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A Ágora de Atenas:
aspectos políticos, sociais e econômicos


Gláucia Rodrigues Castellan
Bacharel e Licenciada em História/USP
glaucia@klepsidra.net


 

“Se a arqueologia clássica pode ser definida como o estudo da História e da cultura antigas através de vestígios materiais, então a descoberta da Ágora de uma cidade grega deveria ser um dos objetos principais do escavador, pois assim aprenderá muito sobre história, instituições sociais, comércio, arte, tecnologia e cultos de um local.”[1]

 

Fonte: www.senado.gov.br/comunica/historia/agora.htm


            Este artigo tem por objetivo mostrar o importante papel que a ágora de Atenas desempenhava como o espaço público mais visado e valorizado da cidade-estado grega. Era na ágora que as pessoas de uma mesma comunidade se relacionavam, elas saiam de dentro de seus oikos e iam se reunir nesse grande centro de circulação de produtos idéias e pessoas, ou seja, um ponto de reunião – independente de haver troca de bens -, era este o sentido que a ágora tinha.

            Esta “praça” pública se caracterizava como um espaço construído, permanente e fixo, que, tinha também um sentido político – era o lugar onde se deliberavam assuntos importantes para a vida dos cidadãos e da sociedade como um todo. Neste sentido, encontraremos uma contraposição entre os povos que tinham a ágora e os que não a tinham. Estes últimos eram considerados bárbaros, pois, na maioria das vezes, tinham como forma de governo a monarquia e, como tal, não deliberavam, pois, entendiam não ser necessária a discussão uma vez que apenas uma pessoa decidia por todas as outras.


              A palavra ágora se originou do verbo agorien, que no século VIII a.C significava discutir, deliberar, tomar decisões; mas com o passar dos séculos seu sentido foi mudando e já no século IV a.C agorien significava comprar. Dessa forma, o comércio pode ser definido na sua forma mais simples como uma circulação, uma transferência de bens. Entretanto, para que essa movimentação possa ocorrer, se faz necessário que haja pelo menos dois indivíduos envolvidos. Assim, cada pessoa leva seus produtos e havendo o interesse e a possibilidade eles trocam as suas mercadorias (essas trocas podiam envolver ou não dinheiro).


No entanto, se fazia necessária a existência de um espaço físico para que essa transferência de bens pudesse acontecer. Dois locais eram preferencialmente utilizados pelos antigos gregos para tal transferência: as ágoras e os portos. Estes eram dois espaços físicos em que se materializavam, se concretizavam as relações entre os homens. Na ágora, eram realizados diversos tipos de trocas, e no porto muitos tipos de materiais e objetos eram levados para serem transportados através da via marítima.


Fonte: www.dearqueologia.com

1. Templo inacabado de Zeus
5. Altar dos 12 heróis
9. Monumento aos heróis epônimos
13. Heliaia
17. Trajeto das panateneas
21. Propileos
25. Stoa de Atalo

2. Edifício inacabado
6. Stoa de Zeus
10. Tholos
14. Stoa sul
18. Pnyx
22. Atenea Promacos
3. Stoa pintada
7. Teseion
11. Strategeion
15. Fonte sudeste
19. Areópago
23. Erecteion
4. Stoa de Hermes
8. Bouleteyon
12. Fonte sudoeste
16. Mint
20. Atenea Nike
24. Partenon

            De acordo com Vidal Naquet e Austin em Economia e Sociedade na Grécia Antiga, a exploração da atividade econômica com fins fiscais remonta à época arcaica. Na época clássica:

 

