Pensando sobre a África
Ynaê Lopes dos Santos
ynae@klepsidra.net
2º Ano - História/USP
africa.doc - 45KB

Não podemos compreender o tráfico negreiro para o Brasil, e até mesmo a nossa história, sem olharmos primeiramente para a África. Infelizmente quando se fala em África, as pessoas logo imaginam uma selva repleta de leões, hipopótamos, elefantes e tarzans, ou então homens "vestindo tanguinhas" ávidos por carne humana. Dificilmente o Ocidente consegue enxergar a África fora desse estereótipo. No entanto, as coisas não são bem assim: o continente africano possui uma história vastíssima, extremamente complexa e de fundamental importância para a humanidade. Pena que são poucos os que conseguem transpor as "barreiras do ocidentalismo", buscando compreender a África dentro das suas particularidades.
 

Este desenho esquemático
mostrando um navio negreiro
foi utilizado como propaganda
pelos abolicionistas
O intuito deste trabalho não é fazer um estudo minucioso da História africana (tema para toda uma vida), mas sim tentar entender que parte dessa história se enquadra com a questão do tráfico negreiro para o Novo Mundo, e mais especificamente para o Brasil, tendo em vista que nós fomos a colônia que mais recebeu escravos africanos em toda a história. Nesse movimento, buscaremos também as raízes da escravidão, e justamente por isso não vamos nos reter num determinado reino, pois queremos ter uma visão razoavelmente mais geral.

Como já foi dito anteriormente, uma das questões que surgiram no decorrer do nosso trabalho foi: por que a África foi a "exportadora de almas" para o Novo Mundo? Para responder tal questão, nada mais lógico do que estudar, mesmo que de uma forma genérica, o continente africano durante esse período. Entretanto, para que esse estudo tenha um mínimo de coerência, é preciso ter em vista duas coisas. A primeira é que a África comporta uma quantidade étnica enorme, ou seja, o fato da sua população ser majoritariamente negra não a torna homogênea no que diz respeito a cultura, línguas, costumes etc. Não podemos nos esquecer de que a África é um continente, e não um país ou uma nação. A segunda é que estaremos lidando com valores que fogem dos padrões ocidentais aos quais estamos acostumados, o que dificulta ainda mais o nosso estudo. É muito importante que ponhamos nossos preconceitos de lado se quisermos compreender um pouco sobre esse continente.
 

ALGUNS INTERCÂMBIOS ENTRE A ÁFRICA E A EUROPA

Mesmo antes das Grandes Navegações européias, o continente africano já era conhecido pelos europeus, principalmente a parte que hoje chamamos de "África Branca". Os primeiros contatos entre cristãos e negros ocorreram por intermédio dos muçulmanos, que realizavam trocas de mercancia entre os dois "povos". Esse papel de intermediário assumido pelos muçulmanos deveu-se principalmente à grande expansão árabe não só para a África, como também para a região mediterrânea da Europa e Oriente. Depois da morte de Maomet em 632, os muçulmanos iniciaram uma espécie de "Guerra Santa" em quase todo o norte e oeste do continente africano, tornando-se os grandes senhores da região. 

Dominaram durante algum tempo boa parte do Mediterrâneo, detendo em suas mãos as principais rotas comerciais que ligavam Europa, África e Ásia. Junto com essa "guerra", os muçulmanos iriam estabelecer comércio entre todas as partes onde tinha contato.
 

Neste mapa antigo, vemos representados
a África, a Europa e a Ásia
"Eles iriam ser o elo que atravessava o deserto: as trocas aumentaram sem cessar sob a influência religiosa, cultural e política do Magrebe, influência tanto mais decisiva quanto foi a única a exercer-se durante séculos; ela favoreceu a formação progressiva de uma elite negra de letrados muçulmanos, capazes de adaptarem às sociedades agrícolas preexistentes um sistema político e comercial eficaz, organizado segundo o modelo árabe, que tornou possível a grandeza dos impérios do Sudão até a chegada dos portugueses." (Vidrovitch, 1965: 33,34)

Através dos muçulmanos a zona sub-saariana entraria indiretamente em contato com a Europa. Reinos como o Sudão, Mali, Songai e Tombuctu terão suas mercadorias circulando não só nos mercados africanos de Sidjilamasa ou Ualata (de extrema importância para a economia desses reinos), mas em todo o Mediterrâneo. 

