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Ortodontia social em Curitiba na virada dos séculos XIX e XX Fernando Nicolazzi
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"Cidade Sorriso, vá ao dentista!"
Santinho da Silva
APRESENTAÇÃO
A vontade de ser
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"Não somos europeus
nem
americanos do norte, mas destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não-ser e o outro." Paulo Emilio Salles Gomes
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Esta é a história de um desejo, de uma enorme vontade de ser nós mesmos sem sê-lo. Em outras palavras, esta é a história (ou uma delas) de um irreprimível anseio de ser nem americano do norte nem europeu, apenas curitibano...mas da forma como um europeu ou norte-americano o seria. O modelo da identidade aqui está na diferença.
Todavia, esta não é uma vontade natural presente em todo e qualquer indivíduo, não é um desejo inato compartilhado por todos os membros de um certo grupo, no caso, os habitantes de Curitiba. Trata-se de uma vontade construída aos poucos e para muitos. Transportando as palavras de Paulo Emílio Salles Gomes para o caso curitibano, quando se fala da penosa construção de nós mesmos, diz-se a construção da vontade de ser nós mesmos. E quando se sugere que tal construção se desenvolve na dialética entre o não-ser e o outro, afirma-se que nossa identidade está dispersa na fronteira entre o que não somos e o que o outro é, ou seja, que esta identidade é apenas a vontade de ser, nunca o ser em si. Somos o que desejamos ser, o que não significa que o sejamos.
Assim sendo, esta história é
a da construção desta vontade com a qual nos identificamos.
Mais especificamente, é a descrição do modo como esta
vontade foi sendo incutida nos indivíduos e do modo como os próprios
indivíduos foram sendo produzidos a partir desta vontade.
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Segundo o autor, "este termo, hoje praticamente em desuso, era freqüentemente utilizado pelas camadas dominantes da sociedade paranaense do século XIX para designar um conjunto de atributos que consideravam positivos (...) Morigerados eram aqueles que compartilhavam do ideário da positividade do trabalho e da acumulação. Também eram morigerados aqueles que sabiam comportar-se dentro de determinadas regras de etiqueta consideradas civilizadas" (PEREIRA, 1996:12). O sentido morigerador da história paranaense era, deste modo, o da transformação dos indivíduos em cidadãos solidários ao ideário burguês, em pessoas cujas atitudes e costumes estariam delineadas segundo os padrões, não estabelecidos, mas admitidos pela burguesia ervateira.
Ora, pode-se perceber nitidamente este sentido morigerador quando se estuda a cidade de Curitiba do começo do século XX. Medidas de segurança, de saúde e urbanas tomadas pela administração municipal deixam entrever esta morigeração da sociedade, que bem pode ser definida como uma produção de indivíduos estética e politicamente saudáveis. Em outras palavras, a fabricação do sorriso da Cidade Sorriso.
Tal produção, obviamente, esta amparada em relações de poder que se estabelecem até os mais ínfimos espaços sociais, nas mais cotidianas das práticas culturais e sociais como o passeio num parque de diversões, por exemplo. Relações que, neste sentido, são mais do que meros instrumentos de repressão e coerção e que, por isso mesmo, ultrapassam as noções de poder corriqueiras.
Pretende-se no trabalho proposto discorrer sobre os mecanismos de produção dos indivíduos, descrever as relações de poder que os sustentam e, por fim, avaliar sua eficácia ou fracasso. Não há, pois, a constituição de um problema para ser solucionado. Não é este o tipo de história que se segue. O objetivo é um tanto mais modesto ou simplesmente diferente. Quer-se constatar esta produção, descrevê-la em suas artimanhas, perceber até que ponto ela foi um movimento numa direção única e quais as respostas dadas a ele; o que não é o mesmo que uma análise sobre os conflitos sociais da época, nem sobre a relação entre duas classes ou culturas distintas.
Para tanto recorrer-se-á à noção de poder formulada por Michel Foucault em Vigiar e Punir e à idéia de processo civilizacional contida na obra homônima de Norbert Elias. Sobre a Curitiba na virada dos séculos XIX e XX, os textos utilizados são das mais diferentes naturezas, variando desde estudos sobre condutas desviantes até as mais inocentes memórias de pessoas que vivenciaram o período, e que não deixam, por isso, de ser bastante reveladoras. O espaço temporal que o trabalho procurará compreender é conscientemente mal definido. Isto deve-se, sobretudo, às variadas cronologias utilizadas pelos autores dos estudos que servirão como "tábua de trabalho". Todavia, esta imprecisão não prejudica em sua essência a pesquisa, pelo contrário, permite uma maior fluidez para a escrita.
Uma última consideração. O desajeitado título procura explicitar bem o trabalho ao qual ele dá nome. Segundo a definição médica, ortodontia diz respeito à posição regular dos dentes e/ou à maneira de corrigir as deformações congênitas ou acidentais dos dentes. Tomo emprestado o termo e o aplico de outro modo. Ortodontia social, aqui, é o processo através do qual se regulariza (ou se tenta regularizar) a posição de cada indivíduo na sociedade e/ou o dispositivo de correção de (ou que tenta corrigir) qualquer irregularidade. Em outras palavras, a produção de (ou tentativa de produzir) indivíduos tanto em termos de hábitos e usos do corpo quanto em termos de sua localização ideal na sociedade.
Carnaval de 1902 na esquina
das atuais ruas Barão do Rio Branco
e XV de Novembro - Bondes,
cavalos e automóveis dividem o espaço
urbano e as classes sociais.
Acervo: Cid Destefani
PARTE I
Do poder
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"O que faz com que o poder
se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso." Michel Foucault
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Ao traçar a história do nascimento das prisões no mundo ocidental, Michel Foucault (1) oferece uma importante contribuição para o estudo das relações de poder que operam na sociedade. Atravessando a ruptura entre a época clássica e a moderna, distintas pelos diferentes modos de funcionamento das práticas de poder, Foucault localiza a microfísica do poder cujo começo se dá a partir de tal ruptura.
