A Civilização Ibérica

Carlos Ignacio Pinto

Segundo Ano - História/USP
carlos@klepsidra.net
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Um ano depois....

Este trabalho acadêmico foi desenvolvido em meu primeiro semestre na faculdade e tinha por objetivo levantar mais questões do que propriamente resolvê-las. Porem, com todo o idealismo ao qual chegamos a Universidade, o qual  não me  permitiu que na época eu pudesse observar e remodelar algumas afirmações no texto que hoje considero não terem esclarecido da forma que eu objetivava e nem se mostraram tão interessantes como eu mesmo imaginava. Mas como não se tratava de uma Tese e ainda mais, por muito pouco saber e “imaginar” tratar-se de uma verdade ou de um conjunto de verdades que pouco pudessem ser refutadas, acabei por comprometer o real objetivo ao qual havia me proposto.Mas é válido como fonte de pesquisa. Gostaria muito que aqueles que tiverem a paciência de ler e a humildade de compreender o idealismo ao qual eu estava subjetivamente compenetrado (aqueles que estiveram comigo no primeiro ano se lembrarão que o mesmo de certa forma ocorreu com eles. Todos éramos sonhadores com a mudança a qual a universidade nos submete),  me escrevam discordando ou até mesmo concordando com alguns aspectos do texto.

Compreender a sociedade, a qual eu tento retratar no texto, é conhecer um pouco mais de nosso meio, suas raízes e um pouco da sua lógica social. O fruto de uma miscigenação, que começou muito anteriormente na própria Europa, mas é na América Latina e principalmente no Brasil, que este caldeirão de culturas e etnias iriam formar um aspecto maravilhoso e assustador de uma mesma realidade. Mas isto é assunto para um próximo texto. Agora aconcheguem-se em suas cadeiras e uma boa leitura.

Carlos Ignácio Pinto

Introdução

Ao analisarmos sobre a população brasileira bem como a sociedade que ela forma, percebemos os vários costumes comuns a esta sociedade bem como sua tradições e cultura. Quase nunca nos perguntamos de onde provêm, qual a origem de tais costumes ou quais seus significados. Determinadas características já se fazem comum a alma e a cultura do Brasil. Suas festas, suas crenças  a religiosidade, a superstição, bem como infinitas características que já fazem parte do convívio comum.

Muitas dessas características surgem logo na formação deste país, vindas junto com seus primeiros colonizadores, são costumes que vêm e perpetuam-se na tradição do Brasil, costumes Ibéricos e Africanos, vindos com senhores, escravos, lavradores, homens livres e demais pessoas que viessem tentar a sorte em terra tão longínqua que apesar da distância de sua terra natal, trazem consigo todas as características de suas sociedades.
Representação clássica de um Engenho de Açúcar, considerado o
motor econômico do período colonial nordestino, onde conviviam
os elementos ibéricos, africanos e indígenas

Porém, neste trabalho pretendo me dedicar apenas a formação da cultura e mentalidade Ibérica  que em muito irão influenciar a  formação de nosso povo. Quero chegar ao ponto, a época das grandes navegações e descobrimentos, como pensavam as pessoas desta época , porque certos costumes, como agiam as vezes diferentemente de suas ideologias ou concepções, as ideologias de classes, a religiosidade tão forte e presente aos Ibéricos e enfim tudo o que pudesse estruturar o homem da época bem como sua mentalidade.

Para atingir tal objetivo a que se fazer uma retomada da formação destes povos colonizadores, suas raízes, como se estruturaram em uma unidade, pois se partirmos apenas da retratação e descrição da sociedade época poderemos apresentar um ótimo trabalho descritivo, porem sem análise e conexão com o passado que a forma e que se torna tão importante para compreensão de determinados pontos referentes a esta monografia. A primeira parte do trabalho se refere a exatamente a este assunto , um pouco da História da civilização Ibérica para não termos apenas dados relatados sem nenhuma conexão com passado, presente ou futuro como se de uma certa forma fosso possível a dissociação desta descrição com a análise de seu passado.

Esta monografia irá tratar da Península Ibérica como um todo, não apenas de Portugal, pois o que este trabalho trata é realmente caracterizar a sociedade que iria formar e constituir uma enorme parte deste novo mundo que acabava de surgir aos olhos dos europeus e que nenhum mais conseguiu tamanhas extensões de territórios como os Ibéricos que por sua vez também foram pioneiros nestas conquistas.

A este povo que coube tamanha precocidade mas também a responsabilidade pôr desmoronamento de seu império e que pretendo relatar, e de como a mentalidade bem como sua forma de agir tiveram pôr responsabilidade direta o fator determinante para apogeu e queda de suas conquistas.

 

I-  Um pouco de História

1.1- A Espanha  pré-romana

Devido a sua posição ( com relação ao estreito de Gibraltar), a Espanha permitiu um grande acesso aos povos vindos da África para a Europa e quase que certamente os 1º povos a habitarem a Península Ibérica foram os Iberos vindos da África que se fixaram na região da Andaluzia e depois migram para o Tejo e o Doro e para as costas do Mediterrâneo . Possivelmente eram descendentes de Libio-camitas.

 Outros povos também migram para a Espanha como os Tartesos que também se fixam na Andaluzia, aos Celtas (provenientes do leste europeu); os Celtiberos e os Bascos que até os dias atuais se constituem em povos quase que totalmente diferentes do restante de Espanha.

 

1.2- As primeiras colonizações

Vários povos já civilizados (no sentido de organização territorial e social) entraram em contato com os povos Ibéricos anteriormente aos romanos e foram os primeiros a tentarem uma colonização do território, como os Egeu-Cretenses entre 1500 e 1200 Ac. , que não nos interessa muito pois não deixaram influências nestes povos; a colonização Fenícia (1100 Ac.) que deixa sua influência de certa forma no comércio, pois são ótimos comerciantes e fundam a primeira cidade do Ocidente, Cades, logo depois Malaca, Abdera e  Carteria , cidades colonias toalmente independentes.

