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A Ágora de Atenas: aspectos políticos, sociais e econômicos |
“Se a arqueologia clássica pode ser definida como o estudo da História e da cultura antigas através de vestígios materiais, então a descoberta da Ágora de uma cidade grega deveria ser um dos objetos principais do escavador, pois assim aprenderá muito sobre história, instituições sociais, comércio, arte, tecnologia e cultos de um local.”[1]

Este
artigo tem por objetivo mostrar o
importante papel que a ágora de Atenas desempenhava como o
espaço
público mais visado e valorizado da cidade-estado grega. Era na ágora
que as pessoas de uma mesma comunidade se relacionavam, elas saiam de
dentro de
seus oikos e iam se reunir nesse grande centro de circulação de
produtos
idéias e pessoas, ou seja, um ponto de reunião – independente de haver
troca de
bens -, era este o sentido que a ágora tinha.
Esta “praça” pública se caracterizava como um espaço construído, permanente e fixo, que, tinha também um sentido político – era o lugar onde se deliberavam assuntos importantes para a vida dos cidadãos e da sociedade como um todo. Neste sentido, encontraremos uma contraposição entre os povos que tinham a ágora e os que não a tinham. Estes últimos eram considerados bárbaros, pois, na maioria das vezes, tinham como forma de governo a monarquia e, como tal, não deliberavam, pois, entendiam não ser necessária a discussão uma vez que apenas uma pessoa decidia por todas as outras.
A palavra ágora se originou do
verbo agorien, que no século VIII a.C significava discutir,
deliberar,
tomar decisões; mas com o passar dos séculos seu sentido foi
mudando e
já no século IV a.C agorien significava comprar. Dessa
forma, o
comércio pode ser definido na sua forma mais simples como uma
circulação, uma
transferência de bens. Entretanto, para que essa movimentação possa
ocorrer, se
faz necessário que haja pelo menos dois indivíduos envolvidos. Assim,
cada
pessoa leva seus produtos e havendo o interesse e a possibilidade eles
trocam
as suas mercadorias (essas trocas podiam envolver ou não dinheiro).
No entanto, se fazia necessária a existência de um espaço físico para que essa transferência de bens pudesse acontecer. Dois locais eram preferencialmente utilizados pelos antigos gregos para tal transferência: as ágoras e os portos. Estes eram dois espaços físicos em que se materializavam, se concretizavam as relações entre os homens. Na ágora, eram realizados diversos tipos de trocas, e no porto muitos tipos de materiais e objetos eram levados para serem transportados através da via marítima.

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1. Templo inacabado de Zeus |
2. Edifício inacabado 6. Stoa de Zeus 10. Tholos 14. Stoa sul 18. Pnyx 22. Atenea Promacos |
3. Stoa pintada 7. Teseion 11. Strategeion 15. Fonte sudeste 19. Areópago 23. Erecteion |
4. Stoa de Hermes 8. Bouleteyon 12. Fonte sudoeste 16. Mint 20. Atenea Nike 24. Partenon |
De acordo com Vidal Naquet e Austin em Economia e Sociedade na Grécia Antiga, a exploração da atividade econômica com fins fiscais remonta à época arcaica. Na época clássica:
Atenas utilizará esses métodos com tanto mais êxito quanto, com a expansão do poderio ateniense, depois das guerras médicas, o Pireu se tornou, não só, o mais importante porto militar da bacia oriental do Mediterrâneo, mas também o maior centro econômico. O poderio e a prosperidade de Atenas atraíam a ele comerciantes vindos de todos os lados à procura de um mercado onde tudo se podia vender e comprar. As fontes atenienses da época clássica não deixam de sublinhar a variedade de todos os produtos estrangeiros, que se encontravam em Atenas. Mesmo depois do desastre da guerra do Peloponeso, o Pireu não perdeu de modo nenhum o seu papel de grande centro econômico; foi em parte isso que permitiu a Atenas ultrapassar os momentos mais graves da crise financeira que rebentou após a guerra do Peloponeso. O principal imposto no Pireu era a taxa no valor do cinquentésimo (dois por cento), cobrada sobre todos os produtos, exportados e importados, e fosse qual fosse a sua origem. Outros impostos eram cobrados sobre as mercadorias vendidas na ágora de Atenas, sobre os estrangeiros que aí vinham praticar o comércio, sobre as vendas pelo Estado de bens que lhe pertenciam (por confiscação, por exemplo), etc.”[2]
Na sua forma mais simples, a ágora
pode ser definida como uma grande praça aberta utilizada para funções
públicas.