No antigo regime as formas de punição mostravam um poder transparente, visível na figura do rei, onde o castigo era como que uma vingança pessoal do monarca na qual ele exibia a todos, e não somente ao condenado, a força e a infalibilidade de seu poder. O suplício, com as suas "mil mortes", era a expressão de um poder corpóreo e centrado num único foco; poder este que se manifesta menos como uma forma de correção do indivíduo do que como a punição última do condenado. Aqui, todos são condenados, todos os que assistem e de alguma forma participam do suplício estão, ao mesmo tempo, sendo punidos. São alvos indiretos do exemplo que é o castigo, espectadores do horror, vítimas e culpados do crime que, se não cometeram, podem cometer.
Entretanto, quando da ruptura localizada em fins do século XVIII e começo do XIX, toda a economia do castigo passa a ser redistribuída. No discurso dos reformadores, a punição deve ser mais uma forma de prevenção dos crimes do que seu remédio. Ela não deve destruir o criminoso, mas produzir outro indivíduo regenerado. Não deve ter como objetivo essencial o castigo corpóreo mas sim o sofrimento espiritual. Deve privar o homem, não da vida, mas de algo maior que a vida, pois que sem o qual ela não tem sentido, ou seja, a liberdade do homem. A punição precisa ser incutida na alma dos homens, fazer parte de seu pensamento e estar presente nele não só no castigo final, mas em todos os momentos; o arrependimento do criminoso há de vir antes do crime para que ele não seja realmente cometido. Em outras palavras, o corpo deixaria de ser o objeto do poder que tornar-se-ia algo menos material e mais espiritual. Mas a distância entre o discurso dos reformadores e a realidade é longa.
Se nas palavras daqueles que pretendiam a reformulação do sistema punitivo a alma seria o campo de incidência do poder, as próprias práticas de poder mostravam algo diverso. Elas deixam perceber os mecanismos de funcionamento do poder, os quais encontram na prisão, assim como na escola, nos hospitais, nos hospícios e nas fábricas, sua grande expressão. Enfim, o campo das práticas deixa entrever a microfísica do poder que opera em tais instituições e na sociedade como um todo. Não cabe aqui uma descrição pormenorizada do estudo de Foucault, o que interessa é principalmente a noção de poder que sua análise oferece. Deste modo, o estudo da microfísica do poder supõe um poder menos como propriedade do que como estratégia; um poder que domina sem se apropriar dos corpos, tornando-os dóceis menos por mecanismos repressivos ou coercitivos do que através de táticas, disposições, manobras e técnicas; que não opera num sentido vertical, a partir de um foco central (como o Estado), mas que se expande horizontalmente por todos os interstícios sociais e está presente nas mais "leves" e cotidianas das relações (como a família); que não é determinado por estruturas econômicas ou políticas, mas age ao lado delas; que não incide apenas no mundo das idéias, mas também em todo o universo do corpo; e que não é apenas visível através de suas representações concretas, mas perceptível também nas relações que engendra.
Em suma, a noção de poder
de Foucault é a de um poder disciplinador e invisível pois
está presente em todas as relações sociais nas suas
mais variadas formas. Tal poder pode também ser utilizado na produção
de indivíduos segundo certas vontades, ainda que ele não
seja produto específico delas. E é esta a noção
de poder da qual o presente estudo se apropria.
Do processo
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"O indivíduo nasce
numa
ordem com instituições definidas, pelas quais e para as quais é condicionado com mais ou menos sucesso (...) Desaprová-la e evadir-se- lhe não significa menos que se é condicionado por ela do que louvá-la e justificá-la." Norbert Elias
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Conforme já exposto acima, pretende-se analisar o processo através do qual se tenta regularizar a posição de cada indivíduo na sociedade, no caso a curitibana, e/ou o dispositivo de correção de qualquer irregularidade. Contudo, quando se utiliza o termo processo num estudo de história, várias precauções se mostram necessárias. Pois tal termo permite pensar a história como um curso com sentido racional e predefinido, o que aqui seria indesejável. Para tanto, recorre-se ao uso da palavra processo tal e qual Norbert Elias (2) a utilizou em sua obra O Processo Civilizacional, principalmente no seu esboço de uma teoria da civilização.
Quando Elias se põe a estudar os modos de interiorização de normas que transforma o guerreiro em cortesão e assim toda uma sociedade, ele admite serem tais modos produtos de um processo maior. O processo civilizacional, no entanto, não é um fato que pode ser atribuído a uma racionalização, embora guarde em si uma ordem específica. Não há uma racionalidade a priori que determinaria o sentido do processo, não se trata aqui de um projeto a longo prazo pensado a partir de uma ratio já definida. Ainda assim, pode-se pensar o processo em termos de uma ordem social singular.
Esta ordem seria, então, fruto das relações sociais. "Da interdependência das pessoas resulta uma ordem muito sui generis, que é mais compulsiva e mais forte do que a vontade e a razão das pessoas individuais que a compõem" (ELIAS, 1990:188). A partir do momento em que o indivíduo nasce nesta ordem, ele passa a ser condicionado por ela com mais ou menos sucesso, o que não significa tratar-se de um determinismo cultural. O indivíduo possui a liberdade de ação num espaço definido culturalmente, numa ordem social que não inibe sua individualidade, mas possibilita-a. A base de todo o processo, neste sentido, é constituída por tal ordem.
A idéia de processo em Elias, ainda que desconsidere um sentido predeterminado, não admite uma sociedade estática. Para ele, a civilização "é cegamente posta em movimento pela dinâmica própria de um tecido de relações, por alterações específicas na maneira como os homens têm de viver uns com os outros" (ELIAS, 1990:189). A história das sociedades é, assim, uma constante mudança sem sentido ou racionalidade próprios (3), é a história de processos variados que têm como principais elementos o indivíduo e o grupo ou cultura no qual está inserido. "O que muda no decurso a que chamamos história são as relações mútuas entre as pessoas e a modelação a que o indivíduo é sujeito dentro delas" (ELIAS, 1990:224).