A mais importante colonização da Península anterior aos romanos é a colonização Grega , pois esta deixa influências bastante profundas aos povos Ibéricos. Chegam entre os Séculos VIII e VIII Ac. e ocupam os espaços deixados pelos fenícios que entram em decadência devido a guerra com os Assírios.


Estátua representando Teseu
matando o minotauro, um dos
mais importantes mitos gregos
Kolaios de Samos descreve através de lendas e descrições a ida para a Península Ibérica dos gregos que partiram da Fócida em 776 Ac. (ano da primeira Olimpíada da Antigüidade) com destino ao Ocidente. Fundam a colônia de Massalta (Marselha) e a colonização Grega se extende do século VIII ao III Ac. somente decaindo com a chegada dos cartagineses . As principais influências dos gregos são: Cultura dos povos litorâneos, desenvolvimento do alfabeto na região, introdução da cerâmica e introdução do cultivo da oliveira e da videira que até hoje são cultivados e representam uma fator econômico expressivo na região.

Os cartagineses chegam a península, devida as derrotas nas guerras púnicas, pois procuravam riquezas para o pagamento da indenização imposta  pelos romanos. Despertam pela primeira vez o sentimento de unidade e defesa de certos povos ibéricos.

Durante a segunda guerra Púnica Anibal usa a Península como retaguarda de abastecimento de defesa para seu exército de cavalos homens e elefantes que avançam em direção a Roma. Esta guerra termina em 202 Ac. com a vitória dos romanos e os mesmos começam a efetuar a ocupação da Península em 206  (anteriormente a vitória pôr uma questão de estratégia de derrubada da retaguarda) e só a efetuam 200 anos depois.

 

II- A Espanha Romana

Depois da vitória contra os Cartagineses, os Romanos que já estavam na península Ibérica decidem efetuar sua conquista que dura aproximadamente 200 anos. Entre 206- 197 Ac. ocorrem revoltas nativas contra o domínio  romano que os obriga a pagarem altos tributos e quem se rebela contra o império romano é escravizado, outro fator que provoca mais revolta a estes povos.

A diferença da colonização do Império Romano aos anteriores consiste na organização dos territórios ocupados, pois Roma promove uma organização ágil e eficiente, pois sabe administrar os territórios conquistados. Roma divide a Hispânia em duas: Hispânia Citerior(próxima a cidade de Roma) e Hispânia Ulterior (afastada da cidade de Roma).

As legiões romanas ocupam o interior do território ibérico , tem nos Celtiberos a sua maior resistência e Roma acaba pôr aniquilar os chefes das tribos. Roma promove o domínio pela força e acordos de paz para depois desfazer-se deles com uma prática chamada de Perfídia (traição).

Roma enfrenta várias revoltas nativas e há que se destacar a dos lusitanos sob comando de Viriato que será morto pela prática da perfídia, pois será traído em uma emboscada a qual se dirigia pôr pensar tratar-se de um acordo de paz para com os romanos. Um episódio interessante na guerra entre Lusitanos e Romanos é o episódio da cidade de Tycca que oscilava entre o domínio romano e Lusitano e acabou aniquilada e destruída pôr sua ambigüidade . Outra revolta que acabou pôr perturbar os romanos se refere a dos  numantinos e a cidade de Nomancia que foi declarada o “terror da república”. A vitória dos romanos sob comando de Cipião sobre os Numantinos fica conhecida como a vitória sobre os mortos, pois na cidade já não existiam mais sobreviventes.

A partir de 133 Ac. já não há mais resistências para a expansão romana e Roma conquista   o centro da Espanha. Tão logo Roma conquistou o território ele organizou as leis para o ordenamento social com os direitos e deveres do cidadão.  A Espanha forneceria ao mundo romano cereais, vinhos e azeite . A península Ibérica se torna tão importante ao mundo romano que de seus  territórios saem 5 imperadores: Galba, Trajano, Adriano, Maximo e Teodósio.

Em 132 Ac. 10 senadores percorrem toda a Espanha e  a dividem em 829 cidades, aldeias e territórios, e a partir desta divisão organizam conforme  suas leis, cada uma destas unidades, com características específicas.

Toda a estrutura administrativa romana era burocratizada o que exige um número elevado de funcionários que colocam o interesse particular sobre os interesses do império (basta procurar um pouco que já começamos a achar costumes que perdurem até os dias atuais em nosso país, até mesmo em sua organização).

A população na época do auge do império romano se aproximava de um número de 30/40 mil habitantes nos chamados municípios, nas cidades; era nas cidades que se vivia o império romano. Na decadência do império romano surgem as vilas e as vidas deixam de ser urbanas para gradativamente se tornarem rural. A decadência romana se dá através da falta de desenvolvimento das técnicas de produção pois todo o sistema era baseado na produção escravista. Aos poucos as cidades vão desaparecendo, surgem as villas, os grandes latifúndios, economia de subsistência e o que alguns irão chamar de surgimento do feudalismo, mas ponto de discussão este (sobre feudalismo na Espanha) que iremos abordar em um outro capítulo.

Um ponto interessante sobre o domínio romano, alem de sua organização, era a comunicação entre os territórios conquistados e  as vias terrestres que só eram usadas para movimentação das tropas e comunicação como um serviço de correios. A tração animal não era usada, pois os  romanos não conheciam as qualheiras ( o peitoral do cavalo).


Fragmento de
moeda da época
do Imperador
Caracala
O comércio era pequeno, pois o governo das aristocracias não se preocupava em gerar riquezas, apenas consumi-las. A educação é aplicada somente a uma elite e os pedagogos eram os gregos. OS romanos permitiam qualquer tipo de celebração religiosa , os   romanos não se preocupavam com isto, eram totalmente cépticos, mas somente até a chegada do cristianismo que será nosso próximo capítulo, pois os romanos permitiam qualquer celebração desde que não ameaçasse a estabilidade da situação.

O império romano iria pôr decair , mas suas influências na Espanha seriam adquiridas para sempre (ou melhor até os dias atuais) seja na sua organização, seja em seus costumes e é exatamente durante o império que chega a península uma de suas mais fortes características (se não for a maior), o Cristianismo que é nosso próximo ponto.