Era nesse local que um grande número de cidadãos se encontravam para
diversas
atividades, assembléias, festivais, eleições, competições atléticas,
desfiles,
mercados, e similares. Assim sendo, a ágora tornou-se o centro
da pólis,
pois os edifícios públicos da cidade foram sendo construídos ao redor
do lugar
onde as pessoas freqüentemente se encontravam.
Podemos dizer que a ágora grega
foi a precursora do fórum imperial romano, das grandes “piazzas” e
praças das
capitais da Europa. Ao redor dessa praça, acontecia um grande número de
atividades religiosas, sociais, comerciais, judiciais, legislativas e
administrativas, que tornaram a ágora o coração de uma cidade
antiga.
Dessa forma, como todas, a ágora de Atenas acomodava todos os
aspectos
da vida antiga.
As primeiras ágoras eram abertas para a comunidade e o acesso era livre. Havia uma tendência de se estabelecer esse “ponto de encontro” nas encruzilhadas ou nas principais vias da cidade. De acordo com Finley:
“(…) A região rural grega estava cheia de pessoas, mas arquiteturalmente vazia. Excetuando alguns complexos ocasionais de templos construídos longe das cidades, o edifício significativo só existia nos grades centros. Com o decorrer dos tempos, a população foi aumentando de tal forma que o conjunto adquiria por norma uma configuração muito desordenada. As muralhas eram fortes, mas, irregulares e as portas muitas vezes não levam às principais artérias interiores. (…) As ruas eram estreitas e tortuosas. A praça pública, a ágora, tendia a tornar-se num caos em redor das esquinas, porque os edifícios se apertavam uns aos outros, havia uma invasão das mesas do mercado e as estátuas e pedras dedicatórias eram colocadas por todo lado. Atenas é um bom exemplo: aparte a existência de uma superfície aberta sem pavimento, com cerca de dez acres, em pleno centro, não consegue discernir-se uma única idéia por detrás da arquitetura de sua ágora. Ou então, a desordem de Delfos onde, o Caminho Sagrado - que levava à colina do principal Templo de Apolo - era delimitado por edifícios e objetos dedicatórios que se acumulavam século após século, enquanto os antigos se desfaziam e alguns eram demolidos.”[3]
Em meio a todo esse “caos” urbano, a ágora
surgiu como um espaço aberto que aos poucos foi se fechando, pois, com
o passar
do tempo a cidade antiga foi se organizando e esta passou a ter um
tamanho
delimitado de acordo com os quarteirões e o plano ortogonal. Esta idéia
de um
plano regular foi atribuído – na tradição clássica – a Hipodamo –
natural da
região de Mileto e, que teve seu auge em meados do século V a.C –
Hipodamo
surgiu como um reformador, um planificador e um teórico político
utópico.
Aparentemente, foi lhe concedida alguma oportunidade de aplicar as suas
idéias
no Pireu (porto de Atenas) e talvez ainda em outros sítios. No
entanto,
a resistência foi forte e, por algum tempo, com êxito. Tal resistência
se devia
ao fato de sua abordagem ser demasiado abstrata e formalmente
matemática, pouco
ligada ao terreno grego - muito irregular como habitualmente era - ou à
maneira
como os gregos viviam e funcionavam.
Entre outras coisas, como Aristóteles sublinhou “(…), levantavam-se objeções graves de um ponto de vista militar: a velha disposição desordenada das ruas e construções, sempre confundia e enredava os invasores, quer ao tentarem entrar, quer ao procurarem encontrar saída.” [4] E, em um plano mais geral, as cidades-estado gregas se deparavam com um outro problema; a falta de organização e finanças para por em prática tais esquemas. O fizeram ao longo do tempo na dependência das circunstâncias, dos estados de ânimo e do estado do tesouro em todo momento.
