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O Estado e o Chão-de-Fábrica: a identidade operária na siderurgia brasileira

                                                                                  João Carlos Gomes
Doutor em História Social - PUC-SP
Bolsista Capes
profjcgomes@uol.com.br


Introdução 

Neste trabalho, procuramos analisar as conseqüências da presença acentuada do Estado, na formação das subjetividades (formas de agir, pensar e sentir) dos trabalhadores do chão-de-fábrica do setor siderúrgico.


Apresenta-se as experiências de três grandes siderúrgicas a CSN, Companhia Siderúrgica Nacional, USIMINAS, Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais e COSIPA, Companhia Siderúrgica Paulista cuja historicidade conta com a presença do Estado no seu processo de crescimento e expansão, mas cujas lutas dos trabalhadores se tornam distintas, face às distintas correlações de forças que intervém em sua dinâmica, pesando aí, inclusive as diferenças  regionais onde elas foram instaladas.


Embora de caráter estatal conforme Sydenham,


“na trajetória da siderurgia brasileira, encontramos decisões autônomas, e decisões instrumentais. Momentos em que a política siderúrgica é conduzida de forma autônoma por parte de setores do governo, como no Estado Novo e outros em que ela é praticamente toda determinada por demandas empresariais, como na década de 50, não existindo nenhuma relação visível entre as decisões autônomas e o aumento da intervenção estatal direta”. (
SYDENHAM, 2001, p 61).

 

Em outras palavras no período ditatorial, a função do Estado enquanto expressão dos interesses dos capitalistas, sejam eles nacionais ou não, foi exercida com maior autonomia, característica dos Estados cuja atuação ocorre de forma impositiva, “pelo alto”, evidenciando-se uma das características da “via prussiana” ou “colonial”, já apontada por diversos autores. Mas, nos momentos de distensão ditatorial, como no caso brasileiro, em que esta função do Estado sempre foi  exercida com a participação direta do segmento da burguesia que será beneficiada com as suas decisões, a siderurgia brasileira,  expressará, em sua atuação, a interferência direta deste empresariado.


Em última instância, poderíamos dizer que há uma diferença na forma, mas não na essência nesta relação. Tal gangorra é visível se tomarmos o período ditatorial de Vargas, a distensão autocrática de 1950 a 1960 e a ditadura que se inicia em 1964. 


           No Brasil, o Estado, pressionado, por um lado, pelos interesses de segmentos da burguesia nacional atrelada ao capital internacional e, por outro, aos segmentos nacionais, oscilará entre atender os interesses de uns e outros quanto às suas demandas por infra-estrutura necessária à industrialização, para a implementação de políticas de controle de salários e manipulação de sindicatos e divergindo quanto à necessidade  de transferir renda do setor exportador para o setor industrial.


Foto: Veja abaixo a imagem em seu contexto original na página: www.geocities.com/Athens/Troy/9288/Ao analisarmos as diferentes participações governamentais no setor siderúrgico estatal brasileiro verificaremos que na sua origem (no Estado Novo) encontramos um Estado autônomo em que os empresários têm pouca presença nas decisões. Já nos anos 50, período de expansão da siderurgia, ele se apresenta sob pressão das forças empresariais que impulsionavam a estratégia de crescimento estruturada pelas empresas estatais, pelo capital privado estrangeiro e, como sócio minoritário, o capital privado nacional.


        Nos anos 60, encontraremos um Estado com a autodeterminação de nacionalismo responsável (sem movimentos sociais e políticos), pragmático (continuísmo econômico da década de 50) e moderno (tecnocrático). Expressa-se pela militarização da vida cotidiana viabilizando políticas econômicas no interesse do capital em expansão.


No período 1985/1992 assistimos a reforma do padrão de intervenção estatal, ou seja, o redirecionamento da ênfase para estabilização e liberalização da economia culminando nas privatizações.


       As grandes siderúrgicas brasileiras, como grandes empresas estatais, estarão sujeitas a estas ingerências e alternâncias de conduta em sua produção, enredadas que ficaram em um aparato burocrático cuja condução ficava, nos períodos ditatoriais, predominantemente  em mãos de técnicos e profissionais ligados ao governo, integrantes do quadro de funcionários públicos e nos períodos de distensão, praticamente sendo gerenciadas por pessoal advindo da iniciativa privada. 