A dinâmica da sociedade, ou seja, a ordem social que sustenta todo o processo, é mantida através de normas externas ao indivíduo segundo padrões legais e morais constituídos. Grosso modo, o que ocorre no processo civilizacional descrito por Elias é que tais normas passam, para os indivíduos, do âmbito cultural ao natural. Em outras palavras, elas são interiorizadas pelos homens e perdem seu caráter de normas impostas externamente, passam a funcionar como uma espécie de "superego coletivo" regulando as relações sociais. Como exemplo notável desta interiorização pode-se citar os hábitos à mesa da sociedade ocidental em diferentes épocas. Hoje, o uso de talheres é tido como natural quando há poucos séculos atrás o animal servido nem sequer era depelado e comia-se "com as mãos". Não são necessárias regras escritas nos restaurantes de hoje exigindo seu uso ou talvez proibindo o indivíduo de arrotar, ele simplesmente não faz.
Portanto, é esta a concepção de processo utilizada neste estudo bem como a idéia de interiorização de normas. Unidas à noção de poder desenvolvida por Foucault, tornam-se instrumentos adequados para percorrer o caminho que se propôs acima. Convém salientar que o uso de tais conceitos se dá na forma de apropriação, ou seja, um novo significado é criado de acordo com as possibilidades abertas tanto por Michel Foucault quanto por Norbert Elias. Este texto não é, portanto, uma simples transposição dos métodos utilizados por eles. Mais do que um paradigma para a historiografia, os dois propiciam novos horizontes, um dos quais se pretende percorrer abaixo.
Atual Rua XV de Novembro
com Monsenhor Celso na objetiva de J. Weiss. Acervo: Cid Destefani
PARTE II
O sorriso
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"No Paraná tudo
é característico,
a terra e a gente, a paisagem física e os horizontes morais, a ética das pessoas é a ética das multidões. Curitiba por si só é um exemplo de tudo isso". Hermes Fontes |
Para se escrever a história do Paraná na virada dos séculos XIX e XX é preciso antes reconstruir toda a história da economia ervateira no estado. O estudo de Magnus Roberto de Mello Pereira é bastante revelador neste sentido. Segundo ele, "um dos aspectos do rearranjo sócio-econômico provocado pela economia do mate foi a urbanização do Paraná (...) as unidades produtivas do mate centravam-se preferencialmente nas cidades ou em seus arredores. Quando os engenhos, por algum motivo, instalavam-se fora das cidades, provocavam a imediata urbanização de seu entorno" (PEREIRA, 1996:10-11). Isso se dava porque os moinhos não possuíam um grau elevado de autonomia como as fazendas dos campos gerais e precisavam, pois, de espaços comerciais desenvolvidos que suprissem suas necessidades básicas. Assim sendo, se Curitiba não foi conseqüência direta da instalação de um moinho de mate em seu espaço, ela deve muito da sua existência ao fenômeno histórico mais amplo, ou seja, a economia do mate. O modo como isso ocorreu, quem e o que o definiram e suas conseqüências seriam algumas das questões que deveriam ser levantadas. Mas tal tarefa fugiria aos objetivos limitados do presente trabalho.
Por outro lado, é necessário situar a cidade em algum lugar, percorrê-la através de um espaço definido, não no intuito de mostrar o rosto de Curitiba em tal época, mas para expor uma das muitas expressões que ele assumiu. Assim, nas linhas abaixo, apresentar-se-á uma expressão bastante específica do rosto da cidade, expressão na qual os lábios se alargam e se abrem deixando entrever alguns dentes saudáveis e bem alinhados; enfim, a expressão do sorriso de Curitiba.
Nas duas décadas separadas pelo ano de 1900, Curitiba teve um crescimento demográfico considerável. Isto se deve a duas razões principais e complementares. Primeiro, a imigração, maciça entre os anos 1870 e 1890, motivada pelo anseio de colonização das terras paranaenses; a segunda, na década compreendida entre 1890 e 1900, pode-se conjeturar tratar-se de um crescimento endógeno, ou seja, o número de nascimentos se sobrepõe ao de óbitos. As famílias dos imigrantes se constituíam, na maior parte dos casos, em grupos de 6 ou 7 indivíduos (4). Em 1890, habitavam na cidade 24.553 pessoas. Em 1910, o número aumentou para 60.800, ou seja, em apenas vinte anos Curitiba foi palco de um crescimento populacional imenso cuja sua precária estrutura urbana não era suficiente para suportar. Nem mesmo a economia que durante a segunda metade do século XIX apresentava um importante crescimento conseguiu acompanhar (5). "Diante das limitadas possibilidades oferecidas por uma economia predominantemente extrativa, modesta foi a obtenção de bens de capital, como modestas foram as incursões no setor industrial" (BONI, 1985:27). Fica claro que a cidade não possuía a infra-estrutura necessária para acomodar tamanho crescimento populacional. Além da indústria ervateira, pouca era a atividade industrial na cidade e boa parte da renda era, então, voltada para a importação de bens de consumo, em sua maioria oriundos do Rio de Janeiro.
Não obstante, o discurso oficial convidava ao sorriso. Para Rocha Pombo, que escrevia pelos idos de 1900, Curitiba seria em pouco tempo "um dos mais notáveis centros industriais do Brasil (pois) tem em seus arredores colonizados, fornecendo por isso braços baratos e abundantes para qualquer indústria" (cit. por LOUREGA, 1991:15). O levantamento sobre a atividade fabril curitibana, contido na dissertação de Maria José Menezes Lourega, que tratava do ano de 1900, mostra uma produção rudimentar e artesanal que não requeria um número elevado de trabalhadores. Pode-se sugerir, deste modo, e as fontes não permitem nada mais que uma suposição lógica, que havia uma grande parcela da população desempregada e outra de indivíduos vivendo às custas de pequenas funções que os deixavam no limiar entre a pobreza e a indigência.
Até mesmo certos padrões culturais dos imigrantes bastante destoantes dos hábitos desejados eram travestidos pelo mesmo discurso. "A heterogeneidade da população, no entanto, nunca impediu o sincero congraçamento moral em que se funde sobretudo a ordem e de que derivam a coesão e o vigor do espírito cívico local" (Rocha Pombo cit. por BONI, 1985:17). Ora, bem se sabe da profunda influência dos anarquistas italianos que aqui residiam, a qual se colocara contra a ordem de tal discurso. Além disso, na memória de América da Costa Sabóia, permaneceu a imagem dos famosos bailes da sociedade Thalia, em frente ao edifício Hauer na praça Tiradentes, onde a presença de pessoas não alemãs era diminuta (6). Isto mostra certo isolamento cultural entre grupos diferentes e ainda permite supor práticas excludentes que impossibilitavam a "coesão e o vigor do espírito cívico local".