Mapa representando as rotas
utilizadas pelos comerciantes muçulmanos
O principal elemento que possibilitou o início desse intercâmbio por parte dos muçulmanos foi a descoberta de ouro em alguma regiões da África já conquistadas por eles (como o Sudão). O metal explorado se transformava em matéria-prima para a moeda em circulação. A partir do século X, a Europa entra efetivamente no comércio com os muçulmanos - uma das provas mais importantes é a quantidade de ouro africano que passa a circular entre os europeus nesse momento - e desde então o seu comércio com o continente se intensifica cada vez mais. Agora já não era só o ouro que interessava aos europeus: o comércio de escravos africanos começa a aparecer e se mostrar altamente lucrativo. No entanto, com o passar do tempo, os europeus começaram a realizar uma forte pressão militar na região mediterrânea, se tornando fortes concorrentes dos muçulmanos ao buscar a obtenção de uma balança comercial mais vantajosa possível. Além disso, a "sede de ouro" passa a motivar os europeus para a conquista e dominação do mundo, que se iniciaria com a expansão marítima.
Mapa das principais rotas
comerciais terrestres e
marítimas na África
Com o advento das navegações, que têm Portugal como o seu pioneiro, a África Negra que até então mantinha contato com o resto do mundo por meio dos muçulmanos, tem seu isolamento rompido e passa a constituir uma importante praça de trocas, onde o principal produto exportado eram os africanos. É importante lembrar que essas trocas que consistiam principalmente em ferro, pano, aguardente, cavalos e armas acabaram se tornando de extrema importância para o continente africano. Desde 1440, tal comércio de almas já era visto como bem lucrativo para os portugueses, sendo que em 1448 se estabelece em Arguin um "comércio regular" que consistia na troca de bens contra humanos. Em 1474, Portugal tem o monopólio sobre o tráfico de escravos. (Devisse, 1988)

Como acabamos de ver, antes mesmo da descoberta do Novo Mundo a escravidão africana já era muito conhecida e utilizada na Europa, bem como já se encontrava vinculada à expectativa de se obter uma produção em larga escala de certas colheitas úteis.

Os africanos se constituíram na mão-de-obra que possibilitaria tal esforço. Exemplo disso é o que aconteceu na Ilha de São Tomé, colonizada pelos portugueses e que se tornou um laboratório tropical, servindo, para os escravos, como adaptação ao meio ambiente tropical na produção escravista de açúcar (Devisse, 1988). No entanto, a escravidão africana e o tráfico negreiro vão ganhar, com a colonização da América, dimensão nunca vista antes. E é justamente com essa dimensão que iremos trabalhar.
 


ÁFRICA POR DENTRO

Primeiramente, vamos ver como se comportava o continente africano, antes da chegada efetiva dos europeus. Sabemos que boa parte da região africana com a qual iremos trabalhar já conhecia o valor mercantil do escravo. No entanto, é importante irmos mais a fundo na questão da escravidão na África. Segundo Claude Meillassoux, no seu livro Antropologia da Escravidão, a escravidão aparece na África como a antítese das relações de parentesco. Para explicar tal antítese, o autor parte da idéia de constituição da comunidade doméstica.
 

A comunidade doméstica tinha dois elementos identificadores: de um lado o parente, de outro o estranho. Os parentes eram homens livres que nasceram e se desenvolveram conjutamente, e que estão inseridos na sociedade tanto como produtores como reprodutores; as suas relações de filiação se estabelecem quando ocorre uma transferencia do subproduto de um indivíduo para os mais velhos ou seus descendentes, ou seja: a produtividade determina o parentesco, pois é ela quem vai garantir a existência física e renovação das gerações. (Meillassoux, 1986: p 19,20).Essa relação é tão forte dentro da comunidade doméstica que, em algumas regiões, quem não se enquadrar nessa relação dupla de produção e reprodução pode ser vendido como escravo.

Já os estranhos da comunidade doméstica são aqueles que não se desenvolveram no meio social em que se encontram, dentro dos laços sociais e econômicos que relacionam os homens livres. Entretanto, os estranhos podem, em alguns casos, se inserir nessa "nova sociedade". Nesse caso, a mulher estranha tem vantagem em relação ao homem graças ao fato de possibilitar um aumento na capacidade reprodutora da sociedade em que é inserida; o homem estranho normalmente é aceito quando se observa algum desequilíbrio de sexos na comunidade. 