Um exemplo interessante e raríssimo é a cidade de Olinto - construída na segunda metade do século V a.C, na margem nordeste do Mar Egeu – trata-se de uma cidade clássica com uma disposição regular. No entanto, a mudança decisiva se deu na época helenística que contemplou o triunfo da regularidade planeada, anunciada pela reconstrução de Priene na Ásia Menor, iniciada pouco antes de Alexandre.

De acordo com Finley:
“Quando se examinam com maior cuidado os projetos helenísticos, surge um outro traço muito significativo. A ágora apresenta-se agora fechada nos quatro lados, como que para proclamar através desta simples evolução arquitetônica que a livre movimentação e reunião do povo eram coisas do passado. Não só era esta a regra nas novas fundações dos monarcas e dos tiranos helenísticos, mas também se espalhou por todo mundo grego antigo. Em Atenas, a construção que mais dramaticamente caracteriza a nova era é a stoa de dois andares, com mais de 125 jardas de comprimento, doada por Atalo II, rei de Pérgamo de 159 a 138 (…). Simples, de início, a stoa tornou-se gigantesca, cheia de lojas nas traseiras, o edifício dominante da ágora.”[5]
A ágora era circundada por longas stoai,
que nada mais eram do que largos pórticos abertos que protegiam o
visitante do
frio e do calor ao mesmo tempo em que traziam luz e ar. Além disso, as stoai
preenchiam importante função social na vida da cidade, pois eram nesses
locais
que os cidadãos se encontravam para discutir negócios, política, ou
filosofia.
Nos edifícios como a Stoa Real e a Stoa do sul I, estavam os responsáveis pela administração diária da cidade. Os legisladores atenienses diariamente se encontravam no Bouleuterion localizado em toda a extensão do lado oeste da praça. Já no Metroon estavam guardados os arquivos centrais. Os Foruns estavam localizados na parte nordeste e sul da praça; o que nos mostra uma conexão entre a ágora e o poder judiciário. Todos os dias aconteciam atividades comerciais nessa área nas formas de grandes mercados, em pequenas lojas particulares, nas ruas, e na própria praça.
“Havia também um certo número da magistraturas que se ocupavam da atividade econômica em geral, tais como, na Atenas dos século IV, os agoránomos, os metrónomos, os sitofílacas e os inspetores do porto comercial. Estas magistraturas exerciam diversas funções. Alguns deles velavam, como vimos, pelo abastecimento de trigo (os sitofílacas e os inspetores do porto), outros ocupavam-se mais em geral da política dos mercados; nenhuma preocupação estritamente econômica aqui, mas simplesmente de vigilância e de ordem. Era à mesma preocupação de ordem que correspondia, sem dúvida, a prática, atestada muitas vezes, de estabelecer mercados especiais fora da cidade quando se encontrava de passagem exércitos estrangeiros que pediam para se abastecerem. Por vezes, em certos Estados oligárquicos, a preocupação de controlar a atividade econômica obedecia a móbeis mais profundos, era a própria atividade econômica que se tratava de dominar.”[6]
A ágora também servia com um importante
centro religioso, juntamente com o Hephaisteion (templo
localizado na
colina oeste), a praça possuía um grande número de altares e pequenos
santuários, muitos eram dedicados aos semideuses conhecidos como
heróis. Como
esses santuários estavam localizados justamente no centro da vida
cotidiana, na
maioria das vezes acabavam recebendo uma atenção mais regular do povo
do que os
grandes edifícios de culto erigidos pelo Estado na Acrópole.
Um bom exemplo disso ocorreu na
reconstrução, após a invasão persa, quando os atenienses ocuparam-se
primeiro
da ágora, ignorando a Acrópole. A escolha foi sem dúvida,
motivada pela
urgência de restabelecer ordenadamente a vida cotidiana, talvez também
devido a
fundos limitados. Mas surge a tentação de ver igualmente uma razão
psicológica,
expressa numa citação conhecida e feliz de Aristóteles: (…) “‘Uma
cidadela
(acrópole) adequa-se a oligarquia e à legislação de um só homem, o
terreno
plano à democracia.’” [7]
Em
menos de uma geração, contudo, a posição modificou-se. A democracia
triunfante,
rica, auto-suficiente e imperialista, governada por Péricles, voltou à
Acrópole, que era um local venerável, fazendo dela não apenas o seu
maior
centro religioso, mas também o símbolo visível do poder e a da glória
de
Atenas.
