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A imagem da mulher feiticeira como
expressão da diferença de gênero em Roma: os poemas de Horácio e Ovídio
Semíramis Corsi Silva
Mestre em
História/UNESP-Franca Profª Coord. Do curso de História – UNIESP (São Sebastião do Paraíso-MG) |
1) Introdução
Os fenômenos conhecidos
como magia,
feitiçaria e bruxaria, têm despertado um grande interesse em estudiosos
de
diversas áreas como Antropologia, Arqueologia e História. Nosso
interesse
inicial pelo tema foi despertado durante o mini-curso “Magia e Poder no
Império
Romano”, ministrado pelo Prof. Dr. Gilvan Ventura da Silva[i],
por ocasião do XX Encontro Nacional de Estudantes de História, no ano
de 2000,
na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Desde então, passamos
a
reunir fontes bibliográficas e documentais que tratassem, mesmo que em
pequenas
passagens, o tema da magia no mundo romano, constatando uma
superioridade de
trabalhos para o período medieval, em detrimento do período clássico
greco-romano.
Ainda
na fase das
leituras bibliográficas, verificamos que as fontes arqueológicas e os
dados
epigráficos mostravam que o cenário da magia clássica era basicamente
masculino. Os papiros e tabletes com imprecações mágicas[ii]
descobertos pelos arqueólogos, no território greco-romano, colocavam o
homem
como o praticante da magia, em superioridade à mulher, geralmente em
rituais de
magia amorosa. (GRAF, 1994, p. 211). Este dado arqueológico nos
intrigou, já
que havíamos percebido que nas fontes textuais, na literatura do
período do
Alto Império Romano, era a mulher que estava representada como
feiticeira, seja
ela de magia erótica ou de outra natureza.
É importante notarmos que
a imagem
da feiticeira velha, má, vestida de negro, com os cabelos desgrenhados
e unhas
compridas é comumente aceita como uma criação da literatura cristã
medieval.
Porém, mais uma vez podemos notar as influências da cultura romana no
pensamento Ocidental, sendo tal estereótipo nada mais que uma criação
dos
poetas latinos. Neste sentido, o objetivo deste trabalho é demonstrar a
imagem
da mulher feiticeira nas obras dos poetas Horácio e Ovídio, ambos
importantes
poetas romanos, contemporâneos do Principado de Augusto. Visamos
compreender possíveis
motivações que levaram estes poetas a criar tal representação através
da
análise de suas obras (mais especificamente dos poemas Épodo III,
V, XVI,
XVII e Sátira V de Horácio e Os remédios do amor, Amores VIII,
Os fastos
e Arte de amar de Ovídio), dentro da concepção vigente no período
sobre
magia, moralização e relações de gênero.
A originalidade de uma
pesquisa não
depende apenas da investigação de documentos inéditos, mas da colocação
de
novas questões elaboradas a partir da documentação existente. Desta
forma,
acreditamos que a abordagem historiográfica do nosso tema se
justifique, posto
que relacionar práticas de magia e universo feminino em Roma além de
ser um
assunto pouco estudado contribui para um melhor entendimento sobre o
papel da
mulher nas religiões pré-cristãs, tendo em vista uma relação de
hierarquização
entre homem e mulher em diversos aspectos da vida pública e privada.
2) Considerações sobre a
magia em Roma
A
crença em poderes
mágicos pode ser interpretada como um fenômeno sociocultural, sendo
recorrente
em inúmeras sociedades. Suas origens remontam a tempos e espaços
amplamente
divergentes, aspecto que funda um consenso entre os estudiosos sobre um
conjunto de práticas e representações mágicas inerentes à todas
culturas. Tais práticas
perpetuam-se ao longo do tempo, influenciando-se e adaptando-se através
de uma
relação dinâmica junto a outros saberes sociais (SANTOS, 1999, p. 11).
Tal crença generalizada
foi
amplamente conhecida pelos romanos. Tanto na literatura, em tratados
naturais e
nas leis verificamos que houve uma
grande preocupação dos romanos com a magia. Entretanto, deve-se fazer
uma
distinção entre a sobrevivência de práticas mágicas na religião oficial
e os
usos populares da magia. Assim, separam-se as formas de magia entre
práticas
introduzidas nos rituais de deuses cujo ritual incorporava ritos de
cunho
mágico (como a festa da Lupercalia[iii],
por exemplo) e práticas secretas, consideradas maléficas.
