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A formação da identidade e do projeto de sociedade dos engenheiros brasileiros: da marginalização política à hegemonia dentro do Estado

Maro Lara Martins
Mestre em Sociologia - Iuperj
marolara@ig.com.br



Introdução

 

            A formação de uma identidade profissional perpassa um ponto mais amplo, como a inserção destes profissionais na sociedade em que vivem. A consolidação de uma identidade caracteriza-se também por fatores exógenos à própria categoria profissional. Neste sentido, uma abordagem sobre o processo de formação e consolidação de uma categoria profissional aponta dois sentidos. Por um lado, privilegia-se os aspectos inerentes à própria categoria profissional, centrando sua análise nas relações internas. Ou seja, existe uma prioridade em destacar os pontos que permitiram o aparecimento da identidade dos engenheiros brasileiros enquanto atores fundamentais a este processo.

            Por outro lado, algumas análises apontam a identidade profissional derivada do contexto ao qual fazem parte. Destacando assim, a ação do contexto sobre os indivíduos. Este tipo de abordagem favorece uma interpretação baseada em fatores externos à própria ação dos atores sociais envolvidos.


            Sendo assim, para podermos refletir sobre o processo de formação e consolidação de uma identidade e de um projeto de sociedade, teremos que percorrer dois caminhos distintos, mas não antagônicos. Tanto um como o outro nos fornecem perspectivas historiográficas que podem se complementar para possibilitar uma reflexão. Consideramos que tanto os fatores endógenos quanto os exógenos a tal processo, de alguma forma, influíram sobre o processo em andamento.


            Tentaremos delinear as relações existentes entre os engenheiros e a elite, os engenheiros e o Estado, a elite e o Estado, e por fim, os engenheiros enquanto grupo social empreendedor de um projeto de sociedade. Assim, a ênfase recai sobre o prisma do campo político de análise social. Nestes termos nossa reflexão permeia a formação do grupo social dos engenheiros no Estado Imperial brasileiro, a formulação de um projeto de sociedade durante a Primeira República e a consolidação do projeto dos engenheiros ocorrido no pós-30.

 

 

Engenheiros: contrapontos ao mundo tradicional

 

O processo de emancipação política brasileira contrapôs o estatuto colonial, ao fundamentar um projeto de Estado e de nação nos trópicos em oposição à própria articulação de dependência à metrópole européia. Inicia-se desta forma, um projeto da elite nativa que procura fundamentar novas relações entre o Estado e a sociedade. 


A historiografia brasileira, apesar das controvérsias teóricas e metodológicas, atenta-se com especial atenção aos fatores e circunstâncias que engendraram o processo de emancipação política, e conseqüentemente, a formação e consolidação do Estado Imperial brasileiro. Verifica-se de forma substancial, que as análises deste processo, indubitavelmente remete-nos às relações de poder estabelecidas entre os setores dominantes e a camada popular, assim como o papel desempenhado pelo recém constituído Estado nacional nas articulações intrínsecas ao contexto sociohistórico interno e externo.


         Efetivamente, após a emancipação política, deu-se início a construção da identidade nacional; observa-se neste processo de consolidação imaginária da nação, o papel central desempenhado pela elite. Seguindo as reflexões sobre o nacionalismo de Verdery que apontam:


           
“Considero nação, antropologicamente, como um operador básico num sistema de classificação social. Os sistemas de classificação social não fazem apenas classificar; na forma institucionalizada, também estabelecem as bases da autoridade e da legitimidade através das categorias que estipulam; fazem suas categorias parecerem naturais e socialmente reais. A nação, portanto, é um aspecto da ordem política e simbólico-ideológica, bem como do mundo da interação e do afeto sociais.”[1]

           

            Nestes termos, o surgimento do Estado brasileiro relaciona-se à tentativa empreendida pela elite da época de construir um projeto político, estabelecendo símbolos essenciais para a legitimação de seu projeto. Evidentemente, tais símbolos construídos apresentam-se socialmente com um aspecto peculiar de interação entre indivíduos em torno deste projeto.


