Editorial
 

Quando há alguns meses atrás a Revista Klepsidra surgiu como uma idéia tímida, já se tinha o pálido desejo de ver um dia o maior número possível de estudantes e curiosos juntos, cada qual com seu ponto de vista e área de interesse, em prol da “divulgação” da História. Para isso, considerávamos nossa publicação um passo essencial.

Agora, nesta 3.ª edição, ficamos felizes em ver que parte desta utopia já se esboça como realidade. Temos a participação de estudantes da Universidade Federal do Paraná, um grupo também unido por uma iniciativa “proto–acadêmica”, responsável pela recém-nascida Revista Vernáculo que, assim como Klepsidra, trata de divulgar a história. Antes de mais nada, não queremos que a expressão “proto” pareça agressiva, mas que tenha o sentido de uma semente com potencial suficiente para se tornar, neste caso, acadêmica. No entanto, espera-se – caso o termo “acadêmico” continue carregando o sinônimo “isolacionismo” – que a Vernáculo, assim como a Klepsidra, nunca alcance este destino, mas permaneça em suas diretrizes “expansionistas”.

Deixando-se de lado as figuras imperialistas meramente ilustrativas, o propósito que se tenta esclarecer aqui não consiste em uma revolução intelectual (não a priori) ou em uma homogeneização das visões de mundo e estudo; pelo contrário, busca-se alargar os horizontes e reabilitar o diálogo e o conhecimento, reavivando-os desde cedo, segurando-os onde eles devem permanecer: entre a maioria. Infelizmente, tais objetivos ainda não se mostram tão difundidos, e a fragmentação impera. O exemplo mais claro disso ocorreu no último Encontro Nacional dos Estudantes de História, realizado em Vitória, Espírito Santo. Segundo informações do grupo da Vernáculo, os estudantes da USP foram os poucos que não tiveram interesse pela publicação paranaense. Não se pode (e nem se quer) generalizar a partir de um pequeno número de indivíduos, mas o episódio se mostra ilustrativo, não da USP e sim de um ambiente propenso a gerar intelectuais auto-suficientes ou que assim se consideram, e que por isso julgam desnecessário o contato entre o mundo exterior e a universidade. Nesse pensamento, cometem inclusive o crime de manter trancafiada nos limites acadêmicos a História, que por princípio é livre de amarras e prisões.

No século XV, a Escola de Sagres mostrou o caminho a ser seguido na busca do saber: uma reunião de conhecedores de uma mesma área interessados em desenvolvê-la e propagá-la. Quando há seiscentos anos este canal de diálogo, simples e com um mínimo de burocracia, foi criado, a surpresa foi mínima em vista do número de universidades existentes na Europa nesta época. Mesmo assim, sua importância local e indiretamente mundial foi muito grande. As Universidades surgiram primeiramente sob a denominação de studium, mas diante de seu caráter corporativo foram posteriormente denominadas universitas, termo que designava qualquer corporação ou comunidade, e neste caso se tratava de uma corporação de mestres e alunos, magistrorum et scholarium. Em 1170 a Universidade de Paris já atuava como centro do saber francês, precedida no continente apenas pelas universidades italianas, todas estruturadas sob os moldes de uma corporação de artesãos, subentendendo uma cooperação entre seus membros e um relacionamento produtivo com o seu “mundo”.

O raciocínio não é tão confuso quanto aparenta. Se temos: 1) uma reunião de conhecedores com os mesmos interesses; 2) a possibilidade de criar um corporação ou cooperativa; 3) e um “mundo” muito maior com o qual nos relacionamos produtivamente, o que acontece com o estudante contemporâneo para que ele queira se esconder em um bairrismo mesquinho ou um isolacionismo intelectual? A resposta não se encontra clara e muito menos exata, mas o orgulho e a ambição são dois bons inícios de busca.

Entende-se por orgulho um sentimento que a maioria dos historiadores tem ao pensar que seu conhecimento está muito acima da população em geral, e por isso não se dignifica a “descer” de seu pedestal para torná-lo acessível. Sendo assim, nos parece que os historiadores temem a popularização da história, por considerarem um conhecimento não tão aprofundado como não sendo correto. Será que o medo às críticas generalizadas impedem a entrada da história na mídia? Além disso, pode-se dizer que há uma espécie de “monopólio do conhecimento”, ou assim desejam os estudiosos, para que nada nem ninguém vá além do seu campo de visão, eliminando qualquer ameaça ao seu potentado.

Para que o historiador obtenha um “conforto” em sua carreira é preciso alcançar prestígio e respeito no meio científico. Dessa forma, a concorrência entre historiadores se torna um tanto quanto agressiva, indo de encontro à premissa de humanidades contida nas ciências humanas em geral. Com essa ambição ,os estudiosos passam a não se interessar em dialogar com a sociedade, produzindo apenas obras que exigem do leitor um conhecimento aprofundado com relação ao assunto discutido. Não se trata de uma crítica às obras dirigidas a um público especializado, mas sim à escassez de publicações de cunho iniciador capazes de formar uma consciência histórica – deve-se iniciar a edificação de uma casa pelos alicerces e não pelo teto. O encastelamento intelectual, isso sim, apenas produz uma história restrita e parcial, desligada de seu mundo e de seus fatos geradores. Uma história anti-marxista, porque não baseada na praxis de toda a Humanidade e, assim, não relacionada com a própria existência.

Não nos consideramos melhores ou mais capazes, mas simplesmente dispostos a iniciar esta escalada, que se chama História, a partir dos primeiros degraus e, parafraseando Thompsom, queremos que o número de degraus seja ilimitado. Klepsidra, que chega a sua terceira edição, é uma tentativa nessa escalada que, até agora, tem dado frutos.


Erik Hörner
Gláucia Rodrigues Castelani