De
maneira geral,
uma ágora típica
era o ponto focal da vida pública de uma cidade-estado grega , o
principal
centro do comércio interno, aquele que se alimentava através das vias
terrestres. Na ágora, cada negociante possuía seu lugar
determinado e
devidamente pago. Para entendermos melhor o movimento comercial no
interior da ágora
de Atenas, nos utilizaremos da magistral descrição de Gustave Glotz em História
Econômica da Grécia:
“(…) Mas o centro do comércio interior é a ágora. Aí palpita durante todo o dia a vida política, social e econômica da grande cidade. Nas extremidades da praça erguem-se as repartições dos magistrados, com os editais que atraem os curiosos. A multidão abriga-se debaixo dos pórticos de finas colunatas. Passa diante dos frescos do ilustre Polignoto e aflui aos ‘hermes’, onde os homens de negócio debatem as cotações, os interessados pela política discutem a ordem do dia da próxima assembléia, os basbaques ouvem os pregoeiros públicos, os ociosos cavaqueiam, agitando os seus bordões nodosos, os jovens elegantes fazem flutuar com gracilidade as pregas das suas compridas túnicas brancas. Cruzam-se em todos os sentidos todos os que têm alguma coisa para vender: escravos com fazendas que acabam de fabricar, artífices do Cerâmico, de Mélite, ou das Escambônidas, saloios que partiram da sua aldeia antes da alba, megáricos a guiarem porcos, pescadores do lago Copais. Pelas aléias plantadas da árvores encaminham-se para os setores reservados às diversas mercadorias e separados por divisórias móveis. Sucessivamente, às horas fixadas pelo regulamento, abrem-se os mercados de legumes e hortaliças, de frutas, de queijo, de peixe, de carne, de carne de porco, de aves da capoeira e de caça, de vinho, de lenha, de olaria, de objetos de segunda mão, de quinquilharia. Há até um canto para os livros. Cada mercador tem o seu lugar, que o pagamento de um direito lhe garante; à sombra de um toldo ou dum guarda-sol, expõe os seus artigos em mesas, ao pé da sua carroça e dos seus animais que estão a descansar. Os fregueses circulam; os vendedores interpelam-nos; os moços de recados e de fretes oferecem os seus serviços. Pregões, juras e alterações; os agorânomos não sabem para que lado hão de voltar. Quando acabam os mercados ao ar livre, a clientela passa à praça coberta, bazar à oriental. Ao fundo estão os balcões. Todos estes vendedores em relato têm má fama. Os fregueses queixam-se da sua violência e grosseria. As mulheres que ganham a vida na rua ou na ágora e as taberneiras são suspeitas de comportamento imoral; a lei não admite ações de adultério contra este gênero de pessoas. Mas aos pequenos comerciantes censuram-se sobretudo os seus hábitos de rapacidade, de deslealdade, de mentira. Pedem preços exorbitantes, falsificam os gêneros, enganam no peso, roubam nos trocos.”[8]
A citação acima nos dá uma visão geral do
cotidiano na ágora, bem como nos revela a imutabilidade de
certos
aspectos da psicologia humana. Entretanto, a ágora de Atenas
tem um
significado muito mais amplo, e diversos aspectos a diferenciam de
outros
grandes centros cívicos explorados até agora na Grécia.
Isso se deve ao fato da proeminência da
Atenas, pois a maior parte dos textos, da literatura e da história que
foram
preservados, são de origem ateniense e sua ágora serviu como
palco e
pano de fundo para muitos eventos significativos da história grega.