 

III- O Cristianismo na  Península Ibérica

O Cristianismo chega a Espanha com a atividade comercial, provavelmente com apóstolo São Paulo, pois em Carta aos Romanos (Rom. 15,24 e 28), de fevereiro de 58 sobre sua ida á Espanha .. Neste trabalho não vou analisar as duas outras hipóteses, dos Sete Varões Apostólicos e sobre São Thiago de Campostela, pois iria pôr prolongar demais esta monografia. Ao lado da mudança nos terrenos político e econômico, se uniu a grande comoção espiritual que representou a predicação e o triunfo do Cristianismo.

De fato para a Península Ibérica, a civilização romana não alcançou seu verdadeiro valor até que se uniu ao cristianismo. São inseparáveis, desde que, pela igreja é que se tornou possível persistir na Espanha (província), uma grande parte do legado romano. Graças ao império, o Cristianismo se prendeu a esta, para mais tarde se converter no mais decisivo fator espiritual da formação  de sua civilização.

 

3.1 Razões do triunfo do Cristianismo na civilização Ibérica.

Entre  todas as religiões, foi o Cristianismo a que mais se apoderou profundamente do corpo e da alma do Império Romano. Em 50 anos espalhou-se pôr todas as partes, penetrou no exército, no Senado e em todas as classes Sociais.  Conquistou os pobres e ricos , ignorantes e letrados e estabeleceu uma hierarquia sensível, porem, sólida , fundamentada em princípios rigorosamente autoritários. Daí em diante, o Cristianismo poderia lutar, de igual para igual, com o Império.

Pergunta-se a que atribuir esta rápida difusão da mensagem de Cristo durante meio século?

Podemos responder, à bancarrota dos princípios sobre os quais se baseava o mundo grego -latino e que pelo espaço de mais de dois séculos, havia se tronado desprezível e odioso aos olhos das multidões.

A civilização  grego-romana  foi aristocrática e política, havia criado o estado perfeito, esplêndido, justo, culto que deveria ser o órgão das mais altas virtudes do espírito humano, e a desigualdade moral dos homens era o princípio sobre o qual descansava  o mundo antigo.

O Cristianismo pelo contrário, ao afirmar a igualdade moral dos homens, destruía pela raiz todas essas formas aristocráticas da sociedade e do governo. Ao proclamar como o fim da vida e consecução de um ideal de perfeição pessoal, religiosa e moral, declarava carentes de toda importância e perfeição o poder do estado, os quais eram considerados pelos antigos como a maior dos bens. Enquanto o Império se mostrou forte e próspero, enquanto a aristocracia que o governo gozou de um grande prestígio, tais princípios não conseguiram difundir-se. Porem, quando no século III, foi destituída a aristocracia e quando o esforço realizado culminou com os piores ditados da violência, na destruição de todos os princípios de legitimidade, no sistema tributário e arrecadador mais cruel, nas contínuas guerras civis, no permanente  estado de anarquia, as doutrinas cristãs tornaram-se aparentemente as únicas capazes de resolver os enigmas insolúveis do momento.

Desesperados na tentativa de eliminar os terríveis males do Império os homens dispensaram a melhor acolhida a uma doutrina que ensinava-lhes que estes males tinham uma importância mínima e que cada um deles poderia achar pôr si mesmo a perfeição, a felicidade e a salvação.

As numerosas instituições de socorro e de benefícios que o Cristianismo havia fundado, contribuíram em grande parte para seu triunfo. Estas Instituições poderiam levar a cabo sua missão graças, sobretudo aos donativos que os ricos em vida ou em testemunho, dispunham para os fins mencionados. A Igreja ia assim constituído um imenso patrimônio, era um grande instrumento de poder, porque em meio das crises, da miséria, da incerteza geral das populações, acontecidas no século III, as instituições de benefício adquiriram o aspecto de um posto de salvação, de um refúgio de graças em meio a tormenta.

Apesar disto, a nova religião não gozou de favores dos imperadores do período e foi perseguida pôr alguns deles, como Décio, Valério e Deocleciano.

O espírito do Cristianismo da época explica essa desconfiança dos poderes públicos. Com efeito, a nova religião era, para o Império, uma força dissolvente porque predicava que o cristão deveria se afastar  dos cargos públicos das honras e das atividades que poderiam pôr em perigo  a sua fé. Como seu abstencionismo, o Cristianismo escavava as bases do Império  ao privar o governo de homens inteligentes, ilustrados e honrados pertencentes ás classes superiores.

Numerosos cidadãos romanos que poderiam e deveriam, segundo  as antigas doutrinas, assumir  os cargos públicos , preferiam fazer doação de seu patrimônio a igreja e buscar refúgio na religião.

Esta atitude acarretava para o exército um prejuízo maior do que para os serviços civis. No século II o Cristianismo havia afirmado não ser permitido ao homem  o uso de espada, porque “quem com ferro fere será ferido”; ainda em relação a este aspecto, que  “o senhor ao desarmar o Apóstolo Pedro”, havia demonstrado claramente sua vontade de que cada soldado depusesse suas armas .

Quando Deocleciano assumiu  o Império (284) já não eram mais visíveis os elementos de destaque do helenismo e da romanidade e as tentativas  posteriores de reação nada  mais adiantaram. O Antigo Império estava em seu ocaso, totalmente transformado e com o Cristianismo estabelecido como um elemento de nova força  em toda a sua extensão.

Outras razões para o triunfo do Cristianismo.