            No processo de construção do Estado nacional brasileiro, as características da elite imperial apresentam-se sob um viés de homogeneidade. Como aponta José Murilo de Carvalho, a unificação da política imperial relaciona-se intimamente com a educação superior na medida em que quase toda a elite detinha o privilégio de cursar um curso superior em contraponto a maioria esmagadora da população. E ainda, a concentração e opção por uma formação jurídica adquirindo um núcleo comum de conhecimentos, e por fim, as poucas opções de escolha na localidade onde esta elite se formou.[2]


            Evidentemente, a estrutura sociopolítica do Império assemelhava-se a uma sociedade do Antigo Regime, pois possuía uma estrutura estamental e uma sociedade de corte. A sociedade se estratificava, tendo em seu ápice o estamento senhorial, os grandes proprietários de terras e escravos, os cidadãos plenos deste período. Esta camada detinha o monopólio de prerrogativas e recursos inatingíveis aos grupos inferiores na hierarquia.


A partir de três pilares fundamentais que ornamentaram o pacto elitista até a década de 1870, o romantismo indianista, o liberalismo e o catolicismo estamental, o projeto político da elite imperial adquiriu uma sustentação social, ao possibilitar a legitimação ideológica do status quo imperial[3].


Fonte: WikipediaO romantismo indianista buscava a fundamentação da nação brasileira ao formular as raízes do povo brasileiro a partir da exaltação do nativo indígena. O romantismo promovia a idealização da nacionalidade tendo por epicentro a fusão de um colonizador épico com um bom selvagem. Assim, se firmavam as características positivas em uma imagem idílica da nacionalidade e se expurgava o processo de colonização. Pois, para que a nação fosse de fato brasileira era preciso gerar uma diferenciação com a antiga metrópole, enfim, uma origem nativa.


O liberalismo funcionava como pilar ideológico no aspecto econômico ao postular a possibilidade de escravidão no Brasil. Assim, promovera a superação do estatuto colonial ao mesmo tempo em que interiorizava seu substrato material, social e moral. Ficavam mantidos o escravismo, a monarquia e a própria dominação senhorial. Portanto, o sistema político imperial era liberal no sentido de antiabsolutista, pois, visava limitar as prerrogativas do imperador, buscando garantias de que o Poder Moderador não descambasse em poder pessoal.


Por fim, o catolicismo dava os meios simbólicos da legitimação do trono, a partir da postulação da forma litúrgica do regime, da representação hierárquica da sociedade, propiciando argumentos para uma sociabilidade tradicional. Desta forma, a Igreja vincula-se intimamente ao Estado.


          Além desta homogeneidade ideológica da elite imperial, outra característica pode ser apontada com relação ao aparato administrativo e burocrático do recém criado Estado brasileiro. Tal corpo técnico prioritariamente adquire laços vinculados a esta mesma elite. Seguindo a análise de Carvalho, durante as primeiras décadas do século XIX, a política e o corpo burocrático do Estado eram formados predominantemente por bacharéis em Direito[4]. Inicia-se um processo de atrelamento entre bacharelismo e política, e entre bacharelismo e Estado.


            O desenho intelectual e o propósito político se afinavam tanto porque não havia uma camada letrada autônoma no Império, política, historiografia, letras e bacharelismo compunham facetas de uma carreira pública unificada[5].


Sendo assim, por um lado observa-se uma certa homogeneidade na ideologia da elite imperial em consonância aos interesses do Estado. Por outro lado, o Estado pode ser considerado um foco de disputas de poder que mobiliza a elite em torno de si. Deste modo, o projeto político gestado pela elite encontra seus meandros dentro do estado Imperial.


Para Maria Silvia de Carvalho Franco, a espinha dorsal do Estado moderno, a separação entre público e privado, a fiscalidade pública e o exercício despersonalizado das funções públicas, no Brasil não se completaram integralmente. Houve uma associação dos poderes públicos como propriedade privada. A dominação pessoal ergueu-se como um obstáculo pertinente à implantação de um novo modelo estatal[6].


