos fiscais da SUDAM, compraram mais de seis milhões de hectares de terras, espalhando centenas de jagunços pela área. A ocupação se fazia de forma predatória, provocando profunda alteração no meio ambiente e na vida da população local.”[11]


Todas estas lutas levaram à organização dos trabalhadores sem-terra do Movimento Sem-Terra-MST, em 1984.


Foram membros de igrejas os principais atores de atração de alguns projetos de colonização, como Canarana (Igreja de Confissão Luterana, pastor Norberto Schwantes), Guarantã (MT) (Igreja Católica, pároco de Nonoaí e as irmãs de Mundo Novo (MS); entre outros.

 


6.2. Visões da Colonização da Amazônia Legal na Mídia Gaúcha:

 

O Jornal Zero Hora, à partir de 1964 já mostra o início da percepção dos problemas que  a concentração da monocultura, e a falta de recursos dos pequenos proprietários poderiam fazer surgir. O jornal trata da parca atuação do Instituto Gaúcho de Reforma Agrária (IGRA); da manifestação dos bispos do Rio Grande do Sul pela reforma agrária; da emigração dos gaúchos aos outros estados por causa do incipiente parque industrial do Estado, do minifúndio, e da terra desassistida e exaurida, que expulsam, na maioria, jovens qualificados; do apelo do Deputado Alexandre Machado pela reforma agrária, contra as condições degradantes do minifúndio. Aliás, o discurso acerca do minifúndio, foi o que legitimou a distribuição desigual de grandes porções de terra a grupos privados. O mesmo discurso se aplicou a dois grupos diferentes: pequenos agricultores, e agro-industriais.


Ao mesmo tempo, há notícias que mostram que o país estava muito ligado e submetido ao sistema capitalista monocultor. Estas tratavam, do interesse do Governo Federal em exportar soja e lã; da perda de produtividade da soja porque 35% das lavouras são marginalizadas.


“O incipiente parque industrial gaúcho não oferece condições nem para absorver a oferta de mão de obra urbana, menos ainda a que demanda dos campos.(...) emigram aos milhares para os outros estados(...) especialmente Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso. Braços riograndenses têm impulsionado o progresso de vastas regiões destes estados. Agricultores qualificados, a maioria jovens, premidos pelo minifúndio, pela exaustão da terra desassistida, e pela situação insatisfatória em que vivem, vendem tudo ou levam o que podem e abandonam o Estado. A situação é antiga e perdura. Estima-se que em 1960, 324.000 pessoas deixavam o Estado anualmente.”[12]


Com a percepção da crise, os bancos começam a dar financiamento aos pequenos produtores.[13]


Ao longo da década de 70, a crítica nos jornais se acirra: trata da intensa concentração de terras no Estado; da diferença no preço das terras do sul (monocultor e latifundiário) e do norte do Estado, que atingiu o dobro do daquelas; dos motivos da emigração, que eram, a falta de terras para os filhos dos pequenos agricultores, e a ocupação desordenada da terra; da concentração de renda que o modelo exportador trouxe, tornando-se então superado pelo Governo.


No entanto há um otimismo, e a tentativa de solucionar o problema do êxodo, através da campanha de aumento de safras com financiamento do Governo Federal. Há boas perspectivas com relação à construção da rodovia Transamazônica, com 800 famílias levadas do Rio Grande do Sul até o fim de 1972; ao projeto de assistência técnica para pequenos agricultores, previsto para janeiro de 1974; à abertura do primeiro núcleo de reforma agrária do Rio Grande do Sul.


Ao mesmo tempo, o ruralismo gaúcho (Far-Sul e UDR), também através do jornal, exige do governo mais flexibilidade com relação às medidas de favorecimento ao pequeno proprietário.[14]


Em agosto de 1971[15], o jornal Zero Hora anuncia a ida de oitocentas famílias de gaúchos para Altamira, no Pará, região escolhida pelo INCRA para a colonização.


Descreve-se a seleção dos agricultores que vão para o Projeto Transamazônica, em Planos de Integração Nacional em Altamira; as obrigações do INCRA, eram: fazer contrato, e dar financiamento por seis meses, e as obrigações dos parceleiros eram: viver na gleba que recebeu, e pagar todas as parcelas no prazo estipulado.


Especificam-se os locais de origem dos migrantes: principalmente o Alto Uruguai, e constata-se que as famílias que migraram estão vivendo bem, já que mais famílias querem se mudar. Este é um exemplo, de como os gaúchos no Sul ficaram alienados do processo migratório, pois em muitos casos, os pareceleiros eram proibidos pelo INCRA de mandar más notícias, e chegavam até a ser presos, casos ameaçassem denunciar as más condições ou ir embora.


O Jornal Sem-Terra[16] publicou o depoimento de um grupo de gaúchos que formou o “Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém, em 1979 em resistência às más condições de vida que os gaúchos estavam enfrentando na Amazônia: “Saímos acreditando nisso e quatro anos depois descobrimos que só servimos de bucha de canhão”, conta Ganzer. “Nós fomos obrigados a lutar porque não tinha mais jeito. Ou ficava aqui trabalhando a terra ou virava peão barato de multinacional.”


Posteriormente, faz-se a critica à oposição, que através do delegado regional do trabalho do Pará, Antonio Medeiros, decretou intervenção no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém alegando “possíveis irregularidades na eleições da entidade realizadas em maio”.


O Pastor Hans Trein deu um depoimento sobre as táticas e resultados da colonização na Amazônia: “A colonização, assim como está sendo feita, é apenas um comércio de terras e não objetiva fixar o homem a essa terra (...) Os colonos são jogados em regiões desconhecidas, em plena selva, sem apoio técnico, e infraestrutura. Aí eles preparam a terra como podem e depois são obrigados a abandoná-la. Então as grandes empresas e fazendeiros vêm e ocupam com o gado”.


O padre Dionísio Kuduavicz  da Prelazia de Itacoatiara –segundo maior município do Amazonas observou: “Ele (o gaúcho de modo geral) não consegue conviver e dominar a natureza como o nativo da região, tornando o reassentamento no Norte simplesmente catastrófico (...) – e sobre o objetivo do governo, apontava:  “ esvaziar as lutas do Sul, como foram os casos de Itaipu, Lucas do Rio Verde e outras.”

 

O periódico do CEMCREI,[17]Realidade das Migrações na Região Sul do Brasil, de 1989

aponta como causas do êxodo rural: a falta de apoio ao pequeno produtor, a desesperança do jovem com relação à terra do pai; a aplicação de juros iguais para pequenos e grandes produtores, os preços proibitivos de insumos e adubos, a corrupção ( os lucros destes produtos vão para atravessadores); falta de assistência técnica.


Faz-se uma análise estatística e conclui-se de que os pequenos produtores gaúchos são bastante ativos na economia, e que seu êxodo acarreta a falta de gêneros de subsistência.


A atração que o meio urbano causa nos pequenos agricultores se dá pela idéia de comodidade, onde é possível educar os filhos e ter melhor acesso a bens de primeira necessidade.


As causas contingenciais, ou naturais, como enchentes, desmoronamento, erosão, são um forte fator de expulsão, já que o governo não dá assistência aos atingidos por acidentes naturais.


Conclui-se com um apelo à Reforma Agrária que fixe o homem no campo. Com relação ao êxodo dos jovens, não se aponta solução, pois estes são guiados pelas “luzes da civilização”.



7. Os Retornados:

 

Os colonos que voltaram dos projetos de colonização amazônicos para o Sul, assumiram novos papéis sociais no local de origem. Haviam aderido a projetos muito diferentes, mas todos eram pequenos produtores recrutados no Sul. Posteriormente, nas décadas de 80 e 90, outros gaúchos migraram para os mesmos municípios por iniciativa própria, não mais como colonos.


Os principais projetos abandonados foram: Altamira, às margens da rodovia Transamazônica, para onde haviam migrado 300 famílias do Alto Uruguai, foi deixado por 50% dos colonos, Canarana, do qual voltaram quase 40%; de Terranova, 70% dos gaúchos desistiu; Lucas do Rio Verde, às margens da rodovia Cuiabá-Santarém, que acolheu 170 famílias do Rio Grande do Sul, perdeu 90% delas; Peixoto de Azevedo/COTREL, também na BR 163, que assentou 300 sulistas, teve 30% de desistência, aproximadamente.


As informações que se tem dos retornados é muito vaga: não há números, e não se os encontra em grupo: estão dispersos por todo o país.


Os retornados haviam partido para a Amazônia nas mesmas condições dos que alí ficaram: com poucas terras para deixar aos filhos, e incapacidade de crescer pela concentração fundiária, e levados pela propaganda promissora.


As principais razões do abandono foram: a queda de produtividade da terra, o endividamento, malária, acidentes de trabalho, falta de serviço médico e alimentação, alto preço dos bens de consumo, as estradas intrafegáveis no período da chuva, o abandono das cooperativas.


As soluções encontradas foram: trabalho de diarista para a cooperativa, venda dos títulos, arrendamento de terras dos grandes proprietários, garimpo (em Terranova e Cotrel). As denúncias não levavam a resultado algum.


Os que voltaram, seguramente tinham famílias no Sul que os acolheram, caso contrário, seguiriam adiante pelo Brasil.


Também há um outro grupo de retornados, segundo Carlos Wagner: os aposentados. Depois de haverem derrubado as matas do norte, voltam para passar o fim da vida no Sul, com muito orgulho, contando suas “aventuras”. Os relatos são guardados pelas famílias como documentos, para atiçar nos jovens o desejo de desbravar a mata.
*


Poucos conseguiram trocar suas parcelas dos programas por lotes no Sul. A maioria passou a viver de serviços e biscates, pois não tinham mais terras.


Muitos colonos, após retornados, tentaram novamente ir para os programas de colonização no norte, geralmente como migrantes sazonais. Sempre para garantir a propriedade rural, para evitar a migração para as cidades, que sabiam estar superpovoadas.


Os retornados sofreram o desdém dos vizinhos e das autoridades locais.


Sabendo de histórias de vizinhos retornados, os colonos sem terra do Sul passaram a lutar mais para que o assentamento fosse feito no próprio estado, pois já sabiam das péssimas condições de vida nos programas amazônicos, além de já terem informações sobre as condições de plantio no norte, que exigiam investimento em maquinário e correção do solo.


Veja à seguir os mapas de migração, nas décadas de 1950-1970, de 1970-1990, e na década de 1990. O ciclo da borracha levou às primeiras migrações de sulistas para Rondônia, além de nordestinos para o Maranhão, Pará e Amazonas, nas décadas de 1950 a 1970. No período de 1970 a 1990, o fluxo foi maior do Sul para norte e nordeste do Mato Grosso, Rondônia e Acre. Já na década de 1990, os fluxos se dispersam, dentro do Mato Grosso; na maioria dos casos as setas têm dois sentidos: de e para o Amazonas, e de e para São Paulo. Há uma grande saída do Mato Grosso para Rondônia e Acre.

 

 

8. Relatos da Ocupação Gaúcha na Amazônia Legal e história dos municípios colonizados

 

Eliane Chiarelli, advogada (OAB-SP 51997). Durante sua graduação em direito pela Faculdade São Francisco, da Universidade de São Paulo, de 1973 a 1976, estagiou em assentamento de migrantes na Amazônia Legal em maio e junho de 1974. Participou de um projeto no Campus Avançadus da cidade de Marabá (PA).


Os alunos da Faculdade de Direito eram coordenados neste projeto pelo Prof. Fernando Sodero. Trabalharam no Projeto Fundiário, para assentamento de famílias em glebas de terra às margens da rodovia Transamazônica. Também trabalharam com verificação de escrituras para sua regularização, junto ao INCRA-Marabá.


O projeto era de ordem pública, e não incluía assentamentos nos projetos Carajás, Trombetas e Jarí.


Os migrantes vinham de várias regiões. Os que ocupavam as margens da rodovia Transamazônica vinham do Nordeste. Já as fazendas de ocupação recente à época, com estrutura básica, pertenciam aos migrantes do Sul. Chiarelli recorda-se de duas fazendas com famílias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.


Os nordestinos migravam com expectativa de uma vida minimamente mais digna. Já os sulistas pretendiam acumular mais riqueza, conta.


Todos os migrantes vinham com a família completa. A maioria tinha idade na faixa dos 30 anos.


Os oriundos do Norte/Nordeste exerciam cultura de subsistência. Embora a terra fosse mais fértil do que aquela de onde eles eram oriundos, restava o intransponível problema de evacuação de qualquer produção animal, ou agrícola para os centros onde pudessem negociá-la.


Já os migrantes vindos do Sul, com terras compradas, pelo menos nas três fazendas  visitadas, exploravam a madeira. Viam-se grandes serralherias.


Sobre as condições oferecidas pelo INCRA: não havia núcleos sociais em distância atingível, onde seus filhos pudessem frequentar escola, a família ir às igrejas, e entrepostos para compras. Era extremamente inadequado desalojar famílias de seus habitat, mesmo que fossem muito precários, com a falsa promessa de que eles teriam uma condição melhor de vida, considera Chiarelli. Davam-lhes as terras delimitadas, sem, entretanto, dar-lhes condições mínimas para se estabelecerem. Uma família chegou a lhe oferecer um salário para que desse aula para seus filhos por “um tempo”. Eles queriam estudar, aprender, participar de vida social. O projeto foi muito mal planejado.


Com relação ao encontro de culturas que ali se estabeleceram, Chiarelli divide os migrantes em dois grupos distintos: os assentados pelo INCRA, e os vindos do Sul para adquirir propriedades. Os do Sul promoviam churrascos e convidavam os estudantes da USP e influentes famílias locais, que eram muito bem vindos, sem aparente conflito, mesmo para os castanheiros, que eram fazendeiros locais, autoritários, exploradores da mão de obra local e muitos deles bastante sofisticados. Acredita que os gaúchos inflacionaram um pouco a mão de obra local, sem, entretanto chegar a incomodar, já que a pobreza existia em abundância, eles não tinham que disputar empregados. Por outro lado eles traziam um novo dinamismo social que agradava aos castanheiros. Já os oriundos do Norte/Nordeste vinham a competir com os locais na mesma situação que eles, buscando independência do sistema quase escravista vigente na região.


Chiarelli desconheçe a existência de conflitos. Considera a área do projeto fundiário muito vasta e longe de centros populosos, para haver confronto. Ela também não acompanhou nenhum processo de retorno dos migrantes às suas terras de origem.

 

Cleomar de Witt é funcionário do COCEARG-MST\RS, que responde pelas relações públicas. Viveu no Mato Grosso por alguns anos, onde trabalhou com rebanho suíno. Seu irmão vive atualmente em Primavera do Leste, e tem uma condição de vida bastante próspera.


De Witt conta que nas décadas de 50 e 60 do século XX, ocorreu a chamada Revolução Verde, que pretendia acabar com a fome no mundo, com muito uso de insumos, sementes híbridas e mecanização. Este foi um processo internacional que rapidamente atingiu o Brasil. Introduziu-se a monocultura da soja.


Ocorreu que se excluiu a pequena propriedade de terra e os pequenos agricultores venderam suas terras para grandes proprietários.


Com o êxodo rural o governo militar abriu novas fronteiras agrícolas, principalmente no Centro-Oeste. Os grandes produtores do Rio Grande do Sul receberam terras lá, para produzir soja, enquanto os pequenos não receberam condições, muitos deles voltando para o Sul ou Sudeste, como mão de obra urbana.


Foram criadas por gaúchos, as cidades: Canarana, Sinop, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde, Sorriso; todas no Mato Grosso. Boa parte de Palmas, capital do Tocantins foi feita por gaúchos, conta De Witt.


A colonização trouxe um forte impacto ambiental à região Centro-Oeste porque desertificou o cerrado e a mata. Muitas áreas indígenas foram engolidas.


Os produtores que saíram do norte do Rio Grande do Sul ( Santa Rosa, Santo Ângelo, Cruz Alta, Ijuí, Carazinho, Passo Fundo, Frederico Westfalen, Nonoai), foram plantar soja em Goiás, Mato Grosso e Maranhão. Os que saíram do sul do estado (Pelotas, Uruguaiana, D. Pedrito, Canacuã) foram predominantemente para a Ilha do Bananal, Pantanal e Tocantins, para plantar arroz irrigado, pois já o plantavam anteriormente.