Este mapa mostra as áreas de atuação das
diferentes etnias e reinos da África Livre

No entanto, mesmo sendo aceito em determinadas situações, a progenitura de uma união com um estranho será enfraquecida, pois pertence apenas a uma linhagem, ao passo que somente as duas linhagens se tornam o elemento essencial de civilização (Meillassoux, 1986: p25)

Entretanto, muitas vezes a sociedade não tem condições de assimilar o estranho e, quando isso acontece, esse se encontra totalmente à margem social, tornando se suscetível à exploração ou ao sacrifício. Sem nenhuma relação de parentesco, muitas vezes só produzindo para a sociedade, o estranho se encontra praticamente caracterizado como um escravo, ou seja: ele é incapaz de se reproduzir socialmente, e por isso mesmo se constitui relações de parentesco. No entanto, não podemos confundir a situação na qual o estranho se encontra com a escravidão, buscando nessa relação a origem do escravismo africano. Afinal, "só há escravidão, como modo de exploração, quando essa constitui uma classe distinta de indivíduos que se renovam da mesma forma institucional" (Meillassoux, 1986: p 28). Assim sendo, na economia doméstica a escravidão se apresenta como antítese das relações parentais, só se podendo pensar em escravidão como um modo de exploração a partir do contato de diferentes civilizações.

Como vimos anteriormente, a África é composta por diferentes civilizações e o confronto entre elas é quase "natural". Tal fenômeno ocorre principalmente na zona sahelo-sudanesa (onde Meillassoux irá se concentrar), na qual as guerras entre os diferentes povos, muitas vezes se constituem como a forma que os mesmos têm para sobreviver. Dentro deste contexto, iremos observar a formação de Estados militares que objetivavam principalmente a obtenção de escravos através da exploração das populações que perdiam as guerras. E tais guerras de sobrevivência ganharam, com o comércio e o tráfico de escravos uma dimensão praticamente inimaginável que estudaremos mais adiante.

Produto de guerras, o escravo se constituía como um estranho que em muitas populações africanas é entendido como o oposto de civilizado. O primeiro fator para tal estraneidade era a sua longínqua origem: o escravo dificilmente era um vizinho do dominador. Outro componente que caracteriza essa estraneidade é a forma extremamente violenta que se estabelecia entre as sociedades produtoras e escravagistas, dificultando ainda mais as relações de senhor e do escravo. Outra característica praticamente inerente ao estado de escravo é a sua incapacidade de reprodução não apenas social como também natural, o que Claude Meillassoux chamará de "esterilidade". Não havia a menor preocupação por parte dos senhores em promover casamento entre seus escravos visando sua procriação, pois a perpetuação das incursões escravistas se incumbiam de tal reprodução, além de serem muito mais vantajosas economicamente. O escravo era uma espécie de "potencial-trabalho, que ao ser alimentado se transformava em energia-trabalho"(Meillassoux, 1986). Dessa forma, era muito mais interessante para o senhor se aproveitar ao máximo da potencialidade transformada em energia de trabalho do seu escravo - o que presumia a máxima exploração do mesmo - impossibilitando assim a sua procriação. Além disso, a condição quase que profissional assumida pelos Estados guerreiros garantia para os senhores a possibilidade de renovar seu "exercito escravo" assim que fosse necessário.
 