          O processo de cisão política e a tentativa de modernização da sociedade e da economia dos anos 1870 geraram uma crise que desestabilizou a ordem saquarema. Os partidos políticos se desfiguraram, exacerbou-se a cisão liberal e os princípios da ordem sociopolítica foram reiterados por uma ala reacionária. Além disso, a reforma conservadora abriu novas vias de acesso ao universo político para agentes sociais até então alijados dos centros decisórios[7].


            Sendo assim, novas pautas de discussão se abriram. A base simbólico-ideológica do Império brasileiro começa a ser colocada em discussão, como o regime de trabalho, a propriedade de escravos, o romantismo, a ciência e a técnica, o liberalismo, enfim, novas argumentações e possibilidades paulatinamente vão emergindo.


            O século XIX brasileiro pode ser visto como um período no qual as idéias provenientes de um contexto externo, particularmente a Europa, atingiram um alto grau de penetração entre a elite. Conseqüentemente, a ideologia elitista acerca do papel do Estado também se condiciona sobre este vetor de apropriação moldando, assim, as relações entre a elite e o Estado. Durante o reinado de D. Pedro II, iniciou-se a formação de um grupo social distinto da elite tradicional que ficaria mais tarde conhecida como a “Geração de 1870”. Tal Geração forneceu argumentos políticos que contrapunham os cânones imperiais.


            Na tentativa de elaboração de um projeto modernizante para a nação, o Estado brasileiro passa a intervir diretamente postulando políticas que visavam possibilitar tal modernização. Nota-se a criação de novos postos de trabalho dentro do próprio Estado e loci de configuração de novos conhecimentos técnicos.


Foto: desvendar.com            A criação da Escola de Minas em Ouro Preto, constitui-se num momento decisivo para a constituição de um saber técnico e prático do engenheiro, a partir desta política de desenvolvimento técnico empreendida pelo Estado[8]. Nota-se nesta instituição elementos diferenciados em relação as outras escolas de engenharia, como por exemplo o chamado “espírito Gorceix”. [9]


            Entretanto, o exercício da engenharia no período imperial é vista como uma função que não adquire status social[10]. Neste sentido, os engenheiros permaneceram vinculados ao serviço público, contituindo-se enquanto corpo burocrático do Estado. Se por um lado a sociedade não lhes dava crédito e respaldo social, por outro, o Estado constuia-se enquanto uma oportunidade de ascensão social contrapondo o bacharelismo imperial.


            Dito isso, a identidade dos engenheiros neste período apresenta-se enquanto uma identidade negativa aos cânones imperiais. Pois a conjuntura em que a concepção técnica e racionalizante de mundo emergiram no Brasil, relaciona-se a uma mudança estrutural, nos fundamentos coloniais da formação social brasileira, na forma patrimonial do Estado e no regime de trabalho que davam sinais de desagregação.


Fonte: www.ufop.br   Do processo sociopolítico das últimas décadas do Império, três dimensões são relevantes para entender a formação da identidade negativa dos engenheiros. Primeiro, a configuração de um dilema intra-elite, a concepção da necessidade de reformas essenciais na organização da economia e do sistema político. Segundo, os recursos simbólicos tradicionais foram afetados tanto pela crise política como pela modernização conservadora, gerando simultaneamente descontentamentos e possibilidades de expressá-los, ou melhor, vários grupos sociais marginalizados pelo arranjo político imperial, inclusive os engenheiros, adquiriram condições para expressar publicamente seus dissensos e projetos.  E por fim, esta nova estrutura de oportunidades políticas deu as condições de possibilidade para a formação de vários núcleos contestatórios ao status quo imperial.


André Rebouças e Euclides da Cunha, casos típicos de engenheiros deste período, encarnam o descontentamento com a situação em que são subordinados durante o Império, contrapondo de forma veemente, os cânones que legitimavam a política tradicional do Império. 