Até a década de 1950, muitos gaúchos foram para o Paraná, portanto a subida para o norte foi automática; no entanto, a maioria dos migrantes foi diretamente do Rio Grande do Sul para a Amazônia Legal.


Os trabalhadores que retornaram foram assentados pelo Governo Militar em Jóia e Tupã, na região de Ijuí.

Até hoje, continuam indo gaúchos para plantar soja no Centro-Oeste e Norte, sem incentivo do Governo.


Muitos gaúchos abriram madeireiras, que estavam ligadas ao latifúndio e ao Governo Militar. Em Sinop, por exemplo, havia aproximadamente 2000 madeireiras na década de 70.


A madeira nobre processada nas cidades “gaúchas” da Amazônia Legal era (e é ainda) toda mandada para o Rio Grande do Sul.


Existia muita terra improdutiva no Rio Grande do Sul na década de 70; não havia necessidade de migrarem, mas os latifundiários pressionavam o governo para que não
fizesse assentamentos no Estado. A Farsul (Federação dos Agricultores do Rio Grande do Sul), organização de latifundiários, existe há mais de 60 anos.

Os grupos sociais no Norte, se dividem. Existe preconceito contra os gaúchos porque estes vêm com a preocupação de trabalhar muito e fazer capital. Cria-se uma certa antipatia por atitudes do povo gaúcho. Os gaúchos por sua vez, acham os locais vadios, e têm preconceito de côr, diz De Witt.

 

Carlos Wagner é colunista do jornal Zero Hora-Porto Alegre\RS. Fez uma viagem de dois meses (abril e maio de 1995) pelo Rio Grande do Sul e Mato Grosso, vindo a publicar uma reportagem de 28 páginas, intitulada “O Brasil de Bombachas”, editada em livro no mesmo ano.


Wagner conta que muitos sem-terra gaúchos, saíram da Encruzilhada Natalino (onde nasceu o MST), depois de um embate contra o governo, que os levou para o norte do país. Muitos foram para Lucas do Rio Verde, principalmente na década de 1980. Eles viviam na reserva indígena de Nonoai (RS), até que os índios os expulsaram em 1978 para a fronteira do parque e para a Encruzilhada Natalino.


O Major Curió foi uma peça chave na migração destes sem-terra, que foram levados para os estados da Amazônia Legal por ele.


Pequenos produtores vendiam 20 hectares no Rio Grande do Sul e compravam 300 hectares no Norte.


Suas principais atividades eram madeira e garimpo, que estavam fadadas ao fracasso, pois não eram produções que valessem, segundo Wagner.


Com o “boom” da bolsa de Chicago, de 1973 para 1974, o valor da soja passou de US$ 110,00 para US$ 600,00. Este comóditi tornou-se moeda, e transformou-se na possibilidade de expansão do oeste.


A Embrapa (Brasília) desenvolve uma semente apropriada para o cerrado.


O sul do Rio Grande do Sul era formado principalmente por latifúndios pertencentes originalmente por ex-militares que ganharam terras para lutar contra os uruguaios e argentinos. O norte do estado era formado por pequenas propriedades de imigrantes que tinham grandes famílias.


Os gaúchos foram para Santa Catarina e Paraná e devastaram as matas. Eles foram os principais responsáveis pela colonização da região Sul, e conseqüentemente, de sua terrível devastação ambiental, enfatiza Wagner.


Em Canarana, o projeto de colonização foi tão grandioso que tinha até uma companhia aérea, chamada “VACA”, Viação Aérea Canarana.


A maioria das terras ocupadas no Norte era devoluta. Quando foi possível, mataram para ocupar.


Os agricultores tinham uma administração familiar, portanto com tecnologia passada de pai para filho. Os primeiros sem-terra eram filhos de pequenos proprietários cujos pais não conseguiram comprar propriedades e tornaram-se ilegais, mas conheciam a tecnologia de plantio e tornaram-se mais sucedidos que os filhos de bóias-frias.


Voltar para o Rio Grande do Sul significava morar na periferia de centros urbanos.


Aproximadamente 30% dos migrantes morreram ou se deram mal.


O movimento migratório começou quando a terra foi exaurida pela quantidade de filhos.


Para o governo, isto significava o alívio das tensões de terras no Sul: em vez de fazer reforma agrária nas terras dos latifundiários, preferiram “queimar mato no oeste”, diz Carlos Wagner.


Inicialmente, o gaúcho plantava soja e o paulista criava gado.


Uma empresa de ônibus chamada Cascavel fazia os transportes para a colonização de Rondônia. Em Frederico Westfalen, o hotel Canteli tinha uma linha de ônibus especial para levar os migrantes e familiares que fossem visitar os parentes no norte.


Uma colonizadora importante foi a Cotrel, de Erexim. Guaporé também tinha uma colonizadora.

 

O Sr. Claro Freitas foi funcionário do INCRA-RS por mais de trinta anos. Ao se aposentar, foi trabalhar com consultoria na GTV, empresa alemã de cooperação técnica. Depois trabalhou no Instituto de Cooperação com a Agricultura. Atualmente, trabalha para um convenio do INCRA com a Embrapa.


O Sr. Freitas diz que houve apoio para ocupação de terras pelos gaúchos na Amazônia Legal, principalmente de áreas maiores, de aproximadamente 2000, ou 3000 hectares. As terras que estavam à venda não envolviam a participação do INCRA. Freitas não se envolveu pois era contra: pensava que devia ser feita a reforma agrária no Rio Grande do Sul. A sua opinião foi tida pela direção do INCRA como infundada.


O INCRA fazia o trabalho de medição das terras publicas que estavam sendo conquistadas à partir da abertura da Transamazônica e do espaço de Rondônia e Mato Grosso, onde havia interesse em assentar colonos; ajudava no processo de desmatamento, dava alguns financiamentos para que pessoas se instalassem lá. O INCRA investiu muito dinheiro na Amazônia, naquele período, para fixar gente. O discurso era o seguinte: Há lugares com muita gente e falta de terras, e há lugares com muita terra e falta de gente, então que as necessidades fossem resolvidas mutuamente, comenta.


Por este motivo, inicialmente o Governo incentivou a vinda de nordestinos à Amazônia Legal, mas depois achou que seria conveniente “misturar”. Levar pessoas com outro tipo de inserção na economia, como os paulistas que estavam inteiramente integrados na economia de mercado, Era interessante este tipo de gente.

As cooperativas recebiam grandes áreas para fazer um processo de colonização, algo entorno de 200.000 hectares, ou 1 milhão para ocupar. Levavam pessoas, ajudavam e começavam um processo, para fazer com que eles produzissem. A cooperativa se ressarciria em um segundo momento, não no inicio, pois poderia posteriormente aumentar em 1 milhão ou 2 milhões a sua área de atuação;  se tivesse produção, poderia ser interessante.


Quando houve o crescimento vertiginoso da soja no Rio Grande do Sul, à partir de 1968,  houve um processo de capitalização muito intenso na agricultura no Estado; pequenos agricultores, e não tão pequenos que tinham alguma estrutura, algum capital,  financiavam insumo a juro zero, as maquinas também eram extremamente baratas, o que fez muita gente comprar. Quem tinha 20 hectares e um trator, comprava a terra do vizinho, que tinha 5 hectares. O processo de exclusão foi muito forte naquele período. Alguns não tiveram condições de assumir este novo modelo e deixaram a terra, e quem cresceu nesse novo modelo foram os pequenos e médios produtores. Muitas pessoas de Ijuí e Santa Rosa com 20, ou 30 hectares de terra, naquele período estimulados por juro baixíssimo e preço bom da soja, expandiram; houve crescimento econômico brutal naquela região; mas não havia terra para os pequenos agricultores. A possibilidade que o governo adotou foi levá-los para a Amazônia.


A barragem de Passo Real também desalojou muita gente. Os primeiros atingidos foram colocados no Rio Grande do Sul, mas as últimas barragens feitas são do período em que a opção não era mais pela reforma agrária, e sim pela colonização. Os atingidos pela barragem, foram deslocados para a Amazônia também. O espaço que o INCRA abriu tinha que ser aceito pelos colonos; e mesmo em más condições, muitos foram. Aparentemente, em vários casos, as agrovilas não estavam montadas, o que era desesperador; chegava-se lá e não se encontrava nada. Em alguns casos houve êxito: a Cooperativa Canarana no Mato Grosso foi organizada por um pastor evangélico que conseguiu arrebanhar um grupo de pessoas. Ele tinha o lado econômico, e também tinha o lado de relação com a população. “Parece que de um modo geral funcionou bem”, comenta Sr. Freitas.


“Coisas boas também aconteceram”, ele conclui. Muita gente ficou no norte; por exemplo, em Rondônia, há uma quantidade imensa de gaúchos.


Há quem considere que foi um fracasso completo, que as pessoas abandonaram tudo, morreram. Outros já mostram que houve muita gente que teve sucesso, que conseguiu se estabelecer. As pessoas não ficaram completamente abandonadas, principalmente as que tinham uma cooperativa por trás.


Porém houve muitos problemas para as próprias cooperativas. Uma das cooperativas que foi pra Bahia acabou falindo, em parte,  porque investiu, se comprometeu e  na primeira crise não resistiu no próprio Rio Grande do Sul, e com as dívidas,  desapareceu.


A Cotrijuí também abandonou seu projeto na Amazônia. Essas cooperativas de um modo geral não tiveram muito sucesso, a não ser a Canarana do Schwantes, que passou a viver lá. As outras cooperativas mandavam um técnico; quando não interessava mais, traziam o técnico de volta, ou demitiam.Quem estivesse assentado e quisesse ficar, poderia, ou voltaria por conta própria.


Muita gente voltou, porque o gaúcho é muito enraizado, porque a paisagem é diferente, costumes diferentes, tudo diferente, então as pessoas ficam.


Houve uma experiência no Rio Grande do Sul que ilustra o problema da colonização: o INCRA recebeu uma área que era uma antiga estação experimental, uma área abandonada. Sr. Claro e um colega foram levar os agricultores à uma barragem; o aspecto era horrível, um capoeirão, as casas meio demolidas, realmente feio. Foram em veículos diferentes, pois os técnicos deviam trazer a comida para os trabalhadores. Chegaram uma hora depois dos assentados; alguns já queriam voltar porque acharam que as condições eram péssimas, mas as terras eram maravilhosas. Os técnicos conversaram, e estimularam-nos a conhecer. Eles foram vendo que havia potencialidade, e todos ficaram. Na Amazônia, onde nem havia casas construídas, eles estavam sós; podia haver índios, onças, cobras; muitos pegaram malária, a situação não foi fácil. As pessoas só foram, sob perspectiva do progresso porque no Sul estava difícil.


O governo foi aos poucos deixando de apoiar os projetos na medida em que deixaram de ser prioritários.

 

O Prof. Dinarte Belato, responsável pela cadeira de História Contemporânea no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Unijuí, de Ijuí (RS), contou sobre as origens da migração dentro do Estado do Rio Grande do Sul e, através de mapas de população e vegetação, provou como faz sentido o avanço em áreas de mata e sua devastação. Procurou-se a região noroeste do estado que não atraía o interesse do Estado até o início do século XX. Até então o interesse colonizador estava na região sul do estado, que foi colonizado por ex-militares que lutaram contra Paraguaios, Argentinos e Uruguaios. O resultado foi a formação de uma cultura latifundiária de direita e pouco produtiva no sul, e minifundiária e familiar (de imigrantes) no norte.


Só saiu do estado quem não tinha nada. As famílias eram muito grandes para o tamanho das colônias, que tinham por lei 25 hectares.


Os estados de Santa Catarina e Paraná foram colonizados por gaúchos e foram brutalmente desmatados.


Belato apontou para a visão positivista da construção das duas igrejas (década de 1890), que são muito semelhantes, e foram postas uma em frente à outra na Praça da República.


Fizemos uma visita ao Museu Antropológico da Unijuí, onde há artefatos dos índios Kaingang e dos imigrantes alemães e italianos para Ijuí. Existe aí, o maior acervo de fotos em negativos de vidro de imigrantes para o noroeste do Rio Grande do Sul, em todo o Estado.

 

Tiago é instrutor de dança folclórica no CTG (Centro de Tradição Gaúcha) Farroupilha/Ijuí (RS), e conta a sua história e as atividades.


O CTG Farroupilha foi fundado em 19 de outubro de 1943. Em 1948, foi fundado o 35 CTG, por um grupo de oito rapazes que queriam marcar o centenário do final da Revolução Farroupilha. Para homenagear esta época, e a chegada dos restos mortais do Capitão Davi Canabarro, maragato, acenderam uma tocha, a  “Chama Crioula”.


Este grupo dos oito, foi o que começou a história dos CTG’s no Rio Grande do Sul; eram jovens universitários, dentre os quais: Barbosa Lessa, Paixão Cortes e Ciro Dutra Ferreira.


Existe uma discussão, pois o CTG Farroupilha é mais antigo que o 35 de Porto Alegre, no entanto, quando foi fundado, era chamado de clube, e não propriamente o Centro de Tradição Gaúcha.


Os grupos de dança estão divididos em modalidades: mirim, juvenil, adulto e xirú (mais de 30 anos). No Mato Grosso, não há participantes da modalidade xirú, e poucos adultos, porque geralmente estão trabalhando, ou afastaram-se um pouco da tradição, relegando-a aos seus filhos.


O maior festival amador da América Latina, chama-se Enart-Encontro de Arte e Tradição. No festival apresentam-se 19 tipos de danças tradicionais, além das modalidades artísticas gerais que são: Declamação, Chula, Solista Vocal, Gaitas, Bajadas, Trovas, Violino (ou rabeca), Violões, Contos, Conjunto Instrumental e Conjunto Vocal.


O estado é dividido em 30 regiões tradicionalistas. O MTG rege as regiões e tem um presidente. Cada CTG tem um Patrão.


Os instrutores de dança ganham um bom dinheiro para ensaiar em todo o estado. Pode-se pagar até R$ 500,00 por um fim de semana de ensaio.


As danças têm origens espanholas, francesas, italianas e também argentinas e uruguaias. Muitas delas são danças de corte, em que o peão (homem) faz par com a prenda (mulher).


O CTG Farroupilha tem dezenas de troféus de festivais, e algumas de suas prendas já ganharam concursos nacionais. A prenda premiada é a aquela que estuda, participa, cozinha ou faz bordados.”


No Mato Grosso, a estrutura do movimento é a mesma. Nos festivais, apresentam-se as mesmas categorias, os concursos para prendas seguem os mesmos critérios. Em muitos casos não há como conseguir objetos originais do Sul, mas a tradição através dos CTG’s se mantém muito arraigada em vários municípios que têm maioria sulista.

 

Walmir Beck da Rosa, é relações públicas da Cooperativa Tritícola Serrana-COTRIJUÍ, Ijuí (RS), e conta sobre a atuação da cooperativa no estado, e no norte.


A COTRIJUÍ, foi fundada no dia 20 de julho de 1957, por plantadores de trigo. Cresceu, e hoje, aos 46 anos, conta com mais de 13 mil cooperados, em sua maioria mini e pequenos produtores. Atua nas regiões noroeste, fronteira oeste e Campanha. Tem capacidade de armazenagem de 700 mil toneladas. Recebe toda a produção agrícola dos cooperados, com destaque para soja, milho, trigo, arroz, aveia; na pecuária, granjas próprias distribuem leitões para associados que os terminam e entregam no frigorífico da cooperativa. A COTRIJUÍ fomenta a pecuária leiteira, recebendo 65 milhões de litros de leite/ano, que são repassados para a indústria.