1º Dava as mulheres plenos poderes de participarem do culto enquanto outras religiões rivais não;
2º perseguição das autoridades romanas. O que fortaleceu enormemente  a coesão do movimento, uma vez que aqueles que permaneciam na fé deviam estar prontos para morrer pôr suas convicções;
3º enquanto as outras religiões giravam em torno de figuras imaginárias e criaturas de lendas grotescas, o Cristianismo possuía como fundador um indivíduo histórico, de personalidade bem definida;
4 º dados seus ensinamentos, exercia grande atração sobre os pobres e oprimidos sem qualquer mistério;
5º incluía o ideal de igualdade  de todos os homens perante Deus, seu fundador e alguns de seus discípulos deste condenaram  o rico e exaltaram os humildes;
6º propagou uma nova moral extraordinariamente democrática, tendo como  virtudes primordiais a brandura, a humildade e o amor.
Obs: Talvez fossem essas qualidades mais capazes de encontrar uma pronta aceitação entre as massas desesperadas, que desde muito tempo haviam perdido a esperança de melhorar a sua condição material.
 Observação Histórica: A medida que se afirmava o êxito do movimento desenvolveu-se a desinteligência dentro de suas fileiras e só na idade média vão sendo fixadas as bases da doutrina cristã.
 

IV- Decadência do Império e consolidação do Cristianismo

No início igreja representava um conjunto de fiéis, com seus testemunhos, surgem várias interpretações da palavra entre o Oriente e o Ocidente e em 325 no conselho de Nicéia  é estabelecido o credo (base do doutrina ), acrescendo-se aí os elementos que a Igreja irá exigir de seus fiéis. Cria-se a “Igreja” propriamente dita que seria responsável pela organização e o Clero que seria responsável pela divulgação. Gradativamente sob influência dos mistérios criados (várias interpretações, o ritual do Cristianismo  alcançou um tal grau de complexidade que o Clero Profissional pareceu tornar-se indispensável.

Em 312 Constantino declara tolerar a religião  católica , porem, após Constantino, Juliano destitui o Cristianismo  para tentar organizar o estado sob um aspecto político, contudo, sua tenativa foi falha, pois pôr mais que se combatesse o Cristianismo, parecia que mais este ganhava força até que Teodósio adota a fé e “civiliza a Cristianização”  .

Teodósio molda o Cristianismo  conforme os interesses do estado e a partir daí surge a maior  dentre todas as instituições, a igreja. Ir contra a igreja era ir contra o próprio estado. A igreja que até dois séculos anteriores era perseguida passa a ser a perseguidora. Quando os bárbaros entram no Império a única instituição que resta  é a Igreja, que perpetuara até aquele momento o Império. A diocese será a sede administrativa da igreja e no ano de 314 no Concílio de Liberis com a reunião de 19 bispos mostra-se como toda a península Ibérica já estava cristianizada (o bispo de Osio (espanhol) que ajudou na redação do credo, foi conselheiro  de Constantino e mostra a ligação da Penísula Ibérica com o Cristianismo.

Dentre todos os pontos o mais importante ressaltar é de como daquele momento em diante o Cristianismo iria fazer parte da vida e da alma do Ibérico, sendo dois elementos indissociáveis, o espanhol e o Cristianismo. Todo modo de organização do Império romano irá se perpetuar nos meios de organização da Igreja. Esta pôr sua vez não possuía um modo específico de organização , pôr isso sua administração se baseia na antiga organização do Império, até mesmo em sua hierarquização. Na época dos grandes descobrimentos esta religião, apesar de que já bem distorcida em seus fundamentos e interpretações, irá se estender até os territórios conquistados e irá de uma certa forma , moldar estes povos que começavam a se formar, pôr isto não é de se estranhar que o Brasil represente  a maior nação católica do Mundo.

 

V-  A Espanha Visigoda

Com a gradativa queda do Império e a sucessiva entrada dos povos chamados bárbaros pelos romanos, os mesmos acabam pôr se infiltrar e conquistar toda Espanha e Eurico chefe dos visigodos acaba pôr se tornar o primeiro rei visigodo da Espanha, não havendo resistência romana. Estabelece duas regiões  de domínio Visigodo, a Espanha e a Gália (Sul da França). Para efetuar , organizar e fazer a manutenção do governo sobre seus territórios cria o 1º código de leis dos visigodos (código de Eurico). Através disto estabelece e organiza a vida dos visigodos conforme o direito  romano.

De 485 a 583, pôr estarem em pequeno número de população (cerca de 200 mil ; 2/3 da Espanha), não conseguem se reunir para eleição de um rei comum, pôr isso, cada  região possuía seu rei instaurando neste período uma época de Anarquia.

Recaredo em 589 percebe que seus conflitos são mais de ordem religiosa do que política e que o Arianismo esta em decadência então convoca os Bispos e nobres e faz com que os visigodos se convertam ao Cristianismo, conseguindo assim apoio da maioria da população. A igreja santifica seu reinado, demonstrando que quem fosse contra seu governo seria contra a Igreja; Uniu-se o poder político ao poder religioso; a partir desta data nenhum rei da Espanha seria rei sem a santificação da Igreja. Era o triunfo da Igreja Católica na Espanha.

Como o domínio  Visigodo apoiou-se nas formas de organização romana, quase pelos mesmos motivos, o mesmo entra em decadência e povos escravizados que eram cristãos começam a questionar-se o porque que a igreja de certa forma apoiava a escravidão daquela época, pois de nada como ação contrária a   esta  situação realizava . Pesados impostos recaem sobre a força de produtiva  porque a igreja também começava a cobrar seus direitos. Nesta mesma época começa a perseguição dos judeus dando início aquilo que chamo pôr câncer da intolerância religiosa que perduraria até o Séc. XIX. Os judeus constituíam uma força contrária aos poderes religiosos e políticos.

A Espanha Visigoda entra em total decadência e começa a se dar rumos ao Feudalismo, estando cada vez mais próximo desta vertente do restante europeu, principalmente na França. Em 711 começa a invasão muçulmana vinda da África e que rapidamente irá tomar toda a Espanha, pois o povo cansado da exploração aceita , conforme dito popular, de braços abertos, pois o povo  que aceita a dominação não é tributado.

Um último  parecer sobre a Espanha Visigoda é sobre os Historiadores romanistas que dizem que a Espanha foi conquistada pelos Germanos , porem não foi Germanizada. O império decadente é assumido  pelos Visigodos , Império em fase de transição ( Feudalismo) e quando chegam apenas adaptam-se a esta transição sem poder interferir ou mudá-la (no séc. IV já quase não havia  comércio no Império romano do Ocidente). Os Visigodos se vem envolvidos no processo.