Desta forma, os engenheiros brasileiros viveram uma experiência social comum, as instituições imperiais prejudicavam suas carreiras ou bloqueavam seu acesso às posições de proeminência no regime imperial, fosse por não pertencerem aos estamentos senhoriais, de onde se extraía a elite, fosse por serem membros de facções politicamente subordinadas. Esta experiência compartilhada associa-se a uma perspectiva de marginalização política em relação aos moldes tradicionais do Império.

           

 

A Primeira República: o projeto de modernização social dos engenheiros

 

Durante a Primeira República, a situação dos engenheiros brasileiros altera-se substancialmente. Neste momento conseguem alcançar legitimidade ao traçarem seu projeto de sociedade. Por outro lado, paulatinamente passam a ocupar postos políticos dentro do Estado, invertendo a lógica de ocupação de cargos meramente técnicos ou burocráticos, passando a intervir diretamente nas políticas estatais de desenvolvimento da sociedade.


            Seguindo a análise de Milton Vargas, observa-se neste período diversas áreas nas quais o engenheiro se localiza. As estradas de ferro, a engenharia civil hidráulica, a construção de estradas de rodagem, construção de barragens no nordeste. Evidentemente, a retórica reinante entre os projetos de engenharia e a sua efetivação passava por um cunho estritamente relacionado ao campo político.[11]


Fonte: Arquivo Público Mineiro

           No saneamento das cidades, na construção de Belo Horizonte e no começo do desenvolvimento industrial dos anos 20, percebe-se claramente a posição política conferida aos engenheiros brasileiros. Seja no simbolismo de sanear as malfadadas cidades imperiais, seja na percepção de construir uma cidade em contraponto ao Império, e seja na elaboração de uma estrutura adequada ao desenvolvimento industrial, os engenheiros republicanos adquirem um papel central na efetivação e coordenação destes projetos.


Pois a partir da década de 20, a pesquisa tecnológica inicia-se no país sob o desmantelamento da estrutura agrário-exportadora[12]. Inicia-se o processo de industrialização brasileira e da construção civil que se associam ao conhecimento de técnicas e tecnologias, desenvolvendo uma aplicação prática do conhecimento dos engenheiros.


Se até então, o diploma era muito mais uma marca de distinção social do que de aptidão profissional[13], a situação inverte-se, pois era necessário o conhecimento da técnica aliada a própria prática profissional.


Neste sentido, partindo de um modelo político e social que não possibilitava a ascensão nem o prestígio social, os engenheiros brasileiros, a partir da prática e do conhecimento profissional e da intervenção do Estado, contrapõem as formas tradicionais da política brasileira e garantem para si, novas formas de acesso ao poder.


           A questão central para Maria Lígia Barbosa[14] é saber como as profissões se organizam em torno de um certo conhecimento, constroem projetos e procuram reorganizar as relações sociais de maneira que lhes seja conveniente. Para tanto, a autora analisa a formação dos engenheiros mineiros, primeiramente da EMOP – Escola de Minas de Ouro Preto e depois da Escola de Engenharia de Belo Horizonte, passando pela criação da SME – Sociedade Mineira de Engenharia, e a participação destes profissionais dentro da gestão do Estado.


            Entre a criação da EMOP (1876) e da SME (1931), a diferenciação da categoria profissional no interior da elite adquiriu dois traços marcantes. A utilização do saber como arma de um grupo na luta pelo poder e a apresentação de um projeto modernizador para a sociedade, tendo o Estado como agente central neste processo. Neste sentido, houve primeiramente, uma tentativa de discernir o engenheiro de outras categorias dentro da elite, apontando e ressaltando suas especificidades. Em segundo lugar, o Estado como meio para a concretização de um projeto modernizador.


            Deste modo, Barbosa observa a chamada divisão social do trabalho de dominação, ou seja, constata a existência de vários pólos de poder, que apesar de se constituírem de uma forma ampla em elite, apresentam divergências quanto a projetos para a sociedade. A elite constitui-se a partir de convergências e divergências, entretanto, o processo de dominação social possibilita-se por um modo de regulação. Na medida em que, existe a formatação de diferentes tipos de relações sociais.