A despeito, também, das críticas e ironias contidas nas charges publicadas à época, que reclamavam por melhores condições de vida e por serviços públicos eficientes e moralizados, denunciando a estupidez dos políticos e a hipocrisia dos clérigos (7), o sorriso permanecia. Em 1922, assim escrevia Romário Martins. "A administração dos negócios públicos, tanto do estado como do município, prima pela sistematização da ordem e pelo incitamento das realizações progressistas e goza da consideração, da estima e do apoio da coletividade. As leis são liberais, visadoras do bem e do interesse público, e a justiça é absolutamente íntegra e se faz para todos" (cit. por BONI, 1985:18-19).
Por último, vale citar apenas, pois é mais do que suficiente, outra crônica que demonstra bem a vontade de ser e o sorriso estampado no rosto da Curitiba "terra das fadas que lhes fará ricos e felizes para sempre. (...) Tudo é moderno e pitoresco em Curitiba. Possui ruas já bem pavimentadas, avenidas de árvores cobertas de folhas, um serviço regular de trainways, luxuosos carros puxados por gigantescos e fogosos cavalos" (Alcides Munhoz cit. por BRANDÂO, 1994:89-90).
Enfim, pode-se perceber como, no discurso dito oficial, Curitiba é exaltada como uma grande urbe moderna. O Paraná burguês, com toda a sua erva, precisa de uma capital à altura e para tanto é necessário, além das transformações práticas, um discurso que a produza. O artigo de Hermes Fontes de 1926, intitulado A Cidade Sorriso, cujo trecho ornamenta esta parte do trabalho, é exemplo marcante desta exaltação. Aqui é possível compreender como toda uma mentalidade compartilhada por indivíduos diversos, inseridos em uma cultura em comum, não é mera conseqüência de uma mudança social, mas sim fenômeno simultâneo e complementar. Assim como é possível entender toda a construção desta mentalidade em nível discursivo.
Entretanto, as possibilidades dos indivíduos abertas por aquela cultura são variadas e a liberdade individual para a produção de sentido, imensa. Prova disso são as palavras de América Sabóia quando diz que "os que a conheceram, pequenina e feia, mas tão pacata e no mesmo tempo tão alegre, podem compará-la hoje às pessoas pobres e simpáticas que enriquecem e perdem muito do seu encanto e da sua felicidade (...) a cidade tinha a placidez dos simples, a alegria pura dos bons e o encanto das coisas naturais" (SABÓIA, 1978:11). Percebe-se que a diferença entre esta citação e as outras está menos nas palavras do que nas funções que elas exercem. Aqui, Curitiba é pequenina e feia, diferente da cidade moderna e pitoresca de Alcides Munhoz; para uma, os burros que puxavam os bondes atuavam num espetáculo deprimente quando "se declaravam em greve e deitavam-se sobre os trilhos", para o outro, os mesmos não eram burros mas gigantescos e fogosos cavalos. Ainda assim, os dois guardam a mesma adoração pela cidade, nas duas citações está o mesmo carinho cívico por Curitiba. A diferença é que uma tem um caráter simples de memória, de lembrança do passado; a outra se pretende produtora desta memória que se forma e ainda está por vir, é expressão nítida daquela vontade de ser já referida. O sentido dos discursos são diversos mas ainda assim estão contidos no mesmo campo de possibilidade.
Portanto, na boca da elite curitibana estampa-se
o sorriso, forçado e não muito aberto para não mostrar
as deformações, mas ainda assim um sorriso. Mostra-se o que
é belo e se esconde o que está podre, como numa produção
fotográfica. Todavia, ainda existe o negativo...
As deformações congênitas
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"Maldito o dia em que
filho
de homem te habitou; o dia em que se disse nasceu uma cidade não seja lembrado; por que não foste sempre um deserto em vez de cercada de muros e outra vez sem um só habitante." Dalton Trevisan |
Embora na boca da elite curitibana o sorriso estampado permitisse ver apenas dentes saudáveis e perfeitamente alinhados, uma investigação mais detalhada com um olho clínico mostra que nem tudo é como se quer. Tal investigação já foi realizada de diversas maneiras e por diferentes investigadores. O que aqui segue é apenas a descrição de alguns resultados que apontam diretamente para as deformações congênitas presentes no sorriso.
A bela urbe burguesa que era produzida pelo discurso da elite curitibana escondia a província que era a cidade. A começar pela sua aparência estética. A dissertação de Rafael Augustus Sêga (8), sobre a gestão do prefeito Cândido de Abreu e sua atuação na reestruturação do quadro urbano, mostra que precária era a estrutura urbana de Curitiba no começo do século. Não havia calçamento na maioria das vias e devido ao clima da cidade eram constantes as ruas alagadas e enlameadas; o sistema de saneamento era inadequado com fossas perdidas, ou seja, abertas deixando no ar um odor fétido bastante desagradável. Para piorar, os bondes até 1913 eram puxados por burros que, então, defecavam durante o trajeto - que perpassava pelas ruas nobres da cidade - aumentando ainda mais o mau cheiro. Também era freqüente a passagem de campeiros pela cidade, com seus cavalos e seus costumes destoantes dos hábitos burgueses. Seu linguajar e suas vestes também eram satirizadas nas charges da época (9).
Além disso, na virada dos séculos XIX e XX, Curitiba sofreu com o flagelo da peste. De 1885 até 1891, foram mais de vinte epidemias das mais diversas doenças, como coqueluche, disenteria, dengue, varíola, escarlatina, etc. Dali até as primeiras décadas do século XX as doenças não desapareceram nem diminuíram, apenas se propagaram com menos intensidade (10). Os imigrantes eram os grandes inimigos da saúde local, não só os estrangeiros, mas aqueles oriundos de outros cantos do país também. Com o medo da peste, a prefeitura toma medidas que hoje parecem assombrosas. Em 1902, eram pagos 200 réis para cada rato apreendido na cidade. Tal medida, pode-se supor, teve um efeito invertido, ao invés de acabar com a doença, infectou os caçadores despreparados - e eram muitos - que encontraram nela uma importante fonte de renda.