Atenas utilizará esses métodos com tanto mais êxito quanto, com a expansão do poderio ateniense, depois das guerras médicas, o Pireu se tornou, não só, o mais importante porto militar da bacia oriental do Mediterrâneo, mas também o maior centro econômico. O poderio e a prosperidade de Atenas atraíam a ele comerciantes vindos de todos os lados à procura de um mercado onde tudo se podia vender e comprar. As fontes atenienses da época clássica não deixam de sublinhar a variedade de todos os produtos estrangeiros, que se encontravam em Atenas. Mesmo depois do desastre da guerra do Peloponeso, o Pireu não perdeu de modo nenhum o seu papel de grande centro econômico; foi em parte isso que permitiu a Atenas ultrapassar os momentos mais graves da crise financeira que rebentou após a guerra do Peloponeso. O principal imposto no Pireu era a taxa no valor do cinquentésimo (dois por cento), cobrada sobre todos os produtos, exportados e importados, e fosse qual fosse a sua origem. Outros impostos eram cobrados sobre as mercadorias vendidas na ágora de Atenas, sobre os estrangeiros que aí vinham praticar o comércio, sobre as vendas pelo Estado de bens que lhe pertenciam (por confiscação, por exemplo), etc.”[2]

 

Na sua forma mais simples, a ágora pode ser definida como uma grande praça aberta utilizada para funções públicas. Era nesse local que um grande número de cidadãos se encontravam para diversas atividades, assembléias, festivais, eleições, competições atléticas, desfiles, mercados, e similares. Assim sendo, a ágora tornou-se o centro da pólis, pois os edifícios públicos da cidade foram sendo construídos ao redor do lugar onde as pessoas freqüentemente se encontravam.

Fonte: www.dearqueologia.com            Podemos dizer que a ágora grega foi a precursora do fórum imperial romano, das grandes “piazzas” e praças das capitais da Europa. Ao redor dessa praça, acontecia um grande número de atividades religiosas, sociais, comerciais, judiciais, legislativas e administrativas, que tornaram a ágora o coração de uma cidade antiga. Dessa forma, como todas, a ágora de Atenas acomodava todos os aspectos da vida antiga.

As primeiras ágoras eram abertas para a comunidade e o acesso era livre. Havia uma tendência de se estabelecer esse “ponto de encontro” nas encruzilhadas ou nas principais vias da cidade. De acordo com Finley:

 

“(…) A região rural grega estava cheia de pessoas, mas arquiteturalmente vazia. Excetuando alguns complexos ocasionais de templos construídos longe das cidades, o edifício significativo só existia nos grades centros. Com o decorrer dos tempos, a população foi aumentando de tal forma que o conjunto adquiria por norma uma configuração muito desordenada. As muralhas eram fortes, mas, irregulares e as portas muitas vezes não levam às principais artérias interiores. (…) As ruas eram estreitas e tortuosas. A praça pública, a ágora, tendia a tornar-se num caos em redor das esquinas, porque os edifícios se apertavam uns aos outros, havia uma invasão das mesas do mercado e as estátuas e pedras dedicatórias eram colocadas por todo lado. Atenas é um bom exemplo: aparte a existência de uma superfície aberta sem pavimento, com cerca de dez acres, em pleno centro, não consegue discernir-se uma única idéia por detrás da arquitetura de sua ágora. Ou então, a desordem de Delfos onde, o Caminho Sagrado - que levava à colina do principal Templo de Apolo - era delimitado por edifícios e objetos dedicatórios que se acumulavam século após século, enquanto os antigos se desfaziam e alguns eram demolidos.”[3]

 

            Em meio a todo esse “caos” urbano, a ágora surgiu como um espaço aberto que aos poucos foi se fechando, pois, com o passar do tempo a cidade antiga foi se organizando e esta passou a ter um tamanho delimitado de acordo com os quarteirões e o plano ortogonal. Esta idéia de um plano regular foi atribuído – na tradição clássica – a Hipodamo – natural da região de Mileto e, que teve seu auge em meados do século V a.C – Hipodamo surgiu como um reformador, um planificador e um teórico político utópico. Aparentemente, foi lhe concedida alguma oportunidade de aplicar as suas idéias no Pireu (porto de Atenas) e talvez ainda em outros sítios. No entanto, a resistência foi forte e, por algum tempo, com êxito. Tal resistência se devia ao fato de sua abordagem ser demasiado abstrata e formalmente matemática, pouco ligada ao terreno grego - muito irregular como habitualmente era - ou à maneira como os gregos viviam e funcionavam.