O projeto de colonização da COTRIJUÍ visou a ocupação de 400 mil hectares de terras às margens do rio Irirí, em Altamira, no Pará. A idéia era transferir famílias - jovens de preferência - que não tinham perspectivas de produzir no Sul, por falta de área. Antes mesmo de receber a aprovação do INCRA e Ministérios competentes, houve denúncias da presença de índios nas glebas. Isto levou a COTRIJUÍ a mudar o foco e, em parte, muitos se transferiram para o Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, por iniciativa própria. Com essa leva de gaúchos para a região, a COTRIJUI e a COTRISA (cooperativa com sede em Santo Ângelo)  se estabeleceram no Mato Grosso do Sul. No caso da COTRIJUÍ, houve a incorporação de duas cooperativas, em Maracajú e Dourados. O crescimento horizontal foi rápido, e a ação se estendeu em toda a parte sul do Estado, com 16 unidades de recebimento. Essa ação durou de 1977 a 1989, quando se deu o chamado desmembramento. As Unidades da COTRIJUÍ- MS passaram a constituir uma nova cooperativa. Isso, no entanto não interrompeu a migração de famílias, atraídas pelo custo da terra e a boa adaptação de culturas tradicionais do Rio Grande, como trigo, soja e mesmo arroz. Primavera do Leste, à 230 km de Cuiabá, era colônia de Poxoréu, um município que fora muito rico até a década de 80, pela exploração de diamantes. O Rio das Mortes era passagem obrigatória para Minas dos Martírios, à margem do Rio Araguaia, para onde foram várias bandeiras em busca de ouro no século XVIII. Desde esta época, esta região já era bem conhecida, e aberta por alguns caminhos.

“A cidade nasceu do entroncamento da rodovia federal BR 070 e a estadual MT130”[62], que eram picadas intransitáveis, lamacentas. A rodovia BR 070, liga Cuiabá à Rondônia, Acre e Amazonas. A MT 130 liga o centro ao sul do estado. O entroncamento cresceu com o posto Barril, de Darnes Cerutti que também foi o primeiro prefeito quando da emancipação da cidade, e Divino Castelli; ambos são gaúchos, proprietários de diversos empreendimentos até hoje, que vieram do sucesso da distribuição de combustível, inclusive nas fazendas.


Cerutti veio com apoio do governo para aproveitamento do cerrado, e com financiamento do Banco do Brasil, que contava com um estudo de japoneses, que concluía que o Centro-Oeste seria o “celeiro do mundo”. Os juros do Pró-Terra eram de 7% ao ano, e a carência era de 2 a 3 anos. Na opinião de Cerutti, isto incentivou muito, os gaúchos a migrarem. A SUDAM não tinha projeto para Primavera do Leste, até porque, estava fora da demarcação da Amazônia Legal. O Pró-Terra ajudou muito na década de 70, “deu pra desbravar bastante”, diz Cerutti, que vê muita diferença no desenvolvimento de produtores que vieram com auxílio do programa, e os que vieram independentes na década de 80, com bastante dificuldade. Em Primavera, não deixaram de encontrar os mato-grossesenses bastante desmotivados com a inviabilidade de produção no cerrado. Realmente, diz Sr. Darnes, lutaram muito para conseguir plantar, gaúchos, catarinenses, paranaenses, e baianos que inicialmente estavam atrás do garimpo. Foi muito difícil conseguirem financiamento, pois nem membros do governo, inclusive do Banco do Brasil, acreditavam na viabilidade de plantio no cerrado.

O Prodecer, Banco Nacional de Crédito Cooperativo, incentivava um programa de desenvolvimento do Cerrado na década de 80. Também, através do Polonoroeste, o governo federal pretendia concentrar pessoas ao longo das BR’s.


Os colonos eram gaúchos (50% da população em 1994), catarinenses, paranaenses, goianos e paulistas, na maioria, filhos de imigrantes, e os catarinenses, filhos de gaúchos, chamados de “gaúchos-cansados”. Os mato-grossenses, até meados da década de 80, tinham o garimpo como principal atividade; com a escassez dos diamantes, foram trabalhar como braçais na lavoura e construção civil, aqueles que um dia haviam possuído muito dinheiro.


Começaram plantando arroz em 1973. Fiorindo Gasparotto, catarinense, já o plantava um ano antes. O grupo de Cerutti veio de Frederico Westphalen; segundo ele, “um puxou o outro”. Não eram uma cooperativa: cada família veio independente. Também vinham muitos gaúchos de Cruz Alta e paranaenses, que chegam até hoje. Os proprietários trouxeram parentes para trabalhar nas lavouras, pois achavam o ritmo dos mato-grossenses muito lento.


Sr. Cerutti diz que os primeiros migrantes foram muito bem recebidos em Poxoréu, que era a 5ª região eleitoral do estado, o que significa que é um município bastante antigo. A sua população não se sentiu ameaçada pelos chegantes. Ao contrário, perceberam que os sulistas vinham para investir. Cerutti não concorda que os que vieram do sul não tinham estrutura. Diz que alguns arriscavam, e a maioria destes foi embora, porque não veio para “encarar o Mato Grosso de fato”; mas a maioria já tinha fazendas grandes no Sul. Os que não foram bem sucedidos foram para o Piauí e Tocantins. Cerutti encontrou gaúchos em todas as regiões do Amazonas, Pará e Rondônia. Diz que quem tem uma vida bem estabelecida no norte, não tem planos de voltar. No início, no período das festas, debandavam para o Sul. Atualmente, os parentes que ainda vivem no Sul vêm passar as festas no norte, pois a maior parte da família já se mudou para lá.


Cerutti também afirma que a maioria dos migrantes não mexia com agricultura no sul (o que é contestado pelos outros entrevistados), o que significa que a saída do sul não trouxe danos para a economia sulista. Segundo ele, a principal causa da migração, era o tamanho das famílias, que se dividiam.


Por medo, que seus familiares incutiam, Sr. Darnes conta que na primeira vez que foi ao norte, levou carabina, dois estepes, um galão de gasolina; mas a região revelou-se lhe uma maravilha: diz que nunca passou por aperto.


Quando chegou, Cerutti comprou uma fazenda de 2000 hectares na divisa de Primavera com Paranatinga. Em 1973, ocorreu uma enchente muito grande, e não se podia passar pelo Rio das Mortes. Então, Sr. Darnes mandou trazer muitas coisas para começar a construir uma sede. Fez um reconhecimento de dez dias, e gostou particularmente do lugar onde hoje vive, município de Primavera do Leste, e resolveu investir. Abandonou a fazenda. Encontrou parte dos proprietários desta região em Poxoréu; o outro, Abino Pandolfo, era do Sul; havia comprado a terra na planta, sem nunca a ter conhecido. Esta prática era corriqueira: o próprio governo federal vendia à partir de imagens aéreas. Sr. Darnes encontrou amigos de Frederico Westphalen em Cuiabá, e sugeriu que fossem conhecer aquele local, então chamado de “Esquina Boa Vista das Placas”. Estes amigos também gostaram e compraram terras. Um dos compradores era Antonio Russi, então deputado estadual do Paraná.


As primeiras casas eram de pau-a-pique, adobe e madeira. O primeiro loteamento: Cidade Primavera, foi feito por Edgar Cosentino, paulista de Piracicaba. Os sulistas cobravam as mesmas benfeitorias que tinham em suas terras natais, e ajudavam a construir, por esse motivo, os padrões das habitações ficaram muito próximos do sul: no início, casas de madeira, sempre com varanda para a hora do chimarrão.


Sr. Cerutti foi o primeiro prefeito do município de Primavera do Leste. No sul nunca havia exercido cargo político, só havia ajudado um candidato: tinha uma empresa grande de cargas, com filial em São Paulo. Ele lembra que naquela época ninguém queria ser funcionário público. Exemplifica: “o atual secretário executivo do prefeito tinha três funções na prefeitura”. A primeira ação do prefeito foi comprar uma indústria de manilhas para bueiros e um trator de esteira, uma carregadeira e caminhões de caçamba, para trabalhos no interior, pois até então o governo não tinha conseguido nem consertar uma ponte, apesar da agricultura andar muito bem. Cerutti comprou um caminhão de lixo, mas não havia lixeiro disponível: todos estavam pensando mais alto. Ninguém se mudara com tanto esforço para o norte para ser lixeiro, em vez de proprietário, conta.


Antes da emancipação da cidade, só havia uma escola em Poxoréu, e uma estadual em Primavera, que porém eram muito precárias. A primeira prefeitura construiu 12 escolas no interior e formou professoras. O município passou a ter biblioteca, polícia militar, telefone e poços artesianos funcionando.


Os loteamentos já estavam demarcados antes da emancipação. Não havia coleta de lixo, jogava-se na rua.

Sr. Cerutti considera que conseguiu muita ajuda do governo estadual porque apresentava projetos para o município, em vez de pedir destituição de cargos, como era de praxe nos outros muincípios.


Primavera do Leste foi emancipada em 13 de maio de 1986. O processo foi presidido por Darnes Cerutti, por aclamação de 200 pessoas; passaram por forte inspeção do IBGE (fiscalização de divisas, número de leitos em hospitais, população, produção), que em seguida emancipou várias cidades formadas só por uma rua, que não atendiam às exigências deste órgão. Isto ocorreu porque no dia seguinte à emancipação de Primavera, foi promulgada a lei de que as emancipações seriam feitas pela Assembléia Legislativa, então as pequenas vilas também foram emancipadas. Esse fato nos deixa claro, que a emancipação das cidades era feita em levas regionais.


Sr. Darnes diz que o governo não tinha intenção de emancipar estas cidades; Eram 22 vilas pedindo emancipação. Primavera do Leste e Sorriso “atropelaram o processo” diz o prefeito. Era requisito que houvesse pelo menos 7.600 habitantes; nenhuma das vilas tinha, e mesmo assim conseguiram.


Sr. Cerutti diz que o INCRA nunca teve atuação em Primavera, pois a cidade não fazia parte de projeto do governo de abertura de fronteiras agrícolas e reforma agrária.


Em 1996, era a 5ª economia, e a maior produtora de grãos do estado. Em 1997, a população era de 20.996 habitantes, em 2002, já havia saltado para 50.000 habitantes.[63]  A cidade cresce economicamente, 17% ao ano, e 100% em população. Hoje, 50% das ruas são asfaltadas. Há abastecimento de água em 43% das casas. Este dado é bem visto por uns e mal visto por outros, que não admitem que em uma cidade de qualidade de vida tão boa, não haja abastecimento à todos. Diz-se que só não se abastece a quem não interessa, o que indica que há um grupo proporcionalmente grande de excluídos do interesse dos agro-industriais e do governo.


Atualmente, o município tem uma cooperativa de crédito, 3 hospitais particulares, 5 postos de saúde na cidade, e dois no campo e um pronto socorro. Há 19 escolas e várias quadras esportivas. Há uma emissora de televisão.


Sua posição geográfica possibilita que seja um entreposto comercial e de abastecimento.


A terra do cerrado não era fértil. As comunicações oficiais sobre a cidade dizem que é fértil, até hoje, para continuar atraindo produtores e investidores. O secretário da agricultura de Primavera, Luiz Nery, no entanto é veemente ao dizer que a terra não é ideal para plantar, porque é plana e arenosa, mas que conseguiram-se muito bons resultados à partir de pesquisas, principalmente dos próprios agricultores, pois a Embrapa e a Empaer: Empresa Estadual de Pesquisa de Expansão Rural, não tinham recursos suficientes, o que levou à abertura de fundações especializadas em pesquisa. Justamente pelo fato da terra ser arenosa, era vendida a preços baixíssimos, muitas vezes em troca de um carro velho, diz Nery.


Os gaúchos introduziram a soja no norte do país porque as áreas no sul eram muito pequenas, em torno de 100 hectares. Nery diz que a maioria dos migrantes tinham tradição agro-pecuarista.


Através das pesquisas das fundações privadas, foi introduzido, em 1994, o algodão, que é forte agregador de mão-de-obra, mesmo que a colheita seja mecanizada. O algodão veio preencher o período de ociosidade da terra, de abril a setembro. Assim alternam-se as culturas da soja, que cresce no período da chuva, e do algodão, que cresce na seca. Dessa forma, os plantadores que voltavam para o sul e continuavam atividades de pouca lucratividade, ou mesmo sem lucratividade, mudaram com suas famílias para o norte.


As principais atividades agrícolas ali são: a soja, com colheita de 811.200 toneladas de grão em 2004; o milho, o arroz, e gado extensivo, com abate de 1 milhão e 700 mil cabeças no mesmo ano. Os novos projetos são de vinicultura e suinocultura. O primeiro objetivo da atual prefeitura é a industrialização total da agropecuária. A Câmara Municipal aprova incentivos fiscais a empresas agro-industriais e serviços que queiram se instalar.


É renitente a queixa com relação ao escoamento das safras, que concentra-se na mão de quatro empresas, das quais três são norte-americanas. Estas multi-nacionais também controlam a venda de insumos agrícolas, diz Luiz Nery. A frustração é ainda maior porque a área plantada no Mato Grosso é proporcionalmente maior que de qualquer estado norte-americano.


Atualmente, as principais atividades da cidade são: serviços automobilísticos, calçados e confecções, e venda de insumos agrícolas. A cidade é planejada, com ruas bastante largas. As construções, na maioria dos casos são feitas em lotes previamente demarcados.


A praça maior tem um grande espaço de lazer, e nela fica a primeira igreja construída, que é católica.


O Sr. Castelli, sócio de Cerutti do posto Barril, chegou em Primavera em 1975, também vindo de frederico Westphalen, onde era motorista de caminhão, quatro meses depois de Cerutti. Encontrou apenas o cerrado e uma pensão velha, onde morava um senhor de horizontina. Quem tinha fazenda vivia lá.


Assim como Cerutti, Castelli também recebeu financiamento do Banco do Brasil, com 7 anos para pagar, com juros de 7% e 2 anos de carência. Ele também afirma que foi difícil, pois nem o banco acreditava no projeto. Não havia nem critério de financiamento, pois só havia 4 ou 5 lavoureiros. Sua primeira atividade foi o plantio de arroz. Em 1977 passou a plantar soja.


Com o tempo, comprou “o lado direito da BR 070”: um terreno de 340 hectares.


O posto de gasolina foi aberto em 1976. No começo da década de 80, Sr. Castelli começou a investir em serviços: abriu dois hotéis, e um restaurante. Castelli diz que a vida era boa no sul, mas que o seu amigo (Cerutti), o incentivou muito a vir. De fato tiveram muito trabalho, pois estavam começando do zero.


Na década de 70, a rodovia era razoável, diz Castelli, mas com o transito pesado e as chuvas, o asfalto gastou e ondulou, deixando praticamente intrafegável em vários trechos, principalmente na época da chuva, na década de 80 e até hoje.


O Sr. Castelli acha que os gaúchos eram mais unidos no início, provavelmente para juntarem forças em caso de necessidade, e para manter a cultura, mas diz que hoje, permanecem mais em família, pois os moradores já vêm de todas as regiões, o que dificulta um pouco a manutenção da identidade gaúcha. Considera que o relacionamento dos gaúchos com os outros habitantes é bom.


Nem Cerutti, nem Castelli participam do Centro de Tradições Gaúchas, mas lhe são simpáticos.


O Sr. Carlos Szadkoski, também de Frederico Westphalen, veio para Primavera do Leste em 16 de junho de 1980, com toda a família. No Sul, tinha uma pequena propriedade onde plantava feijão, fumo e milho. É cunhado de Divino Castelli, e veio à seu convite para trabalhar em sua fazenda. Diz que Castelli acolheu muitas outras pessoas. Sr. Carlos acha que o trabalho aqui era melhor porque já havia maquinário, enquanto no sul, só havia tração animal ou manual. Ele considera que não teve problemas na instalação, e não pensa em voltar a morar no Sul, principalmente por causa do clima no Rio Grande do Sul, que é difícil.


De 1982 a 1984, foi ao centro de Primavera para trabalhar com construção civil. Construiu a própria casa, o Hotel Barril, de Castelli e à partir de 1983, as instalações da igreja: casa paroquial, creche, sala de catequese, o que durou 6 anos. Nestes anos, só havia a igreja católica. A luterana foi trazida pelos gaúchos posteriormente.