Dando continuidade a esta descrição chega-se às condutas dos indivíduos. Como se supõe que quantidade de desempregados era enorme, a qualidade de vida de muitas pessoas possivelmente era extremamente deficiente. Vários casarões viraram verdadeiros cortiços verticais onde habitavam tanto desempregados como pequenos empregados do comércio, tanto homens como mulheres, tanto adultos quanto crianças, em cômodos que sequer eram divididos. Era este o ambiente de promiscuidade onde grande número de indivíduos "desenvolviam suas capacidades inatas". No levantamento das atividades policiais efetuado por Maria Ignês Mancini de Boni, percebe-se que a grande maioria das prisões efetuadas eram por desordens ou bebedeiras, ambas condutas tão deploradas pela pequena burguesia local. Muitos eram também aqueles que vagavam perdidos pelas ruas de Curitiba, pedindo esmolas, realizando pequenos furtos, aborrecendo o cidadão, enfim, tornando feia a imagem da cidade tão moderna e pitoresca.
Contra os bons costumes dos curitibanos
estava também as condutas de certos indivíduos do sexo feminino,
cujo sustento provinha do uso que faziam de seus corpos. Nos cabarés,
seus hábitos eram inadequados ao padrão desejado. Um artigo
publicado no Diário da Tarde de setembro de 1911, que não
deixa de guardar certa ironia, mostra bem um exemplo deste tipo de conduta
ocorrido no teatro Mignon. "Ontem, por exemplo, a senhora Lina Bello apareceu
com os seios nus, quase a saltar do corpete e braços e axilas. É
verdade que a senhora Lina tem uns bonitos seios, mas há de convir
que não está fazendo cenas para homens e sim cantando para
nós e nossas filhas" (cit. por BURCOWSKI e outros, 1988:13). Mas
a grande expressão deste desgosto por certas apresentações
e do repúdio pelas condutas libidinosas é o estereótipo
criado sobre a figura da polaca. Com a imigração maciça
de colonos germânicos para as colônias paranaenses e com a
escassez de trabalho no campo, muitas mulheres passaram a trabalhar como
empregadas nas casas dos membros da elite. Nasceu, então, a personagem
lasciva e sedutora da polaquinha que satisfazia os anseios dos patrões.
Para ilustrar, vale citar um longo trecho publicado na revista humorística
A Bomba, em 1913.
| Foi um escandalo em casa. Não se divulgou mas chegou ao conhecimento da vizinha bisbilhoteira (...) Ella, muito elegante, sahira para ir ao dentista (...) eram mais ou menos duas horas da tarde (...) as três e meia, felizmente, madame via-se livre do seu carrasco de boticão e voltou para casa depois de dar um gyro pela Rua XV para exibir a sua formosa toilette. Ao penetrar na sala de jantar estatelou surpresa. Em companhia da risonha criadinha polaca, "anjo perdido nas terrestres plagas", a bilontra de seu marido, que a supportava suavemente sobre os joelhos, dizia-lhe coisinhas doces decerto porque ella ria diante de dois cálices de cognac, colocados em sua frente a meya (...) a gentil polaquinha escafedeu-se para o seu quarto. No entanto ella era a única culpada de tudo, ávida e pérfida rapariga que fazia uso dos pós de arroz, do cognac e do marido da madame. (cit. por BURCOWSKI E OUTROS, 1988:31) |
As prostitutas e as imigrantes eram um alvo fácil das críticas dos defensores da moral e dos bons costumes. Encachaçadas, seduziam os pais de família e os nobres filhos da sociedade curitibana, espalhavam sua podridão por todas as vielas da cidade e arrastavam consigo o padrão elevado da elegante burguesia.
Todavia, não eram só os bêbados, gatunos e as prostitutas que estragavam o doce sorriso da elite. No campo da política também havia vozes estridentes que alardeavam a condição de iniqüidade e miséria da cidade, também havia uma presença rebelde que, organizada, se opunha ao sorriso. Estes eram os imigrantes que trouxeram, ou pelo menos puseram em prática no Paraná, todo o ideário anarquista europeu. Em sua maioria italianos, os anarquistas que aqui habitavam chegaram a publicar alguns periódicos e também fundaram uma colônia anarquista no estado, situada perto da cidade de Palmeiras. É bem verdade que os periódicos tinha a vida curta e a duração da colônia foi bastante efêmera, mas assim mesmo demonstra que discurso oficial não era o único e que havia outras expressões no rosto da cidade além do sorriso.
Enfim, numa rápida exposição
é possível perceber a existência de certas deformações
congênitas no sorriso oficial de Curitiba na virada dos séculos
XIX e XX. Havia, além do discurso dominante, um contra-discurso
com palavras de mau gosto e baixo calão; enquanto um percorria os
esgotos e os cortiços da cidade, o outro só era pronunciado
nos grandes casarões e nas festividades das camadas abastadas. Era,
portanto, necessário corrigir estas deformações e
fabricar o sorriso desejado.
A ortodontia
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"O que fazer em emergência
tão delicada, em tamanho perigo, em nome do mais rudimentar princípio de civilização? Violentar, não há a menor dúvida." Evangelista Espindola |
Em meio a tantas deformações e irregularidades, a tantos elementos nocivos ao sorriso, as autoridades curitibanas, porta-vozes principais do discurso oficial, vêem-se numa situação delicada. Medidas corretivas se mostram necessárias, é preciso conter os focos perniciosos antes que eles contaminem o resto da boca. Uma pergunta se coloca, o que fazer? Ora, a resposta é simples. "Violentar, não há a menor dúvida." Assim, todo o aparato com o qual se pode contar é efetivamente posto à disposição, todos os instrumentos, todas as instituições devem ser utilizados. Se, no entanto, eles se mostram inadequados, que sejam reformados; se, por acaso, nem sequer existem, devem ser criados.