Ora, esta alternância de poder/gerenciamento irá se refletir na forma de ser social do operariado que atua nestas siderúrgicas, dado que as relações institucionais se alternam. No entanto, observa-se ainda um outro aspecto, este sim objeto de nossas reflexões. Este operariado, nos períodos de gerenciamento estatal, terá estatuto de “funcionário público” e sua postura será a de assumir como seu, através da empresa, a defesa do que considera os interesses da Nação, do Estado. Importa ainda considerar a estabilidade no emprego e o salário diferenciado em relação a outras categorias com forte influência na formação dessas identidades. Mas, quando a empresa passa a ser gerenciada pela iniciativa privada, embora a condição trabalhista dada a estes trabalhadores não mude, diminui seu grau de autonomia tanto no que diz respeito à gestão da siderúrgica, quanto no concernente ao atendimento de seus interesses imediatos e usufruto de benefícios obtidos via empresa (fundos de pensão, gratificações, bônus, etc).  Sob a iniciativa privada, novas metas são impostas à empresa e, este operário, principalmente se sua contratação se deu no período de gerenciamento estatal, verá nos períodos de distensão sua autonomia e responsabilidade trabalhista, assim como o que considera seus direitos, tolhidos. A isso associará os destinos da própria empresa: ela estaria deixando de produzir para o povo e estaria passando a produzir para a iniciativa privada e ele, enquanto trabalhador, se vê refém desta situação: de trabalhador para a nação, passa a trabalhador da iniciativa privada.  No entanto esta alternância mostra-se menos significativa quando as sociabilidades dela advinda emergem em regiões em que diferentes formas de relações de poder se estabelecem. É desta distinção entre as posturas e lutas dos trabalhadores de três grandes usinas brasileiras: a CSN, a COSIPA e  a USIMINAS,  de que trata este trabalho.  

 


As sociabilidades na siderurgia.

 

As relações institucionais que se alternam no interior do setor siderúrgico, suas reações a esta alternância que se refletirá em suas lutas, é o objeto de minha pesquisa de doutoramento de que este  trabalho é parte integrante.


Estaremos aqui nos referindo fundamentalmente ao trabalhador comum, onde a atividade é mecânica, a mão-de-obra média é pouco qualificada e a autonomia é baixa, uma vez que apenas se repete o script do processo de produção que aparece na tela do computador. O regime de trabalho é caracterizado por turnos de revezamento de seis ou oito horas, funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana. Eles representam na pirâmide da empresa, 85% da mão-de-obra e se consideram o “chão-de-fábrica”.


A CSN Companhia Siderúrgica Nacional, contou com a participação desse chão-de-fábrica, advindo de diversas regiões do país para participar da sua construção numa conjuntura marcada pela Segunda Guerra e o Estado Novo.


“Costurado pela ideologia nacionalista, que legitimava a intervenção estatal, o ’empreendimento’ era o símbolo do progresso e do impulso à industrialização e, a identidade operária que se formava, era marcada pela heterogeneidade, tanto do ponto de vista profissional como cultural. Representava o primeiro emprego fabril e o contato com uma cidade que ao se urbanizar multiplicou sua população por dez. Isto sem dúvida teve um peso considerável na construção da identidade da primeira geração de trabalhadores. Adotando uma política de gestão da força de trabalho com traços paternalistas a ” família siderúrgica“ era o símbolo de integração da cidade de Volta Redonda”
(PESSANHA E MOREL, 2001,p. 301).

 

Foto: www.csn.com.br        Analisando as relações entre a CSN e a cidade, Pessanha e Morel [1]colocam que, “a companhia  controlava a cidade administrando serviços urbanos como transportes, cooperativas de abastecimento, hospital e escolas, além de construir moradias para seus empregados”, numa alusão ao totalitarismo estatal que extrapolava a fábrica, mas que nos dá a referência da função social que a empresa cumpria aos olhos de seu operariado e através dele. Assim, no seu entender, ele, operário, trabalhava em uma empresa que cuidava da “coisa pública”, dos seus interesses sociais, e, portanto, essas forças em nosso entender, ordenam um Estado que encontramos nas observações de Adriano Nervo Codato:


“O Estado é, de um ponto de vista mais geral e abstrato, uma estrutura de poder que concentra, resume e põe em movimento a força política da classe dominante. Essa é, em resumo, a essência de toda concepção marxista sobre o Estado, sintetizada com notável clareza na conhecida fórmula do Manisfesto Comunista: "O executivo do Estado moderno nada mais é do que um comitê para administrar os assuntos comuns de toda burguesia". O próprio Engels expressou a mesma idéia numa passagem igualmente célebre: "A força de coesão da sociedade civilizada é o Estado, que, em todos os períodos típicos, é exclusivamente o Estado da classe dominante e, de qualquer modo, essencialmente uma máquina destinada a reprimir a classe oprimida e explorada
". (CODATO, 1998, p.1)

 

A ação sindical em Volta Redonda expressa a trajetória destas alternâncias entre o “estatal” e o “privado”, entre as tradições e renovações, embora, para os analistas, esta atuação se caracterize simplesmente como “sindicalismo de alianças”.


No entanto, a condição exposta acima, no meu entender, resulta em atuações distintas: se num primeiro momento, sentavam-se, lado a lado, para discutir a situação operária, o representante do governo, de que era parte integrante os operários, em um segundo momento, o sindicato assume-se enquanto oposição “radical” à privatização. Esta aparente mudança de postura expressa assim, menos uma dada concepção de Estado e mais o reflexo de interesses feridos. Situando estas alternâncias de postura sindical nos diferentes períodos governamentais, observamos que assim que, no período ditatorial o movimento sindical apóia Getúlio, no período JK entra em oposição à política de privatização e já no período de 1980 a 1993, sua atuação demonstra ter se curvado à “inevitável privatização”. 


Edilson José Graciolli, citando Antunes sobre a caracterização básica da Força Sindical, mostra que um dos aspectos  mais marcantes da atuação deste sindicato nesta época “é o reconhecimento da vitória do capitalismo e da inevitabilidade da lógica de mercado; a limitação e restrição da luta sindical, deve ater-se a busca  de melhoria nas condições de trabalho, não cabendo aos sindicatos extrapolarem este âmbito da luta; o papel da ação política cabe exclusivamente aos partidos, que devem ser desvinculados da ação;o Estado deve reduzir a sua ação, em favor de uma política privatizante”(GRACIOLLI,2000, p.8).


Para esses autores, dessas lutas nasce um projeto revisionista surpreendente que expressa as transformações pelas quais passou o Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, entre 1989 e 1993, desembocando numa reviravolta de orientação da entidade com a ascensão da Força Sindical à sua direção em 1992, vitória que seria reeditada em 1995 e em 1998, culminando com uma atuação na qual passa a defensora da privatização da empresa. Essa teria sido a trajetória do Sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, que migra de uma condição de práticas sindicais de confronto para o sindicalismo de parceria.


Foto: www.csn.com.br


Observa-se, no entanto, que essa cultura política é forjada nas relações com o Estado e, sobretudo pela noção de direitos, base importante para as reivindicações trabalhistas.


A Companhia Siderúrgica Paulista – COSIPA é a primeira siderúrgica marítima brasileira, uma grande empresa[2] administrada por engenheiros que gerenciavam, quando foi privatizada, em 1993, um contingente de dez mil trabalhadores cuja história está marcada por relações e práticas sociais que se identificavam com a sua condição de estatal.


É no interior do Instituto de Engenharia de São Paulo, presidido pelo siderurgista Plínio de Queiroz e com a colaboração de outro siderurgista Martinho Prado Uchoa, também sócio do instituto, que começou em 1951 a elaboração de um plano que visava a construção uma grande usina de aços planos que suprisse uma carência deixada pela CSN que não os produzia. Este projeto, que gerou a Cosipa, conseguiu amplo apoio de empresários paulistas além de famílias como Prestes Maia e Marcondes Ferraz, que tinham a base de suas atividades no Rio de Janeiro (SYDENHAM,2001, p.194).


A Cosipa inseriu-se no projeto CSN para ampliar o seu mix de produto em direção a uma grande produção de chapas laminadas a frio, destinadas prioritariamente à industria automobilística[3]. A empresa foi planejada para ser tornar a maior produtora de chapas laminadas a frio do país – chapas largas de até quatro metros que a CSN não conseguia fazer.