Sr. Carlos comprou, em 1980, uma franquia da empresa de ônibus Fredtur, que vinha do Sul ao Mato Grosso uma vez por mês, e depois quinzenalmente. Naquela época, lotavam-se ônibus para trazer sulistas que vinham diretamente comprar terras no Mato Grosso. Dentro do ônibus, “era como uma família, todos se conheciam, diz Sr. Carlos. Hoje a empresa chama-se Merlo Bus, com sede em Cruz Alta. Vêm ônibus 3 vezes por semana para Primavera. No fim do ano, tradicionalmente, chegam 3 ônibus por dia, em Primavera, para as festas. São 32 horas de viagem.


Sr. Carlos também comprou uma chácara, e tem um loteamento, que comprou sem incentivo do governo.

 

O Sr. Aracy Damo é dono do restaurante da rodoviária. Descendente de italianos, era frentista em Frederico Westphalen, depois de ser agricultor. Em 1948, comprava açúcar e laranja. Seus tios eram ricos, então faziam negócios com São Paulo e Rio de Janeiro. Como não tinha técnica de plantio de frutas, foi trabalhar em um frigorífico. Foi para o norte pela primeira vez em 1971. Em 1975, Sr. Damo comprou uma fazenda em Gurupi, no atual Tocantis, ex-Goiás. Ele permaneceu por dois anos na fazenda, e sua família ficou no Sul. Foi expulso da terra porque sua escritura era falsa.


Já em 1980, comprou uma fazenda de 5000 hectares em Barreiras, na Bahia. Novamente, permaneceu por dois anos, e perdeu tudo, pois uma usina de açúcar da região se dizia dona da terra. Para comprar as fazendas, tinha vendido os caminhões, então quando voltou, teve que trabalhar como empregado.


Em 1984, foi para Primavera do Leste com a família. Tinham cem cruzeiros. Construiu um barracão com lixo de serraria, onde morou por quatro anos. Usava emprestado o banheiro onde os saqueiros (transportadores) tomavam banho. Não havia nada, nem lavoura, apenas o posto e a igreja.


Em abril de 1985, foi trabalhar no bar da rodoviária, construída nesta época. Começou a juntar dinheiro e arrendar um espaço. Com o fruto desse investimento, conseguiu abrir três churrascarias, e com a venda delas, comprou uma fazenda de soja, milho e pasto, com colheitadeira e oito tratores. Atualmente ele planeja construir uma hidrelétrica na fazenda, que renderá  R$500.000,00 por mês.


Hoje ele acha que restaurante não vale a pena, pois exige muito trabalho, e gasta-se muito. Esta atividade foi freada no governo Collor, que afetou muito a economia. As empresas faliam e os caminhões não vinham mais.

O governo nunca deu dinheiro, diz Sr. Damo. Acha que o MST é uma fantasia, que o povo precisa de outra instrução; que o governo não pode dar tudo, mas pode auxiliar.


Sr. Damo acredita que seu sucesso se deu pela vontade de ganhar, e pela crença em Deus. Não considera característica dos gaúchos querer vencer, mas que conseguem porque “nasceram trabalhando”. Ele não frequenta a instituição da Igreja, mas acredita fielmente em Deus, principalmente depois de ter sobrevivido à quatro enfartes.


Sr. Damo está convencido de que nordestinos não têm instrução por natureza, e que são bem diferentes dos sulistas. Que mesmo tendo chegado como proprietários, 30 ou 40 anos antes dos sulistas, permaneceram no ritmo dos goianos (mato-grossenses também são chamados de goianos, como generalização, apenas para distinguir dos sulistas) o que não os levou a construir nada.


De 40 a 60 km de Primavera, há duas aldeias Xavante e uma Bororo, considerada por Cerutti bastante grandes, de 800 a 1000 hectares respectivamente. A frequência de índios na cidade é muita. Vêm em 2 ou 3 caminhões e fazem compras com o dinheiro que ganham do governo, segundo Cerutti. Passam o dia todo e depois voltam para as aldeias. O relacionamento com os sulistas e goianos é amigável, mas cada grupo permanece em seus limites, de uma certa maneira. Sr. Damo diz que se não se impuser limites, os índios invadem. Houve um conflito de terras entre xavantes e o vice-prefeito, Ernesto Ruaro, em sua fazenda. Sr. Cerutti diz que, atualmente, os Xavantes estão pedindo uma demarcação de terras muito grande, terras estas que são produtivas, mas espera que o governo seja sensível e não dê, porque se o índio vive de caça, não encontrará mais nada, já que a terra está toda plantada.


Marcos Antonio Teixeira de Vargas, de Tupãciretã (RS), onde era  funcionário do Banrisul, veio em maio de 1982 procurando melhores  opções. Seu sogro era agricultor,  e convidou-o a ir. No inicio foi muito difícil, conta Marcos. Foram 3 dias de viagem, não tinha água, luz, nem telefone; havia 16 casas. Tudo o que precisavam, deviam procurar fora.


Marcos veio com toda a família. Os cunhados, o sogro e a sogra já haviam migrado. Um puxou o outro, diz. Todos acreditavam que ia dar certo, porque “gaúcho tem espírito aventureiro.” Mas não achavam que ia ficar como ficou hoje. Na sua região no Sul, a principal atividade era a pecuária. Sua família não tinha muitas perspectivas. São 8 irmãos; esta é outra razão pela qual optou tentar a vida em Primavera do Leste. Seu sogro, que também tem 6 irmãos, e dos quais, atualmente só um vive no Rio Grande do Sul, veio em 1982. Em meados da década de 1970, já tinha uma propriedade no Mato Grosso do Sul. Em 1979 comprou uma propriedade na região. Viu uma placa anunciando a futura cidade de Primavera, em 1980, e comprou a propriedade onde vive e trabalha a família toda no momento, que hoje está na cidade. Um irmão voltou por motivo particular. Marcos conta que algumas famílias vieram e voltaram porque não se adaptaram; ele conhece uma família que veio em 1985, e voltou para o Sul, e agora ele os reencontrou em Primavera.


Marcos acredita em duas causas de migração: “havia quem tinha dinheiro e não tinha onde investir, porque os espaços estavam ocupados e acharam que se saíssem, teriam condições. Outros fugiram de dívidas, de problemas, por não ter opção.”


Não tiveram apoio do governo. No mandato do governador gaúcho Blairo Maggi, está havendo uma política creditícia.


Há muita discriminação contra o gaúcho na opinião de Marcos. O modo de lidar é pejorativo, “porque nós tomamos o espaço deles. Teria o cerrado há 20 anos atrás, não teria pecuária, como regiões do Mato Grosso que estão engatinhando.” Há uma tensão entre matogrossenses e gaúchos, mas nada muito sério. A sua agricultura era de subsistência: “mandioca, arrozinho manual, gado, só o quanto o animal tinha resistência. O Mato Grosso começou mesmo há 20 anos.”


Existem problemas com os índios, que não aceitam a colonização, “mas não trabalham, não fazem nada.” Marcos diz que o Governo Federal dá muito apoio: semente, adubo, maquinário, que não usam, e vendem. É uma quantidade de terra inaproveitável, segundo Marcos. Usam tudo o que o homem branco usa, bebida alcoolica, etc. Não reivindicam terras, mas invadem propriedade, põem fogo, matam vaca.


Com relação ao MST não há esse problema, apenas próximo de Rondonópolis, porque a região é de pecuária, então aparentemente não se explora muito a terra. Marcos acredita que o MST seja um problema para o país, porque 99% não é de agricultores. “O Governo, dá cesta básica, e vão de acampamento em acampamento.”


“O tradicionalismo está no sangue. O Rio Grande do Sul tem uma historia, mais marcante, que é a Revolução Farroupilha, que todo mundo conhece, uns mais, outros menos: gaúcho é desbravador, sempre lutou pela terra, por melhores condições de trabalho no campo. Hoje continuamos cultuando as tradições, com fandangos e rodeios.” Como sua região era mais de pecuária, sentem necessidade de difundir esta cultura. Em 1983, fundou um CTG com outras pessoas.  Toda cidade começou a construir e fazer rodeio na mesma época. Então foi criado o MTG: Movimento Tradicionalista Gaúcho,  no Mato Grosso, que é o órgão que administra os CTG’s. Ninguém migrou em função disso, mas hoje chegam a trazer instrutores de dança. O MTG é dividido em 6 regiões. Primavera do Leste, Paranatira, Campo Verde, Jaciara, Rondonópolis, Itiquira, Alto Garças Tianguiratinga fazem parte da segunda região. Existem regulamentos, e cada estado tem um MTG. São filiados à CBTG: Confederação Brasileira de Tradição Gaúcha, que atualmente fica em Porto Alegre, porque o presidente hoje é de lá.O critério de escolha para a presidência é a eleição. Todo ano há convenções e congressos para eleger o presidente. Na parte de rodeio todos os anos há eventos de nível nacional.

 

Não se pode deixar de mencionar uma comunidade de paranaenses de origem russa, que fica à 30 km de Primavera. Eles trabalham na lavoura e são auto-suficientes. Mantém a tradição, inclusive no modo de vestir.

 

SINOP

 

Marcelino Marquem, de Frederico Westfalen, no final da década de 60, vendeu 20 hectares no Sul, e comprou 300 hectares em Cláudia, cidade madeireira da Gleba Celeste. Com a ajuda da mulher, Sirlei, derrubou 30 hectares de mata com o machado, e fez uma roça de mandioca. Ficaram isolados na mata por um ano. Sirlei morreu de tétano, por falta de assistência médica. Continuou e casou-se com Anilda, de Soledade (RS). Viveram isolados na selva por seis anos; só plantavam para comer, porque não havia compradores. Anilda morreu de hepatite. Merquem se deu conta de que era impossível plantar na selva. Vendeu tudo e foi trabalhar como peão nas fazendas da região; também foi garimpeiro, e conseguiu juntar um pouco de dinheiro. Tornou-se madeireiro e hoje é um pequeno empresário. Comprou vários apartamentos em Sorriso, à 80 Km de Claúdia, o que sustenta seus 14 filhos.*


Sr. Dirceu, nascido em Erechim (RS) e sua esposa, de Santa Rosa (RS), vieram para Sinop em 12 de julho de 1973. No Sul, trabalhava na roça. Naquela época, Sinop tinha sete casas. Antes de mudar-se, morava no Paraná, onde era marceneiro, havia 13 anos, após ter passado também dois anos em Santa Catarina, para onde foi com 16 anos. Ficou sabendo de Sinop pela propaganda no rádio. Os corretores da colonizadora iam de cidade em cidade para vender lotes, conta. Sr. Dirceu veio através do Grupo Sinop. Os primeiros que chegavam ganhavam terreno, porque precisavam de gente para cortar madeira e limpar o terreno. Mas quando o Sr. Dirceu chegou, já teve que pagar. O governo dava incentivo à colonizadora, não aos migrantes.

Morava no centro, com a família, “mas era só mato: morava em baixo de um barraco com lona plástica”. O chuveiro era um balde d’água na árvore. A água era de poço. A enregia elétrica só veio há aproximadamente 10 anos atrás: era o “Linhão” de Cuiabá.


Em 1974, trabalhou na construção de hotéis, que foi sua atividade por 10 anos. Ao todo, construiu 59 casas. Posteriormente, abriu uma loja para serraria e uma oficina, mas o negócio faliu, e o Sr. Dirceu passou a ser funcionário público, há 10 anos.


A BR 163, em 1973, de Cuiabá a Sinop estava em boas condições, conta Sr. Dirceu, mas à partir de 1976, piorou muito porque chovia muito, o cascalho saía, e não havia reposição.


Sua família levou 8 dias para chegar do Paraná à Sinop. Quando vieram, diz, eram 2 famílias. No mesmo ônibus, voltaram 8 de Sinop para o Sul. Em outra leva de transporte, voltaram mais 7 famílias para o Sul, pois não crescia nada na terra.


Sua família voltava para o Paraná quase todo ano, mas para o Rio Grande do Sul, não voltavam havia 23 anos. Sr. Dirceu conta que no Herval Grande (RS), tinha de tudo, quando saíram, “e agora não tem nada”. Explica que grandes fazendeiros estão comprando as pequenas propriedades para plantar pasto. Seu irmão ainda tem um aviário, mas o resto de sua terra está arrendado.


Sr. Dirceu tem orgulho de seu filho fazer faculdade. “De noite no barracão via a onça passar, morria de medo, mas não podia voltar. Hoje de jeito nenhum a gente anda pra trás”.


A irmã mais velha de Sr. Dirceu vive no Pará: comprou um lote de floresta em Progresso, há menos de um ano.


O Sr. Machado, que chegou em 1975, trazia frutas e verduras do estado de São Paulo, e o faz até hoje. Vendia, de início em mercearias, depois abriu um pequeno supermercado, e hoje tem 4 supermercados em Sinop e um em Colíder, um município próximo, também loteado pela colonizadora de mesmo nome.


Dna. Clara, saiu de Cerro Alto no Rio Grande do Sul com 11 anos e foi para Medianeira, no Paraná. Quando casou-se, foi para Sinop. Chegou em 1976 de “mala e cuia”. Ela e o marido trabalharam num “pica-pauzinho”, pequena madeireira. Viviam no meio de um mato, que hoje é o centro, conta. Depois tiveram açougue, fazenda, e por fim, investiram em fábrica de ração, até hoje, além de uma loja de produtos agro-pecuários, a Campo e Lavoura.


Dna Clara e o marido, nunca tiveram terras, vieram sem nada. No sítio da família, criavam porco e plantavam um pouco.


No caminho para o Mato Grosso, fizeram várias travessias de barco, porque os rios alagavam os caminhos. As viagens costumavam durar 5 dias em época de chuva.


O casal fundou o Centro de Tradição Gaúcha-Querência da Amizade, de Sinop, junto com outros dois casais. Conta que no Sul não eram muito participativos no Movimento Tradicionalista Gaúcho, mas em Sinop, sentiam falta de um espaço que unisse os gaúchos.


O Sr. Nilson e e a Sra. Ilma Kempf, chegaram de Tenente Portela em 1985, com toda a família. No Sul, plantava soja, trigo e milho em 58 hectares de propriedade. Em Sinop, começou a plantar soja, arroz e milho, em 968 hectares, que comprou com a venda do terreno no Sul. Contam que a cidade era só barro e poeira: “de dia faltava água, de noite faltava luz”. Em 1986, já tinha asfalto de Cuiabá até Itaúba, ao norte de Sinop. Quando os Kempf chegaram, já havia 800 madeireiras em Sinop.  Havia também 2 ou 3 escolas até o ginásio, e dois hospitais. A eletricidade era gerada a motor. O esgoto, até hoje é fossa, mesmo em um dos melhores bairros da cidade, onde vivem.


Contam que em Tenente Portela, a vida era boa, mas que a terra era pouca, e a família não tinha espaço para expandir.


No começo, os Kempf não receberam financiamento, porque os órgãos públicos não acreditavam na agricultura em Sinop. As principais atividades eram madeira e pecuária. Pensaram em mudar para Canarana, mas tiveram receio, pois lá vivia gente que não tinha terra e vivia numa área indígena, o Toldo do Guarita.


As primeiras notícias sobre Sinop que tiveram, foram através de jovens que foram fazer um retiro em Santa Catarina. Um jovem disse ao seu sobrinho e seu filho, que a terra era barata e boa. A família foi à Sinop, que lhe agradou. A propriedade do sobrinho foi posta à venda, e o filho também foi. Sr. Nilson pensou: “se é bom para vocês, é bom para nós também”.


Entre 1988 e 89, houve uma forte crise; o filho quis vender a terra em Sinop e voltar para o Sul; seu pai disse: “alemão é teimoso, vamos ver no que vai dar!”


Entre 1986 e 89, o preço da terra no Mato Grosso caiu pela metade, e no sul continuava aumentando. Atualmente, os terrenos do norte valem mais que os do sul.


Os Kempf consideram que o relacionamento com os não sulistas é bom, que não existe bairrismo. De fato, como Sinop cresceu muito, e é uma cidade mais antiga que as outras de colonização sulista, portanto, as tradições estão mais diluídas, pelo grande aporte de migrantes de todas as regiões.