Entre outras coisas, como Aristóteles sublinhou “(…), levantavam-se objeções graves de um ponto de vista militar: a velha disposição desordenada das ruas e construções, sempre confundia e enredava os invasores, quer ao tentarem entrar, quer ao procurarem encontrar saída.” [4] E, em um plano mais geral, as cidades-estado gregas se deparavam com um outro problema; a falta de organização e finanças para por em prática tais esquemas. O fizeram ao longo do tempo na dependência das circunstâncias, dos estados de ânimo e do estado do tesouro em todo momento.


Um exemplo interessante e raríssimo é a cidade de Olinto - construída na segunda metade do século V a.C, na margem nordeste do Mar Egeu – trata-se de uma cidade clássica com uma disposição regular. No entanto, a mudança decisiva se deu na época helenística que contemplou o triunfo da regularidade planeada, anunciada pela reconstrução de Priene na Ásia Menor, iniciada pouco antes de Alexandre.


Fonte: www.dearqueologia.com


De acordo com Finley:

 

“Quando se examinam com maior cuidado os projetos helenísticos, surge um outro traço muito significativo. A ágora apresenta-se agora fechada nos quatro lados, como que para proclamar através desta simples evolução arquitetônica que a livre movimentação e reunião do povo eram coisas do passado. Não só era esta a regra nas novas fundações dos monarcas e dos tiranos helenísticos, mas também se espalhou por todo mundo grego antigo. Em Atenas, a construção que mais dramaticamente caracteriza a nova era é a stoa de dois andares, com mais de 125 jardas de comprimento, doada por Atalo II, rei de Pérgamo de 159 a 138 (…). Simples, de início, a stoa tornou-se gigantesca, cheia de lojas nas traseiras, o edifício dominante da ágora.”[5]

 

Fonte: www.dearqueologia.com      A ágora era circundada por longas stoai, que nada mais eram do que largos pórticos abertos que protegiam o visitante do frio e do calor ao mesmo tempo em que traziam luz e ar. Além disso, as stoai preenchiam importante função social na vida da cidade, pois eram nesses locais que os cidadãos se encontravam para discutir negócios, política, ou filosofia.

Nos edifícios como a Stoa Real e a Stoa do sul I, estavam os responsáveis pela administração diária da cidade. Os legisladores atenienses diariamente se encontravam no Bouleuterion localizado em toda a extensão do lado oeste da praça. Já no Metroon estavam guardados os arquivos centrais. Os Foruns estavam localizados na parte nordeste e sul da praça; o que nos mostra uma conexão entre a ágora e o poder judiciário. Todos os dias aconteciam atividades comerciais nessa área nas formas de grandes mercados, em pequenas lojas particulares, nas ruas, e na própria praça.

 

“Havia também um certo número da magistraturas que se ocupavam da atividade econômica em geral, tais como, na Atenas dos século IV, os agoránomos, os metrónomos, os sitofílacas e os inspetores do porto comercial. Estas magistraturas exerciam diversas funções. Alguns deles velavam, como vimos, pelo abastecimento de trigo (os sitofílacas e os inspetores do porto), outros ocupavam-se  mais em geral da política dos mercados; nenhuma preocupação estritamente econômica aqui, mas simplesmente de vigilância e de ordem. Era à mesma preocupação de ordem que correspondia, sem dúvida, a prática, atestada muitas vezes, de estabelecer mercados especiais fora da cidade quando se encontrava de passagem exércitos estrangeiros que pediam para se abastecerem. Por vezes, em certos Estados oligárquicos, a preocupação de controlar a atividade econômica obedecia a móbeis mais profundos, era a própria atividade econômica que se tratava de dominar.”[6]

 

Fonte: www.dearqueologia.com      A ágora também servia com um importante centro religioso, juntamente com o Hephaisteion (templo localizado na colina oeste), a praça possuía um grande número de altares e pequenos santuários, muitos eram dedicados aos semideuses conhecidos como heróis. Como esses santuários estavam localizados justamente no centro da vida cotidiana, na maioria das vezes acabavam recebendo uma atenção mais regular do povo do que os grandes edifícios de culto erigidos pelo Estado na Acrópole.