            Portanto, Barbosa procura demonstrar que os grupos profissionais constroem representações específicas sobre o modo como a sociedade se estrutura e do lugar que o grupo ocupa, ou deve ocupar, dentro da sociedade.  Se num primeiro momento, os engenheiros colocam-se como os portadores de uma racionalidade cientificista, na medida em que a sociedade exige deste tal postura, por exemplo, no ideal de explorar cientificamente os recursos minerais logo após a decadência do período aurífero. Num segundo momento, colocam-se como gestores altamente capacitados e apolíticos, quando concebem o Estado intervencionista e ocorre a necessidade de quadros técnicos-administrativos.


Para Maria Lígia Barbosa[15] o projeto dos engenheiros brasileiros foi gestado dentro do espaço de formação deste profissional. Assim as Instituições de ensino foram fundamentais para a coesão e definição de um projeto comum que visava a modernização do país. Durante a Primeira República, o principal empregador deste tipo de profissional continua a ser o Estado, porém era através do controle do aparato estatal que a possibilidade de implementar o projeto de sociedade tornava-se viável. Deste modo, gradativamente os engenheiros foram ocupando postos dentro do Estado pretendendo também a realização prática de seus ideais.


          Portanto, como argumenta Barbosa, as profissões se organizam em torno de um certo conhecimento, constroem projetos e procuram reorganizar as relações sociais de maneira que lhes seja conveniente[16]. Os engenheiros, através da constituição profissional, conseguem elaborar um projeto de sociedade, no qual o conhecimento por eles adquiridos possui um papel central na tentativa de modernização do Estado e da sociedade além de conseguirem uma efetiva representação no imaginário social.


          Se pudermos seguir as colocações de Marli Diniz, a história da maioria das profissões, as preocupações com mercado de trabalho ou regulamentação profissional surgem com intensidade apenas quando existe uma massa de profissionais para a qual o simples porte do diploma não garante empregos nem prestígio. Portanto, procuram romper o monopólio da elite com relação ao acesso aos melhores empregos e privilégios.[17]


            A separação entre profissão e elite começa a tornar-se evidente a partir da década de 1930, quando se pode falar de carreiras profissionais. Neste momento, a profissão de engenheiro estrutura-se em torno de uma Sociedade e procura a discussão de matizes especificamente profissionais. Entretanto, concebem seus projetos para a sociedade de forma a angariar para si legitimidade e status.

 

 

Estado pós – 30 e a execução de políticas modernizantes

 

A historiografia brasileira que analisa o período republicano pós 30, em vasta parte, utiliza-se de um enfoque frutífero dizendo respeito às relações entre Estado e sociedade, embora nota-se uma considerável divergência no que diz respeito à natureza dessas relações. Observa-se uma tendência que prioriza o enfoque sobre o grau de autonomia e os pontos de interseção entre as esferas. Evidentemente, isso significa uma recusa de se pensar o Estado como um simples reflexo de uma classe dominante ou como uma instituição sobreposta à sociedade. O entendimento das relações entre Estado e sociedade, assim como da natureza do Estado, que emerge, gradativamente no pós-30, passa tanto pelas prévias concepções dos atores sociais envolvidos quanto pelo próprio contexto histórico turbulento, aberto pela crise de 1929.


            Para explicar o Estado brasileiro no pós 30, Boris Fausto argumenta que a natureza das relações entre economia e política, e o grau de autonomia do Estado, definem-se a partir do conceito gramsciano Estado de compromisso. Esse Estado de compromisso seria a resultante de uma conjuntura em que nenhum setor de classe tinha condições de construir sua hegemonia, dada a crise da burguesia cafeeira, a fraqueza dos demais setores agrários e a dependência das classes médias diante dos interesses tradicionais. Apesar desta noção de compromisso supor implicitamente certo equilíbrio entre setores agrários e industriais, e tender a ser utilizado como sinônimo de aliança política, uma análise sumária do período revela que o acordo se dá pela subordinação marginal da classe operária e pela exclusão de um projeto para os trabalhadores rurais[18].