A instituição policial, bem como todas aquelas que estão interligadas, pode ser citada como exemplo desta reformulação. Em 1908, é construído a Penitenciária Estadual do Ahú e três anos depois é instituída a Guarda Municipal. Neste mesmo período, a atividade policial passa por uma profunda transformação motivada sobretudo pelo espírito cientificista da época. Deste modo, a polícia passa a racionalizar seu funcionamento, criando novos gabinetes como o de Identificação e Estatística, o de Medicina Legal, cria-se também o Laboratório de Análises e o Necrotério. Tais transformações são fruto da concepção de que para se combater a criminalidade, é preciso conhecê-la em sua essência, assim como o próprio praticante, ou seja, o criminoso. Por isso, constitui-se uma hierarquia do crime e são concebidas novas categorias. Em 1909, por exemplo, é criada a categoria "menor" no Gabinete de Estatística da Polícia seguido do projeto de construção de uma instituição correcional para este novo elemento.
Contudo, a reformulação também é percebida na prática policial. Maria Ignês M. de Boni, nota que, durante o período por ela analisado (1890-1920), o número de prisões por contravenção ou averiguação é superior ao número de prisões por crimes cometidos. Partindo desta constatação, pode-se sugerir que o trabalho policial era sustentado por uma vigilância constante, ou seja, todos os indivíduos que apresentassem potencialidade criminal eram identificados e "vigiados". Ainda que todas elas fossem por contravenção - que segundo o código penal de 1890 constava de jogo, apostas, loterias não oficiais, uso de armas, mendicância, embriaguez, vadiagem, capoeira e afins - o tempo em que o indivíduo permanecia detido era mínimo e comumente era necessário apenas pagar uma multa, após, é claro, ter sido devidamente fichado. É nítida, então, a vigilância em cena na Curitiba do começo do século.
A individualização dos crimes e a despersonalização e personificação dos criminosos, ou simplesmente dos indivíduos potencialmente criminosos, era outra característica da prática policial. Por exemplo, juridicamente a prostituição era separada do caftismo. Duas atividades tão correlatas eram tratadas de formas tão díspares. No discurso oficial, prostituição é menos um crime do que uma doença; já o caftismo é visto como um crime infame passível de punição. Nota-se novamente a hierarquização e a individualização dos crimes, embora os criminosos sejam todos iguais. Para o mesmo discurso, ou seja, no espetáculo visto do alto, a violência não é produto de uma situação de miséria, é a própria condição dos miseráveis. Ela faz parte de uma categoria inferior, e todos os indivíduos desta camada são iguais, criminosos. Aqui, percebe-se a despersonalização daqueles que estavam em situação social inferior.
Ora, tais características são
antes de tudo estratégias políticas de controle e disciplina.
No caso da prostituição, antes de medidas policiais, eram
necessárias medidas profiláticas, pois muitos dos usuários
eram também membros da elite curitibana (11). Assim, enquanto o
caftismo era alvo de uma estratégia policial e jurídica de
punição, as prostitutas eram objetos de uma estratégia
policial e médica de vigilância e disciplinarização.
Eram identificadas e fichadas e deveriam apresentar um atestado expedido
pelo serviço de higiene policial. Uma passagem contida no Diário
da Tarde de 15 de outubro de 1919 é reveladora.
| De hoje em diante serão affixados boletins informando quaes as mulheres doente, os quaes boletins serão collocados atraz da porta da rua de todos os prostíbulos. Estes boletins serão assignados pelo director do Dispensario, e por meio delles o publico masculino poderá fiscalizar a efficiência dos serviços de prophylaxia da syphylis concorrendo também para ella. (cit. por BONI, 1985:143) |
Já no caso da despersonalização dos indivíduos, esta estratégia permite que todos aqueles que estão num nível social inferior, e que por isso mesmo são perigosos, sejam tratados da mesma forma e com igual violência.
Outro caso típico de despersonalização é o dos anarquistas. Em termos jurídicos, eram colocados ao lado de mendigos, bêbados e arruaceiros. Não eram considerados como um movimento de cunho político, e além de criminosos menores eram também pessoas imorais, devido sobretudo ao seu ferrenho anti-clericalismo.
Entretanto, a ortodontia era realizada em outras esferas além da policial. Se as prostitutas eram um caso médico, muitas outras situações corriqueiras da cidade também mereciam a mesma atenção. Conforme está explícito no trecho citado e que ilustra esta parte do trabalho, escrito por um médico diretor de Higiene Municipal, em 1911, a mesma violência usada para conter a criminalidade era utilizada no combate às epidemias. As palavras que antecedem tal citação são claras. "As leis de higiene vão sempre ferir indivíduos porque é em nome dos interesse coletivos que se vai restringir a liberdade do cidadão" (cit. por BONI, 1985:43). Da mesma forma, o Dr, Jorge Hermano Meyel, presidente da Câmara Municipal e prefeito em exercício em 1896, exige a sanitarização ("fazer fossas e entulhar as cloacas ou buracos") das ruas do centro da cidade sob pena de multa. É a lei funcionando como instrumento de normalização. Além disso, houve vários casos de despejo naqueles promíscuos casarões, focos de doença e de ofensa à moral e aos bons costumes. Com os indivíduos na rua, a vigilância era mais fácil por meio das averiguações policiais.
Além deste poucos exemplos, há um outro que merece a atenção. Ali pelos idos de 1870, em seu anseio modernizante, a burguesia ervateira passa a ditar certas regras relativas aos costumes locais. A mais interessante e reveladora talvez seja a proibição de cavalos na cidade, elemento destoante numa urbe burguesa que se pretende moderna. Ora, a história do Paraná até então era a história das grandes fazendas de gado nos Campos Gerais, e o uso do cavalo era bastante comum. Além desta medida sugerir o anseio por romper com um passado muito próximo, ela oferece indícios para perceber a regularização dos indivíduos, ou seja, sua colocação nos lugares que lhe são devidos. Ela não pretende proibir que se utilize cavalos como meio de transporte, apenas exige que o façam longe das ruas calçadas do centro da cidade para que não ocultem a beleza urbana com tão campeira figura, a do cavaleiro. O homem moderno anda de trainways e suas vestimentas não podem tocar o couro do animal.