Um bom exemplo disso ocorreu na reconstrução, após a invasão persa, quando os atenienses ocuparam-se primeiro da ágora, ignorando a Acrópole. A escolha foi sem dúvida, motivada pela urgência de restabelecer ordenadamente a vida cotidiana, talvez também devido a fundos limitados. Mas surge a tentação de ver igualmente uma razão psicológica, expressa numa citação conhecida e feliz de Aristóteles: (…) “‘Uma cidadela (acrópole) adequa-se a oligarquia e à legislação de um só homem, o terreno plano à democracia.’” [7] Em menos de uma geração, contudo, a posição modificou-se. A democracia triunfante, rica, auto-suficiente e imperialista, governada por Péricles, voltou à Acrópole, que era um local venerável, fazendo dela não apenas o seu maior centro religioso, mas também o símbolo visível do poder e a da glória de Atenas.

Fonte: www.dearqueologia.comDe maneira geral, uma ágora típica era o ponto focal da vida pública de uma cidade-estado grega , o principal centro do comércio interno, aquele que se alimentava através das vias terrestres. Na ágora, cada negociante possuía seu lugar determinado e devidamente pago. Para entendermos melhor o movimento comercial no interior da ágora de Atenas, nos utilizaremos da magistral descrição de Gustave Glotz em História Econômica da Grécia:

 

“(…) Mas o centro do comércio interior é a ágora. Aí palpita durante todo o dia a vida política, social e econômica da grande cidade. Nas extremidades da praça erguem-se as repartições dos magistrados, com os editais que atraem os curiosos. A multidão abriga-se debaixo dos pórticos de finas colunatas. Passa diante dos frescos do ilustre Polignoto e aflui aos ‘hermes’, onde os homens de negócio debatem as cotações, os interessados pela política discutem a ordem do dia da próxima assembléia, os basbaques ouvem os pregoeiros públicos, os ociosos cavaqueiam, agitando os seus bordões nodosos, os jovens elegantes fazem flutuar com gracilidade as pregas das suas compridas túnicas brancas. Cruzam-se em todos os sentidos todos os que têm alguma coisa para vender: escravos com fazendas que acabam de fabricar, artífices do Cerâmico, de Mélite, ou das Escambônidas, saloios que partiram da sua aldeia antes da alba, megáricos a guiarem porcos, pescadores do lago Copais. Pelas aléias plantadas da árvores encaminham-se para os setores reservados às diversas mercadorias e separados por divisórias móveis. Sucessivamente, às horas fixadas pelo regulamento, abrem-se os mercados de legumes e hortaliças, de frutas, de queijo, de peixe, de carne, de carne de porco, de aves da capoeira e de caça, de vinho, de lenha, de olaria, de objetos de segunda mão, de quinquilharia. Há até um canto para os livros. Cada mercador tem o seu lugar, que o pagamento de um direito lhe garante; à sombra de um toldo ou dum guarda-sol, expõe os seus artigos em mesas, ao pé da sua carroça e dos seus animais que estão a descansar. Os fregueses circulam; os vendedores interpelam-nos; os moços de recados e de fretes oferecem os seus serviços. Pregões, juras e alterações; os agorânomos não sabem  para que lado hão de voltar. Quando acabam os mercados ao ar livre, a clientela passa à praça coberta, bazar à oriental. Ao fundo estão os balcões. Todos estes vendedores em relato têm má fama. Os fregueses queixam-se da sua violência e grosseria. As mulheres que ganham a vida na rua ou na ágora e as taberneiras são suspeitas de comportamento imoral; a lei não admite ações de adultério contra este gênero de pessoas. Mas aos pequenos comerciantes censuram-se sobretudo os seus hábitos de rapacidade, de deslealdade, de mentira. Pedem preços exorbitantes, falsificam os gêneros, enganam no peso, roubam nos trocos.”[8]

 

A citação acima nos dá uma visão geral do cotidiano na ágora, bem como nos revela a imutabilidade de certos aspectos da psicologia humana. Entretanto, a ágora de Atenas tem um significado muito mais amplo, e diversos aspectos a diferenciam de outros grandes centros cívicos explorados até agora na Grécia.