 

VI- O domínio Muçulmano

O domínio muçulmano começa em 711 e só termina em 1492 com a guerra de reconquista dos Hispanos-godos. Tarik é o responsável pela conquista muçulmana na Espanha , sob o comando do califado de Damasco. O estreito de Gibraltar  possui este nome devido a Tarik ( Geb al Tarik Montanha de Tarik).. Em 912 é criado o califado de Córdoba (Espanha) que possui uma enorme riqueza e é muito próspero, tanto que depois da morte do último califa . o poder irá se fragmentar , pois cada um iria ambicionar uma parte desta riqueza e prosperidade que decretará o fim do califado de Córdoba. Começa aí o reino de Taifas (domínios provinciais), cada um com seu governante tendo para si o domínio político e econômico da região.

A grande vantagem dos  árabes era que difundiam em seu Império tudo  que aprendiam  com outros povos, bastando citar que enquanto a Europa vivia quase  obscura  em seu feudalismo, a Espanha muçulmana experimentava o progresso, a ciência, a medicina,etc...

Em 1268 durante a guerra de reconquista  os cristãos tomam a capital da Espanha muçulmana , Toledo,  e restava  aos muçulmanos  seu último reduto, o reino de Granada . A guerra de reconquista é um outro capítulo que veremos a parte , pois dela vem o sentido das muitas características dos Ibéricos durante as grandes navegações e a mesma norteia a organização de vários territórios.
Mouro invadindo a Sicília.
Afresco do séc XIII

Não houve  como escapar da discussão sobre a tema  da Espanha Feudalista ou não ? dedico um capítulo pequeno a esta discussão pois  nós termos desembaraçado de nossas vistas este caráter econômico, permite-nos a compreensão  de muitos outros assuntos e discussões e não há como desvincular a vida econômica da vida social a qual é base de nossa monografia.

 

VII- A Espanha Feudal ou Capitalista ?

A controvérsia quanto ao fato da América Latina possuir características feudais ou capitalistas poderá parecer acadêmica mas durante muitos anos , o movimento reformista baseou sua estratégia política na seguinte proposição:

A Espanha era um país feudal.

A principal tese do movimento reformista consiste em definir a Espanha como um país feudal, caracterização que ganhou credibilidade graças a sua repetida formulação. Os historiadores liberais do século XIX fabricaram uma imagem falsa da Espanha , uma avaliação que servia mais á política imediata do império britânico do que a História. O conceito de Espanha Feudal adquiriu uma significação especial no Século XX e seus porta vozes são os sociólogos e políticos pseudo-esquerdistas  que confundem atraso econômico com feudalismo ou latifúndio com feudalismo.

Esclareçamos esses conceitos . Quais foram as características gerais dos sistemas feudais (feudais pois o feudalismo não existiu com uma forma única )? O feudalismo era um sistema agrário baseado na troca  sem salários, pois os serviços eram pagos com terra, alojamento e alimentos . Sua estrutura social estava baseada em relações de servidão Vassalagem, com castigo para aqueles que abandonassem o feudo, etc...

No plano político era caracterizado pôr uma monarquia débil e uma nobreza independente . Este regime fixou suas primeiras raízes no final do Império Romano, chegou a sua culminância entre os Séculos IX e XII e declinou na Baixa Idade Média  . O que minou a estrutura feudal foi o choque entre a cultura muçulmana e a européia ao longo de sete séculos. Os turcos, os árabes e os judeus invadiram o “Mare Nostrum” ,  criaram fábricas e venderam suas mercadorias nos feudos. A classe média cresceu. Uma nova classe social, a burguesia comercial surgiu nos arredores dos castelos e os servos começaram a transferir-se do campo para a cidade . Os banqueiros venezianos e bálticos foram modificando paulatinamente a vida econômica e social da Idade Média . Uma economia monetária.

A Península Ibérica encontrava-se na vanguarda desse processo. Portugal em 1381, presenciou a primeira revolução burguesa, quatro séculos antes da França. A burguesia comercial de Lisboa, vinculada ao comércio com Flandres, eliminou os senhores feudais do poder. O fracasso final da revolução demonstrou que as condições não estavam maduras  para o triunfo da burguesia mas a ascensão desta refletiu-se no comércio com o Atlântico Norte, nos planos de D. Henrique, o navegador e sobretudo nos descobrimentos do século XV.

 Pôr motivos diferentes a Espanha tinha menos características feudais do que outros países europeus :

1. A prolongada invasão muçulmana teve efeitos específicos sobre a Espanha: Interrompeu, ou melhor, modificou o curso do desenvolvimento feudal que havia surgido na Espanha visigoda. Os árabes infiltraram-se na Europa central e meridional em um ritmo impressionante, inclusive para historiadores acostumados a ver a história do ponto de vista europeu. A civilização muçulmana foi absorvida pela sociedade espanhola e deu um estímulo extraordinário ao comércio, principalmente sob Abderraman III, no século X. Enquanto o resto da Europa vivia sob um regime de economia natural, a Espanha realizava um comércio relativamente ativo. Ao árabes promoveram o progresso agrícola e industrial. Introduziram o açúcar, o algodão e a criação do bicho da seda, base da manufatura têxtil. O segredo  do renascimento industrial na Espanha e Sicília sob os árabes foi a construção de canais. Os progressos da agricultura espanhola podem ser percebidos no sistema de irrigação , nas obras hidráulicas de Valência,  Andaluzia e Zaragoza (25.000 acres irrigados) e na atenção com que a trataram os homens de ciências árabes.