Foto: www.novomilenio.inf.br/cubatao/


O primeiro presidente do conselho consultivo da Cosipa, que era também presidente da CSN, foi o General Edmundo de Macedo Soares, convidado por uma diretoria composta por empresários paulistas, o que denota a estratégia de buscar  apoio do governo para a iniciativa.


O General Macedo participou, em 1956, de um estudo com o objetivo facilitar a captação de recursos estatais, e suprime a proposta de construção de uma cidade industrial existente em estudo anterior elaborado em 1952 e apresentado em 1953 por uma equipe liderada pelo Eng. Plínio de Queiroz, visto que o General Macedo, por ter sido Diretor da usina de Volta Redonda, achava que esse tipo de empreendimento só trazia problemas em termos de custos e de gerenciamento (SYDENHAM,2001, p.196).


Essa “visão” orientava-se pela linha de organização político-econômica da internacionalização do capital no pós-guerra, onde o problema de reprodução da força de trabalho seria resolvido pelas forças do mercado.


Em 1959 é inaugurado o canteiro de obras em Cubatão, em 1961 o BNDE é o maior acionista da Cosipa, em dezembro de 1963 o Presidente João Goulart inaugura a laminação a quente e em dezembro de 1965 a Cosipa se torna uma usina integrada[4].


Assim, nestas duas usinas, embora integrantes de um mesmo processo produtivo e inseridas da mesma forma nas relações constitutivas deste processo, seus trabalhadores, face às diferentes posturas do Estado, estarão subordinados a formas distintas de gerenciamento pois, na primeira, a CSN, detêm a condição de “funcionários públicos”  e na segunda seu status é similar ao dos trabalhadores da iniciativa privada.


Foto: www.usiminas.com.br       Se olharmos para outra siderúrgica, teremos uma trajetória semelhante. A USIMINAS fundada em janeiro de 1956 baseava-se na proposta mineira de superação da produção da CSN. Iniciada a sua construção em 1959, estrategicamente no Aglomerado Urbano do Vale do Aço (AUVA), o principal pólo siderúrgico do Estado de Minas Gerais, no município de Ipatinga, já se encontrava quase finalizada em fins de 1962 e em novembro o alto forno começou a funcionar. Em 1963, todas as principais seções da usina estavam em funcionamento. Em vista dos custos terem se elevado no curso da construção, o BNDE foi forçado a fazer contribuições para ver o projeto concluído com sucesso e ao fazê-lo tornou-se acionista majoritário da empresa. Era a estatização da Usiminas (BAER, 1970, p. 109). Em Ipatinga será construída a cidade da USIMINAS com altos padrões de urbanização e destinada a funcionários da siderúrgica. “Observa-se que a cidade então tornar-se-á um espaço urbano socialmente segregado sob a tutela de uma grande indústria”.(BRAGA, 2000, p.2).


Foto: www.usiminas.com.br     Importante ressaltar que a divisão técnica do trabalho refletia-se diretamente na divisão social e na conformação espacial da cidade. Os bairros funcionando separados – bairros para profissionais graduados (engenheiros e direção), bairro para chefias, bairro para operadores, bairro para operários não especializados – fisicamente distanciados e dotados de padrões diferenciados de moradia, isso tudo deixa bem claro “o lugar de cada qual” (BRAGA, 2000, p.6) na formação das subjetividades do chão-de-fábrica.


A identidade do chão-de-fábrica que aí germinará nos remete a 1963 quando 60% dos operários da USIMINAS alojavam-se em barracos de madeira de 3x3 m, desprovidos de sanitários, onde se amontoavam oito pessoas:


“A maioria desses operários vinha de áreas rurais, habituados a uma forma de sociabilidade bem diferente daquela imposta pelas regras da fábrica e dos alojamentos. Os baixos salários, as péssimas condições de acomodação nos acampamentos operários, fazem eclodir um movimento que resultou no que veio a ser chamado de “massacre de 1963”, considerado o mais importante episódio de luta política  destes trabalhadores. As agressões policiais nos acampamentos dos operários, que resultaram em revolta geral e ocupação da fábrica, revidadas por rajadas de metralhadora, refletem a resistência de uma classe operária que estava em formação”.
(BRAGA, 2000 p. 4).[5]

 

A lembrança deste massacre tem transparecido até os dias de hoje, conforme se pode observar pelo informativo sindical[6] intitulado: “CUT VALE DO AÇO”, de outubro de 2003, que traz estampado em letras enormes: MASSACRE DE IPATINGA -7 DE OUTUBRO DE 1963 - 40 ANOS - O QUE MUDOU?, com um depoimento de Geraldo dos Reis Ribeiro, presidente do METASITA na época do massacre: “Policiais fizeram revista nas marmitas e o pessoal precisava pegar os caminhões para Ipatinga, houve tumulto e 32 morreram”.