Isso se deve ao fato da proeminência da Atenas, pois a maior parte dos textos, da literatura e da história que foram preservados, são de origem ateniense e sua ágora serviu como palco e pano de fundo para muitos eventos significativos da história grega. Entre as muitas pessoas associadas com os maiores feitos da civilização grega clássica, muitas nasceram em Atenas e outras são provenientes de todo o Mediterrâneo, deram sua contribuição para um período notável de grandes realizações intelectuais e artísticas. Homens de Estado, autores de peças teatrais, historiadores e artistas, filósofos e oradores, como Tucídides, Ésquilo, Sófocles, Demóstenes, Fídias e Práxiteles, surgiram na Grécia nos séculos V e VI a.C., quando a mais poderosa cidade-estado de Grécia era Atenas. Juntos, estes homens foram responsáveis por plantar as sementes das civilizações ocidentais, e ambos freqüentavam a ágora – que foi usada para performances teatrais, procissões religiosas, competições atléticas e desfiles. Sob a liderança de Sólon, Clístenes e Péricles, a instituição política da democracia também tem na ágora suas raízes. Mesmo quando a significância política, econômica e militar não era mais evidente, Atenas permaneceu como influência cultural e educacional por séculos, atraindo professores e alunos de filosofia, lógica e retórica até o século VI d.C.

Como vimos anteriormente, a ágora, antes do século IV a.C era um espaço físico onde as discussões aconteciam, era um local de culto e era um lugar de comércio. Ela não era uma ágora especializada. Isso nos mostra que nesse tipo de sociedade, as relações políticas, sociais e econômicas estavam inter-relacionadas. Não era a economia que regia a sociedade, mas a posição social do indivíduo em relação aos meios de produção. Os vários aspectos da sociedade se encontram misturados e eram inseparáveis.  No entanto, a partir do século IV a.C, as ágoras começaram a se especializar. Aristóteles considerava importante que houvesse essa especialização, para ele, o melhor seria que houvesse uma ágora para as discussões, outra para os negócios e uma terceira para o lazer. “Na Tessália, por exemplo, as diferentes funções da ágora (originalmente local de reunião da comunidade, antes de se tornar centro econômico) estão deliberadamente separadas: há uma ágora ‘livre’, reservada à atividade cívica e política e da qual está excluída qualquer função econômica. Esta última está concentrada numa ágora especial, a ágora comercial.” [9] Já Platão, nas suas Leis, prescreve que não se recebam os comerciantes estrangeiros senão fora da cidade, e que se tenha um mínimo de relaçãos com eles. Encontram-se aqui, uma vez mais, velhos preconceitos, em parte dirigidos contra a atividade econômica enquanto tal, em parte contra o estrangeiro e tudo o que ele comporta como riscos de influências nefastas vindas do exterior.


Assim sendo, com  passar do tempo a ágora foi sofrendo transformações, se em época grega começou a se especializar, em época romana isso aconteceu de forma ainda mais intensa. Então teremos uma ágora para negócios, uma para política e outra para o lazer. Também em época romana teremos a ágora monumental - uma praça de propaganda política e de culto ao imperador. 


Em nenhum outro lugar foi encontrada uma história tão ricamente ilustrada como aquela que se tem na ágora. Na área aberta da grande praça, monumentos foram erigidos para comemorar os triunfos, ao seu redor, edifícios cívicos foram construídos para a administração da democracia, ao mesmo tempo, em que além dos seus limites, a ágora era repleta de casas e oficinas daqueles que faziam de Atenas a cidade mais proeminente da Grécia.