Por fim, aproveitando que se falou dos
bondes, pode-se falar de outra medida regularizadora. Em 1913, os bonde
puxados por gigantescos e fogosos cavalos, em outras palavras, pequenos
e deprimentes burricos, foram suplantados pelos modernos bondes elétricos.
O motivo é dado, um ano antes, por Cesar Bráulio, no Diário
da Tarde de 6 de janeiro.
| Aí vêm os elétricos, para terminações de martírio desses infelizes irracionais e com esse próximo acontecimento desaparecerá, também, o resto de indolência do nosso povo, que atravessa vagarosamente as ruas, faz ponto no meio das mesmas, atravanca as calçadas e as esquinas; ficará sendo um povo ativo, às direitas, fugindo dos bondes velozes, apertando o passo para apanhá-lo nos pontos de parada, não obstruindo mais os passeios, etc, etc, será um verdadeiro "circulez parisiense". (cit. por BRANDÂO, 1994:95) |
Ou seja, os bonde elétricos chegam para transformar Curitiba numa Paris, moderna e veloz. Mas enfim, eis que em 1914 a prefeitura municipal de Curitiba fecha um contrato com a The South Brazilian Company, responsável pelos elétricos, em que uma das cláusulas prevê que "nos carros de primeira classe só poderão viajar as pessoas decentemente vestidas e limpas, calçadas de botinas, com colarinho e gravata; cabendo ao condutor fazer retirar dos mesmos carros aquelas que não se apresentarem nestas condições, para o que poderá requisitar o auxílio da polícia" (cit. por LOUREGA, 1991:17). Mas isso não deve sugerir que as autoridades não sejam benevolentes com os miseráveis, pois os pobres poderiam sim andar nos bondes e nos horários que melhor lhe conviessem, ou seja, entre as 6 e as 8 horas pela manhã e pela tarde entre as 5 e as 7 horas, na ida e na volta do trabalho, nos carros de segunda classe junto aos seus semelhantes.
Portanto, para se corrigir as deformações
congênitas presentes no sorriso da cidade, os que assim desejavam
utilizaram essencialmente as leis. Toda a fabricação do sorriso
em Curitiba foi fruto, em sua maior parte, de medidas instituídas
pelas autoridades locais. A partir delas, então, estes novos padrões
passam a ser interiorizados pelo resto da população que se
torna condizente com os mesmos. Exceções existiram, o movimento
operário anarquista e as greves são prova disto. Entretanto,
não ofereceram grande resistência para esta operação
de ortodontia que ocorreu e da qual foram os grandes objetos.
Grande Hote-1906 Esquina
das atuais ruas Barão do Rio Branco e
XV de Novembro Bonde
de mula em frente ao Grande Hotel Acervo: Cid Destefani
FIM
O sorriso permanece, amarelo como sempre
|
"Na maior parte das pessoas
que aspiram a elevar-se socialmente, o esforço de ascensão
conduz a deformações da consciência e do comportamento
muito específicas (...) e encontram-se também, não
raro, nos círculos pequeno-burgueses da própria sociedade
ocidental, como ‘pseudo-cultura’, como pretensão a ser aquilo que
não se é, como insegurança do comportamento e do gosto,
como ‘vulgaridade’ não apenas dos imóveis e do vestuário,
mas também do espírito. Tudo isso traduz uma situação
social que compele a imitar modelos de um grupo mais elevado na escala
hierárquica. É uma tentativa sem êxito; continua a
ser perceptível que se trata de uma imitação de modelos
alheios."
Norbert Elias |
Michel Foucault traz uma importante contribuição para a escrita da história. Creio que ele deixa entrever em seus textos uma nova percepção da história mais voltada para o campo da teoria. Quando ele instaura as descontinuidades e localiza as rupturas no decurso da história, está visivelmente preocupado em encontrar diferenças. Seus trabalhos históricos primam por perceber o que diferencia o presente do passado, mas não com o intuito de mostrar o que somos agora e sim para dizer o que deixamos de ser e não somos mais. Sua obra não é a busca pela identidade, é, pelo contrário, a dispersão de toda e qualquer identidade, e a história é o lugar privilegiado para tal dispersão, para a constituição das diferenças e para criticar a sociedade (12).
Iniciei este estudo a partir de alguma leitura de Foucault e pretendi encontrar no passado a ruptura que mostrasse o que Curitiba deixou de ser, pois, como diz Dalton Trevisan, "Curitiba foi, não é mais". Pretendia dissipar a identidade que dizem possuirmos hoje. (In)felizmente não me foi possível. As linhas acima revelam, a mim pelo menos, que entre a virada do século e hoje há mais continuidade que ruptura, mais semelhança que diferença. Guardadas as devidas proporções, não somos assim tão diferentes daquelas pessoas de quase um século atrás.
O que somos ainda é uma vontade de ser o que não somos, seja uma urbe moderna com seus trainways, seja uma capital ecológica com seus ligeirinhos. O que permanece é o modelo, importado e mal copiado. Não é preciso dissipar uma identidade, ela já nasceu dispersa entre o que não somos e o que o outro é. Por isso vale a pena cometer a gafe de se parafrasear Dalton. Curitiba nunca foi...e já não é mais.
*
As medidas tomadas, parece, não visavam extinguir a miséria, causa maior da criminalidade segundo o discurso oficial, nem mesmo acabar com as práticas não morigeradas. A vigilância sobre os indivíduos, em especial os menos favorecidos socialmente, se dava no sentido de produção de um saber, ou seja, ter conhecimento de quem eles eram, do que faziam e de onde estavam. O despejo dos casarões e sua colocação nas ruas permitiu que tal vigilância funcionasse de forma mais eficaz, pois eram sempre considerados mendigos ou vagabundos e, pois, passíveis de "averiguações". A disciplina imposta às prostitutas visava um maior controle de qualidade sobre o produto tão consumido pelas classes abastadas. Quando diziam "é proibido cavalos nas ruas de Curitiba", queriam realmente dizer "voltem para o mato onde é seu lugar, seus caipiras atrasados". Quando consideravam os anarquistas como meros desordeiros, anulavam o papel político que eles desempenhavam e os envolviam numa bruma silenciosa. Enfim, quando estipulavam horários e um carro diferenciado para os pobres andarem de bondes elétricos, estavam colocando-os no lugar que lhes era ideal, ou seja, o lugar onde se pudesse perceber nitidamente a diferença entre um senhor de alta classe, devidamente morigerado, e um ser da ralé, indivíduo-limite da civilização.