Assim, evidenciam-se as bases da aparente contradição em termos de lutas destes trabalhadores siderúrgicos: lutar contra o estado em período de autocracia (ou democracia como dizem alguns), como foi o período de JK, no qual se inserem a USIMINAS  e a COSIPA, ou apoiar o Estado em períodos ditatoriais, caso da CSN.


No entanto, não podemos esgotar nesta relação entre o Estado (ditatorial ou autocrático) e os trabalhadores (estatais ou privados) as explicações para  a diversidade das lutas destes trabalhadores siderúrgicos, pois as evidências indicam também outros fatores constitutivos de suas mobilizações, sobre o que, aliás, já se encontra análises, como a de Pessanha e Morel:

 

"para explicar a disparidade entre ausência de greves na CSN-empresa mais antiga - e o fato de na COSIPA terem ocorrido nove greves gerais entre 1962 e 1964, é necessário levar em conta a longa tradição combativa do movimento operário santista, que remonta aos finais do século XIX”. (PESSANHA e MOREL,200,p.310).

 

De fato, no caso dos trabalhadores da COSIPA, observa-se uma influência grande da mobilização de diversas categorias de trabalhadores de Santos desde a segunda metade do século XX.


Araújo, analisando os principais movimentos grevistas na cidade entre 1951 e 1964, e que aqui destacamos, reproduz o quadro de efervescência do movimento operário brasileiro e suas influências na formação da identidade operária, num contexto de lutas onde vitória e derrota se alternavam nas relações com o Estado.


As reinvidicações que produziam esses movimentos refletiam os valores construtores da classe que se formava.


As greves por aumentos salariais dos motoristas de ônibus em 1953 e dos trabalhadores do DER (Departamento de Estrada de Rodagem) são sinais evidentes da busca por melhoria da condição de vida a partir do trabalho.


A greve dos estivadores do porto, em 1959, boicotando a exportação de carne, que além dos preços elevados, faltava em todo o país, mostra a dimensão da visão política global que a classe detinha.


As greves de solidariedade marcam o sentimento de união e a luta por estabilidade de todos os trabalhadores.


Como exemplo marcante destacamos a greve de solidariedade, em 1960, aos trabalhadores do Moinho Paulista que seriam transferidos de Santos para o Curitiba com o aval do TRT, Tribunal Regional do Trabalho, que recua. Segue-se a ela as greves também de solidariedade aos estivadores e petroquímicos, respectivamente em 1961 e 1962. (ARAUJO, 1984, p. 104 a 108).


No entanto o diferencial será que, enquanto os trabalhadores de Santos lutam contra o Estado, na Cosipa, uma outra luta se inicia a partir da criação, em 1962, da “CRT”, comissão de representantes dos trabalhadores. A essa comissão paritária composta por representantes dos trabalhadores e da empresa cabe o acompanhamento  dos processos relativos à organização do trabalho dentro da usina, a capacitação da mão-de-obra necessária para as novas demandas tecnológicas, a relação entre os trabalhadores e as chefias, evitando que estas discriminassem seus subordinados. (ARAUJO, 1984, p.109).


Esse enraizamento na fábrica terá um papel significativo nas lutas futuras e a ausência de estratégia de ação será um dos fatores de desmobilização, hoje diagnosticada por diversos autores.


A partir de 1964, com o golpe militar, as demissões se multiplicam, as greves se tornam ilegais e os municípios de Santos e Cubatão tornam-se áreas de segurança nacional, contudo essa intervenção não fez o chão-de-fábrica curvar-se.