Entre as
muitas pessoas associadas com os maiores feitos da civilização grega
clássica,
muitas nasceram em Atenas e outras são provenientes de todo o
Mediterrâneo,
deram sua contribuição para um período notável de grandes realizações
intelectuais e artísticas. Homens de Estado, autores de peças teatrais,
historiadores e artistas, filósofos e oradores, como Tucídides,
Ésquilo,
Sófocles, Demóstenes, Fídias e Práxiteles, surgiram na Grécia nos
séculos V e
VI a.C., quando a mais poderosa cidade-estado de Grécia era Atenas.
Juntos,
estes homens foram responsáveis por plantar as sementes das
civilizações
ocidentais, e ambos freqüentavam a ágora – que foi usada para
performances teatrais, procissões religiosas, competições atléticas e
desfiles.
Sob a liderança de Sólon, Clístenes e Péricles, a instituição política
da
democracia também tem na ágora suas raízes. Mesmo quando a
significância
política, econômica e militar não era mais evidente, Atenas permaneceu
como
influência cultural e educacional por séculos, atraindo professores e
alunos de
filosofia, lógica e retórica até o século VI d.C.
Como vimos anteriormente, a ágora, antes do século IV a.C era um espaço físico onde as discussões aconteciam, era um local de culto e era um lugar de comércio. Ela não era uma ágora especializada. Isso nos mostra que nesse tipo de sociedade, as relações políticas, sociais e econômicas estavam inter-relacionadas. Não era a economia que regia a sociedade, mas a posição social do indivíduo em relação aos meios de produção. Os vários aspectos da sociedade se encontram misturados e eram inseparáveis. No entanto, a partir do século IV a.C, as ágoras começaram a se especializar. Aristóteles considerava importante que houvesse essa especialização, para ele, o melhor seria que houvesse uma ágora para as discussões, outra para os negócios e uma terceira para o lazer. “Na Tessália, por exemplo, as diferentes funções da ágora (originalmente local de reunião da comunidade, antes de se tornar centro econômico) estão deliberadamente separadas: há uma ágora ‘livre’, reservada à atividade cívica e política e da qual está excluída qualquer função econômica. Esta última está concentrada numa ágora especial, a ágora comercial.” [9] Já Platão, nas suas Leis, prescreve que não se recebam os comerciantes estrangeiros senão fora da cidade, e que se tenha um mínimo de relaçãos com eles. Encontram-se aqui, uma vez mais, velhos preconceitos, em parte dirigidos contra a atividade econômica enquanto tal, em parte contra o estrangeiro e tudo o que ele comporta como riscos de influências nefastas vindas do exterior.
Assim sendo, com passar do tempo a ágora foi sofrendo transformações, se em época grega começou a se especializar, em época romana isso aconteceu de forma ainda mais intensa. Então teremos uma ágora para negócios, uma para política e outra para o lazer. Também em época romana teremos a ágora monumental - uma praça de propaganda política e de culto ao imperador.
Em nenhum outro lugar foi encontrada uma história tão ricamente ilustrada como aquela que se tem na ágora. Na área aberta da grande praça, monumentos foram erigidos para comemorar os triunfos, ao seu redor, edifícios cívicos foram construídos para a administração da democracia, ao mesmo tempo, em que além dos seus limites, a ágora era repleta de casas e oficinas daqueles que faziam de Atenas a cidade mais proeminente da Grécia.
A
exploração arqueológica da ágora
tem colaborado para uma compreensão maior não apenas de um lugar
específico, mas
sobre vários aspectos da civilização grega clássica. A cidade de Atenas
nos
fornece uma grande quantidade de material para o entendimento da ágora
e
de suas construções. Construções estas tão pobremente preservadas que
muitas de
suas ruínas mal podem ser observadas na superfície. No entanto, “fontes
escritas nos descrevem a respeito de encontros e julgamentos ocorridos
ali,
apresentações de filósofos ou pinturas que decoram as paredes. São
encontradas,
em autores da antigüidade, inúmeras referências que mencionam
especificamente a
ágora e seus monumentos, e em nenhum outro lugar da Grécia as
fontes
enriqueceram tão bem o nosso entendimento sobre as ruínas.”[10]
Dentre muitos dos escritos preservados da
Antigüidade, o de Pausânias, Descrição da Grécia, é muito útil
aos
arqueólogos, pois foi escrito como um guia entre os anos 150 e 175 d.C.
e
descreve em detalhes as cidades e os monumentos da Grécia conforme eram
vistos
no século II d.C.. E a descrição de Pausânias sobre a ágora é a
principal fonte para identificar muitas das suas estruturas.