Na literatura os romanos
criaram
personagens, buscaram inspirações e referencias nas gregas Circe da Odisséia
e Medéia da tragédia homônima de Eurípides, e também se mostraram muito
originais, podemos citar vários autores: Plínio, o antigo, Horácio,
Ovídio,
Virgílio, Petrônio, Lucano, Filostrato, Sêneca e Apuleio. Destaca-se
que a
maioria dos romanos acreditavam ser tais práticas maléficas e
orientais. Para
Plínio, o antigo, a magia era uma falsa medicina de origem no mundo
persa de
Zoroastro, porém ao chegar no solo itálico assemelhou a alguns ritos
autóctones
(GRAF, 1994, p. 61).
Constatamos que mesmo que
representada como uma prática essencialmente feminina pelos romanos,
como já
exposto por nós, as fontes arqueológicas e dados epigráficos latinos
nos
revelam uma verdade sobre a magia romana: o cenário era basicamente
masculino.
Os papiros e tabletes com imprecações mágicas (os famosos defixios,
tabuletas de chumbo encontradas em poços, leitos de rios e antigos
cemitérios
por arqueólogos) colocam o homem como praticante da magia em
superioridade à
mulher. As imprecações destes tabletes se voltam principalmente para
situações
de rivalidades e conflitos sociais (amorosos, comerciais, processos
jurídicos,
disputas esportivas), com a intenção de intervir na ordem dos
acontecimentos.
Em relação às leis
romanas, o crime
de magia foi proibido em toda tradição jurídica latina. Pela Lei das
XII
Tábuas, escrita em meio a uma sociedade basicamente agrária, o
praticante de
magia era punido por usar de sortilégios para transportar a colheita de
um
vizinho para seu próprio campo e usar conjuros para causar danos a
alguém. Em
ambos os casos a pena era a morte por fustigação. Em
Com Augusto vemos o agravamento das
penalidades
contra magos e adivinhos considerados uma criação de poderes paralelos
dentro
do Império. Em
É neste sentido de proibição da magia
pelas leis e de
oposição entre prática (algo colocado pelas fontes arqueológicas como
superiormente masculino) e representações literárias (em sua totalidade
femininas) que buscaremos compreender as referências à feitiçaria nos
poemas de
Horácio e Ovídio.
3) As representações da feitiçaria em
Horácio e Ovídio
3.1)
O poeta Horácio (65 – 8 d.C.)
O poeta lírico satírico Horácio foi um
escritor
oficial do Imperador Augusto, deixando em suas obras traços desta sua
opção
política através de escritos que exaltavam a figura do Imperador e
pregavam as
mesmas censuras e padrões morais pautados nas suas leis, assim como a
preocupação
constante de Augusto com a preservação dos costumes ancestrais, como
nos
trechos abaixo:
Detento-te com prática
prolixa. (HORÁCIO, Epístolas, II, I, 1906)
Em relação à
magia, Horácio a colocou a
serviço das
paixões humanas. Seus textos são cheios de detalhes ricos e precisos,
cada
poema apresenta uma problemática particular, mas em todos aparecem as
mesmas
personagens e características análogas, variando apenas o tom.
No Épodo III, Horácio descreve a
crueldade da
feiticeira Medéia em uma tentativa de alertar o amigo Mecenas sobre o
perigo de
se envolver com tais moças, identificando a magia com a fabricação de
venenos.
Neste poema já aparece Canídia, feiticeira de presença constante nos
seus
versos. Muitos estudiosos acreditam ser esta personagem baseada em uma
famosa
perfumista napolitana amiga de Horácio chamada Gratídia, outros colocam
que ela
era uma amante do poeta que tendo o rejeitado lhe despertou a raiva.
Acreditamos, porém que o nome Canídia tenha sido etimologicamente
criado pelo
poeta, assim o sufixo canis,i (em latim cachorro) teria sido
empregado
com o prefixo idius-idia (esbranquiçado). Desta forma, podemos
interpretar que Horácio colocou a feiticeira como uma velha de cabelos
brancos,
comparada com uma cadela, assim Canídia e sua companheira Sagana uivam
na Sátira
VIII e chama Canídia de cadela esfomeada no Épodo V.
Aos nefandos conjuros
lhes
respondam. (HORÁCIO, Sátiras, I,
VIII, 35 ao 41).
Das fauces da cadela
esfomeada
(HORÁCIO, Épodos, V, verso 31)
A identificação da bruxa na Antiguidade
Clássica com
os cães talvez esteja relacionada por serem estes companheiros de
Hécate, a
deusa padroeira da magia greco-romana. Conforme E. Burris (Apud TUPET,
1976, p.
311), os cães seriam como companheiros das bruxas pelos caminhos
errantes da
magia negra, sempre noturna, o horário mais propício para práticas
ilícitas. Na
Idade Média, quando a bruxaria tomará formas judiciais mais sérias e
extensivas, este companheiro mudaria para o gato, animal identificado
com o
demônio e com a traição. Destacamos, porém que são sempre animais
noturnos,
assim como a coruja e o sapo aparecem em representações, ou seja, é na
noite
que estas práticas tomam forma.