            Os setores políticos que ocuparam o poder no Brasil entre 1937-1945 empenharam-se em produzir uma imagem a respeito do Estado Novo como momento fundador da nacionalidade. Segundo esta imagem, uma de suas prioridades seria identificar e construir o verdadeiro espírito da nacionalidade que estaria difuso e disperso no inconsciente da nação.


Esta análise, presente nos principais autores do pensamento social do período, identificava a Primeira República como um momento de decomposição da autoridade política e de esgotamento das fórmulas de consenso nacional. A Revolução de 30 e, principalmente o Estado Novo, teriam como projeto político fundar um novo começo, uma nova sociedade e um novo Estado, já que estes se apresentavam corrompidos pela tradição liberal.


              O principal erro do liberalismo da Primeira República teria sido, então, defender o dissenso como o elemento central da idéia de democracia. Concebido desta forma, o modelo democrático provocaria a desagregação da comunidade política nacional alimentando conflitos regionais e setoriais e inviabilizando qualquer forma de governo. Assim sendo, a construção de um Estado verdadeiramente nacional deveria opor-se a essa tendência desagregadora, afirmando a unidade em todos os aspectos políticos e sociais.


            Sendo assim, o que legitima o Estado a se constituir enquanto um corpo técnico especializado é a idéia de que o técnico é mais eficiente que o político. Se a política perde-se no campo da indefinição, da instabilidade e da negociação, o técnico especialista apresenta-se como um suposto agente apolítico, sustentando a noção de uma administração mais eficiente[19].


            Entretanto, ainda continua-se com a preponderância do aspecto político na ocupação dos altos postos dentro do Estado. A principal diferença com relação ao passado são os agentes que puderam preencher os altos postos, no caso em questão, o corpo técnico constituído hegemonicamente pelos engenheiros.


Ao reconstituir o ideário liberal da época, Maria Helena Capelato acaba por discutir a relação entre o ideário e a prática social, demonstrando como as idéias são moldadas pela realidade. Neste sentido, o liberalismo brasileiro tinha como princípio básico o direito de propriedade privada, e, diante da necessidade de reforço da dominação sobre as massas, deixavam de lado as propostas particulares e unia esforços em função destes princípios. O liberalismo brasileiro é também, uma teoria de dominação social e neste aspecto dotado de caráter autoritário[20]. Por isso, não há discrepâncias ideológicas em se apoiar um Estado forte e centralizador, como o foi no pós 30.


            Neste ponto, portanto, ressalta-se a posição dos engenheiros enquanto um corpo de profissionais liberais, mas atrelados ao Estado interventor e nacionalista na medida em que a orientação estatizante dos engenheiros não contrapõe o liberalismo, pois o Estado intervêm em setores nos quais os interesses privados não conseguiam desenvolver. Assim, a orientação estatizante, liberal e nacionalista relaciona-se aos interesses privados.[21] O papel do Estado define-se para os engenheiros em dois sentidos, como substituto da iniciativa privada e como ordenador desta iniciativa.[22] Ou seja, o Estado ao mesmo tempo torna-se um investidor e um agente econômico central na política de desenvolvimento econômico e social brasileiro durante este período.


            Por outro lado, o Estado brasileiro adota uma política de caráter corporativo, encontrando na regulamentação profissional uma forma eficaz de controle do trabalho, da mão-de-obra, criando, desta forma, um sistema classificatório que tinha no reconhecimento oficial das ocupações o parâmetro para as hierarquias[23].


            A regulamentação da profissão dos engenheiros, datada de 1933, possibilitou condições de definir áreas de atuação, conhecimentos e habilidades inerentes à profissão[24] afirmando assim o espaço no qual deveria ser ocupado e reservado ao corpo de profissionais especializados. Além de possibilitar o monopólio do saber ao corpo dos engenheiros, na medida em que tal corpo profissional passa a gozar de uma exclusividade de conhecimentos e de práticas.