Dentre outras fontes literárias, há também as inscrições. A democracia ateniense exigiu registros extensivos e permanentes, por isso Atenas, mais do que qualquer outra cidade, escreveu sua história em pedras. Dessa forma, inúmeras inscrições foram encontradas na ágora, eram: leis, acordos, decretos honorários, dedicatórias, descrições de construções, inventários sobre templos, pedras demarcatórias, e bases de estátuas. Estas, quando estudadas juntamente com os registros literários, aumentam o nosso entendimento sobre as construções, que com o passar dos séculos foram deixadas em estado deplorável.
Entretanto, quando não dispomos de
inscrições e fontes escritas, a cronologia do desenvolvimento da ágora,
e suas construções é baseada em análises estilísticas. A grande maioria
dos
elementos como a cerâmica, a escultura, a arquitetura, as moedas, etc.
mudaram
com o passar do tempo. Sendo assim, um olhar treinado pode datar um
fragmento
de cerâmica ou de mármore. No entanto, o mais útil e confiável
indicador é a
cerâmica, pois era feita em grande quantidade e era praticamente
indestrutível.
Muitos fragmentos de cerâmica são encontrados em todos os níveis de
escavações.
Seu formato, brilho e decoração permitem-nos datar as peças e a camada
com um
considerável grau de precisão. De fato, as escavações da ágora
produziram materiais em cerâmica datáveis em abundância.
Desta forma, e por essas várias razões,
as escavações da ágora contribuíram substancialmente, não
somente para o
nosso conhecimento sobre Atenas, mas também para quase todos os
aspectos da
Grécia na Antigüidade, desde o período neolítico até o período
medieval. É
inevitável, quando se procura as origens da cultura, da arte e do
pensamento
político ocidentais, retornamos a Atenas Clássica, onde a ágora
era o
coração e a alma da cidade.
Bibliografia
CAMP, John M. The Athenian Agora: excavations in the heart of classical Athens. Londres: Thames & Hudson, 1986.
FINLEY, M. I.. Economia e Sociedade da Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1984.
FLORENZANO, Maria Beatriz Borba. O Mundo Antigo: economia e sociedade. 2.ª reimpressão, São Paulo: Editora Brasiliense, 1998.
GLOTZ, Gustave. História Econômica da Grécia. Lisboa: Edições Cosmos, 1946.
MOSSÉ, Claude. O Homem e a Economia. IN VERNANT, Pierre (dir.) O Homem Grego. 1.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 1994 pp. 23 a 45.
VERNANT, Jean Pierre (dir.). O Homem Grego. 1.ª edição, Lisboa: Editorial Presença, 1994.
VIDAL NAQUET, Pierre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986.
[1] CAMP. JOHN M. The Athenian Agora: exacavations in the heart of classical Athens. London: Thames and Hudson, 1986, p. 14.
[2] VIDAL NAQUET, Pierre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986, pág. 124.
[3] FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1984, pág. 133.
[4] FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Esdições 70, 1984, p. 134.
[5] Idem, p. 135.
[6] VIDAL NAQUET, Pierre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986, pág. 125.
[7] FINLEY, M. I.. Os Gregos Antigos. Lisboa: Edições 70, 1984, pág. 137.
[8] GLOTZ, Gustave. História Econômica da Grécia. Lisboa: Edições Cosmos, 1946, pp. 254 e 255.
[9] VIDAL NAQUET, Peirre e AUSTIN, Michel. Economia e Sociedade da Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986, pág. 125.
[10]
CAMP. JOHN M. The Athenian Agora: exacavations
in the heart
of classical Athens. London: Thames and Hudson, 1986, p. 14.
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| The Athenian Agora,
de John Camp |
Os
Gregos Antigos, de Moses Finley |
O mundo antigo: economia e sociedade,
de Maria Beatriz Florenzano |
Antigüidade Clássica, de Pedro
Paulo Funari |