A saída do Rio Grande do Sul não afetou a economia do estado, até melhorou, segundo Sr. Kempf, pois aliviou a tensão no campo, já que muitos migraram. Muitos não aguentaram e voltaram. Havia a malária, que matou muitos gaúchos, mesmo que houvesse uma central do meio ambiente que tratava com medicamento.

O sonho do Mato Grosso é terminar de asfaltar a Cuiabá-Santarém. Entre 1983 e 84, o governo asfaltou 600 Km, e até hoje a obra não foi terminada. Kempf observa: “A distância até o porto de Paranaguá, no Paraná (atual escoadouro de safra) é de aproximadamente 1800 Km, até Santarém, são aproximadamente 1000 Km. A Cargil está construindo e presta serviço lá.” A estrada até Santarém não está asfaltada, e os moradores que vivem de agricultura no centro-oeste e norte, reivindicam o asfaltamento, para que o escoamento seja feito em Santarém, de forma mais rápida e barata.


Os Kempf não pensam em voltar para o Sul, mas dizem que os jovens portelenses estão todos saíndo, ou para Porto Alegre, ou para o Paraná, Santa Catarina; ou para colher fruta fora da cidade, onde estão permanecendo só os idosos.

 

LUCAS DO RIO VERDE

 

O Sr. Antonio Fraga Lira, de Lagoa Vermelha (RS),  foi um dos grandes defensores da criação do distrito de Lucas do Rio Verde.


Foi para a região de Lucas do Rio Verde em 1976, quando era município de Diamantino. Quando chegou, com seus dois irmãos, tinha 18 anos e era solteiro. Seus pais ficaram no Sul. Queriam comprar terras no Mato Grosso, inicialmente em Jaciara, mas o corretor trouxe seu pai para Lucas, e ele se entusiasmou.


No Sul, eram pequenos agricultores, tinham uma lavoura de subsistência, de milho e soja, em 120 hectares a serem divididos entre 6 irmãos; a tração não era mecânica. Plantaram arroz (monocultura mecanizada) no início, até 1981, quando iniciaram com a soja. Fraga Lira conta que não havia ninguém morando alí: eram os primeiros. 


A vida era difícil, porque Diamantino ficava à 220 Km de distancia de Lucas do Rio Verde. O posto de gasolina mais próximo ficava em Mutum, que na época era a fazenda Mutum.


Em 1981, quando começou o assentamento do INCRA, sua terra foi desapropriada, e Lira e sua família receberam o status de posseiros; mesmo que reconhecidos pelo INCRA como proprietários, perderam uma parte da fazenda. Isto só ocorreu porque já haviam aberto a mata, o que lhes dava direito à uma parte da terra, que perderiam caso contrário: inicialmente tinha 3600 hectares, depois ficou com 2200. “Afetou um bocado” avalia Fraga Lira.


Sua terra  não era uma posse, diz. Foi paga ao proprietário, Cláudio Leonardi, de Cuiabá, que nunca havia entrado na terra. Mesmo com escritura, o INCRA desapropriou e não ressarciu, conta.  Sua fazenda estava próxima de uma grande área devoluta da União, então, outras fazendas foram “engolidas” pelo projeto de assentamento.


A primeira missa católica de Lucas do Rio Verde foi celebrada na fazenda dos Fraga Lira, a 35 Km de Lucas, em 1983.


Foi o primeiro vereador do município, emancipado em 4 de julho de 1988.


O Sr. Fraga Lira não se queixa de nenhum conflito por terra. Hoje continua plantando soja, comprou outras propriedades, como no Pará, em Castelo de Sonho, cidade muito colonizada por gaúchos, onde cria gado bovino.


Sua família manteve a tradição gaúcha, mas não com muita assiduidade. Eles não pensam em voltar para o Sul.

 

O Sr. Ildo Romancini, criado na roça, morando com os pais, plantava trigo, cevada, milho e feijão. Eram 9 irmãos para dividir 40 hectares. Fez parte do primeiro acampamento do Movimento Sem-Terra do Brasil, em 1981, na Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta, onde viviam 650 famílias de desapropriados de Passo Fundo, Sarandí e Ronda Alta, e também os “afogados” da hidrelétrica de Passo Real.


O Major Curió montou barracas do exército na Encruzilhada e abriu o projeto em Lucas do Rio Verde.


Vieram em família entre 1981 e 82, juntamente com outras 21 famílias, assentadas em lotes de 200 hectares.


A viagem durou 2 dias e foi integralmente paga pelo INCRA. Inclusive seus pertences foram trazidos em caminhões, também pagos, que no entanto demoraram 6 dias para chegar.


Os assentamentos iniciaram-se em 1980, e os últimos parceleiros foram para Lucas do Rio Verde em 31 de maio de 1982. A maioria dos sem-terra da Encruzilhada Natalino ficou no Rio Grande do Sul, onde nasceu Nova Ronda Alta, que recebeu 34 famílias.


Das 213 famílias de sem-terra que foram, hoje só restam 12. Muitas voltaram pelo abandono: não houve assistência, conta Sr. Ildo. Seis de seus irmãos vieram; ele foi o primeiro, considerado louco.


O desenvolvimento de Lucas do Rio Verde se deu em grande parte por causa de onde estava instalado o 9º BEC, segundo diversos entrevistados.


O Banco do Brasil deu crédito para plantar arroz em 25 hectares, em 1982, mas aquela safra foi muito ruim e muitos não puderam pagar. Assim, o Banco abandonou os financiamentos. Hoje, o preço da saca de soja é em média US$ 9,00. O que em 1985 valia US$ 2000 em sacos de soja, hoje vale US$ 2.400.000.


O INCRA tinha um escritório em Lucas do Rio Verde. É voz corrente que o executor, o comandante Ferreira, mandou matar muitos caboclos posseiros. Uma parte dos terrenos, que estava em área do Estado, foi dada aos posseiros. Romancini afirma que não houve confronto com os índios.


Cada família recebia uma casa de 4 por 5 metros, no sítio. “Lote rural, ninguém ganhou.” Assistência para produção, não tinha. Não dava para trabalhar manualmente, só catar raíz. Catei raíz, fiz poço”, conta Romancini. No primeiro ano de assentamento, não se falava em soja. Colheram a primeira safra de soja da região em 1985.


O próprio Sr. Ildo comprou dois lotes dos parceleiros, porque estavam baratos, na época do arroz. Diz que havia gente que vendia lotes pelo preço da passagem de volta para o Rio Grande do Sul, e mais um pouco. Ele considera que a venda dos lotes deu mais estrutura. Que “se freia em torno de uma classe de pouco poder aquisitivo, freia o progresso.”


Vendia-se a terra à 2000 ou 3000 reais. Mas o próprio Romancini, nunca vendeu, sempre agregou propriedades.


A Cooperlucas, uma cooperativa, formada por um grupo de paulistas, loteou Itambiquara, região muito próxima à que viria a se chamar Lucas do Rio Verde, em 1982. Para este programa, vinham colonizadores com mais recursos. Os parceleiros recebiam 50 hectares de financiamento, enquanto os do INCRA recebiam 25 hectares. Mesmo assim, das 50 famílias que foram para lá, apenas 4 permaneceram. Em época de crise, no fim dos anos 80, muitos voltaram: a terra ficou 5 anos parada, observa Romancini.


Sr. Ildo conta que o INCRA, nos primeiros quatro meses, dava cesta básica, até o começo do financiamento. Participou por um ano e meio da estruturação do município. Segundo Romancini: “fez o trabalho dele”.


“No primeiro ano, não havia nada. Depois, o município de Diamantino fez escola. Telefone, só havia em Diamantino, e levava-se um dia apenas para voltar”, lembra Sr. Ildo.


A BR 163 foi asfaltada em 1985. Os buracos que se abriram pela carga pesada e excesso de chuvas eram chamados de “Cabeça do Figueiredo”.

 

Dna. Jessi e Sr. Bromildo Lawisch, de Santo Ângelo (RS), vieram pela primeira vez à Lucas do Rio Verde em junho de 1984. Tomaram conhecimento da cidade através do filho, que estudava agronomia e os convidou a conhecer o Centro-Oeste. Ele se mudaria de qualquer jeito, então os pais resolveram acompanhar.


Em 1984, compraram a terra e contrataram alguém para ficar o ano todo. Sr. Bromildo vinha apenas na época do plantio e da colheita. Quando o filho se formou, se mudaram definitivamente para Lucas em 1988. “Partimos da estaca zero”, diz Dna. Jessi; a mudança foi aos poucos, não trouxeram tudo. Também ficaram com muitas coisas dos parceleiros de quem compraram a terra, como móveis, animais e a casinha. Ampliaram a casa. Trouxeram maquinário. Conta que era muito sofrido porque não tinha nada.


Os Lawisch viram a cidade crescer do nada. Apenas havia a estrutura do INCRA: casas, posto de saúde, telefone –“só havia um, e tinha que se inscrever para falar; às vezes se inscrevia de manhã, e só era atendido à noite. Mas a estrutura do INCRA funcionava, era preciso, pois era a única estrutura que havia. Tinham que trazer alimento e pessoal de lá “porque o pessoal daqui não queria trabalhar”. Dna. Jessi considera o sulista muito distinto do nativo.


A cidade partiu de um assentamento feito pelo INCRA para parceleiros. Hoje, ainda há entre 9 e 11 famílias deste grupo. Eles não queriam ficar porque a cidade nem existia. Quem vendeu seus lotes, entrou na fila para receber outros lotes, e alguns foram para Terranova, conta Dna. Jessi. Todos os lotes tinham 200 hectares, e custavam 20.000 cruzeiros. Cada lote rural comprado dava direito a um lote urbano. Sua família comprou 6 lotes. Quando chegaram, exerceram a mesma atividade que no Sul, a agricultura de pequeno porte: plantavam trigo, soja, criavam gado leiteiro, e suínos, em duas propriedades de 113 e 61 hectares, das quais a maior ainda possuem. Tiveram que vender apenas algumas áreas para vir para o norte. No sul, sua situação econômica era regular; a lavoura era mecanizada. Vieram com o interesse de aumentar o patrimônio.


O acesso era muito difícil, conta: Apenas de Cuiabá até Lucas, eram dois dias de viagem, porque não tinha asfalto. Tinham que pernoitar em Nobres. No total, de Santo Angelo até Lucas, levavam  uma semana para chegar, em meados da década de 80.


Em Lucas, cultivaram soja e arroz, dos quais o último não plantam mais. O governo orientava a plantar arroz em seguida da derrubada do cerrado.


No primeiro ano, “quebraram” porque plantaram soja diretamente após a derrubada, e a colheita foi muito fraca. Tiveram que vender quase metade da propriedade para saldar dívidas e continuar plantando.


Introduziram, juntamente com o atual prefeito, a suinocultura e o gado leiteiro.


Atualmente, vivem na fazenda, cuja lavoura arrendaram, e que fica à 2,5 Km da cidade. Possuem um escritório da fazenda grande, que fica à 70 Km da cidade, onde plantam soja, milho e algodão.


Uma ex-aluna de Dna. Jessi (professora e diretora na rede pública), trabalhava no INCRA, e lhe contou que os parceleiros que haviam recebido terras, estavam vendendo-as, além de falar muito bem da cidade. Dna. Jessi afirma que a maioria dos que compraram parcelas em Lucas do Rio Verde era do Sul. As terras, no início, eram vendidas muitas vezes, em troca de um carro. Já quando Dna. Jessi chegou, diz que pagou caro, e parcelado.


Em 1979, os terrenos não estavam loteados ainda.


Segundo Dna. Jessi, o INCRA ajudava os parceleiros: dava financiamento, calcário, instalação sanitária (casinha) com poço, banheiro pré-moldado, posto de saúde, mercado da COBAL, e talvez até uma quantia em dinheiro, porque o objetivo do governo era povoar a região. Já para os que compraram dos parceleiros, o governo não deu ajuda.


Inicialmente, participaram do Centro de Tradição Gaúcha: foram até padrinhos da pista de dança. (quando a participação é frequente, e fazem-se doações, elegem-se os padrinhos das estruturas e das comemorações até com direito a inscrição do nome).


Não pensam em viver no Sul, mas ainda mantêm as propriedades, para passar férias.


Atualmente, em Lucas do Rio Verde, há dois projetos de habitação: da Caixa Econômica Federal e da Prefeitura, para o qual, alguns compradores pagam R$50,00. As casas são padronizadas, e os lotes têm espaço para expandir a casa. Casas de madeira são proibidas. A prefeitura sugere um kit casa, um molde padrão, construído pelos próprios moradores.


O PRODECER: Projeto de Desenvolvimento do Cerrado, é um projeto de loteamento em parceria com o Japão, que tem 49% das ações. O projeto existe desde 1984. O primeiro, foi instalado em Minas Gerais, o segundo no Mato Grosso, quando a região ainda era município de Diamantino. Muitos parceleiros que venderam suas terras indevidamente, entraram no programa do PRODECER II. Os lotes eram de 400 hectares, “tudo dado com muita estrutura”, afirma Ildo Romancini. Para os japoneses e produtores é interessante pois aqueles compram a soja diretamente do produtor, e estes não se preocupam com a logística.


Francisco Daghatti “entrou rezando baixinho no ônibus”, em 1981. Ele era um dos acampados da Encruzilhada Natalino, estava acampado em barraca de lona havia 3 anos. Depois de viajar uma semana no ônibus, foi deixado em um acampamento do Exército, à beira da Cuiabá-Santarém, onde havia recebido 250 hectares. A maioria dos colonos deixados ali, desistiram, ou morreram de malária. Ele permaneceu, e hoje é proprietário de 1000 hectares de terra. Trabalhou como peão nas fazendas. Também trabalhou no garimpo de Troca-Tiro, na divisa do Mato Grosso com o Pará. Juntou dinheiro e contratou peões para garimpar em seu lugar. Com o lucro do garimpo, modernizou sua propriedade agrícola.*


Dna. Neiva e Sr. Luis Carlos Tessele são de Santo Angelo (RS). Foram para Lucas em setembro de 1981, porque tinham pouca terra, e por curiosidade. A primeira leva dos parceleiros chegou no final de novembro, e a segunda em janeiro. Vieram 203 famílias. Conheceram Lucas do Rio Verde através de um tio que mora em Cuiabá há 30 anos. Quando foram visitá-lo, em 1978, foram apresentados à muita gente. Luis Carlos foi conhecer e gostou.


Os proprietários das terras de Lucas viviam em Cuiabá. A família comprou terras de um posseiro.


Em 19 de agosto de 1981, foi aprovado o projeto oficial do INCRA para o assentamento. “Montaram escritório, topografia, e três casas de madeira em três meses, antes que chegassem os parceleiros.”


A COBAL era, no início, um caminhão. Em 1982, foi construído um prédio para instalá-la.


Também foi construída uma vila de funcionários do INCRA, com 11 casas. Instalaram o correio e polícia militar.


Dna. Neiva começou a trabalhar no INCRA em 1982. O executor decidia quem seria contratado com base em escolaridade e um teste em Cuiabá. Seu trabalho era direto: inscrição, distribuição de vales, encaminhamento (para agrônomos, topógrafos, etc.); ela apresentava o mapa com os lotes, que cada um podia escolher. Uma parte deles, já era plantada com soja, por posseiros do Paraná, e a família Dall’Alba.


Plantava-se primeiro arroz, após a limpeza do terreno, e depois soja, tudo com maquinário, por causa do tamanho da terra. Foram introduzidas as culturas do Rio Grande do Sul.