Captura de negros destinados à escravidão,
na região do Congo
No entanto, a transformação do ser humano - característica que muitas vezes esquecemos quando falamos em escravidão - para essa dicotomia potencial-trabalho e energia-trabalho que caracteriza o escravo não era assim instantânea. O escravo só se torna escravo quando, depois de capturado, é inserido na sociedade em seu estado de estranho, onde todas as suas relações e laços de parentesco estavam rompidos, caracterizando a sua dessocialização. Quando se encontrava fora do seu meio de origem, o cativo passava por uma "morte social", como se tivesse sido vencido e morto em combate. Em seguida, o cativo era renegado na sociedade escravista, sendo considerado um "não nascido" e perdendo todos os seus direitos.
O trabalho feminino estava
sempre presente
Já dentro da sociedade que o empregava, o escravo não tinha a possibilidade de reconstruir seus laços e suas relações parentais se caracterizando como um despersonalizado: não tinha linhagem materna ou paterna (o que lhe atribuía o "fardo" de não civilizado) e muitas vezes nem nome. As mulheres escravizadas passavam por um processo particular até chegarem nesse estado. Como os responsáveis pela reprodução da classe escravista eram as guerras e o comércio, a mulher perdia a sua principal característica que a diferenciava do homem: a capacidade de procriar. Assim, era igualada ao homem, o que possibilitava uma maior exploração do que aquele (nas sociedades africanas essa dessexualização era muito importante, pois a mulher escrava tinha um valor maior que o homem). À mulher era negada a maternidade. E mesmo quando por ventura a escrava procriasse, a sua condição de mãe ainda lhe era negada, já que seu filho era, antes de mais nada, propriedade do seu senhor. A mulher escrava era dessexualizada, sendo submetida aos mesmos trabalhos e tratos que os homens.

Vemos então que a transformação do cativo para escravo consistia na negação de praticamente todas as prerrogativas que entendemos como humanas. Os escravos não tinham (ou não poderiam ter) nenhuma vontade, muito menos direitos; estavam totalmente à mercê dos seus senhores, não sendo considerados indivíduos ou cidadãos e se assemelhando muito ao status de coisa, de propriedade. Transformados em força de trabalho, os escravos assumiram as mais diversas atividades nas mais diferentes áreas, afirmando o que Meillassoux já havia apontado, que é a possibilidade que o escravo tinha de "transitar" pelas mais diversas condições, permanecendo no seu estado de escravos (Meillassoux, 1986).

Na África escravista, existiam os mais diferentes "tipos" de escravos. Em primeiro lugar nos deparamos com o escravo braçal, que constituía a casta mais baixa deles. Havia também os escravos feudatários, que produziam seu próprio alimento e de seu senhor nas terras deste, numa espécie de "escravidão servil". O escravo que fornecia uma renda em produto, e não mais em trabalho, constituindo uma aparente família que, no entanto, sempre dependia da vontade do senhor eram os escravos meeiros. Encontramos também, os manumissos: uma "classe" de escravos que estava, por alguma razão, isenta de pagar tributos ao seu senhor, mas que mesmo assim não conseguia mudar seu estado de escravo.

Dificilmente o escravo conseguia se desvincular desse "fardo", e carregava a escravidão como uma marca durante toda a sua vida. As alforrias do continente africano não possibilitavam nenhuma liberdade de movimento, pois mesmo depois de libertos os forros continuavam perto do senhor. Havia, também, uma tradição na África que dizia que com o passar do tempo as gerações que fossem surgindo iriam ser livres. Mas tal tradição poucas vezes saia do campo da teoria; as gerações oriundas de escravos, tinham como herança a escravidão, mesmo quando libertos a sua descendência escrava falava mais alto, fato que até hoje podemos ver no continente africano e que é o causador de muitos dos preconceitos que lá existem.

Além da cicatriz que a escravidão era, o caráter alienado do escravo dentro da sociedade que o empregava tornava -o ainda mais suscetível a preconceitos. Todas as suas relações eram mediatizadas pelos seus senhores. O escravo se encontrava completamente alienado na sociedade que o empregava. Sua alienação extrapolava o efeito da exploração dos escravos, tornando uma característica inerente à classe. Podemos constatar essa alienação, juntamente com a diversidade de tarefas que o escravo exercia, quando estudamos a escravidão nas aristocracias africanas. Construindo-se como o antiparente, o estranho da sociedade, o escravo aparecerá nesse contexto como um eficaz elemento de manipulação política e social. Vejamos com isso acontecia.

Nas aristocracias africanas, o poder real nunca surgia sozinho. Para a sua edificação era imprescindível o apoio de aliados; e graças à sua função de "braço direito" do rei, tais aliados gozavam de muitos privilégios, entre os quais o exercício do poder político. Em muitos reinos podemos constatar que o soberano assumia um caráter divino dentro da sociedade, tornando-se uma espécie de semideus. Essa divinização acabava isolando o rei dos demais aristocratas e consequentemente do poder, sendo muitas vezes sujeitado às decisões do conselho aristocrático, e se vendo na necessidade de competir com os aristocratas e com sua corte o poder real. Outro elemento que enfraquecia politicamente a figura do rei era a poligamia. A sua enorme quantidade de filhos criava um sério problema quando se ia discutir a sucessão real. A briga interna - dentre os possíveis sucessores- pelo poder tornava a figura do rei mais vulnerável, já que esse poderia a qualquer momento ser substituído por um dos seus familiares ou até mesmo por inimigos seus.