Em Ovídio vemos a metamorfose da
feiticeira, ela muda
de forma e se reveste de plumas, mata crianças como as de Horácio.
Temos ainda
a difusão da crença no poder da bruxa de se transformar em striga (espécie
de pássaro)
5) A representação da feitiçaria feminina
como um veículo de moralização
ao homem romano
Acreditamos que se analisarmos que tais
fontes foram
escritas por homens e não serão lidas por mulheres, mas pelos próprios
homens
de uma mesma camada social, notamos que estas obras são, dentro das
motivações
de cada uma, formas de veiculação moral e valores estabelecidos sobre a
condição feminina para os próprios homens. Tanto o satírico Horácio,
quanto o
elegíaco Ovídio, buscam definir um campo de conduta e um domínio de
regras
válidas para o comportamento do homem romano, colocando a feitiçaria
como uma
prática essencialmente feminina, indigna do ideal guerreiro do homem
romano,
cruel, maléfica e que deve ser punida. Tais poemas demonstrariam, desta
forma,
uma forte expressão da diferença do gênero para os romanos, do que
jamais é
permitido ao homem, do que é ridículo e típico de mulheres.
No âmbito simbólico estas referências a
práticas
mágicas como basicamente femininas, aludiriam a uma natureza
descontrolada da
mulher. Diferente ao homem, elas não medem esforços para conseguir o
que
querem, se amam usam até mesmo da arte maléfica e punida que é a magia.
Entendemos ainda que tais poemas eram
formas de
Horácio e Ovídio demonstrar preocupações comuns da transição
República-Império,
preocupações com a moral do romano atingida pelas influências
estrangeiras,
manutenção das tradições e do mos maiorum (costumes dos
ancestrais) e
reconhecimento de uma identidade do romano, colocando sempre a magia
como algo
estrangeiro. Assim, a magia estaria como a cobiça, a avareza, o
adultério,
temas também criticados por Horácio, difundida no período e colocando
em risco
o patrimônio ético sobre o qual se estrutura a sociedade romana e que
se
precisava manter. Os poetas alertam a
sociedade também para os perigos da liberdade que as mulheres vinham
adquirindo
neste período. Os casamentos encontravam-se mais livres e Augusto criou
mecanismos que puniam adultérios.
Acreditamos, ainda, que mesmo que Ovídio
não pregue
os mesmos idéias morais que Augusto e Horácio pregavam, ele não deixa
de estar
inserido em uma sociedade patriarcal e ver práticas punidas e
criticadas, como
a magia, como imorais ao homem romano. Segundo Glaydson José da Silva
(2001, p.
39), devemos considerar que para a elegia a preocupação com “’que’ de
humor, de
ironia permeando os textos, dando sempre a entender a existência de
segundas
intenções por parte dos autores”.
Moldando um diálogo com a camada social
que fazem
parte, as representações criadas por estes poetas para a feitiçaria nos
remeteriam a teoria de Roger Chartier. Para Chartier (1988, p. 17), os
grupos
sociais criam suas representações do mundo social, de maneira a impor
seus
limites e valores, forjando representações determinadas por seu
interesse de
grupo.
Devemos considerar, também, a existência
de uma
crença generalizada no poder feminino em agir de maneira sobrenatural
que
remonta às sociedades antigas clássicas. Excluída dos cultos oficiais e
afastada para um lugar marginal, viam na mulher uma maior probabilidade
a
aproximar-se de práticas consideradas desviantes. Porém, para o mundo
romano,
objeto de nosso trabalho, as fontes arqueológicas comprovam uma
superioridade
masculina no âmbito da magia, através dos defixios. Também as
acusações
de magia do período remetem a um universo masculino, como por exemplo,
as
acusações contra o liberto Furio Cresimo (II séc. a.C.) e contra o
filósofo
Apuleio (II séc. d.C.). Acreditamos que a preponderância do masculino
na
prática diga respeito às próprias relações de poder no mundo antigo,
limitadas
à participação feminina, assim os casos mais freqüentes de imprecações
mágicas
(disputas esportivas, comercias, jurídicas) ficavam restritas aos
homens que
usavam da magia, considerada como formação de poderes paralelos dentro
do
Império, temida e perseguida pela autoridade oficial.
Portanto, a mulher por não ser considerada
um perigo
iminente a ordem política, não participar diretamente do “jogo de
forças”, não
representava um perigo maior que o homem quando praticante de magia, o
que
estava de fato em perigo eram as tradições que deviam ser mantidas, o
poderio
romano, a identidade construída em um momento de transição política.