Em seu livro, Conformismo e Resistência – Aspectos da Cultura Popular no Brasil, Marilena Chauí brinda os “cosipanos”, nome que se dá à identidade dos trabalhadores da COSIPA, com o célebre “DIA DA AMNÉSIA” ocorrido nos anos 70. A autora analisa como estes, que ela denomina “plebeus ou dominados,” se apropriam da cultura instituída e das informações de massa, imprimindo-lhes um sentido inesperado:


“Como se sabe, para entrar na Cosipa, diariamente os operários devem apresentar documentos de identificação, fornecidos pela empresa quando são admitidos. A entrada e a saída se fazem por turnos fixos, pois os altos-fornos não podem ser apagados, de modo que a empresa funciona durante 24 horas ininterruptamente. Sendo “zona de segurança nacional” e sendo a greve ilegal, a Cosipa está sob rigorosa vigilância militar e seus operários não têm direito a formas internas de organização e controle do trabalho. Sob essas condições, os operários realizaram uma greve espetacular, que não pôde ser reprimida nem punida.

Nas condições de disciplina e vigilância existentes, sem contar com um espaço para troca de idéias e de informações, sem possuir imprensa própria e sem poder confiar naquela produzida pelo sindicato oficial, ”pelego”, os operários da COSIPA criam um imprensa sui generis para a preparação da greve: as portas dos banheiros foram convertidas em páginas de jornais e boletins informativos, com os escritos sendo apagados ao final de cada turno pelos últimos operários a usarem os banheiros. Estabelecem assim a comunicação entre os trabalhadores de vários turnos, neutralizando as informações vindas tanto do sindicato quanto da administração. No “Dia da Amnésia”, todos os operários da COSIPA sofreram um repentino esquecimento: esqueceram em casa o documento de identificação. Isto significou que cada operário, para ser admitido no interior da fábrica, precisava passar por longo e minucioso exame de identificação. Milhares de trabalhadores foram-se acumulando em longas filas de espera, aguardando a identificação, os turnos foram sendo interrompidos e as atividades da COSIPA foram lentamente sendo paralisadas, até alcançar os altos-fornos. Alarmada, a direção da empresa aceitou negociar com os grevistas que, perante a lei, não eram grevistas.

Esse episódio indica, aparentemente, a aceitação ou o conformismo dos operários quanto à propalada ilegalidade da greve e também a aceitação da legalidade instituída. Mas, expressa, na realidade uma enorme resistência a ela. (CHAUÍ, 1986, p.44)

 

Este episódio associado aos demais explica como as identidades desses trabalhadores foram sendo forjadas.

 


Conclusão

 

            Concluímos, portanto, que a experiência da CSN e USIMINAS, vivenciada em conjunturas distintas que propiciaram distintas posturas do Estado, foi marcada semelhantemente pela condição de fábrica com vila operária, onde as formas de dominação vão além dos limites fabris, perpassando os lares  tanto na tutela do Estado que no cotidiano se apresenta sob diversas formas de dominação, como pela burocracia empresarial, e portanto a primeira com sua lógica no nível da classe e a segunda  no nível individual.


          Indiscutivelmente  isso teve peso decisivo no desenvolvimento das práticas de aliança e em especial no processo  de adesão ao sindicalismo da Força Sindical.


Não podemos esquecer que, no processo de privatização, a bandeira levantada pelo governo era a da modernização e da superação da crise administrativo-financeira vividas por essas siderúrgicas, com acenos de possibilidades de ganhos econômicos aos trabalhadores que delas participassem como acionistas.


Foto: www.novomilenio.inf.br/cubatao/Na COSIPA, diferentemente, não havia a vila operária, seus trabalhadores residiam em Cubatão, e Santos, cidades cuja tradição do movimento operário combativo era muito forte.


Essa experiência conduziu ao enraizamento do sindicato no local de trabalho, com a criação das comissões paritárias desde a inauguração da usina.


Na medida em que elas acompanhavam o cotidiano do espaço fabril, mobilizavam os trabalhadores para as resistências, embora se reconheça hoje que a falta de uma agenda mais estratégica dessas comissões, tem sido a causa crescente das desmobilizações.