            A exploração arqueológica da ágora tem colaborado para uma compreensão maior não apenas de um lugar específico, mas sobre vários aspectos da civilização grega clássica. A cidade de Atenas nos fornece uma grande quantidade de material para o entendimento da ágora e de suas construções. Construções estas tão pobremente preservadas que muitas de suas ruínas mal podem ser observadas na superfície. No entanto, “fontes escritas nos descrevem a respeito de encontros e julgamentos ocorridos ali, apresentações de filósofos ou pinturas que decoram as paredes. São encontradas, em autores da antigüidade, inúmeras referências que mencionam especificamente a ágora e seus monumentos, e em nenhum outro lugar da Grécia as fontes enriqueceram tão bem o nosso entendimento sobre as ruínas.”[10]


            Dentre muitos dos escritos preservados da Antigüidade, o de Pausânias, Descrição da Grécia, é muito útil aos arqueólogos, pois foi escrito como um guia entre os anos 150 e 175 d.C. e descreve em detalhes as cidades e os monumentos da Grécia conforme eram vistos no século II d.C.. E a descrição de Pausânias sobre a ágora é a principal fonte para identificar muitas das suas estruturas.


Dentre outras fontes literárias, há também as inscrições. A democracia ateniense exigiu registros extensivos e permanentes, por isso Atenas, mais do que qualquer outra cidade, escreveu sua história em pedras. Dessa forma, inúmeras inscrições foram encontradas na ágora, eram: leis, acordos, decretos honorários, dedicatórias, descrições de construções, inventários sobre templos, pedras demarcatórias, e bases de estátuas. Estas, quando estudadas juntamente com os registros literários, aumentam o nosso entendimento sobre as construções, que com o passar dos séculos foram deixadas em estado deplorável.


            Entretanto, quando não dispomos de inscrições e fontes escritas, a cronologia do desenvolvimento da ágora, e suas construções é baseada em análises estilísticas. A grande maioria dos elementos como a cerâmica, a escultura, a arquitetura, as moedas, etc. mudaram com o passar do tempo. Sendo assim, um olhar treinado pode datar um fragmento de cerâmica ou de mármore. No entanto, o mais útil e confiável indicador é a cerâmica, pois era feita em grande quantidade e era praticamente indestrutível. Muitos fragmentos de cerâmica são encontrados em todos os níveis de escavações. Seu formato, brilho e decoração permitem-nos datar as peças e a camada com um considerável grau de precisão. De fato, as escavações da ágora produziram materiais em cerâmica datáveis em abundância.


            Desta forma, e por essas várias razões, as escavações da ágora contribuíram substancialmente, não somente para o nosso conhecimento sobre Atenas, mas também para quase todos os aspectos da Grécia na Antigüidade, desde o período neolítico até o período medieval. É inevitável, quando se procura as origens da cultura, da arte e do pensamento político ocidentais, retornamos a Atenas Clássica, onde a ágora era o coração e a alma da cidade.

 

 

Bibliografia

 

CAMP, John M. The Athenian Agora: excavations in the heart of classical Athens. Londres: Thames & Hudson, 1986.

 

FINLEY, M. I.. Economia e Sociedade da Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

 

FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1984.

 

FLORENZANO, Maria Beatriz Borba. O Mundo Antigo: economia e sociedade. 2.ª reimpressão, São Paulo: Editora Brasiliense, 1998.

 

GLOTZ, Gustave. História Econômica da Grécia. Lisboa:  Edições Cosmos, 1946.

 

MOSSÉ, Claude. O Homem e a Economia. IN VERNANT, Pierre (dir.) O Homem Grego. 1.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 1994 pp. 23 a 45.

 

VERNANT, Jean Pierre (dir.). O Homem Grego. 1.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 1994.

 

VIDAL NAQUET, Pierre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986.

 



[1] CAMP. JOHN M. The Athenian Agora: exacavations in the heart of classical Athens. London: Thames and Hudson, 1986, p. 14.

[2] VIDAL NAQUET, Pierre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986, pág. 124.

[3] FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1984, pág. 133.

[4] FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Esdições 70, 1984, p. 134.

[5] Idem, p. 135.

[6] VIDAL NAQUET, Pierre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986, pág. 125.

[7] FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1984, pág. 137.

[8] GLOTZ, Gustave. História Econômica da Grécia. Lisboa: Edições Cosmos, 1946, pp. 254 e 255.

[9] VIDAL NAQUET, Peirre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade da Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986, pág. 125.

[10] CAMP. JOHN M. The Athenian Agora: exacavations in the heart of classical Athens. London: Thames and Hudson, 1986, p. 14.




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Os Gregos Antigos, de Moses Finley
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