            Os engenheiros brasileiros passam a ocupar um lugar específico dentro do Estado e da sociedade. Para José Murilo de Carvalho, a ocupação pode se constituir em importante elemento de homogeneização ideológica, ao transmitir um núcleo comum de valores, treinamento e interesses. Na medida em que o recrutamento de uma determinada elite política se limite aos membros de algumas poucas ocupações, aumentarão os índices de homogeneidade tanto ideológica como de habilidades e de interesses.[25]


            O Estado Varguista torna-se fundamental nesta empreitada, pois possibilita a necessidade do diploma para se exercer a profissão de engenheiro. Por outro lado, a sociedade reconhece a exclusividade do saber do engenheiro. Neste processo duplo, os engenheiros brasileiros conseguem alcançar status social e a legitimidade de um discurso que lhes é peculiar e próprio.


Para melhor refletirmos sobre o projeto desenvolvimentista do Estado brasileiro, torna-se necessário recorremos a argumentação de Robert Kurz[26]. Para este autor, as principais características que fundamentaram e possibilitaram a conformação do sistema produtor de mercadorias, podem ser definidas assim: surgimento do processo de acumulação primitiva, uma “nova” concepção de trabalho, a valorização extremada do dinheiro, a produção de mercadorias voltada para o mercado, a instalação do princípio da concorrência, a obtenção da mais-valia e o estatismo. Muito mais do que uma simples discussão conceitual, a análise de Kurz pauta-se por uma percepção histórica do processo da modernidade e seus limites.


A história da modernização, nas diferentes partes do planeta, puderam ser enumeradas, a partir de alguns modelos básicos: a modernização capitalista baseada na acumulação primitiva clássica, onde o exemplo da Inglaterra é emblemático; e as chamadas modernizações recuperadoras: a modernização do socialismo no oriente, que favoreceu a acumulação primitiva estatal, e por fim, o processo modernizador do chamado “terceiro mundo”.


Em todos estes casos, o elemento estatista desempenhou um papel essencial. O processo de desenvolvimento capitalista nos países centrais deu-se de forma lenta e gradual, a disciplinarização política e econômica das massas não deu-se de forma abrupta como na periferia do sistema.


Nas modernizações recuperadoras, incluindo o Brasil, o estatismo sobrepôs-se ao monetarismo para possibilitar o processo de industrialização. O Estado teve o papel central de transformar produtores diretos em trabalhadores assalariados, seja no socialismo real seja nas ditaduras periféricas. Além da disciplinarização da massa de trabalhadores, o Estado transformou-se em uma gigantesca burocracia, possibilitando a efetiva transformação de toda a sociedade numa máquina de trabalho abstrato.


Com a elaboração das novas diretrizes desenvolvimentistas do Estado pós-30, tentou-se além da disciplinarização das massas e da formação de uma burocracia gigantesca, a superação do chamado "atraso brasileiro".


O pensamento autoritário brasileiro desta forma relaciona-se intimamente com a burguesia industrial, abrigando espaços nos quais o Estado se propõe a levantar projetos de desenvolvimento[27]. A elaboração desta ossatura material revela a necessidade do Estado brasileiro de se organizar baseado em agentes técnicos intervindo diretamente no plano econômico. Evidentemente, a ossatura material do Estado brasileiro será preenchida pelo corpo técnico-burocrático, que compõe-se predominantemente pelos engenheiros.


Sendo assim, o fato de que a ordem urbano-industrial veio a ser implantada tendo como agente o Estado, e não as classes sociais, repercutiu diretamente no arranjo e no conflito de classes durante um longo período da história brasileira.

 

 

Considerações Finais

 

            A nossa argumentação central perpassa um viés de análise que procurou centrar-se sobre os aspectos políticos do processo que engloba desde a formação dos primeiros cursos de engenharia no Brasil, até a conquista da hegemonia destes profissionais dentro do Estado Varguista.