          Portanto, a heterogeneidade das experiências de proletarização, desses trabalhadores, bem como o caráter regional e particular da criação de cada siderúrgica em suas temporalidades mostra que o Estado, tanto no período ditatorial como no período de distensão ditatorial, atuou como o “Estado da classe dominante” procurando fazer valer os seus interesses no processo de proletarização, contudo, as experiências aqui analisadas mostram que o sentido da classe não se configurou como uma entidade deduzida da estrutura de poder, e mostrou que essas lutas representaram a expressão do existir cotidiano desses trabalhadores, o que nos propõe a própria dimensão do significado das experiências que hoje são vividas no contexto das privatizações e da reestruturação produtiva.

 

 

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UCHOA, Martinho Prado.“A história da Cosipa".São Paulo: Cosipa. s/i.

 



[1] Elina Pessanha e Regina Lúcia M.Morel analisam  em seu trabalho “Classe Trabalhadora e Populismo: reflexões a partir de duas trajetórias sindicais no Rio de Janeiro, in O Populismo e sua História, a trajetória dos trabalhadores da CSN e as Lutas por Direitos, o entendimento do sindicalismo de base estatal dos anos 45-64, sob a influência do nacional desenvolvimentismo, onde o caráter estatal da empresa, teve um peso importante na determinação das escolhas, no posicionamento das correntes em disputa no seu interior, na forma de encaminhamento das reivindicações e nas atitudes freqüentemente contraditórias assumidas perante a companhia. Segundo as autoras, a cultura operária em Volta Redonda, no entanto, foi se forjando junto com a CSN. Portanto, analisada isoladamente, a ausência de greves  não indica passividade dos trabalhadores, apesar da política de “alianças” e mesmo cumplicidade da diretoria do sindicato com a cúpula da CSN  e com o governo, continuavam presentes nos acordos com a empresa inúmeras questões relativas às condições de trabalho e aos conflitos no espaço fabril. Ainda que atas de assembléia dos primeiros anos da década de 60 registrassem, por exemplo, “votos de louvor e reconhecimento destinados ao presidente da companhia” pelo pronto atendimento das reivindicações ou que, durante assembléias sindicais, diretores da companhia fossem “convidados a sentar na mesa junto com o Presidente do Sindicato” (PESSANHA E MOREL,in O Populismo e Sua História,2001,p. 300)

[2]  Situada no parque industrial de Cubatão, produz anualmente 3,59 milhões de toneladas de aço bruto com aproximadamente 5400 trabalhadores diretos e outros 5000 indiretos. Fonte: Cosipa relatório anual de produção, 2001.

[3]  Nesse período os empresários paulistas já tinham preocupações com os avanços da industria siderúrgica de Minas e Rio de Janeiro. Instalações siderúrgicas dinamizam outras indústrias que se servem do aço. São Paulo também já havia se tornado um grande mercado de aço.

[4] Usinas integradas são plantas industriais  que em seu processo de produção integram as três fases de produção do aço:transformação do minério em gusa; transformação do gusa em aço, transformação do aço em placas, detalhes sobre as datas citadas podem ser encontrados em “A História da Cosipa”,Matrinho Prado Uchoa.

[5] Tânia Moreira Braga em sua dissertação de mestrado: Política Ambiental, Conflito e Produção Social do Espaço sob o sígno da Mono Industria: Um estudo de caso sobre Ipatinga, mostra de que forma uma investigação sobre a gestão ambiental pode revelar as articulações dos atores sociais no processo de gestação da identidade operária que vai se formando juntamente com a fábrica.A diferenciação entre empregados e dentre eles na espacialização concebida pela empresa elucida as relações de poder dentro da fábrica.

[6] Com o mesmo destino da CSN o sindicato dos metalúrgicos de Ipatinga está hoje sob o controle da Força Sindical, porém a publicação é do Metasita (sindicato dos trabalhadores nas indústrias siderúrgicas, metalúrgicas, mecânicas, de material elétrico, material  eletrônico, desenhos/projetos e de informática  de Timóteo e Coronel Fabriciano – MG)  que se encontra sob a orientação da CUT.

 



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O populismo e sua história, org. de Jorge Luiz Ferreira
Trabalho e sociedade em transformação: mudanças produtivas e atores sociais, de Márcia de Paula Leite
O Liberalismo Econômico, de Pierre Rosanvallon
Trabalhadores e cidadãos. Nitro-química: a fábrica e as lutas sociais, de Paulo Fontes




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