Em meio à disputa pelo poder, o escravo aparecia como um importante aliado do rei, graças à sua condição de estranho, de não parente. Sendo assim, o escravo se transformava no homem de confiança do rei, uma espécie de barreira protetora contra as famílias nobres rivais. O eunuco aparece como o melhor exemplo: assumindo cargos importantes no reino, esse "tipo de escravo" se torna um importante elemento de distanciamento do rei tanto para com seus rivais como para seus parentes. Havia uma expectativa de lealdade para com os escravos por parte do rei, que acabavam ficando extremamente próximos deste, assumindo muitos cargos. No entanto, mesmo os escravos de corte gozando de uma situação melhor que os demais, nunca deixaram seu lado de escravo. A escravidão persistia sob o reino dos escravos.

Conseguimos observar que mesmo antes da chegada dos europeus no continente africano, a escravidão já tinha certa importância econômica. Além de assumirem as mais diversas atividades, o escravo tinha outra importância que consistia na forma pela qual era obtido e reabastecido. Como já foi dito, muitos Estados africanos viam a guerra como a principal forma de sua subsistência. Em muitas regiões da África essa guerra era premeditada, o que nos mostra que havia toda uma preparação por parte desses reinos, onde muitos possuíam exércitos permanentes para tal atividade. E para podermos compreender melhor como era a escravidão na África e como esta irá se perpetuar para o Novo Mundo, é muito importante sabermos como funcionava sua forma de abastecimento.

Havia guerras que procuravam principalmente os escravos, e outras com fins administrativos (assim como as guerras políticas). As razias, praticadas em toda a África, exigiam tropas pequenas e um armamento relativamente sumário se comparada às guerras. Além disso, ela permitia o livre recrutamento dos participantes que eram os donos do empreendimento, o que acabou ajudando na construção de uma classe guerreira independente do Estado. Por fim, podemos observar o fenômeno do banditismo - que com a instituição do tráfico negreiro, acabou se tornando mais presente em toda a África - praticando o rapto dos cativos por membros da própria comunidade, entre parentes e vizinhos ( o que de certa forma contrariava a escravidão na África), onde ninguém estava a salvo dos mesmos indivíduos que deveriam ser os protetores as comunidade. Esse fenômeno negava qualquer relação social: "O bando era efetivamente um modo de organização sociopolítica específico, que, quando se consolidava, ameaçava a sociedade doméstica e gentílica, não só pelas depredações que cometia, mas também em razão da incompatibilidade de suas estruturas respectiva"(Meillassoux, 1986: 218)

Os bandos não tinham chefes permanentes, No entanto, muitas vezes o bando assumia tarefas de gestação, de administração e proteção, contra o mesmo banditismo que eram oriundos. O banditismo gerou dois efeitos: ou as clãs se organizavam para resistir a ele, ou os guerreiros faziam, dele a base do seu poder.
 


OS CONTATOS PARA A ESCRAVIDÃO MODERNA

Entretanto, com a chegada dos europeus na África, esses modos de obtenção de escravos vão se alterar. Num primeiro momento, o trafico de escravos para a América era vantajoso tanto para os europeus que o realizavam como para as aristocracias que forneciam a matéria prima de tal comércio. Como mostramos nesse capítulo, a África já conhecia a escravidão e essa era de extrema importância para muitos reinos. No entanto, nas regiões africanas, a mulher escrava tinha um valor muito maior que o homem, o que muitas vezes provocava um excesso desse último, que muitas vezes eram sacrificados por não terem para onde ir. 

Pintura representando um mercado de escravos

Com a presença dos europeus, o problema do excesso de escravos homens parecia ter encontrado a solução: os reinos africanos faziam a guerra, escravizavam os perdedores, ficavam com as mulheres (que era o que realmente lhes interessava) e vendiam os homens para os europeus.