O INCRA fornecia eternit, madeira, prego, enxada, foice, semente de hortaliça, adubo, que muitos parceleiros vendiam. Limpava 25 hectares de cada lote (200 hectares). O INCRA  também dava uma quantia em dinheiro para se manterem. Dna. Neiva não sabe se os parceleiros ressarciram o INCRA, mas sabe que em 1983, já começaram a vender as parcelas, para voltar para o Rio Grande do Sul, porque tinham que pagar para obter o título de posse, que posteriormente seria a escritura. Muitos venderam mesmo sem ter o título, afirma Dna. Neiva, o que trouxe muitos desentendimentos. Havia muitos posseiros antes dos parceleiros, mas que praticamente não se encontravam por causa das longas distâncias entre os terrenos. Mas encontravam-se toda semana em festas. Houve muito conflito na distribuição das chácaras da Cidade Nova, porque os posseiros diziam-se donos dos terrenos, e o INCRA tinha que assentar os parceleiros.


Os lotes eram divididos em setores, e o são até hoje. “O INCRA trazia o pessoal de cada lote...matavam-se entre si, tomavam pinga (...) trocavam em bares o açúcar e o café que o INCRA deixava comprar com o dinheiro que dava.” Duas famílias, uma de Cuiabá e outra do Espírito Santo, queriam a mesma terra. Os Tessele conheceram seus pistoleiros.


Dizem que o INCRA respeitava os posseiros e que dava uma porcentagem de terra a mais para quem desmatasse. Os terrenos dos fundos invadiam uma reserva ambiental; realmente os gaúchos não respeitavam a delimitação da reserva. Mesmo que o SNI (Serviço Nacional de Informação) viesse vistoriar.


Era estabelecido um prazo de três meses para começarem a construír, e o mínimo de área construída deveria ser de 48 m².


“Quando o INCRA entrou, veio escola, veio tudo”, diz Dna. Neiva. Cada setor tinha sua escola seu posto de saúde, médico. “Foi tudo muito bem estruturado”. Serviços médicos e educacionais eram por conta da União. No entanto não havia banco, apenas em Sorriso, o Banco Nacional. Operava-se com luz de vela. Os partos eram feitos numa casinha, onde só podia-se internar uma pessoa. Todos estes serviços ficaram ativos até 1989, à partir de quando ficaram parados por dois anos, inclusive o escritório. Todo o material tombado foi recolhido


A maioria dos funcionários do INCRA daquela época, hoje vive em Cuiabá. Quando o projeto acabou em Lucas, os funcionários foram mandados para outros municípios. Dna. Neiva não dependia deste emprego porque tinham uma lavoura. Ela pediu dois anos de afastamento, e conseguiu. O governo Collor deixou 22 funcionários do INCRA de Lucas do Rio Verde em regime de “disponibilidade”, ou seja, ociosos. Ela então pediu o cargo de volta depois, pois não queria mudar-se para Diamantino.


Hoje, os Tessele não querem voltar de maneira nenhuma para o Rio Grande do Sul. Não se arrependem do sofrimento. Dizem: “hoje, lá uma pessoa da nossa idade tem no máximo uma bicicleta”. E conta que moraram por três meses em um barracão de lona. Lavava roupa no Rio Verde. Depois compraram um motorzinho que gerava luz. Iam muito mais para Cuiabá para comprar mantimentos do que atualmente. Durante a mudança, também compraram muito na capital. Dna. Neiva considera que a mudança foi tranquila, porque tinham muita esperança no novo lugar. Antes do INCRA chegar, tinham que ficar na beira da estrada para parar os caminhões que levavam alimento e outros artigos para Sinop. Os caminhoneiros já sabiam que os moradores faziam sinal na estrada para comprar.


Havia carne uma vez por semana. Os parceleiros caçavam muito.


Os mato-grossenses tratavam os gaúchos muito bem. A tradição gaúcha foi mantida, na opinião de Dna. Neiva, orgulhosa de sua filha, nascida em Lucas, que foi “prenda nacional” (há um concurso em diversas instâncias, para eleger a menina que mais participa e mais sabe da tradição gaúcha, no Brasil inteiro.)


Sr. Werner Kothrade é de Santa Catarina, de Caçador. Foi para o Mato Grosso à passeio em 1975, porque seus tios viviam em Sinop desde 1972. Seu pai tinha uma terra, onde hoje localiza-se Sorriso; seu tio foi ajudar a abrir o terreno. Esta era uma das únicas propriedades com documento legal, conta Sr. Werner. Em 1977, seu tio convidou-o a plantar na terra dele em Sorriso. Assim, em 1978, Kothrade comprou uma terra em Sorriso, também, do outro lado do Rio Verde, em sociedade com o irmão, que foi abrir a mata.


Em 1982, Sr. Werner foi com a família à Sorriso. No final de 1983, mudaram-se para a fazenda. Em 1984, foram para Lucas do Rio Verde, porque a estrada não era asfaltada, e a propriedade ficava à 96 Km de Sorriso. Lucas tinha apenas dois mercados, e mais ou menos 20 casas, conta.


Sr. Werner foi ao INCRA e pediu um lote para construír casa. Ele queria perto da igreja, e queria dois lotes, porque iria construir uma casa grande. Diz: “Eles eram muito estúpidos”: falavam: “se quiser, é lá”, no meio do mato”. Então Sr. Werner aceitou. Era para ser comércio. Ele considera um erro do governo, dar terras mas não dar assistência. “Era só um campo aberto e tínhamos que corrigir a terra, mas não tínhamos dinheiro. Não davam escritura, e sem ela, o banco não financia”. Além disso, Sr. Werner conta que há pessoas que ganharam 5 lotes mas ainda continuam acampadas.


Kothrade acompanhou e ajudou no desenvolvimento da cidade.


Sr. Werner foi ao Mato Grosso, por receio de ser expulso do Paraguai, para onde se mudaria sob influência de um amigo que incentivou muito; e realmente a expulsão aconteceu, com os “brasiguaios”.


A propaganda feita pelos militares era intensa, conta, para não perderem a fronteira para os Estados Unidos; era “integrar para não entregar”.


Sua família era de agricultores. Sr. Werner plantava desde criança. A terra era plana, mas pequena. Eram 260 hectares, a serem divididos por três irmãos. Vieram por causa da terra plana, e porque não conseguiam vender a terra em Santa Catarina, pois de um lado era uma terra herdada, que não seria vendida, do outro, uma empresa inglesa.Em Santa Catarina, plantavam cevada para vender à cervejaria Antarctica, trigo, milho, soja e feijão. No Mato Grosso, plantaram arroz. Kothrade queixa-se que não havia variedades de soja naquela região, que não crescia mais que 10 centímetros. Possuíam maquinário que já haviam trazido do Sul.


A viagem durava 4 dias durante a seca. Durante a época de chuva, era imprevisível o tempo.


A vida era muito difícil: não havia energia. Tinham que usar um motor. A água era de poço, e qualquer movimento brusco sujava o balde. Tinham que lavar roupa no rio, onde as crianças tomavam banho.


Não havia incentivo, mas havia financiamento. Sr. Werner comprou uma posse. O INCRA obrigava a derrubar 80% da terra, caso contrário, não recebia-se a escritura. Não havia política de preservação. Na época em que Sr. Werner comprou a terra, poucos parceleiros saíram; antes eles voltavam muito para o Rio Grande do Sul, em troca da passagem de ônibus. Outros foram para Terranova, ou para trabalhar com garimpo.


Kothrade conta que não houve conflito com os locais. Os posseiros eram bem de vida, pois podiam vender as posses para os gaúchos, comenta.


Sr. Werner comprou uma terra em parceria com o irmão, de 3000 hectares. Pagaram o equivalente a uma garrafa de cerveja por hectare. Um conhecido seu, Matsubara, pagou uma carteira de cigarro por hectare.


Entre 1985 e 86, Sr. Werner participou das atividades da igreja católica. Foi presidente, e construiu um salão paroquial muito grande, conta.


Lucas do Rio Verde fica à 240 Km de Diamantino, município antigo, que não ajudou a desmembrar, porque não interessava. Em 1989, 5 municípios foram emancipados; ele foi convidado para ser prefeito, mas não queria, porque não entendia de política. Aceitou, para apaziguar os desentendimentos que estavam ocorrendo entre amigos por causa da política. Foi avalista de muitas propriedades, pela confiança.


Construiu 18 escolas no interior: havia mais comunidades no interior do que atualmente, quando muitas se desmancharam nos municípios.


Fizeram a primeira exposição de produtos agropecuários sob um barraco de lona.


Entre 1991 e 1992, a situação econômica melhorou, e puderam asfaltar e sanear, depois de haverem passado por todos os planos inflacionários com muita dificuldade.


Seu mandato durou de 1989 a 1992. Durante este período, o estado passou por 5 governadores.


Houve grandes crises na lavoura nesta época, tiveram que fazer muitos testes com adubo por conta própria. Tudo era muito longe para a pesquisa, conta Sr. Werner, os próprios plantadores criavam tecnologia. Se na época, colhiam-se 22 sacas por hectare, hoje, são 60 sacas. Na época da colheita, o padre rezava a missa mais cedo e mais rápido.


O banco mais próximo ficava em Rosário d’Oeste, comarca de Sorriso, à 260 Km de Lucas do Rio Verde. No caminho de Lucas para Diamantino, tinham que parar no Posto Gil, único estabelecimento por muitos anos, e referência local, e pegar um ônibus para Cuiabá. Muitas vezes os passageiros tinham que empurrar o ônibus.

Sr. Werner acha que a tradição gaúcha é mais forte no norte do que no próprio Rio Grande.


O Sr. Klaus Huber é presidente do Instituto Padre João Peter, fundado em maio de 1988, que dá apoio ao desenvolvimento da região. Suíço de origem, e paulista por adoção, era diretor da escola da Holambra em Paranapanema: implantou o Ensino Médio propedeutico e o curso de Economia Doméstica, com uma proposta similar a que se seguiu no Mato Grosso, para desenvolvimento da região. Mais tarde, querendo mudar de área, formou um grupo cooperativo, junto com sua família para trabalhar com agropecuária. Cada família, individualmente não tinha condição de comprar terras. O grupo, então, se juntou com uma série de trabalhadores rurais e proprietários que venderam suas propriedades para sanar dívidas. Formaram a Cooperlucas, para começarem as atividades em Lucas do Rio Verde. Seu irmão foi o primeiro presidente da cooperativa, que assumiu muitas atividades sociais da cidade.


Sr. Klaus chegou em maio de 1982, após ter recebido um lote, como os outros; seus irmãos administraram, e posteriormente, ele arrendou, pois não sabia lidar com agricultura. Ele fundou, com a esposa, todas as escolas do município, e fez acompanhamento pedagógico. Sr. Klaus alivia-se disto, por não ter “caído na tentação de desmatar”, e do fato de sua terra ser uma das poucas reservas que restam. Conta que quando chegaram, não havia mais índios, porque foram expulsos muito antes por mineradores e posseiros. A reserva do Xingú fica à aproximadamente 200 Km de Lucas do Rio Verde.


O Governo Federal teria desapropriado pretensos proprietários anteriores aos assentamentos, mas não há comprovação.


Dois de seus irmãos eram agricultores, e conseguiram empréstimos e vendas vinculados ao dólar. Os implementos e máquinas não eram vinculados.


A idealização do projeto do grupo dos “Interessados”, como se auto-denominam os fundadores da Cooperlucas, é anterior ao projeto do INCRA, diz Sr. Klaus. Este grupo de 200 pessoas, pagava uma mensalidade para que a diretoria procurasse locais para assentar o grupo. Foram para todas as regiões, e Lucas do Rio Verde era onde havia menos problemas com grileiros. Ao final, dos 200 “Interessados”, apenas 60 foram assentados; 40 em um primeiro momento, e 20 em segundo.


O governo dava autorização apalavrada, mas não havia documento escrito. O processo durou 3 anos. Os cooperados pediam ao INCRA que impedisse a chegada de grileiros: o órgão não tinha funcionários suficientes, mas contratou.


A vantagem, realmente foi o afastamento de intrusos, mas por outro lado, o governo percebeu que aquela área estava protegida, e garantida para projetos públicos, assentando os sem-terra da Encruzilhada Natalino em primeiro plano, e os cooperados em segundo, argumenta Huber. Os parceleiros vieram dois meses antes, e no local havia 15 famílias de posseiros anteriormente à chegada dos novos grupos.


O PRODECER II foi solicitado pela Cooperlucas, que foi escolhida para ser beneficiada pelo acordo nipo-brasileiro. O contato se deu através de um vizinho de Sr. Klaus, Matsubara, co-fundador do Instituto Padre João Peter, hoje, e que foi à falência, por fazer testes técnicos mal-remunerados, para o poder público. Atualmente Matsubara vive em Sinop.


O PRODECER II pesquisou a cooperativa antes dos associados saberem deste projeto. À partir daí, a Cooperlucas cresceu muito. Um dos motivos do desmanche da cooperativa foram novas diretorias que entraram durante a associação com o PRODECER II: pessoas gananciosas, que achavam a administração muito lenta. Os novos diretores tinham mais dinheiro, e vinham de regiões diversificadas, com formações melhores. Entravam na cooperativa, na verdade para aumentar a produção. Logo o idealismo do grupo original se dissolveu, despontou uma corrupção muito sutil, sobre a qual correm processos até hoje: foi colocada na cabeça da chapa, alguém que todos confiavam, de família de posseiros; o vice, não era de nenhum dos grupos associados, não o conheciam bem. Sr. Klaus achava que o presidente não aguentaria, e realmente aconteceu. O vice-presidente, que havia tido conflitos com a cooperativa ainda no Sul, assumiu, e formou uma bolha de poder, que custou a ser percebida, ao avaliar o potencial da Cooperlucas. O novo presidente aproveitou para se desenvolver pessoalmente. Deu terras em troca da construção de grandes obras, sem que os cooperados assinassem. O Banco do Brasil foi responsável, porque não controlou estas movimentações, e também está sendo processado, aponta Sr. Klaus. Além disso, o novo presidente, que Huber não nomeia, por já haver recebido ameaças de morte, comprou uma parte de uma usina de mandioca em Sinop, enquanto os outros cooperados estavam endividados.


À respeito das ameaças, “a Polícia Federal veio três vezes desarmar quem achava que devia.” Comenta Sr. Klaus, que era visto como um empecilho para o assentamento dos chegantes da Encruzilhada, ao querer mostrar a quem recebeu terras e não era agricultor, que o Banco do Brasil lhes tiraria o direito.


Para os sem-terra, a Cooperalucas dava apoio técnico. O 9º BEC cedeu barracas, enquanto aguardavam o processo sempre à beira da rodovia, durante 3 ou 4 semanas.


Nos primeiros meses, o bairro de Itambiquara, nome que os índios davam ao Rio Verde, que fica à 35 Km do centro do município, tinha mais estrutura que Lucas. 


Dos antigos posseiros, alguns se filiaram à cooperativa, que teve que se abrir para todos, e teve sua sede deslocada posteriormente para a beira da rodovia BR 163 para facilitar o acesso, diz o Sr. Antonio Carlos, mineiro, atual presidente da cooperativa, fundada em 22 de dezembro de 1982.


O presidente da cooperativa acredita que alguns parceleiros associaram-se à Cooperlucas para buscar poder de barganha e parceria de planta (para construir).


Com o PRODECER II, em 1986, vieram 39 pessoas, algumas da região, entre mineiros, catarinenses, gaúchos e sul-mato-grossenses, para produzir nos lotes de 400 hectares. Iniciaram logo a plantar em 200 hectares, ou seja, fizeram abertura de área de 50% durante a safra de 1986/87. A cooperativa adquiriu os lotes e repassou para esses colonos. No primeiro ano, plantaram arroz; a cultura principal era a soja, mas o arroz crescia muito rapidamente após a derrubada da mata, o que não ocorria com a soja. Também reservavam 20% do espaço para cultura perene (seringueiras). O financiamento era direcionado à soja. Nas áreas de pastagem, já se poderia plantá-la, mesmo com a necessidade de se trabalhar mais o solo.


O Sr. Antonio Carlos conta que o PRODECER II foi para Lucas do Rio Verde graças a Anton Huber, irmão do Sr. Klaus, caso contrário seria em Mutum, e a Cooperlucas faria parte da Coopervale. O Japão mandou incentivo para construírem barracão e armazém. Diz que lutaram muito para existir como cooperativa. O PRODECER, no Mato Grosso, nasceu como loteamento da Cooperlucas, financiado pelo Banco do Estado do Mato Grosso. As funções principais da Cooperlucas, conta o presidente, eram fornecer insumos e padronizar para venda, além de auxiliar na comercialização. Não era uma colonizadora; deu suporte à reforma agrária.