Práticas
desviantes, temidas e ridicularizadas jamais poderiam ser algo
masculino,
principalmente para a elite detentora do poder político da qual faziam
parte
ambos os poetas.
6)
Bibliografia
6.1)
Fontes documentais
HORÁCIO.
Obras Completas. Tradução
de Elpino Duriense, José Agostinho de Macedo Antonio Luís de Seabra e
Francisco
Antonio Picot. São Paulo: Edições Cultura, 1941.
__________.
Sátiras. Tradução de
Antônio Luís Seabra. São Paulo: Jackson Editores – Clássicos Jackson,
vol. IV. 1952.
JUSTINIANO. El Digesto de Justiniano. Tomo III.
Libro 48. Título
8. Versión Castellana por A. D’ Ors, F. Hernández-tejero, P. Fuenteseca
, M.
García-Garrido y J. Burillo. Pamplona:
Editorial Aranzadi, 1975.
OVÍDIO.
Remédios para o amor.
Tradução, introdução e notas de Antônio da Silveira Mendonça. São
Paulo: Nova
Alexandria, 1994.
________.
Os Amores. In: _______. Obras
2ª ed. Tradução de Antônio Feliciano de Castilho. São Paulo:
Edições
Cultura, 1945.
REAL, C.
A. et al. Religión, superticion y magia en el mundo romano. Cadiz:
Encuentros en
[i] Professor do Departamento
de História da Universidade Federal do
Espírito Santo (UFES). Aproveito o presente espaço para agradecer ao
Prof. Dr.
Gilvan Ventura da Silva que tem se mostrado sempre solícito às minhas
pesquisas. Agradeço também minha orientadora, Profª. Drª. Margarida
Maria de
Carvalho, pelo apoio constante.
[ii] Estas imprecações mágicas
foram
encontradas pelos arqueólogos em finas lâminas de chumbo, conhecidas
como defixios
pelos romanos e kátadesmos pelos gregos. O nome destas
plaquetas sugere
a idéia de ligação de uma pessoa ao mundo subterrâneo. Ver mais
detalhes sobre
estes objetos mágicos no texto de Maria Regina Cândido (2002, p. 23-34).
[iii] Festa romana celebrada no
dia 15 de
fevereiro, provavelmente em honra ao Deus Fauno. Era um rito de
fertilidade,
seus celebrantes se reuniam em uma caverna do monte Palatino, onde se
supunha
que Rômulo e Remo haviam sido amamentados pela loba. Na ocasião
realizavam-se
sacrifícios de animais e uma corrida em torno do Palatino. Durante a
corrida,
mulheres posicionadas em torno do monte recebiam chicotadas (o chicote
era
considerado um objeto de purificação e fertilidade), o que acreditava
transmitir fertilidade (HARVEY, 1998, p. 317). Este rito pode ser
caracterizado
dentro da Lei de Similaridade ou Magia Imitativa, estabelecida pelo
antropólogo
James Frazer (1978, p.19).
[iv] Esta mesma distinção
entre magia
enquanto theurgia e magia enquanto goetia é feita por
autores da
época como Apuleio ao defender-se de uma acusação de praticante de
magia
(APULEIO, Apologia, XLIII, 2- 6).
[v] Diana, deusa da caça está
associada
á deusa Ártemis grega, que por sua vez está associada a Hécate, ver
mais sobre
esta analogia em: SARIAN, 1997. Esta
deusa aparece tanto neste poema como na Sátira VIII.
[vi] Conhecidas também sob a
denominação
de Erínies, as Fúrias eram divindades que vingavam crimes,
especialmente
aqueles contra parentes. Em número de três, Alectó, Mêgaira e Tisífone,
são
representadas como mulheres aladas.
[vii] Ovídio escreveu elegias. Inicialmente definida pelo metro
específico, chamado
metro elegíaco, a elegia passou a designar um gênero poético que se
caracterizou não pela forma, mas pelo assunto: o amor, a tristeza dos
amores
interrompidos pela infidelidade ou pela morte.
[viii] A Hemônia era como um
nome poético
para a Tessália, terra consagrada das feiticeiras. (nota de rodapé n.24
da obra
citada). Destacamos que a novela fantástica O asno de ouro de
Apuleio,
onde há descrições de rituais de magia, se passa justamente nesta
famosa região
das artes mágicas.
[ix] Aqui Ovídio reproduz
fielmente o
texto da Lei das XII Tábuas (Tábua VII) sobre o crime de prática de
magia, que
pune àquele que acreditavam ter o poder de transportar colheitas de um
campo
para o seu, ou seja, jogar “mau olhado” sob a colheita alheia,
roubando-a.
[x] Região de onde veio
Medéia, segundo
a lenda da tragédia homônima.