2. A invasão árabe obrigou a monarquia e a nobreza espanholas a revisar o sistema sócio-econômico. Nas regiões mais afetadas pela guerra tais como Leão e Castela, surgiu uma população camponesa relativamente livre que negou-se a reconhecer os antigos vínculos feudais. Como afirmou Smith “Durante  mais de um século, a fronteira entre a Espanha cristã  e muçulmana consistiu em uma ampla faixa de terra , desabitada ou pouco povoada que só poderia ser colonizada se as terras que a formavam fossem oferecidas a preços  vantajosos”. Neste território o colono típico foi, durante os séculos IX e X, o camponês livre que possuía um pequeno terreno. A situação destes camponeses  mudou durante os séculos posteriores, quando os latifundiários organizaram-se mas não caiu no tipo de servidão que existia em outros países europeus. Alem disso, nas povoações onde os camponeses comprava a proteção do senhor, forma estabelecidos vínculos de vassalagem menos rígidos que os feudalismos francês ou do alemão. O feudalismo espanhol foi de um tipo sui-generis.

3. A guerra contra os árabes impediu a consolidação dos senhores feudais e fortaleceu a tendência centralizadora dos reis. Estes tomaram em suas mãos o anárquico comando militar dos nobres . Seria exagero afirmar que a Espanha da reconquista era um Estado Monárquico e centralizado no sentido moderno, mas não se pode negar que os reis exerceram um controle mais ou menos rigoroso sobre os senhores feudais ou melhor falando, grandes proprietário de terras. Os planos posteriores de consolidação feudal foram  freados pelos reis católicos que converteram os nobres em cortesãos dependentes do trono.

4. Do século XIV em diante uma economia pastoril conhecida como Mesta (associação de criadores de carneiros)  desenvolveu-se ; era uma forma nômade de criação de ovelhas que proporcionava lã aos centros têxteis dos Países Baixos. Apesar   de sua aparência, este sistema de criação de ovelhas não era feudal pois a  lã produzida  era enviada ao mercado internacional. Das características da Mesta o emprego de pouca mão de obra e a utilização de enormes extensões de terra para criar ovelhas produtoras de lã provocaram a migração dos camponeses  que haviam sido expulsos do campo, para as cidades, o que debilitou a servidão. O comércio deste tipo de lã era altamente rentável, o que explica a expulsão dos camponeses do campo. As vastas extensões de terra não eram necessariamente feudais, a principal característica do feudalismo não é a extensão de terra mas o sistema de produção agrária, com uma economia natural de troca, sem mercados e sem o uso do dinheiro, da moeda, símbolo da mercadoria e não a mercadoria em si mesma.

5. A prova mais conclusiva de que a Espanha avançava em direção a um  capitalismo incipiente, consiste na ascensão de uma nova classe social: a burguesia. O capital comercial, acumulado pelos mercadores que comerciavam com o  Atlântico Norte , Itália, e Provença , começou a financiar  empresas manufatureiras . Reis e nobres, endividados devido a empréstimos concedidos pela florescente burguesia, viram-se obrigados a permitir sua participação, ainda que em pequena escala, nos assuntos de estado. Muitos anos antes das classes médias francesa e inglesa desempenharam um papel político importante , a burguesia espanhola foi reconhecida pelas cortes. No século XI, apareceram municípios e já no século XIV as cidades constituíam a parte mais importante das cortes espanholas . E a literatura espanhola do período reflete com mais vigor que os documentos oficiais a influência cultural da classe média em ascensão.

Enfim , a Espanha como um todo apesar de possuir alguma característica que possa nos submeter a uma interpretação como característica feudal, mostra-se como uma das precursoras de um movimento mercantil , mas não podemos deixar de destacar dois pontos importantíssimos que apesar  da centralização precoce do poder, o poderio da Igreja é ainda muito grande e mesmo com o declínio deste poder na Europa, em nenhum país europeu este poder será tão fortemente consolidado como em Espanha, bastando relembrar a força da Igreja durante a colonização da América e de que apesar desta Burguesia nascente, esta mesmo nasce em meios a valores nobres e de corte , o que irá influenciar em muito o desenvolvimento desta burguesia , bastando citar a falta de um pensamento de geração de riquezas dos metais preciosos adquiridos da América o que irá  submeter  a Espanha e Portugal há um enorme atraso com relação a países que desenvolvem esta consciência de geração de riquezas durante o período colonial Americano e como maior exemplo desta mentalidade cabe a Inglaterra.

 

VIII- A guerra de Reconquista

A fase de reconquista dura 7 séculos. Os muçulmanos seriam expulsos politicamente porem continuaram em Portugal e Espanha. Os Portugueses e Espanhóis são produtos desse  período, na luta contra os muçulmanos. Da simbiose de raças surge o hispânico, deste processo de miscigenação.

A guerra de reconquista é fundamental para conseguirmos entender este Ibérico a que quero chegar em plena época dos descobrimentos. A motivação pela guerra de reconquista ficava clara durante as cruzadas que partiam da Europa rumo ao Oriente. É lógico que o cunho religioso realmente existia , mas as motivações econômicas eram maiores ainda, até porque desvincular a população da época da religião católica é quase que extremamente impossível, pois como pudemos perceber durante o desenvolver deste trabalho, a religião pertencia a alma do Espanhol. A guerra de Reconquista é motivada em muito pela religião, mas significava ao mesmo tempo a retomada de um território rico e que se demonstrava extremamente próspero durante o domínio muçulmano.

Durante a guerra de reconquista , para efetuar a ocupação dos territórios , os mesmos que eram reconquistados dos muçulmanos eram doados a camponeses que pôr sua vez acabavam pôr ocupar a propriedade e usá-las  como meio de produção.


Conversão forçada de muçulmanas
após a tomada de Granada
O principal fator que quero destacar durante a guerra de reconquista é que pessoas comuns irão lutar ao lado de nobres e  assim  sendo acabam pôr adquirir os valores desta nobreza para si e no fundo todo Ibérico acaba pôr ser um pequeno nobre e principalmente um credor da bondade divina, pois  estavam lutando para novamente “levarem” a fé a todos os povos e reconquistar a terra dos infiéis e mais a frente veremos como esta característica de credor  de Deus irá dar margem a atos que a nós pareciam incompreensíveis  ,como o fato de agirem tão diferentemente daquilo que pregam.

Os judeus e muçulmanos serão expulsos e junto com eles toda uma força de trabalho e mentalidade de desenvolvimento econômico que já se apresentava tão presente a Península Ibérica, anteriormente a reconquista.