Em 1994, a cooperativa teve problemas financeiros e ainda está se recuperando: não há mais capital para fornecer insumos.


O Sr. Luiz Carlos Nava é gaúcho de Espumoso, no planalto médio. Foi diretamente para Lucas do Rio Verde em 1984. Tinha uma franquia de um escritório de planejamento agrícola com sede em Passo Fundo. Seu pai tinha uma pequena lavoura arrendada para os cunhados. De 42 hectares, plantavam-se 35 ou 36. Um colega trabalhava para um grupo familiar de curtume, chamado Basso, de Santo Ângelo, que era associado ao estaleiro Verolme, do Rio de Janeiro. O grupo passou a ver no centro-oeste uma boa oportunidade de produção. Abriu uma sede em Ponta-Porã, entre 1977 e 78. Um colega de Nava que trabalhava nesta empresa, foi transferido para este município, e no ano seguinte, trabalhou em Rondonópolis. A Basso abriu uma divisão em Lucas do Rio Verde, e precisava de um engenheiro agrônomo. Nava foi contratado, e foi viver diretamente na fazenda, onde achava mais confortável que no centro. Conta que aproximadamente 150 pessoas moravam na fazenda. Lá havia, por exemplo, energia para a oficina mecânica, e água de poço, conta Lira, o que era inexistente na cidade. Um caminhão ia para Cuiabá toda semana, e podia trazer o que os empregados, que tinham uma conta aberta, pedissem.


A fazenda plantava soja e arroz e criava gado. Quando chegaram, diz Nava, só havia pecuária. Eram 28.980 hectares no município próximo de Tapurá.


Em 1987, o grupo se dissolveu, e Nava foi para Cuiabá, assumir a função do amigo, de gerente de produção, onde ficou até 1992, quando voltou para morar na cidade, devido à crise do governo Collor, para administrar mais de perto a produção. Neste momento, conta Nava, já havia energia na cidade.


De 1992 em diante, deu suporte gerencial a uma fazenda vizinha. Começou uma lavoura pequena, próxima da cidade, junto com o vizinho, com incentivo da Cooperlucas do BNDES e do Banco do Brasil.


Em 1995, abriu uma loja de insumos agrícolas, a Plantar.


A principal atividade da cidade é realmente a agricultura, diz Nava. “Não há indústria, apenas soja e milho.” Apenas beneficia-se o algodão. Tece-se muito na Bahia e em Santa Catarina.


Nava diz que não participa muito do Movimento Tradicionalista Gaúcho, mas diz que ficou mais participativo quando mudou para o Centro-Oeste.


O Sr. Egídio Raul Vuaden é o atual presidente da Expolucas, feira de exposições agropecuária. Foi de Sobradinho (RS) para Lucas do Rio Verde, em junho de 1986. Tinha um minifúndio e plantava fumo no sul. Conta que tinha uma condição de trabalho muito sofrida, pois a terra tinha 15 hectares. Após ter concluído a faculdade de agronomia, com uma poupança e a venda do imóvel, pagaram, com o pai e a mãe, 20% de entrada no PRODECER II em Piúva. Com eles foram outros 38 produtores selecionados do Brasil todo, com cadastro na Campo, a empresa colonizadora, que existe até hoje. O critério de seleção era a tradição em produção agrícola, ser arrendatário ou ter uma pequena posse de terra, sem condição de ampliar na origem.

 Compraram 409 hectares aqui. Moravam na propriedade, em um galpão que construíram que servia de garagem para máquinas: não havia serviço de saúde, água, nem energia e a estrada era ruim, não havia serviço público; para fazer chamadas telefônicas, tinham que esperar em fila por 24 horas; só havia bancos em Diamantino, que fica à 200 Km de Lucas, conta Sr. Egídio. O “Linhão”, fornecimento de energia, de Furnas, só existe há 6 anos.


Plantaram arroz e soja, pagando financiamento que incluía: a terra, a escritura pública; os 20% de entrada do financiamento que cobriam a casa, o barracão, a correção do solo, maquinário, abertura de área, juro normal de crédito rural.


Os Vuaden faliram duas vezes, em 1989, e de 1994 para 95, por causa dos planos econômicos: mesmo que tivessem capital, não havia máquinas à venda. Ficaram inadimplentes, porque não foram enquadrados no plano de securização de crédito rural. Apenas em 2001 conseguiram repactuar a dívida que terminarão de pagar em 2019.


Pensaram em voltar, mas não tinham para quem vender a terra.


Sr. Egídio é presidente do PPS- Partido Popular Socialista, o partido do atual prefeito. Atualmente, produz soja, milho, arroz, algodão e suínos, em 1400 hectares de área própria.


Airton Callai é de Giruá (RS). Lá, trabalhava com faturamanto de uma cerealista que atendia toda a região do Alto Uruguai. Vivia na cidade, e toda a sua família também trabalhava no terceiro setor. Morava na cidade. Callai chegou em Lucas do Rio Verde em 1986. Antes, um irmão seu havia ido em busca de oportunidades, porque não tinham posses, e voltou desiludido. Callai tinha apenas 15 anos, ficou 4 anos, não se adaptou e voltou, para servir na aeronáutica. João Callai, outro irmão, que vivia no Mato Grosso desde 1982 foi quem o incentivou a vir de volta, em 1990.


Airton Callai foi contratado para fazer assistência técnica para a Cooperlucas, e recebeu uma proposta de emprego. Ficou amigo dos presidentes.


Em 21 de agosto de 1991, mudou-se para Lucas definitivamente. A caixa da televisão era a mesa, o colchão ficava no chão. A mudança durou 4 dias.


Depois de um ano, os pais de Tânia, sua esposa, mudaram-se também para Lucas.


Passou à gerência de CPD e Tania trabalhava no faturamento, ambos na Cooperlucas.


Sua família não pretende voltar para o Sul, pois considera o Mato Grosso uma terra de oportunidades, que ele soube aproveitar, mesmo o país tendo passado por grandes crises, justamente naquele momento. Exemplifica: “a Cooperlucas, que era a terceira cooperativa em faturamento no Brasil, em 1995 quebrou.” Neste momento, Callai saiu da cooperativa e montou um negócio próprio de informática.


Em 1997, tornou-se patrão do CTG: Centro de Tradição Gaúcha de Lucas, renovou, e um ano depois foi escolhido como presidente do MTG do Estado. Ficou por dois anos, período em que fez um levantamento de onde estavam os gaúchos do Estado. Havia 43 CTG’s, em quase 30% das cidades do Mato Grosso, que têm identificação forte com o tradicionalismo gaúcho;  assim pesquisou Callai. As regiões do estado, de acordo com o critério dos grupos tradicionalistas, foram divididas pelo presidente anterior. Callai fez um cadastro dos gaúchos para manter contato, e assim conseguiram organizar encontros regionais maiores através dos contatos. Fizeram regulamentos. Callai foi eleito por dois anos consecutivos, faz parte da confederação dos CTG’s como um todo. Organiza rodeios com 400 pessoas.


É interessante notar que Callai não participava do CTG no Sul. Conta que ia, mas não se sentia à vontade para competir nas provas; porque na sua família não havia estímulo. Diz que o envolvimento só começou no norte, por identificação com os sulistas. Este relato, assim como muitos outros, nos mostram que o MTG: Movimento Tradicionalista Gaúcho, foi a forma que os migrantes encontraram de se relacionar, de se encontrar, e de ter lazer.


O Sr. Jaime Ferrari, dono de um hotel de mesmo nome que comprou em 2001, chegou muito recentemente, em 19 de agosto 1999, o que é interessante para estabelecerem-se parâmetros comparativos das experiências dos gaúchos que chegaram na Amazônia Legal  em diversas épocas.


Em Getúlio Vargas
, região norte do Alto Uruguai, era agricultor (tinha um lote de 80 hectares) e comerciante: era proprietário de um posto de gasolina e um mercado geral. Foi para o Mato Grosso, sem precisar vender nada, porque queria achar mais espaço, tentar melhorar de vida. Foi “tocar” um posto de gasolina, mas “não deu certo”, conta Ferrari. Um amigo também era dono de um posto de gasolina em Sorriso, o qual administraram por aproximadamente 3 anos.


Sr. Ferrari conta que só não veio antes porque a mãe não podia ficar sozinha, já que o pai morrera quando ele era uma criança. A mãe ainda vive no Sul. Seus filhos estão na faculdade, também em Lucas do Rio Verde. Um deles já está no Pará, e tem uma propriedade de terra. Ele vendeu uma terra no Sul e depois de dois anos comprou uma terra no Mato Grosso, de 600 hectares, que está sendo preparada para a pecuária. A propriedade no Pará, em Guarantã, é de 1000 hectares. Sr. Ferrari conta que muitos gaúchos “se deram bem lá”, sendo que há quem seja proprietário de 9000 hectares.

 

SORRISO

 

Ivo e Nelson, pioneiros fundadores da Cooperativa Sorriso, contam que em 1974, vieram abrir divisas na área adquirida. Ivo relata: “Eu fiquei acampado quase um ano, eu e o Nelson, na balsa do Teles-Pires, em baixo de um barraco de plástico. Para ver as divisas e para sobreviver, nós colocamos uma borrachariazinha.” A carne que caçavam, dividiam com os funcionários do 9º BEC, que os ajudou muito.


Em pouco tempo, voltaram para o Sul. Já em 10 de janeiro de 1975, retornaram, alugaram uma madeireira “pica-pau” desativada para serrar madeira para as casas. Voltaram mais uma vez para o sul, e depois novamente para o norte. Foram morar em Sinop que tinha uma estrutura melhor, como escolas, etc.


Catarina e Nelson Frâncio mudaram-se de Sinop para Sorriso, em agosto de 1975, quando o restaurante estava quase pronto. Mas continuava  o problema da distância da escola. Na tentativa de resolver o problema, a Colonizadora alugou uma van para levar e buscar, mas as crianças tinham que acordar às 4:30 da manhã; então mudaram de volta para Sinop.


Dna. Catarina e seus três filhos, contraíram malária, e foram curados pelas freiras de Vera.


Antônio Capellari, chegou em Sorriso há quase trinta anos. Conta que o que hoje é a cidade, era uma planície à beira da rodovia Cuiabá-Santarém, com algumas barracas de lona. Hoje há prédios, casas e pessoas para todos os lados. Hoje têm uma vida confortável, mas passaram por dificuldades: a agência bancária mais próxima ficava à 280 Km de distância, e só se chegava quando a estrada estava trafegável. As máquinas agrícolas eram compradas no Sul, à mais de 2000 Km de distância de Sorriso. Para trazer a carga, tinham que convencer um caminhoneiro a fazê-lo; raramente aceitavam porque ficavam atolados na estrada.*


Atilano Albino da Silva, o Tânio, nos anos 70 foi para Sorriso com mais um peão buscar serviço temporário. Hoje é sócio de uma imobiliária, tem um avião, várias fazendas, planta soja na Bolívia e possui 2,5 milhões de hectares de terra para negociar. Seus pais, pequenos agricultores de Cruz Alta, mudaram-se para o sudoeste catarinense na década de 40. Conta que o negócio da terra já foi muito perigoso: uma só fazenda chegava a ter 12 escrituras falsas e pistoleiros para defendê-las. Hoje os assuntos são resolvidos por advogados. Com a implantação da lavoura da soja, o preço da terra só sobe, conta Tânio.
*


Sorriso foi sede, no final de agosto de 2004, do FEMART, festival estadual dos CTG, que durou 3 dias. Sua estrutura é a melhor do estado, e seus grupos (danças, declamação, laço, bocha, etc.) são os mais “temidos” do estado. Neste evento, tive a oportunidade de conhecer gaúchos de municípios que não visitei, como é o caso da família Bertotti.


O Sr. Eugênio e a Sra. Cleonice Maria Bertotti, chegaram em Alto Garças em 1974, de Frederico Westphalen. Seu pai era comerciante, dono de churrascaria. Chegaram a ter terra no Rio Grande do Sul, mas não nos últimos anos. Como sua situação econômica estava ruim, foram para o norte em busca de condições melhores de vida. Segundo eles, o futuro estava no Mato Grosso. Bertotti conseguiu um serviço em uma fazenda, e voltou em 1975 para levar a família. Esta época foi justamente quando começou o desenvolvimento da agricultura, com o arroz, logo após a abertura do Cerrado. A soja começou a ser plantada, em rotação de culturas, em 1981.  A família morava na cidade e o pai na lavoura. Ele não comprou terra.


Quando chegaram, já havia a estrutura da cidade, que era muito pobre. Havia prédios públicos, dois mercados, dois postos de gasolina. A população girava em torno de 4.000 habitantes. Na década de 80, colhia-se entre 30 e 35 sacas de arroz e soja por hectare. Hoje, com o aperfeiçoamento, chegam a colher de 55 até 65 sacas por hectare, conta Sr. Eugênio.


O algodão foi introduzido em 1988; hoje, há 80.000 hectares plantados.


A cidade, à beira do rio Garças, é mais antiga que as anteriores: foi emancipada em 1956, mas apenas em 1975, junto com a abertura de fronteiras estimulada pelo governo, começou-se a abrir a mata. Até então, a principal atividade era o garimpo de diamantes, que ainda existe em proporção muito menor atualmente.

O governo deu incentivo através do Banco do Brasil, e o faz até hoje.


Não houve atuação de nenhuma colonizadora em Alto Garças. 


Sr. Eugênio foi eleito vereador pelo PFL com 158 votos, em 1992. reelegeu-se em 1996 com 236 votos. Quando chegou, já havia estrutura política, conta.


Em 1981, foi fundado o CTG, que é bastante grande. Mais da metade dos moradores da cidade é gaúcha. Há poucos catarinenses e paranaenses. Sr. Eugênio conta que pouca gente voltou, mas que muitos foram adiante, ou com sucesso, ou por não terem conseguido desenvolver-se no Mato Grosso.


O agricultor Carlos Mouro, migrou de Nonoaí para Terranova do Norte na década de 80, ao receber uma parcela de 250 hectares. Pegou malária mais de 60 vezes. Todas as manhãs, ele e a mulher, ambos com mais de 40 anos, caminham cerca de 10 Km em mata fechada para chegar à roça; Leva sempre um facão e um rifle, porque há muitos animais selvagens. Sem ter com quem negociar a produção, ele alterna a agricultura com o garimpo.


 

Conclusão:

 

As fontes primárias e secundárias analisadas possibilitaram a compreensão de vários aspectos do tema. É importante, no entanto fazer algumas considerações sobre o resultado da pesquisa.


Iselda Corrêa Ribeiro fez um estudo bastante minucioso e rico sobre a migração dos gaúchos de Tenente Portela (RS) para Canarana (MT), referência sobre o tema da migração no Brasil. Ela afirma que as pré-condições para que os gaúchos se tornassem grandes proprietários já estavam dadas no Sul: estes, com reservas agrícolas ainda no seu estado, fundaram uma companhia colonizadora, a Cooperativa de Colonização 31 de Março, Ltda. No entanto, é importante observar que nem todos os cooperados fundaram-na e não faziam parte do conselho diretivo. Muitos foram selecionados para participar do programa de colonização, pois se encaixavam no critério de seleção já discutido anteriormente, que era: possuir o mínimo de capital para sustentar-se por um ano. Realmente estes colonos tinham condições, mas com a falta de estrutura do Projeto, um número grande desistiu, pois suas reservas esgotaram-se rapidamente, já que não recebiam alimentos, nem medicamentos, devido a fraudes, além de submeterem-se a preços especulativos muito altos dos produtos. Portanto, não discordo que a diretoria da cooperativa tornou-se uma elite local, e desde sua chegada já havia se firmado economicamente; o estudo de José Tavares dos Santos explicita muito bem em que bases isto ocorreu: para ele, o lucro foi obtido sobre a renda dos cooperados, e a corrupção mas, um estudo mais superficial, mas geograficamente mais abrangente, de outras regiões de colonização gaúcha em diferentes moldes: como a oficial de Lucas do Rio Verde, a particular, de Sinop e Sorriso, ou a independente, como foi o caso de Primavera do Leste, mostra que as reservas econômicas dos migrantes ao chegarem no norte, eram muito variadas: alguns, tinham capital suficiente para comprar grande extensão de terra, outros venderam parte das propriedades para comprar um lote, outros ainda, trabalhavam no setor de serviços, e não possuíam propriedade, o que os levou a arriscar com trabalhos diferentes daqueles que realizavam no Sul. Portanto, considero arriscado afirmar sobre a existência de um padrão de renda para todos os migrantes.