Portanto, a partir de uma imensa vontade de ser, foi-se moldando a não-identidade do curitibano. Não se trata de um projeto iniciado em tal ou tal momento, por esta ou aquela pessoa ou camada social, mas de um arranjo das forças participantes nas relações de poder que permitiu a construção de uma ordem social favorável à fabricação do sorriso. Obviamente, não se pode descartar o importante papel desempenhado pela administração local através do uso de seu instrumento principal, a lei. Mas tampouco pode-se ignorar a conivência de grande parte dos indivíduos que aceitaram a lei a ponto de naturalizá-la em seu cotidiano. Não eram apenas as autoridades que não apreciavam as meretrizes, os mendigos, os ébrios ou os cavaleiros que por aqui passavam e não eram elas as únicas cujo olhar vigilante incidia sobre tais indivíduos. Em suma, a ordem se constituiu por inúmeras forças, inclusive de resistência (13), e a dinâmica do processo ortodôntico se dá segundo a constante tensão entre elas, pois o poder não estava centrado num único foco, mas disperso na sociedade.
Embora a maquiagem hoje seja outra, a boca
ainda é a mesma. E nela o mesmo sorriso de cem anos atrás
continua estampado, ocultando as inúmeras deformações
e irregularidades, amarelo como sempre.
Notas
(1) Ver Michel Foucault, Vigiar
e Punir.
(2) Ver Norbert Elias, O Processo
Civilizacional, pp. 187-265.
(3) O fato de se tratar de uma
história sem sentido não significa que ela seja ininteligível.
(4) Os dados estão na tese
de Maria Ignês Mancini de Boni, O espetáculo visto do alto,
pp. 15 e segs.
(5) Silza Maria Pazello Valente
indica certa oscilação na economia ervateira. Entre os anos
1875 e 1879 o mate do Paraná, antes ocupando 3/5 do mercado americano,
sofre um declínio devido à competição com a
indústria argentina. Tal momento é seguido de um crescimento
até 1902. Dali, até 1907, outro descenso seguido novamente
de um crescimento até a eclosão da primeira grande guerra.
Ver A presença rebelde na Cidade Sorriso.
(6) Ver América da Costa
Sabóia,
Curitiba de Minha Saudade.
(7) Ver Marilde Lopes Pinheiro
Queluz,
Olho da Rua: o humor visual em Curitiba (1907-1911).
(8) Ver Rafael Augustus Sêga,
Melhoramentos da Capital: a reestruturação do quadro urbano
de Curitiba durante a gestão do prefeito Cândido de Abreu
(1913-1916).
(9) Ver Marilde Lopes Pinheiro
Queluz.
(10) Ver Maria Ignês Mancini
de Boni.
(11) Marilis Burcowski e outros,
chegaram a conclusão que a prostituição não
poderia ser combatida pois constituía-se como "parte presente e
bastante funcional da sociedade", em outras palavras, era como que a válvula
de escape para os homens da sociedade, muitos deles porta-vozes do discurso
oficial, que necessitavam liberar seus instintos.
(12) Foucault prefere denominar
seu trabalho, pelo menos aquele após maio de 1968, de genealogia
e traça toda uma imagem de tal trabalho em um ensaio intitulado
Nietzsche, a genealogia e a história, publicado no Brasil
na coletânea de escritos seus, Microfísica do poder.
Tratei do tema da teoria da história em Foucault num texto apresentado
no curso Tópicos Especiais de Historiografia Contemporânea,
ministrado pela Profa. Ana Maria de Oliveira Burmester, no segundo semestre
de 1998.
(13) O presente trabalho, como
é visível, não abordou o tema da resistência
e inúmeras são as razões para isso. A utilização
apenas de discursos ditos oficiais deveu-se, principalmente, à maior
facilidade de acesso que proporcionam.
Bibliografia
BONI, Maria Ignês Mancini de. O Espetáculo Visto do Alto: vigilância e punição em Curitiba (1890 - 1920). Tese de Doutoramento. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1985.
BRANDÃO, Angela. A Fábrica de Ilusão: o espetáculo das máquinas num parque de diversões e a modernização de Curitiba (1905-1913).Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1994.
BURCOWSKI, Marilis; FEITOSA, Samara; TOKERSKI, Célia Regina. Contradições de uma Sociedade: condutas desviantes e prostituição em Curitiba de 1910 a 1916. Monografia de Bacharelado. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 1988.
ELIAS, Norbert. O Processo Civilizacional.Vol. II. Lisboa: Dom Quixote, 1990.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.Petrópolis: Vozes, 1999.
__________. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1998.
LOUREGA, Maria José Menezes. A criança sob o olhar vigilante do adulto. Curitiba (1905-1927).Dissertação de Mestrado. São Paulo: PUC - São Paulo, 1991.
MACEDO, Heitor Borges de. Rememorando Curitiba no tempo dos bondinhos de burro. Curitiba: Lítero-Técnica, 1983.
PEREIRA, Magnus Roberto de Mello. Semeando Iras Rumo ao Progresso. Curitiba: Ed. UFPR, 1996.
QUELUZ, Marilda Lopes Pinheiro. Olho da Rua: o humor visual em Curitiba (1907-!911). Dissertação de Mestrado. Curitiba: UFPR, 1996.
SABÓIS, América da Costa. Curitiba de Minha Saudade: 1904-1914. Curitiba, 1978.
SÊGA, Rafael Augustus. Melhoramentos da Capital: a reestruturação do quadro urbano de Curitiba durante a gestão do prefeito Candido de Abreu (1913-1916). Dissertação de Mestrado. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 1996.
VALENTE, Silza, Maria Pazello. A Presença Rebelde na Cidade Sorriso: contribuição ao estudo do anarquismo em Curitiba (1890-1920). Londrina: Ed. UEL, 1997.