O reino de Portugal se forma durante a reconquista e com ele seu cunho religioso, mas todas as heranças deixadas pelos muçulmanos não serão abandonadas , principalmente os avanços técnicos marítimos tão difundidos na escola de Sagres. A Portugal restava para seu avanço ir de frente contra Espanha ou  romper as barreiras marítimas do Atlântico e se lançar em uma das maiores epopéias da Humanidade durante as grandes navegações e aqui é que depois de dar todas estas características é que traço um perfil do Ibérico profundamente religioso e nobre, com valores que não possuem um cunho lógico mas que somente um certo grau de religiosidade unido a certo misticismo e medo de sua própria sociedade,( pois a estrutura de sua mentalidade e comportamento residia na compreensão daquilo que o próximo poderia achar ou julgar) permite-nos compreender.
 

IX- O Ibérico durante o início das grandes conquistas e como é sua maneira de ver e intervir no meio que acaba de descobrir. Sua Mentalidade e seus Costumes. O Ibérico Conquistador


“O complexo de procedimentos e de modo de ação que constituem a vida diária de cada indivíduo ou de cada grupo humano é inseparável, quer das estruturas sociais em que se insere, quer das concepções e das idéias que se  lhe impõem e que representam como que a marca de uma época. ”

Marcelin Defourneaux

Profundamente religioso e pôr certa forma nobre, o Ibérico terá valores que associado a sua riqueza devido as conquistas, irão despertar a ira e a aversão do restante europeu, que o próprio Ibérico admira. A análise deste contexto não é tão simples e nem de uma certa forma fácil, pois devemos abandonar toda a nossa consciência e mentalidade contemporânea para podermos chegar a uma análise que realmente nos permita traçar um perfil deste Ibérico do final do século XV, pois  a forma como agem ou pensam a nosso modo de ver e viver, pode nos remeter á uma análise de valores  comuns a nossa época e não a relatada na monografia.


A caravela, o ícone do
expansionismo português
Teremos que analisar principalmente dois valores sociais do Ibérico desta época para em um segundo momento, conciliar os dois e termos uma idéia do caráter social, ideológico e até mesmo econômico  desta sociedade na época, os valores da nobreza e da religiosidade, pois tanto o português e o espanhol  da época fazem questão de demonstrar estes valores, até como uma forma de auto afirmação de soberania sobre os demais estados europeus.


9.1- O valor da Nobreza.

Analisando a guerra de reconquista, que conforme Defaourneaux,  forjou a Espanha é que podemos entender como se forma a sociedade e a forma de agir e pensar da mesma. Durante a luta contra os Mouros, vários indivíduos  livres porem sem propriedades, lutaram ao lado dos cavaleiros nobres e Ibéricos bem nascidos, nobres pôr “natureza” , que possuíam valores e costumes bem definidos. Ao ocorrer esta aproximação, o indivíduo até agora, um mero servidor da coroa , acaba pôr adquirir para si os valores desta nobreza. Todos acabam pôr se sentir um nobre  ou buscam um meio para atingir o objetivo do reconhecimento (esta é uma palavra chave) de sua nobreza, mesmo que não se tratando  de um nobre pôr nascimento (basta citarmos o desejo dos reinóis ao virem para o Brasil, para acumulação de riquezas , porem não para gerar mais riquezas,  apenas para aquisição do título de nobreza para assim desfrutar das comodidades  proporcionadas pela mesma).

Não importaria o valor de suas riquezas ,  se não era um nobre pôr nascimento, era um nobre pôr ser espanhol. Juntamente com o valor da nobreza, surge o valor da honra e este sim nos permite uma avaliação mais profunda  e um maior entendimento do Ibérico, pois este valor associado ao valor cristão é que irão moldar profundamente este Ibérico .


Representação clássica da retomada da
independência de Portugal após o período
da chamada "União Ibérica"
O valor da nobreza irá afetar profundamente o desenvolvimento  econômico da Península ibérica, pois, apesar das riquezas ganhas na América, esta riqueza somente surge no intuito de satisfazer esta nobreza e não há a preocupação de geração da mais riquezas, apenas o aproveitamento desta, o que ode ser comprovado com a frase de Marques de Pombal pois  afirmou que , Portugal  tornava-se colônia da Inglaterra sem a posse do território e a comparação de Defaourneaux  da Espanha com o sistema digestivo , tratando-se a mesma da boca que apenas mastiga e sente o gosto das riquezas porem não é a que faz uso da mesma riqueza.


Não importaria o valor de suas riquezas ,  se não era um nobre pôr nascimento, era um nobre pôr ser espanhol. Juntamente com o valor da nobreza, surge o valor da honra e este sim nos permite uma avaliação mais profunda  e um maior entendimento do Ibérico, pois este valor associado ao valor cristão é que irão moldar profundamente este Ibérico . O valor da nobreza irá afetar profundamente o desenvolvimento  econômico da Península ibérica, pois, apesar das riquezas ganhas na América, esta riqueza somente surge no intuito de satisfazer esta nobreza e não há a preocupação de geração da mais riquezas, apenas o aproveitamento desta, o que ode ser comprovado com a frase de Marques de Pombal pois  afirmou que , Portugal  tornava-se colônia da Inglaterra sem a posse do território e a comparação de Defaourneaux  da Espanha com o sistema digestivo , tratando-se a mesma da boca que apenas mastiga e sente o gosto das riquezas porem não é a que faz uso da mesma riqueza.

Norbert Elias ,  ao descrever a sociedade de cortes nos permite uma análise de como este valor nobre poderia interferir de uma  forma econômica na formação e desenvolvimento desta  sociedade, bastando citar uma frase na qual , após explicar que o sentido da nobreza residia na forma de ser avaliado pelos demais que o cercam, ele cita : “.. O único meio de pôr em evidência uma posição social consiste em  afirmá-la pela maneira de se apresentar em  sociedade. Essa afirmação torna-se uma necessidade absoluta. Se o dinheiro falta, a posição social e , portanto, a existência social do seu titular ficam altamente comprometidas.” Fica desta forma claro de como o valor nobre pode intervir nesta sociedade.