            A necessidade de refletirmos sobre as formas de pensamento e ação de uma elite política de uma determinada época, apresenta aspectos históricos e sociais. Não sendo possível a dissociação dos atores sociais de seu tempo. Portanto, uma análise histórica do processo que levou a ascensão de uma categoria profissional aos altos postos de decisão do país, adquire uma característica fundamental na reflexão, ao dotar as ações históricas de grupos sociais como uma intervenção direta na sociedade.


            O grupo dos engenheiros, ao formular seu projeto de sociedade baseado na sua racionalidade peculiar, garantiu-lhes uma coesão interna, gerando princípios norteadores de ação. Evidentemente, as possibilidades abertas pelo contexto histórico garantiram-lhes as oportunidades políticas para a implementação efetiva de um projeto de sociedade.


            Como tentamos argumentar, o processo da conquista do Estado pelos engenheiros deu-se a partir de três momentos, que a grosso modo, relacionam-se a formação do grupo social dos engenheiros no Estado Imperial brasileiro, a formulação de um projeto de sociedade durante a Primeira República e a consolidação do projeto dos engenheiros ocorrido no pós-30.

 


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[1] VERDERY, Katherine. Para onde vão a nação e o nacionalismo?In: Um Mapa da Questão Nacional. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000.p.239

[2] CARVALHO, Jose Murilo. A construção da ordem. A elite política imperial. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

[3] ALONSO, Ângela. Idéias em Movimento: A Geração 1870 na crise do Brasil Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

[4] CARVALHO, José Murilo. Op. Cit.

[5] ALONSO, Ângela. Op. Cit.

[6] FRANCO, Maria Sílvia de Carvalho. Homens livres na ordem escravocrata. São Paulo, 1983.

[7] ALONSO, Ângela. Op. Cit.

[8] CARVALHO, José Murilo. A Escola de Minas de Ouro Preto. O peso da glória. Belo Horizonte: UFMG, 2002.

[9] BARBOSA, Maria Lígia de Oliveira. Construindo as Minas e Planejando as gerais: “os engenheiros e a constituição dos grupos sociais”. Tese de doutorado em Sociologia Unicamp, 1993.

[10]COELHO, Edmundo Campos. As profissões imperiais: medicina, engenharia e advocacia no Rio de Janeiro, 1822-1930. Rio de Janeiro/São Paulo, 1999.

[11] VARGAS, Milton. História da técnica e da tecnologia no Brasil. São Paulo: Unesp, 1994.

[12] Ibid.

[13] DINIZ, Marli. Os donos do saber: profissões e monopólios profissionais. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2001

[14] Barbosa, Maria Lígia de Oliveira. Op. Cit.

[15] Ibid.

[16] Ibid.

[17] DINIZ, Marli. Op. Cit.

[18] FAUSTO, Boris. A Revolução de 30: história e historiografia. São Paulo: Brasiliense, 1972.

[19] GOMES, Ângela Castro. Engenheiros e economistas: novas elites burocráticas. Rio de Janeiro: FGV, 1994.

[20] CAPELATO, Maria Helena. Os arautos do liberalismo: a imprensa paulista 1920 – 1945. São Paulo: Brasiliense, 1989.

[21] DINIZ, Clélio Campolina. Estado e capital estrangeiro na industrialização mineira. Belo Horizonte: UFMG, 1981.

[22] BARBOSA, Maria Lígia. Op. Cit.

[23] Ibid.

[24] DINIZ, Marli. Op. Cit.

[25] CARVALHO, Jose Murilo. Op. Cit.

[26] KURZ, Robert. O Colapso da Modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Trad. Karen Elsabe Barbosa. 5 ed. São Paulo: Paz e Terra. 1999.

[27] DRAIBE, Sônia. Rumos e metamorfoses. Um estudo sobre a constituição do Estado e alternativas de industrialização no Brasil: 1930 – 1960. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

 



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