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Revolução de 30 |
| A década de 30 é divisora de águas no Brasil. Podemos assistir claramente durante o período, a remodelação da economia frente às mudanças econômicas mundo afora. É o início da consolidação de uma frente econômica baseada na indústria, que traz consigo a ascenção de um novo grupo social que viria determinar, futuramente, os rumos econômicos de nosso país. Entender, entretanto, a conjuntura que envolve uma mudança tão significativa não é simples e nem poderia ser, pois deve-se associar a esta mudança, uma desconjuntura gradual das forças políticas e o embate historiográfico que tenta compreender e discutir, quais elites ou grupos sociais realmente conseguem exercer algum tipo de influência no Estado. |
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Sob este
aspecto, o livro de Boris Fausto
traz uma nova vertente para a compreensão do período,
pois
promove uma revisão dos conceitos e uma nova análise dos
fatos que se sucederam anteriormente à Revolução
de
30 e consequentemente o desenvolver da mesma.
Uma Nova Análise
A partir desse argumento, Fausto também defende que a influência das elites industriais paulistanas era restrita à época, pois estas não possuíam tamanha força e coesão capaz de promover um arranjo revolucionário que visasse desbancar a elite agrária. Muito pelo contrário.
| Analisemos
o que o autor diz a respeito das indústrias na década
de 20: " a indústria se caracteriza nesta época, pela
dependência do setor agrário exportador, pela
insignificância
dos ramos básicos, pela baixa capitalização, pelo
grau incipiente de concentração." Fausto cita ainda,
que
a agricultura exportadora era de muita expressão na economia
brasileira
anteriormente à Revolução bem como depois. Mesmo
no começo da década de 40 o setor primário de
produção era a base de sobrevivência de 65,1% da
população.
" Do ponto de vista da estrutura social, se abandonarmos a imensa
maioria
de pequenos empresários, cujas atividades se assemelhavam muitas
vezes às de um simples artesão, o setor que pode ser
definido
como burguês industrial, constituía uma faixa restrita do
ponto de vista numérico mas significativo, capaz de expressar na
esfera política, seus interesses específicos, junto aos
centros
de decisão. Entretanto, seus limites se revelam no alcance das
reivindicações:
se executarmos as propostas de Serzedelo Correia e Amaro Cavalcanti,
que
aliás, não podem ser considerados representantes
políticos
da burguesia industrial, esta não oferece qualquer programa
industrialista,
como alternativa a um sistema cujo eixo é constituído
pelos
interesses cafeeiros." |
![]() Postais das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro anteriores a década de 40 |
E os
militares? Ao
longo dos anos 20, formou-se uma corrente de caráter mais
progressista
no Exército brasileiro, formada por jovens oficiais que visavam,
num desejo nacionalista, resgatar o país da República
Velha
e das estruturas oligárquicas. À importância desse
movimento,
chamado "Tenentismo" , Fausto dará sua
contribuição,
afirmando que para cumprir seu objetivo tentou várias
alianças.
Uma delas foi nos anos 20, com a pequena-burguesia da época (especialmente no movimento revolucionário de São Paulo, em 1924), que não vingou, mas trouxe à tona algumas proximidades de interesses entre as classes, como a defesa do voto secreto, das liberdades individuais e o nacionalismo difuso. O correto é o sentido que estas ações tenentistas assumem depois de 30, bem como sua posterior relação com a burguesia.
Ao mesmo tempo que valoriza o papel dos militares no processo, Fausto desmistifica a representação das classes médias na Revolução. Seu surgimento como setor detentor de poder na classe governamental, em seu alto escalão, é muito posterior a 30. " No contexto da sociedade Latino Americana, este momento é uma possibilidade histórica definitivamente liquidada." Em nenhum momento de seus argumentos aparece a evidente intenção de apoio aos revolucionários de 30 por parte da burguesia industrial: o que o autor observa são manifestos que evidenciam o apoio a chapa formada por Júlio Prestes, candidato da chapa governista.
consequências da Revolução de 30. Esta foto mostra um grupo de soldados que lutaram durante este movimento |
O golpe da revolução foi tão forte que até o jogo de forças políticas mudou. Nos anos posteriores à adoção do novo regime, as classes médias não possuíam autonomia frente aos interesses tradicionais em geral e nem a elite cafeeira conseguia se reestruturar politicamente, devido à derrota de 32 em São Paulo e à depressão econômica que se arrastava por vários anos. Aqueles que controlam o governo já não representam de modo direto os grupos sociais que exerciam sua hegemonia sobre alguns setores básicos da economia e sociedade, estabelecendo, o que Fausto declara como um Estado de Compromisso. |
| Especificado
da melhor forma
possível, pela idéia anteriormente citada, em que a
ausência
de predomínio entre uma classe e outra gera uma
situação
em que o Estado se torna o intermediador destas. A margem do
compromisso
básico fica a classe operária, pois o estabelecimento de
novas relações com a classe não significa qualquer
concessão política apreciável.
Como um todo, Boris Fausto
demonstra que
a Revolução de 30 foi o ápice da decadência
e fim da hegemonia cafeeira, mas sem a sua substituição
por
uma suposta classe média ou industrial. O que fica claro
é
que o fim da elite agrária possui seus enlaces na própria
forma de inserção do Brasil no sistema capitalista
internacional.
O que se observa é uma complementaridade entre os dois setores,
mesmo que com suas respectivas diferenças. Com o vazio que se
abre
no poder, devido à falta de coesão das classes
médias,
sua baixa representatividade e aliado à decadência da
hegemonia
cafeeira, o que se observa é a fundamentação deste
Estado de Compromisso.
|
![]() que serviu durante a luta armada de 32 |
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Como encerra o autor, A mudança das relações entre o poder estatal e a classe operária é a condição do populismo; a perda do comando político pelo centro dominante, associada à nova forma de Estado, possibilita, a longo prazo, o desenvolvimento industrial, no marco do compromisso como sustentáculo de um Estado que ganha a maior autonomia, em relação ao conjunto da sociedade. Trata-se de uma obra que mudou a forma de ver as transformações políticas surgidas no Brasil dos anos 30, e que nunca perde sua atualidade exatamente por propor um modelo de interpretação diferente sobre tal fenômeno complexo. É em A Revolução de 1930 que o peso dos diversos setores sociais será medido pela primeira vez na formação de um novo sistema de governo, originando um Estado que, diferentemente da República Velha, vai buscar sua legitimidade nas classe médias e populares ainda em formação, e não nas oligárquicas. E esta é a grande descoberta de Boris Fausto em seu pequeno mas importante livro para o entendimento do Brasil contemporâneo e suas estruturas. |
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| A Revolução de 1930,
de Boris Fausto |
História do Brasil, de Boris Fausto |
Fazer a América, de Boris Fausto |
O pensamento nacionalista autoritário, de Boris Fausto |