 

9.2-  A Religiosidade;  O “ser” cristão para o Ibérico.

Como a religião acaba pôr se tornar algo imposto e não um valor adquirido, a religiosidade do Ibérico acaba pôr se tornar de certa forma, algo superficial,  tendo como demonstração mais alta de sua fé o juízo que os próximos faziam de sua religião do que sua própria consciência ou seus atos.  Apesar dos abusos e de sua hipocrisia, visto aos olhos dos outros, ao Ibérico é muito mais importante demonstrar sua religião do que ser católico. A intolerância religiosa se fará presente logo após a guerra de reconquista, pois já sem mouros a serem expulsos , começam as perseguições contra os protestantes e  judeus .

O ibérico começa a ganhar uma forma caricatural na Europa . todo comportamento social esta associado a fé católica e o ato social mais ainda e apesar da riqueza da América ser em tão alto valor, poucos serão aqueles  que poderão desfrutar desta mesma riqueza e como a situação econômica vai se agravando a religiosidade vai se tornando mais forte ainda . A igreja acaba se tornando institucionalizada e pôr conseguinte se torna mais forte que o estado; ela acaba pôr promover meios para forçar o seu domínio (inclusive a inquisição) e a vida monástica se torna um fator social de grandes proporções e milhares de filhos e filhas serão enviados aos monastérios  e conventos. Grandes são os números de relatos de viajantes da época que descrevem como absurdo o número de instituições religiosas na  Península Ibérica da época .

Uma tentativa de se explicar o porque do Ibérico cometer atos tão diferentes ou tão fora da lógica de sua religião, consiste no ibérico , após a Reconquista se achar credor da  bondade divina, pois como um povo que lutou tanto para deus não tem algo creditado para com o mesmo ? Outra tentativa  cita a facilidade do perdão da Igreja que apesar da “quantidade de atos pecaminosos e inescrúpulos” , bastaria o pecador se confessar e pedir perdão a bondade divina que o mesmo lhe concederia, ou até mesmo aos não confessantes bastaria a extrema-unção que o absolveria de  seus pecados em vida.

Estes dados aliados a criação da Inquisição demonstram o poder da Igreja na Península Ibérica e de como a superficialidade religiosa era algo marcante a vida do Ibérico. Mais tarde, com o crescimento do poder dos reis, os mesmos acabam pôr tomar de certa forma o controle da Instituição para si, pois tamanho poder poderia representar um perigo a sua soberania.

 

9.3-  O valor da Honra.
 
 

“Nenhum homem é honrado pôr si  mesmo É de outrem que ele tira a sua honra Ser homem virtuoso e cheio de méritos Não é ser honrado. Donde se conclui Que a honra reside n’outrem e não em si mesmo. ”

Las comendadoras de Córdoba
Lope de Vega

A honra estava para os Ibéricos como a fatalidade estava para os Gregos. O homem só se tornava honrado quando alguém lhe conferia a honra. Deixava de ser um valor individual para se tornar um valor social. A aparência se tornava muito importante, pois a honra consistia naquilo que os outros pensariam de você e não aquilo que realmente você fosse. A nobreza se dizia honrada pelas virtudes heróicas de defesa. A honra mergulha as raízes na tradição medieval e prende-se à concepção da existência que em todo ocidente cristão, propõe como ideal á classe nobre o exercício das virtudes heróicas e cavalheirescas.

Um homem desonrado estaria desgraçado e desonra maior seria a aquele que não fosse cristão. A honra se lava com a morte do responsável pôr sua desonra. Ao valor da honra estaria ligado o valor da pureza de sangue; aqueles que não seriam descendentes de Cristãos , porem descendentes de judeus ou mouros. Estes eram descriminados pelo restante da população até uma determinada geração de sua família e os que se convertessem eram chamados de “cristãos novos, ” porem, com a desonra de seu sangue marcada pôr um tempo considerável.

Assistimos neste sentido uma hipertrofia do valor da honra, que define um bom número de relações dentro desta sociedade que associada a religiosidade cria o valor da honra de ser cristão. Explicasse assim o sentido das perseguições dos cristãos novos e sua eventual discriminação.

 

X- Conclusão

Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, faz um traçado de características do velho mundo e influências do mesmo na América (Brasil), e deixou-me muito satisfeito pôr encontrar pontos a qual me referi e faziam sentido com seu livro. Tentar entender a consciência que permitia ou que impulsionava  esta civilização tão pioneira mas que se encontrava  presa a antigos valores e que, apesar dos novos descobrimentos a maneira de se apropriar e aproveitar-se deste novo mundo é ainda preso a antigas concepções, e somente assim podemos traçar um perfil entre civilizadores e civilizados.

Perceber nesta dicotomia  as heranças coloniais e formação da nova sociedade é fundamental para conseguirmos compreender o funcionamento de nossa própria sociedade e valores que pôr vezes nos parecem tão adversos mas que pertencem a nossas raízes e se fazem tão presente em nossa vida e convívio.

 

Bibliografia

CUNHA, D. Luiz da - Testamento Político. 1ed. São Paulo: Alfa-Omega, 1976.
DEFOURNEAUX, Marcelin - A vida quotidiana em Espanha no século de ouro.  1ed., Lisboa: Livros do Brasil, (não consta data de impressão).
ELIAS, Norbert - A sociedade de corte. 1ed. Lisboa: Imprensa Universitária - Estampa, 1987.
HOLANDA, Sérgio Buarque de - Raízes do Brasil.  26ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MORSE, Richard M. - O Espelho de Próspero: cultura e idéias nas Américas.  1ed., São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
SARAIVA, José Hermano - História de Portugal.  17ed. Lisboa: Alfa, 1995.


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Raízes do Brasil, de
Sérgio Buarque de Holanda
História de Portugal, de
José Hermano Saraiva
História concisa de Portugal, de
José Hermano Saraiva
A sociedade de Corte, de
Norbert Elias
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