O discurso modernizador da colonização do noroeste do Rio Grande do Sul repete-se na colonização da Amazônia, ao escolherem-se gaúchos para povoar a Amazônia Legal, tinham como objetivo fazê-los servir de exemplo aos nordestinos e nortistas, mostrando a ideologia de que eram um povo que trabalhava, porque suas raízes estavam no labor. Na propaganda dos projetos, o uso do maquinário, que em muitos casos não era feito no Sul é outro exemplo do nítido discurso modernizante.


A exclusão da população local foi velada, mas transparece nitidamente na historiografia e nos depoimentos, tais eram o deslocamento de grupos indígenas de suas terras originais para reservas criadas às pressas, além do conflito com posseiros (pequenos produtores), que viviam nas regiões de colonização havia muito tempo. Concordo com a tese de José Vicente Tavares dos Santos, de que os colonizadores que chegaram tinham um projeto social, e esforçaram-se para mantê-lo. Não é uma mera coincidência: continua a lógica da mercantilização da terra, conceito de José de Souza Martins, discutido no corpo do trabalho, que faz valer a propriedade a quem tem título. No caso das colonizadoras e projetos econômicos, muitos receberam terras devolutas da União. A colonização resolveria duas zonas de conflito, repassando o problema do INCRA para particulares: no Rio Grande do Sul (sem-terras, afogados, etc.) e na Amazônia Legal (proprietários de títulos falsos, pequenos posseiros, garimpeiros e índios), pois agora a terra seria ocupada, com comprovante.


A maior parte dos gaúchos que migrou, era estrangeira, pois o noroeste do Rio Grande do Sul, região de expulsão para as áreas estudadas nesta pesquisa, foram regiões, no século XIX, receptoras de estrangeiros. O governo organizou a concessão de colônias: parcelas de terra de 25 hectares, para atividades agrícolas, mantendo assim, a tradição familiar. Os parceleiros, menos ambiciosamente que um projeto social, tinham um projeto familiar: não queriam se mudar para a cidade, e sim que se mantivesse a tradição da agricultura.  Os grupos que vivam naquela região de floresta, antes da chegada dos imigrantes, que eram índios, ou caboclos, foram retirados do local: os primeiros, para reservas recém delimitadas, e os segundos, para as periferias das cidades, ou para os acampamentos sem-terra, pois não tinham título de propriedade. Na seleção dos sulistas para as cooperativas, não havia interesse nos caboclos.


Com o crescimento das famílias, e a concentração agro-industrial monocultora na mão de poucos e grandes proprietários, os colonos não viram outra solução para a sua família, além de migrar para o norte, região naquele momento indicada pela mídia como “terra prometida”.


Todos os migrantes, sem exceção, apontam para precariedade de condições que, ou o Governo, ou as colonizadoras ofereciam: no caso dos projetos oficiais, os lotes não haviam sido demarcados; a refeição e medicamentos básicos não foram distribuídos, as promessas de construção de barracão, casinha e de que as parcelas já teriam bois eram falsas. Não havia encanamento de água nem eletricidade. Nos projetos ao longo da rodovia Transamazônica, aos quais não me detive por delimitação metodológica, os relatos são ainda mais denunciadores: os trabalhadores foram deixados à beira da rodovia sem absolutamente nada: acamparam por muitos meses, pois as estruturas, sob responsabilidade do INCRA não estavam prontas, e os que denunciassem ou quisessem voltar, eram ameaçados e poderiam ser presos. Pode-se concluir que os gaúchos migrantes, viveram nas mesmas condições que os posseiros.


As denúncias, no entanto, não têm caráter de queixa: muitos, hoje vêem suas dificuldades como aventuras até divertidas. Nenhum gaúcho entrevistado pretende voltar para o Sul para viver, pois apontam-no como uma região atrasada, sem potencialidade de produção. Seus filhos, por outro lado, partem em busca dos centros urbanos, nos estados do Sul. Isto é um reflexo de que a cultura gaúcha está fortemente arraigada nestas famílias, que procuram viver de acordo com as antigas tradições, muitas vezes ainda de maneira mais contundente do que quando viviam no Rio Grande do Sul. O gauchismo foi uma maneira de se protegerem enquanto grupo, de não perderem sua cultura, e de certa maneira, de manter a coerência com seu modo de trabalho, pois observam ter sido esta a razão de seu sucesso econômico na atualidade.


Não se pode esquecer, que nem todos os gaúchos na Amazônia Legal hoje são grandes proprietários: muitos são pequenos comerciantes, caminhoneiros, garimpeiros, pescadores e peões. Mas os que chegaram ainda na década de 70, fazendo estes trabalhos, e se dispusessem a plantar, receberam benefícios do Governo, o que possibilitou seu enriquecimento. Nem todos os gaúchos que vieram independentemente das cooperativas eram agricultores: muitos vinham do setor de serviços, e partiram para a lavoura no norte, ou permaneceram no setor de origem, com construção, transportes,  restaurantes, postos de gasolina, hotéis, etc.


Na maior parte dos casos, os gaúchos que perderam seus bens no Mato Grosso, viajaram para tentar se desenvolver mais ao norte: no Acre, Pará, Rondônia, Tocantins e Goiás. Também, os bem sucedidos no Mato Grosso, estão subindo o Brasil em direção a mais terras: estão fazendo a derrubada, comercializando madeira, criando gado e começando a plantar soja. O Pará, é o novo destino da agro-indústria. O ciclo de reprodução da concentração fundiária se repete, desta vez por pessoas que foram expulsas do Sul pela mesma causa, e que deixaram de enxergá-la.

 

“Acho que encontrei o lugar para ficar até o fim de minha vida, porque não tenho mais coragem de enfrentar a busca de outros lugares. A saúde até que tenho para isso, mas já sei tudo que tinha que sofrer, quantas vezes tive que mudar, em todos os lugares que fui, tive que construir tudo de novo, da primeira estaca até o telhado.”[64]

 


POSFÁCIO

Esta pesquisa foi realizada em 2004 e não teve acréscimos posteriores. No presente, a situação das lavouras no Mato Grosso não é mais a mesma. O preço das sacas de soja caiu e os agricultores não têm o mesmo otimismo que tinham há dois anos atrás. Vale um novo estudo para avaliar as consequências desse tipo de colonização que já são visíveis naquela região do país. Creio que este trabalho aponta para uma análise mais crítica a esse tipo de ocupação do solo, que inicialmente traz um resultado muito positivo para os agricultores e para o país, mas que muito rapidamente leva a uma baixa produtividade, além do dano ambiental, por falta de planejamento a longo prazo.
FONTES

 

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1. Jornal da Cotrijuí – COTRIJORNAL, de Ijuí, de 07/1973 a 05/1974.

2. Arquivo da Comissão Pastoral da Terra (CPT)/ RS[65]:

2.1. Correio do Povo, de Porto Alegre, de 04/02/1964 – 17/02/1968:

2.2. Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, de 27/04/1970 – 20/08/1978

 

3. Arquivo do Centro de Estudos Migratórios Cristo-Rei:

3.1.Jornal Sem-Terra, Boletim Informativo da Campanha de Solidariedade aos Agricultores Sem-Terra - 02/1983

3.2. Periódico do CEMCREI, Migrações Internas: Tendências Nacionais e Regionais, 1978.

3.3. Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 07\08\1971.  

3.4. Periódico do CEMCREI, Realidade das Migrações na Região Sul do Brasil, 1989.

 

4. IBGE- Dados gerais dos Censos Demográficos de 1970 e 1980.

 

5. Mapas:

5.1. SIMIELLI, Maria Elena, Geoatlas, São Paulo, Ática, 2000.

       Vegetação, pps. 86-87.

        Impactos ambientais, pp. 89.

        Migração: (1950-1970; 1970-1990; década de 90), pp. 97.

5.2. SUDAM-BASA, Veja/Exame, 1972, acervo da mapoteca da Biblioteca Municipal de São Paulo.

 

6. INCRA, Estatuto da Terra- Lei nº 4.504, 30 de novembro de 1964, extraído da publicação “COLETÂNIA”- MEAF/1983.

 

7. ARRUDA, Hélio Palma (org.), INCRA, A Colonização no Brasil: Situação Atual, Projeção e Tendências em Rondônia –Folheto Informativo Apresentado ao Curso Superior de Guerra Naval da Escola de Guerra Naval, em Rondônia –  07/1972.

 

8. Contribuição da disciplina Geografia Regional Norte: Amazônia, ministrada pelo Professor Wanderley Messias da Costa, no segundo semestre de 2003 no Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

 

9. Depoimentos e Entrevistas: seguem ao longo do texto, relatos de gaúchos que vivem no Rio Grande do Sul, e gaúchos migrados para a Amazônia Legal, além de depoimentos de pessoas relacionadas ao processo, que não sofreram-no diretamente.

 

10. Fotografias – do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso. Acervos da autora e de Luiz Erardí (MT).

 

11. SILVA, Golbery do Couto e, Geopolítica do Brasil, Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1955.

 

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[1] Idem, Pp.270-271.

[2] Correio do Povo, Porto Alegre, 04/02/1964.

[3] IOKÓI, Zilda Márcia Grícoli, Igreja e Camponeses, teologia da libertação e movimentos sociais no campo, Brasil e Peru, 1964-1986, São Paulo, Hucitec, 1996. Pp. 81

[4] CASALDÁLIGA, D. Pedro, Apresentação, in:RIBEIRO, Iselda Corrêa, Pioneiros Gaúchos –a colonização do norte matogrossense, Porto Alegre, Tchê, 1987, pp. 11.

[5] IOKÓI. Pp. 69.

 

[6] Periódico do CEMCREI, Migrações Internas: Tendências Nacionais e Regionais, 1978

 

[7] Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 12\05\81. Pp. 23 Apud: IOKOI. Pps. 79-80.

[8] Sem-Terra, boleti nº 10, agosto de 1981Folha de S. Paulo, 17/11/81. Apud: IOKOI. Pp. 81.

[9] IOKOI. Pps. 85-86.

[10] Idem. Pp. 88.

[11] Ibidem. Pp. 129.

 

[12] Correio do Povo, Porto Alegre, 13\12\1967.

[13] Correio do Povo, de Porto Alegre, de 04/02/1964 – 17/02/1968

[14] Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 27/04/1970 – 20/08/1978

[15] Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 07/08/1971- acervo CEMCREI

[16] Jornal Sem-Terra, Boletim Informativo da Campanha de Solidariedade aos Agricultores Sem-Terra – 02/1983

[17] Centro de Estudos Migratórios Cristo-Rei, Realidade das Migrações na Região Sul do Brasil, Porto Alegre, 1989.

[18] DUNKE, Roberto, Tese de Direito Agrário, UFGO, Goiânia, 1997. Pp. 26.

[19] OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino, Amazônia, monopólio, expropriação e conflitos, Campinas, Papirus, col. Educar Aprendendo, 1987. Pp. 12.

 

[20] IOKOI, Zilda Márcia Grícoli, Igreja e Camponeses, teologia da libertação e movimentos sociais no campo, Brasil e Peru, 1964-1986, São Paulo, Hucitec, 1996. Pp. 129.

* 1ha equivale a 10.000m².

[21] IOKOI, Zilda Márcia Grícoli, O Brasil Atual e a Mundialização, São Paulo, Edições Loyola, 1997, pp. 40.

 

[22] OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino, Amazônia, monopólio, expropriação e conflitos, Campinas, Papirus, col. Educar Aprendendo, 1987. Pp. 26.

[23] IOKOI. Pp. 123

[24] OLIVEIRA. Pp. 100.

[25] SANTOS, Pp. 197.

[26] SANTOS, pp. 65.

[27] SANTOS, pp. 66.

[28] SANTOS, pp. 70.

[29] JORNAL DA TERRA, Tenente Portela, nº 47, pp. 3 in: SANTOS, Op. Cit., pp. 71.

[30] PREFEITURA MUNICIPAL DE TENENTE PORTELA. Tenente Portela (1955-1980), T.P., 1980, pp. 46, in: SANTOS, pp. 73.

[31] SANTOS, J.V.T., pp. 80.

[32] Idem, pp. 93.

[33] SANTOS, Pp. 106.

[34] SANTOS, pp. 122.

[35] SANTOS, Pp. 127.

[36] Ver o depoimento do Sr. Ênio, de Tenente Portela, e SANTOS, pp. 143.

[37] SANTOS, pps. 140-1.

[38] Idem, Pp. 170.

[39] DIAS, Elisia Aparecida, e BORTONCELLO, Odila, Resgate Histórico do Município de Sorriso – “Portal da Agricultura no Cerrado Mato-Grossense”, p. 73.

[40] DIAS, Pp. 81.

[41] Idem, Pp. 86.

[42] DIAS, Pp. 199.

[43] Idem, Pp. 200.

[44] Idem, Pp. 97.

[45] Ibidem, Pp. 105.

[46] DIAS, Pp. 110.

[47] ZAVIASKY, P., Liturgia do Cargo, Diário de Cuiabá, 16/10/04. Frederico Campos era primo do General Dilermando Gomes Monteiro um cuiabano que era, na época, o Comandante do IIº Exército sediado em São Paulo. Constava da lista para ser o Presidente da República no lugar de Geisel.


[48] DIAS, pp. 113.

[49] DIAS, Pps. 119-20.

* WAGNER, Pps. 70-73.

[50] ARRUDA, Z. A., Sinop: Território de Múltiplas e Incompletas Reflexões, UFP, Recife, 1997, p. 35 in: SOUZA, Edison Antonio, org. BARROZO, João Carlos, Sinop: História, Imagens e Relatos – um estudo sobre a colonização de Sinop, Cuiabá, UFMT, 2001, Pp. 105-6.

[51] SOUZA, Pp. 96.

[52] Idem, Pp. 102.

[53] ARRUDA, Pp. 36.

[54] MIRANDA, A Colonização em Sinop. O Papel da Colonização Dirigida-expansão da fronteira na Amazônia p. 51, UFRJ, 1990 in:SOUZA, p. 99.

* WAGNER, Pp. 86.

[55] CHAGAS, Valdecir, Histórico de Lucas do Rio Verde até os Dias de Hoje, Tupi Comunicações, TV Rio Verde, 01/08/2001.

[56] Idem.

[57] Jornal da Cotrijuí – COTRIJORNAL, Ijuí, de 07/1973 a 05/1974.

[58] WAGNER, Pp. 17.

[59] Primavera do Leste, Desenvolvimento e Qualidade de Vida em Primeiro Lugar. Prefeitura de Primavera do Leste. Gestão 1997-2000. Gestão Érico Pereira.

[60] Primavera do Leste, Idem.

[61] IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, censos demográficos de 1970 e 1980.

* WAGNER, Pp. 130.

[62] Primavera do Leste, Desenvolvimento e Qualidade de Vida em Primeiro Lugar. Prefeitura de Primavera do Leste. Gestão 1997-2000. Gestão Érico Pereira.

[63] Primavera do Leste, Idem.

* WAGNER, Pp. 86.

* WAGNER, Pps. 70-73.

[64] In: SANTOS, Op. Cit., pp. 110. depoimento de um colono de Canarana.

[65] A CPT foi fundada em 1975 com o objetivo de trabalhar em prol de trabalhadores expulsos da terra. Os artigos anteriores à 1975 foram doados por colecionadores.





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