No entanto, havia uma diferença básica na concepção de escravidão entre a aristocracia e o comércio. Enquanto a primeira apenas abastecia o mercado (o interno e mais tarde o externo), a segunda se desenvolvia a partir dele, ou seja: os comerciantes precisavam estar sempre com escravos no mercado. Essa necessidade constante de estar sempre renovando o estoque de escravos, fez com que os comerciantes expandissem o escravismo.


Muitas vezes a feitoria reunia a praça-forte e o entreposto
comercial, como é o caso do Castelo de São Jorge da Mina
Num primeiro momento, as aristocracias militares tinham pleno controle sobre as trocas que faziam com os comerciantes, tanto que em muitos reinos havia conflitos entre a aristocracia guerreira que fornecia os escravos e a classe mercantil que os escoava, já que os comerciantes eram submissos ao rei. Na realidade nem os comerciantes europeus tinham domínio sobre essa região, e para continuar comercializando com elas teriam que manter boas relações com a aristocracia. Afinal de contas, os europeus sozinhos jamais dariam conta da demanda de escravos; a aliança com as aristocracias locais era imprescindível para a comercialização de almas.

As trocas entre africanos e europeus consistiam basicamente entre escravos por cavalos e armas de fogo. Esses dois últimos itens contribuíram para o aumento de escravos no continente africano. A África Negra não produzia armas de fogo e não tinha cavalos do porte dos comercializados com os europeus. A inserção dessas duas mercadorias nas sociedades africanas provocaram uma expansão extraordinária do escravismo na África. Com as armas de fogo e cavalos mais rápidos, a presa de escravos eram muito mais fácil, já que ele não tinha como se defender de um fuzil, ou correr mais do que um cavalo. A eficiência e a rapidez com que as guerras passaram a serem feitas aumentou demais o número de escravos disponíveis para o comércio, o que resultou numa baixa de seu preço e de um maior controle dos europeus em torno do comércio escravista.

Somando-se a essa maior facilidade que os europeus encontraram para adentrarem na economia africana, um fato muito importante tem que ser levado em conta. Muitos reinos africanos como Sudão, Kongo, entre outros, se encontravam em plena decadência política, econômica e social, o que resultou numa dominação quase absoluta deles pelos comerciantes europeus. Exemplo claro disso é a aculturação que muitos reinos passam, tornado-se inclusive cristãos. Na verdade o comercio escravista se tornou uma grande bola de neve: quanto mais se comercializava, mais se tinha para comercializar. E tal aumento de escravos e consequentemente seu baixo preço, fizeram com que a escravidão chegasse nas classes baixas da sociedade africana, como por exemplo os camponeses, o que serviu para deteriorar ainda mais a estrutura social dos reinos africanos. O Islã, que durante muito tempo serviu como intermédio entre senhores e escravos ( devido ao seu caráter comercial) perdeu totalmente o seu valor com a chegada do "homem branco" . Os africanos que já conheciam e lidavam com a escravidão, se viram totalmente perdidos quando esta ganhou um caráter extremamente comercial em escala mundial. Durante muitos anos a principal função do oeste africano foi o constante reabastecimento de escravos para as economias mundiais, ficando totalmente à mercê do tráfico atlântico, ao ponto de terem muito mais escravos do que a demanda comercial pedia. Muitos portos se abriram no litoral oeste africano, o que também serviu para a formação de cidades bem urbanizadas e que pouco laços ainda mantinham com a comunidade doméstica

Exportando em larga escala, a sua maior preciosidade, que era sua gente, a África se constituirá durante mais de 500 anos como a maior colônia do mundo, primeiro como feitorias que abasteciam o Novo Mundo com seus escravos, depois como Colônia propriamente dita, no século XIX, durante o chamado Neo colonialismo ou Imperialismo.
 
 

BIBLIOGRAFIA:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Os lusobrasileiros em Angola: constituição do espaço econômico brasileiro no Atlântico Sul 1550-1700. Campinas, 1994

DEVISSE, Jean. "A África nas relações intercontinentais". In: NIANE, D.T (org) História geral da África. Vol. 4 - A África do séc. XII ao séc. XVI. São Paulo, Ática/Unesco, 1988

MEILLASSOUX, Claude. Antropologia da escravidão - o ventre de ferro e dinheiro Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1986

VIDROVITCH, Catherine C. (org). A Descoberta da África. Lisboa, Biblioteca de estudos africanos, 1965